Justiça ainda precisa obrigar órgãos públicos a serem transparentes

Charge do Nani (Nani Humor)

Maria Vitória Ramos
Bruno Morassutti
Folha

No último mês, a 8ª Vara Cível de Brasília determinou que a Embratur divulgue de forma nominal e individualizada as remunerações de seus funcionários, diretores e conselheiros. A entidade, que administra recursos públicos, precisou de uma ordem judicial para fazer o que a Lei de Acesso à Informação (LAI) já manda.

A decisão responde a uma ação civil pública da Fiquem Sabendo e repete um roteiro conhecido. Por mais óbvio que pareça a qualquer cidadão, muitas carreiras ainda lutam pela opacidade de seus contracheques. A divulgação atenderia a “mera curiosidade”; a ocultação protegeria os quadros de “investidas” do setor privado; a intimidade das pessoas estaria ameaçada. No fundo, persiste a ideia de que prestar contas é opcional.

DENÚNCIAS – Por isso nos vemos obrigados, de forma rotineira, a apresentar denúncias e ações para forçar entidades a cumprir a lei. No caso da Embratur, o juiz Leandro Borges de Figueiredo concedeu tutela de evidência e deu 30 dias para a publicação, por entender que a pretensão se volta “à concretização dos princípios da publicidade, da transparência e da prestação de contas na administração de recursos públicos”.

O mesmo enredo se repete na Apex-Brasil, agência de promoção de exportações que, como a Embratur, é um serviço social autônomo estruturado em recursos públicos. Movemos ação idêntica e, em março, a Justiça também mandou a agência abrir os dados. A entidade alega já divulgar seus dados de pessoal, mas só publica faixas salariais por cargo, sem nomes nem valores. Em 2020, reportagem da coluna de Lúcio Vaz, na Gazeta do Povo, mostrou o presidente da Apex recebendo até 73% acima do salário do presidente da República. Sem dados individualizados, não há como saber como esses valores evoluíram.

A usina de Itaipu é mais um exemplo. Com receita superior a US$ 3 bilhões em 2024, a binacional trata a própria folha salarial como informação sensível e resiste a abrir os supersalários de sua diretoria, já noticiados por esta Folha. Seus gestores alegam natureza “sui generis” e afirmam que a usina gera sua própria riqueza e não dependeria de recursos públicos. TCU (Tribunal de Contas da União), CGU (Controladoria-Geral da União) e Ministério Público Federal foram barrados por decisões judiciais de fiscalizá-la. Também a processamos; no Paraguai, o caso chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

OBRIGAÇÃO – A resistência não é só desses entes peculiares. No fim de 2023, esgotados os recursos, o TCU tornou definitiva a obrigação de todas as estatais federais, inclusive as de economia mista e capital aberto, publicarem salários nominais e individualizados.

Já no Acórdão 728/2019, o relator Vital do Rêgo assentou que “nenhuma dúvida há de que as empresas públicas e sociedades de economia mista que atuem em concorrência também estão sujeitas às obrigações de divulgação das remunerações de seus empregados”. Protocolamos mais de cem pedidos com a decisão em mãos. Mesmo assim, gigantes como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal seguem entregando apenas números agregados. Como já escrevemos nesta coluna, as estatais têm que entender que são… estatais.

É papel do cidadão cobrar seu direito a um governo aberto. Mas é dever do gestor atendê-lo de forma proativa, política essencial à legitimidade das instituições. Por mais importante que seja o reconhecimento judicial do direito à informação, toda vitória da sociedade civil nesta seara tem também um gosto de derrota: fomos obrigados a exigir, num processo, que alguém faça aquilo que a própria lei já manda fazer.

Lula suaviza discurso econômico e evita propostas que assustem os investidores

Lula desarma pauta-bomba do PT na economia

Fabio Graner
O Globo

A equipe econômica teve uma vitória importante ao desarmar a “pauta-bomba” interna de setores do PT nas negociações em torno do programa de governo para um eventual novo governo, que ainda será divulgado. Outra vitória foi a definição pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer uma menção explícita à necessidade de contenção na trajetória dos gastos obrigatórios.

