Com Bolsonaro afastado, indicação dos filhos ao Senado enfrenta resistência

Aliados resistem em acatar indicação de Flávio e Eduardo

Bruno Ribeiro
Ana Luiza Albuquerque
Folha

A primeira decisão política tomada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sem aval público do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), enfrenta resistências da direita.

Aliados do ex-presidente criticam a escolha do presidente da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), André do Prado (PL), para o Senado em São Paulo, feita por Eduardo com a concordância de Flávio. O argumento principal é de que André não pertenceria ao grupo político —seria um integrante do centrão.

SEM JUSTIFICATIVA – Um membro do grupo disse à reportagem, sob reserva, que não há nada que explique a indicação do deputado estadual para a chapa e que, portanto, não há uma justificativa plausível para se apresentar ao eleitor.

Bolsonaro já havia externado, segundo aliados, que, caso Eduardo não pudesse disputar o cargo, seu indicado seria o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL). Eduardo, contudo, atendendo a pedidos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de Tarcísio de Freitas (Republicanos), optou por André.

Enquanto esteve detido na unidade conhecida como Papudinha, em Brasília, Bolsonaro vinha sendo procurado por aliados para dar aval a candidaturas estaduais e resolver conflitos internos no bolsonarismo. Em fevereiro, levantamento da Folha mostrou que, no período de um mês, o STF (Supremo Tribunal Federal) havia recebido 25 pedidos de visitas de políticos interessados na chancela a suas candidaturas.

FORA DAS ARTICULAÇÕES – Desde que passou para a prisão domiciliar, no fim de março, o ex-presidente está impedido de receber visitas, com exceções dos filhos, de advogados e de médicos. Na última terça (12), Prado disse, durante um evento em São Paulo sobre segurança pública promovido por Tarcísio, que ele foi escolhido “pelo Eduardo Bolsonaro, pelo Flávio Bolsonaro, pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo Partido Liberal”.

“No dia a dia, essas pessoas [que criticam] vão me conhecer e vão saber por que o Eduardo me escolheu, o que eu agrego para a campanha do Flávio Bolsonaro em São Paulo”, disse o deputado estadual, afirmando ainda que é uma pessoa “leal”.

“Jamais o Eduardo, juntamente com Flávio, faria um anúncio de apoio à minha candidatura se não tivesse o aval do presidente Bolsonaro. Estou muito tranquilo em relação a esse apoio”, completou André, reconhecendo, porém, que o nome preferido do ex-presidente era o de Mello Araújo. À Folha o vice-prefeito paulistano disse: “Se o Tarcísio gosta tanto do André do Prado, por que não o levou para ser vice, que seria o certo?”

PEDIDO NEGADO – Mello Araújo afirmou que não fez lobby por sua candidatura ao Senado nem mantém contato com os filhos do ex-presidente, mas que tentou marcar uma visita a Bolsonaro para o próximo dia 18, o que foi negado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Como não renunciou ao cargo dentro do prazo, o vice-prefeito não pode mais se candidatar neste ano.

“O PL tem um papel importante [na eleição], deveria sim ser protagonista [em São Paulo], e ficou de fora. E aí o Tarcísio, para amenizar, começou a fazer campanha para André do Prado para ser senador”, disse Mello Araújo.

O deputado federal Ricardo Salles (Novo), que também pretende concorrer ao Senado por São Paulo, deve disputar os votos do eleitorado da direita contra André e o também deputado federal Guilherme Derrite (PP). No último fim de semana, Salles insinuou que a indicação foi fruto de um acordo financeiro.

“FILHOTE DO VALDEMAR” – Em uma publicação no X (ex-Twitter) no sábado (9), disse que, caso tirassem da chapa “o filhote do Valdemar” —em referência à aliança entre André e o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto—, ele retiraria sua candidatura. “Se fizer isso, abro mão na hora. Se não fizer, é porque realmente não querem devolver a grana do tal acordo com o centrão.” A Folha procurou o deputado para perguntar sobre a publicação, mas ele não quis dar detalhes.

