Justiça ainda precisa obrigar órgãos públicos a serem transparentes

Charge do Nani (Nani Humor)

Maria Vitória Ramos
Bruno Morassutti
Folha

No último mês, a 8ª Vara Cível de Brasília determinou que a Embratur divulgue de forma nominal e individualizada as remunerações de seus funcionários, diretores e conselheiros. A entidade, que administra recursos públicos, precisou de uma ordem judicial para fazer o que a Lei de Acesso à Informação (LAI) já manda.

A decisão responde a uma ação civil pública da Fiquem Sabendo e repete um roteiro conhecido. Por mais óbvio que pareça a qualquer cidadão, muitas carreiras ainda lutam pela opacidade de seus contracheques. A divulgação atenderia a “mera curiosidade”; a ocultação protegeria os quadros de “investidas” do setor privado; a intimidade das pessoas estaria ameaçada. No fundo, persiste a ideia de que prestar contas é opcional.

DENÚNCIAS – Por isso nos vemos obrigados, de forma rotineira, a apresentar denúncias e ações para forçar entidades a cumprir a lei. No caso da Embratur, o juiz Leandro Borges de Figueiredo concedeu tutela de evidência e deu 30 dias para a publicação, por entender que a pretensão se volta “à concretização dos princípios da publicidade, da transparência e da prestação de contas na administração de recursos públicos”.

O mesmo enredo se repete na Apex-Brasil, agência de promoção de exportações que, como a Embratur, é um serviço social autônomo estruturado em recursos públicos. Movemos ação idêntica e, em março, a Justiça também mandou a agência abrir os dados. A entidade alega já divulgar seus dados de pessoal, mas só publica faixas salariais por cargo, sem nomes nem valores. Em 2020, reportagem da coluna de Lúcio Vaz, na Gazeta do Povo, mostrou o presidente da Apex recebendo até 73% acima do salário do presidente da República. Sem dados individualizados, não há como saber como esses valores evoluíram.

A usina de Itaipu é mais um exemplo. Com receita superior a US$ 3 bilhões em 2024, a binacional trata a própria folha salarial como informação sensível e resiste a abrir os supersalários de sua diretoria, já noticiados por esta Folha. Seus gestores alegam natureza “sui generis” e afirmam que a usina gera sua própria riqueza e não dependeria de recursos públicos. TCU (Tribunal de Contas da União), CGU (Controladoria-Geral da União) e Ministério Público Federal foram barrados por decisões judiciais de fiscalizá-la. Também a processamos; no Paraguai, o caso chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

OBRIGAÇÃO – A resistência não é só desses entes peculiares. No fim de 2023, esgotados os recursos, o TCU tornou definitiva a obrigação de todas as estatais federais, inclusive as de economia mista e capital aberto, publicarem salários nominais e individualizados.

Já no Acórdão 728/2019, o relator Vital do Rêgo assentou que “nenhuma dúvida há de que as empresas públicas e sociedades de economia mista que atuem em concorrência também estão sujeitas às obrigações de divulgação das remunerações de seus empregados”. Protocolamos mais de cem pedidos com a decisão em mãos. Mesmo assim, gigantes como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal seguem entregando apenas números agregados. Como já escrevemos nesta coluna, as estatais têm que entender que são… estatais.

É papel do cidadão cobrar seu direito a um governo aberto. Mas é dever do gestor atendê-lo de forma proativa, política essencial à legitimidade das instituições. Por mais importante que seja o reconhecimento judicial do direito à informação, toda vitória da sociedade civil nesta seara tem também um gosto de derrota: fomos obrigados a exigir, num processo, que alguém faça aquilo que a própria lei já manda fazer.

Lula suaviza discurso econômico e evita propostas que assustem os investidores

Lula desarma pauta-bomba do PT na economia

Fabio Graner
O Globo

A equipe econômica teve uma vitória importante ao desarmar a “pauta-bomba” interna de setores do PT nas negociações em torno do programa de governo para um eventual novo governo, que ainda será divulgado. Outra vitória foi a definição pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer uma menção explícita à necessidade de contenção na trajetória dos gastos obrigatórios.

Lula bateu o martelo nesta semana que temas ruidosos para o mercado financeiro, como promessa de “tarifa zero” no transporte público e teses como reversão de privatizações e controle de capitais, entre outros, ficarão de fora do programa. A notícia foi antecipada pelo jornal “Folha de S. Paulo” e confirmada pelo O Globo.

UNIVERSALIZAÇÃO – Um interlocutor comenta que o programa deverá ter uma menção fiscalmente mais amigável para a ideia de escola em tempo integral, programa já em implementação e que deverá ser ampliado em um quarto mandato. O sonho de Lula é a universalização, que em um horizonte de 10 anos custaria R$ 170 bilhões, conforme mostrou O Globo nesta semana, mas isso será mediado pelas restrições orçamentárias.

