É preciso entender que educar e escolarizar são coisas muito diferentes

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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Antonio Carlos Fallavena

Em primeiro lugar, é preciso corrigir o que se quer corrigir: educação não é escolarização e família não é escola! Então, pergunto: quem deseja, realmente, um ensino de qualidade? Os professores querem mais salários, liberdade para “ensinar” mesmo sem qualidade no serviço. E ensinar o que? Já os pais querem que os filhos tenham um lugar para ficar. Muitos nem sabem onde os filhos estudam!

Os governantes tem medo de enfrentar os problemas da escola e loteiam o setor das secretarias para partidos. Os legisladores “demagogizam” o mais que podem. Se pressionados, aprovam tudo. Afinal, já estudaram e os filhos estão na escola privada. Aliás, muitos professores da rede públicos têm seus filhos na escola particular. Deveriam explicar as razões. Espero que não seja pela baixa qualidade da escola pública.

E OS ALUNOS? Bem, os alunos querem passar, mesmo não sabendo muito. Afinal, a legislação faculta a aprovação dos não qualificados!

As comparações com outros países são vexaminosas e servem também para clarear as diferenças da sociedade. Países como Finlândia e Coréia do Sul oferecem um modelo de escolarização que justifica também as profundas diferenças culturais e de formação dos seus povos em relação ao Brasil. Estas pequenas/grandes diferenças fazem toda a diferença!

Fico imaginando o que diriam nossos professores, atualmente idealizados por si mesmos como “trabalhadores em educação”, como reagiriam diante das normas aplicadas nos países acima! Talvez argumentem que, naqueles países, os professores são respeitados, bem remunerados e as escolas possuem boas estruturas, etc, etc. Ora, é preciso fazer-se perguntas sérias, fundamentadas e oferecer respostas, propostas.

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ALGUMAS PEQUENAS PERGUNTAS AOS PROFESSORES

Agora, vamos a algumas perguntas que poderiam/deveriam ser feitas para aqueles que só dizem que a escola é ruim porque faltam recursos; porque os governos não querem que o povo tenha conhecimento e cultura para continuar alienado e idiota; porque os professores são mal remunerados e desrespeitados; porque as escolas não tem equipamentos, etc; porque as escolas são assaltadas, vandalizadas e tudo mais.

– concordam com avaliações anuais de conhecimentos e de resultados de seu trabalho?
– aceitam avaliar seus colegas, suas escolas, direções etc.?
– alteração de seu tempo de serviço, considerando a maior expectativa de vida?
– utilização da meritocracia?
– concordam na reforma de seus estatutos funcionais?
– aceitam organização legal e independente do segmento dos pais?

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ALGUMAS PEQUENAS PERGUNTAS AOS PAIS

Vamos a algumas perguntas que poderiam/deveriam ser feitas para os pais ou responsáveis pelas crianças:

– entendem que educar é tarefa da família e escolarizar é missão dos professores?
– aceitam participação obrigatória na associação de pais da escola?
– participar das reuniões de avaliação de resultados e ocorrências nas escolas?
– ajudar a escola nas atividades comunitárias e sociais?

MAIS DINHEIRO? Para quê? Para reformar uma casa que já ruiu? Para pagar melhor os que não trabalham, sem diferenciá-los dos que são dedicados?

Vivenciando a escola, por dentro e por fora, é possível conhecer e avaliar as dezenas de questões sem soluções, que colocaram a educação e o ensino no patamar atual.

Para muitas delas, existem experiências e respostas. As não correções de rumo levaram, e continuam levando, nossa escola para a escuridão!

PALPITEIROS – Enquanto isto, centenas de “palpiteiros” falam mesmices, chavões e avaliações ridículas. Falam o que lhes interessa e o que os “mesmos de sempre” querem ouvir. No fundo, consciente ou não, ajudam a que tudo continue como está – ruim e sem um futuro melhor.

Será que todos os interessados, realmente, querem uma escola melhor?

Na minha infância, brincávamos de escola. Nas últimas décadas, governos, magistério e a sociedade, têm brincado com a escola!

Piada do Ano! Interventor devolve recursos que deveria utilizar contra o crime…

Braga Netto, que volta para Brasília em março, não concorda com o fim da Secretaria de Segurança anunciado por Witzel Foto: Agência O Globo

General Braga Neto deu uma entrevista decepcionante

Gabriela Goulart e Selma Schmidt
O Globo

A intervenção federal termina em 31 de dezembro, último dia para o empenho de R$ 1,2 bilhão dado pela União à segurança do estado. Ainda falta um bocado. O general Walter Braga Netto acredita que, até as 23h do fatídico 31, alcance 80% da meta. O restante será devolvido. Ele transfere parte da responsabilidade para o estado, que teria se desacostumado a fazer licitações. “Paguei para eles cursos de contratos, processo licitatório, projetos…”, afirma. Braga Netto, que vai para Brasília em março, garante ter cumprido os objetivos de sua missão. Estruturar os órgãos da pasta era um deles. Não à toa não concorda com o fim da Secretaria de Segurança, decisão de Wilson Witzel. Vai além: afirma que o governador eleito terá que definir um interlocutor para a transição da intervenção: “As Forças Armadas não tratam de transição com comandante de polícia’’.

Faltam duas semanas para o fim da intervenção na segurança e só 39% do R$ 1,2 bilhão destinado pela União foram empenhados (autorização para gastar). O Rio vai perder esse dinheiro?
Parte desses recursos, R$ 200 milhões, foi colocada nas Forças Armadas e estão com mais de 90% empenhados. Os 39% são do total.

E R$ 1 bilhão?
Desse R$ 1 bilhão, tenho uma ata parada de mais de R$ 200 milhões para a compra de viaturas. Poucos estão colocando tanto dinheiro na praça, e as empresas ficam alucinadas. Existe a contestação de uma perdedora, que entrou com recurso no TCU (Tribunal de Contas da União).

O senhor acha que consegue empenhar R$ 1,2 bilhão até 31 de dezembro?
Acho que chego acima de 80%. Posso empenhar até 31 de dezembro, onze horas da noite. Isso é normal no Exército. Em Brasília, os ministérios não conseguem gastar os recursos todos.

A liberação do dinheiro demorou?
O problema não foi a chegada do dinheiro. O problema é que o estado desaprendeu a realizar o processo licitatório. A primeira coisa a fazer é especificar o que se quer. Muitas vezes eles não sabiam o que queriam. Precisavam, por exemplo, de pistolas. Mas não sabiam a marca, há necessidade de especificar o modelo.

As Forças Armadas fazem a licitação, mas dependem de o estado especificar…
Tive que ensiná-los a especificar. Se eu fizesse a licitação deles, teria problemas com o TCU. Paguei para eles cursos de contratos, processo licitatório, projetos… Recebi projeto que não era nem projeto.

Há como negociar o prazo do empenho?
Fui no TCU, conversei… Mas não tinha como. Tenho que empenhar até o dia 31, e as aquisições vão chegar no ano que vem. O que eu não empenhar volta para a União.

A burocracia atrapalhou o processo?
Ela dificultou. E eu não esperava tamanha perda de capacidade do estado.

O senhor considera ter cumprido todos os objetivos da intervenção federal?
Acho que cumpri todas as metas. Posso não ter atingido 100% em cada uma delas. O primeiro objetivo era diminuir gradualmente os índices de criminalidade. Todos estão com o viés de queda. Mesmo a letalidade violenta, em decorrência da intervenção legal (antiga intervenção policial), que tinha aumentado, caiu. Implantamos uma sistemática que já existia mas não era efetiva, que era o trabalho em cima da mancha criminal.

A grande crítica é sobre essas mortes em confronto…
Não é que se busque matar. Nosso treinamento é para que os policiais não acertem inocentes. Os bandidos têm uma postura irracional. Um exemplo: teve uma ação na Babilônia e Chapéu Mangueira onde morreram oito pessoas. Os marginais fugiram pelas trilhas e deram num despenhadeiro. E, em vez de se entregarem, atiraram. A partir do momento em que não houver enfrentamento por parte deles, isso vai reduzir sensivelmente.

O governador eleito Wilson Witzel falou em abate, uso de snipers. Qual a postura do Exército em relação a esse enfrentamento?
O Exército tem regras de engajamento para atirar. Não preciso esperar o bandido atirar em mim. Se houver ameaça à tropa ou à população, posso usar a força letal. Mas isso é muito bem treinado.

O Exército usa snipers?
Não temos snipers. Temos atiradores de elite, que vão com a tropa. Não é como nos filmes, aquele atirador que fica escondido. É a pessoa mais adequada para responder ao fogo imediato. É uma ação mais defensiva do que ofensiva. Não tenho atirador meu, posicionado, escondido, esperando para eliminar um elemento que está parado, só porque ele está com um fuzil.

O senhor falou na redução dos índices de violência como uma das metas. Quais eram as outras? Como as avalia?
O segundo objetivo era recuperar a capacidade operativa dos órgãos de segurança. Estão sendo recuperados, tanto na parte de material como de valores. O terceiro era articular de forma coordenada as instituições dos entes federativos. Todos participam e não há disputa por protagonismo. O quarto era fortalecer o caráter institucional da segurança pública e do sistema prisional. Coloquei-os como instituição de estado. Quanto ao quinto, a melhoria da gestão prisional e dos órgãos de segurança, estou atingindo. O sexto foi a estruturação do Gabinete de Intervenção e da Secretaria de Administração. Eles foram estruturados, os recursos vieram

Como fica a estrutura diante do anúncio do fim da Secretaria de Segurança?
É uma decisão do novo governador. Eu não faria isso. O planejamento que fizemos, do que está sendo executado e da transição, levou em conta a estrutura da secretaria, com as duas polícias subordinadas a ela. Elas tinham passado a trabalhar sem procurar protagonismo.