Lula bateu o martelo nesta semana que temas ruidosos para o mercado financeiro, como promessa de “tarifa zero” no transporte público e teses como reversão de privatizações e controle de capitais, entre outros, ficarão de fora do programa. A notícia foi antecipada pelo jornal “Folha de S. Paulo” e confirmada pelo O Globo.

UNIVERSALIZAÇÃO – Um interlocutor comenta que o programa deverá ter uma menção fiscalmente mais amigável para a ideia de escola em tempo integral, programa já em implementação e que deverá ser ampliado em um quarto mandato. O sonho de Lula é a universalização, que em um horizonte de 10 anos custaria R$ 170 bilhões, conforme mostrou O Globo nesta semana, mas isso será mediado pelas restrições orçamentárias.

Outra vitória da área econômica é o reforço à sinalização de que o governo seguirá no esforço de consolidação fiscal, melhorando os resultados primários. Não deve haver uma menção direta ao projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, mas a lógica é que esse será o balizador para a sinalização ao mercado.

A LDO ainda não foi votada pelo Congresso, mas prevê a retomada de resultados primários (receitas menos despesas, sem considerar juros) positivos no ano que vem e um ajuste total da ordem de dois pontos porcentuais do PIB até 2030.

FLEXIBILIDADE – O documento do PT não deve trazer metas explícitas e detalhadas para nenhuma ideia, como ocorreu em 2022. A lógica é deixar flexibilidade para Lula definir seus passos tanto no processo eleitoral, como na gestão do governo em caso de reeleição, ao mesmo tempo em que se busca sinalizar um esforço de melhora na posição fiscal do país.

No esforço de conter as alas petistas mais preocupadas em ter mais recursos para programas do que com a responsabilidade fiscal, a equipe econômica, liderada pelos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento), conseguiu apoio dos presidentes do PT, Edinho Silva, e do BNDES, Aloizio Mercadante. Mas não arrancou de Lula promessas mais ousadas como diminuir o crescimento do teto de gastos, que vem sendo defendida pela Fazenda nas conversas com o mercado.

A discussão do programa dentro do partido é coordenada pelo ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, que gerou polêmica com o mercado principalmente após uma entrevista ao O Globo, em que mostrou um viés mais heterodoxo nas questões fiscal e cambial, gerando ruídos e preocupando o governo, incluindo o próprio Lula.

PLANO DE AJUSTE FISCAL – Apesar de ter desarmado a pauta bomba e ainda ter algumas sinalizações fiscais melhores, a equipe econômica ainda tem necessidade de avançar para conseguir convencer Lula e o PT a implementarem um plano de ajuste fiscal robusto e que consiga ajudar a melhorar as expectativas a ponta de abrir espaço para queda dos juros, mesmo considerando que em grande medida a pressão financeira decorra da piora externa.

Nesse sentido, o que poderia mudar o sentimento do mercado seria um compromisso mais explícito do próprio presidente com uma maior contenção de despesas totais do que a prevista no arcabouço e um objetivo de acelerar a estabilização da dívida pública. O enunciado de buscar conter os gastos obrigatórios ajuda, mas sem detalhes sobre o que seria isso e se o espaço aberto será usado para reforçar o resultado primário ou para gastar mais com investimentos, a eficácia em termos de expectativa é mais contida.

Ainda que sinalize nos bastidores estar preocupado com o tema fiscal, a prioridade do presidente agora é se reeleger e qualquer decisão sobre sinais a serem transmitidos ao mercado está condicionado ao cálculo sobre o quanto agregará em votos. Certo é que, ficar dizendo que seu histórico é de responsabilidade, como gosta de se gabar quando fala da questão fiscal, não tem qualquer efeito sobre os humores dos investidores. E evitar ideias inexequíveis pelas restrições fiscais ajuda, mas não resolve.

