
Charge do J.Caesar (Veja)
Vicente Limongi Netto

Charge do J.Caesar (Veja)
Vicente Limongi Netto
Charge do João Spacca (Arquivo Google)
André Borges, Adriana Fernandes e Lucas Marchesini
Folha
A família de Daniel Vorcaro, banqueiro do Master acusado de orquestrar um esquema fraudulento envolvendo fundos de investimento, é a investidora de um projeto bilionário de créditos de carbono realizado sobre terras públicas e baseado em valores inflados, sem lastro na realidade do mercado.
Documentos obtidos pela Folha apontam que os Vorcaro estão envolvidos desde a origem no plano de explorar esses créditos em uma área da Amazônia, por meio da alavancagem financeira realizada com fundos da administradora Reag.
COMO FUNCIONA – Créditos de carbono são certificados que empresas podem comprar para compensar suas emissões de carbono. Projetos de restauração florestal e energia limpa, por exemplo, geram créditos conforme a quantidade de gases evitados ou removidos da atmosfera, que podem ser repassados.
Dois fundos sob gestão da Reag tiveram seu patrimônio reavaliado porque duas empresas das quais eles eram acionistas foram turbinadas em mais de R$ 45,5 bilhões com a geração de carbono advinda de uma área pública da União na Amazônia, o que é irregular. Isso transforma o caso em um dos maiores escândalos do setor.
O elo entre o projeto irregular de carbono e a família Vorcaro se dá por meio de uma empresa chamada Alliance Participações, conforme contratos e laudos aos quais a reportagem teve acesso.
SOCIEDADE FAMILIAR – A Alliance, uma sociedade anônima fechada, é controlada por Henrique Moura Vorcaro, que ocupa a cadeira de presidente, e Natália Bueno Vorcaro Zettel, diretora da empresa e mulher de Fabiano Zettel, alvo de operação na semana passada. Tratam-se do pai e da irmã de Daniel Vorcaro, que sempre negou participação no negócio de carbono na região.
Em agosto de 2022, um Contrato de Opção de Compra e Venda foi assinado entre a Alliance, o fazendeiro Marco Antônio de Melo, que aparece como dono da terra, e José Antônio Ramos Bittencourt, que atuou como mediador da transação comercial.
Com o acordo, a Alliance passou a ser dona majoritária das unidades de carbono associadas à Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), com 80% do que seria produzido, enquanto Bittencourt ficou com 20%. O passo seguinte foi estruturar a engrenagem dos fundos da Reag que assumiriam o projeto.
COTAS DE FUNDOS – Em 2023, com o acordo formalizado, as operações transformam as 168,872 milhões de unidades de estoque de carbono estimadas no território da Fazenda Floresta Amazônica em cotas de fundos. Neste acerto, o intermediário do negócio, José Antônio Ramos Bittencourt, recebeu cotas de dois fundos da Reag como pagamento, ficando com 2,5% do New Jade 2 e 7,5% do Biguaçu.
O arranjo financeiro passou a incluir, ainda, a possibilidade de negociações com tokens de carbono (um tipo de “vale digital” de carbono, um registro certificado usado para tentar transformar uma promessa de crédito ambiental em ativo financeiro) e outros ativos como forma de quitação.
O contrato prevê que o fazendeiro Marco Antônio de Melo seria remunerado por cotas e tokens, mas não detalha os percentuais ou fundos usados para remunerá-lo.
CARBONO VOADOR – Este carbono da Alliance, empresa que agora se sabe pertence à família Vorcaro, foi parar na Global Carbon e na Golden Green, duas companhias da teia que inflaram o patrimônio dos fundos de investimentos sob gestão da Reag.
Os fundos foram usados, segundo os investigadores, para desviar dinheiro do Master e para retroalimentar a ciranda financeira, ampliando o patrimônio do banco, o que permitiu à instituição financeira seguir vendendo CDBs no mercado.
No caso do negócio envolvendo créditos de carbono, a complexidade da trama vai além da sucessão de fundos para inflar patrimônio. O que está por trás da valorização explosiva de empresas que, de uma hora para a outra, passaram a valer dezenas de bilhões de reais, diz respeito à própria natureza do que seria supostamente negociado.
SEM CERTIFICAÇÃO – Enquanto o crédito de carbono tradicional depende de certificação reconhecida e redução comprovada de emissões, as tais unidades de estoque tratadas no contrato e medidas pela Unesp são descritas como estimativas, sem referência de mercado transparente ou preço público. Ainda assim, foram usadas como base para estruturar os fundos e reorganizações que sustentaram a narrativa de um ativo bilionário.
Como mostrou a Folha, as duas empresas controladas por fundos da Reag, a Golden Green e a Global Carbon, passaram a valer R$ 14,5 bilhões e R$ 31 bilhões, respectivamente, mesmo sem vender um único crédito.
Esses R$ 45,5 bilhões não eram dinheiro vivo, não podiam ser sacados por seus cotistas, mas ajudavam a inflar um patrimônio financeiro fictício que poderia turbinar empréstimos e fazer girar a ciranda dos negócios atrelados às suas cadeias de fundos.
ÁREA DA UNIÃO – A própria terra e a floresta que dariam origem a esses créditos sempre estiveram enroladas com papéis e registros cartoriais que comprovam que se trata de uma área da União, impedida de ser negociada por terceiros e destinada à reforma agrária.
Nada disso, porém, teria impedido que auditorias chancelassem os negócios, baseados unicamente no patrimônio financeiro informado pelas próprias empresas, sem nenhum tipo de checagem concreta sobre o que, afinal, poderia produzir aqueles créditos.
A Golden Green tem como investidor o fundo Jade; e a Global Carbon, o New Jade 2, ambos administrados pela Reag e investigados desde a Operação Carbono Oculto, que apura a suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. O New Jade 2 está na ponta de uma cadeia de controle de fundos que se inicia no Hans 95, um dos seis apontados como fraudulentos pelo Banco Central no caso Master, conforme mostrou a Folha.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Importantíssima matéria da Folha, que indica falhas grotescas na fiscalização que deveria ter sido feita pelo Banco Central, desde a época de Roberto Campos Neto, aquele economista que presidiu o BC mas não acreditava no próprio trabalho, porque mantinha sua fortuna no exterior, como também fazia Paulo Guedes, o então ministro da Fazenda. Ah, Brasil, você não merece essa gentalha… (C.N.)