No evento desta terça, André respondeu: “O Salles tem que saber que eu fui escolhido do grupo bolsonarista”. Valdemar foi procurado via WhatsApp, mas não respondeu. Eduardo publicou um vídeo no YouTube em resposta, com o título: “Aqui não, Salles”. “Ele [Salles] começou partindo para calúnia, dizendo que eu sou bandido, que eu sou corrupto, que eu estou aceitando dinheiro em troca do voto, de indicar as pessoas votarem no André do Prado.”

MOTIVOS DA INDICAÇÃO – Aliados de Tarcísio, sob reserva, citam três fatores que levaram o governador a trabalhar pela indicação de André: a lealdade demonstrada pelo presidente da Alesp até o momento, o passado de atritos entre o governador e Mello Araújo —que já fez uma série de críticas públicas a seu trabalho— e a perda de esperança na vitória de Derrite.

A reportagem procurou Tarcísio via email ao Palácio dos Bandeirantes, mas não teve resposta. No fim da semana passada, após confirmar a escolha de André, em entrevista à rádio Jovem Pan, ele disse que o presidente da Alesp seria o candidato mais votado ao Senado. “Ele é muito agregador. Vai ter os votos da direita, vai mobilizar os votos do centro”, afirmou. A Folha procurou a equipe de Flávio para tratar da indicação de André, mas não teve resposta.

Tarcísio reagiu com desconforto ao caso Vorcaro e questionou condução da crise bolsonarista

O “Zero Um” na linha de fogo: escândalo com Vorcaro ameaça afundar candidatura

Lei da Dosimetria já se transformou em símbolo da batalha por poder em Brasília

Charge dp Gilmar Fraga (Zero Hora)

William Waack
CNN

Quando foi aprovada, no fim do ano passado, a dosimetria surgiu como um compromisso político para evitar um confronto ainda maior entre Judiciário, que não iria deixar passar uma anistia, e um Congresso com clara maioria para aliviar de alguma maneira a situação dos condenados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por conta da trama golpista.

De lá para cá, com vetos e derrubada de vetos, o confronto só piorou e está escalando com a decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes de suspender a Lei da Dosimetria aprovada no Congresso. O confronto entre Judiciário e Legislativo vai piorando, pois a natureza dele não é simplesmente técnica ou baseada na interpretação de normas da Constituição ou no entendimento do regimento interno do Congresso, embora também seja.

DISPUTA DE PODER – Ela é uma disputa de poder entre um Parlamento que se vê ainda mais empoderado diante da perspectiva de aumentar a proporção de centro-direita nas próximas eleições, e nem estamos falando do resultado das presidenciais. E um Supremo cujos supremos poderes estão sendo erodidos por pressão política-pública, que é resultado em boa medida do comportamento político e pessoal de integrantes da própria Suprema Corte.

E aí não importa o que sejam as justificativas jurídicas para a decisão de Moraes, nem o que o Congresso possa apontar de falhas nelas para se propor a peitar o juiz Alexandre de Moraes. O Supremo encara seu papel como o supremo poder – e, se necessário for, impondo limites aos outros, especialmente o Legislativo, que está claramente disposto a devolver na mesma moeda.

Documentos apontam Eduardo como produtor-executivo e gestor financeiro de “Dark Horse”

Contrato liga Eduardo Bolsonaro a filme

Deu na Folha

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atuou como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e assinou um contrato com poderes sobre a gestão financeira do projeto, de acordo com o site The Intercept Brasil. Os documentos obtidos contradizem declarações públicas de Eduardo de que ele teria apenas cedido direitos de imagem, sem exercer nenhum cargo de gestão na produção.

Segundo o Intercept, o contrato, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo em 30 de janeiro de 2024, designa ele e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) como produtores-executivos, ao lado da produtora GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos. A função conferiria poder para lidar diretamente com o controle de orçamento e a gestão financeira de um projeto audiovisual.