Essa competição entre as polícias civil e militar é considerada histórica…
Não digo que terminou, mas reduziu muito. Quando pego as duas polícias e elevo para o nível de secretaria, volto a estimular isso. E tiro um fusível, que é o secretário de Segurança. A decisão agora, quando houver uma disputa, terá que ser do próprio governador.

Como se dará o processo de transição da intervenção?
A transição que fica para o ano que vem (até junho) é um controle do legado material, que será feito por dez equipes.

Do lado do estado, quem será o interlocutor com vocês?
O governador tem que definir. O que posso dizer é que as Forças Armadas não tratam de transição com comandante de polícia. O nível é diferente.

O que foi mais difícil durante a intervenção?
A minha maior preocupação era como as duas polícias iriam nos encarar. Iriam abraçar a causa e trabalhar junto ou remar para trás? Acho que a situação do estado estava tão complicada que nos viram como uma balsa de salvamento.

Mas houve vazamentos em algumas operações…
Sim. Mas isso faz parte do problema também.

O senhor fica até quando?
Provavelmente até março. Depois, vou para Brasília.

Vai integrar o novo governo?
Não. Sou general da ativa, do alto comando do Exército.

Quem fica durante a transição?
Após 31 de dezembro, teremos redução de efetivo (inicialmente para 30% dos cerca de 200, incluindo representantes de órgãos como TCU e AGU). O general Richard (Nunes, secretário de Segurança), exonero antes do dia 31. Ele já tem outra missão: é o chefe de gabinete do novo comandante do Exército.

E a intenção do futuro governador de prorrogar a GLO (Garantia da Lei e da Ordem)?
Para ter GLO é preciso ter três “is”: insuficiência de meios, inexistência de meios e incapacidade. Na minha opinião, não há necessidade. Não há necessidade, desde que o planejamento não volte àquela politicagem.

O senhor blindou as indicações políticas na segurança?
Blindei. As pessoas têm até vergonha de pedir.

As investigações sobre o caso Marielle, evoluíram?
Sim. Mas não me envolvo. É um problema da Polícia Civil.

O senhor espera apresentar o assassino antes do dia 31?
Seria o meu coroamento. Mas não adianta apresentar um responsável, e ele, por falhas processuais, for inocentado. Tem que ter robustez.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGNa reta final, sempre aparecem candidatos à Piada do Ano. Com essa entrevista arrogante e soberba, o general Braga Netto culpa o governo estadual pelo fracasso de licitações cujo objetivo deveria ser definido por ele próprio. O chefe militar mandou comprar pistolas, mas não definiu o modelo e agora culpa o Estado. É piada, mas não tem graça nenhuma. Devolver recursos que poderiam ser usados contra a criminalidade também é Piada sem a menor graça. Vamos voltar ao assunto, com outros dados impressionantes que revelam a desfaçatez do general Braga Netto. (C.N.)

“Bolsonaro é resposta tosca, mas não ameaça a democracia”, diz Mangabeira

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Mangabeira Unger explica a derrota de Ciro Gomes

Carolina Linhares
Folha

Para o filósofo Roberto Mangabeira Unger, a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) é uma resposta tosca a uma aspiração legítima do Brasil profundo de botar para quebrar. O professor da Universidade Harvard (EUA) critica a hegemonia do PT, de Lula. “Como eles vão liderar? Eles se esborracham porque não compreenderam o que o país queria”. Amigo e guru de Ciro Gomes (PDT), ele assume erros na campanha.

Qual o significado da eleição de 2018?
Foi um plebiscito sobre a volta do PT. A maioria decisiva dos brasileiros estava disposta a pagar quase qualquer preço para evitar o retorno do PT. O PT e o Lula deveriam ter tido a grandeza de reconhecer que a maioria dos brasileiros não aceitaria a volta do PT. Não havia qualquer chance de vitória do candidato do PT, mesmo que Lula pudesse ter sido candidato. O natural é que o PT desde o início tivesse apoiado Ciro.

E por que Ciro não venceu?
Ciro e nós, seus aliados, cometemos um erro. Havia dois caminhos. Um era acertar-se com Lula e com o PT. Aceitar ser vice de Lula para depois virar cabeça de chapa. Havia objeções a isso, devido à diferença entre os projetos par o país e à falta de confiança nos acertos do PT, que tem uma longa história de dar rasteiras. Esse caminho tinha uma consistência tática. O outro caminho era romper desde o início com o PT. Deixar clara a diferença de projeto e oferecer-se ao eleitorado como uma alternativa mais confiável do que Bolsonaro. O erro foi ficar no meio termo. Muitos até o final continuaram a achar que o Ciro era um homem de Lula. Isso é que foi fatal.

Ao não declarar apoio a Haddad no segundo turno, Ciro buscou esse afastamento?
Tarde demais para superar os males gerados por essa ambiguidade. Ciro passou muito tempo explicando-se para as classes ilustradas e endinheiradas, que na maioria jamais votariam nele, em vez de buscar o povão.

Qual dos caminhos que o sr. mencionou para Ciro era melhor?
Os dois tinham consistência. Se ele escolhesse o acerto com o PT, não havia nenhum risco de que, no poder, ele se conduziria como instrumento do lulismo. Eu advoguei essa alternativa.

O sr. não disse que tem que correr fora da raia do lulismo?
Você está fazendo confusão. Uma coisa é o caminho tático. Nós não escolhemos as circunstâncias. Se fosse o primeiro caminho, haveria o problema da confusão da população, porque ficaria manifesto que o Ciro tem um outro projeto.

Mas ele seria eleito?
Com grande chances, com o apoio de Lula, mas sendo não-Lula e sendo quem é, inconfundível com poste, teria grandes chances. O [caminho] preferível teria sido começar de lá de trás essa pedagogia da diferença.

O sr. disse que é preciso correr fora da raia do lulismo…
Eu não disse isso, Fernando Haddad atribuiu essa frase a mim, porque ele confundiu duas coisas: a questão tática com a questão de fundo. Sinceramente eu acho que ele, meu amigo, até hoje não compreende a diferença substantiva dos projetos.

Como o sr. explica a ascensão de Bolsonaro?
PSDB e PT juntos, duas cabeças da mesma serpente, conduziram o Brasil por uma lógica da cooptação. Cada parte do país foi comprada, a corrupção foi apenas um dos vários corolários desse sistema. Intuitivamente o Brasil buscava passar da lógica da cooptação para a lógica do empoderamento. E por trás dessa rejeição ao PT havia o repúdio à lógica da cooptação. O modelo que chamamos de nacional consumismo democratizou a economia do lado da demanda e do consumo, não do lado da produção. O agente social mais importante do Brasil, os emergentes, é órfão de projeto político. Não é apenas a pequena burguesia empreendedora mestiça, morena, que vem de baixo. É também uma multidão de trabalhadores pobres que vê nos emergentes a vanguarda. Essa é a cara do Brasil profundo.

A esquerda abandonou essa população?
Chamar de esquerda o PT é muito esquisito. Porque esse nacional consumismo não tinha qualquer projeto de mudança estrutural. A parte social é o açúcar com que se pretendia dourar a pílula do modelo econômico. Esse Brasil profundo quer desesperadamente mais do que açúcar. Quer instrumento e oportunidade. Quer botar pra quebrar, criar, construir, inovar, ser gente. ​Bolsonaro é o beneficiário acidental desse desejo frustrado. Acidental não é para desmerecer o esforço que ele fez durante anos de construir um discurso e canais para esse Brasil desconhecido, que é o agente decisivo hoje.

Bolsonaro teve essa estratégia ou foi sem querer?
Intuitivamente sim [teve estratégia]. Oferece soluções simplistas, mas que no imaginário apelavam para uma ideia de libertação e merecimento. Era a forma simplista e até distorcida e mentirosa de uma aspiração legítima.

Por que o PT não apoiou Ciro?
Tudo indica que preferiam perder o poder à direita a perder a hegemonia na esquerda. Por soberba, sobrevalorizando a sua influência sobre a população e subvalorizando a descoberta pelo povo brasileiro da insuficiência do projeto petista. Um povo farto da lógica da cooptação nacional consumismo e buscando o empoderamento. Isso era o mais difícil de eles aceitarem porque seria uma crítica fundamental a eles mesmos..

Bolsonaro fará um bom governo?
Me parece promissor, e falo como opositor, a ideia de impor o capitalismo aos capitalistas. Nem de longe é condição suficiente para o modelo de desenvolvimento que precisamos, mas é condição preliminar. A radicalização da concorrência, quebra dos cartéis, a destruição dos favores dados aos graúdos pelos bancos públicos. E de oferecer aos emergentes um projeto político que responde às aspirações deles. Considero que a resposta é tosca e que irá frustrar parte da população. Mas é melhor do que nada. O que era intolerável no nosso país é que o agente social mais importante estivesse alienado da política e não se sentisse representado.

