Sem respeito a si mesmo e ao cargo, Jair Bolsonaro está criando um “auto-impeachment”

Seria esta a imagem de algum presidente da República?

Jorge Béja

No início deste mês de agosto de 2021, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, xingou de “filho da puta” o ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. Foi no dia 6, em Joinville. Depois, Jair apagou o vídeo. Agora, terminando o mês de agosto, nesta sexta-feira 27, ele novamente abriu a boca e disse a seus apoiadores — e como sempre num linguajar chulo —, que todos os brasileiros precisam comprar um fuzil.

E chamou de “idiota” quem defende a compra de um pacote de feijão ao invés de fuzil. A declaração. Evidentemente, repercute negativamente no Brasil e no Mundo.

DISSE BOLSONARO – “Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Aí tem um idiota: ‘Ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se você não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar” – isto foi dito, literal e publicamente, a apoiadores no tal “cercadinho” na portaria externa do Palácio da Alvorada.

Quando Jair Bolsonaro endereçou ao presidente do Senado o pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes e após eu ler a petição, escrevi artigo aqui na “Tribuna da Internet”, edição do dia 21 último. No texto afirmei que a petição era “fraquinha”. E que o destino do pedido era o indeferimento. Não demorou quase nada. Três ou quatro dias depois o presidente do Senado Federal, baseado em parecer do seu setor jurídico, negou o pedido e o arquivou.

Dizem que existem na gaveta do presidente da Câmara 126 pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro. Continuam sem apreciação, sem decisão de admissibilidade ou não. Pode até ser verdade. Mas são pedidos desnecessários.

“AUTO-IMPEACHMENT” – Jair Bolsonaro, com seus gestos, palavras, ações, omissões e tantas outros comportamentos e atitudes que vão se avolumando e multiplicando com o passar do tempo, ele mesmo já decretou o seu próprio impedimento para continuar presidente da República.

Sem levar em conta outros gestos, palavras e ações, esses dois recentes atos – a ofensa ao ministro e a exortação ao fuzil – cravaram sua incapacitação, seu natural impedimento para prosseguir como presidente da República.

Pode até continuar na função, mas desmoralizado. Jair, como gosta de ser chamado, perdeu o respeito ao cargo e a si próprio. Assim, Jair impõe uma espécie de “auto-impeachment”.

FALTA DE DECORO – Sabemos que a rejeição a Jair não é unanimidade. Sempre existem seus adeptos, seus eleitores, como enganadamente fui um deles. Mas aqueles que o elegeram já não somam tantos milhões como foram. Restam muitos poucos.

E o que Jair pede é um ímpeachment natural, sem que haja necessidade da formalização, processamento e decisão do Senado Federal. Isto porque, reiteradamente – e sobretudo agora, no caso do xingamento de um ministro do STF e no caso dos “fuzis para todos” no lugar da compra de feijão –, Jair não procedeu de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo?

E presidente da República que assim procede se enquadra no artigo 9º, item 7, da Lei do Impeachment (nº 1079, de 1950).

DIZ A LEI – “Artigo 9º – São crimes de responsabilidade contra a probidade na administração….7) proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

Portanto, Jair Bolsonaro se auto-incrimina. Ele se auto-desmoraliza. Ele próprio não respeita o cargo. É por isso que não precisa de impeachment. Ele próprio prova e comprova sua incapacidade para ocupar o cargo do qual está investido. Ele próprio se auto-destruiu. Ele mesmo fez por onde perder a dignidade e a autoridade moral que todos esperam de um presidente da República.

No entanto, se for apresentado um pedido formal de impeachment, com fundamento apenas nestes dois fatos aqui narrados, certamente será recebido, processado e julgado.

13 thoughts on “Sem respeito a si mesmo e ao cargo, Jair Bolsonaro está criando um “auto-impeachment”

  1. “O CAC está podendo comprar fuzil. O CAC que é fazendeiro compra fuzil 762. Tem que todo mundo comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Tem um idiota: ‘Ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar.”

    Fico imaginando o “povo” agora lá no Afeganistão; lendo essa fala do presidente; enquanto são escravizados (só os que não são mortos) pelo governo.
    PS: Sem esquecer que a situação lá tinha melhorado muito, todo escravo lá tem um pacote de feijão em baixo do braço.

  2. É triste ver que um homem que tinha tudo para dar certo na presidência da república faz força para não dar. No ano que vem quando ele não passar para o segundo turno vai dizer que foi vítima de roubo. Sim, concordarei com ele então, o povo roubou-lhe os votos necessários para passar para o segundo turno, o culpado é o povo, aquele mesmo povo que prefere comprar feijão à fuzil.