Moro defende Valdemar e diz que presidente do PL “já pagou pelos erros do passado”

Lula entrou em campo e garantiu a neutralidade de Republicanos e Podemos

Gilmar diz não conhecer vice de Flávio e mantém análise de investigação sobre deputado

Lula não cede a Trump e mantém bloqueio a novo embaixador americano

Valdemar tentou convencer Michelle a ser vice de Flávio Bolsonaro, mas recebeu um “não”

Michelle recusou ser vice de Flávio mesmo após reconciliação

Rafael Moraes Moura
O Globo

Enquanto tentava atrair aliados e costurar alianças com outros partidos, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a sondar na semana passada a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sobre a possibilidade de ela ser companheira de chapa do enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A vaga acabou ficando com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), anunciado na última quarta-feira (5). A escolha frustrou aliados que preferiam uma mulher para tentar reduzir a rejeição ao filho de Jair Bolsonaro no eleitorado feminino. As movimentações de Valdemar Costa Neto foram confirmadas por quatro fontes ao longo dos últimos dias, incluindo integrantes do PL, aliados de Flávio e interlocutores de Michelle. Procurado, Valdemar não respondeu aos questionamentos da reportagem.

DOBRADINHA – Uma eventual dobradinha Flávio-Michelle serviria para pacificar os ânimos e tentar vender ao eleitorado a imagem de unidade familiar, após a guerra que opôs os dois e escancarou as fissuras internas do clã Bolsonaro em praça pública. Em junho, Michelle chegou a gravar um vídeo dizendo ter sido humilhada e apunhalada nas costas por Flávio por conta de desentendimentos sobre alianças políticas no Ceará. Com a escalada da crise, o filho 01 de Jair Bolsonaro pediu publicamente à madrasta “desculpas por alguns momentos que causaram desconforto”.

“Houve uma sondagem pessoal, e isso é feito sempre com a anuência de todo mundo. Mas Michelle decidiu com o Jair que não queria ser vice-presidente, porque ela teria dificuldades de fazer campanha nacional”, afirmou uma fonte que acompanha de perto as movimentações nos bastidores.

Um interlocutor de Michelle, que também confirmou a sondagem, aponta as dificuldades logísticas da ex-primeira dama para se dedicar a uma campanha que envolve uma maratona de eventos e agendas por diversos Estados, enquanto o marido precisa de cuidados médicos ao longo do dia no regime de prisão domiciliar. “Como ela iria fazer campanha? Impossível. Quem cuidaria do Jair?”, disse esse interlocutor. “Na prática, a Michelle também está em prisão domiciliar.”

VIAGENS – Viajar para outros Estados é algo considerado praticamente descartado por Michelle devido aos tempos de deslocamento, questões logísticas e o monitoramento da saúde de Bolsonaro. Esse fator pesou para ela decidir concorrer a uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, onde sua eleição é dada como certa, e para não comparecer à convenção que anunciou a candidatura de Flávio, realizada em São Paulo.

A mais recente pesquisa Genial/Quaest mediu o impacto da crise familiar na opinião do eleitorado. Um recorte inédito, obtido pelo blog, aponta que 53% das mulheres avaliam que foi positivo Michelle e Flávio terem feito as pazes em público – índice inferior ao registrado entre os homens (65%). Já para 27% das mulheres, a reconciliação foi negativa, ante 23% do verificado entre os homens.

Na avaliação de 48% das mulheres, o apoio de Michelle não aumenta as chances de vitória de Flávio na eleição presidencial de outubro, ante 42% daquelas que acham o contrário. Entre os homens, a situação é inversa: 51% avaliam que o apoio de Michelle aumenta as chances do senador, enquanto 42% dos entrevistados discordam.

FIADORA – “Isso mostra que Michelle funciona menos como uma simples captadora do voto feminino e mais como uma fiadora da unidade bolsonarista. Entre os homens, seu apoio atua como um selo de reconciliação, reduz a percepção de divisão interna e legitima a candidatura de Flávio”, afirmou à equipe do blog o CEO da Quaest, o cientista político Felipe Nunes.