RESPONSABILIDADE – Ainda de acordo com o site, os produtores-executivos teriam responsabilidade sobre decisões estratégicas de financiamento, preparação de documentação para investidores e identificação de fontes de recursos para o filme —que, na época, se chamava “O Capitão do Povo”.

Também haveria uma minuta de aditivo contratual, datada de fevereiro de 2024, citando Eduardo como “financiador” da produção. O Intercept ressalva que não há confirmação de que o aditivo tenha sido, de fato, assinado. Procurado pela Folha, Eduardo não se manifestou até a publicação deste texto.

Em entrevista à CNN na tarde desta sexta (15), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que o contrato mostrado pelo Intercept é antigo e que Eduardo publicaria um vídeo para explicar a situação. Segundo o senador, seu irmão nunca fez a gestão dos recursos do filme.

REPASSE – Na quarta-feira (13), o Intercept revelou que Flávio articulou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o repasse de R$ 134 milhões para financiar a produção, dos quais R$ 61 milhões já foram pagos. Um áudio de setembro de 2025 mostra o senador cobrando mais recursos ao banqueiro. Flávio confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro para o filme, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens em troca.

Nesta sexta, o Intercept também publicou mensagens em que Eduardo orienta o empresário Thiago Miranda, intermediário entre Vorcaro e a família Bolsonaro, sobre como enviar recursos aos Estados Unidos. “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo”, teria dito Eduardo. Em outra mensagem, sugere: “Enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual”.

As mensagens indicam que parte dos valores negociados por Flávio com Vorcaro foi transferida ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas (EUA) e controlado por aliados de Eduardo —entre eles Paulo Calixto, advogado responsável pelo processo imigratório do ex-deputado nos Estados Unidos.

DESPESAS NOS EUA – A Polícia Federal apura se o dinheiro de Vorcaro para o filme teria custeado despesas de Eduardo nos EUA, para onde ele se mudou em fevereiro de 2025 alegando perseguição do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

Em postagem em redes sociais na quinta (14), Eduardo negou ter recebido recursos do fundo e afirmou que a suspeita “não se sustenta e é tosca”. Disse ainda que seu status migratório nos EUA não permitiria tal operação. Já Mario Frias informou ao Intercept que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo” do filme.

O orçamento total da produção, segundo documentos obtidos pelo site, está estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões —valor que condiz montante que Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro: US$ 24 milhões.

O caso Vorcaro abre o baú de esqueletos da sucessão bolsonarista

PF investiga elo entre recursos do filme de Bolsonaro e estadia de Eduardo nos EUA

“Merecia o benefício da dúvida”: Flávio tenta conter desgaste após ataque de Zema

Crise de Flávio Bolsonaro transforma CPI do Master em nova guerra política no Congresso

Aliados de Alcolumbre descartam destravar comissão

Luísa Marzullo
O Globo

A crise provocada pela revelação das negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro uniu governistas e oposicionistas no Congresso na defesa pública da criação de uma CPI para investigar o Banco Master.

Nos bastidores do Senado, porém, aliados do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmam que a ofensiva é vista mais como instrumento de disputa política e comunicação pública do que como uma articulação real para instalar uma comissão investigativa e, por isso, descartam destratar a criação do colegiado.

NEGOCIAÇÕES – A nova onda de pressão ocorre após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens, áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, a negociação previa aportes de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para a produção cinematográfica.

Depois da repercussão do caso, Flávio decidiu transformar a defesa da CPI numa das principais linhas de reação política da pré-campanha presidencial. Em nota divulgada após uma reunião de emergência com integrantes do núcleo político e jurídico do PL, o senador afirmou que buscava apenas “patrocínio privado para um filme privado” sobre a história do pai e voltou a cobrar a instalação da comissão parlamentar. “Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero: CPI do Master já”, afirmou.