Bolsonaro não é o experimentalismo radical?
Não. Não é a ideia de que existe a forma simplista de acabar com a bagunça. A ordem na sala de aula, a força contra crime, é o presidente não comprar os partidos. Não é acabar com a bagunça, é transformá-la numa anarquia criadora. Não vamos impor ao país uma camisa de força. A severidade moralizante, a fórmula pronta, o revólver, a ordem patriarcal. Tudo isso é uma fantasia arcaica, de que há um atalho, uma maneira simples de encontrar esse futuro que queremos. O Brasil vai descobrir que esse atalho não funciona, mesmo assim eu julgo que essa primeira onda será útil ao país e talvez, retrospectivamente, venhamos a pensar que ela foi necessária.

Bolsonaro é uma ameaça à democracia?
Não vejo qualquer indício concreto de ameaça direta à democracia. Em Harvard, meus colegas me abraçam em solidariedade porque passa por lá que Mussolini assumiu o poder. Não é nada disso. O risco que nos ronda não é a ditadura fascista, é a perpetuação da mediocridade. O risco à democracia pode haver depois, por sucessivas frustrações dessas aspirações dos emergentes, de empoderamento.

Como vê Sérgio Moro no Ministério da Justiça?
Outro aspecto positivo de Bolsonaro é a desorganização dos acertos entre oligarquia do poder e oligarquia do dinheiro. Moro pode ser útil nisso. Muito bom para o país. Desde que não caiamos sob o governo dos juízes, que não têm eficácia ou legitimidade para governar. Eles são úteis ao país para abrir o espaço cívico e impedir que ele seja corrompido, mas não para ocupá-lo.

O que acha da política externa de Bolsonaro?
Há duas vozes dominantes na política exterior brasileira. A primeira é a da política exterior como sucursal da UNE. É retórica, nunca foi real. Por exemplo, nos assuntos da Defesa, o Brasil é um protetorado dos EUA e o PT nunca levantou um dedo para mudar isso. A outra voz é a política exterior como sucursal da Fiesp. É um bazar para vender os nossos produtos. O que eu temo é que a política exterior do governo Bolsonaro venha a ser a continuação da mesma coisa, a justaposição dos dois erros. É o simbólico com sinal trocado, em vez de anti-imperialismo é antiglobalismo. Um tão ruim quanto o outro. Justaposto ao pequeno mercantilismo. É um bazar permanente.

E a relação com os EUA?
De um lado, dizemos “vamos ser como eles”. Eles buscam grandeza, nós vamos buscar grandeza. E qual a fórmula da grandeza? É nos subordinar a eles. Isso é algo que não passa, justificado por essa retórica confusa do antiglobalismo. É a ambiguidade do discurso do Bolsonaro. Não está só trocando o sinal, passando de uma política ideológica para outra e não concebendo a política exterior como política de estado. Estão usando a política exterior como se fosse o reino do simbólico. Os astrólogos escolherem chanceleres. Isso só aconteceu na Babilônia há três mil anos.

Não se trata de fazer algo pelo país, mas impedir que o presidente faça

O presidente americano, Donald Trump

Ao contrário do que parece, Trump não tem nada na cabeça

Ruy Castro
Folha

“Medo: Trump na Casa Branca”, livro de Bob Woodward sobre o caos da administração de Donald Trump no governo dos EUA, que acaba de sair pela editora Todavia, tem trechos que podem ser lidos como peças de humor. E outros, como peças de terror. É um relato do voluntarismo, despreparo e estroinice do chefe de uma nação, capaz de fazer um grande estrago se o deixarem executar o que lhe vem à cabeça. Por sorte, o governo americano tem tantos canais e escaninhos que muitas de suas decisões podem ser anuladas antes de se tornarem realidade.

A que abre o livro já é histórica. Em 2017, Trump ameaçou pôr em risco a paz mundial ao planejar romper um acordo comercial de mais de 60 anos com a Coreia do Sul. E por que não conseguiu fazer isto? Porque gente de dentro da Casa Branca escondeu o rascunho da carta em que ele desfazia o acordo e “esqueceu-o” numa pasta até que Trump esquecesse efetivamente o assunto —o que afinal aconteceu.

VANTAGEM – “Não se trata de fazer algo pelo país”, disse um assessor, “mas de impedir que ele faça”. Trump tem essa vantagem: como sabe pouco do que fala, muda muito de ideia ou se esquece dela.

Se o Brasil tivesse esses canais e escaninhos, várias tragédias talvez pudessem ter sido evitadas, mesmo no tempo dos militares. O Ato Institucional nº 5, por exemplo. As torturas, as execuções, a bomba no Riocentro. Você dirá que eram atos de uma ditadura, que não precisava dar satisfações a ninguém. Sim, mas mesmo as ditaduras têm correntes internas em conflito —talvez alguém visse a barbaridade daquelas medidas.

FALSAS BOAS IDEIAS – Assim como o confisco da poupança por Collor, o mensalão e o petrolão nos governos Lula e Dilma, e até Temer recebendo gente fora da agenda e fora de horas. Ninguém os advertiu de que eram falsas boas ideias?

Agora temos Bolsonaro. Mas imagine se os ocupantes daqueles canais e escaninhos forem seus filhos, ministros e gurus.

“Eu que já corri o mundo, cavalgando a terra nua”, cantava Sidney Miller

Resultado de imagem para sidney millerPaulo Peres
Site Poemas & Canções

O compositor e cantor carioca Sidney Álvaro Miller Filho (1945-1980) escreveu um diálogo entre “A Estrada e o Violeiro”, cujo conteúdo poético é excelente, tanto que recebeu o prêmio de melhor letra em 1967, no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record (SP). No mesmo ano, a música foi gravada no LP Sidney Miller com a participação de Nara Leão, pela Elenco.

A ESTRADA E O VIOLEIRO
Sidney Miller

Sou violeiro caminhando só,
Por uma estrada, caminhando só
Sou uma estrada procurando só
Levar o povo pra cidade só.

Parece um cordão sem ponta,
Pelo chão desenrolado,
Rasgando tudo o que encontra,
Na terra, de lado a lado,
Estrada de sul a norte,
Que eu passo, penso e peço,
Notícias de toda sorte,
De dias que eu não alcanço,
De noites que eu desconheço,
De amor, de vida ou de morte.

Eu que já corri o mundo,
Cavalgando a terra nua,
Tenho o peito mais profundo,
E a visão maior que a sua,
Muita coisa tenho visto,
Nos lugares onde eu passo,
Mas cantando agora insisto,
Neste aviso que ora faço,
Não existe um só compasso,
Pra contar o que eu assisto.

Trago comigo uma viola só,
Para dizer uma palavra só,

Para cantar o meu caminho só,
Porque sozinho vou a pé e pó.

Guarde sempre na lembrança,
Que esta estrada não é sua,
Sua vista pouco acusa,
Mas a terra continua,
Siga em frente, violeiro,
Que eu lhe dou a garantia,
De que alguém passou primeiro
Na procura da alegria,
Pois quem anda noite e dia,
Sempre encontra um companheiro.

Minha estrada, meu caminho,
Me responda de repente,
Se eu aqui não vou sozinho,
Quem vai lá na minha frente ?
Tanta gente, tão ligeiro,
Que eu até perdi a conta,
Mas lhe afirmo, violeiro,
Mora a dor que a dor não conta,
Mora a morte quando encontra,
Vai na frente um povo inteiro.

Sou uma estrada procurando só,
Levar o povo pra cidade só,
Se meu destino é ter um rumo só,
Choro e meu pranto é pau, é pedra, é pó.

Se esse rumo assim foi feito,
Sem aprumo e sem destino,
Caio fora desse leito,
Desafio e desafino,
Mudo a sorte do meu canto,
Mudo o norte dessa estrada,
Que em meu povo não há santo,
Não há força, não há forte,
Não há morte, não há nada,
Que me faça sofrer tanto.

Vá, violeiro, me leve pra outro lugar,
Que eu também quero um dia poder levar,
Toda a gente que virá,
Caminhando,
Caminhando,
Na certeza de encontrar….

E agora, Brasil? Chegou o momento do balanço geral na transição do governo

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Charge do Genildo (Arquivo Google)

Pedro do Coutto

Ao participar na sexta-feira de um encontro promovido pelo jornal O Globo com apoio da Confederação Nacional do Comércio e do banco Modal, o Ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, afirmou ter chegado o momento da transição de governo e da modernização do processo político para que os partidos, dentro da Democracia, voltem a assumir seu protagonismo em nosso país.

O encontro que incluiu editores e colunistas do jornal foi mediado por Miriam Leitão e Lauro Jardim. Dias Toffoli acentuou também a necessidade de se colocar em prática os fundamentos das ações que cabem à Corte Suprema.

CHEGOU A HORA – As equipes encarregadas da transição, tanto as do atual governo Michel Temer quanto as do presidente eleito Jair Bolsonaro, em minha opinião devem aproveitar o momento para um balanço geral no país. Um balanço que reúna as áreas econômicas, sociais e financeiras, com seus dados completos. Um marco capaz de definir como Bolsonaro encontrou o país e como será de janeiro para frente em seu governo.  O presidente Michel Temer poderia fazer o mesmo destacando como ele encontrou o Brasil em 2016 e como entregará o país a Jair Bolsonaro.

Uma ideia baseada em números com o objetivo de comparar as realizações e os fracassos que marcam períodos governamentais.