Precedente impõe limites que voltam a ser testados
Mariana Muniz
O Globo
Uma decisão dada em 2019 pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem sido citada nos bastidores por quem acompanha o dia a dia da Corte como um precedente que contrasta com a determinação para apurar vazamentos sobre dados de ministros. Na ocasião, Moraes concedeu uma liminar para impedir que o Tribunal de Contas da União (TCU) identificasse servidores da Receita Federal responsáveis por acessar dados fiscais de pessoas politicamente expostas. Procurado, o ministro não comentou.
Na semana passada, Moraes determinou a abertura de um procedimento para apurar se houve vazamento de dados sigilosos de ministros da Corte e de seus familiares, possivelmente por servidores da Receita e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
ACESSO IRREGULAR – O inquérito tem por objetivo esclarecer se houve acesso irregular às informações fiscais e bancárias dos magistrados, identificar quem consultou esses dados, em que datas e sob qual justificativa.
A medida é semelhante à adotada pelo TCU em 2019, quando o órgão de controle ordenou uma levantamento de quem, na Receita, havia acessado dados sigilosos de autoridades públicas, sob a justificativa de verificar eventual desvio de finalidade. Ao analisar o caso, Moraes entendeu que a corte de contas extrapolava suas atribuições constitucionais ao avançar sobre a atuação individual de auditores fiscais no exercício da função.
Na liminar, o ministro afirmou que, embora o TCU detenha “importantes e imprescindíveis competências constitucionais”, elas não incluem atividade correicional sobre condutas individualizadas de servidores da Receita Federal durante procedimentos de fiscalização. Segundo ele, eventuais desvios devem ser apurados no âmbito interno do próprio órgão fazendário, além de poderem gerar responsabilização civil, criminal ou por improbidade administrativa.
FUNDAMENTO – “Há fundamento relevante apontado na petição inicial, pois, em que pese as importantes e imprescindíveis competências constitucionais do TCU, dentre elas não se encontra eventual atividade correicional decorrente de suposto desvio de finalidade de servidores da Receita Federal no exercício de função fiscalizatória, cujas condutas individualizadas são passíveis de procedimento disciplinar, no âmbito da própria Receita Federal”, escreveu Moraes na decisão de 2019.
Esse entendimento, contudo, voltou ao centro do debate com a abertura do inquérito para apurar se dados fiscais e financeiros de ministros teriam sido acessados de forma irregular. Como revelou O Globo, a investigação tem dividido o Supremo e gerado desconforto na Receita Federal, que vê risco de que a atuação fiscalizatória regular seja submetida a controle externo amplo.
PRECEDENTE – Interlocutores do órgão avaliam que medidas hoje cogitadas no âmbito do inquérito — como a identificação nominal de servidores e o rastreamento de acessos a sistemas sigilosos — se aproximam da iniciativa do TCU barrada por Moraes em 2019. A leitura é que o precedente impõe limites institucionais que agora voltam a ser testados.
No Supremo, ministros ouvidos reservadamente reconhecem que a decisão anterior do relator pode servir de parâmetro jurídico para o debate atual, sobretudo quanto à separação de competências entre órgãos de controle e a Receita Federal.

Pavan diz que movimentação trata SC “como um balcão de negócios”
Yago Godoy
O Globo
O prefeito de Camboriú (SC), Leonel Pavan (PSD), criticou a candidatura do ex-vereador Carlos Bolsonaro em Santa Catarina. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro pretende disputar o Senado pelo estado, e renunciou ao cargo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro em dezembro para se tornar dirigente do PL catarinense.
De acordo com Pavan, a movimentação do partido “é uma loucura” por tratar Santa Catarina “como um balcão de negócios”. Não é a primeira vez que Carlos é alvo de gestores locais: ele já foi criticado pelos prefeitos de Pouso Redondo e Joinville, como mostrou a newsletter do O Globo “Jogo Político”, e também entrou em embate com a deputada estadual Ana Campagnolo (PL).
“LOUCURA” – “Acho uma loucura o que o PL está fazendo em Santa Catarina. Trazer um vereador lá do Rio de Janeiro só para ser candidato, como se nós fôssemos um balcão de negócios, que vai por emoção, eu acho uma loucura”, disse Pavan, em entrevista divulgada pelo portal Catarina Notícias na última quinta-feira.
O prefeito ponderou que a decisão, no entanto, “é um direito deles”, e criticou a polarização política no país. Ele definiu os “extremos” como uma “ignorância enorme” que “divide os brasileiros”, e defendeu alianças sem viés ideológico.
DIVISÃO – “O Brasil não merece dividir a população por esquerda e direita. Eu quero saber de quem ganha até R$ 5 mil e R$ 7 mil, o que vão dizer quando começarem a “liberar o imposto de renda”, se vão ser direita ou esquerda. É uma ignorância enorme esses extremos. Você acha que vou deixar de falar com o (presidente) Lula? Com Tarcísio (de Freitas, governador de São Paulo)?”, comparou o prefeito.
Pavan já foi vice-governador de Santa Catarina entre 2007 e 2010, e chegou a comandar o estado por alguns meses, quando o então governador Luiz Henrique da Silveira renunciou para disputar uma vaga no Senado. Pavan também se elegeu senador (2002) e foi deputado estadual.
O prefeito é pai de Juliana Pavan (PSD), prefeita de Balneário Camboriú. Na cidade vizinha, um dos vereadores é Jair Renan Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente e irmão de Carlos, que se mudou para o estado justamente para conquistar seu mandato.
CAPACITAÇÃO – Em setembro de 2025, inclusive, Pavan afirmou ao podcast “Cabeça de Político” que Jair Renan deveria buscar “mais capacitação” e “ler mais” os projetos em tramitação. As críticas ocorreram após ele ter sido o único voto contrário a um projeto enviado pelo Executivo para combater o furto de fios.