Outra vitória da área econômica é o reforço à sinalização de que o governo seguirá no esforço de consolidação fiscal, melhorando os resultados primários. Não deve haver uma menção direta ao projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, mas a lógica é que esse será o balizador para a sinalização ao mercado.

A LDO ainda não foi votada pelo Congresso, mas prevê a retomada de resultados primários (receitas menos despesas, sem considerar juros) positivos no ano que vem e um ajuste total da ordem de dois pontos porcentuais do PIB até 2030.

FLEXIBILIDADE – O documento do PT não deve trazer metas explícitas e detalhadas para nenhuma ideia, como ocorreu em 2022. A lógica é deixar flexibilidade para Lula definir seus passos tanto no processo eleitoral, como na gestão do governo em caso de reeleição, ao mesmo tempo em que se busca sinalizar um esforço de melhora na posição fiscal do país.

No esforço de conter as alas petistas mais preocupadas em ter mais recursos para programas do que com a responsabilidade fiscal, a equipe econômica, liderada pelos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento), conseguiu apoio dos presidentes do PT, Edinho Silva, e do BNDES, Aloizio Mercadante. Mas não arrancou de Lula promessas mais ousadas como diminuir o crescimento do teto de gastos, que vem sendo defendida pela Fazenda nas conversas com o mercado.

A discussão do programa dentro do partido é coordenada pelo ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, que gerou polêmica com o mercado principalmente após uma entrevista ao O Globo, em que mostrou um viés mais heterodoxo nas questões fiscal e cambial, gerando ruídos e preocupando o governo, incluindo o próprio Lula.

PLANO DE AJUSTE FISCAL – Apesar de ter desarmado a pauta bomba e ainda ter algumas sinalizações fiscais melhores, a equipe econômica ainda tem necessidade de avançar para conseguir convencer Lula e o PT a implementarem um plano de ajuste fiscal robusto e que consiga ajudar a melhorar as expectativas a ponta de abrir espaço para queda dos juros, mesmo considerando que em grande medida a pressão financeira decorra da piora externa.

Nesse sentido, o que poderia mudar o sentimento do mercado seria um compromisso mais explícito do próprio presidente com uma maior contenção de despesas totais do que a prevista no arcabouço e um objetivo de acelerar a estabilização da dívida pública. O enunciado de buscar conter os gastos obrigatórios ajuda, mas sem detalhes sobre o que seria isso e se o espaço aberto será usado para reforçar o resultado primário ou para gastar mais com investimentos, a eficácia em termos de expectativa é mais contida.

Ainda que sinalize nos bastidores estar preocupado com o tema fiscal, a prioridade do presidente agora é se reeleger e qualquer decisão sobre sinais a serem transmitidos ao mercado está condicionado ao cálculo sobre o quanto agregará em votos. Certo é que, ficar dizendo que seu histórico é de responsabilidade, como gosta de se gabar quando fala da questão fiscal, não tem qualquer efeito sobre os humores dos investidores. E evitar ideias inexequíveis pelas restrições fiscais ajuda, mas não resolve.

Moro defende Valdemar e diz que presidente do PL “já pagou pelos erros do passado”

Lula entrou em campo e garantiu a neutralidade de Republicanos e Podemos

Gilmar diz não conhecer vice de Flávio e mantém análise de investigação sobre deputado

Lula não cede a Trump e mantém bloqueio a novo embaixador americano

Valdemar tentou convencer Michelle a ser vice de Flávio Bolsonaro, mas recebeu um “não”

Michelle recusou ser vice de Flávio mesmo após reconciliação

Rafael Moraes Moura
O Globo

Enquanto tentava atrair aliados e costurar alianças com outros partidos, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a sondar na semana passada a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sobre a possibilidade de ela ser companheira de chapa do enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A vaga acabou ficando com o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), anunciado na última quarta-feira (5). A escolha frustrou aliados que preferiam uma mulher para tentar reduzir a rejeição ao filho de Jair Bolsonaro no eleitorado feminino. As movimentações de Valdemar Costa Neto foram confirmadas por quatro fontes ao longo dos últimos dias, incluindo integrantes do PL, aliados de Flávio e interlocutores de Michelle. Procurado, Valdemar não respondeu aos questionamentos da reportagem.

DOBRADINHA – Uma eventual dobradinha Flávio-Michelle serviria para pacificar os ânimos e tentar vender ao eleitorado a imagem de unidade familiar, após a guerra que opôs os dois e escancarou as fissuras internas do clã Bolsonaro em praça pública. Em junho, Michelle chegou a gravar um vídeo dizendo ter sido humilhada e apunhalada nas costas por Flávio por conta de desentendimentos sobre alianças políticas no Ceará. Com a escalada da crise, o filho 01 de Jair Bolsonaro pediu publicamente à madrasta “desculpas por alguns momentos que causaram desconforto”.

“Houve uma sondagem pessoal, e isso é feito sempre com a anuência de todo mundo. Mas Michelle decidiu com o Jair que não queria ser vice-presidente, porque ela teria dificuldades de fazer campanha nacional”, afirmou uma fonte que acompanha de perto as movimentações nos bastidores.