DADOS IMPORTANTES – Por exemplo: Qual a população brasileira? Qual a renda do trabalho? Qual o nível de emprego? Qual a análise sobre o desempenho econômico? Quais as obras que foram interrompidas no meio da execução, quais os recursos financeiros disponíveis? A resposta a essas indagações devem servir de base para que Bolsonaro possa se dirigir ao país apresentando dados que recebeu de seu antecessor. A comparação do Produto Interno Bruto é outro tema. Deve se assinalar que ele se encontra hoje na altura de 6 trilhões de reais.

E nesse sentido qual exatamente é a dívida interna do Brasil. Essa dívida interna oscila em torno de 3,7 trilhões, como o jornal Estado de São Paulo publicou recentemente.

O QUE VEM AÍ? – Qual será a política do novo governo para fazer com que o país deixe de possuir apenas a metade de sua população atendida por um sistema de tratamento de esgoto. E por aí vai.

Os números devem ser do maior interesse de Jair Bolsonaro, pois assim ele poderá estabelecer a realidade com que assumiu e aquela que irá marcar sua trajetória no Palácio do Planalto.

Tem mais uma coisa. O governo que assume em janeiro, sugiro eu, poderá adotar um sistema de relatórios mensais, tipo de prestação de contas, um documento à população brasileira.

Caso de Flávio Bolsonaro traz à tona a imoralidade que contamina a política

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Bolsonaro tem um serviço a fazer e Flávio está atrapalhando

Carlos Newton

Desde sempre, o Poder Legislativo é formado por deputados e senadores, as Assembleias Legislativas por deputados estaduais e as Câmaras Municipais por vereadores. Como são eleitos pelo povo, que está espalhado por todo o País, é mais do que normal, que, de acordo com seus regimentos internos, tenham autorização para contratarem funcionários em comissão para representá-los nas mais distantes cidades, sem obrigação de comparecerem ao órgão contratante e diariamente assinarem o ponto.

De acordo com arquivos dos jornais, antes da Lei do Nepotismo, em muitos gabinetes parlamentares havia pais, mães, irmãos, namoradas etc., legalmente contratados e incluídos na folha de pagamento. Recebiam seus vencimentos e, se quisessem, poderiam doá-los integralmente e em parte para o caixa de futuras campanhas eleitorais do parlamentar contratante.

NEPOTISMO – Com a Lei do Nepotismo, os parentes foram sendo descartados, mas os amigos continuam em cena, nos níveis municipal, estadual e federal. Se for passado um pente fino nos gabinetes dos parlamentares, vai ser um escândalo incomensurável, especialmente nos escritórios que senadores e deputados mantêm em seus Estados, com tudo pago às custas do Congresso, inclusive o combustível, perguntem ao senador Magno Malta.

O levantamento da Operação Furna da Onça estava caçando corruptos de alto coturno, acabou pescando um peixe menor, mas de grande valor, por ser da família presidencial, que se atualmente comporta como se fosse família imperial, dona do país.

O azar de Flávio Bolsonaro é que está ficando provado se tratar de um político de terceira classe, que não se contenta com o elevado salário e se julga no direito de cobrar pedágio dos assessores.

SEM CAUTELAS – De se convir que, no caso em destaque na mídia, Flávio agiu com excesso de confiança, deixando que seu motorista e assessor criasse uma verdadeira penca de funcionários-fantasmas, sem as cautelas de praxe.

Quem quer praticar ato imoral deve se acautelar. O mundo gira e chega o dia em que aquela bomba que parecia desativada explode de repente, espalhando destroços por todos os lados.

E não adianta querer culpar o PT pelo fato desse caso vir ocupando a mídia inteira sem parar. A família Bolsonaro está no centro das atenções porque se elegeu pregando a moral e os bons costumes. Mas o comportamento do deputado Flávio Bolsonaro indica exatamente o contrário e até envolve o pai e a madrasta num modesto cheque de R$ 24 mil.

SEM DISCURSO LÓGICO – Por óbvio, a ocasião é aproveitada para deixar Jair Bolsonaro sem discurso lógico contra a corrupção. Então, que ele e seus filhos prestem as informações plausíveis e apresentem as justificativas cabíveis. E que o presidente eleito, uma vez no comando do país, não se esqueça da seguinte agenda:

1 – cobrar de Silvio Santos, dono do Banco Panamericano, o ressarcimento de mais de 5 bilhões de reais decorrentes de crimes financeiros cometidos por seus funcionários de confiança na gestão temerária daquele banco;

2 – exigir a responsabilização da diretoria da Caixa Econômica Federal, na época do governo Lula, que comprou 49% do Panamericano antes que houvesse a intervenção pelo Banco Central e a consequente falência, que destruiria o grupo empresarial de Silvio Santos.

3 – verificar as razões pelas quais a Caixa Econômica Federal ainda persiste anunciando diariamente na rede de TV de Silvio Santos, ou seria uma espécie de permuta?

4 – pedir ao COAF, tão competente no exame das ilegalidades cometidas na Assembleia do Rio, que explique como o presidente do STF, Dias Toffoli, além da remuneração como ministro, pode receber mensalmente mais R$ 100 mil do escritório de advocacia de sua esposa, transferindo, ao mesmo tempo, R$ 50 mil a título de pensão à sua ex-mulher, como divulgado por toda a mídia, sem que o ministro se manifestasse ou desse um pio que fosse.

5 – verificar, urgentemente, por que os bancos particulares podem cobrar juros de até 400% ao ano de uma população que tem mais de 60 milhões passando fome e abaixo da linha da pobreza.

6 – divulgar quanto o governo federal está gastando, mensalmente, com as cinco redes de televisão e grandes veículos da mídia, inclusive as verbas publicitárias das estatais e das empresas que compõem o chamado Sistema S (Sesc, Sebrae, Senai etc.).

7 – se a Previdência está falida, favor divulgar os nomes dos seus principais devedores, inclusive veículos de comunicação, que, acertadamente, defendem a urgência da reforma da Previdência.

8 – divulgar o número de funcionários de cada embaixada brasileira no estrangeiro, o gasto total anual e os respectivos cargos, inclusive os adidos militares e policiais.

9 – obrigar as empresas que oferecem planos de saúde a divulgarem as justificativas para elevarem tão acentuadamente os valores cobrados dos segurados. Por que não criar um sistema de crédito a ser acumulado, ao longo da vida, pelos segurados, garantindo aos que menos usam o plano um valor menor do que aquele cobrado indistintamente de todos?

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P.S. 1
O futuro governo tem muito a fazer contra a amoralidade (ou imoralidade) que domina o poder público. Mas precisa lembrar que o exemplo deve começar em casa. (C.N)

Acordo entre Mercosul e União Europeia dependerá de governo Bolsonaro

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Bolsonaro e Araújo precisam ter uma crise de bom senso

Jamil Chade
Estadão

Terminou sem qualquer tipo de acordo a última rodada de negociações entre o Mercosul e a União Europeia. Na ausência de uma aproximação das posições entre os dois blocos, um eventual acordo fica adiado para 2019 e caberá ao governo de Jair Bolsonaro (PSL) tomar uma decisão sobre o destino do processo.

O fracasso na negociação frustrou a esperança do governo de Michel Temer de deixar o país com um tratado de dimensões importantes. Em 2017, o pacote esteve próximo de ser fechado, depois de 18 anos de negociações. Mas o Mercosul considerou que a UE não fez qualquer gesto significativo para abrir seu mercado

HOUVE PRESSA – Com a eleição de Bolsonaro, a Comissão Europeia se mobilizou para tentar fechar um entendimento com o Mercosul antes do final do ano. Reuniões proliferaram e delegações dos dois lados do Atlântico foram enviadas para tentar encontrar uma aproximação.

Mas os objetivos de Bruxelas foram rapidamente frustrados, diante de uma pressão de governos como o da França, da Irlanda e de alguns outros do Leste Europeu, refratários a uma abertura de seus mercados para os bens agrícolas do Mercosul.

Também foi recebida como uma ducha de água fria o alerta que o presidente da França, Emmanuel Macron, lançou durante o G-20, apontando que apenas assinaria um acordo com o Mercosul se Bolsonaro seguisse no Acordo Climático de Paris.

ÚLTIMA CHANCE – Mesmo assim, as delegações dos dois blocos decidiram tentar uma “última chance” nesta semana em Montevidéu. Mas, segundo o Mercosul, os europeus uma vez mais não apresentaram propostas de abertura suficientes. Se houvesse uma sinalização positiva, os grupos técnicos anunciariam uma reunião ministerial para, então, realizar a fase final das concessões. Mas nada disso ocorreu.

Em meio ao processo nesta semana no Uruguai, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se mostrou preocupada e alertou, no Parlamento em Berlim, que o “tempo estava se esgotando” para um acordo com o Mercosul. Para ela, um processo sob a gestão de Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo seria mais difícil.

A cobrança de Merkel, porém, foi interpretada como um alerta interno na Europa. Berlim tentou pressionar os países mais protecionistas a ceder, insinuando que, se não houvesse um acordo agora, em 2019 essa possibilidade seria ainda mais distante.

DERROTA LIBERAL – Mas nem isso funcionou. Em Bruxelas, fontes admitiram ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, que o fracasso foi considerado como uma “derrota” para os planos da ala mais liberal do bloco. Com Bolsonaro no poder, o que predomina é uma incerteza sobre o papel que Brasília dará aos europeus, principalmente depois de todos os sinais que Araújo apontou de privilegiar uma relação com os EUA de Donald Trump.

