Proliferam não só nomes, mas frentes para um projeto democrático contra Bolsonaro

Charge do Duke (domtotal.com)

Eliane Cantanhêde
Estadão

O principal recado do debate entre Ciro Gomes, João Doria, Fernando Haddad, Eduardo Leite e Luciano Huck, sábado à noite, foi a civilidade, até gentileza entre eles, ao longo de quase três horas. Deixando de lado as divergências, eles focaram na convergência contra os retrocessos do presidente Jair Bolsonaro, tratado por adjetivos ácidos, puxados pelo já trivial “genocida”.

Há inúmeras frentes para virar a página Bolsonaro e tocar a reconstrução do País, uma espécie de transição à la Itamar Franco pós-Collor. Assim como naquela época, o PT não participa de um projeto de união nacional, mas Haddad compôs bem a mesa, com conhecimento e sobriedade.

CIRO IMPRESSIONA – Candidato três vezes à Presidência, ex-ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes é o que mais impressiona, com seu malabarismo verbal para juntar temas diferentes, amontoar números e produzir uma imagem de experiência e competência. Foi, também, responsável pela maior lista de “atributos” do presidente.

Doria foi Doria, a começar do vídeo e do áudio impecáveis, tudo milimetricamente programado. O governador de São Paulo explorou o fato de ter liderado a guerra pelas vacinas contra a covid no País e deixou o carimbo mais contundente contra Bolsonaro: “mito das mortes”.

Haddad, ex-prefeito de São Paulo, ex-ministro da Educação e ex-adversário de Bolsonaro no segundo turno de 2018, foi menos candidato, mais militante, preocupado em defender os feitos dos governos do PT, enquanto batia duro no “autoritarismo” de Bolsonaro.

MAIS COMEDIDO – Eduardo Leite, o jovem tucano que saiu de uma prefeitura do interior para o governo do Rio Grande do Sul sem passar pelo Legislativo, mediu palavras e fugiu da eloquência e da agressividade dos demais contra o presidente e o governo. Foi bastante crítico, mas num tom abaixo.

Essas impressões são, de certa forma, consensuais, mas quem mais dividiu opiniões foi Huck, celebridade sem passagem pelo setor público. Para uns, incapaz de enfrentar o debate no campo da economia e das políticas públicas. Para outros, foi o que focou nos dois temas do futuro: era digital e desigualdade social.

“Mais jovem, mais atualizado”, resumiu uma importante jornalista. Se isso define um bom candidato, é outra história.

ALGO DE BOM? – No final, o professor Hussein Kalout, que dividia comigo a mediação no encerramento da Brazil Conference, organizada por estudantes brasileiros de Harvard e MIT, lançou um desafio: Bolsonaro fez algo de bom? O primeiro a cair na armadilha foi Ciro: a menor taxa de juros em 30 anos. Leite citou a reforma da Previdência. Huck, o auxílio emergencial.

Na verdade, a reforma veio do governo Temer e o auxílio emergencial foi obra do Congresso. Haddad foi no ponto: todo governo democrático tem qualidades e defeitos, mas os “autoritários” não têm qualidades. E Doria concluiu: o grande feito de Bolsonaro foi transformar o Brasil em pária internacional. Só ele conseguiria isso.

Foram abordados: pandemia, fome, economia, política externa, ambiente, educação, ciência e tecnologia, mas também autoritarismo e investidas sobre polícias estaduais.

TEMOR DAS MILÍCIAS – Ao citar o motim da PM do Ceará, quando seu irmão, senador Cid Gomes, levou dois tiros, Ciro Gomes disse que a intenção de Bolsonaro é “formar uma milícia militar para resistir, de forma armada, à derrota eleitoral”. O temor é generalizado.

Exceto Haddad, os outros já tinham assinado um manifesto pela democracia e novos nomes nessa linha continuam surgindo: Tasso Jereissati, Temer, Luiza Trajano, Luiz Henrique Mandetta…

Quem tem tantos nomes é porque não tem nenhum, mas o fundamental é que proliferam frentes para construir um projeto de união nacional pela democracia, pela gestão, pela vida. É assim que tudo começa…

Salles atuou de forma explícita a favor de madeireiros, diz delegado da PF afastado

Alexandre Saraiva, ex-superintendente da PF no Amazonas Foto: Reprodução/TV Globo

Delegado Saraiva é especialista no combate ao desmatamento

Leandro Prazeres
O Globo

Após 11 anos trabalhando na Amazônia, a última semana do delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva foi, sem dúvidas, uma das mais tumultuadas. Na terça-feira (14), ele enviou uma notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o senador Telmário Mota (PROS-RR) por favorecimento a madeireiros. No dia seguinte, a PF anunciou sua substituição no cargo de superintendente do órgão no Amazonas.

Em entrevista ao GLOBO, Saraiva reforça que denunciou Salles por entender que ele estaria atuando a favor de madeireiros e diz que nunca havia presenciado algo assim durante seus quase 18 anos na Polícia Federal.

O senhor foi surpreendido pela sua substituição?
Toda vez que muda o diretor-geral, há uma expectativa sobre quem vai ficar e quem vai sair. Mas, como eu sou um dos que mais atua nessa parte de meio ambiente e como tem uma situação grave e urgente, eu imaginei que fosse ficar.

O senhor avalia que sua substituição foi uma punição pelo fato de o senhor ter denunciado o ministro do Meio Ambiente?
Não posso e não irei fazer especulações sobre isso. O colega que me substituiu no cargo (Leandro Almada) é um ótimo delegado.

Como o senhor viu a atuação do ministro Ricardo Salles na área onde foram apreendidas madeiras? Foi uma postura condizente com a de um ministro do Meio Ambiente?
Em relação a isso, a conduta dele a gente descreveu na notícia-crime que enviamos ao STF. Num primeiro momento, ele colocou em dúvida o trabalho da PF. Em um segundo momento, foi uma conduta que patrocinava justamente a ação dos criminosos. Nos pareceu que a conduta toda favorecia os criminosos. Quando recebemos os documentos dos madeireiros e analisamos, verificamos ainda mais fraudes. Foi quando nós começamos a redigir o documento para o STF. Isso não era uma opção pra mim. É um poder-dever. Era uma obrigação. Se fosse uma pessoa sem foro, instauraríamos o inquérito. Como tinha foro privilegiado, comunicamos ao Supremo.

O senhor pode descrever de forma detalhada qual foi a atuação do ministro no episódio?
Comunicamos a prática de obstar ou dificultar a ação fiscalizadora do poder público, o embaraço à investigação de organização criminosa e a advocacia administrativa. Em todos esses tipos (penais), ele estaria atuando e favorecendo os madeireiros e isso foi feito de uma forma muito explícita. Tem vídeo dele apontando para a placa de uma empresa investigada que segundo ele “estava tudo certinho” e que, na verdade, em relação a esta empresa, já existia até laudo pericial apontando as ilegalidades cometidas.

Que sinal a sua substituição logo após o envio da notícia-crime passa?
Olha…eu espero que o trabalho de combate aos crimes ambientais tenha continuidade. O delegado que foi anunciado para o meu lugar é um excelente delegado. A PF é uma estrutura que independe das pessoas, mas qualquer movimentação na PF ganha amplitude e interpretações diversas. É preciso ter cuidado com essas coisas.

O Brasil vai participar da Cúpula de Líderes sobre o Clima. Na sua avaliação, a condução do ministro Ricardo Salles, à luz dos últimos eventos, gera confiança na comunidade internacional?
Eu vou falar sobre o âmbito do Ministério da Justiça. Nos últimos anos, tanto na gestão do ministro Sergio Moro quanto na gestão do ex-ministro André Mendonça, nós tivemos um apoio incondicional no combate a crimes ambientais. Não podemos falar ainda do novo diretor-geral (Paulo Maiurino), porque ele assumiu há muito pouco tempo. Nesse aspecto, em janeiro e fevereiro, o desmatamento deu uma arrefecida, mas se outras pastas não têm um discurso alinhado, é um remando para frente e outro remando pra trás.

Nos últimos meses, o ministro Ricardo Salles vem cobrando recursos estrangeiros para financiar ações de combate ao desmatamento. Como o senhor avalia esse argumento?
O combate ao desmatamento é muito mais uma questão de foco e estratégia do que de recursos.

Uma das propostas de Salles para o combate ao desmatamento na Amazônia seria a criação de uma patrulha que substituiria o Ibama, ICMBio e PF nas ações de combate ao desmatamento. Essa nova força seria, de fato, necessária?
Essa proposta é desnecessária. para dizer o mínimo. Nós já temos a PF, Ibama e ICMBio para fazer isso. São instituições que tem uma ampla experiência e não haveria necessidade de mais uma força para realizar esse trabalho”

O senhor atua na Amazônia desde 2011. Em algum momento algum outro ministro do Meio Ambiente fez ingerência ou criticou o seu trabalho da forma como aconteceu agora?
Não. Nenhum outro ministro fez o que foi feito agora. Veja… o braço do MMA é o Ibama e ICMBio. Nas operações da PF, a gente prefere fazê-las junto com o Ibama, porque as ações administrativas e punitivas do Ibama complementavam o trabalho nosso. E, nos últimos anos, isso deixou de acontecer. E faz muita falta não ter o Ibama em campo.

Quando o senhor fala que isso deixou de acontecer, o senhor está se referindo aos últimos dois anos?
Sim. Nos últimos dois anos. Não foi de uma hora pra outra. Gradualmente, foi deixando de acontecer. E na operação Handrohantus, não tinha mais o Ibama. Apesar de o órgão ter sido instado várias vezes, o Ibama não entrou em campo.

Sob qual alegação?
Não tinha alegação alguma. A coisa simplesmente não rodava.