“Entre as mulheres, ela também ajuda, mas não elimina automaticamente as resistências que parte do eleitorado feminino mantém em relação ao próprio Flávio. Michelle transfere legitimidade com mais facilidade do que transfere voto feminino.”

Um desesperado poema de amor, com a sensibilidade de Adalgisa Nery

FCO-2940 - Retrato de Adalgisa Nery | Obras | Portinari

Adalgisa Nery era a grande musa de Portinari

Paulo Peres
Poemas& Canções

Nesse poema, a jornalista, deputada e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery, devido a seu casamento com o grande pintor modernista Ismael Nery. Foi um das mulheres mais importantes de sua época, retratada por todos os grandes pintores, especialmente Cândido Portinary, que pintou vários quadros sobre ele.

Nesse desesperado poema, Adalgisa Nery proclama seu amor em todos os sentidos.

EU TE AMO
Adalgisa Nery

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Pressão de Trump fortalece narrativa de Lula, mas efeitos têm prazo de validade

Com ações recorrentes, Trump pode ser um tiro pela culatra

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

“O Brasil não é para principiantes.” Atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.

CONFRONTO – Nenhuma dessas medidas, isoladamente, decide uma eleição. Juntas, porém, permitem que Lula apresente o confronto como uma disputa entre os objetivos nacionais e uma potência estrangeira interessada no resultado das urnas. Ocupa o lugar institucional de chefe de Estado agredido por pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de ser associado a uma articulação internacional contra seu próprio país.

Trump e Rubio talvez tenham subestimado a complexidade da política brasileira. A pressão externa costuma estimular reações nacionalistas. Lula mobiliza a militância de esquerda, busca apoio de setores democráticos e de eleitores moderados. Quanto mais explícita e truculenta for a tentativa norte-americana de influenciar o processo eleitoral, maior será a possibilidade de Lula se apresentar como defensor da autonomia do país. Entretanto, se a condição de vítima o favorece, o santo é de barro. Lula precisa calibrar suas reações para não agir com soberba e irresponsabilidade.

REORGANIZAÇÃO DA DIREITA – A Casa Branca promove a reorganização da direita latino-americana. Marco Rubio procura consolidar um eixo conservador no continente, conter a presença econômica da China e apoiar governos identificados com a agenda de Trump. No Cone Sul, Javier Milei tornou-se a principal expressão desse movimento. Sua participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, e os ataques feitos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma deterioração sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

A América Latina não é um tabuleiro no qual Washington movimenta aliados sem provocar reações locais. O conflito fortalece a narrativa oficial de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas também gera críticas da oposição à diplomacia brasileira. Jogar na defensiva não é vergonha para o Itamaraty. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, cadeias produtivas e o Mercosul. Milei pode mobilizar sua base atacando Lula, mas não pode romper os vínculos econômicos entre os dois países sem impor custos à própria Argentina.

RESILIÊNCIA – Trump dispõe de instrumentos poderosos, principalmente o acesso ao mercado norte-americano, as sanções e as tarifas. Ainda assim, poder econômico não se converte automaticamente em influência eleitoral. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nessa quarta-feira, mostra essa ambivalência. Lula continua na liderança, com 39% contra 30% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 44% a 39% no segundo. Entretanto, o senador recompôs parte da unidade da direita, reduziu a rejeição e aumentou a convicção de seus eleitores.

Mas a reconciliação com Michelle Bolsonaro e a reação às restrições judiciais para visitar o pai contribuíram mais para sua recuperação do que o confronto de Lula com os Estados Unidos. O outro lado da moeda são os limites dos dividendos nacionalistas. Em julho, 51% consideravam que ele defendia melhor o Brasil, contra 34% que apontavam Flávio. Agora, a diferença caiu de 17 para oito pontos: 46% a 38%.