Um interlocutor de Michelle, que também confirmou a sondagem, aponta as dificuldades logísticas da ex-primeira dama para se dedicar a uma campanha que envolve uma maratona de eventos e agendas por diversos Estados, enquanto o marido precisa de cuidados médicos ao longo do dia no regime de prisão domiciliar. “Como ela iria fazer campanha? Impossível. Quem cuidaria do Jair?”, disse esse interlocutor. “Na prática, a Michelle também está em prisão domiciliar.”

VIAGENS – Viajar para outros Estados é algo considerado praticamente descartado por Michelle devido aos tempos de deslocamento, questões logísticas e o monitoramento da saúde de Bolsonaro. Esse fator pesou para ela decidir concorrer a uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, onde sua eleição é dada como certa, e para não comparecer à convenção que anunciou a candidatura de Flávio, realizada em São Paulo.

A mais recente pesquisa Genial/Quaest mediu o impacto da crise familiar na opinião do eleitorado. Um recorte inédito, obtido pelo blog, aponta que 53% das mulheres avaliam que foi positivo Michelle e Flávio terem feito as pazes em público – índice inferior ao registrado entre os homens (65%). Já para 27% das mulheres, a reconciliação foi negativa, ante 23% do verificado entre os homens.

Na avaliação de 48% das mulheres, o apoio de Michelle não aumenta as chances de vitória de Flávio na eleição presidencial de outubro, ante 42% daquelas que acham o contrário. Entre os homens, a situação é inversa: 51% avaliam que o apoio de Michelle aumenta as chances do senador, enquanto 42% dos entrevistados discordam.

FIADORA – “Isso mostra que Michelle funciona menos como uma simples captadora do voto feminino e mais como uma fiadora da unidade bolsonarista. Entre os homens, seu apoio atua como um selo de reconciliação, reduz a percepção de divisão interna e legitima a candidatura de Flávio”, afirmou à equipe do blog o CEO da Quaest, o cientista político Felipe Nunes.

“Entre as mulheres, ela também ajuda, mas não elimina automaticamente as resistências que parte do eleitorado feminino mantém em relação ao próprio Flávio. Michelle transfere legitimidade com mais facilidade do que transfere voto feminino.”

Um desesperado poema de amor, com a sensibilidade de Adalgisa Nery

FCO-2940 - Retrato de Adalgisa Nery | Obras | Portinari

Adalgisa Nery era a grande musa de Portinari

Paulo Peres
Poemas& Canções

Nesse poema, a jornalista, deputada e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery, devido a seu casamento com o grande pintor modernista Ismael Nery. Foi um das mulheres mais importantes de sua época, retratada por todos os grandes pintores, especialmente Cândido Portinary, que pintou vários quadros sobre ele.

Nesse desesperado poema, Adalgisa Nery proclama seu amor em todos os sentidos.

EU TE AMO
Adalgisa Nery

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Punição do ministro Marco Buzzi ainda depende do CNJ, da AGU e do Supremo

STJ decide afastar ministro Marco Buzzi após condenação em processo  disciplinar por importunação sexual – Jornal DR1

Marco Buzzi já está afastado e perdeu os penduricalhos

Vicente Limongi Netto

Esclareço a situação do canalha Marco Buzzi, para acabar com todas as dúvidas processuais ainda existentes. O verme foi colocado em disponibilidade com recomendação de perda do cargo de ministro do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade.

Em miúdos:  agora o Conselho Nacional de Justiça tem que referendar a decisão do STJ ou não. Caso positivo, manda para a Advocacia-Geral da União (AGU) processar o tarado no Supremo Tribunal Federal (STF).

SALÁRIO BÁSICO – Por ora, Buzzi fica recebendo o salário básico, sem penduricalhos, que é de aproximadamente R$ 44 mil mensais, correspondendo a 95% do valor pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal (que é de R$ 46.366,19).

Buzzi tem 68 anos de idade. Faltavam ainda 7 anos até a aposentadoria compulsória. Em síntese: Marco Buzzi está no sal. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deve ratificar a decisão e o STF certamente não vai aliviar o patife. Bom frisar que a decisão do STF é exemplar e histórica. Perda do cargo e dos salários.

PROJETO OPORTUNO – A deputada Roseana Sarney (MDB-MA) propôs, em projeto, o encaminhamento do paciente com câncer a estabelecimento privado credenciado, contratado ou conveniado ao SUS quando houver descumprimento dos prazos legais ou preventivamente, quando tiverem transcorridos dois terços do prazo sem agendamento compatível com seu cumprimento.

A iniciativa da deputada, ex-senadora e ex-governadora, deseja conferir maior efetividade aos prazos legais de diagnósticos e tratamento do câncer.