Como delegado, o senhor já deve ter tido seu trabalho criticado por políticos ou outros agentes públicos. A pressão que o senhor recebeu nesse último episódio foi ponto fora da curva?
Foi, sim. E essa pressão toda mostra a importância de se dar autonomia pra Polícia Federal e para os cargos todos. É preciso fortalecer um arcabouço normativo da PF pra que esse tipo de pressão não surta efeito. Não estou falando novidade. É lógico que esses criminosos do meio ambiente encontram parlamentares simpáticos a eles. Não é segredo algum. Precisamos de mandato pra diretor-geral pra PF, mandato pra superintendente, garantias para os policiais. A gente tem autonomia em alguma medida, mas é muito mais uma cultura de autonomia e nós precisamos mais do que isso.

Pelo fato de o senhor ter sido especulado como ministro do Meio Ambiente, há críticas de que a notícia-crime contra Salles foi uma forma que o senhor encontrou para atingí-lo e, eventualmente, substituí-lo. Como o senhor responde a essas críticas?
É a ilação mais ridícula possível. Eu tive apenas duas conversas com o presidente Jair Bolsonaro. Conversamos sobre temas ambientais. Quando eu vim pra Amazônia em 2011, não havia nem sonho disso (indicação). Eu não tenho controle algum sobre o que as pessoas pensam, mas eu tenho a minha história a meu favor. São 18 anos na polícia e nunca me envolvi com política ou com qualquer tipo de irregularidade. Sempre me envolvi com o meio ambiente. Esse tipo de crítica tem que ser avaliada do ponto de vista do criticado, mas também a partir de quem me critica. Olha o perfil de quem me critica. Basta olhar perfil de quem diz esse tipo de coisa e olhar o meu. O meu perfil profissional é impecável.

À luz da notícia-crime que o senhor enviou ao STF, o senhor acha que Ricardo Salles deveria continuar no cargo?
Não me cabe fazer esse juízo de valor. Isso cabe ao STF.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Uma entrevista importantíssima. Em qualquer país minimamente sério, essas denúncias seriam suficientes para derrubar não somente o ministro do Meio Ambiente, mas também o presidente da República, que é o principal responsável por essas gravíssimas irregularidades. Mas quem se interessa? (C.N.)

Vídeo de Bolsonaro defendendo cloroquina contra Covid-19 é removido pelo Youtube

Bolsonaro e cloroquina: ambos não têm eficácia comprovada

Marlen Couto
O Globo

O YouTube removeu nesta segunda-feira, dia 19, pela primeira vez um vídeo do canal do presidente Jair Bolsonaro na plataforma por violar suas regras ao difundir informação incorreta sobre a Covid-19. Trata-se de uma das lives semanais do presidente transmitida no dia 14 de janeiro, período em que Manaus vivia um colapso do sistema de saúde pelo aumento de casos de Covid-19.

No vídeo, Bolsonaro aparece ao lado do então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e mais uma vez defendeu a existência de um “tratamento precoce contra a Covid-19”, apesar de autoridades de saúde e especialistas apontarem que não existe tratamento precoce contra a doença.

“DEU CERTO” – Em um determinado momento, o presidente chega a afirmar que o uso de hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e zinco “deu certo” para reduzir mortes. Os remédios não têm eficácia contra a doença ou estudos que comprovem que funcionam no tratamento.

O presidente também questionou o uso da máscara e medidas de isolamento social. Ambos são recomendados por especialistas para evitar a disseminação do vírus. O mesmo vídeo segue no ar em outras plataformas, como o Facebook.

A remoção da postagem de Bolsonaro foi revelada pela empresa Novelo Data, que monitora a plataforma. O YouTube informou, em nota, que expandiu suas políticas de desinformação médica sobre a Covid-19 e que passará a remover vídeos que “recomendam o uso de ivermectina ou hidroxicloroquina para o tratamento ou prevenção da Covid-19, fora dos ensaios clínicos, ou que afirmam que essas substâncias são eficazes e seguras no tratamento ou prevenção da doença”. Ainda segundo a plataforma, desde o início da pandemia, o YouTube já removeu mais de 850 mil vídeos por violarem políticas de conteúdo sobre o novo coronavírus.

DESINFORMAÇÃO – Antes da expansão de suas políticas, porém, o YouTube já incluía em suas diretrizes não ser permitido “o envio de conteúdo que dissemine informações médicas incorretas que contrariem as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou das autoridades locais de saúde” em temas como tratamento, prevenção, diagnóstico e transmissão do vírus, bem como sobre as diretrizes de distanciamento social e autoisolamento e relacionados à existência da Covid-19. Apesar disso, vídeos que pregam tratamento precoce sem eficácia contra a Covid-19, desestimulam o uso de máscaras e lançam suspeitas sobre as vacinas continuaram no ar na plataforma.

Não é a primeira vez que Bolsonaro é alvo de remoções de conteúdo de redes sociais. Em março do ano passado, Twitter, Facebook e Instagram removeram postagens do presidente com vídeos que registravam visitas a cidades satélites de Brasília e nas quais criticava medidas de isolamento social. Publicações do presidente com informações falsas sobre a pandemia também já receberam avisos e alertas de conteúdo com desinformação.

ONGs apontam que Ricardo Salles quer formar milícia ambiental com dinheiro de países ricos

Malu Gaspar
O Globo

O principal projeto que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pretende financiar com o US$ 1 bilhão que está pedindo aos países ricos para combater o desmatamento na Amazônia é a formação do que ele chama de Força de Segurança Ambiental.

Nas reuniões prévias à Cúpula do Clima com representantes dos Estados Unidos e de antigos financiadores europeus de ações ambientais no Brasil, Salles apresentou essa força como uma patrulha armada que poderá substituir a ação da Polícia Federal e dos órgãos como o Ibama e ICMBio.

MILÍCIA AMBIENTAL –  Entidades de acompanhamento das questões climáticas que foram consultadas a respeito do projeto por representantes dos países que tiveram conversas com o ministro chamam a patrulha de milícia ambiental.

Eles consideram que o que Salles quer é controlar e direcionar as ações de combate ao desmatamento de acordo com objetivos políticos e não de estado, e deixaram claro aos interlocutores ligados aos países procurados pelo ministro que não aprovam a ideia da patrulha.

“Já existem órgãos capazes de realizar essa fiscalização, como Ibama e o ICMbio, que o ministério do Meio Ambiente vem desmontando. Só que esses órgãos priorizam o interesse público, e o que Salles quer de fato é ter uma milícia oficial que obedeça somente a ele”, diz Márcio Astrini, diretor  do Observatório do Clima.

CONFLITOS –  Desde o início de sua gestão, o ministro do Meio Ambiente vem acumulando conflitos com o Ibama e, mais recentemente, com a Polícia Federal. Além de contestar as ações desses órgãos, ele já trocou 25 dos 27 superintendentes do Ibama desde 2019 – quatro deles no início do mês.

Na semana passada, foi o superintendente da PF no Amazonas quem acabou  demitido pelo diretor-geral da Polícia Federal, depois de protocolar uma notícia-crime do STF acusando o ministro do Meio Ambiente de defender interesses de madeireiras clandestinas.

A ideia de montar um comando ambiental com poder de polícia para patrulhar a Amazônia é antiga. Havia inclusive um projeto de compra de equipamentos para essa patrulha aprovado pelo Fundo Amazônia, formado com dinheiro da Noruega e da Alemanha e administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e que tem hoje 3 bilhões de reais parados, sem desembolso.

OBSTÁCULOS – Os entraves que impedem a liberação de recursos para novos projetos ajudam a explicar por que Salles está tentando obter dinheiro para sua força ambiental fora do Fundo Amazônia.

O fundo foi travado pelos financiadores depois que o governo brasileiro cancelou a  participação de entidades da sociedade civil no comitê que decidiria onde alocar o dinheiro. Para retomar os repasses, Noruega e Alemanha agora exigem que o Brasil reduza os índices de desmatamento de forma sustentável. As taxas de derrubada da floresta, porém, têm registrado altas históricas na gestão Bolsonaro.

FORÇA NACIONAL – Pode haver, ainda ,outro complicador. Esses fundos em geral preferem financiar projetos civis a militares. O projeto que tem um pedido parado no Fundo Amazônia prevê que o comando ambiental que o governo quer formar fique subordinado à Força Nacional, que hoje é composta por policiais militares de todos os estados.

O atual comandante da Força Nacional é o coronel da PM Aginaldo de Oliveira, marido da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). Em 2019, a deputada apresentou no Congresso um projeto que integra os policiais militares ao Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama). Isso possibilitaria a eles emitir multas e licenças ambientais, fiscalizar e embargar propriedades rurais, gerir unidades de conservação e controlar a poluição.

Piada do Ano ! CGU “justifica” gastos de R$ 2,3 milhões em viagem de férias e diz que Bolsonaro trabalhou na praia

Bolsonaro visitou as regiões litorais de São Paulo e de Santa Catarina

Ana Mendonça
Correio Braziliense / Estado de Minas

Após questionamentos, nas redes sociais, sobre a viagem de férias do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), onde ele teria gasto mais de R$ 2,3 milhões, o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Wagner Rosário, afirmou nesta terça-feira, dia 20, que Bolsonaro trabalhou “fora do local costumeiro” e não estava de férias.

A declaração foi feita durante esclarecimento sobre a viagem de fim de ano na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados.

“NÃO ESTAVA DE FÉRIAS” – “O presidente da República despachou diariamente com todos os seus ministros e assessores. Só nesse período, assinou um decreto, sete medidas provisórias e sancionou seis projetos de lei. Então, só por aí a gente entende que o presidente da República não estava de férias. Ele estava a trabalho fora do local costumeiro, onde ele realiza suas atividade”, explicou o ministro.

