Adeus, meu querido amigo Artur Oscar Moreira Xexéo (05.11.1951 – 27.06.2021)

comentarista do Grupo Globo

Artur Xexéo era um jornalista especial, de grande cultura 

Jorge Béja

Quando voltei a me sentar à mesa ele chorava muito. Muito mesmo. Chorava sem parar. Em respeito, fiquei em silêncio. Naquela mesa éramos só nós dois. Depois, perguntei:

–  Por que chora?

E ele respondeu, com voz suave, mas embargada:

–  Eu sabia que você tocava piano. E você acabou de tocar a música que mais me comove, que mexe com meus sentimentos, que me traz tristes e alegres lembranças. Pra mim esta é a música da felicidade, da dor e da saudade. Nenhuma outra me faz chorar. Só esta. É o “Sonho de Amor” não é? Qual foi mesmo o compositor?

Também emocionado e me sentindo culpado, respondi:

– Perdão, se soubesse, teria tocado outra. Sim, é o “Rêve D’Amour”, de Franz Liszt.

GRANDE AMIGO – Foi neste dia, neste encontro, neste almoço,  que conheci, pessoalmente, Artur Xexéo. Sempre aos domingos, no Caderno B do Jornal do Brasil, Xexéo escrevia a meu respeito. Nem que fosse uma ou duas linhas.

Certa vez, Xexéo relacionou meu nome entre os candidatos ao “mala do ano”e lhe escrevi uma carta. Disse que a projeção do meu nome não era por mérito próprio, mas pela repercussão das causas que abraçava para defender. Que atuava sempre em busca de reparações para vitimados. Disse que não cobrava honorário. Que no final do processo, quando as indenizações eram pagas, quem quisesse me contemplar com honorário eu aceitava. Mas pedir, contratar e cobrar, nunca. Foi assim com as vítimas do Palace II, da Chacina da Candelária, da Queda do Elevado Paulo de Frontin, da Chacina de Vigário-Geral, com o Bateau Mouche e com tantas outras tragédias de grande e de pequena repercussão.

Na carta – que minha secretária a ele entregou pessoalmente na sede do JB no início da Avenida Brasil – convidei Xexéo para vir até minha casa. Disse que eu tinha dois pianos, um surrado, outro não. Que gostaria de tocar para ele. Que era seu leitor e admirador. Que eu não me importava ser relacionado como candidato ao título “mala do ano”. Mas que eu não obrava para aparecer na mídia. Eram os jornalistas que me procuravam, pela repercussão das causas e pelo ineditismo de outras tantas. 

OS DOIS PIANOS – Pois não deu outra. No domingo seguinte ao recebimento da carta, Xexéo escreveu no jornal: “O Jorge Béja me mandou uma carta. E me convidou para ir à casa dele para ouvi-lo ao piano. Béja disse que tem dois pianos. Por que e para que Jorge Béja tem dois pianos?”

Xexéo nunca veio à minha casa, Mas aceitou almoçar comigo. E aquele sublime encontro, que tanto marcou minha vida e aqui relembrado no início deste artigo, foi numa quarta-feira de Abril de 1992, no Restaurante XIV Bis do Aeroporto Santos Dumont. Os proprietários me franqueavam o piano – um imponente e afinadíssimo Fritz Dobbert, preto, meia cauda – que ficava pertinho das mesas. Carlinhos, o pianista da casa, não se importava.

Por duas décadas eu almoçava lá uma a duas vezes por semana. Chegava por volta do meio-dia e só ia embora lá pelas 5 da tarde. O XIV Bis teve vida longa. Até mesmo depois do incêndio no Aeroporto o restaurante voltou a funcionar. No mesmo lugar. Era amplo. Comida excelente. Pessoal educadíssimo. Hoje não existe mais.