No Itamaraty, a orientação é de que, no início de 2019, um novo contato seria estabelecido entre Brasília e Bruxelas para avaliar quais seriam os próximos passos. Mas experientes negociadores admitiram que, com um novo governo no poder, alguns meses serão necessários para que a nova administração possa conduzir sua política externa e fixar seus objetivos comerciais

O Broadcast apurou que a diplomacia argentina também saiu frustrada das conversas, admitindo que, em 2019, um acordo sob a gestão de Bolsonaro poderia estar ainda mais distante. Mauricio Macri, presidente da Argentina, havia estabelecido a aproximação com a UE como uma de suas prioridades de política externa.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Se o presidente Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo não tiverem uma súbita crise de bom senso, o Mercosul irá para o espaço e os exportadores brasileiros podem perder vendas em torno de US$ 25 bilhões anuais, que hoje estão garantidas pela existência do bloco comercial. Bolsonaro e Araújo precisam raciocinar (?) sobre isso. (C.N.)

Depois do “caixa 2”, a Lava Jato agora denuncia quem se envolveu em “caixa 3”…

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Jutahy diz que as doações recebidas foram declaradas

Por G1 — Brasília

A Procuradoria Geral da República (PGR) informou nesta sexta-feira (14) ter denunciado o deputado federal Jutahy Júnior (PSDB-BA) e mais três pessoas ao Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto “caixa 3” na campanha eleitoral de 2010. O caixa 2 consiste em um político ou um partido receber doação e não declarar à Justiça Eleitoral. Segundo a PGR, o “caixa 3” consistiu em o deputado receber doações da Odebrecht por meio de outras empresas.

Ao G1, o deputado disse que cumpriu “100% da lei”, recebeu doações de empresas idôneas e habilitadas a doar, acrescentando que os valores doados foram declarados à Justiça Eleitoral e as contas, aprovadas. Disse, ainda, que “não existe a tipificação do caixa 3”.

NA FORMA DA LEI – “Em 2010, era permitida a doação empresaria. Recebi de duas empresas a soma de R$ 30 mil. Eram empresas idôneas, e a legislação permitia que eleas doassem. A doação está registrada na prestação de contas aprovadas pela Justiça Eleitoral. Fiz tudo absolutamente dentro da lei e vou me defender com a tranquilidade de quem é inocente”, afirmou Jutahy.

“Durante a campanha, procurei saber se a empresa poderia doar, consultei a lista das empresas que podem doar, averiguamos. E as empresas doaram dentro da legislação, está tudo registrado. Essa figura de caixa 3 não existe, não tem sustentação no código eleitoral”, acrescentou.

OUTROS DENUNCIADOS – Além de Jutahy, foram denunciados: Benedicto Barbosa da Silva Júnior, ex-executivo da Odebrecht e delator; Walter Faria, do grupo Petrópolis; Roberto Luiz Ramos Fontes Lopes, dono das empresas Leyroz e Praiamar.

Procurada, a assessoria do grupo Petrópolis divulgou a seguinte explicação: “Em nota, o Grupo Petrópolis informa que as doações para campanhas eleitorais estão registrados e comprovadas em órgãos competentes, de acordo com o que determina a legislação. Os esclarecimentos sobre o tema já foram prontamente prestados às autoridades para permitir a completa elucidação dos fatos. O empresário Walter Faria se defenderá nos termos da lei, confiante que ao final a legalidade das doações será reconhecida pela Justiça.”

DIZ A PGR – Segundo a PGR, o parlamentar informou ao Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) ter recebido na campanha de 2010 R$ 30 mil das empresas Leyroz de Caxias Indústria e Logística e Praiamar Indústria, Comércio e Distribuição.

“No entanto, as investigações instauradas a partir de colaboração premiada confirmaram que a doação foi feita pelo Grupo Odebrecht”, informou a procuradoria.

Ainda de acordo com a PGR, a investigação aponta que Walter Faria, do grupo Petrópolis, foi procurado por Benedicto Barbosa, da Odebrecht, para fazer a doação e, assim, a empreiteira “compensaria o grupo Petrópolis”.

REPASSANDO – “Como Walter Faria não queria que sua empresa aparecesse como grande doador eleitoral, entrou em contato com Roberto Lopes [da Leyroz e da Praiamar], que atendeu à demanda e fez constar oficialmente na prestação de contas, como doadoras, suas empresas”, diz a procuradoria.

Ainda segundo a acusação, Walter Faria compensou os gastos. “Em depoimento, Roberto Lopes confirmou que suas empresas simularam doações eleitorais a candidaturas indicadas por Walter Faria, a quem posteriormente encaminhava os recibos de transferência”, informou a PGR.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Parece que a Lava Jato está indo longe demais. Na época, as doações eram legais. Ou seja, as empresas devem ser denunciadas, mas o parlamentar, a meu ver, tem pouca coisa a ver com isso. Posso estar enganado, mas… (C.N.)

Como entender o fracasso da educação pública num país como o Brasil

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Charge do Junião (junião.com.br)

Sebastião Nery

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento. Sua ausência determina baixíssima qualificação da mão de obra resultando na baixa produtividade. Educação e economia estão integradas na ordem direta de um país responsável que almeje pela elevação da renda à inclusão social. Sem priorizar a educação torna-se impossível a construção de uma nação desenvolvida. Buscar um padrão educacional moderno a exemplo de países como a Finlândia, Coréia do Sul, Japão e vários outros que construíram modelos educacionais que mudaram a realidade do seu povo deve ser o grande objetivo de um ministro da Educação comprometido com a modernização.

Segundo o excelente analista Rolf Kuntz, em “O Estado de S.Paulo” (25-11-2018), qualquer candidato a cuidar da educação brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questões:

1) Por que os alunos brasileiros vão tão mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes?

2) Como melhorar os níveis fundamental e médio do ensino brasileiro, obviamente em condições muito más?

3) Como adaptar o ensino às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0?

4) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do século 21?

5) Que experiências bem sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional?”

INEFICIÊNCIA – Rolf Kuntz destaca que padrões ideológicos ou religiosos não podem prevalecer na condução da educação brasileira. A ineficiência da educação brasileira tem várias causas e uma delas não é decorrente de o Brasil investir pouco na formação educacional. A baixíssima qualidade da educação nacional não tem como responsável a insuficiência de recursos.

Sua origem está na inexistência de uma política educacional séria, competente e realista. Educação é política de Estado e pauta suprapartidária. A incompetência e irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos pela União, Estados e Municípios alimentam e agravam o caos educacional.

O economista, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica e professor Ricardo Paes de Barros, ante essa realidade indaga: “Como você coloca 6% do PIB na educação e eles dizem que não sabem como garantir resultados?”

SEM PRIORIDADE – Em 2017, o governo da União aplicou R$ 117,2 bilhões em educação. Sendo R$ 75,4 bilhões no ensino superior e R$ 34,6 bilhões na educação básica. O governo federal nos ensinos básicos e fundamental tem papel supletivo em relação aos Estados e Municípios. A diferença do montante de recursos exemplifica o porquê de o ensino básico e fundamental sofre de déficit educacional histórico. Exatamente as áreas que deveriam ter prioridade maior no recebimento de recursos públicos.

A síntese disso tudo pode ser resumida em uma estrutura educacional viciada, envolvendo União, Estados e Municípios. Prioridades erradas na administração dos recursos destinados à formação das novas gerações é realidade inquestionável. A deficiência no aprendizado, fruto de uma educação sofrível no ensino básico, é agravada pela elevada evasão no ensino médio, travando a construção do futuro de novas gerações e aprofundando a desigualdade da renda e a pobreza para milhões de brasileiros. Todos vítimas de uma péssima educação, como mostra o professor universitário Hélio Duque, autor de vários livros sobre economia brasileira e três vezes deputado federal pelo Paraná.

Você acredita que João de Deus só foi preso porque “sacou R$ 35 milhões”?

João de Deus

João Deus na quarta-feira, em sua última visita ao templo

Deu em O Tempo

Acusado por centenas de mulheres de abusar sexualmente delas, o médium João de Deus sacou R$ 35 milhões logo após as primeiras denúncias virem à tona. Segundo os investigadores que acompanham o caso, o valor foi retirado na última quarta-feira, dia 12.

De acordo com o jornal “O Globo”, a movimentação motivou o pedido de prisão do médium pela Polícia Civil de Goiás e pelo Ministério Público. O dinheiro estava em aplicações em diversas contas bancárias.

PROCURA-SE – João de Deus está sendo procurado em todo o país. A última aparição do líder religioso em público foi justamente na quarta-feira, na casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO), onde faz seus atendimentos. Em um pronunciamento de poucos minutos, disse ser inocente e estar a disposição da Justiça.

Desde que a prisão preventiva foi realizada, a Polícia Civil afirma já ter procurado o médium em mais de 20 endereços. Na casa dele de Goiás, no entanto, as buscas não foram feitas. Os endereços já investigados estão sob sigilo. “Há pontos que também estão sendo vigiados”, disse o delegado geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes de Almeida, que conduz as negociações com a defesa do médium, para que ele se entregue à polícia.

Não há diferenças essenciais entre Damares e os fundamentalistas islâmicos

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Damares é uma espécie de Dilma tipo fanática religiosa

Demétrio Magnoli
Folha

“A igreja deve governar”, exclamou Damares Alves, nova ministra da Mulher, da Família e Direitos Humanos aos fiéis de sua seita evangélica. Há pouco, bastaria contraditá-la invocando a laicidade estatal. Hoje, face ao regresso político em curso, é preciso examinar as relações entre igreja, partido e governo para redescobrir o valor universal do princípio do Estado laico.

