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Sozinho, Ellsberg enfrentou o governo dos EUA e venceu
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Estudos Históricos
Outubro de 1969. Daniel Ellsberg estava em um escritório emprestado, depois da meia-noite, passando documentos confidenciais por uma copiadora, página por página. Cada folha era um crime federal. Cada cópia podia significar prisão por toda a vida.
Ele não era um radical. Nem imprudente. Era um ex-fuzileiro naval, doutor por Harvard, analista de alto nível do Pentágono. Tinha acesso aos maiores segredos do país. E acabara de ler 7 mil páginas que provavam que seu próprio governo mentia há 25 anos.
PAPÉIS DO PENTÁGONO – Os documentos ficaram conhecidos como Pentagon Papers — um histórico confidencial da participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, encomendado pelo secretário de Defesa Robert McNamara.
O que revelavam era devastador. Quatro presidentes — Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson — sabiam que a guerra era impossível de vencer. E ainda assim enviaram jovens para morrer. Diziam ao público que a vitória estava próxima, enquanto, em privado, admitiam que nunca viria. Em 1969, mais de 40 mil americanos já haviam morrido.
Ellsberg tinha uma escolha: proteger sua carreira, sua liberdade, sua família… ou expor a verdade. Ele escolheu a verdade.
TOP SECRET – Mas copiar 7 mil páginas sozinho, durante a noite, era lento e angustiante. Qualquer carro passando poderia ser o fim. Então ele tomou uma decisão extraordinária: chamou seus filhos para ajudar: Robert, 13 anos. Mary, 10.
Enquanto o filho operava a copiadora, Mary se sentava no chão com uma tesoura, cortando cuidadosamente os carimbos “TOP SECRET” de cada página.
Anos depois, ele explicaria que esperava ser preso em breve. Queria que seus filhos vissem que ele fazia algo necessário — com calma, consciência e propósito. Queria que entendessem que, às vezes, a consciência exige sacrifício.
CAMINHOS OFICIAIS – Durante dois anos, tentou os caminhos “oficiais”. Procurou senadores, congressistas. Todos recusaram. Então, em 1971, entregou os documentos ao The New York Times.
Quando começaram a ser publicados, o governo reagiu com fúria. Pela primeira vez na história dos EUA, tentou impedir judicialmente um jornal de publicar informações. O bloqueio ao NYT veio.
Ellsberg respondeu entregando os documentos ao The Washington Post, depois a outros jornais. A verdade se espalhou mais rápido do que podia ser censurada. O então presidente Richard Nixon não queria apenas conter o vazamento. Queria destruir Ellsberg.
INVASORES – Criou uma unidade secreta chamada “Plumbers”, que invadiu o consultório do psiquiatra de Ellsberg em busca de algo que pudesse desacreditá-lo. Não encontraram nada. Mas cruzaram uma linha.
Ellsberg foi acusado de espionagem, roubo e conspiração. Enfrentava até 115 anos de prisão. O julgamento começou em 1973. Mas, aos poucos, os abusos do próprio governo vieram à tona: invasões ilegais, manipulação, tentativa de suborno do juiz.
O caso desmoronou. Em 11 de maio de 1973, todas as acusações foram anuladas por má conduta governamental. Ellsberg saiu livre. O impacto foi gigantesco. Os documentos confirmaram o que muitos suspeitavam: o governo mentiu sistematicamente sobre a guerra.
WATERGATE – A confiança pública foi abalada. A pressão aumentou. O rumo do conflito começou a mudar. E houve uma consequência inesperada. A mesma equipe que invadiu o consultório de Ellsberg esteve envolvida depois no escândalo de Watergate — que acabaria derrubando Nixon.
Ellsberg não apenas expôs mentiras sobre a guerra. Ajudou, indiretamente, a revelar a corrupção no coração do poder.
Ele viveu até 2023, aos 92 anos, como ativista contra a guerra e defensor de denunciantes. Nunca se arrependeu. E aquelas crianças que o ajudaram? Cresceram entendendo algo raro, que ser cidadão, às vezes, exige coragem.
UMA LIÇÃO ETERNA – Aquelas duas crianças aprenderam que fazer o certo nem sempre é fazer o seguro. Que o pai delas escolheu a consciência acima do conforto — e elas viram isso de perto.
Os Pentagon Papers não acabaram imediatamente com a guerra. Mas mudaram para sempre a forma como as pessoas enxergam o poder.
Porque, às vezes, o ato mais patriótico não é obedecer ordens. É dizer a verdade — mesmo quando o próprio governo chama isso de traição.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Aqui na Tribuna da Internet não costumamos publicar textos sem assinaturas. Sempre procuramos identificar o autor, mas desta vez não conseguimos. O texto foi enviado por José Guilherme Schossland, sempre atento, que o extraiu do Facebook, no site Estudos Históricos. É uma lição emocionante, que mostra a importância da dignidade e do espírito público, que precisam ser valorizados neste mundo tão confuso, injusto e desigual. (C.N.)