Nos bastidores da campanha, a avaliação é que a defesa da investigação parlamentar pode ajudar Flávio a tentar se dissociar politicamente do escândalo e deslocar parte do desgaste para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No campo governista, a reação caminhou na mesma direção, ainda que com objetivo oposto.

“BOLSO MASTER” – Integrantes da base passaram a intensificar a tentativa de associar o escândalo do Banco Master ao bolsonarismo, numa ofensiva apelidada de “Bolso Master”. O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) afirmou que o caso reforçou a necessidade de instalação imediata da comissão. “Agora está claro o acordão no Congresso para aliviar corruptos do Centrão e da extrema-direita”, disse.

Apesar do endurecimento do discurso público dos dois lados, lideranças do Congresso avaliam que o tema se transformou sobretudo numa disputa sobre quem ficará politicamente associado ao escândalo do Banco Master às vésperas da corrida presidencial de 2026.

A resistência de Alcolumbre em relação à CPI do Banco Master antecede a crise envolvendo Flávio Bolsonaro e segue, até agora, inalterada. Na última sessão conjunta do Congresso, realizada há duas semanas, o presidente da Casa optou por não fazer a leitura do requerimento de criação da comissão, passo necessário para oficializar a instalação do colegiado.

TENSÃO – Nos bastidores, a decisão foi interpretada como um movimento para evitar a abertura de uma nova frente de instabilidade política num momento em que o Congresso já enfrentava tensão com o avanço de investigações relacionadas ao sistema financeiro. Na semana seguinte, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), aliado de primeira hora de Alcolumbre, se tornou alvo de um mandado de busca e apreensão, esfriando ainda mais qualquer chance de instalação.

Ao não ler o requerimento, Alcolumbre criou também um precedente político importante: mostrou que, mesmo diante de pressão pública e de assinaturas suficientes, a instalação de uma CPI pode continuar dependendo da conveniência política da presidência do Congresso.

Segundo interlocutores próximos ao senador, o cenário permanece o mesmo mesmo após a explosão do caso envolvendo Flávio e Vorcaro. Aliados afirmam que não existe previsão de nova sessão conjunta do Congresso no curto prazo e tampouco disposição política de Alcolumbre para destravar a comissão neste momento.

DESGASTE – Esses aliados afirmam que há receio de que uma CPI do Master produza desgaste transversal sobre lideranças do Centrão, contaminando as eleições deste ano. A avaliação no entorno do presidente do Senado é que tanto governistas quanto oposicionistas passaram a defender a CPI mais como ferramenta de discurso político do que como prioridade institucional real.

Interlocutores afirmam que nenhum senador procurou diretamente Alcolumbre nas últimas 24 horas para fazer um pedido efetivo de instalação da comissão, apesar da escalada pública das cobranças após a divulgação da reportagem do Intercept.

Aliados do presidente do Congresso também lembram que, nas semanas anteriores, a própria oposição havia concordado reservadamente em não pressionar pela leitura imediata do requerimento durante negociações internas no Senado. Houve um acordo para que o veto da dosimetria aos envolvidos no 8 de janeiro de 2023 pudesse ser votado sem a deliberação do colegiado.

Bolsonaro dobra a aposta em Flávio mesmo diante de revelações envolvendo Vorcaro

Partidos torram bilhões do Fundão e entram no vermelho às vésperas de nova eleição

Um em cada cinco brasileiros diz já ter recebido oferta para vender o voto

Charge do Bennett (Instagram)

Maria Magnabosco
Estadão

Um em cada cinco brasileiros (22%) afirma já ter recebido oferta para vender o voto em alguma eleição, segundo pesquisa Ipsos-Ipec realizada em conjunto com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e divulgada nesta semana.

O levantamento faz parte da campanha “Voto não tem preço, tem consequências” e mostrou que a maioria dos entrevistados, ou seja, 62% da população, não se sente segura para denunciar o crime eleitoral, tampouco sabe como fazê-lo.