VEIO A SOLIDÃO – Os anos foram passando. A idade chegando. E já não tenho mais dois pianos. E desaprendi a tocar muitas músicas. Vieram o flagelo da pandemia, a aposentadoria, o peso da idade. Veio a solidão. E nesta leva que leva tanta gente, tantas coisas boas, tantas felicidades, tantos amigos e parentes, lá se foram José Feghali, o pianista que projetou o Brasil e encantou o mundo; o genial e genioso Agnaldo Timóteo, de quem fui amigo e advogado; o  talentoso Aldir Blanc, meu amigo desde a mocidade; o fidalgo e culto Valmar Souza Paes, meu colega de profissão, amigo, correspondente; o Hélio Fernandes, ímpar e inigualável, de quem fui amigo….,  e tantos e tantos outros.

Tudo numa intensidade, numa avalanche de tal ordem avassaladora que me faz sentir sozinho no mundo… E agora se foi Artur Xexéo. A vida humana é mesmo um mistério que a mente humana não foi feita para compreender. Nem mesmo tatear. Se o essencial é invisível para os olhos… Se só se vê bem com o coração, como nos ensinou Exupéry, o nascimento, vida e morte de uma pessoa sempre será um mistério jamais desvendável.  Adeus, Artur Oscar Moreira Xexéo (5.11.1951 – 27.6.2021).

10 thoughts on “Adeus, meu querido amigo Artur Oscar Moreira Xexéo (05.11.1951 – 27.06.2021)

  1. Linda,comovente e merecida homenagem do angélico Dr. Béja, reserva moral e espiritual de nosso povo. Que Deus console a família e amigos e receba o querido Artur Xexéo em paz.

  2. Comovente,sincero e emocionante este texto de Jorge Béja,que,além,de brilhante advogado é,sobretudo,uma grande figura humana,sempre amigo dos amigos.
    Parabéns Dr. Jorge de Oliveira Béja!

  3. Parabéns ao Dr. Jorge Béja pela belíssima homenagem em memória do seu amigo Artur Xexéo. Deus o tenha em Paz. Nossos sentimentos a familiares e amigos.

  4. Lembro-me muito bem do artigo postado pelo dr,Béja referindo-se ao amigo pianista e brasileiro, de grande sucesso internacional, José Feghali.

    Lamentavelmente, o excelso advogado mais uma vez escreve sobre outra perda que teve de um amigo distinto.

    Minhas condolências sinceras.

  5. Homenagem justa e merecida ao jornalista, teatrologo, crítico de cinema, cronista da vida, um ser humano diferenciado, com luz transcendente
    Não sabíamos, seus admiradores e leitores, que lutava contra a doença. Os grandes homens, sofrem calados para não causar tristeza e preocupação aos outros.
    Vamos ficando órfãos de grandes personalidades, sem saber porque isso está acontecendo? Tudo na vida tem um propósito e não adianta especular qual, pois não saberemos nunca.

    • Nascimento, meu caro amigo,

      Aproveito o teu comentário para questionar a nossa existência:
      nascer, morrer, e … mais o quê??!!

      Sem que saibamos o tempo que viveremos neste planeta, a vida não tem sentido, se analisada friamente, sem maiores considerações.
      E aqueles que partem cedo?
      Ou as pessoas que nascem tão carentes, a que a vida sempre foi a luta por um prato de comida?

      Mesmo que tenhamos consciência que somos finitos, a verdade é que temos predileção para projetar as nossas existências, fundamentadas em sonhos ou em futuros que se supõe atingir!

      Nesse meio tempo, perdemos preciosos momentos da vida porque nos interessa o amanhã, que sequer sabemos se haverá chance de se chegar aonde queremos.

      Pensando bem, e considerando o que escreveste, que a vida tem um propósito, mas não saberemos jamais o que será, a meu ver é o despropósito da existência o propósito de se viver!

      Se retrocedermos à razão de estarmos neste planeta e desta forma, como seres humanos, os responsáveis por estarmos presentes neste momento e neste mundo conhecido são os nossos genitores.

      Pensa comigo, Nascimento, por favor:
      Se não sabemos quem serão os nossos pais, muito menos eles têm ideia do filho que terão e como irão se comportar, eis o despropósito que menciono, haja vista que, mesmo herdando seus genes, teremos os nossos;
      a nossa vida não será a mesma de nossos país;
      nossos amores serão diferentes;
      igualmente as nossas preferências serão outras;
      nossos comportamentos, caráter, personalidade, realizações não serão aquelas que constatamos nas pessoas que nos trouxeram para esta existência terrena!