Ainda na sua justificativa para os gastos, Rosário disse que Bolsonaro não passou o comando do país ao vice-presidente Hamilton Mourão. Rosário também afirmou que quem não estivesse satisfeito com a explicação, que tentasse aprovar uma lei no Congresso “proibindo” o presidente de sair do Palácio do Planalto.

GASTOS –  Bolsonaro gastou mais de R$ 2,3 milhões em férias no litoral do país, entre dezembro e janeiro, em plena pandemia. Documentos comprovam os gastos entre 18 de dezembro e 5 de janeiro. O presidente visitou as regiões litorais de São Paulo e de Santa Catarina.

De acordo com as informações da Secretaria-Geral da Presidência, foram gastos R$ 1,19 milhão em despesas com a hospedagem do mandatário, sua família, convidados e toda a equipe de profissionais, incluindo alimentação e bebidas para todos, entretenimento e locomoção terrestre ou aquática.

Quem autoriza o desmatamento é o próprio Bolsonaro e o ministro é apenas seu cúmplice

Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles Foto: NACHO DOCE / Reuters

Salles é apenas um fantoche manobrado por Bolsonaro

Camila Zarur
O Globo

Três medidas do governo de Jair Bolsonaro dificultaram a fiscalização da madeira ilegal no Brasil, desde a investigação da extração clandestina à exportação do material. Uma delas foi aprovada pelo presidente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Eduardo Bim, em 2019.

Essa regra impede que madeiras ilegais já comercializadas sejam apreendidas, caso o fiscal não consiga provar que o comprador tenha tido ciência da origem do produto ou tenha algum tipo de vínculo com a sua ilegalidade.

REGRA PERMISSIVA – Esse entendimento limita a capacidade de fiscalização, segundo a ex-presidente do Ibama Suely Araújo, pois os fiscais não têm as ferramentas para comprovar a ligação:

— Para comprovar esse vínculo, precisa de um processo judicial, de prova, de testemunha. O que a fiscalização assume é que a madeira ilegal precisa sair do mercado, e por isso deve ser apreendida.

Além disso, sem a apreensão do material, há uma dificuldade de a investigação chegar à origem da madeira ilegal, limitando a atuação contra a extração clandestina. A norma, ao não penalizar efetivamente o comércio da madeira ilegal, também não inibe o mercado.

LIBEROU GERAL – A segunda medida, adotada pelo Ibama em fevereiro do ano passado, afrouxou as regras para a exportação de madeira ao tirar a exigência da autorização especial concedida pelo instituto para enviar produtos florestais de origem nativa ao exterior.

A justificativa dada pelo órgão para a mudança é que outras autorizações para o transporte da madeira no país já eram suficientes para fazer o controle da ilegalidade.

A mudança, no entanto, contraria uma Instrução Normativa de 2011 e foi contra pereceres técnicos do Ibama.

IPÊ, ESPÉCIE AMEAÇADA – Já a terceira ação foi a retirada do pedido de inclusão do Ipê na lista internacional de espécies ameaçadas. Isso aconteceu no ano passado a pedido do Ministério do Meio Ambiente.

Em 2018, o Ibama havia feito uma solicitação à Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (Cites, na sigla original) para que a árvore fosse classificada.

Hoje, o Ipê é o tipo de madeira mais valorizado e cobiçado no mercado. Sem a classificação, é comercializado sem um controle rigoroso.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O ministro Ricardo Salles não tem autonomia para tomar essas decisões tão radicais e antiecológicas. Fica flagrante que a devastação do meio ambiente está sendo autorizada diretamente por Bolsonaro. É um assunto gravíssimo que também já merece uma CPI. (C.N.)

Bolsonaro diz a pastores que vai indicar André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal

O Presidente Jair Bolsonaro e o novo Ministro da Justiça e Segurança Pública André Mendonça durante sua cerimônia de posse, no Palácio do Planalto.

Mendonça bajula tanto que chega a constranger Bolsonaro

José Carlos Werneck

O presidente Jair Bolsonaro, infelizmente, parece que vai usar um critério heterodoxo para escolher o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal: o critério da religiosidade. Foi o que ele afirmou, nesta terça-feira, a líderes evangélicos, ao anunciar que o ministro da Advocacia-Geral da União, André Mendonça, é o favorito para substituir Marco Aurélio Mello, que, em julho próximo, se aposenta cinco dias antes de atingir a idade limite.

O pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que não é exatamente um expert em assuntos jurídicos, está eufórico e disse não ser a primeira vez que Bolsonaro dá robustos sinais de que indicará  André Mendonça para o Supremo. 

DISSE MALAFAIA – “Ele já tinha falado comigo no dia 15 de março, quando estive (no Palácio do Planalto) para propor um jejum e estava com oito líderes. Ontem (segunda-feira), ele confirmou, mais uma vez. Isso já é uma verdade e o André é favoritíssimo. Não tem para ninguém”.

O presidente da República recebeu pastores evangélicos e deputados da bancada em audiências esta semana. Na primeira delas, Mendonça estava presente. Malafaia é um dos representantes religiosos que mais cobram a  indicação de um evangélico para o STF. 

“Por que o presidente vai se queimar? O maior grupo de apoio dele são os evangélicos. Lembre-se: não fomos nós que pedimos isso. Ele fala isso desde a campanha eleitoral”, disse o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Mendonça pertence a uma igreja nova, sem templo próprio e vista por algumas denominações como “mais progressista”, por divergir do pensamento dominante no meio evangélico, considerado mais conservado.

SEM TEMAS POLÍTICOS – A Igreja Presbiteriana Esperança de Brasília, onde Mendonça  atua como pastor, evita temas políticos. Ele já manifestou reserva a iniciativas de Bolsonaro, como a defesa de armas de fogo, e discute abertamente como “apoiar, capacitar e emancipar as mulheres em espiritualidade, liderança e serviço”.

A exótica promessa  de indicar um ministro “terrivelmente evangélico” para o STF foi feita pela primeira vez,pelo presidente, em julho de 2019, num evento com a bancada  temática no Congresso Nacional, ocasião em que afirmou:. 

“O Estado é laico, mas nós somos cristãos. Ou, para plagiar minha querida Damares (Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos): nós somos terrivelmente cristãos. E esse espírito deve estar presente em todos os Poderes. Por isso, meu compromisso: poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal; um deles será terrivelmente evangélico”.

NUNES MARQUES – Um ano depois, indicou Kassio Nunes Marques para a primeira vaga aberta no tribunal,em seu mandato, com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. Nunes Marques não é evangélico e a escolha provocou muito descontentamento,entre os integrantes deste segmento religioso e muitos aliados do presidente foram às redes sociais para protestar, e isso só foi apaziguado com a promessa de indicar para a segunda vaga um evangélico.

Como se vê, além da pandemia, estamos vivendo momentos extremamente difíceis. Seria cômico, se não fosse trágico, e milhares de vidas não teriam sido perdidas se o presidente não fosse terrivelmente negacionista.

Mas tudo vai passar.

EUA querem se engajar com Brasil e acordo sobre clima é possível, diz analista norte-americano

Bolsonaro é ineficaz”, diz Ian Bremmer, especialista em prever crises | VEJA

Ian Bremmer, da Eurasia, diz que o acordo será monitorado

Caio Quero
BBC News Brasil

Os Estados Unidos querem um engajamento mais próximo com o governo brasileiro e é possível que a Cúpula de Líderes sobre o Clima, que o governo de Joe Biden organiza nesta semana, termine com um acordo pelo qual o Brasil receba dinheiro para auxiliar na preservação da Amazônia. A avaliação é do cientista político americano Ian Bremmer, presidente da consultoria de risco Eurasia e um dos analistas mais ouvidos por investidores internacionais e empresários em todo o mundo.

No entanto, reconhecendo os recordes de desmatamento registrados no Brasil, Bremmer afirma que qualquer liberação de recursos por parte dos EUA seria condicionada a progressos na preservação das florestas, que seriam cuidadosamente monitorados.

Como o mundo vê o Brasil hoje e como esta imagem é diferente da que o Brasil tinha antes? Qual imagem que o Brasil vende hoje para investidores e políticos ao redor do mundo?
Primeiramente, estamos no meio da pior crise que experimentamos em nossas vidas e o governo brasileiro está sendo visto como tendo administrado mal esta crise, como outros países do G20. Isto foi claramente uma ‘mancha’ importante para o Brasil.

Nesta semana, Bolsonaro vai participar da Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada pelo governo Biden. O governo brasileiro espera receber recursos e investimentos da ordem de US$ 1 bilhão para preservar a Amazônia, enquanto os EUA estão sendo pressionados por ativistas a não fazer um acordo com o governo Bolsonaro. O senhor acha é possível um acordo pelo qual o Brasil receba recursos para proteger a Amazônia?
Eu acho. Eu penso realmente que está havendo progresso na relação Estados Unidos-Brasil agora. Os Estados Unidos não foram o melhor líder em termos de políticas relacionadas ao clima, com idas e vindas. Então, John Kerry (enviado especial do governo americano para o clima) e Biden podem dizer que os Estados Unidos estão de volta, mas muitos países do mundo não estão tão convencidos. Enquanto isso, o Brasil lidera o mundo em termos de desmatamento, o que é algo horrível. Mas, historicamente, a maior parte das emissões de carbono e a maior parte do desmatamento foi feita pelos países ricos. Então, se você for um país de renda média, como o Brasil, e os países ricos vêm e dizem que você tem que cuidar do clima, é compreensível que você diga, “vocês é que são responsáveis por destruir o clima e vocês têm muito mais dinheiro, o que vão fazer para nos ajudar?”. Eu não acho que isso seja hipócrita.

A Índia está na mesma situação, por exemplo. Eles estão preparados para um acordo agressivo de emissão zero de carbono, mas somente se os países ricos estiverem preparados para dar subsídios significativos.