COMPRA DE VOTOS – A pesquisa mostra que três quartos da população consideram a oferta de dinheiro uma forma de compra de votos. Segundo a socióloga Adélia Franceschini, consultora do levantamento, porém, essa não é a única maneira de abordar os eleitores. “Há muitas outras formas de compra de voto que não chegam nem a 30%, como oferecer consultas médicas, facilitar o acesso a benefícios sociais, oferecer churrasco ou festa, entre outras”, explica.

“Temos dois problemas: um é a compra de votos em si, porque 22% já é muita gente. O outro é que cerca de 70% não entendem muitas moedas de troca como compra de voto, mas sim como um ‘favorzinho’”, afirma a socióloga.

A pesquisa também mostra que candidatos a cargos municipais são os que mais motivam tentativas de coação de eleitores. Os vereadores correspondem a 59% dos relatos de pessoas que afirmam já terem sido abordadas por candidatos ou cabos eleitorais com esse tipo de proposta. Os prefeitos aparecem em seguida, com 43%. Além disso, mesmo entre os que não foram diretamente abordados para vender o voto, 39% relatam que essa prática ocorre “sempre” onde moram. A soma dos que dizem que isso acontece “frequentemente” ou “às vezes” chega a 30%.

MAIOR INCIDÊNCIA – O levantamento mostra que o Nordeste é a região com maior incidência de entrevistados que apontaram ter recebido abordagens para vender o voto: 32%, dez pontos a mais que a média nacional e bem acima dos 18% do Sudeste, a mais populosa do país.

“Quanto menor a cidade, mais compra de votos. Mais gente depende de emprego na prefeitura, por exemplo. O dinheiro também é mais ‘útil’, ao permitir mais facilmente a satisfação de necessidades. Já nas cidades maiores, as cestas básicas são mais ‘práticas’ para os candidatos”, diz o cofundador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, Chico Whitaker.

COMO DENUNCIAR –  Um dos objetivos da campanha do MCCE é incentivar denúncias de compra de votos ao Ministério Público e à Justiça Eleitoral. A pesquisa mostra, porém, que 62% dos brasileiros não sabem como denunciar o crime, enquanto 52% afirmam não se sentir seguros para fazer a denúncia.

A compra de votos, chamada pela legislação de “captação ilícita de sufrágio”, pode ser denunciada por meio do aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral e do Ministério Público, além de delegacias, promotorias, e-mails e ouvidorias. O crime inclui oferecer dinheiro, benefícios ou vantagens em troca de votos e pode levar a até quatro anos de prisão.

A pesquisa foi feita pelo Ipsos-Ipec entre 4 e 8 de dezembro do ano passado, com 2000 entrevistas em 131 municípios. O nível de confiança utilizado é de 95%. A margem de erro para as perguntas que englobam toda a amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

PL já admite risco de Eduardo Bolsonaro ficar fora das urnas após ação no STF

Copa de 1970 tem muitas narrativas e há versões que nada têm de realidade

Entenda o papel de Neymar na contratação de Ancelotti

Carlo Ancelotti enfim está admitindo convocar Neymar

Tostão
Folha

Na lista final dos convocados para a Copa do Mundo, Ancelotti ainda deve ter algumas dúvidas, especialmente do meio para frente, com quatro jogadores (Andrey, Paquetá, Rayan e Neymar) para duas vagas. A polarização sobre Neymar, se ele deve ou não ir ao Mundial, está tão radical quanto à da política brasileira.

Carlo Ancelotti será o juiz e espero que tenha sabedoria para decidir. Ou a melhor solução seria jogar a moeda para cima e ver se dá cara ou coroa?

MUITA TENSÃO – Os jogadores que ainda não estão certos na Copa certamente estão tensos. Nos dois Mundiais em que atuei, 1966 e 1970, corri risco de ficar de fora por motivos diferentes. Em 1966, foram convocados 44 jogadores e apenas 22 estariam na Inglaterra.

