
Charge do Rocardo Welbert
Pedro do Coutto
Há um traço recorrente na vida pública brasileira que insiste em se reinventar: a capacidade de adaptar novas ferramentas a velhas práticas. Agora, esse fenômeno ganha uma escala inédita com o avanço da inteligência artificial.
Se, por um lado, mais da metade das universidades federais já se mobiliza para criar diretrizes de uso responsável dessa tecnologia — um movimento alinhado ao que instituições como a Unesco e a OCDE vêm recomendando —, por outro, cresce a percepção de que o país ainda corre atrás de um problema que já se sofisticou.
INFLUÊNCIA NAS DECISÕES – A discussão acadêmica é necessária, mas insuficiente. A inteligência artificial deixou de ser apenas um tema de sala de aula ou laboratório: ela já está no cotidiano, influenciando decisões, comportamentos e, sobretudo, criando novas possibilidades de fraude.
Dados recentes indicam dezenas de milhares de tentativas fraudulentas detectadas e barradas em diferentes setores — de benefícios indevidos a manipulações mais elaboradas. Não se trata apenas de volume, mas de complexidade. A IA permite automatizar golpes, simular identidades, escalar desinformação e, em um ano pré-eleitoral como 2026, potencializar riscos à própria confiança pública.
Esse cenário exige mais do que guias orientativos. Exige governança. Países que avançaram na regulação — inspirados, por exemplo, nas diretrizes europeias consolidadas no Parlamento Europeu — entenderam que a tecnologia precisa caminhar junto com mecanismos de rastreabilidade, auditoria e responsabilização. No Brasil, embora haja iniciativas relevantes, ainda predomina uma lógica reativa: combate-se o efeito depois que o dano já ocorreu.
BRECHAS – O problema se agrava quando a cultura da informalidade encontra brechas institucionais. Casos recentes ilustram isso com clareza. A distribuição indiscriminada de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” — originalmente desenvolvidos para tratar doenças metabólicas — sem o devido acompanhamento médico, expõe não apenas um risco sanitário, mas também um padrão de comportamento: o uso oportunista de soluções legítimas, distorcidas por interesses imediatos. Trata-se de um atalho perigoso, que pode comprometer a saúde pública e abrir espaço para esquemas de comercialização irregular.
A Organização Mundial da Saúde tem alertado reiteradamente para o crescimento da obesidade como um desafio global, que demanda políticas estruturadas, acompanhamento clínico e educação em saúde. Transformar medicamentos em instrumentos de populismo ou consumo indiscriminado não resolve o problema — ao contrário, cria novos.
FRAGILIDADE – O ponto de convergência entre esses fenômenos — a explosão de fraudes digitais e o uso irresponsável de soluções médicas — é a fragilidade dos sistemas de controle. Quando não há monitoramento eficaz, transparência e responsabilização, abre-se espaço para uma espécie de “economia paralela da fraude”, que se adapta rapidamente às oportunidades oferecidas pela tecnologia.
E é aqui que o debate sobre inteligência artificial precisa amadurecer no Brasil. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ela amplifica tanto virtudes quanto desvios. Sem uma arquitetura institucional robusta, que combine regulação inteligente, fiscalização ativa e educação digital, o país corre o risco de transformar inovação em vulnerabilidade.
COORDENAÇÃO – O desafio, portanto, não é apenas técnico — é cultural e político. Exige coordenação entre governo, academia, setor privado e sociedade civil. Exige, sobretudo, abandonar a tolerância histórica com pequenos atalhos que, somados, constroem grandes distorções.
A inteligência artificial não cria a fraude. Ela apenas revela, em escala industrial, aquilo que já estava latente. O que está em jogo, agora, é se o Brasil será capaz de usar essa mesma tecnologia para fortalecer suas instituições — ou se continuará assistindo à modernização de velhos problemas.




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Pedro do Coutto