      Logo, nossas aparições na Terra porque em comparação á eternidade não existimos não tem sentido, então a vida é fruto de um despropósito filosófico, até mesmo racional e existencial.

      Dito isso, o que poderemos deixar como comprovação que vivemos neste mundo de Deus?
      Que o despropósito de uma existência deixou o propósito para a vida de todos?
      E o que seria?
      Arrisco responder porque posso afirmar que é o LEGADO que deixaremos!

      Dr, Béja e o seu amigo que se foi, Xexéu, nos ensinam que a vida tem sentido, caso deixarmos um legado calcado em
      exemplos de se viver;
      de sabermos lutar para buscar o nosso espaço neste planeta conturbado por mais de sete bilhões de almas, que também buscam sentido às suas vidas!

      A continuidade da humanidade é dar seguimento ao legado deixado pelos pais, em princípio, depois os parentes, adiante os amigos e, depois, os conhecidos ou por aqueles que admiramos e aplaudimos suas vidas porque úteis a si mesmos e à sociedade que pertencem, a humana!

      Portanto, caro amigo Nascimento, a vida “per si” se não tem um propósito, em contrapartida temos obrigações.
      E, a principal, é o legado que deixaremos aos nossos filhos, netos, parentes, amigos e a quem desconhecemos.

      Eu ainda procuro deixar algo que serei lembrado, mas está difícil porque o meu maior despropósito foi viver sem estudos, sem conhecimentos, sem cultura, um mero escrevinhador e ser humano sem predicados e qualidades, todavia encontro em vários articulistas e comentaristas neste blog, na TI, as carências que reconheço tê-las comigo.

      Abração, Nascimento.
      Saúde e paz.

  6. Com a devida permissão do dr.Béja, aproveito a sua bela homenagem ao amigo que partiu, Xexéu, para fazer as seguintes colocações, também levando em conta a música que foi tocada ao piano por ocasião de um almoço entre ambos os amigos:

    Curiosamente, os grandes compositores de músicas eruditas não existem mais.
    Liszt, Bach, Beethowen, Tchaikowski, Debussy, Mozart, Chopin, Brahms, Schubert, Vivaldi, Mahler, Wagner, Mendelssohn, Rachmaninoff, Dvorak, Ravel, Händel, Haydn,… os grandes mestres de Óperas:
    Verdi, Puccini, Bizet, Leoncavallo, Rossini …
    Da mesma forma, os notáveis compositores de valsas:
    Johann Strauss, Richard Strauss …

    Analisando com mais atenção este detalhe, da interrupção de composições eruditas, a conclusão que obtive é a falta de emoção, de sentimentos pelo belo, pelo mavioso, pela ternura.

    O amor foi substituído pela paixão arrebatadora, que termina imediatamente após alguns dias, pois o ser humano não vibra mais nesta sintonia platônica, idílica, romântica.

    O sexo desbragado, sem a devida atenção e cuidado com a função mais importante à vida de qualquer pessoa deu lugar à promiscuidade, ao desafeto, à desconsideração, ao abandono após a sua realização meramente física, carnal, acirrando o estupro, a pedofilia, a mulher sendo humilhada e usada para outros propósitos, como a pornografia e aberrações sexuais.

    Logo, as artes também sofreriam a mesma queda na qualidade, ainda mais aquelas voltadas apenas para a visualização, sem imaginação, sonho ou devaneios:
    A música, a poesia, a literatura, a escultura, a pintura, até mesmo o teatro, deixaram de ser agentes de amor, de romances, de meios para se conquistar a mulher amada e, principalmente, a linguagem retrocedeu à época de nossos mais remotos ancestrais, virando grunhidos e sons ininteligíveis, afora o uso sistemático de palavras de baixo calão.
    Aliás, os stand up de hoje são apresentados à base de palavrões, que denominam de “humor”.

    Ainda bem que, volta e meia, surge um que outro link abordando esta temática musical, a erudita, sobressaltando-se o piano, o instrumento mais clássico às composições líricas e seus autores renomados, que varam o tempo com suas melodias inigualáveis, indeléveis, marcantes e poderosamente românticas!

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