John Kerry escreveu no Twitter que queria ver ações práticas por parte do Brasil antes de qualquer tipo de ajuda. O senhor acha que os Estados Unidos irão acreditar nas promessas do governo Bolsonaro? Porque, ao mesmo tempo em que Bolsonaro prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2030, seu ministro do Meio Ambiente está sendo acusado de apoiar madeireiros ilegais. Os Estados Unidos e a comunidade internacional vão acreditar nas promessas de Bolsonaro?
Há muita corrupção no Brasil, houve e ainda há. E não há tanta transparência quanto gostaríamos. E nós entendemos que o nível extraordinário de desmatamento é algo que tem um componente econômico atrelado. E os criadores de gado e fazendeiros estão muito envolvidos e os militares não foram tão construtivos em mudar isso como gostaríamos. Eu acho que se vier dinheiro significativo por parte dos Estados Unidos, e se este dinheiro for condicionado, isto vai requerer um nível de confirmação (de não desmatamento) em campo e com satélites antes que este dinheiro seja liberado. Eu não acho que será apenas uma questão de confiança cega, eu acho que haverá verificações e acho que os dois lados vão entrar nisso com os olhos abertos.

Esta cúpula é de longe o mais importante esforço multilateral e diplomático até agora do governo Biden, e o Brasil é um componente significativo dele. Se você estava me perguntando se haverá progresso, a resposta é sim, eu acho que haverá progresso. Mas colocar em prática este progresso ainda será uma tarefa complicada.

Voltando à pandemia, o senhor disse que o modo como o governo Bolsonaro está lidando com ela é, no mínimo, problemático. O senhor acha que pode haver consequências internacionais políticas e econômicas por isso? Sanções, proibições de viagens, boicotes?
Não, eu não vejo boicotes. O fato é que o Brasil é uma destinação turística de nível mundial, qualquer um que tenha ido ao Rio sabe que é um lugar único. E o povo brasileiro é extraordinário, hospitaleiro e cosmopolita. Então, este é um lugar para onde você quer ir. Quando nós abrimos nosso primeiro escritório no Brasil, em São Paulo, não posso lhe dizer como me deixou feliz, por que me dava uma desculpa para viajar.

Mas eu não vou ao Brasil agora. Vocês têm milhares de pessoas morrendo todos os dias. E isto não deve melhorar tão cedo, já que vocês não têm um nível de vacinação como há nos EUA ou em outros países, como o Chile.

Segunda Turma do STF decide que Vara de Curitiba não pode julgar Guido Mantega na Lava Jato

Julgamento foi marcado por críticas de Gilmar e Lewandowski à operação

André de Souza
O Globo

Por três votos a dois, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) negou recurso da Procuradoria-Geral da República (PGR) e manteve a anulação de decisões tomadas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Operação Lava-Jato, em processo envolvendo o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Na avaliação da maioria, o caso não tem relação com a Petrobras, foco da Lava-Jato. O julgamento foi marcado por várias críticas à operação, em especial por parte dos ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski.

DECISÕES ANULADAS – Gilmar, que é o relator do processo, já havia determinado que a ação deveria seguir na Justiça Federal de Brasília, anulando assim as decisões de Curitiba. Em Brasília, o novo juiz responsável pelo caso veio a rejeitar em dezembro do ano passado a denúncia feita pelo Ministério Público contra Mantega. Assim, na prática, na decisão tomada hoje, a Segunda Turma do STF permite que a ação contra o ex-ministro continue arquivada.

“A empresa Braskem e não a Petrobras teria sido a figura central dos fatos imputados ao reclamante [Mantega] na ação penal, e aquela empresa seria a principal beneficiária do acerto de corrupção e também teriam provido dela, segundo a denúncia, os recursos que geraram crédito de R$ 50 milhões para Guido Mantega o que sugere o conhecimento e a participação ativa dele no crime. A única relação que se pode cogitar entre as empresas reside no fato da Petrobras possuir participação acionária na Braskem, sem qualquer relação de controle acionário. Tal circunstância, no entanto, não tem o condão de estabelecer um liame entre os fatos investigados na ação penal aqueles objeto das apurações das ações da operação lava jato”, disse Gilmar.

Ele foi acompanhado por Lewandowski e por Kassio Nunes Marques. Votaram para aceitar o recurso da PGR os ministros Edson Fachin e Cármen Lúcia.

CRÍTICAS – Gilmar aproveitou o julgamento para criticar o delegado Felipe Alcantara de Barros Leal, ex-chefe do Serviço de Inquéritos (Sinq) da Polícia Federal (PF). Em relatório, o policial disse não ser possível “presumir” a autenticidade e integridade dos diálogos trocados entre procuradores da Lava-Jato pelo aplicativo de mensagens Telegram, obtidas por meio de ataque hacker. E afirmou que constitui abuso de autoridade usá-los em investigações, por se tratar de provas ilícitas.

As mensagens fazem parte o material apreendido pela Operação Spoofing, que teve como alvos os hackers autores do ataque. Elas mostram conversas em que o então juiz Sergio Moro orienta os procuradores responsáveis pela acusação, o que demonstraria sua parcialidade na condução dos processos.

“Recentemente até um delegado, a pedido de um procurador, parece que fazendo um tipo de ação combinada, dizia: essas provas são ilícitas, não podem ser usadas. De fato, não podem ser utilizadas. Pelo menos não podem ser utilizadas para condenar ninguém. Mas até agora não apareceu ninguém para dizer que esses diálogos não ocorreram. Eu até já brinquei aqui com os senhores dizendo que esses hackers talvez mereçam um prêmio de notáveis ficcionistas por inventarem tudo isso. Se non è vero, è ben trovato”,  disse Gilmar.

Em discurso moderado, Bolsonaro prometerá  intensificar operações contra desmatamento

O fim de Bolsonaro - Extra Classe

Bolsonaro se reuniu com ministros para traçar estratégia

Gustavo Uribe e Ricardo Della Coletta
Folha

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) adotará um discurso moderado e sinalizará ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, que expandirá, em curto prazo, o volume de operações contra o desmatamento na floresta amazônica.

O presidente já escreveu o esboço do seu discurso, no qual voltará a se comprometer com o fim do desmatamento ilegal no Brasil até 2030 e convidará nações estrangeiras a ajudar no combate a queimadas com a injeção de recursos.

MAIS VERBAS – Na sua fala, segundo assessores palacianos, o presidente indicará aumento, ainda neste ano, da previsão orçamentária do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e do ICMBio (Instituto Chico Mendes), órgãos federais de fiscalização ambiental.

A ideia é que o montante seja investido em equipamentos e veículos. Segundo auxiliares do Palácio do Planalto, o Ministério do Meio Ambiente deve enviar nos próximos dias um pedido oficial à pasta da Economia. O valor e o modelo do aporte ainda não foram definidos.

Os técnicos do governo ainda avaliam se o dinheiro virá por abertura de crédito extraordinário ou por remanejamento orçamentário. O Meio Ambiente já tem um pedido ordinário ao ministério da Economia de recomposição orçamentária que ainda não foi atendido.

MAIS FISCALIZAÇÃO – O presidente sabe que uma das principais demandas das autoridades estrangeiras é o aumento dos quadros do Ibama e ICMBio.

Mas conselheiros do mandatário destacam que concursos para essas entidades levam tempo e que, portanto, eles não devem contribuir para os resultados que o Brasil precisa apresentar no curto prazo. ​

Eles também ressaltam que Bolsonaro terá pouco tempo para falar e que a mensagem principal do Brasil deve ser genérica e similar à carta enviada por Bolsonaro a Biden na semana passada. A previsão é de que o presidente utilize o tempo para falar de iniciativas futuras, sem fazer uma autocrítica.

OS “CONSELHEIROS” – O discurso de Bolsonaro foi debatido em reunião, nesta segunda-feira, entre o presidente e os ministros Carlos França (Relações Exteriores), Ricardo Salles (Meio Ambiente), Tereza Cristina (Agricultura), Fábio Faria (Comunicações) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil).

Para compensar o déficit de servidores públicos nas entidades fiscalizadoras, o presidente avalia, como revelou a Folha na semana passada, manter forças militares para combater crimes ambientais na floresta amazônica.

A reedição de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para o período de seca no bioma florestal foi discutida na quinta-feira (15) em reunião entre o vice-presidente Hamilton Mourão e os ministérios do Meio Ambiente, da Agricultura, da Justiça e da Defesa.

PRESENÇA MILITAR – A ideia é que as forças militares permaneçam na floresta amazônica até novembro, quando recomeça o período de chuvas. O formato e o tempo da iniciativa devem ser discutidos na próxima semana entre técnicos do governo e comandantes militares.

O debate em torno da reedição de uma GLO representaria um recuo nos planos do governo, que anunciou oficialmente a saída dos militares dessas operações a partir de 1º de maio.

O Brasil enfrenta uma crise internacional na área do meio ambiente por conta do aumento do desmatamento na Amazônia, da recente onda de incêndios no pantanal e do histórico de declarações de Bolsonaro.

ATAQUES ÀS ONGS -O presidente já atacou ONGs que atuam na preservação da floresta e é crítico de lideranças indígenas. Ações de países estrangeiros sobre o tema, por sua vez, foram no passado rechaçadas por Bolsonaro por serem, na visão do mandatário, uma interferência na soberania do Brasil sobre o bioma.

De acordo com o Deter, sistema de monitoramento de desmate do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a redução da floresta mensal na Amazônia voltou a crescer em março e bateu o recorde para o mês.

Os dados apontam 367,61 km² de desmatamento. O recorde anterior pertencia a 2018, com 356,6 km² destruídos, seguido por 2020, com 326,49 km² derrubados.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
Há momentos em que tenho até pena de Bolsonaro. Ignorante, despreparado e vaidoso, vai fazer papel ridículo na importantíssima reunião internacional. Ninguém o levará a sério, é mesmo um político que faz pena. (C.N.)