A fé não precisa de uma igreja para se manifestar. As igrejas, como os partidos, são sobre poder. No Ocidente medieval, a Igreja Católica exercia um poder absoluto sobre as sociedades: o papado legitimava os reis. Um paralelo apropriado é com os totalitarismos do século 20: os partidos de Stalin e Hitler identificavam-se com o Estado.

DIFERENÇAS – Nas democracias, contudo, partidos e igrejas ocupam lugares radicalmente diferentes. Os primeiros almejam governar; as segundas só podem almejar a liberdade de pregar uma fé.

O partido é a expressão política de uma parte da sociedade que pretende representar, provisoriamente, a sociedade inteira. A meta é atingida por meio do voto majoritário, veículo da soberania popular, que sagra a verdade do partido como verdade geral provisória.

Mas o partido que chega ao governo continua a ser a parte, não o todo, e, por isso, corre o risco de ser apeado na eleição seguinte. A igreja, porém, qualquer que seja ela, define a sua verdade como Verdade eterna —e, por isso, não tem o direito de querer governar.

PROGRAMAS – Os partidos exibem seus programas como soluções melhores para administrar as coisas (a economia, os serviços públicos) nas circunstâncias do presente. As igrejas, por outro lado, pretendem universalizar uma fé, um modo de entender a vida e a morte, um catálogo de preceitos sobre o comportamento dos indivíduos nas esferas pública e privada.

O governo do partido pode ser mudado; o “governo da igreja” é, por definição, imutável. Do ponto de vista da democracia, não existem diferenças essenciais entre Damares e os fundamentalistas islâmicos que governam a Arábia Saudita, o Irã, o Sudão e a Faixa de Gaza.

“Todo o poder aos sovietes!”. A exigência dos antigos comunistas de transferência de “todo o poder” à classe proletária deve ser interpretada: de fato, eles queriam o poder absoluto para seu próprio partido.

EXCLUSIVIDADE – Os partidos comunistas proclamavam representar, com exclusividade, a classe trabalhadora. Por esse motivo, quando os bolcheviques chegaram ao poder na Rússia, começaram proibindo os “partidos burgueses”, inimigos da “ditadura do proletariado”, para proibir na sequência os demais partidos que juravam representar os interesses dos trabalhadores.

As igrejas são, sob esse aspecto, muito parecidas com os partidos comunistas. Deriva daí que a elevação de uma igreja ao governo é o que de mais perigoso pode acontecer para a liberdade de religião.

A seita de Damares vê, no cristianismo, a fé verdadeira exclusiva. O seu “governo da igreja” começaria proscrevendo as “religiões demoníacas” (ou seja, todas as não cristãs), mas não pararia por aí.

FALSOS FIÉIS – Tanto quanto as outras, a seita de Damares enxerga a si mesma como a única perfeita tradução da fé cristã. Depois de eliminar as “religiões demoníacas”, seu “governo da igreja” proscreveria as igrejas cristãs concorrentes. Todo o poder para Damares tem, como implicação lógica, a guerra de religião, primeiro contra os “infiéis” e, na sequência, contra os “falsos fiéis”.

No seu organograma de governo, Bolsonaro traçou um círculo em torno de quatro ministérios, criando uma reserva de mercado para o extremismo de direita.

Perto dos ministérios das Relações Exteriores, da Educação e do Meio Ambiente, a pasta de Damares parece um pátio de folguedos infantis entregue a meia dúzia de fundamentalistas cristãos. Engano: o governo que desafia o Estado laico está brincando com fósforo entre tambores de substâncias inflamáveis.

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NOTA DA REDAÇÃO DO GLOBOPara quem lamentou que Dilma tenha perdido a eleição, a presença de Damares no governo é garantia de um show humorístico de igual qualidade, mas com piadas sobre religião. Se Bolsonaro confirmar a nomeação da pastora, é melhor interná-lo para tratamento psiquiátrico. (C.N.)

Delegado estima que João de Deus vá se entregar “nas próximas 24 horas”

Na quarta-feira, João de Deus afirmou aos jornalistas que provará sua inocência Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

João de Deus saiu na quarta e não mais voltou ao centro

Patrik Camporez
O Globo

O delegado geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, afirmou que a rendição do médium João de Deus está confirmada. Acusado por centenas de mulheres de abusar sexualmente delas durante sessões espirituais na cidade de Abadiânia, o líder teve a prisão decretada nesta sexta-feira e deve se entregar nas próximas 24 horas.

— Está confirmada a apresentação. Só está para definir agora o horário e o local. A apresentação (à polícia) vai ocorrer, só não sabemos o horário nem o local. Acho que nas próximas 24 horas aí (ele deve se render) — ressaltou Fernandes.

O delegado esclareceu que as negociações pela apresentação de João de Deus continuam em vigor e que o médium não é considerado foragido. Nesta sexta-feira, Fernandes disse à reportagem que o líder religioso seria declarado foragido caso não se entregasse até as 14h. Neste sábado, a polícia informou que não havia mais um prazo específico para isso.

ESPONTANEAMENTE – O advogado de João de Deus, Alberto Toron, ressaltou à reportagem, nesta manhã, que as autoridades podiam “ter certeza” de que o líder religioso se apresentará “espontaneamente” à Justiça. O defensor já indicava, naquele momento, que a rendição poderia não ocorrer dentro do prazo até então estabelecido pela polícia. Ele também não apontou horário e local possíveis para a entrega do cliente.

Enquanto se desenvolvem as negociações, equipes da Delegacia Estadual de Investigações Criminais continuam as buscas pelo acusado. Agentes da Polícia Civil trocaram de turno durante a madrugada e retomaram o trabalho depois de baterem à porta, sem sucesso, de mais de 20 endereços ligados a João de Deus nesta sexta-feira. Fernandes disse à TV Anhanguera que não acredita na rendição do líder religioso antes das 20h deste sábado.

INTEGRIDADE – “É preciso que o João se apresente, independente do resultado da liminar. Mas também temos que zelar pela integridade física dele “— afirmou o advogado Thales Machado.

O paradeiro do líder religioso é incerto. Sua última aparição em público foi na quarta-feira, na casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia. Ele permaneceu no local por apenas oito minutos. Um advogado amigo de João de Deus disse que a defesa do médium teme pela integridade física dele na prisão. Em nota, na sexta-feira, o advogado Toron havia classificado a ordem de prisão como “inaceitável”, já que a defesa não teria tido acesso, na ocasião, ao pedido de prisão do Ministério Público Estadual de Goiás nem ao teor do depoimento das vítimas.

AGRADECIMENTO – Nesta manhã, enquanto o marido era alvo de buscas, a mulher de João de Deus, Ana Keyla Teixeira Lourenço compareceu à festa de natal da Casa da Sopa, entidade mantida pelo centro religioso do marido, em Abadiânia. Ela discursou a moradores da comunidade sem fazer referência ao médium e deixou o local às pressas em seguida.

“Que os nossos lares continuem cheios de amor, de respeito, de carinho. Eu queria agradecer neste momento a todas as pessoas que aqui estão presentes. Muito obrigada” — destacou Ana Keyla, ao microfone, cercada de seguidores do médium e da segurança pessoal da sua família.

Assessores do deputado Flávio Bolsonaro repassaram até 99% de seus salários

Flávio Bolsonaro precisa dar “explicações plausíveis”

Wilson Tosta, Constança Rezende e Fabio Serapião
Estadão

Uma análise na movimentação financeira de Fabrício José Carlos de Queiroz, ex-assessor do deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio, mostra indícios de que pelo menos uma funcionária pode ter depositado em sua conta o equivalente a quase tudo que recebeu no período agora sob investigação. Foi esse o caso de Nathalia Melo de Queiroz, filha do ex-servidor que, no período investigado, repassou a ele R$ 97.641,20, hipotético crédito mensal médio de R$ 7.510,86.

A quantia equivale a 99% do pagamento líquido da Alerj a Nathalia em janeiro de 2016, segundo a folha salarial do Legislativo fluminense. Como não há dados sobre a movimentação financeira total de Nathalia, não é possível dizer com certeza que o dinheiro teve como origem exclusivamente os pagamentos da Alerj.

Os cálculos são por aproximação. Para fazê-los, o Estado usou o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) da Operação Furna da Onça e consultou a folha salarial da Assembleia.

CONTA DO PAI – O órgão federal mostrou que no período investigado Nathalia transferiu os R$ 97.641,20 para a conta do pai, assessor de Flávio. A cifra foi dividida pelos treze meses investigados para obter a média mensal, que foi comparada com três valores. Um foi o pagamento líquido recebido em janeiro de 2016 por Nathalia na Alerj: R$ 7.586,31. No confronto com o bruto, R$ 9.835,45, chegou-se a um repasse de 77,14%. Cotejada com a renda usada pelo Coaf, R$ 10.502,00, o porcentual foi de 72,23%.

A renda considerada pelo Coaf, possivelmente, incorpora valores que não constam da folha de janeiro da Alerj ou rendimentos obtidos por Nathalia de outras fontes. Todos as cifras, porém, mostram porcentuais altos de repasse.