Alguns foram cortados durante treinos e amistosos. Passamos 20 dias na Suécia e a lista final só ia sair dias antes da ida para a Inglaterra. Eu tinha 19 anos, era reserva de Pelé, e havia outros concorrentes.

Na véspera do anúncio dos 22 que iriam para o Mundial, encontrei no hall do hotel o supervisor Carlos Nascimento, um homem austero e de poucas palavras. Eu, por distração, convicção ou prepotência, perguntei a ele sobre o horário da viagem para a Inglaterra. Ele me olhou duramente e não disse nada. Não dormi, com medo de ser cortado por causa da gafe cometida. No outro dia, felizmente, estava na lista para a Copa.

MAIS PROBLEMAS – Em 1970, corri risco de não ir ao Mundial porque tinha sido operado de descolamento da retina e teria de ficar seis meses em completo repouso. Havia uma discussão nacional se eu poderia ou não jogar a Copa. Eu tinha sido artilheiro das Eliminatórias.

Fui convocado por João Saldanha, mas só me apresentei depois dos outros jogadores e fazia treinamento separado. Com a liberação médica, demonstrei que tinha condições de jogar.

Faltava convencer Zagallo de que eu deveria ser o titular, ao lado de Pelé. O time do Mundial foi escalado após um jogo-treino em Guanajuato, no México.

TIME ESCALADO – Pela primeira vez, Zagallo escalou o time com o volante Piazza de zagueiro, o meia Rivellino mais recuado e pela esquerda, formando um trio no meio-campo com Gerson e Clodoaldo, e eu de centroavante, ao lado de Pelé e Jairzinho.

Quando acabou o jogo-treino, Zagallo entrou no campo todo sorridente e disse, pelo olhar, que aquele time seria o da Copa.

A história, com o tempo, é contada de maneiras diferentes. Muitas pessoas deturpam a realidade e narram as coisas como elas gostariam que tivessem ocorrido. As versões costumam ser mais interessantes que as verdades.

MUITOS CRAQUES – A seleção brasileira de 70 encantou o mundo porque tinha muitos craques, era muito coletiva, organizada, equilibrada, com um trio no meio-campo e outro no ataque. Era uma equipe revolucionária para a época, pois marcava e atacava com muitos jogadores.

Porém, o que mais se diz e se repete é que era uma seleção extremamente ousada, ofensiva, que tinha cinco meias-atacantes (camisas 10) e que os jogadores tinham liberdade para fazer em campo o que queriam.

Logo após o título, mesmo os ativistas políticos que diziam que não iriam torcer pela seleção por causa da nefasta ditadura, e até os corruptos que roubavam dinheiro público, saíram pelas ruas comemorando, enrolados na bandeira nacional.

Áudio de Flávio Bolsonaro provoca terremoto político na direita e alivia Lula

Lula prepara retaliação silenciosa contra aliados do centrão após derrotas no Congresso

Investigação revela grupo hacker usado por Daniel Vorcaro para espionagem e ataques digitais

Filme sobre Bolsonaro custaria quase cinco vezes mais que “O Agente Secreto”

Repasses foram interrompidos após a prisão de Vorcaro

Filipe Vidon
O Globo

O montante transferido pelo banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do longa-metragem “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, já ultrapassa o orçamento de dois dos maiores sucessos recentes do cinema brasileiro.

Segundo a coluna da jornalista Malu Gaspar, Vorcaro repassou R$ 62 milhões entre fevereiro e maio de 2025, valor que supera os R$ 28 milhões gastos em “O Agente Secreto” e os R$ 45 milhões de “Ainda Estou Aqui”, filme premiado no Oscar. O caso foi revelado nesta quarta-feira pelo The Intercept Brasil e confirmado pelo O Globo.