Collor diz “terceira via vai ser moída” com Lula e Bolsonaro em 2022

Ex-presidente afirma que ‘polarização já está posta’

Daniel Weterman
Estadão

Com a experiência de ter sido aliado do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e hoje próximo a Jair Bolsonaro, o ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PROS-AL) avalia não haver espaço para uma “terceira via” nas eleições de 2022. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Collor afirma que qualquer candidatura de centro que tente se contrapor à polarização entre o petista e o atual presidente será “triturada” na disputa.

O senador diz considerar a aliança do governo federal com o grupo de partidos que formam o Centrão como sólida, e garante que ela não deve ser rompida nas eleições, mesmo com o impasse em torno do Orçamento de 2021. Alvo de um processo de impeachment após uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso, o senador afirma que a CPI da Covid no Senado tem o potencial de deixar Bolsonaro “combalido”, mas não deve resultar na queda do atual chefe do Planalto.

O sr. se coloca entre os que defendem uma alternativa para a polarização entre Bolsonaro e PT em 2022?
Terceira via existe na literatura. Na prática política, isso não existe. Sobretudo agora, com a possibilidade de elegibilidade do ex-presidente Lula, claramente a polarização já está posta: o PT, com o seu candidato, no caso, o Lula, e o candidato à reeleição, que é o presidente Bolsonaro. Terceira via vai ser moída. Se essas duas forças estiverem se contrapondo em 2022, qualquer candidatura que se imiscua entre eles vai ser triturada. Quem pensar em terceira via é um sonho de uma noite de verão.

O sr. acredita que o Centrão pode ir com o Lula?
Que pergunta (risos). Não. O Centrão já marcou sua posição. Não vejo como o Centrão sair da posição em que ele se encontra. Mas, daqui para a eleição de 2022, é uma eternidade. Muita coisa pode acontecer. Com base no que hoje temos em mão para analisar, o Centrão está perfeitamente afinado com o presidente da República e vem dando demonstrações inequívocas disso.

O Lula sofreu uma injustiça na Lava Jato, como ele alega?
Sem dúvida que sim. O ex-juiz Sérgio Moro foi um crápula no comportamento em relação ao ex-presidente Lula. As conversas vazadas demonstram que o comportamento dele foi de um personagem como esse.

Depois de se aproximar de Lula e de Bolsonaro durante os respectivos governos, o senhor tem lado nessa briga no ano que vem?
Estou hoje apoiando o presidente Jair Bolsonaro para que ele consiga sair dessas dificuldades pelas quais está passando e que possa concluir o mandato para o qual foi eleito em 2018.

Na semana passada, o senhor falou que não interessa à população neste momento saber quem desviou recursos. Isso significa colocar eventuais erros debaixo do tapete ou a CPI pode atrapalhar o combate à pandemia?
Faltou você citar a palavra oportunidade. A população não está interessada hoje em saber quem desviou isso ou aquilo, mas está interessada na questão da saúde. Esta não é a oportunidade para que a CPI seja realizada. Ela pode ser realizada depois de terminada, se Deus permitir, a pandemia. Nossas forças devem estar todas elas concentradas no combate à covid. Esse é o grande inimigo a ser enfrentado no presente momento. Desvios precisam ser averiguados? Sim. Esta é a oportunidade? Não. Porque isso vai desviar o foco.

O sr. acredita que CPI tem um propósito de atingir Bolsonaro ou até mesmo derrubá-lo do cargo?
A intenção velada é, sem dúvida nenhuma, atingir o presidente da República. No meu entender, essa é a finalidade precípua de quem pediu a instalação de uma CPI para tratar da questão da covid no momento.

Atingir o presidente em que nível, até que ponto e com qual ação?
Atingir é deixá-lo combalido, sem o ânimo necessário que é preciso que o chefe da nação tenha no presente momento para coordenar as ações de combate à pandemia que nos assola. Naturalmente, ele vai ficar dividido nas suas atenções entre as que são devidas obrigatoriamente por todos nós de enfrentar o vírus e a de enfrentar uma CPI que foi criada com essa intenção velada, até o momento, de atingi-lo e que irá, sem dúvida nenhuma, atingi-lo. Isso, no mínimo, o deixará dividido entre sua defesa e a defesa da população, que precisa estar protegida com vacinas, vacinas e mais vacinas para afastar de vez de nós essa pandemia.

O sr. enfrentou uma CPI que culminou no impeachment logo em seguida. Pode acontecer a mesma coisa com Bolsonaro?
No caso da minha, foi uma comissão mista constituída por deputados e senadores. O Senado não tem dentre as suas prerrogativas a de levar adiante um processo de impeachment. Essa é uma prerrogativa da Câmara dos Deputados. Essa CPI do Senado, que tem a intenção velada – e daqui a pouco tempo será desvelada – de atingir o presidente da República, se chegar a um processo de impeachment, terá que passar pela Câmara. Não precisaria dessa CPI. Já tem mais de cem solicitações de impeachment na mesa do presidente da Câmara. Se isso acontecer, será mais um.

Há ambiente político para um processo de impeachment hoje?
Não vejo ambiente político nem popular, que são dois fatores que devem estar conjugados para que um impeachment possa ser levado adiante, salvo melhor juízo.

O então senador Amir Lando encerrou o relatório final da CPI do PC Farias, que investigou seu governo, citando o versículo bíblico usado frequentemente por Bolsonaro ‘conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’. A frase pode se voltar contra o presidente?
Não vou especular sobre isso.

O Senado pode dar respaldo a uma fritura do presidente Bolsonaro na CPI?
O Senado é muito dividido hoje. Não é fácil dizer qual seria a posição do plenário ao analisar um relatório saído da CPI da covid-19.

A investigação de verbas federais pode atingir governadores?
Em tese, sim, porque CPI a gente sabe como começa mas não sabe como termina. Você leu agora há pouco o título que ensejou a CPMI criada contra o PC Farias, que acabou se transformando em uma CPMI contra o meu governo e contra a minha pessoa. Se houve algum desvio de recursos públicos federais enviados para entes federados, quem responde, em última análise, é o governador. Por mais que os governadores não possam ser atingidos de forma legal por essa CPI, ela não deixa de moralmente atacar fortemente os governadores.

A aliança de Bolsonaro com o Centrão é suficiente para mantê-lo no poder até o fim do mandato e tentar a reeleição?
Eu acho que sim. Eu não sou aliado de A ou de B. Eu sou aliado do Brasil e da governabilidade. Sou aliado de que o governo possa ter condições de levar adiante o seu programa de governo de acordo com o que foi consagrado nas urnas. O presidente continua com sua base de sustentação hígida e isso garante que ele não tenha nenhuma preocupação com sua base, a não ser que surjam fatos supervenientes de extrema gravidade.

O impasse no Orçamento ameaça a aliança de Bolsonaro com o Centrão? Sancionar o Orçamento é uma armadilha para ele ser acusado de crime de responsabilidade?
Não acredito nisso. A simples sanção do Orçamento não chama o crime de responsabilidade. Isso tudo vai se chegar a um bom termo, a um bom entendimento, como sempre. Essa questão de Orçamento anualmente é uma briga constante entre aqueles que são a favor de uma austeridade fiscal e aqueles que entendem que o investimento do Estado é fundamental para a recuperação da economia, sobretudo em um momento como este de retração.

O teto de gastos precisa ser revisto?
Eu sou a favor do teto de gastos, mas sou a favor também que o Estado brasileiro precisa envidar todos os esforços para dar assistência à população mais vulnerável que está sofrendo terrivelmente com essa pandemia, passando fome, desempregada, endividada. O Estado deve continuar fazendo a mesma coisa ou até maior do que fez na primeira fase da pandemia.

Em reunião com empresários, Bolsonaro diz que “não teme” CPI da Covid e critica governadores

No evento, houve cobranças em relação ao tema meio ambiente

Pedro Venceslau
Estadão

Em mais um esforço para se aproximar do setor produtivo, o presidente Jair Bolsonaro convocou dez ministros nesta terça-feira, dia 20, para a sua primeira reunião do ano com empresários do ‘Diálogos pelo Brasil’, grupo criado pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, para mediar a relação do setor com o governo federal.

No último dia 7, Bolsonaro participou de um jantar em São Paulo com cerca de 20 empresários na casa do empresário Washington Cinel, dono da empresa de segurança Gocil. O evento desta terça-feira, 20, foi realizado por videoconferência e contou com a presença de 40 grandes empresários e executivos do País. Entre eles estavam  Abílio Diniz (Península), André Bier Gerdau Johannpeter (Gerdau), André Esteves  (BTG Pactual), Wesley Batista Filho (JBS), Rubens Ometto (Cosan) e Luiz Carlos Trabuco (Bradesco).

CPI DA COVID – Segundo relatos de participantes, em sua fala o presidente fez uma crítica indireta aos governadores ao reclamar do “abre e fecha” do comércio, elogiou o ministro da Economia, Paulo Guedes, e disse que “não teme” a CPI da Covid no Senado. Bolsonaro também exaltou as ações do governo federal contra a pandemia após o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, dizer que cerca de 900 mil kits para intubação de pacientes graves com covid-19 chegarão ainda nesta semana ao País, importados da Espanha.

O ministro da Saúde fez a fala mais longa da reunião. Queiroga  disse aos empresários que prevê “um horizonte melhor” de vacinação entre maio e junho e defendeu que é preciso encontrar uma solução para evitar aglomerações no transporte público – uma prerrogativa dos Estados e municípios. O ministro também pregou o distanciamento social e uso de máscaras, mas afirmou que um novo protocolo para uso de medicamentos do “kit covid” nos hospitais será anunciado em breve. Defendido por Bolsonaro, o tratamento precoce contra a covid não tem base científica.

