Casimiro de Abreu conta como descobriu Deus quando era menino

CASIMIRO DE ABREUPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860) nasceu em Barra de São João (RJ) e foi um intelectual brasileiro da segunda geração romântica. Sua poesia tornou-se muito popular durante décadas, devido à linguagem simples, delicada e cativante, como se vê nesse poema contado que era menino quando descobriu “Deus”.

DEUS
Casimiro de Abreu

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia,
A branca espuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver de maior do que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?”

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: – Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.

“Somos todos iguais nesta noite”, uma canção que driblou a censura militar

Ivan Lins e Vitor Martins: Novabrasil celebra 50 anos da parceria da dupla - Novabrasil

Ivan Lins e Vitor Martins, grandes parceiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

Na letra de “Somos todos iguais nesta noite”, em parceria com Ivan Lins, o compositor (letrista) paulista Vitor Martins compara o mundo a um circo, onde seguimos o ritmo da banda de fanfarra, em alusão à ditadura militar vigente no país de 1964 a 1985. A música intitula o LP Somos todos iguais nesta noite, lançado por Ivan Lins, em 1977, pela EMI-Odeon.

SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE
Ivan Lins e Vitor Martins

Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo

Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores

Pede a banda
Pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede a banda
Prá tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez

Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo

Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

Há quase 70 anos, uma canção se tornava um verdadeiro Hino do Dia das Mães

Ângela Maria: Disco De Ouro – Música Brasileira

Ângela Maria cravou esta canção em 1956

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, escritor e letrista David Nasser (1917-1980), nascido em Jaú (SP), é autor de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “Mamãe” em parceria com Herivelto Martins, a canção que passou a ser considerada como o hino do Dia das Mães. A música foi gravada por Ângela Maria, em 1956, pela Copacabana.

MAMÃE
Herivelto Martins e David Nasser

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

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O advogado, jornalista, analista jurídico do Tribunal de Justiça do RJ, letrista e poeta Paulo Peres, também se inspirou nessa data tão importante para  todos.

DIA DA MÃES
Paulo Peres

Entre a razão e a emoção
existe um ponto de interrogação
chamado Humana Renovação:
ventre bendito – coração MÃE, 
obra suprema do Criador.

MÃE, 
neste dia dedicado a VOCÊ, 
quero parabenizá-la e pedir-lhe
que continue a ser esta
MÃE MARAVILHOSA

A amizade de Vinicius e Pixinguinha rendeu grandes músicas, como “Lamento”

Documentário mostra parceria entre Vinicius e Pixinguinha - Jornal GGN

Vinicius e Pixinguinha, parceiros e amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta carioca Vinícius de Moraes (1913-1980), na letra do chorinho “Lamento”, confessa a tristeza do desamor e tenta a reconciliação. O choro “Lamento”, composto por Pixinguinha em 1928, foi originalmente apenas instrumental e somente em 1962 ganhou essa letra do Vinícius de Moraes.

O chorinho fez parte da trilha sonora do filme “Sol sobre a Lama”, de Alex Viany, inteiramente composta por Pixinguinha e Vinicius, e depois  foi gravado por  Elizeth Cardoso no LP Muito Elizeth, em 1966, pela Copacabana.

LAMENTO
Pixinguinha e Vinícius de Moraes

Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão te esquecer
Mas olhe, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em prantos, sou tão infeliz
Não há coisa mais triste, meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz

Sozinho, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem, fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque eu estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que o meu carinho por você

Morena, tem pena…                         

Uma canção desesperada de Cecilia Meireles, perdida entre os espaços da vida

Alguns dos melhores momentos da vida a... Cecilia meireles - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções 

A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964), no poema “Canção Excêntrica”, confessa sua frustração por não encontrar o espaço ideal para suportar uma vida eivada de saudades e de arrependimentos.

CANÇÃO EXCÊNTRICA
Cecília Meireles

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço
– do que faço, arrependida.

“Quem for louco ou for poeta pode entrar, seja bem-vindo”, diz Walter Queiroz

Áudios da Metrópole - Walter Queiroz - Metro 1

Walter Queiroz, grande compositor baiano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, publicitário, cantor e compositor baiano Walter Pinheiro de Queiroz Júnior usa várias figuras de linguagem, tornando ainda mais bonito o conteúdo poético da letra de “Pode Entrar”, na qual ele fala de sua casa.

Walter Queiroz gravou a música “Pode Entrar” no LP “Filho do Povo”, em 1975, pela Phonogram.

PODE ENTRAR
Walter Queiroz

A casa escancarada, a lua ali
Meu cachorro nunca morde
Meu quintal tem sapoti,
tem um roseiral crescendo lindo,
Quem for louco ou for poeta
Pode entrar, seja bem-vindo.