“Respeito o posicionamento dele, apesar de ele quase não se posicionar, e, quando se posiciona, eu não consigo entender o que ele fala”, disse a prefeita sobre Renan, que a rebateu nas redes sociais: “analfabeta funcional”, escreveu.
A movimentação de Carlos também já gerou resistências de uma ala do PL, que considera que a candidatura do filho de Bolsonaro tira espaço da deputada federal Carol de Toni (PL-SC), também pré-candidata ao Senado.
RESISTÊNCIA – O governador catarinense Jorginho Mello (PL), que disputará a reeleição, resiste a entregar as duas vagas ao Senado em sua chapa a dois nomes do próprio partido, já que isso dificultaria formar alianças com outras siglas. O mandatário apoia o atual senador Esperidião Amin (PP-SC), deixando apenas uma vaga para o PL na chapa.
Uma das principais críticas é a deputada estadual Ana Campagnolo (PL), que já reclamou dos ataques e acusações de “traição” que passou a sofrer de bolsonaristas por conta de sua discordância. No fim de outubro, o ex-vereador carioca chamou Campagnolo de “mentirosa” quando ela explicou a apoiadores que o acordo de Jorginho foi uma negociação do próprio PL com o PP, e que Carlos estaria tirando a vaga de Carol de Toni.
Também no ano passado, em novembro, conforme mostrou a newsletter “Jogo Político”, do O Globo, o prefeito Rafael Tambozi (PL), de Pouso Redondo, também criticou a candidatura de Carlos.
GADO – “A gente gosta do nosso gadinho, trata bem os nossos bichinhos, mas o povo de Santa Catarina não é gado. E isso tem que ficar bem claro nesse momento em que as lideranças não se posicionam enquanto temos a imposição da candidatura do Carlos a senador”, disse Tambozi.
A afirmação de Tambozi também seguiu a mesma linha de outra declaração recente de um gestão local, o prefeito de Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, com 616 mil habitantes:
“Entendo isso como uma agressão ao Estado. Não conheço Carlos pessoalmente, mas essa crítica eu faria a qualquer outro que quisesse se mudar para um estado meramente por uma questão de oportunidade de voto”, disse Adriano Silva (Novo), em entrevista ao podcast regional ‘Cabeça de Político’.

Ministro defendeu investigações com “transparência e lisura”
Deu na CNN
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), defendeu nesta segunda-feira (19) que a Polícia Federal investigue “doa a quem doer” o caso da fraude financeira do Banco Master. À CNN, ele declarou que as apurações da PF indicam que a corporação não está “aparelhada”.
“Nosso posicionamento é muito simples e direto: que seja investigado doa a quem doer. Ponto. Que haja investigação”, disse o ministro. O ministro foi questionado sobre possíveis repercussões negativas para siglas da esquerda e integrantes do governo. Segundo Boulos, no entanto, as fraudes do Master têm “vinculo direto e orgânico com o bolsonarimo” e governadores de direita.
LIQUIDAÇÃO – Em novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, após investigações da Polícia Federal envolvendo emissões de títulos e suspeitas na gestão da instituição. A operação policial investiga fraude de aproximadamente R$ 12 bilhões.
O caso está em análise no STF (Supremo Tribunal Federal) e tem o ministro Dias Toffoli como relator. O magistrado impôs sigilo à investigação, que mira em especial o empresário Daniel Vorcaro, dono do Master.
Nesta segunda-feira, o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) iniciou o pagamento do reembolso de clientes do Master. Ao todo, o fundo já recebeu mais de 360 mil pedidos de ressarcimento de garantias dos credores que compraram CDBs (Certificados de Crédito Bancário) do banco.

Paulo Peres, no estúdio de gravação
Carlos Newton
O advogado, jornalista, analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), compositor e poeta carioca Paulo Roberto Peres inspirou-se na natureza para escrever o poema “Nuvens, Ateliê do Vento”.
NUVENS, ATELIÊ DO VENTO
Paulo Peres
A caneta do vento escreveu
Poemas de Nuvens
O cinzel do vento esculpiu
Mulheres de Nuvens
O pincel do vento pintou
Jardins de Nuvens
A caneta, o cinzel e o pincel
São veios infindos do vento
Qual estro nos astros vagueiam
Raios de sonhos tangentes
Nuvens no céu,
Ateliê do vento,
No colo da mãe natureza

Charge do Kleber (Correio Braziliense)
Duarte Bertolini
A direita brasileira pós-ditadura, envergonhada, acostumou-se ao papel de coadjuvante no cenário nacional, utilizando-se e sendo utilizada pela sua capilaridade (considerável número de prefeitos e vereadores bem avaliados) como suporte para engrossar fileiras de coligações governamentais, de forma siamesa.
Esta musculatura foi utilizada como moeda de troca para cargos de primeiro e principalmente segundos e demais escalões, menos vistosos e pavonescos, porém muito mais eficientes para a política partidária, sempre ávida de favores, verbas e outros que tais.
CONTRADIÇÃO – Neste cenário, impressiona-me verificar, há décadas, uma aparente contradição. Pelo menos aqui no Sul, normalmente a direita elege bons prefeitos, vinculados a sua comunidade e reconhecidos pelo bom trabalho. Igualmente vereadores e políticos de nível estadual têm forte identificação com suas comunidades e são por elas reconhecidos.
Entretanto parece que em nível nacional, ocorre uma verdadeira lavagem. Deputados e senadores, aparentemente, são tragados por uma máquina de moer propósitos e boas intenções.
São comandados e manipulados por políticos matreiros, velhas e felpudas raposas, que desde tempos imemoriais dominam, com novas roupagens, o cenário nacional e os destinos do Brasil.
UM NOVO LÍDER – Com o surgimento de Bolsonaro, imaginou-se uma quebra destes consolidados paradigmas. Político obscuro, com discurso forte , sem medo de enfrentar o PT e seus temas espinhosos, parecia o nosso rei Ricardo Coração de Leão que nos levaria à redenção em tempos melhores.