COM FILHO E PAI – Nathalia trabalhou na Alerj de setembro de 2007 a dezembro de 2016. Depois foi trabalhar como assessora no gabinete parlamentar do hoje presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), na Câmara dos Deputados. Foi exonerada em 15 de outubro, mesmo dia em que seu pai foi desligado do gabinete de Flávio. Oficialmente, o motivo foi a aposentadoria de Queiroz como PM. Reportagem publicada nesta sexta-feira, 14, pela Folha de S. Paulo mostrou que Nathalia, enquanto era funcionária, trabalhava como personal trainer no Rio.

O deputado tem se defendido, afirmando não ter cometido nenhuma irregularidade. O presidente eleito já disse que caberá a Queiroz explicar sua movimentação financeira – de mais de R$ 1,2 milhão no período.

MAIS REPASSES – Outra servidora que repassou a Queiroz grande parte do que recebeu foi Márcia Oliveira de Aguiar, mulher do ex-assessor. Os valores somam R$ 52.124,00 – uma média (total dividido por treze meses) de R$ 4.009,23. Isso não quer dizer que tenham sido feitos rigorosamente repasses mensais – o documento do Coaf não traz esse detalhe –, mas permite afirmar que Márcia repassou porcentuais que equivalem de 31% a 46% do que recebeu por mês no período.

Outra servidora, Luiza Souza Paes, fez transferências equivalentes a porcentuais que variam de 24,8% a 33,5% do salário no período. Sua renda, segundo o Coaf, era de R$ 3.479 mensais e a transferência média era de R$ 863,53. Já Jorge Luís de Souza, que tinha salário bruto de R$ 5.486,76, fez depósito mensal médio de R$ 1.573,46 – porcentuais respectivos de 7,69%, 28,67% e 32,46%.

COINCIDÊNCIA? – O Estado mostrou que 57% dos depósitos feitos na conta de Fabrício Queiroz investigada pelo Coaf ocorreram no dia do pagamento dos salários na Alerj no período investigado, ou até três dias úteis depois.

A reportagem não conseguiu falar com Queiroz nem com os demais servidores para que comentassem as cifras.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Flávio Bolsonaro disse no sábado passado que o ex-assessor lhe deu uma “explicação plausível”. Agora é o próprio deputado que precisa encontrar uma “explicação plausível”, em defesa própria. (C.N.)

Para advogados, decisão de Temer sobre extradição de Battisti é controversa

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Dallari afirma que a decisão foi um absurdo completo

Joelmir Tavares e Reynaldo Turollo Jr.
Folha

Poderia o presidente Michel Temer (MDB) decidir pela extradição de Cesare Battisti, como fez nesta sexta-feira (14)? Sim, pelo que prevê a Constituição. Mas há pontos controversos na medida, segundo advogados. A forma como se desenvolveu o processo surpreendeu especialistas, que consideraram o procedimento inusitado e até inconstitucional.

A palavra final em casos de extradição cabe ao chefe do Poder Executivo. Como, no entanto, existe uma discussão em andamento no STF (Supremo Tribunal Federal), uma corrente de especialistas do direito defende que haveria a necessidade de esperar uma decisão do Judiciário.

DOIS PROCESSOS – “O correto seria esperar a decisão em plenário do STF”, diz Vera Chemim, advogada constitucionalista e mestre em administração pública pela FGV. “São dois processos paralelos: um político e outro jurídico. Houve um desfecho pela via política, e é o que deve prevalecer. Mas é possível questionar sob o aspecto do respeito entre Poderes.”

A defesa do italiano recorreu imediatamente ao STF questionando o ato do presidente. O recurso, apresentado nesta sexta, ainda não foi julgado. Nele, os advogados reiteram o pedido para que a corte suspenda o mandado de prisão expedido nesta quinta-feira (13) pelo ministro Luiz Fux e impeça a extradição do condenado.

A ministra-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Grace Mendonça, disse à Folha que “o presidente achou que era o momento de assinar, já que não há mais obstáculos após a decisão do ministro da Suprema Corte”.

DECISÃO DE LULA – Quando optou por conceder a permanência ao ex-terrorista em 2010, o então presidente Lula (PT) também se valeu da prerrogativa de tomar a decisão final que o chefe do Executivo tem à mão nesses casos.

Na época, o petista contrariou a avaliação do Supremo, que era favorável à extradição, e deu ao italiano o direito de ficar em solo brasileiro.

Maristela Basso, professora de direito internacional da USP, diz que, em vez de ir pela ética do procedimento passo a passo, Temer foi pela ética dos resultados. “É bastante inusitado. O princípio não foi o da correção processual, e sim o da eficiência e da obtenção do resultado”, diz. Ela, contudo, considerou que não houve uma irregularidade, porque não existe norma a proibir Temer de seguir esse caminho.

NA CONSTITUIÇÃO – “Caber, não cabia [a decisão do presidente], mas ele está ancorado na previsão constitucional. Como constitucionalista que é, ele optou por assinar o ato e terminar esse assunto”, afirma Maristela.

A docente da USP, porém, observa: Temer “não está em descompasso com o Supremo, já que a corte assim decidiu no passado”, ou seja, pela extradição.

“Foi um pouco apressado, eu diria. Ele desidratou o procedimento. E, sempre que a autoridade diminui a sequência de atos praticados, diminui o direito de defesa.”

UM NOVO PEDIDO – Em seu entendimento, “no mundo do dever ser”, a Itália teria de ter formulado um novo pedido de extradição.

Pela regra geral, o país que deseja a extradição apresenta um pedido para a Suprema Corte do país onde o criminoso foi localizado. Se o tribunal considerar o pedido procedente, envia-o ao presidente da República, que faz um juízo político e dá a palavra final.

ABSURDO COMPLETO – Advogado que milita no caso Battisti em defesa da inocência do italiano, Dalmo Dallari é mais incisivo. Para ele, também professor da USP, o ato do presidente “é um absurdo jurídico completo”.

Ele cita justificativa usada também pelos advogados do caso: a de que um ato presidencial só pode ser revisto no máximo em cinco anos. Invalidar a decisão de Lula, na visão de Dallari, só teria sido plausível até 2015.

“A lei dispõe que o prazo para anulação de atos para que favoreçam o destinatário de asilo prescreve em cinco anos. O prazo máximo para reformar a decisão de Lula já se esgotou há muito tempo”, diz.

EM PLENÁRIO – Dallari afirma que o STF deveria acatar pedido da defesa e levar o caso a plenário. “Foi uma decisão unilateral [de Fux], mas o processo envolve direitos fundamentais da pessoa humana. Tem que passar pelo plenário.”

Ele rebate também o argumento de que seria possível revisitar o caso e mudar o entendimento por se tratar de um novo pedido de extradição da Itália, e não o mesmo que já foi analisado.

“É uma farsa dizer isso. Porque é um pedido de extradição feito pelo governo do mesmo país envolvendo a mesma pessoa. Seria uma tentativa ilegítima de reabrir. É uma fraude, absolutamente ilegal”, afirma Dallari.​

INCONSTITUCIONAL – O advogado Marcelo Bettamio, que atuou no STF nos processos de extradição dos mafiosos italianos Pasquale Scotti e Franceso Salzano, diz considerar o ato de Temer inconstitucional. “Simplesmente ressuscitaram aquele processo [que fora encerrado com a decisão de Lula]. O procedimento formal do processo extraditório foi violado”, afirma. Na avaliação dele, a Itália precisava ter pedido novamente a extradição de Battisti ao Supremo.

Para ele, o país europeu não fez um novo pedido porque teria de enfrentar no plenário uma discussão sobre eventual prescrição. Segundo Bettamio, pela lei brasileira, que é a que vale no caso, Battisti não poderia mais ser punido pelos crimes que levaram à sua condenação.

Se o STF reanalisasse o caso hoje e reconhecesse a prescrição, um novo pedido de extradição poderia ser negado. O argumento de Bettamio é similar ao do advogado Igor Tamasauskas, um dos defensores de Battisti.

Ex-assessor Queiroz empregou até sua enteada no gabinete de Flávio Bolsonaro

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Queiroz tinha muito prestígio com a família Bolsonaro

Juliana Castro, Juliana Dal Piva, Bruno Abbud e Igor Mello
O Globo

O deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), primogênito do futuro presidente, empregou em seu gabinete mais duas pessoas ligadas ao ex-motorista Fabrício José Carlos de Queiroz . Além da mulher e de duas filhas, o ex-assessor indicou a enteada, Evelyn Mayara de Aguiar Gerbatim, e o ex-marido da atual mulher, Márcio da Silva Gerbatim, para trabalhar no gabinete.

Evelyn foi nomeada para o cargo de assessora parlamentar em 31 de agosto de 2017, justamente para a vaga da mãe, Márcia Aguiar, mulher de Queiroz, que integrou o gabinete de Flávio entre março de 2007 e setembro de 2017. Segundo o pai de Evelyn Mayara, no entanto, a filha cursa faculdade de manhã e trabalha em uma farmácia à tarde.

ENTEADA E FILHA – Aos 21 anos, a enteada de Queiroz aparece na folha de pagamento de outubro da Alerj com um salário líquido de R$ 7.549,75. Além dela, atualmente a filha de Queiroz, Evelyn Melo de Queiroz, segue lotada com salário idêntico no gabinete.

Há cerca de uma semana, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) anexado aos autos da Operação Furna da Onça, da Polícia Federal, revelou uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Queiroz no período de um ano. Entre janeiro de 2016 e o mesmo mês de 2017, a conta recebeu R$ 605.552 — sendo R$ 84,1 mil da filha Nathalia Melo de Queiroz e R$ 18,8 mil da mulher, Márcia.