Ao mesmo tempo, a avaliação da resposta do governo ao tarifaço passou de um saldo positivo de três pontos para um saldo negativo de cinco: 43% consideram que Lula reagiu mal e 38%, bem. Portanto, a pressão de Trump continua favorecendo a narrativa do presidente, mas a administração efetiva da crise já começa a ser cobrada. Será uma corrida contra o tempo mitigar os efeitos negativos da crise diplomática até as eleições.

IMPACTO ECONÔMICO – A grande incógnita é o impacto econômico das tarifas. O comércio com os Estados Unidos representa cerca de 2% do PIB brasileiro, proporção que permite ao governo sustentar que o país dispõe de escala, mercado interno, reservas internacionais e parceiros comerciais suficientes para absorver o choque.

A diversificação das exportações, principalmente em direção à China, à União Europeia e aos demais países do Sul Global, reduz a capacidade de Washington estrangular a economia brasileira. Essa resiliência macroeconômica, entretanto, não elimina os prejuízos para empresas exportadoras, cadeias industriais integradas aos Estados Unidos e regiões dependentes de determinados produtos de exportação. Isso repercute eleitoralmente nos setores e nos estados mais atingidos.

Lula chama Rubio de “latino-americano frustrado” em meio à escalada com Trump

Lula diz que secretário de estado dos EUA ‘odeia o Brasil’

Guilherme Queiroz
O Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar nesta sexta-feira o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, após o anúncio de novas tarifas a produtos brasileiros. Em visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), Lula disse que Rubio “odeia o Brasil” e que é um “latino-americano frustrado”.

“Agora ele (Trump) tem um cidadão que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é um bolsonarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Ele não gosta, eu disse para o Trump, ele não gosta do Brasil. Não gosta, ele é um homem latino-americano, ou um latino-americano frustrado. Ele é um descendente cubano de Miami, odeia Cuba, odeia Colômbia, odeia o Brasil”, afirmou.

TELEFONEMA – Lula relembrava a reunião que teve com Donald Trump na Casa Branca quando falou de Marco Rubio. O presidente afirmou que durante o encontro entregou documentos sobre a balança comercial brasileira e depois o governo brasileiro ligou para a Casa Branca “toda semana”. “E aí, fiquei esperando, não teve telefonema, mas veio pela imprensa um tarifaço, aumentou mais 2,5% a tarifa contra nós”, completou.

O secretário de Estado americano usou as redes sociais no mês passado para criticar o presidente Lula, afirmando que as políticas econômicas adotadas por ele “são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros” e que ele “colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo”.

CANAL DIRETO – Lula sinalizou a aliados que buscará conversar com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, na próxima semana. A declaração foi feita num encontro do petista com parlamentares do PSOL e da Rede no Palácio da Alvorada nesta tarde. O encontro ocorreu para oficializar o apoio da federação à reeleição do presidente.

De acordo com relatos de dois participantes, o petista defendeu o fim da guerra na Ucrânia e criticou a atuação do Conselho de Segurança da ONU para conseguir encerrar o conflito. Nesse momento, Lula afirmou que conversou nos últimos dias com os presidentes da China, Xi JinPing, e da Rússia, Vladimir Putin, sobre o conflito e que, na próxima semana, buscaria falar com Trump também.

Segundo esses relatos, Lula não disse se também aproveitará a conversa para tratar de outros temas na relação do Brasil com Estados Unidos, que vive momento de tensão após nova imposição de taxas do governo Trump aos produtos brasileiros e sanções a autoridades, como a revogação do visto da atual embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti.

Corrupção de Marcola, assessor de Lula, não pode ser tratada como um assunto privado

Ex-assessor era pessoa de responsabilidade pública

Dora Kramer
Folha

Uma pessoa que tem a chave da agenda e do acesso ao gabinete do presidente da República não pode ter transações financeiras que requeiram explicação. Em circunstância alguma estaria autorizada a explicar seus atos como de natureza “estritamente privada”. Tal recurso fica com jeito de tentativa de blindagem a fim de evitar os indispensáveis detalhamentos.