Infelizmente, a melhor qualidade de Bolsonaro e seu entorno era o marketing rasteiro, as lives no estilo de Goebbels, o discurso vazio e bravateiro, que infelizmente conquistou boa parte da população e a manteve cativa a seus devaneios.
Obvio que ajudou nesta adesão ao fenômeno Bolsonaro a visceral necessidade de romper com a dominação de décadas da esquerda, com as manipulações e intromissões na vida do cidadão, cada vez mais profundas, feitas pelo PT e seus aliados.
CEGUEIRA COLETIVA – Mas o fato é que a necessidade apregoada de um forte envolvimento para fazer frente à mare vermelha gerou uma cegueira quase coletiva, que se manifestou nas ruas, em acampamentos permanentes diante dos quarteis, com celulares atraindo extraterrestres, orações a pneus, marchas sobre Brasília etc. etc. etc.
Nesta esteira, muitos políticos que já vinham combatendo os desvarios petistas, muito anteriores a Bolzonaro, ficaram na chamada escolha de Sofia — ou aderiam à corrente ou seriam chamados de “isentões”
Com isso, muitas figuras naufragaram na insensatez. Tenho exemplo doméstico: Marcel Van Haten, que conhecemos desde adolescente (era colega de minha filha) destacou-se pela combatividade, inteligência, bom discurso e polemista afiado, mas nos últimos tempos resvalou para um feroz cão de guarda do mito chorão Bolsonaro.
FUTURO BRILHANTE – Não sei como continua visto por seus eleitorado, mas meu voto ficou comprometido. Deputado mais votado do RS, combativo e lúcido, teria um brilhante futuro pela frente. Agora, mesmo que se eleja senador, ficará com uma cruz marcada na testa, carimbado como bolsonarista radical.
Abriu mão de ser um conservador evoluído para ser um defensor de golpistas, pilantras e outros iguais. Assim, creio que o bolsonarismo e o lulismo/petismo, infelizmente, ainda estão fortes e atuantes e será muito difícil nos livrarmos deles.
Quem tenta se manter equidistante é acusado (pelos mais próximos e não somente pela internet) de ser “isentão”, caso não combata o petismo cerrando fileiras ao deus chorão, ou de “fascista”, se não endeusar os feitos e glórias da esquerda e do sindicalista condenado.
PERSEGUIÇÃO – Esse preconceito está acontecendo contra mim e creio que tanbém contra a grande maioria dos não-fanáticos ou fanatizados.
São tempos difíceis e o horizonte se mostra escuro e tenebroso. Não consigo entender como brasileiros lúcidos não percebem a imensa possibilidade de uma política de centro-direita e ou de centro, para, talvez, cimentar uma caminho um pouco menos sombrio para este pais.
Insistir em venerar Bolsonaro, fraco, chorão, esquivo dos temas mais fortes, interessado somente na criação de uma fidalguia familiar, ou endeusar um Lula, pavão deslumbrado, profundamente comprometido com a corrupção e assalto ao povo, com a manutenção permanente de escravos do poder central, essa polarização é claramente uma renúncia a qualquer futuro razoável.
Justiça Federal de São Paulo declinou competência
Malu Gaspar
O Globo
A Justiça Federal de São Paulo decidiu remeter na última sexta-feira (16) ao Supremo Tribunal Federal (STF) o inquérito que apura se o empresário Nelson Tanure cometeu insider trading em operações da incorporadora Gafisa. A juíza federal Maria Isabel do Prado atendeu a um pedido da defesa do empresário, que alegou conexão entre seu processo e o do Banco Master, no qual ele também é investigado.
A decisão está sob sigilo. Na fundamentação, além de mencionar o pedido dos advogados do empresário, a magistrada afirma que a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra Tanure em dezembro passado no âmbito das operações da Gafisa também cita diversas conexões diretas e indiretas com o inquérito que apura as fraudes na compra do Master pelo BRB.
SÓCIO OCULTO – Como mostrou O Globo, a Polícia Federal e o MPF apontam o empresário como o sócio oculto do banco de Daniel Vorcaro no contexto das investigações da instituição liquidada pelo Banco Central. Publicamente, Tanure vem negando ter relação com o Master, do qual diz ter sido apenas cliente nos últimos anos (leia íntegra da nota ao final da matéria). Mas passou a admitir ligação entre os dois casos desde que o possível elo foi citado pelo próprio Ministério Público Federal na denúncia por insider trading.
A juíza Maria Isabel do Prado pediu urgência no envio do caso ao STF pelo risco “iminente” de prescrição nas investigações – como Tanure tem mais de 70 anos, o prazo prescricional cai pela metade e o inquérito poderia ser extinto no mês que vem.
A representação da Procuradoria que baseou a segunda fase da Operação Compliance Zero na semana passada, quando Tanure foi alvo da PF, afirma que ele exercia influência sobre o Master “por meio de fundos e estruturas societárias complexas”.
DENÚNCIA – Em dezembro passado, Tanure foi denunciado por insider trading pelo Ministério Público Federal ao lado do empresário Gilberto Benevides, dono da incorporadora Upcon, que foi adquirida pela Gafisa em uma das operações investigadas pela Justiça. No processo, a Procuradoria da República sustentou que a dupla teria operado para inflar o valor de mercado da Upcon com o objetivo de reunir mais ações com poder de voto na Gafisa após a compra da outra empresa, que se deu através do repasse de ações e não com recursos do caixa da construtora.
Ainda segundo o MPF, Tanure teria feito uso de offshores e fundos de investimento para ocultar a proporção real de sua participação na Gafisa enquanto dissimulava a origem do dinheiro das operações realizadas para incrementar artificialmente o valor da Upcon. Com isso, na prática, o empresário ampliou seu controle sobre a empresa e ainda emplacou Benevides no conselho de administração da companhia.
A investigação teve origem em um processo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que ainda não foi concluído e foi aberto após uma denúncia protocolada pelo gestor da Esh Capital, Vladimir Joelsas Timerman.