Seminário recente sobre tratamento oncológico, argumenta Roseana, demonstrou a persistência de gargalhos na rede pública, com denúncias de atraso no acesso ao tratamento e dificuldade de acompanhamento dos dados oferecidos. A deputada salienta que esse cenário mostra que a previsão legal dos prazos, embora relevante, precisa ser acompanhado de mecanismos capazes de assegurar sua efetiva observância.

Pressão de Trump fortalece narrativa de Lula, mas efeitos têm prazo de validade

Com ações recorrentes, Trump pode ser um tiro pela culatra

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

“O Brasil não é para principiantes.” Atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.

CONFRONTO – Nenhuma dessas medidas, isoladamente, decide uma eleição. Juntas, porém, permitem que Lula apresente o confronto como uma disputa entre os objetivos nacionais e uma potência estrangeira interessada no resultado das urnas. Ocupa o lugar institucional de chefe de Estado agredido por pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de ser associado a uma articulação internacional contra seu próprio país.

Trump e Rubio talvez tenham subestimado a complexidade da política brasileira. A pressão externa costuma estimular reações nacionalistas. Lula mobiliza a militância de esquerda, busca apoio de setores democráticos e de eleitores moderados. Quanto mais explícita e truculenta for a tentativa norte-americana de influenciar o processo eleitoral, maior será a possibilidade de Lula se apresentar como defensor da autonomia do país. Entretanto, se a condição de vítima o favorece, o santo é de barro. Lula precisa calibrar suas reações para não agir com soberba e irresponsabilidade.

REORGANIZAÇÃO DA DIREITA – A Casa Branca promove a reorganização da direita latino-americana. Marco Rubio procura consolidar um eixo conservador no continente, conter a presença econômica da China e apoiar governos identificados com a agenda de Trump. No Cone Sul, Javier Milei tornou-se a principal expressão desse movimento. Sua participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, e os ataques feitos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma deterioração sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

A América Latina não é um tabuleiro no qual Washington movimenta aliados sem provocar reações locais. O conflito fortalece a narrativa oficial de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas também gera críticas da oposição à diplomacia brasileira. Jogar na defensiva não é vergonha para o Itamaraty. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, cadeias produtivas e o Mercosul. Milei pode mobilizar sua base atacando Lula, mas não pode romper os vínculos econômicos entre os dois países sem impor custos à própria Argentina.

RESILIÊNCIA – Trump dispõe de instrumentos poderosos, principalmente o acesso ao mercado norte-americano, as sanções e as tarifas. Ainda assim, poder econômico não se converte automaticamente em influência eleitoral. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nessa quarta-feira, mostra essa ambivalência. Lula continua na liderança, com 39% contra 30% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 44% a 39% no segundo. Entretanto, o senador recompôs parte da unidade da direita, reduziu a rejeição e aumentou a convicção de seus eleitores.

Mas a reconciliação com Michelle Bolsonaro e a reação às restrições judiciais para visitar o pai contribuíram mais para sua recuperação do que o confronto de Lula com os Estados Unidos. O outro lado da moeda são os limites dos dividendos nacionalistas. Em julho, 51% consideravam que ele defendia melhor o Brasil, contra 34% que apontavam Flávio. Agora, a diferença caiu de 17 para oito pontos: 46% a 38%.

Ao mesmo tempo, a avaliação da resposta do governo ao tarifaço passou de um saldo positivo de três pontos para um saldo negativo de cinco: 43% consideram que Lula reagiu mal e 38%, bem. Portanto, a pressão de Trump continua favorecendo a narrativa do presidente, mas a administração efetiva da crise já começa a ser cobrada. Será uma corrida contra o tempo mitigar os efeitos negativos da crise diplomática até as eleições.

IMPACTO ECONÔMICO – A grande incógnita é o impacto econômico das tarifas. O comércio com os Estados Unidos representa cerca de 2% do PIB brasileiro, proporção que permite ao governo sustentar que o país dispõe de escala, mercado interno, reservas internacionais e parceiros comerciais suficientes para absorver o choque.

A diversificação das exportações, principalmente em direção à China, à União Europeia e aos demais países do Sul Global, reduz a capacidade de Washington estrangular a economia brasileira. Essa resiliência macroeconômica, entretanto, não elimina os prejuízos para empresas exportadoras, cadeias industriais integradas aos Estados Unidos e regiões dependentes de determinados produtos de exportação. Isso repercute eleitoralmente nos setores e nos estados mais atingidos.

O vice de Flávio Bolsonaro não foi apenas uma escolha. Foi o que restou

A indicação de Gaspar coroou uma sucessão de recusas

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Quando o Partido Liberal confirmou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, a apresentação oficial insistiu na ideia de uma candidatura “puro-sangue”, fiel às origens do bolsonarismo e alheia à tradicional lógica de negociação do presidencialismo de coalizão brasileiro. A sequência de negociações, recusas e acomodações que antecedeu o anúncio, porém, revela uma realidade bastante distinta da narrativa apresentada pela campanha.