REPASSES – O acordo teria sido intermediado pelo publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi, que confirmou ter apresentado o projeto ao banqueiro a pedido do deputado federal Mário Frias (PL-SP). De acordo com Miranda, o total originalmente previsto era de R$ 134 milhões (o equivalente a quase cinco vezes o custo de O Agente Secreto), mas os repasses foram interrompidos após a prisão de Vorcaro e os escândalos de fraude envolvendo o Banco Master.

No caso de Agente Secreto, longa estrelado por Wagner Moura, o valor total da produção foi dividido entre Brasil, França, Alemanha e Holanda. Segundo dados da Ancine, a fatia brasileira foi de R$ 13,5 milhões, divididos em R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), fundo ligado ao Ministério da Cultura e operacionalizado pelo BNDES, e a diferença vêm da iniciativa privada.

Além disso, a comercialização do filme custou R$ 4 milhões, sendo R$ 750 mil do FSA. Outros R$ 3 milhões para comercialização foram bancados por meio da Lei do Audiovisual, que permite a pessoas físicas e jurídicas destinarem parte do Imposto de Renda a obras audiovisuais, selecionadas pela Ancine, por meio de patrocínio.

DISPARIDADE – A disparidade fica ainda mais evidente quando comparada a produções estrangeiras da última temporada do Oscar que custaram menos do que o valor repassado por Vorcaro. “Sonhos de Trem”, produção original da Netflix dirigida por Clint Bentley e estrelada por Joel Edgerton, Felicity Jones e William H. Macy, foi filmado por US$ 10 milhões. O norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, concorreu diretamente com O Agente Secreto na disputa por melhor filme internacional com orçamento de US$ 7,8 milhões.

Para efeito de comparação, “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou o prêmio de melhor direção e melhor ator (Wagner Moura) no Festival de Cannes, além de indicações ao Oscar. “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, levou o Oscar de melhor filme internacional e o Globo de Ouro de melhor atriz para Fernanda Torres.

“Dark Horse” é dirigido por Cyrus Nowrasteh e tem Jim Caviezel, conhecido pelo papel de Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, no papel de Jair Bolsonaro. O filme acompanha os bastidores da campanha presidencial de 2018, incluindo o atentado sofrido pelo então candidato em Juiz de Fora, Minas Gerais. A estreia era prevista para setembro de 2026, antes da eleição para o Planalto.

O CASO –  A reportagem do Intercept reproduz mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro e o empresário, além de registros de transferências financeiras. Entre os documentos divulgados está um áudio enviado por Flávio Bolsonaro a Vorcaro na véspera da primeira prisão do banqueiro, no dia 16 de novembro, cobrando repasses em atraso. Em nota, o senador confirmou os contatos, mas afirmou ter conhecido Vorcaro apenas em dezembro de 2024, após o encerramento do governo de seu pai, e classificou o aporte como financiamento privado.

A cobrança dos recursos feita por Flávio Bolsonaro ocorreu em 8 de setembro de 2025 no momento em que os envolvidos na produção tinham dificuldades para honrar compromissos da montagem. “Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”, diz o senador, em áudio enviado ao banqueiro.

ESQUEMA DE FRAUDES – Outro contato também foi feito dois meses depois, um dia antes de Vorcaro ser preso pela primeira vez na Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes bilionárias, corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, diz Flávio.

Segundo Miranda, o projeto chegou até ele por meio de Frias, que relatou dificuldades para captar recursos para a produção. O publicitário disse ter apresentado a proposta a Vorcaro, que teria concordado em entrar não como patrocinador, mas como investidor, com perspectiva de retorno financeiro após o lançamento.

O mesmo intermediário afirmou que a participação do banqueiro foi deliberadamente mantida fora do conhecimento público. Após a interrupção dos aportes, Frias teria captado novos investidores para concluir as filmagens, cujas identidades Miranda disse desconhecer.