Aqui passa o bonde da Lapinha,
Passa a filha da rainha,
Passa um disco voador.
As vezes ele gira, para e pisca
Como quem quase se arrisca
A parar pra conversar.

Mas não me sinto só,
tenho um vizinho,
Que é um bêbado velhinho
que acredita no destino.
Ele mora em cima do arvoredo,
Ele tem muitos brinquedos,
Ele sempre foi menino.

Agora se vocês me dão licença.
Eu vou ver um passarinho
Que me chama no quintal.
Depois vou me deitar para sonhar
E dançar com a cigana
Que eu perdi no carnaval.

A completa lucidez é perigosa, dizia Clarice Lispector, num poema em forma de oração

15 frases de Clarice Lispector sobre a vida e os sentimentosPaulo Peres
Poemas & Canções

A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, expõe as consequências que “A Lucidez Perigosa” pode acarretar, contemplando o vazio.

A LUCIDEZ PERIGOSA
Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise,
estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto, eu consisto,
amém.

O surrealista sideral do poeta Cruz e Sousa, em sua fase mais simbolista

Nada há que me domine e que me vença... Cruz e Sousa - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, e tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Cruz e Sousa  procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social.

No soneto “Siderações”, encontramos a presença do misticismo, característica da nova fase simbolista do poeta, em que se opõem matéria e espírito, corpo e alma. 

Mais do que nunca, há uma linguagem simbólica intensamente subjetiva sobre a essência do ser humano, através de incursões a regiões etéreas, espaciais, ilimitadas.

SIDERAÇÕES
Cruz e Sousa

Para as estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…

Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de visões levanta…

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da eternidade que nos astros canta

A deusa do asfalto, um amor inatingível, na inspiração romântica de Adelino Moreira

IMMuB | Álbum - ENCONTRO COM ADELINO MOREIRA NA CHURRASCARIA "CINDERELA"

Adelino Moreira, compositor de grandes sucessos

Paulo Peres
Poemas e Canções 

O compositor e cantor luso-brasileiro Adelino Moreira de Castro (1918-2002), foi autor de muitas canções de sucesso na chamada Era do Rádio, cantadas por Sílvio Caldas, Orlando Silva, Francisco Alves, Nelson Gonçalves e muitos outros cantores de renome. Na letra de “Deusa do Asfalto”, Adelino mostra as consequências de um amor não correspondido, que era mais do que improvável. Esse samba-canção foi gravado por Nelson Gonçalves, em 1958, pela RCA Victor.

DEUSA DO ASFALTO
Adelino Moreira

Um dia sonhei um porvir risonho
E coloquei o meu sonho
Num pedestal bem alto.
Não devia e por isso me condeno,
Sendo do morro e moreno,
Amar a deusa do asfalto.

Um dia ela casou com alguém
Lá do asfalto também
E dizem que bem me quer.
E eu, triste boêmio da rua,
Casei-me também com a lua,
Que ainda é a minha mulher

É cantando que carrego a minha cruz,
Abraçado ao amigo violão.
E a noite de luar já não tem luz.
Quem me abraça é a negra solidão,
É cantando que afasto do coração
Esta mágoa que ficou daquele amor.
Se não fosse o amigo violão.
Eu morria de saudade e de dor.

O homem de amanhã inspira um poético Primeiro de Maio de Chico e Milton

Tribuna da Internet | O homem de amanhã inspira o Primeiro de Maio de Chico  e Milton

Milton e Chico, nos anos de ouro da MPB

Carlos Newton

O cantor, escritor, poeta e compositor carioca Chico Buarque de Holanda, na letra de “Primeiro de Maio”, usou o infindo lirismo para inverter os papéis diários do casal de trabalhadores, que, neste dia, através do amor, personificarão a usina e a ferramenta tecendo o homem de amanhã. A letra dessa música foi musicada por Milton Nascimento e gravada por Milton e Chico no Compacto Cio da Terra, em 1977, pela Philips/Phonogram.

PRIMEIRO DE MAIO
Milton Nascimento e Chico Buarque

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu

E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

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1º DE MAIO
Paulo Peres

Parabéns trabalhador,
A riqueza do seu valor
Nunca foi material.
Ela tem como quinhão
O patamar espiritual:
Família, fé, futuro e razão

Obtive ensinamento
Na comunhão vinho e pão
Plantei no tempo
O meu trabalho
Cuja luz é o caráter
Que germina o amanhã

A mulher doida de amor e a mulher santa, na poesia magistral de Adélia Prado

😉O que Adélia e Fernanda Montenegro têm em comum? 🥰Ambas possuem relação  com "Dona Doida". 🎥A partir da obra Adeliana, a atriz protagonizou a peça "Dona  Doida: Um Interlúdio", que estreou em

Fernanda e Adélia Prado na montagem de “Dona Doida”

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “A Serenata”, pressente a chegada do desespero. Este poema ficou famoso e serviu e inspiração a Fernanda Montenegro para montar o monólogo teatral “Dona Doida”, que fez enorme sucesso e consolidou a amizade entre ela e Adélia Prado.