Horas antes do anúncio, uma sondagem BTG/Nexus registrava um cenário competitivo entre Flávio Bolsonaro e Lula. A notícia politicamente mais significativa daquele dia, porém, não estava nos números da pesquisa, e sim na forma como a chapa presidencial foi construída.

NEUTRALIDADE – Enquanto as pesquisas mantinham Flávio Bolsonaro competitivo na disputa, PP e Republicanos optavam por permanecer fora dela. Esse contraste entre desempenho eleitoral e isolamento político ajuda a explicar por que a vaga de vice terminou nas mãos de um deputado alagoano que, há poucos meses, dificilmente figurava entre os nomes mais cotados.

O centro dessa história não é Gaspar, mas quem recusou o convite antes dele. A campanha empenhou-se em atrair a senadora Tereza Cristina, do PP, a ponto de Flávio afirmar publicamente que ela já havia aceitado o convite. A federação PP-União Brasil, porém, decidiu manter neutralidade nacional na disputa, inviabilizando formalmente sua entrada na chapa.

A alternativa seguinte foi a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e recém-filiada ao Republicanos, apoiada pelo próprio governador Tarcísio de Freitas. Também ali, entretanto, a resposta foi negativa: após consultas internas, o Republicanos optou por permanecer neutro. Duas tentativas, dois vetos institucionais. Não faltou disposição individual de alguns dirigentes para negociar; prevaleceu a decisão das estruturas partidárias.

SEM OPÇÃO – Não houve, portanto, opção por uma chapa exclusivamente do PL — houve o esgotamento de todas as alternativas fora dele. O próprio presidente do partido, Valdemar Costa Neto, tentou se antecipar a essa leitura ao dizer que a escolha de Gaspar já estava decidida “há seis meses”, cronologia difícil de sustentar diante da sucessão pública de tentativas encerradas apenas dias antes da convenção.

Fica, contudo, uma pergunta em aberto quando se descreve apenas a recusa: por que disseram não o PP e o Republicanos? Não por hostilidade declarada. Não por ruptura. A resposta está em outro registro, mais estrutural do que pessoal.

O comportamento do Centrão raramente é guiado por afinidades ideológicas. Seus partidos costumam aproximar-se menos dos projetos com os quais possuem maior identificação do que daqueles que consideram mais capazes de produzir poder político. A neutralidade de PP e Republicanos diz menos sobre divergências programáticas do que sobre avaliação de risco.

MARGEM DE MANOBRA – Em vez de se comprometer antecipadamente com um projeto cujo potencial ainda desperta dúvidas entre dirigentes nacionais, preferiram preservar margem de manobra para a fase decisiva da campanha. Antecipar esse movimento reduz a flexibilidade para negociar diante de um cenário político em transformação. Para um Centrão acostumado a ver candidaturas competitivas em agosto perderem fôlego até outubro, esperar continua sendo a opção de menor risco.

Segundo relatos publicados pela imprensa, Arthur Lira participou da construção da solução que levou Gaspar à vice-presidência — um movimento que reorganizou também a disputa ao Senado em Alagoas, onde o próprio Lira concorre a uma vaga. Ainda que interesses locais tenham pesado, o episódio evidencia que a definição da chapa respondeu muito mais a acomodações regionais do que à construção de uma ampla coalizão nacional.

Durante boa parte da última década, aproximar-se de Jair Bolsonaro era quase um movimento automático para partidos interessados em disputar espaço dentro do campo conservador. A negociação girava em torno das condições da aliança, não da própria existência dela. Em 2026, a situação parece diferente da observada nos anos de maior expansão do bolsonarismo: a adesão deixou de ser pressuposto e voltou a ser objeto de cálculo.

ATRATIVIDADE – Os episódios que cercaram a escolha do vice sugerem que o bolsonarismo já não exerce a mesma capacidade de atração sobre parcelas relevantes das lideranças partidárias que demonstrava em eleições anteriores.

Desde a redemocratização, a escolha de um vice raramente foi apenas isso — foi ponte para partidos, regiões, setores econômicos, bancadas no Congresso. Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel, José Alencar, Michel Temer ampliaram, cada um à sua maneira, o espaço político de quem os escolheu antes mesmo da eleição.

No presidencialismo brasileiro, a escolha do vice raramente responde apenas à pergunta “quem governará em caso de ausência do presidente?”. Responde a outra, muito mais imediata: quem está disposto a dividir riscos antes mesmo da eleição? É por isso que as chapas costumam funcionar como radiografia das alianças efetivamente construídas por cada candidatura.

IMPASSE – Em vez de ampliar a base política presidencial, a escolha de Gaspar atendeu à necessidade de equacionar um impasse localizado e preservar equilíbrios regionais. É uma diferença significativa. Em campanhas competitivas, espera-se que a vice-presidência agregue novos apoios nacionais; aqui, ela funcionou sobretudo como instrumento de acomodação política. Seu alcance permaneceu regional, sem ampliar a projeção política da candidatura em âmbito nacional.