MODUS OPERANDI – Na decisão da sexta passada, ao justificar a transferência do caso para o Supremo, a juíza federal de São Paulo que declinou a competência do caso da Gafisa para o STF destacou que a denúncia do Ministério Público Federal contra o empresário relata operações financeiras similares às investigadas no contexto do banco de Vorcaro.
“Além dos aspectos subjetivos atinentes à vinculação de Nelson Tanure com o Banco Master e as demais instituições financeiras e fundos de investimentos supracitados, a narrativa constante na denúncia descreve modus operandi semelhante ao investigado na Operação Compliance Zero, consistente na emissão de títulos fraudulentos, visando à obtenção de vantagem indevida”, escreveu Maria Isabel do Prado.
Em outro trecho da decisão, a magistrada argumenta que os indícios de ligação entre os inquéritos são suficientes para a mudança de competência, ainda que a Justiça Federal de São Paulo não tenha acesso ao conteúdo das investigações do caso Master.
CONEXÃO – “Embora este Juízo não detenha acesso à Operação Compliance Zero, que tramita sob sigilo, os elementos constantes nos presentes autos, aliados à denúncia e à manifestação da defesa do acusado Nelson Tanure, evidenciam indícios de conexão intersubjetiva e/ou probatória suficiente a recomendar a reunião das investigações, em observância aos princípios da eficiência, da economia processual e da racionalização da persecução penal”, pontuou a juíza.
Com a decisão, a investigação sobre a Gafisa também ficará sob a tutela de Dias Toffoli, que impôs sigilo absoluto sobre o caso Master e tem colecionado decisões controversas na condução do inquérito. Como antecipou a coluna Capital do O Globo, o pedido dos advogados de Tanure para que o inquérito da Gafisa fosse enviado para o STF por uma alegada conexão com o Master foi formalizado em dezembro passado.
A medida atende aos interesses da defesa de Nelson Tanure, que vinha tentando remeter o processo ao STF e impor sigilo às apurações judiciais sobre seu cliente. O principal argumento é o de que os investigadores do caso da Gafisa também miraram as gestoras Trustee e Planner, que fazem parte do complexo fluxograma financeiro do Master e são alvos da Compliance Zero. Procurada, a defesa de Tanure afirmou que o processo da Gafisa corre sob sigilo e, por esse motivo, não poderia comentar os desdobramentos do caso.
ÍNTEGRA DA NOTA DO ADVOGADO DE NELSON TANURE, PABLO NAVES TESTONI, SOBRE O SUPOSTO ELO ENTRE O EMPRESÁRIO E O MASTER APONTADO PELA PF E PELO MPF :
O empresário Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure jamais estabeleceu qualquer relação de natureza societária com o Banco Master S/A, do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que foi e segue sendo atendido por outras instituições financeiras conhecidas no mercado.
O empresário também esclarece que jamais promoveu qualquer operação de investimento em outros veículos que pudessem converter a dívida em participação, ainda que indiretamente, no mesmo Banco Master S/A.
Nesse sentido, e diante do fato de que nenhuma operação financeira do empresário, na qualidade de cliente do banco, poderia corroborar a equivocada premissa apresentada pelo Ministério Público Federal na ocasião do pedido deferido pelo STF, o empresário informa que apresentará todos os esclarecimentos necessários, com respaldo documental e a certeza de que o tema será revisado, com a consequente revogação da decisão.
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Flávio tenta consolidar-se como o polo natural da direita
Pedro do Coutto
Ao iniciar sua movimentação eleitoral com uma viagem ao exterior, o senador Flávio Bolsonaro sinalizou que sua estratégia passa, desde cedo, por dois tabuleiros distintos — e igualmente difíceis. De um lado, busca projetar-se fora do país, tentando atrair simpatias, construir pontes políticas e reforçar um discurso de legitimidade internacional. De outro, enfrenta a tarefa bem mais complexa de organizar, dentro de casa, um campo da direita ainda fragmentado e carente de um nome consensual capaz de enfrentar o presidente Lula da Silva em outubro.
O movimento externo não é fortuito. Em disputas presidenciais recentes, a imagem internacional tornou-se um ativo político relevante, especialmente para candidatos identificados com campos ideológicos que sofreram desgaste fora do país. Ao se apresentar no exterior, Flávio tenta ocupar um espaço simbólico: o de liderança nacional capaz de dialogar além das fronteiras, algo que seu grupo político historicamente teve dificuldade de construir. Trata-se menos de conquistar votos diretamente e mais de enviar sinais ao eleitorado interno, ao mercado e às elites políticas de que ele pode ser visto como um candidato viável.
CONCENTRAÇÃO – No plano doméstico, porém, o cenário é mais árido. As forças de esquerda, após anos de dispersão e conflitos internos, encontram-se hoje fortemente concentradas em torno de Lula. O presidente, além de liderar as pesquisas, dispõe da chamada “chave do poder”: a máquina federal, a visibilidade institucional e a capacidade de pautar o debate público. Em eleições presidenciais, essa vantagem costuma pesar — e muito.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta consolidar-se como o polo natural da direita. O cálculo passa pela leitura do tabuleiro estadual. Governadores frequentemente citados como alternativas — Tarcísio de Freitas, Ratinho Junior, Romeu Zema e Eduardo Leite — não conseguiram, até agora, demonstrar fôlego eleitoral suficiente para ultrapassá-lo nas simulações de disputa nacional.
FATORES QUE PESAM – Além disso, fatores institucionais pesam: Zema e Leite não podem mais disputar a reeleição em seus estados, o que abre espaço para projetos nacionais, mas não garante, por si só, musculatura eleitoral. Ronaldo Caiado, por outro lado, ainda tem um mandato estadual a defender, o que reduz sua disponibilidade política para uma aventura presidencial imediata.
Nesse contexto, Tarcísio de Freitas surge como uma peça central — ainda que paradoxal. Governador de São Paulo, com forte capital político e bom trânsito entre eleitores conservadores e setores do centro, ele seria, em tese, o nome mais competitivo da direita.
