Tropeiro de cantigas, a autodefinição musical do cantor Paulinho Pedra Azul

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O cantor, compositor e poeta mineiro Paulo Hugo Morais Sobrinho nasceu na cidade de Pedra Azul, a qual adotou como nome artístico. É tido como um dos cantores mais conhecidos de Minas Gerais. Sua música registra influências que vão desde os Beatles e o samba até o mineiro Clube da Esquina.

O sonhar de um vaqueiro através de mudanças no seu cotidiano é o teor principal na letra de “Tropeiro de Cantiga”, música que faz parte do LP “Tropeiro de Cantigas” gravado por Paulinho Pedra Azul, em 1982, produção independente.

TROPEIRO DE CANTIGAS
Paulinho Pedra Azul

Eu sou um bom vaqueiro
Que dorme o dia inteiro
Pra poder laçar carneiros no céu
Lá eu tenho um mensageiro

Que faz da luz de um candeeiro
A chama do luar dentro de mim

Juro, eu sou assim
Tropeiro de cantiga
Que mudou de vida
Pra ser cantador
Passarim sem asa
Eu sou tudo e nada
Sou um sonhador

Um poema a quatro mãos, marcando a desigualdade social e o desamparo

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Os poetas cariocas Chico Pereira e Paulo Peres escreveram este poema em parceria, ou seja, cada um escreveu uma estrofe. Na primeira estrofe, o personagem se autodefine perante parte da sociedade que o marginaliza, enquanto que na segunda estrofe, esta sociedade que o marginaliza passa a utilizá-lo como objeto de promessas, quase nunca concretizadas, nos pseudos programas sociais e nas ridículas campanhas eleitorais.

O MENDIGO
Chico Pereira e Paulo Peres

Eu broto
igual flor suja, morta… morto…
Eu saio dos bueiros que ficam nos
cantos dos asfaltos
dos grandes centros urbanos

Eu sou o resto,
a sobra da humanidade
sou o filho do erro
ou o próprio erro

Como quem imagina, não vê,
só imagina…
Convivo com o rato
divido tudo com o rato
não tenho visão, nem tato,
audição e nem olfato

Como quem dança numa
breve manhã
como quem emana
do nada
como quem respira
o vazio
como quem espera
um assovio de ninguém…

A minha água é aguardente
a minha companhia é a solidão
a minha vida não é de gente
e a minha fome é ser cidadão

(Chico Pereira)

Eu sou o “outdoor” dos políticos
com promessas ilusionistas
de palavras equilibristas
entre tráficos sonhos trágicos.

Eu sou a sujeira varrida
para baixo dos tapetes
das calçadas, das marquises,
máscara, engano e ferida…

Sou a elite, destino trapos,
silenciosa e letal
das cidades em farrapos,
avesso cartão-postal.

Sou o limite humano
do negativo social,
escravo mundano
poema marginal.

(Paulo Peres)

Na irrealidade do poema, a ausência desconhecida e feliz de Cecilia Meireles

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A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964) sente no poema “Irrealidade” que não há passado nem futuro, porque tudo que ela abarca está no presente.

IRREALIDADE
Cecília Meireles

Como num sonho
aqui me vedes:
água escorrendo
por estas redes
de noite e dia.
A minha fala
parece mesmo
vir do meu lábio
e anda na sala
suspensa em asas
de alegoria.

Sou tão visível
que não se estranha
o meu sorriso.
E com tamanha
clareza pensa
que não preciso
dizer que vive
minha presença.

E estou de longe,
compadecida.
Minha vigília
é anfiteatro
que toda a vida
cerca, de frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
se faz presente.

Se me perguntam
pessoas, datas,
pequenas coisas
gratas e ingrata,
cifras e marcos
de quando e de onde,
– a minha fala
tão bem responde
que todos crêem
que estou na sala.

E ao meu sorriso
vós me sorris…
Correspondência
do paraíso
da nossa ausência
desconhecida
e tão feliz.

A luta pela preservação da Natureza, na visão de Paulinho Tapajós e Mú Carvalho

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Paulinho Tapajós, num culto aos indígenas

Paulo Peres
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O arquiteto, produtor musical, escritor, cantor e compositor carioca Paulo Tapajós Gomes Filho (1945-2013), na letra de “Aos Povos da Florestas”, em parceria com Mú Carvalho, denuncia o aumento da perseguição às nações indígenas e a progressiva destruição do meio ambiente.
AOS POVOS DA FLORESTA
Mú Carvalho e Paulinho Tapajó
Por onde andam os índios desta terra?
O que era deles não é mais
Os homens invadiram as florestas
Como filhos que expulsam seus pais
Onde colher flores silvestres?
Queimaram os matagais
Secaram o chão
Prenderam águas, cachoeiras
Poluíram céu e mar
Sangraram o chão
O que será da terra?
O que será de nós?
Quem vai plantar o planeta outra vez?
Talvez os nossos peixes
Ou quem sabe os animais
Porque os homens só se esforçam por querer
Muita fama riqueza e poder
Sangraram o chão
O que será da terra?
O que será de nós?
Quem vai plantar o planeta outra vez?
Mas o verde vai voltar num sonho de criança
Que há de lembrar a cor da esperança.