Competitividade eleitoral e capacidade de articulação política nem sempre caminham juntas. Um candidato pode reunir milhões de eleitores e, ainda assim, encontrar dificuldade para convencer partidos e lideranças de que vale a pena dividir os riscos de uma eventual vitória. Foi isso que a formação desta chapa tornou visível. PP e Republicanos não romperam com Flávio Bolsonaro. Apenas decidiram não aderir à sua candidatura.

Nenhum presidente eleito desde a Constituição de 1988 governou sustentado apenas pelo partido que o levou ao Planalto. Todos dependeram de maiorias parlamentares construídas por acordos amplos e, muitas vezes, heterogêneos. A capacidade de viabilizá-los antes da eleição não determina, por si só, o sucesso de um mandato. Mas costuma revelar quanto capital político uma candidatura consegue mobilizar antes mesmo de chegar ao poder.

ALIANÇAS – É por isso que a escolha do vice extrapola a composição de uma chapa. Ela funciona como um teste da capacidade de atração política de cada candidatura. Uma campanha pode vencer eleições com votos. No presidencialismo de coalizão brasileiro, porém, só governa com alianças.

O episódio talvez diga menos sobre Alfredo Gaspar do que sobre a própria reorganização da direita. Durante anos, o sobrenome Bolsonaro funcionou como ativo político suficiente para ordenar partidos, atrair aliados e disciplinar lideranças. A forma como a candidatura foi construída sugere que esse mecanismo já não opera com a mesma intensidade.

ARTICULAÇÃO LIMITADA – Mais do que definir um vice, esse processo revelou os limites da articulação política de Flávio Bolsonaro. O problema não está em Alfredo Gaspar. Está no significado político de sua indicação. Durante semanas, a campanha procurou ampliar sua base e terminou apenas administrando a ausência de novos aliados.

A vaga foi preenchida. O problema permaneceu.  Afinal, quando a escolha do vice só ocorre depois de esgotadas todas as alternativas, a notícia deixa de ser quem entrou na chapa. Passa a ser quem decidiu ficar de fora.

O fogo amigo cria um novo problema para Flávio Bolsonaro

Eduardo mostra a falta de coordenação bolsonarista

Pedro do Coutto

Campanhas presidenciais costumam enfrentar ataques dos adversários. O problema torna-se mais delicado quando as dificuldades passam a surgir dentro da própria família política. É o que começa a acontecer com a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Depois dos obstáculos para construir alianças e ampliar o arco de apoio da candidatura, um novo foco de desgaste ganhou força: as declarações de Eduardo Bolsonaro. O deputado, um dos principais expoentes da ala ideológica do bolsonarismo, tem feito críticas que acabam atingindo diretamente a estratégia eleitoral conduzida pela coordenação da campanha.

ATAQUES – Durante manifestação de apoio ao ex-assessor presidencial Filipe Martins, Eduardo voltou a atacar o Supremo Tribunal Federal e reforçou o discurso de confronto institucional que marca sua atuação política. Ao mesmo tempo, integrantes da campanha passaram a ser alvo do chamado “fogo amigo”. Entre eles está o coordenador Roberto Marinho, criticado por setores bolsonaristas que consideram excessivamente moderada a condução da candidatura.

O episódio expõe um conflito antigo dentro do bolsonarismo. De um lado, está o grupo que defende ampliar alianças e dialogar com o eleitorado de centro para reduzir a rejeição de Flávio. De outro, permanece a ala ideológica, representada por Eduardo, que vê qualquer movimento de moderação como uma concessão incompatível com os princípios do movimento.

Essa divergência produz um efeito político imediato. Enquanto Flávio tenta apresentar uma imagem de estabilidade e capacidade de governo, Eduardo recoloca no centro do debate o confronto com o STF e a mobilização da base mais radical. A estratégia fortalece o eleitorado já fidelizado, mas dificulta a conquista dos eleitores moderados, tradicionalmente decisivos em eleições presidenciais.

DESCOORDENAÇÃO – O momento torna a situação ainda mais sensível. A campanha já enfrenta dificuldades para ampliar sua coalizão política e aumentar sua competitividade nacional. Nesse contexto, divergências públicas transmitem a impressão de descoordenação e enfraquecem a autoridade do candidato.

Não se trata de uma ruptura entre os irmãos, mas de um choque de estratégias. Flávio busca ampliar sua base eleitoral; Eduardo prioriza preservar a identidade ideológica do bolsonarismo. As duas agendas nem sempre caminham na mesma direção.

O desafio de Flávio deixa de ser apenas enfrentar seus adversários na disputa presidencial. Também passa por demonstrar que consegue manter unidade dentro do próprio campo político. Em campanhas competitivas, controlar o fogo amigo costuma ser tão importante quanto enfrentar a oposição.