“DEMANDAS” – Todos os ministros presentes fizeram uma pequena apresentação sobre suas pastas e Skaf foi o único a falar em nome dos empresários. O presidente da Fiesp apresentou uma lista com três “demandas” do setor, combinadas previamente em um grupo de WhatsApp: ampliação e aceleração da vacinação, reforma administrativa e um bom ambiente econômico.

No momento que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é alvo de notícia-crime do ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas Alexandre Saraiva, pelo suposto a madeireiros investigados pela PF, e na véspera do início da Cúpula do Clima nos EUA, o tema ambiental também foi uma preocupação dos empresários. Skaf pediu uma outra reunião nesta quarta-feira, 21, específica sobre o tema. Além de Salles, a ministra da Agricultura,  Tereza Cristina, e o embaixador Leonardo Athayde, negociador da agenda do clima, vão falar com os empresários.

RECORDES – Tereza Cristina, destacou que o Brasil vem batendo seguidos recordes em suas safras. “Teremos este ano o fechamento da safra com mais de 272 milhões de toneladas. E muito provavelmente o presidente Jair Bolsonaro vai chegar ao seu último ano de mandato bem próximo dos 300 milhões de toneladas”, afirmou a ministra da Agricultura.

O ministro Carlos França disse que está trabalhando pela modernização do Mercosul, ao reforçar a vertente econômica comercial do bloco, com impulso à negociação de acordos comerciais como o da União Europeia e com outros países ao redor do mundo. “Temos atuado no sentido de facilitar a compra de insumos para a vacina e o imunizante pronto, a fim de que possam estar disponíveis para atender a população brasileira o mais rápido possível”, afirmou.

Também participaram do encontro virtual o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos e o secretário de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha.

Generais Pujol e Azevedo garantem veto a golpe militar para implantar ditadura no País

Reação dos generais é uma gélida ducha na disposição de extremistas

Pedro do Coutto

Na solenidade alusiva ao Dia do Exército, em Brasília, nesta segunda-feira, o general Edson Pujol  afirmou enfaticamente que o Exército brasileiro é leal à Constituição e à democracia, repetindo o termo utilizado pelo general Fernando Azevedo e Silva quando anunciou sua saída do Ministério da Defesa. Na ocasião, Azevedo disse que preservou “as Forças Armadas como instituição de Estado”. Pujol disse que a data comemorava a renovação do compromisso “da instituição de Estado secular”.

Portanto, ambos rechaçaram a manifestação simbólica de domingo quando apoiadores de Jair Bolsonaro saíram às ruas e concentraram-se na Esplanada dos Ministérios, caminhando com cartazes nos quais pediam pelo golpe militar e a instauração de uma ditadura no Brasil “com Bolsonaro no poder”. Sem dúvida, um movimento em favor de uma ruptura capaz de promover um golpe militar, como foi o caso do Ato Institucional nº 5, não deixa de ser uma vontade pouco oculta do atual presidente da República.

SUBVERSÃO – Tanto, que se condenasse tal movimento subversivo, Bolsonaro teria publicamente desmentido e não aceitaria confraternizar-se com eles em frente ao QG do Exército na capital do país. Acentuo que o fato ocorrido em frente ao Forte Apache contra o Supremo e o Congresso Nacional foi repetido no final da semana e não provocou nenhuma reação do chefe do Executivo.

A reação dos generais que até há pouco ocupavam os cargos de ministro da Defesa e comandante do Exército, representa uma gélida ducha na disposição minoritária de radicais da extrema direita que não conseguem viver na democracia. São exaltados, não têm visão alguma da política e do que ela representa em matéria de instrumento do progresso e do equilíbrio institucional de um país como o Brasil.

A partir de hoje, quarta-feira, como reflexo do que assinalaram os jornais, o panorama militar e o universo político passaram a respirar uma nova realidade. Principalmente os deputados e senadores, entre os quais se incluem alguns extremistas que, se pensarem bem, vão se lembrar do que aconteceu em consequência do Ato nº 5, incluindo o fechamento das duas Casas do Poder Legislativo.

ORÇAMENTO – Danielle Brant, Renato Machado e Bernardo Caram, Folha de São Paulo, destacam com grande precisão os atendimentos realizados na segunda-feira, entre o governo, deputados e senadores, sobre modificações no Orçamento para este ano, superando assim, inicialmente, os impasses que vinham impedindo um acordo muito necessário para a administração do país.

O país não pode caminhar sem um Orçamento definido, apesar de ser esta uma peça mais de ficção do que de realidade. As modificações que entraram em vigor recentemente na legislação mudaram a face da Lei de Orçamento. Ela passou de uma peça autorizativa, para uma peça impositiva, como é o caso das emendas parlamentares.

Pela vontade de Paulo Guedes, mais uma vez derrotado pela articulação política, as emendas não seriam sancionadas, mas sim vetadas e o teto orçamentário não seria furado, como vai ser, por uma série de dispositivos encaixados na redação final da matéria. Diante disso, lembro do poema de Carlos Drummond de Andrade em que o personagem principal pergunta: ” E agora, José?”. Traduzo, “E agora, Paulo Guedes?”.

INFLUÊNCIA ELEITORAL – As emendas dos parlamentares significam uma soma no valor de R$ 18,5 bilhões, e referem-se a obras indicadas por senadores e deputados para atender, pelo que se presume, legítimas reivindicações de suas áreas de influência eleitoral. Paulo Guedes era contra, mas agora ficou sem ter o que dizer.

De outro lado, também foi excluído do teto de gastos o Programa Nacional de Apoio às Micro e Pequenas empresas. Igualmente saiu do teto de gastos o Programa de Manutenção de Empregos através do repasse de recursos do Tesouro às unidades industriais de pequeno porte. Os créditos extraordinários foram igualmente autorizados.

DÍVIDA – O governo comprometeu-se a evitar o crescimento da dívida pública. Essa, eleva-se hoje a R$ 5,7 trilhões sobre a qual incidem juros anuais de 2,75%, conforme decisão do Banco Central. O total da Lei de Orçamento, a meu ver, é um pouco superior a R$ 3,6 trilhões. Isso porque pela lei em vigor, os orçamentos anuais são reajustados pela inflação do ano do exercício anterior. Com base no IPCA do IBGE o índice inflacionário de 2020 foi de 6,1%.

Não vejo motivo para que tanto o governo quanto os jornalistas que cobrem o setor da Economia não encaixem em suas matérias os números absolutos sobre os quais as percentagens incidem. Focalizar apenas a taxa percentual não reflete a dimensão verdadeira dos fatos.

MEIO AMBIENTE – Henrique Gomes Batista, O Globo, publicou ontem matéria a respeito do fórum do Meio Ambiente convocado pelo presidente Joe Biden para amanhã e sexta-feira em relação ao qual o governo brasileiro encontra-se em péssima situação. Henrique Gomes Batista relaciona os múltiplos problemas criados por fatos e também omissões do ministro Ricardo Salles, condenado por todos os lados, objeto inclusive de uma representação do procurador Lucas Furtado ao TCU, pedindo o envio de uma notificação ao governo defendendo a demissão imediata de Salles.

Aliás, a demissão do ministro está se tornando, ou já se tornou, uma reivindicação nacional e também internacional, pois representantes dos 40 países que se reúnem amanhã em torno das telas da internet estão perplexos com o comportamento extremamente negativo do titular do Meio Ambiente.

Até o cantor Caetano Veloso se manifestou condenando a permanência de Ricardo Salles. Na segunda-feira, a jornalista Miriam Leitão em seu espaço no O Globo praticamente arrasou o ainda ministro, relacionando os principais problemas de grande vulto que ele vem causando ao governo Bolsonaro e, sobretudo, ao País. Outro dia escrevi que a única saída de Bolsonaro é demitir Ricardo Salles, mas como não ocorreu até agora, acho que vão acabar saindo juntos, o presidente da República e o antiministro do Meio Ambiente.

PETROBRAS –  Ao assumir a Presidência da Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna afirmou que vai prosseguir na paridade do preço do petróleo em relação ao qual são fixados os valores da gasolina e do óleo diesel. Francamente não creio que ele mantenha a política de Castello Branco, pois se fosse para manter a mesma diretriz,  por qual motivo Bolsonaro teria para investi-lo no comando da Petrobras?

A paridade de preços com o mercado internacional não faz sentido porque tal situação depende do câmbio e os consumidores brasileiros não têm os seus salários reajustados baseados na oscilação do dólar. Portanto é impossível que os proprietários de automóveis possam absorver aumentos seguidos como esses que Castello Branco deixou como legado na empresa estatal. Basta dizer que de janeiro a abril deste ano, o preço da gasolina subiu 41% e o preço do óleo diesel, 27%.

FUNDOS  – Uma reportagem de Aline Bronzati e Altamiro Silva Júnior, o Estado de São Paulo, ontem, matéria com grande destaque, anunciando que os bancos Itaú e Bradesco que competem no mercado interno resolveram lançar fundos para captação de recursos junto à empresas chinesas.

Essa decisão dos dois maiores bancos do país vai ao encontro de projetos chineses direcionados principalmente para o setor de produção e transmissão de energia elétrica. Uma das empresas chinesas é a State Grid. Alguns ex-dirigentes de Furnas, por exemplo, já se encontram trabalhando em parceria com a constelação econômica iluminada pela China.

ATAQUES A RENAN –  No O Globo, Amanda Almeida coloca em destaque a reação de deputados que apoiam Jair Bolsonaro contra a indicação de Renan Calheiros para relator da CPI que vai investigar os erros e as enormes omissões do Ministério da Saúde, no que se refere ao combate frontal com a pandemia, com mais de 370 mil mortes que poderiam ser evitadas se o ministro Mandetta permanecesse no cargo e  Pazuello não tivesse assumido.