Entre as movimentações atípicas, há na conta a compensação de um cheque de R$ 24 mil pago à futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro, além de saques fracionados em espécie. O presidente eleito afirma que o cheque é parte do pagamento de uma dívida de R$ 40 mil.

PAI NÃO SABIA – Em entrevista a O Globo, Márcio Gerbatim, que foi lotado como motorista no gabinete de Flávio entre maio de 2007 e maio de 2011, informou desconhecer que a filha estivesse lotada no gabinete do deputado. Segundo ele, a filha cursa Psicologia em uma universidade na Taquara, na Zona Oeste do Rio, no período da manhã e trabalha em uma farmácia na mesma região.

— Minha filha faz faculdade de Psicologia. Ela trabalhava antes numa farmácia, agora você está falando que ela está trabalhando lá na Alerj. Estou surpreso. Para mim, ela trabalhava na farmácia ainda — disse Gerbatim, que diz não se recordar do nome do estabelecimento.

Na tarde da última segunda-feira, O Globo encontrou Evelyn Mayara na viela onde está localizada uma casa que, segundo vizinhos, pertence a Queiroz. O imóvel fica na Taquara. Na ocasião, ela negou ter parentesco com o ex-assessor de Flávio e também com Márcia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Caramba! O ex-assessor pendurou a família inteira no gabinete de Flávio Bolsonaro, só faltou levar o cachorro e o papagaio… (C.N.)

Battisti teria saído da cidade de Cananeia logo depois da eleição presidencial

Fachada da casa onde o ex-ativista italiano Cesare Battisti viveu os últimos meses em Cananeia, no litoral sul de São Paulo Foto: Dimitrius Dantas / Agência O Globo

Battistia teria saído de sua casa no início de novembro

Dimitrius Dantas
O Globo

O carro na garagem e o medidor de eletricidade indicando gasto de energia são sinais de que o morador da casa simples e recém-reformada no bairro de Carijo, no litoral paulista de Cananéia , frequentou o endereço nas últimas semanas. Considerado foragido pela Justiça brasileira desde que o ministro do STF Luiz Fux determinou nesta quinta-feira sua prisão, o italiano Cesare Battisti não tem sido visto na pequena cidade que registra pouco movimento nas ruas. A última vez que o ex-ativista circulou por ali foi no dia da eleição presidencial em segundo turno, 28 de outubro. Battisti acompanhou a apuração numa pequena TV instalada numa lanchonete simples do município.

— Esse foi o último dia que ele apareceu aqui. Vinha todo dia, tomava cerveja e lia o jornal. Ele acompanhou a apuração da vitória do (presidente eleito Jair) Bolsonaro com certa preocupação — conta Miguel Rangel, dono do estabelecimento.

ESTARIA NO RIO – Alguns vizinhos de Cesare Battisti não o veem na cidade desde o último feriado de Finados, poucos dias depois da eleição. O delegado da Polícia Civil, Tedi Wilson de Andrade, trabalha com a informação de que ele foi visto no município na última terça-feira. Mas há também quem garanta que Battisti está no Rio de Janeiro desde a semana passada para finalizar os detalhes de um livro de ficção que tem como cenário a própria Cananéia, onde pela segunda vez ele fixa residência desde que saiu da cadeia, em 2011.

Battisti é conhecido na cidade. Qualquer estranho que pergunte o endereço de sua casa, todos sabem dar as coordenadas. Nos primeiros anos na cidade, Battisti viveu na casa de um amigo, o sindicalista Magno de Carvalho, funcionário da Universidade de São Paulo e um dos integrantes do que chamou de comitê de apoio ao italiano.

FORTE AMIZADE – Os dois se conheceram durante o tempo de Battisti na prisão, por meio do Comitê de Solidariedade ao italiano. Após visitas na penitenciária da Papuda, os dois se tornaram amigos. Após ser colocado em liberdade, ofereceu sua casa em Cananéia.

— Ele ficou um ano e meio na minha casa e, bem recentemente, a casa dele ficou pronta. É um dos melhores amigos que eu tenho — disse ele, para quem uma eventual decisão por extraditar o italiano “é como mandá-lo para a morte”.

A convivência dos moradores de Cananéia com o homem considerado terrorista na Itália pouco passa do “bom dia, boa tarde e boa noite”, além de um comentário aqui outro ali sobre a temperatura na cidade.

MORA SOZINHO – Segundo moradores, Battisti se casou em uma chácara na cidade, mas mora sozinho. “Todo dia passa gente perguntando dele. Ontem passou um carro branco, mas sem identificação de reportagem. Era um carro particular. Olha, passa, pergunta se ele não está em casa. Sempre gente diferente” — diz Maria Helena David, de 62 anos, vizinha de Battisti.

Dona Maria Helena é uma das que diz que não o vê desde o feriado de Finados. O delegado da Polícia Civil tenta auxiliar a Polícia Federal em determinar onde o italiano pode estar. Nas últimas horas, vem tentando cruzar informações que recebeu.

— São muitas informações desencontradas. Chega uma informação, vamos atrás. Chega outra, vamos de novo — diz o delegado, que na tarde desta quinta-feira deu por encerrada as buscas e só as retomará quando tiver mais informações sobre um possível paradeiro do ex-ativista.

FUX MUDOU – O advogado de Cesare Battisti, Igor Tamasauskas, não dá pistas sobre o paradeiro de seu cliente. Para ele, o pedido de prisão foi surpreendente já que o ministro Fux, segundo ele, mudou de posição sobre o caso. Para Tamasauskas, o ideal seria que a decisão fosse tomada pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, e não monocraticamente.

— (Se entregar) é uma decisão pessoal do Cesare agora, não do advogado. Ele tem um tempo para refletir o que ele vai fazer mas eu não sei o que ele vai fazer — afirmou.

O peso da farda ameaça desequilibrar a articulação política de Bolsonaro

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Charge do Jota Camelo (Arquivo Google)

Vera Magalhães
Estadão

Jair Bolsonaro foi alertado diretamente pelo núcleo político do governo e por integrantes do PSL sobre o desenho do Palácio do Planalto, que acabou conferindo papel para os militares em questões relativas à articulação política. O que antes era um ti-ti-ti de bastidores foi finalmente colocado à mesa. Conselheiros do presidente eleito disseram claramente a ele que o corporativismo e uma certa inflexibilidade dos militares são características não condizentes com a necessidade de fazer a mediação com o Congresso.

Bolsonaro ouviu e não deu sinais de que pretende redesenhar a divisão de tarefas no Planalto. A presença dos militares no governo era algo já anunciado desde a campanha – portanto, nenhuma surpresa.

HAVERÁ DISPUTA – O que não estava no desenho inicial era justamente que a farda e o coturno fossem aparecer também na coordenação política, com os generais Augusto Heleno e Santos Cruz assumindo funções que até hoje foram de civis. A avaliação é que haverá disputa de espaço entre o GSI e a Secretaria de Governo, sob o comando dos dois generais, e a Casa Civil e a Secretaria-Geral da Presidência.

Juntamente com a proeminência dos filhos de Bolsonaro, todos eles com mandatos eletivos, e a disputa por controle na bancada do PSL da Câmara, este é considerado um foco de tensão na largada do futuro governo caso os limites de cada um não sejam estabelecidos de forma clara pelo próprio presidente.

Diplomatas temem ‘geladeira’ com ascensão de novo grupo de Ernesto Araújo. A composição do grupo da transição no Itamaraty, praticamente sem integrantes do ministério e dominado por assessores do PSL, assustou os diplomatas “das antigas”, que temem ser colocados na geladeira, superados por uma nova geração. Um sinal disso foi dado por Ernesto Araújo com a escolha de Otávio Brandelli, também recém-promovido a embaixador, como secretário-geral.

CONSULTORIA – A Fundação Falconi, fundada pelo especialista em gestão Vicente Falconi, fará uma consultoria ao governo Bolsonaro na área de modernização administrativa e gestão de diversas áreas. O estudo, coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência, de Gustavo Bebianno, será custeado pela iniciativa privada (empresários de vários setores já estão sendo contatados para aderir ao financiamento). A ideia é melhorar a prestação de serviços em áreas como saúde, educação e segurança (os presídios federais serão alvo do estudo).

Os gestores da Falconi vão treinar inicialmente uma turma de 300 gestores públicos – que será ampliada gradualmente. A fundação trabalhará sob o comando da nova Secretaria de Modernização, que será um dos eixos principais da pasta. Uma das missões da consultoria será traçar um novo plano de carreiras e salários para os servidores federais – tarefa mais espinhosa, porque dependerá de mudança legislativa no regime jurídico único.

“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam”, cantava Elis Regina

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Sérgio Natureza, um grande compositor

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O compositor, poeta e letrista carioca Sergio Roberto Ferreira Varela, conhecido como Sérgio Natureza, mostra nesta belíssima letra (parceria com Tunai) que, realmente, “As Aparências Enganam”. Principalmente, quando se trata de sentimento do tipo amor e ódio e suas infindas consequências. A música foi gravada por Elis Regina no Lp Elis, Essa Mulher, em 1979, pela WEA.

AS APARÊNCIAS ENGANAM
Tunai e Sérgio Natureza

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague
Se a combustão os persegue, as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver

As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer, não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam, aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois, se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira, na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.