Lula chama Rubio de “latino-americano frustrado” em meio à escalada com Trump

Lula diz que secretário de estado dos EUA ‘odeia o Brasil’

Guilherme Queiroz
O Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar nesta sexta-feira o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, após o anúncio de novas tarifas a produtos brasileiros. Em visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), Lula disse que Rubio “odeia o Brasil” e que é um “latino-americano frustrado”.

“Agora ele (Trump) tem um cidadão que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é um bolsonarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Ele não gosta, eu disse para o Trump, ele não gosta do Brasil. Não gosta, ele é um homem latino-americano, ou um latino-americano frustrado. Ele é um descendente cubano de Miami, odeia Cuba, odeia Colômbia, odeia o Brasil”, afirmou.

TELEFONEMA – Lula relembrava a reunião que teve com Donald Trump na Casa Branca quando falou de Marco Rubio. O presidente afirmou que durante o encontro entregou documentos sobre a balança comercial brasileira e depois o governo brasileiro ligou para a Casa Branca “toda semana”. “E aí, fiquei esperando, não teve telefonema, mas veio pela imprensa um tarifaço, aumentou mais 2,5% a tarifa contra nós”, completou.

O secretário de Estado americano usou as redes sociais no mês passado para criticar o presidente Lula, afirmando que as políticas econômicas adotadas por ele “são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros” e que ele “colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo”.

CANAL DIRETO – Lula sinalizou a aliados que buscará conversar com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, na próxima semana. A declaração foi feita num encontro do petista com parlamentares do PSOL e da Rede no Palácio da Alvorada nesta tarde. O encontro ocorreu para oficializar o apoio da federação à reeleição do presidente.

De acordo com relatos de dois participantes, o petista defendeu o fim da guerra na Ucrânia e criticou a atuação do Conselho de Segurança da ONU para conseguir encerrar o conflito. Nesse momento, Lula afirmou que conversou nos últimos dias com os presidentes da China, Xi JinPing, e da Rússia, Vladimir Putin, sobre o conflito e que, na próxima semana, buscaria falar com Trump também.

Segundo esses relatos, Lula não disse se também aproveitará a conversa para tratar de outros temas na relação do Brasil com Estados Unidos, que vive momento de tensão após nova imposição de taxas do governo Trump aos produtos brasileiros e sanções a autoridades, como a revogação do visto da atual embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti.

Corrupção de Marcola, assessor de Lula, não pode ser tratada como um assunto privado

Ex-assessor era pessoa de responsabilidade pública

Dora Kramer
Folha

Uma pessoa que tem a chave da agenda e do acesso ao gabinete do presidente da República não pode ter transações financeiras que requeiram explicação. Em circunstância alguma estaria autorizada a explicar seus atos como de natureza “estritamente privada”. Tal recurso fica com jeito de tentativa de blindagem a fim de evitar os indispensáveis detalhamentos.

Enquanto esteve na chefia do principal gabinete do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Ribeiro (Marcola) era uma pessoa de responsabilidade pública. Por definição funcional e exigência específica do cargo, tinha o redobrado dever de se distanciar de quaisquer situações que pudessem gerar questionamentos. Não foi o que fez Marco Aurélio ao receber dinheiro de Roberta Luchsinger.

LIMITE DE PRECAUÇÃO – Tenham sido os ditos R$ 249 mil fruto de empréstimo ou de repasses para outros fins, certamente haveria fontes de recursos às quais recorrer que não alguém cujos negócios evoluem mediante o bom acesso a relevantes escaninhos governamentais. Só aí já estaria estabelecido o limite da precaução.

Acrescentando-se o fato de a personagem ser amiga e parceira de um dos filhos do presidente (Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha), ter circulação livre no universo petista e atividades profissionais bastante conhecidas nesse ambiente, a passagem do sinal amarelo para o vermelho deveria ser automática.

“DETALHE” – Mas o então assessor palaciano de alta confiança não achou por bem informar ao chefe o que talvez tenha lhe parecido um detalhe. Ou terá informado e a versão de que o presidente só soube da transação há duas semanas é apenas mais uma justificativa da série “Lula não sabia de nada”?

Seja como for, não se trata, como fez circular o governo, de mero constrangimento nem de um negócio informal entre amigos, como tenta normalizar o próprio Lula. Trata-se de algo bem mais grave, que requer esclarecimento definitivo: a possibilidade de a traficância de influência ter dado expediente na antecâmara da Presidência da República.

Piada do Ano! A imprensa pensava que o ministro Buzzi perderia aposentadoria…

Relembre o caso do ministro do STJ Marco Buzzi, acusado de assédio sexual | TMC

Buzzi não será punido – perde o cargo, mas se aposenta

Carlos Newton

No Brasil, pode-se esperar que aconteça tudo, inclusive a decadência de setores vitais da sociedade. Antigamente, não havia faculdades de Jornalismo, exercer essa atividade era uma questão somente de aptidão, conhecimento e vocação, digamos assim. Agora, não. É preciso fazer vestibular e encarar quatro anos de estudos.  