Não procure o perfeito, porque nada existe sem defeito, dizia Cassiano Ricardo

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Cassiano, um dos imortais da Poesia

O jornalista, ensaísta e poeta paulista Cassiano Ricardo (1895-1974), membro da Academia Brasileira de Letras, diz no poema “Amor Imperfeito” que a graça do amor está na sua imperfeição, porque a existência do perfeito sempre acarreta o defeito de ser triste.

AMOR IMPERFEITO
Cassiano Ricardo
A perfeição
é um momento,
por demais claro.
Como repeti-la,
sem enfaro?

A perfeição,
se possuída
a todo instante
se faz rainha
suicida.

Quem já mediu
o perfeito,
rosa de prata,
mas em sua
medida exata?

Nada existe
sem o defeito

Não ouse pensar que o Poeta é um bêbado sem rumo, avisa Carmen Cardin

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Carmen Cardin divulga a Poesia fazendo recitais

Paulo Peres
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A professora, artista plástica e poetisa Carmen Cardin, garimpeira das palavras e pós graduada em sonhos, ao escrever um de seus mais de cinco mil poemas, “Tese”, comete a ousadia de tentar limitar em escassas palavras a universalidade da mitológica criatura que – entre outras – eventualmente reside na alma de todo ser: O Poeta. E Carmen se saiu bem.

TESE
Carmen Cardin

Não ouse pensar que O Poeta
É um bêbado, andarilho sem rumo
Ele é, do vernáculo, o atleta
A fantasia de uso e consumo.

O Poeta tem o compromisso sério
De profetizar em tom etéreo
De filosofar além do erudito.
O Poeta é a chave do cofre. O servo
À mercê da paixão. O indecifrável verbo,
Que encarnou-se e está escrito.

O Cavalheiro que conduz, extraordinário,
As rédeas do Sonho, o lendário,
Adorado e odiado ser trovador.
O Poeta é aquele que, alheio a tudo,
Grita com o coração n’um canto mudo,
Sofre com a emoção do mundo, a dor!

Não ouse pensar que O Poeta
Imagina, pretensioso, ser Deus…
Ele é, apenas, a certeira seta
Que atinge o alvo dos sonhos seus!

Patativa do Assoré, o poeta, apreendeu a amar a Deus ao observar os animais

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Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme podemos perceber no poema “Arte Matuta”.

ARTE MATUTA
Patativa do Assaré

Eu nasci ouvindo os cantos
das aves de minha serra
e vendo os belos encantos
que a mata bonita encerra
foi ali que eu fui crescendo
fui vendo e fui aprendendo
no livro da natureza
onde Deus é mais visível
o coração mais sensível
e a vida tem mais pureza.

Sem poder fazer escolhas
de livro artificial
estudei nas lindas folhas
do meu livro natural
e, assim, longe da cidade
lendo nessa faculdade
que tem todos os sinais
com esses estudos meus
aprendi amar a Deus
na vida dos animais.

Quando canta o sabiá
Sem nunca ter tido estudo
eu vejo que Deus está
por dentro daquilo tudo
aquele pássaro amado
no seu gorjeio sagrado
nunca uma nota falhou
na sua canção amena
só canta o que Deus ordena
só diz o que Deus mandou.

Como será o “Novo Homem”, na visão poética de Carlos Drummond de Andrade

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O Bacharel em Farmácia, funcionário público, escritor e poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) responde, em forma de versos, como será “O Novo Homem”.

O NOVO HOMEM
Carlos Drumont de Andrade

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.

Uma desesperada mensagem de amor, na elegia poética do gaúcho Carlos Nejar

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O escritor e poeta Carlos Nejar, em entrevista à TV Gazeta

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O crítico literário, tradutor, ficcionista e poeta gaúcho Luís Carlos Verzoni Nejar, no poema “Elegia”, faz uma desesperada mensagem de amor, de quem se perde pensando em perder a amada.

ELEGIA

Carlos Nejar


Liberdade,
sem ti nada mais sei.

Compreendi o mundo
em ti, sutil
compêndio.

Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.

Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.

E sou tão doido
que o riso inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.