Enquanto esteve na chefia do principal gabinete do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Ribeiro (Marcola) era uma pessoa de responsabilidade pública. Por definição funcional e exigência específica do cargo, tinha o redobrado dever de se distanciar de quaisquer situações que pudessem gerar questionamentos. Não foi o que fez Marco Aurélio ao receber dinheiro de Roberta Luchsinger.

LIMITE DE PRECAUÇÃO – Tenham sido os ditos R$ 249 mil fruto de empréstimo ou de repasses para outros fins, certamente haveria fontes de recursos às quais recorrer que não alguém cujos negócios evoluem mediante o bom acesso a relevantes escaninhos governamentais. Só aí já estaria estabelecido o limite da precaução.

Acrescentando-se o fato de a personagem ser amiga e parceira de um dos filhos do presidente (Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha), ter circulação livre no universo petista e atividades profissionais bastante conhecidas nesse ambiente, a passagem do sinal amarelo para o vermelho deveria ser automática.

“DETALHE” – Mas o então assessor palaciano de alta confiança não achou por bem informar ao chefe o que talvez tenha lhe parecido um detalhe. Ou terá informado e a versão de que o presidente só soube da transação há duas semanas é apenas mais uma justificativa da série “Lula não sabia de nada”?

Seja como for, não se trata, como fez circular o governo, de mero constrangimento nem de um negócio informal entre amigos, como tenta normalizar o próprio Lula. Trata-se de algo bem mais grave, que requer esclarecimento definitivo: a possibilidade de a traficância de influência ter dado expediente na antecâmara da Presidência da República.

Deputado envolvido na crise diplomática é confirmado embaixador dos EUA no Brasil

Peritos alertam para risco de apagão nas investigações com onda de aposentadorias

Inquéritos que tratam de corrupção podem ser impactados

Elijonas Maia
CNN

Atualmente, a PF tem cerca de 1.000 peritos em atividade e cerca de 120 cargos vagos, mas o problema é outro. De acordo com o levantamento da APCF (Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais), além do déficit atual, cerca de 30% do efetivo estará na faixa de aposentadoria voluntária até 2028, o que pode ampliar a redução do quadro caso não haja reposição na mesma proporção.

Os peritos são responsáveis por produzir provas científicas em investigações de alta complexidade, como casos de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes financeiros, cibernéticos, ambientais e de atuação de organizações criminosas.

PERÍCIA – Casos recentes de impacto que têm o trabalho de perícia, por exemplo, são os celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nas fraudes do Master. Outras apurações que dependem do trabalho de perícia são relacionadas a garimpos ilegais em terras indígenas e extração ilegal de minerais.

Os dados da APCF apontam, ainda, que apenas 1,6% dos peritos em atividade ingressaram na Polícia Federal nos últimos cinco anos, enquanto 77% do efetivo têm 45 anos ou mais. Além disso, quase metade dos atuais peritos ingressou na instituição em um mesmo intervalo de cinco anos, o que aumenta a possibilidade de uma saída concentrada de profissionais experientes ao longo da próxima década.

A associação de peritos cobra a Direção-Geral da PF pela convocação de todos os aprovados no último concurso da corporação para recompor o efetivo da carreira. Procurada pela CNN sobre o déficit e possível prejuízo às investigações, a PF não respondeu.

O Brasil troca a esperança pelo ressentimento na presente eleição presidencial

TSE fecha cerco à IA e proíbe clonagem de voz de candidatos nas eleições

Após fracassar na busca por uma vice, Flávio culpa Centrão por isolamento eleitoral

Dino aciona a PF e amplia pressão sobre emendas Pix com indícios de prejuízo de R$ 55 milhões

Flávio prepara ofensiva contra Lulinha para marcar estreia na propaganda eleitoral

Escolha de Alfredo Gaspar para vice reforça estratégia

Luísa Marzullo
O Globo

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) avalia usar já na estreia do horário eleitoral gratuito as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O tema também vai seguir alimentando uma ofensiva nas redes sociais e nos discursos do candidato, numa estratégia para transformar as suspeitas sob apuração em um flanco permanente de desgaste do petista durante a corrida ao Planalto.