Mas sua decisão de disputar a reeleição no estado esvazia essa possibilidade. Ainda assim, sua candidatura paulista cumpre um papel estratégico para Flávio: ajuda a manter mobilizada a base bolsonarista, reforça o discurso de força regional da direita e cria uma aliança tácita que pode ser explorada até o limite permitido pelo calendário eleitoral.
VOTOS – O problema central permanece: votos. As pesquisas do instituto Quaest mostram uma distância relevante entre Lula e Flávio Bolsonaro, distância que não se supera apenas com articulação política ou viagens simbólicas. Exige ampliação de eleitorado, diálogo com setores fora do núcleo ideológico e a construção de uma narrativa que vá além da herança familiar e da identidade oposicionista.
Flávio tenta, assim, reunir correntes diversas sob um mesmo guarda-chuva, apostando na ausência de um rival claro dentro da direita e na fadiga natural de um governo em exercício. Mas a tarefa está longe de ser simples. Unificar um campo político plural, marcado por lideranças regionais fortes e ambições próprias, exige mais do que coordenação: exige concessões, clareza programática e, sobretudo, tempo — um recurso cada vez mais escasso à medida que outubro se aproxima.
A campanha, portanto, começa sob o signo da resistência. Para Flávio Bolsonaro, o desafio não é apenas enfrentar Lula, mas provar que consegue transformar um espólio político poderoso em maioria eleitoral real. É nesse intervalo entre intenção e viabilidade que se decidirá o seu futuro político — e, talvez, o rumo da direita brasileira nas próximas eleições.

Governador é ativo eleitoral a ser valorizado
Dora Kramer
Alguma coisa não está batendo bem nesse descarte de Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato à Presidência. O movimento parte dos filhos de Jair Bolsonaro (PL), não tem o apoio de Michelle e é encampado pelo presidente do PP, mas dos outros partidos de oposição não se ouviu até agora um pio a respeito.
Ou bem os adversários do presidente Luiz Inácio da Silva já entregaram os pontos, dando a reeleição como certa, ou há lances mais espertos a serem jogados que por ora nos fogem à percepção. Uma terceira hipótese, bastante plausível, é a de estarmos diante de mais uma grossa trapalhada bem ao gosto dos herdeiros do ex-presidente. O cenário atual não os favorece.
CENÁRIO – De um lado, o governador do estado mais importante e maior colégio eleitoral do país, apontado nas pesquisas como dono de potencial para derrotar Lula. De outro, Bolsonaro preso e, ao que se diz, debilitado; Flávio (PL), o pretendente a presidente mais rejeitado; Eduardo, cassado e abandonado por Trump em seu autoexílio nos Estados Unidos.
Por mais que Tarcísio de Freitas tenha sido criatura da lavra de “seu Jair”, isso já faz quatro anos. Muita água rolou por debaixo da ponte do bolsonarismo, sendo toda ela turvada pela lama do negacionismo na pandemia e pelos crimes da trama golpista.
A reeleição de Lula não é fava contada. Seus oponentes aparecem todos na pesquisa do instituto Quaest com índices acima de 30% nas simulações de segundo turno, o que projeta um ambiente de todos contra o petista na batalha final.
NÃO CONVENCE – Mesmo bem colocado, Flávio tem problemas. A rejeição sempre pode ser revertida, mas a persona moderada do filho não convence o centro e contraria o extremismo mau comportado que fez o sucesso do pai.
Francamente, não dá para entender que vantagem a direita levaria ao abraçar uma candidatura duvidosa à Presidência, perder uma vaga certa no Senado pelo Rio de Janeiro e ainda empurrar Tarcísio, seu maior ativo eleitoral, para fora da área de influência do clã.

Cassação de Eduardo embaralha jogo do Senado em SP
Luísa Marzullo
O Globo
A cassação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e sua permanência nos Estados Unidos abriram um vácuo no tabuleiro eleitoral para o Senado de São Paulo e motivaram uma disputa interna no PL. O embate hoje é visto como um teste de força entre diferentes núcleos do bolsonarismo — inclusive dentro da própria família.
Sem Eduardo, que liderava a disputa eleitoral em algumas pesquisas, ao menos seis políticos passaram a se apresentar como alternativa para ocupar seu espaço. Enquanto isso, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) trabalha para emplacar sua própria chapa no estado, com o ex-secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite (PP) como um dos candidatos ao Senado, em um cenário ainda indefinido de composição com outro nome do PL — este ano serão eleitos para a Casa dois representantes por estado.
CASSAÇÃO – Cassado por faltas pela Câmara, Eduardo não está inelegível, mas um retorno ao Brasil este ano é improvável, segundo aliados. Isso porque ele é réu em processo que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentar coagir o Judiciário ao articular sanções a autoridades brasileiras — com chance alta de condenação.
Nesse contexto, as divisões na família começaram. Eduardo tenta emplacar seu amigo, o deputado estadual Gil Diniz. No início de dezembro, Diniz esteve nos Estados Unidos e teria ouvido de Eduardo um pedido direto: que ele concorresse ao Senado para manter influência do seu grupo no estado. Aliados dos dois descrevem uma relação de confiança construída ao longo dos últimos 12 anos, com interlocução frequente.
EM BUSCA DE ESPAÇO – Já a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também tenta ocupar espaço na costura, reforçando o capital político de aliadas do PL Mulher. O nome da deputada federal Rosana Valle foi incluído em pesquisas internas a pedido de Michelle, mas aliados de Rosana dizem que ela resiste e trabalha para a reeleição, considerada menos arriscada.
“Qualquer definição sobre 2026 passa pelo partido, pelas composições e pelo momento adequado. Meu foco segue sendo a reeleição como deputada federal e o mandato que exerço atualmente. Tenho respeito e admiração por Michelle. Falamos muito sobre política, mas não houve um posicionamento sobre uma possível candidatura minha ao Senado”, disse Rosana ao O Globo.
Em um primeiro momento, o PL de São Paulo chegou a quase fechar questão de que o candidato seria Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente. No entanto, Renato tem dito que prefere disputar a Câmara e não arriscar uma eleição majoritária, com alta taxa de exposição e risco de derrota.