Uma rosa imortal, cultivada na genialidade de Pixinguinha e Otávio de Sousa

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Pixinguinha, um grande mestre da Música Popular Brasileira

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O compositor e mecânico Otávio de Sousa, na letra de “Rosa”, em parceria com Pixinguinha, expressa o mais alto refinamento do romantismo do início do século XX. Esta valsa foi gravada por Orlando Silva, em 1937, pela RCA Victor.

ROSA
Pixinguinha e Otávio de Sousa

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor
Se Deus me fora tão clemente
Aqui nesse ambiente de luz
Formada numa tela deslumbrante e bela
Teu coração junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado sobre a rósea cruz
Do arfante peito seu

Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendor da santa natureza

Perdão, se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh flor meu peito não resiste
Oh meu Deus o quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar em esperar
Em conduzir-te um dia
Ao pé do altar
Jurar, aos pés do onipotente
Em preces comoventes de dor
E receber a unção da tua gratidão
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te até meu padecer
De todo fenecer

Um retrato campestre, na visão poética bem-humorada de Carlos Pena Filho

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O advogado e poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960), poeticamente, através o visual de uma planície, onde estão um passarinho, uma mulher e um homem, pinta um “Retrato Campestre”.

RETRATO CAMPESTRE
Carlos Pena Filho

Havia na planície um passarinho,
um pé de milho e uma mulher sentada.
E era só. Nenhum deles tinha nada
com o homem deitado no caminho.

O vento veio e pôs em desalinho
a cabeleira da mulher sentada
e despertou o homem lá na estrada
e fez canto nascer no passarinho.

O homem levantou-se e veio, olhando
a cabeleira da mulher voando
na calma da planície desolada.

Mas logo regressou ao seu caminho
deixando atrás um quieto passarinho,
um pé de milho e uma mulher sentada0

Na visão de Augusto dos Anjos, ninguém doma o coração de um poeta…

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O advogado, professor e poeta paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) escrevia poesias com características marcantes de sentimentos de desânimo, pessimismo e sofrimento, conforme o poema “Gozo Insatisfeito”.

GOZO INSATISFEITO
Augusto dos Anjos

Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento
De minha mocidade, experimento
O mais profundo e abalador atrito…
Queimam-me o peito cáusticos de fogo,
Esta ânsia de absoluto desafogo
Abrange todo o círculo infinito.

Na insaciedade desse gozo falho
Busco no desespero do trabalho,
Sem um domingo ao menos de repouso,
Fazer parar a máquina do instinto,
Mas, quanto mais me desespero, sinto
A insaciabilidade desse gozo! 

A ironia do poeta Ascenso Ferreira, perdido nas incoerências da escola da vida

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O poeta pernambucano Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895-1965), no poema “Minha Escola”, relembra a escola e a sua infância de sua época, quando o ensino era ministrado na base da palmatória.

MINHA ESCOLA
Ascenso Ferreira

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!
À sua porta eu estacava sempre hesitante…
De um lado a vida… – A minha adorável vida de criança:
Pinhões… Papagaios… Carreiras ao sol…
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio…
Jogos de castanhas…
– O meu engenho de barro de fazer mel!
Do outro lado, aquela tortura:
“As armas e os barões assinalados!”
– Quantas orações?
– Qual é o maior rio da China?
– A 2 + 2 A B = quanto?
– Que é curvilíneo, convexo?
– Menino, venha dar sua lição de retórica!
– “Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!”
– Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
– Agora, a de francês:
– “Quand le christianisme avait apparu sur la terre…”
– Basta.
– Hoje temos sabatina…
– O argumento é a bolo!
– Qual é a distância da Terra ao Sol?
– ? !!
– Não sabe? Passe a mão à palmatória!
– Bem, amanhã quero isso de cor…
Felizmente, à boca da noite,
Eu tinha uma velha que me contava histórias…
Lindas histórias do reino da Mãe-d’Água…
E me ensinava a tomar a benção à lua nova.

Suassuna exalta a mulher amada, revolta-se contra a razão e imortaliza o amor

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O escritor e poeta paraíbano Ariano Suassuna, no poema ‘A Mulher e o Reino”, exalta a mulher amada, revolta-se contra a razão e imortaliza o amor.

A MULHER E O REINO
Ariano Suassuna

Oh! Romã do pomar, relva esmeralda
Olhos de ouro e azul, minha alazã
Ária em forma de sol, fruto de prata
Meu chão, meu anel , cor do amanhã

Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem
Meu candeeiro aceso da miragem
Meu mito e meu poder, minha mulher

Dizem que tudo passa e o tempo duro
tudo esfarela
O sangue há de morrer

Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba pôr finar e corromper
Meu sangue ferve contra a vã razão
E há de pulsar o amor na escuridão

No fundo de tudo, do próprio universo, surgem os versos de Antonio Cícero

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Antonio Cicero é membro da Academia Brasileira de Letras

Paulo Peres
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O filósofo, escritor, compositor e poeta carioca Antonio Cícero Correa de Lima escreve poesia desde jovem, mas seus poemas só apareceram para o grande público quando sua irmã, a cantora e compositora Marina Lima, passou a musicá-los. Antes, porém, já eram suas canções como FullgásPara Começar e À Francesa – as duas primeiras em parceria com a irmã, e a última com Cláudio Zoli. No poema “Dilema”, Cícero reconhece um dilema existencial, que o confunde bastante.