A ideia começou a ser desenhada antes mesmo da definição da chapa, mas ganhou força com a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para a vice. Relator da CPI do INSS, ele deverá assumir papel de destaque na exploração do escândalo dos descontos indevidos de aposentados e das relações de personagens investigados com pessoas próximas ao filho do presidente.

REFERÊNCIAS A LULINHA – Integrantes da campanha afirmam que ainda está em discussão o formato do primeiro programa, mas a possibilidade de estrear na televisão com referências a Lulinha está à mesa. A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa em 28 de agosto, e Flávio deverá ter aproximadamente 4 minutos e 20 segundos em cada bloco, segundo projeção do O Globo feita com base nas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Até lá, a estratégia deverá ser testada principalmente nas redes. A campanha pretende produzir peças que associem as investigações envolvendo Lulinha ao governo do pai e explorar o contraste com a maneira como familiares de Jair Bolsonaro foram tratados durante os governos anteriores. Expressões como “pai do Lulinha” e questionamentos sobre “onde está” o filho do presidente já vinham sendo discutidos como parte desse repertório.

A ofensiva ganhou impulso após a abertura de investigações da Polícia Federal sobre Fábio Luís. Flávio passou a explorar publicamente o episódio e, em uma de suas lives, afirmou que “falta braço” à PF para investigar Lulinha e questionou qual seria a repercussão caso as suspeitas recaíssem sobre um filho de Bolsonaro.

LINHA DE FRENTE –  A chegada de Gaspar à chapa oferece à campanha um novo caminho para explorar o assunto. Sua atuação na CPI do INSS foi um dos fatores que pesaram na escolha para a vice e é vista pela cúpula do PL como uma credencial para colocá-lo na linha de frente dos ataques relacionados ao caso.

No próprio anúncio da chapa, Flávio deixou claro que pretende fazer do escândalo um dos eixos da campanha. O presidenciável citou as investigações sobre o INSS e buscou aproximá-las do entorno de Lula ao mencionar Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que deixou a campanha petista nesta semana.

ESTRATÉGIA – A estratégia deverá explorar as relações entre o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e pessoas próximas a Lulinha. A campanha pretende usar Gaspar para dar peso às acusações por sua experiência na CPI, enquanto Flávio fará a exploração política do tema contra o presidente.

O movimento faz parte de uma tentativa mais ampla de deslocar para Lula um de desgaste que marcou a pré-campanha de Flávio, com a divulgação das mensagens com o banqueiro Daniel Vorcaro pelo financiamento do filme “Dark Horse”.

DIFERENTES FRENTES –  A intenção é não restringir a exploração do assunto à propaganda eleitoral. A campanha discute uma atuação combinada entre redes sociais, discursos, entrevistas, lives e, posteriormente, rádio e televisão.

A entrada de Duda Lima no comando da comunicação também ocorre no momento em que a equipe começa a estruturar a produção para o período oficial da campanha. Uma das preocupações é transformar assuntos complexos das investigações em peças mais simples, capazes de estabelecer uma associação política direta entre as suspeitas envolvendo Lulinha e o presidente.

Na última quarta-feira, a campanha veiculou um vídeo de Gaspar afirmando que o filho do presidente se envolveu com o Careca do INSS. No dia anterior, chamou o caso das fraudes de “esquemão do Marcolão”. A ideia é seguir apostando em expressões de fácil compreensão e trazer o tema cada vez mais ao centro do debate eleitoral.

Juízes reagem ao fim da aposentadoria compulsória e prometem ir ao STF

Declarações de ministro da Fazenda ampliam desconfiança do mercado sobre equipe econômica