A SERENATA
Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

A poética paixão de Adalgisa Nery pelo homem angustiado que viu em fotografias

FCO-2940 - Retrato de Adalgisa Nery | Obras | Portinari

Adalgisa, retratada por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

A jornalista e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery (sobrenome de seu primeiro marido, o pintor Ismael Nery), no poema “Escultura”, fala de um amor que começou pelas fotografias e que se caracteriza pela angústia.

ESCULTURA
Adalgisa Nery

Eu já te amava pelas fotografias.
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!…

Affonso Romano analisa poeticamente os erros na obra de Pablo Picasso

A vida e a obra de Pablo Picasso | Nerdologia

Romanno diz que Picasso é genial mesmo quando erra…

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, no poema “Entrando no Museu Picasso”, aponta os erros que o artísta possuía tanto na pintura quanto no amor, constituindo-se em errância, numa extravagância de erros.

ENTRANDO NO MUSEU PICASSO
Affonso Romano de Sant’Anna

Picasso
erra
quando pinta
e erra
quando ama.

Mas quando erra
erra
violenta e
generosamente,
erra
com exuberante
arrogância,
erra
como o touro erra
seu papel de vítima,
sangrando
quem, por muito amar, fere
e sai ovacionado
com banderilhas na carne.

Pintor do excesso
e exuberância,
Picasso
é extravagância.
Ele erra,
mas nele,
o erro
mais que erro
– é errância.

Rio, que mora no mar, sorrio pro meu Rio, que tem no seu mar lindas flores que nascem morenas…”

O Barquinho Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli - História e Letra

Menescal e Boscoli, pioneiros da bossa nova

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, produtor musical e compositor carioca Ronaldo Fernando Esquerdo e Bôscoli (1928-1994), na letra de “Rio”, parceria com Roberto Menescal, fala do Rio de Janeiro, a eterna Cidade Maravilhosa. A música faz parte do CD Bossa Nova gravado por Leny Andrade, em 1991, pela Eldorado, e fez grande sucesso.

RIO
Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli

Rio que mora no mar
sorrio pro meu Rio
que tem no seu mar
lindas flores que nascem morenas
em jardins de sol.

Rio, serras de veludo
sorrio pro meu Rio
que sorri de tudo
que é dourado quase todo dia
e alegre como a luz

Rio é mar
eterno se fazer amar
o meu Rio é lua
amiga branca e nua

É sol, é sal, é sul
são mãos se descobrindo
em tanto azul
por isso é que meu Rio
da mulher beleza
acaba num instante
com qualquer tristeza
meu Rio que não dorme
porque não se cansa
meu Rio que balança
Sorrio, só Rio, só Rio…

Um dilema existencial confundia e inquietava o poeta e compositor Antonio Cícero

Marina Lima lamenta morte de Antonio Cícero: 'Foi coerente com tudo que pensava' | G1

Antonio Cícero e a irmã Marina Lima

Paulo Peres
Poemas & Canções

O filósofo, escritor, compositor e poeta carioca Antonio Cícero Correa de Lima escreve poesia desde jovem, mas seus poemas só apareceram para o grande público quando sua irmã, a cantora e compositora Marina Lima, passou a musicá-los. Antes, porém, já eram suas as canções como FullgásPara Começar e À Francesa – as duas primeiras em parceria com a irmã, e a última com Cláudio Zolli. Neste poema que transcrevemos, Cícero reconhece um dilema existencial, que o confunde bastante.

DILEMA
Antonio Cícero

O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.

No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imerso num universo
que não é feito de mim.

Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.

Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.

Nada pode disfarçar o apuro do amor, na poesia de Ana Cristina Cesar

Tribuna da Internet | Ana Cristina Cesar, genial poeta, em busca de um amor  cada vez mais difícilPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora, tradutora e poeta carioca Ana Cristina Cruz Cesar (1952-1983) é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo (ou poesia marginal) da década de 1970. Na sua visão romântica, nada pode disfarçar o apuro do amor.