Pazuello terá que dar explicação dupla à CPI: depõe como testemunha, pois era secretário executivo de Nelson Teich, e é acusado pela forma com que exerceu, posteriormente, o cargo ministerial. Renan Calheiros vem sendo atacado intensamente nas redes sociais por adeptos de Bolsonaro, entre os quais a deputada Carla Zambelli, aquela que chegou a propor a Sergio Moro mudar o seu comportamento no Ministério da Justiça e aguardar a nomeação para o STF.

A meu ver, quanto mais for atacado pelo bolsonarismo, melhor para Renan. Sob uma chuva de agressões, ele vai obtendo espaço maior junto aos jornais e emissoras de TV.

“Vou Renovar” – uma canção de Sérgio Ricardo que satirizava a ditadura militar em 1973

Sérgio Ricardo morreu em 2020, aos 88 anos

Paulo Peres
Poemas & Canções

 
O cineasta, artista plástico, instrumentista, cantor e compositor paulista João Lutfi (1932-2020), que adotou o pseudônimo de Sérgio Ricardo, na letra da música “Vou Renovar” faz uma sátira à política então vigente no pais, desde 1964, com a instauração da ditadura militar. A música faz parte do LP Sérgio Ricardo lançado, em 1973, pela Continental.

VOU RENOVAR
Sérgio Ricardo

Vou renovar
Sou um cantador da classe média
E trago por satisfação
Cantar para o ser humano
Que me ouve com atenção
Do que eu vejo todo dia
Faço verso e melodia
Pra poder ganhar meu pão


Vou renovar
Canto para a classe A
Canto para a classe B
Cantoria popular
Que não é A nem B
Cuja fonte está no povo
Onde eu vou buscar o novo
E aprender meu B-A-BA

Vou renovar
Porque é que eu fui classificar
Já está dando uma embolada
Eu me embolei no A com B
Me embolei no B com A
Mas me diga onde é que está
A classe do A sem B

A classe do B sem A
Não me diga que ela é C
Porque C é “colunista”
E vai dar muito na vista
E os homens vão te apanhar


Vou renovar
No rompante da embolada
Deu-se a classificação
Mas vou me livrar do fato
Concluíndo a falação
Pra ficar tudo onde está
Eu não me chamo Benedito
E fica o dito por não dito
E o dito por não falar

Bolsonaro poderia se sair bem na Cúpula do Clima, mas não tem preparo intelectual ou moral

charges – Terceira Margem

Charge do Duke (Arquivo Google)

Carlos Newton

Quando criou Eremildo, o Idiota, o jornalista e historiador Elio Gaspari jamais poderia imaginar que esse personagem de ficção pudesse ganhar corpo e até vir a ocupar a Presidência da República. Mas o fato realmente aconteceu e agora o Brasil e o mundo acompanham atentamente as aventuras do estranho personagem – alguns, como muita preocupação; outros, de forma divertida, achando graça nas trapalhadas do presidente.

Aliás, não é a primeira vez que alguém chega a governar o país sem ter a menor condição de ocupar o cargo. Na minha opinião, isso aconteceu com Delfim Moreira, que teve problemas psiquiátricos, Jânio Quadros, com os mesmos sintomas, Lula da Silva, que era corrupto, mas tinha delírios e se dizia o homem mais honesto do mundo, e Dilma Rousseff, que via um cachorro atrás de cada criança. Realmente, nenhum deles passaria num mero teste psicológico, que deveria ser exigido a todo governante.

MINISTROS DE NÍVEL – A diferença entre Jair Bolsonaro e esses antecessores era a existência de ministros que poderiam assessorá-los a contento, enquanto na atual gestão o Planalto se transformou num deserto de homens e ideias, como dizia Oswaldo Aranha, um estadista de verdade.

Se não fosse ignorante até a décima geração e se não estivesse cercado por outros idiotas, o presidente Eremildo, digo, o presidente Bolsonaro. poderia surpreender os demais governantes que formam essa Cúpula do Clima.

Bastaria que explicasse a eles que o Brasil tem a mais moderna e avançada legislação ambiental do mundo, que deveria ser adotada pelo concerto das nações, para garantir o equilíbrio ecológico do planeta.

VISÃO ERRÔNEA – Se não fosse idiota, Eremildo diria a eles que não adianta nenhum agricultor desmatar áreas na Amazônia, porque só pode usar 20% delas, os restantes 80% têm de ser obrigatoriamente preservados. Na região do Cerrado, 30% da extensão das propriedades rurais têm de ser mantidos como reserva florestal. E no resto do país a preservação cai para 20% das áreas agrícolas.

Eremildo diria também que só em São Paulo, a área recuperada nos últimos anos já é equivalente à extensão de todas as reservas ambientais do Estado. Ou seja, no Brasil, a preservação ambiental está garantida, só é preciso haver fiscalização.

Ao receber essa informação, os governantes que participam da Cúpula do Clima certamente ficariam surpresos e dispostos a ajudar o Brasil, inclusive financeiramente, como Bolsonaro pretende.

Mas é aí que a porca torce o rabo, como se dizia antigamente, porque o governo Bolsonaro acaba de conseguir que a fiscalização ambiental simplesmente pare de existir.

SEM FISCALIZAÇÃO – Às vésperas da Cúpula do Clima, servidores do Ibama denunciam que a fiscalização ambiental está paralisada, devido a uma instrução normativa imposta pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

A nova regra obriga que a multa aplicada pelos fiscais passe antes pela autorização de um superior. Com isso, a fiscalização fica automaticamente desativada e as mais modernas leis ambientais do mundo estão sendo atiradas no lixo pelo governo do presidente Bolsonaro, que nesta quinta-feira será recebido na Cúpula do Clima como se fosse o idiota que realmente é.

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P.S. –
Dá para imaginar a satisfação do presidente francês Emmanuel Macron, ao encontrar Bolsonaro nessa posição de inferioridade e submetido ao repúdio internacional. Em 2019, Bolsonaro humilhou Macron ao dar declarações ridicularizando a primeira-dama francesa, algo jamais visto na diplomacia internacional.  Nesta quinta-feira, Macron começa a sentir o doce gosto da desforra. (C.N.)

Guedes transformou-se em um engodo para se manter no poder e garantir a reeleição de Bolsonaro

Resultado de imagem para guedes charges

Charge do Davilson (Arquivo Google)

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Mesmo entre técnicos da equipe econômica, é grande a decepção com o ministro da Economia, Paulo Guedes,. Os mais críticos dizem que Guedes transformou-se em um engodo para se manter no poder. O atual desapontamento com o ministro vem do Orçamento de 2021, que abriu espaço para gastos de cerca de R$ 125 bilhões fora das regras fiscais.

Por mais que Guedes queira se distanciar desse orçamento paralelo, inaceitável em um país sério — o que não é o caso do Brasil —, está claro para a equipe dele e para analistas de mercado, que tudo foi feito com o aval do ministro.

TUDO PELA REELEIÇÃO – Para os técnicos, Guedes rasgou toda a cartilha liberal que sempre defendeu para abrir espaço a gastos que têm como objetivo reeleger o presidente Jair Bolsonaro.

O Orçamento que saiu do Congresso agride todo o bom senso da gestão fiscal. Por pressão dos técnicos, ainda se tentou corrigir o máximo possível de distorções, mas a política falou mais alto. O governo, com Guedes à frente, preferiu mexer na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para abrir espaço a mais despesas e preservar de cortes as emendas de parlamentares.

Depois que o Orçamento foi aprovado, Guedes, a despeito de todos os acordos políticos que fez com os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, adotou um discurso fiscalista, tentando reverberar a indignação da equipe econômica. Mas foi falando cada vez mais fino depois que se viu ameaçado de perder o cargo.

AMEAÇA CLARA – Lira e Pacheco deixaram claro ao ministro e ao chefe dele, o presidente Jair Bolsonaro, que pagariam caro se o acordo que levou à aprovação do Orçamento fosse rasgado. Bolsonaro, como tem certeza de que o aumento de gastos, sobretudo com obras, poderá lhe favorecer em 2022, quando disputará a reeleição, ficou na moita.

O ministro, por sua vez, assumiu definitivamente de que lado estava. Afinal, a perspectiva de mais quatro anos de poder é inebriante. Assim, o Guedes durão, defensor de um Estado enxuto, crítico de acordos políticos que avançam sobre os cofres públicos, agora fala em alguns “exageros” e “desacertos”, mas que, no final das contas, tudo deu certo. Para ele e Bolsonaro, ressalte-se.

A CPI pode tumultuar, mas ajuda a dar uma boa chacoalhada num governo inoperante

Senador Rodrigo Pacheco, presidente do Senado

Pacheco parece que procura ficar bem com todo mundo

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, afirma que a CPI da Covid-19 vai atrapalhar o combate à pandemia porque dispersa os esforços do governo federal e do Congresso. Na verdade, o senador não queria a CPI — não quer, porque ainda tem meios de enrolar — porque sabe que o processo pode dar um tiro fatal no governo a que está aliado.

Mas outras pessoas da cena nacional, de políticos a empresários e jornalistas, encampam a tese de que a CPI convulsiona o ambiente político e econômico, sendo, pois, prejudicial tanto ao combate à pandemia quanto à retomada da economia. Pensam assim — ou pensavam — aqueles empresários que estiveram no jantar de quarta passada com o presidente Jair Bolsonaro.

ESQUECER OS ERROS – Disseram que o propósito era deixar o passado para trás — ou seja, esquecer os erros do governo — e se concentrar no que fazer dali em diante.

Isso seria verdade se atendidas duas condições: primeira, se o presidente Bolsonaro admitisse erros ou ao menos deixasse de falar e fazer os absurdos negacionistas; segunda, se houvesse alguma chance de que o governo e o Congresso melhorassem seu desempenho.