  3. Meu caro Jorge Béja, sou um humilde jornalista da planície e profundo admirador seu e do belíssimo trabalho de assistência jurídica aos invisíveis. Mas, não posso aceitar que alguém da sua categoria me diga que votou enganado no Bolsonaro. Ele é o político incompetente daí, da família miliciana daí e, portanto, eu aqui no Piauí poderia ter votado enganado – anulei meu voto no segundo turno- e não o fiz. Acho que muita gente aí quis se auto enganar.

    • li seu delicado e respeitoso puxão de orelha, prezado Mário Rogério. Prometo não errar mais. Grato por ter lido e censurado com tanta elegância.

    • Endosso (no que concerne à questão de pessoas esclarecidas – e principalmente moradoras do Rio de Janeiro, cônscias da problemática dos males advindos da criminalidade miliciana à partir dos quartéis.)

      Há de se ressaltar, porém, uma série de pontos positivos na análise do articulista.

    • Mário Rogério, acredito, que Jorge Beja como todos que votaram no Bolsonaro, jamais esperariam, que ele fosse chegar a esse ponto.
      Na campanha ele mostrou uma capa de candidato contra a corrupção, de respeito a corrupção, inclusive trouxe o juiz Sérgio Moro para o governo.
      No entanto, foi mostrando a sua verdadeira identidade, até esse clímax golpista, que estamos vendo agora.
      Milton Hatoum sintetizou muito bem o personagem presidente, que é nulo em Ciências humanas, com sérias lacunas literárias e filosóficas, ensejando algo de errado na formação de oficiais da AMAN
      Sua parte cognitiva é sofrível, apresenta surtos agressivos constantes, não cumpre os acordos com os outros poderes, enfim, um homem imprevisível , inclusive zero de empatia em relação as mais de 500 vitimados pela Covid.
      Como Hatoum descreve: ” Fazer uma escolha é um exercício de liberdade, exercida com responsabilidade, dá dignidade a uma pessoa”.
      Poucos eleitores sabiam da sua aversão a Democracia e a preocupação social com a população carente, que é próximo ou igual a zero.
      Confesso, que também errei ao acreditar nas propostas do PT, que se entregou ao Centrão e produziu essa página inglória do país, o Mensalão e o Petrolão. Tudo que foi realizado por Lula e Dilma nas áreas sociais foi anulado pela corrupção. Por isso, parcelas significativas do povo, embarcou na furada do Bolsonaro, que mostrou sua verdadeira face ditatorial.
      Eu também prometo não errar mais, porém, terei que combinar com os russos, porque o eleitor não tem condições de saber, que seu candidato é uma mentira ambulante, um camelão, duas caras, um artista da política, que encarna diversos papéis de acordo com a ocasião.
      Sobre o artigo, como sempre, uma obra prima.

  4. Para defender o povo da escravidão criou-se as Forças de Segurança: Forças Armadas, Polícia Nacional e Polícia Militar. Se essas instituições não defenderem o povo, então por que as pagamos através dos impostos?

  5. Aquele que já nasceu boçal deveria já ir fazendo as malas para dar o fora. O povo brasileiro não merece tanto sofrimento. Esse ignorante total não tem a menor condição de ser nem porteiro de cabaré de subúrbio seja lá onde for. Não acredito que o povo não compreenda que precisamos de um homem EDUCADO, INTELIGENTE, ESTADISTA, ÍNTEGRO e DIGNO para governar um país imenso como o nosso Brasil.

  6. Já escrevi outras vezes que para entender a forma de pensar e de agir de Bolsonaro é necessário conhecer como pensam e se comportam os Milicianos.
    Eles são especialistas em criar confusão para em seguida solucionarem o “problema” a moda deles.
    Porém em muitas oportunidades os milicianos tem necessidade de criar barracos para desfiar a atenção para encobrir alguma contravenção ou até mesmo um crime.
    Analisem e verão como é vc fácil conhecer nosso presidente.

  7. Antes tosco mas patriota, integro e família, do que corrupto e comunista.
    É assim caminha a humanidade…
    Brasil acima de tudo, e Deus acima de todos.

  8. Dr Béja, é a danada da Esperança.
    Por isso, um pensador francês declarou: “Onde há esperança há decepção”.
    PS: Eu também votei errado.

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