CHAPA PRÓPRIA – Em conversas reservadas, dirigentes do PL relatam o desejo do entorno de Tarcísio de impor sua própria chapa, com Derrite e outro nome fora do PL. No meio da costura, Jair Bolsonaro segue como fiel da balança, mas sem sinalizar preferência, o que mantém a fila de interessados em suspensão e alimenta a guerra silenciosa.
O deputado Marco Feliciano é apontado como o mais insistente: quer a vaga e tenta se manter no jogo, mas sofre resistências internas por ser considerado pouco viável e “barulhento demais” para uma disputa majoritária em São Paulo. “Estou aguardando ainda a direção do presidente Bolsonaro. Com o aval dele, estou à disposição”, disse Feliciano.
ALTERNATIVA – O vice-prefeito paulistano coronel Mello Araújo, por sua vez, aparece como alternativa competitiva e com apelo ao eleitorado de segurança pública, mas reúne forte resistência política na base do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Nos bastidores, vereadores e integrantes da gestão reclamam que, desde que assumiu a vice, Mello adotou postura de fiscalizar contratos e a destinação de emendas parlamentares indicadas por vereadores, o que criou atritos com aliados. “Não temos ainda definição. Feliciano, Mello Araújo, Renato Bolsonaro são possibilidades. Bolsonaro não deu opinião ainda”, afirmou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.
RACHA – A indefinição impacta ainda o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro, que evita se envolver diretamente na disputa, mas depende de São Paulo para catapultá-lo na arena nacional. Aliados do senador dizem que ele precisa de um palanque robusto no estado e defendem que a família deve abraçar a chapa desenhada por Tarcísio, ainda que sem nomes do PL, como a dobradinha Derrite e Ricardo Salles (Novo).
Na avaliação desse grupo, o objetivo seria garantir um palanque competitivo e evitar que a direita se fragmente no maior colégio eleitoral do país. “A esquerda tem nomes fortes e competitivos. Então nós, da direita, temos que jogar junto para pegar as duas vagas. Se abrir demais, tem chance da direita pegar uma das vagas”, afirmou Salles.
FRUSTRAÇÃO – A irritação da família Bolsonaro com Salles, entretanto, é antiga: ele deixou o PL após se frustrar com a negativa do partido a seu projeto de disputar a Prefeitura de São Paulo em 2024, episódio que, na leitura bolsonarista, evidenciou falta de disciplina.
O ex-presidente até mantém simpatia pelo ex-ministro, mas interlocutores reconhecem que apoiá-lo significaria, agora, avalizar um “dissidente” em detrimento de nomes do próprio PL. No partido, líderes dizem que a decisão precisa sair até o Carnaval para evitar que o vácuo seja ocupado por candidaturas fora do controle da sigla.

Charge do Baggi (Jornal de Brasília)
Carlos Newton
Hoje, excepcionalmente, vamos mudar de assunto e falar sobre as pesquisas eleitorais. O fato é que esses levantamentos sensacionalistas não têm nem podem ter confiabilidade, mas sempre é possível aproveitar alguns resultados para fazer projeções que estejam dentro da lógica – ou seja, que aparentem estar próximas à realidade.
Como ainda estamos longe das eleições, por enquanto as pesquisas são tremendamente manipuladas, de acordo com o cliente, feitas sob medida para atender a esta ou aquela intenção.
FORÇANDO A BARRA – Como diria Silvio Santos, é tudo por dinheiro; os chamados institutos precisam pagar as contas e sobreviver, digamos assim. Mas há quem acredite piamente neles, e cada um interpreta os resultados de acordo com o próprio interesse.
Nesta fase, chamam atenção as sucessivas pesquisas indicando que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) está em crescimento e o senador já teria se tornado o único pretendente com chances de enfrentar Lula.
Essa possibilidade vem sendo exaltada, porque é justamente o cenário que interessa ao presidente Lula da Silva e ao PT. Eles estão convictos de que, se a disputa for contra Flávio, os petistas já podem comemorar antecipadamente a vitória.
OUTRAS PESQUISAS – Em meio a esse fantasioso festival, sempre aparecem outras pesquisas indicando exatamente o contrário.
Foi justamente o que acontece com a pesquisa feita pelo Instituto Ideia para o portal Meio, divulgada na semana passada. Para petistas de raiz, com baixa qualificação e poucos neurônios, os resultados parecem a consagração de Lula, que já estaria mais do que reeleito. O atual presidente lidera com folga todos os cenários de primeiro turno para a eleição presidencial de 2026.
Na pergunta espontânea —em que os entrevistados respondem em quem votariam, sem indicação dos candidatos, Lula aparece com 32% das intenções de voto; o ex-presidente Jair Bolsonaro tem 9,5%, seguido por Flávio (6,6%), Tarcísio (6,1%) e Michelle (3,6%). Os demais ficam abaixo de 2%.
PETISTA DISPARA – Nos outros cinco cenários estimulados de primeiro turno, Lula permanece na frente dos rivais. Contra Tarcísio de Freitas, o petista marca 40,2%, ante 32,7%. Diante de Flávio (PL), 39,6% a 27,6%.. Na disputa contra Michelle , o petista sobe para 40,1% contra 29,7%.
Sobre a definição do voto para presidente, 64,5% dos entrevistados dizem estar decididos, enquanto 35,5% afirmam o contrário.
A pesquisa ouviu 2.000 pessoas entre os dias 8 e 12 de janeiro de 2026, por meio de entrevistas telefônicas. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.
SEGUNDO TURNO – A grande surpresa da pesquisa Ideia/Meio refere-se ao segundo turno, em que há empate técnico entre Lula e Tarcísio, dentro da margem de erro: o presidente tem 44,4%, enquanto o governador de São Paulo soma 42,1%.
Nos demais cenários de segundo turno testados, Lula aparece à frente dos adversários. Ele marca 46% contra 37% de Ratinho Jr. (PSD), 46,3% contra 36,5% de Ronaldo Caiado (União Brasil), 46% contra 39% de Michelle (PL), 46,3% contra 36,1% de Romeu Zema (Novo) e 46,2% contra 36% de Flávio (PL).