Nenhuma dessas condições está presente. Aquele mesmo jantar foi uma demonstração disso. Contando empresários, ministros, assessores, seguranças, garçons e cozinheiros, formaram uma aglomeração de 80 pessoas — e ainda no horário do toque de recolher.

SEMPRE XINGANDO – Bolsonaro foi o de sempre. Por exemplo: empresários falaram na necessidade de ampliar a vacinação; o presidente respondeu xingando o governador Doria, sem cujos esforços não haveria vacinação no Brasil.

Falaram, entre um salgadinho e outro, em medidas de isolamento. Bolsonaro reclamou com o ministro da Saúde porque ele não tirou a máscara.

O presidente falou que não furaria o teto fiscal. Aplausos animados. Mas o Orçamento negociado por ele com o Centrão fura o teto e dá várias pedaladas, formando um conjunto de ilegalidades.

SPRAY DE ISRAEL –Na live de quinta, Bolsonaro voltou a falar de remédios “milagrosos”, o tal spray de Israel e um outro em fase inicial de testes, malsucedidos.

Portanto, é exatamente o contrário do que disse Rodrigo Pacheco. A CPI é o caminho — difícil, é verdade — para forçar uma mudança radical no combate à pandemia. Uma mudança com ou sem o atual presidente, pois é óbvio que a CPI pode ser a porta de entrada do impeachment ou de alguma saída arranjada.

CPIs não dependem apenas de questões jurídicas. O que mais importa é o ambiente econômico e político. O conjunto é extremamente desfavorável ao presidente.

CONJUNTO DA OBRA -Sem contar os mortos da pandemia, o fator principal, temos: baixa atividade econômica, desemprego, inflação elevada, juros subindo, falta de vacinas e outros insumos, popularidade do presidente em baixa, Centrão e militares avançando no Orçamento, pouco dinheiro para o auxílio emergencial e outros programas.

Dirão: mas, ainda assim, nesta semana o governo federal conseguiu conceder nada menos que 22 aeroportos, em leilões disputados por companhias importantes, nacionais e estrangeiras.

Mas isso não prova confiança no governo. São contratos de 30 anos, de modo que embutem uma esperança de que as coisas não podem ficar tão ruins por tanto tempo. E não se deve esquecer que os concessionários simplesmente podem parar os investimentos se não houver o mercado esperado.

HÁ OPORTUNIDADES – De todo modo, fica claro também que o país tem oportunidades a oferecer. O que nos atrapalha é um sistema político que tende a gerar governos ruins.

E não apenas o Executivo. O Legislativo fracassa em todos os níveis, mais preocupado em preservar instrumentos de ganhar eleições. E, como passam pelo setor público nada menos que 40% do PIB, empresários entendem que o sucesso depende de boas relações com o governo de plantão. Ou de relações compradas, como vimos no mensalão e no petrolão — e até nos processos de compra de equipamentos de saúde.

A CPI não resolve isso tudo. Mas quem sabe não dá uma boa chacoalhada?

Brasileiro já perdeu quase dois anos de expectativa de vida na pandemia, e 2021 será ainda pior

Expectativa de vida no Brasil • IBGE Explica - YouTubeDeu na BBC

O brasileiro perdeu quase dois anos de expectativa de vida em 2020 por causa da pandemia de covid-19. Em média, bebês nascidos no Brasil em 2020 viverão 1,94 ano a menos do que se esperaria sem o quadro sanitário atual no país. Ou seja, 74,8 anos em vez dos 76,7 anos de vida anteriormente projetados.

Com isso, a esperança de longevidade dos brasileiros retornou ao patamar de 2013. A queda interrompe um ciclo de crescimento da expectativa de vida no país, que partiu da média de 45,5 anos, em 1945, até atingir os estimados 76,7 anos, em 2020, um ganho médio de cinco meses por ano-calendário.

ESPECIALISTA DE HARVARD – O cálculo do impacto da covid-19 na sobrevida da população foi feito por uma equipe liderada pela demógrafa Márcia Castro, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard. A expectativa de vida, ou seja, a estimativa de quantos anos as pessoas devem viver, em média, é um importante indicador de qualidade de vida e do cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das nações.

“Funciona como um termômetro social porque ela te mostra como a gente está progredindo em aumentar a longevidade da população, através de medidas de saúde pública, saneamento, e também te mostra como determinado choque, como uma guerra ou, neste momento, a pandemia, reduz esse indicador porque há um padrão de mortalidade maior do que o esperado”, afirmou Márcia Castro à BBC News Brasil.

Com a segunda maior taxa de mortalidade do mundo em números absolutos, o Brasil já registra quase 360 mil óbitos causados pelo novo coronavírus.

CONSEQUÊNCIA  – O impacto dessa mortalidade na expectativa de vida da população do país já é 72% maior do que a verificada nos Estados Unidos, líder em óbitos por covid-19 (560 mil).

Enquanto os brasileiros perderam 1,94, ano, na média, os americanos perderam 1,13 ano de expectativa de vida em 2020 por conta da pandemia (redução de 78,8 anos para 77,8 anos).

Mas os dados podem ser na verdade piores do que essa estimativa. “A gente sabe que houve muita dificuldade de acesso ao teste de covid-19, subnotificação e muita morte pelo novo coronavírus que não foi registrada dessa maneira”, explica Márcia Castro.

OUTRA VERSÃO – Assim, os pesquisadores contemplaram um cenário alternativo: contabilizaram o impacto na expectativa de vida brasileira a partir da soma de todas as mortes oficialmente registradas como covid-19 acrescidas de 90% daquelas identificadas como causadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), quadro comumente provocado pelo novo coronavírus. Nesse cenário, a redução na expectativa de vida no Brasil ultrapassaria os dois anos e meio.

“Ainda assim, são duas estimativas bastante conservadoras. As medidas devem ser ainda maiores porque mesmo depois de contabilizar mortes por covid-19 e por SRAG, verificamos que há ainda um excesso de óbitos em relação ao esperado, que pode ser causado por falta de assistência médica básica para outras doenças, por exemplo”, afirma Castro. A demógrafa e os demais pesquisadores já trabalham em novas pesquisas para estimar essa perda.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A situação demográfica é preocupante. A população do Brasil deve encolher em quase 50 milhões até o fim do século. Como o país tem dimensão continental, seria de se esperar que a população crescesse, ao invés de diminuir. Mas os cálculos não levam em conta a inevitável imigração de outros povos, como tem ocorrido com haitianos, venezuelanos e sírios, nos últimos anos. Depois voltaremos ao assunto. (C.N.)

Braga Netto prega união contra iniciativas de desestabilização e pede respeito às urnas

Declaração foi dada durante troca do Comando do Exército

Ricardo Della Coletta
Folha

Com o governo desgastado pelo avanço da pandemia e pressionado pela instalação da CPI da Covid no Senado, o ministro Walter Braga Netto (Defesa) afirmou nesta terça-feira, dia 20, que o Brasil “precisa estar unido contra qualquer iniciativa de desestabilização institucional” e que “é preciso respeitar” o “projeto escolhido pela maioria dos brasileiros” para governar o país.

“O momento requer um maior esforço de união nacional, com foco no combate à pandemia e no apoio à vacinação. Hoje o país precisa estar unido contra qualquer tipo de iniciativa de desestabilização institucional, que altere o equilíbrio entre os poderes e prejudique a prosperidade do Brasil”, declarou.

SOLENIDADE – A fala do ministro ocorreu durante solenidade de transmissão do comando do Exército, em Brasília. O general Edson Pujol passou o posto para o também general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.

“Enganam-se aqueles que acreditam estarmos sobre um terreno fértil para iniciativas que possam colocar em risco a liberdade conquistada por nossa nação. É preciso respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros para conduzir os destinos do país. A sociedade, atenta a essas ações, tenha a certeza que suas Forças Armadas estão prontas a servir aos interesses nacionais.”

“Neste período de intensa comoção e incertezas, que colocam à prova a maturidade e a independência das instituições democráticas brasileiras, o Exército, a Marinha e Força Aérea mantêm o foco em suas missões constitucionais, permanecendo sempre atentas à conjuntura nacional”, concluiu o ministro.

CRISE MILITAR – Braga Netto, que chegou ao Ministério da Defesa na esteira da maior crise militar desde a redemocratização, deu as declarações em meio ao forte desgaste político esperado com a instalação da CPI da Covid.A comissão foi criada por decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), e deve ter como relator o senador Renan Calheiros (MDB-AL), considerado um adversário político pelo Palácio do Planalto.

A expectativa é que o início do funcionamento do colegiado provoque forte desgaste para o Planalto. A cúpula da CPI quer, por exemplo, traçar uma linha do tempo e iniciar os trabalhos esquadrinhando as razões que levaram à queda dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

O objetivo é entender, por exemplo, se houve e como se deu a pressão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para que o governo defendesse, no tratamento contra a Covid-19, o uso da hidroxicloroquina —medicamento sem eficácia comprovada contra a doença.

COMPRA DE VACINAS – Os senadores também querem esmiuçar as tentativas de compra de vacinas pelo Executivo e o que levou o governo a recusar oferta da Pfizer para a compra de imunizantes. A chegada de Braga Netto ao ministério da Defesa e a substituição de Pujol também ocorreram num contexto de crise. No final de março, Bolsonaro decidiu demitir o ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo.

Segundo interlocutores, o agora ex-ministro da Defesa vinha resistindo a pressões de Bolsonaro por um maior apoio das Forças Armadas na defesa de medidas do governo, principalmente na oposição a políticas de distanciamento social adotadas por governadores e prefeitos.

Além disso, Azevedo vinha bloqueando as investidas do presidente pela saída de Pujol do comando do Exército. Como resultado da demissão de Azevedo, Pujol e os então comandantes da Marinha e da Aeronáutica também anunciaram que deixariam seus postos.