DILEMA

Antonio Cícero


O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imerso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.

Nada disfarça o apuro do amor, na criatividade poética de Ana Cristina Cesar

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A professora, tradutora e poeta carioca Ana Cristina Cruz Cesar (1952-1983) é considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo (ou poesia marginal) da década de 1970. Para ela “Nada Disfarça o Apuro do Amor”.


NADA DISFARÇA O APURO DO AMOR
Ana Cristina Cesar

Um carro em ré. Memória de água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Singrar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

Na festa de São João, um olhar que incendiou o coração de Luiz Gonzaga

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Charge do Clayton (O Povo/CE)

Paulo Peres
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A festa de São João (24 de junho), o ápice dos festejos juninos, com a trezena de Santo Antônio (13 de junho) e São Pedro (29 de junho), inspirou o sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), o popular Rei do Baião, a compor em parceria com José Fernandes a música “Olha Pro Céu Meu Amor”, cuja letra retrata uma estória de amor numa noite de São João. Essa “marcha joanina” foi gravada por Luiz Gonzaga em 1951, pela RCA Victor.

OLHA PRO CÉU MEU AMOR
José Fernandes e Luiz Gonzaga

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João

Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar
Que incendiou meu coração

E o desejo de Álvarez de Azevedo se transforma em desesperados versos de amor…

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O advogado, dramaturgo, ensaísta, contista e poeta paulista Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), no poema “Meu Desejo”, revela todo o ardor de uma paixão incontida. Morreu com apenas 20 anos, porém jamais será esquecido.

MEU DESEJO
Álvarez de Azevedo

Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta:
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta….

Meu desejo? era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra….
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra….

Meu desejo? era ser o cortinado
Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro….

Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de langor!

É preciso levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, como ensinou Vanzolini

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Paulo Vanzolini, grande compositor e grande ser humano

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O zoólogo e compositor paulista Paulo Emílio Vanzolini (1924-2013), na letra de “Volta Por Cima”, mostra que recuperar-se de um tombo não é uma tarefa das mais fáceis, visto que não é todo mundo que consegue levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima com tanta destreza como no samba do Vanzolini, gravado pelo cantor Noite Ilustrada, em 1963, pela Philips, com enorme sucesso.

Segundo os psicólogos, muitas vezes, quando caímos por qualquer motivo, entre eles : o fim de um relacionamento, a perda de um emprego, um acidente ou até mesmo a pressão do dia-a-dia, tendemos a ficar estatelados no chão sem saber direito como levantar e seguir adiante. Todavia, existem pessoas que conseguem tirar de letra as dificuldades e passar pelos problemas, mesmo quando tudo parece conspirar negativamente, estampam o sorriso no rosto e seguem em frente. Pessoas assim são naturalmente mais preparadas para lidar com as adversidades.

VOLTA POR CIMA
Paulo Vanzolini

Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava

Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

Um trágico triângulo amoroso na Mangueira, na versão musical de Noel Rosa

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O cantor, músico e compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (1910-1937) compôs “Quando o Samba Acabou” inspirado no trágico amor de dois malandros pela mesma cabrocha. Este samba foi gravado por Mário Reis, em 1933, pela Odeon.
QUANDO O SAMBA ACABOU
Noel Rosa
Lá no morro da Mangueira
Bem em frente a ribanceira
Uma cruz a gente vê

Quem fincou foi a Rosinha
Que é cabrocha de alta linha
E nos olhos tem seu não sei que

Numa linda madrugada
Ao voltar da batucada
Pra dois malandros olhou a sorrir

Ela foi se embora
Os dois ficaram
E depois se encontraram
Pra conversar e discutir

Lá no morro
Uma luz somente havia
Era lua que tudo assistia
Mas quando acabava o samba se escondia

Na segunda batucada
Disputando a namorada
Foram os dois improvisar

E como em toda façanha
Sempre um perde e outro ganha
Um dos dois parou de versejar
E perdendo a doce amada
Foi fumar na encruzilhada
Passando horas em meditação

Quando o sol raiou
Foi encontrado
Na ribanceira estirado
Com um punhal no coração

Lá no morro uma luz somente havia
Era Sol quando o samba acabou
De noite não houve lua
Ninguém cantou