O curso é dividido em oito semestres e exige carga mínima de cerca de 3 mil horas, incluindo aulas teóricas, práticas em laboratório e estágio.

EXEMPLO CLARO – Sem querer me meter no currículo, mas já me metendo – como dizia Jô Soares, que não fez nenhum curso, porém era mais jornalista do que a maioria dos coleguinhas e fazia extraordinárias entrevistas – esses cursos estão deixando a desejar.

Tivemos um exemplo claro nesta quinta-feira, com o caso de demissão do ministro Marco Buzzi pelo Superior Tribunal de Justiça.

A imprensa inteira noticiou que “foi um julgamento histórico, porque aplicou pela primeira vez a nova regra do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que extinguiu a aposentadoria compulsória como pena máxima para magistrados em casos de faltas graves”. E informaram que, com isso, “após a conclusão dos trâmites, Buzzi perde o cargo sem o direito ao benefício – a aposentadoria”, conforme está escrito na Inteligência Artificial do Google, que se baseia no noticiário publicado

TODOS ERRARAM – É impressionante que a imprensa tenta cometido esse erro, levando ao ridículo a Inteligência Artificial, porque o ministro Marco Buzzi ainda não foi punido, de forma alguma, e certamente não será.

A decisão do STJ não tem efeito imediato. Buzzi apenas está afastado de suas funções no tribunal. Para a demissão ser efetivada, a Advocacia-Geral da União (AGU) tem prazo de 30 dias para mover uma ação judicial específica no Supremo, que terá de confirmar de forma definitiva a perda do cargo e determinar o corte total dos pagamentos ao magistrado.

Mas isso nada tem a ver com a aposentadoria dele, porque é um direito adquirido. Nem mesmo o Supremo pode evitar que Buzzi se aposente, porque ele fazer 69 anos e já tem tempo de serviço para receber o benefício, um direito pelo qual ele paga por ele desde o início de sua carreira profissional.

O caso de Buzzi, portanto, é diferente dos juízes que vinham sendo aposentados precocemente, sem tempo de serviço, o que não significa punição. Ao contrário, significa benefício, porque eles deixam de trabalhar e continuam sendo remunerados com uma aposentadoria altíssima, nos padrões atuais da magistratura. 

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P.S.
Nesse lance, a imprensa toda errou. As pessoas esquecem que a aposentadoria não é nenhum favor e você paga para depois usufruir dela. A punição administrativa não se confunde com a penal, e o Código não prevê a cassação da aposentadoria como efeito da condenação, mas apenas a perda do cargo público.

P.S. 2 – O único jornalista que acertou em cheio foi Vicente Limongi Netto, aqui na Tribuna, ao afirmar que Buzzi não perderá a aposentadoria e sua punição (demissão) nada significa. Buzzi somente seria punido se fosse aberto processo penal contra ele pelo Supremo, incriminando-o por assédio sexual, e houvesse condenação em uma das Turmas do STF. Mas isso nunca vai acontecer. (C.N.)

Deputado envolvido na crise diplomática é confirmado embaixador dos EUA no Brasil

Peritos alertam para risco de apagão nas investigações com onda de aposentadorias

Inquéritos que tratam de corrupção podem ser impactados

Elijonas Maia
CNN

Atualmente, a PF tem cerca de 1.000 peritos em atividade e cerca de 120 cargos vagos, mas o problema é outro. De acordo com o levantamento da APCF (Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais), além do déficit atual, cerca de 30% do efetivo estará na faixa de aposentadoria voluntária até 2028, o que pode ampliar a redução do quadro caso não haja reposição na mesma proporção.

Os peritos são responsáveis por produzir provas científicas em investigações de alta complexidade, como casos de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes financeiros, cibernéticos, ambientais e de atuação de organizações criminosas.

PERÍCIA – Casos recentes de impacto que têm o trabalho de perícia, por exemplo, são os celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nas fraudes do Master. Outras apurações que dependem do trabalho de perícia são relacionadas a garimpos ilegais em terras indígenas e extração ilegal de minerais.

Os dados da APCF apontam, ainda, que apenas 1,6% dos peritos em atividade ingressaram na Polícia Federal nos últimos cinco anos, enquanto 77% do efetivo têm 45 anos ou mais. Além disso, quase metade dos atuais peritos ingressou na instituição em um mesmo intervalo de cinco anos, o que aumenta a possibilidade de uma saída concentrada de profissionais experientes ao longo da próxima década.

A associação de peritos cobra a Direção-Geral da PF pela convocação de todos os aprovados no último concurso da corporação para recompor o efetivo da carreira. Procurada pela CNN sobre o déficit e possível prejuízo às investigações, a PF não respondeu.

O Brasil troca a esperança pelo ressentimento na presente eleição presidencial

TSE fecha cerco à IA e proíbe clonagem de voz de candidatos nas eleições

Após fracassar na busca por uma vice, Flávio culpa Centrão por isolamento eleitoral