Justiça Federal retém ação popular que requer a proibição da jogatina nas bets

Charges: Entra no ar hoje o maior sistema de pilantragem que uma nação pode  adotar!

Charge do Genildo (Arquivo Google)

Carlos Newton

Uma ação popular protocolada na 18ª Vara Federal Cível do Distrito Federal há 45 dias poderá ser transferida para a Justiça Federal de São Paulo pelo fato de até hoje o processo não ter recebido nenhum despacho ou decisão por parte do juiz titular, que alega excesso de pendências em tramitação sob sua responsabilidade.

Segundo entendimento jurisprudencial, o autor da ação popular pode requerer a transferência do processo popular contra a União para outra unidade jurisdicional da Federação, antes da citação do réu.

JOGO LIBERADO – A transferência será proposta pelo advogado e jornalista Afanasio Jazadji, ex-deputado paulista, que ajuizou a ação popular contra a União por conta da autorização dada para a operação de jogo de azar no Brasil.

Os gestores das bets alegam que se trata de uma forma de diversão popular. Com isso, estão captando mensalmente bilhões de reais de apostadores que não estão jogando com responsabilidade e nem se divertindo. Inclusive, muitos usam o dinheiro do Bolsa Família, que deveria ser destinado a alimentar pessoas carentes.

O atraso no andamento da ação popular já foi comunicado à presidência do Tribunal Regional Federal do

DIZ O PEDIDO – A manifestação do advogado Luiz Nogueira, encaminhada à desembargadora federal Maria do Carmo Cardoso, presidente do Tribunal Regional Federal da 1a. Região, diz que as bets têm sido incentivadas por “intensa e duvidosa propaganda, por meio de emissoras de televisão, serviço público, com fulcro na liberalizante Portaria SPA no.1231/2024”.

Assinala que “mensalmente, as bets  têm retirado de circulação cerca de R$ 20 bilhões, dinheiro reservado para gastos com supermercados, remédios, pagamento de taxas de água, luz e crescente endividamento de milhões de famílias”.

Em revela que cerca de 25 milhões de brasileiros estão apostando via sites de apostas, cujos controladores são de origem estrangeira, em sua maioria.

PROVIDÊNCIAS – Diante do atraso no exame da questão, o advogado Luiz Nogueira requer ”providências para sensibilizar o juiz da 18ª Vara Federal Cível do DF, Arthur Pinheiro Chaves, a proferir despacho de citação ou decisão cautelar de urgência, como seguidamente reiterado nas últimas semanas no feito acima”.

Desde a apresentação do processo, 45 dias já se passaram e nenhum andamento verificou-se no citado processo. “A explicação para essa preocupante morosidade é a sobrecarga de trabalho decorrente de a 18ª Vara só contar com a atuação de um único magistrado”.

TRANSFERÊNCIA – “Se assim é e como a ação popular tem como ré a União, nada impede que o feito seja transferido para a unidade jurisdicional da residência do Autor, ou seja, o Tribunal Regional Federal de São Paulo – 3ª. Região”, afirma Luiz Nogueira, argumentando que ainda nem houve citação dos réus. E acentua:

“Há alguns meses, o conceituado jornal “O Estado de S. Paulo” publicou artigo do professor e médico psiquiatra da Faculdade de Medicina da USP, doutor Rodolfo Damiano, salientando que ‘o que começou como entretenimento legalizou-se como tragédia Sanitária’. Em menos de dois anos, desde a regulamentação pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, assistimos a um experimento social em tempo real – e os resultados são alarmantes”.

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P.S.
O assunto é extremamente grave, porque as bets aumentaram de forma expressiva o endividamento dos brasileiros, que está batendo recordes históricos em 2026, e cerca de 80,9% das famílias relataram dívidas em abril. Justamente por isso, é preciso acabar logo com as bets. (C.N.)

Áudio sobre filme de Bolsonaro provoca caos e crise no núcleo da campanha de Flávio