NADA DISFARÇA O APURO DO AMOR
Ana Cristina Cesar

Um carro em ré.
Memória de água em movimento.
Beijo.
Gosto particular da tua boca.
Último trem subindo ao céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som
ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame
com as próprias mãos.
Singrar.
Daqui ao fundo do horto florestal
ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

“Não sei que intensa magia teu corpo irradia, que me deixa louco assim, mulher…”

Astros em Revista: SADI CABRAL - COADJUVANTE DE OURO

Sadi Cabral, grande ator e compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O ator e compositor alagoano Sadi Sousa Leite Cabral (1906-1986) e seu parceiro Custódio Mesquita exaltam o amor de uma “Mulher”, tendo em vista a beleza mágica que o corpo dela irradia. Este clássico fox-canção foi gravado por Silvio Caldas, em 1940, pela RCA Victor.

MULHER
Custódio Mesquita e Sadi Cabral

Não sei que intensa magia, teu corpo irradia
Que me deixa louco assim, mulher
Não sei, teus olhos castanhos, profundos, estranhos
Que mistério ocultarão,  mulher
Não sei dizer
Mulher, só sei que sem alma
Roubaste-me a calma e aos teus pés eu fico a implorar
O teu amor tem um gosto amargo
e eu fico sempre a chorar nesta dor
Por teu amor, por teu amor, mulher

A assustadora escola da palmatória que assustava o menino que ia ser poeta

Cinco poemas de Ascenso Ferreira | ERMIRA

Ascenso Ferreira fazia sucesso no rádio

Paulo Peres
Poemas & Canções

Expoente do modernismo brasileiro em Recife, o radialista e poeta pernambucano Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895-1965), no poema “Minha Escola”, relembra o ensino e a  infância de sua época, quando os professores eram altamente autoritários e as aulas surrealistas eraj ministradas na base da palmatória.

MINHA ESCOLA
Ascenso Ferreira

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!
À sua porta eu estacava sempre hesitante…
De um lado a vida… – A minha adorável vida de criança:
Pinhões… Papagaios… Carreiras ao sol…
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio…
Jogos de castanhas…
– O meu engenho de barro de fazer mel!
Do outro lado, aquela tortura:
“As armas e os barões assinalados!”
– Quantas orações?
– Qual é o maior rio da China?
– A 2 + 2 A B = quanto?
– Que é curvilíneo, convexo?
– Menino, venha dar sua lição de retórica!
– “Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!”
– Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
– Agora, a de francês:
– “Quand le christianisme avait apparu sur la terre…”
– Basta.
– Hoje temos sabatina…
– O argumento é a bolo!
– Qual é a distância da Terra ao Sol?
– ? !!
– Não sabe? Passe a mão à palmatória!
– Bem, amanhã quero isso de cor…
Felizmente, à boca da noite,
Eu tinha uma velha que me contava histórias…
Lindas histórias do reino da Mãe-d’Água…
E me ensinava a tomar a benção à lua nova.

Augusto dos Anjos foi um poeta “noir”, que reclamava do gozo insatisfeito

O beijo, amigo, é a véspera do... Augusto dos Anjos - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções 

O advogado, professor e poeta paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) escrevia poesias com características marcantes de sentimentos de desânimo, pessimismo e sofrimento, como acontece em seu poema “Gozo Insatisfeito”.

GOZO INSATISFEITO
Augusto dos Anjos

Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito…
Queimam-me o peito cáusticos de fogo,
Esta ânsia de absoluto desafogo
Abrange todo o círculo infinito.

Na insaciabilidade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a máquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabilidade desse gozo!          

Schmidt, um poeta à procura das grandes palavras e das grandes verdades…

Augusto Frederico Schmidt - poemas - Revista Prosa Verso e Arte

Bem-humorado, Schmidt criava um galo no apartamento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, conselheiro político, editor, empresário e poeta carioca Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), no poema “Compreensão”, usa grandes palavras conjugadas às grandes verdades para compor uma canção desesperada em busca de amor.

COMPREENSÃO
Augusto Frederico Schmidt

Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das águas lúcidas.
Eu te direi a minha compreensão do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada.
E sentirei que te libertei da solidão
Porque desci ao teu ser múltiplo e sensível.
Quero descer às tuas regiões mais desconhecidas
Porque és minha Pátria
As tuas paisagens são as da minha saudade.
Quero descer ao teu coração como se descesse ao mar,
Quero chegar à tua verdade que está sobre as águas.
Quero olhar o teu pensamento que está sobre as águas
E é azul
Como este céu cortado pelas aves,
Como este céu limpo e mais fundo que o mar.
Quero descer a ti e ouvir
As tuas manhãs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de róseo como nuvens frágeis
tangidas pelo ventos
Quero assistir à tua noite e ao sacrifício dos teus martírios.
Oh! estrela, oh! música,
Oh! tempo, espaço meu!