Como Tarcísio de Freitas sequer é candidato, suas chances tornam-se muito altas, porque sua rejeição é baixíssima, apenas 16,2%. Quanto a Lula, 40,8% dizem que não votariam nele em nenhuma hipótese, Enquanto Flávio é rejeitado por 30% e Michelle, por 26,1).
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P.S. 1 – Há outras pesquisas que dão Flávio Bolsonaro disparado na segunda posição, mas não se deve dar atenção, por ser o “rival preferido” pelo PT. Com Flávio, a vitória de Lula estaria garantida. Assim, os resultados da pesquisa Ideia seriam mais confiáveis, e indicam que Tarcísio de Freitas pode disparar, caso aceite a candidatura e consiga chegar realmente ao segundo turno. O mano a mano de Tarcísio contra Lula seria apoteótico.
P.S. 2 – Sobre a questao do Supremo, continuamos na esperança de que os advogados do ex-presidente Bolsonaro permaneçam imobilizados pelos truques jurídicos do ministro Alexandre de Moraes e só apresentem recursos após 0 dia 31, quando ele deixa a presidência interina do Supremo e a ação contra Bolsonaro passa a ser julgada na Segunda Turma. (C.N.)

Charge de Dave Granlund (Arquivo Google)
Henry Foy e Mercedes Ruehl
Financial Times
Os membros da União Europeia estão considerando impor tarifas no valor de 93 bilhões de euros aos EUA (cerca de R$ 580 bilhões) ou restringir empresas americanas do mercado do bloco em resposta às ameaças de Donald Trump aos aliados da Otan que se opõem à sua campanha para assumir o controle da Groenlândia. A medida marca a crise mais grave nas relações transatlânticas em décadas.
As medidas de retaliação estão sendo elaboradas para dar aos líderes europeus poder de negociação em reuniões cruciais com o presidente dos EUA no Fórum Econômico Mundial em Davos esta semana, disseram autoridades envolvidas nos preparativos.
OTAN EM RISCO – Eles estão buscando encontrar um compromisso que evite uma ruptura profunda na aliança militar ocidental, o que representaria uma ameaça existencial à segurança da Europa.
A lista de tarifas foi preparada no ano passado, mas suspensa até 6 de fevereiro para evitar uma guerra comercial total. Sua reativação foi discutida no domingo pelos 27 embaixadores da União Europeia, juntamente com o chamado instrumento anti-coerção (ACI), que pode limitar o acesso de empresas americanas ao mercado interno, enquanto o bloco decide como responder à ameaça do presidente dos EUA com tarifas punitivas.
Trump, que exigiu permissão da Dinamarca para assumir o controle da Groenlândia, prometeu no sábado à noite impor tarifas de 10% até 1º de fevereiro sobre mercadorias do Reino Unido, Noruega e seis países da UE que enviaram tropas para a ilha ártica para um exercício militar esta semana.
MÉTODOS MAFIOSOS – “Existem instrumentos claros de retaliação à disposição se isso continuar… [Trump] está usando métodos puramente mafiosos”, disse um diplomata europeu informado sobre a discussão. “Ao mesmo tempo, queremos pedir publicamente calma e dar a ele uma oportunidade de recuar.”
A França pediu que o bloco retalie com o ACI, que nunca foi usado desde sua adoção em 2023. A ferramenta inclui restrições de investimento e pode estrangular exportações de serviços como os fornecidos por grandes empresas de tecnologia dos EUA na UE.
Paris e Berlim estão coordenando uma resposta conjunta, com seus respectivos ministros das finanças se preparando para viajar a Bruxelas e participar de um encontro com seus colegas europeus, disse um assessor do ministério francês. “A questão também terá que ser abordada com todos os parceiros do G7 sob a presidência da França”, acrescentou o informante.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Donald Trump dá sinais evidentes de descontrole mental. Temos um lunático pilotando o planeta Terra e ninguém tem coragem de colocá-lo numa camisa de força e enchê-lo de sedativos, até ele ficar calminho. (C.N.)

Charge do Kácio (Metrópoles)
Mateus Coutinho e Bruno Luiz
Do UOL
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, recorreu de decisão do ministro do STF Dias Toffoli, que em dezembro mandou devolver R$ 26,5 milhões ao ex-gerente da Petrobras Roberto Gonçalves, condenado à prisão no âmbito da Operação Lava Jato.
Gonet pediu que decisão sobre devolução do valor seja suspensa por Toffoli. Caso o ressarcimento às contas de Gonçalves já tenha acontecido, o PGR solicitou que o dinheiro seja enviado novamente à Justiça.
Mas a transferência da quantia que estava em conta judicial já foi feita em dezembro. A repatriação para o Brasil dos valores, que envolviam pagamentos de empreiteiras, havia ocorrido em 2020, após cooperação internacional junto a autoridades suíças.
PROVAS ABUNDANTES – No recurso enviado a Toffoli, Gonet afirma que há acervo de provas “robusto” e “coeso” contra o ex-gerente. Entre as provas não anuladas pelo ministro, o procurador-geral cita comunicações das autoridades suíças ao Brasil de que ele mantinha mais de US$ 4 milhões no país europeu, com “nexo direto com desvios de recursos sofridos pela Petrobras.”
Diz ainda que há depoimentos de delações premiadas mostrando que Gonçalves negociou propina em contratos da petroleira.
Diante dos indícios, Gonet defende que o dinheiro não poderia ser devolvido. “Verifica-se, assim, a suficiência do acervo processual para justificar o ajuizamento de ação de ressarcimento por improbidade administrativa e, principalmente, para obstar toda pretensão de restituição em favor do agente público corrompido. A acintosa quantia decorrente dos fatos narrados é fruto de desvios do patrimônio público, sendo a recomposição do erário medida de rigor republicano.”
O desvio sistemático de recursos públicos compromete a implementação de políticas públicas, corrói a confiança institucional, fragiliza a legitimidade dos agentes estatais e destrói a ética que deve reger as relações na sociedade. A repressão à corrupção se projeta como instrumento de defesa da própria ordem democrática, autorizando a atuação concomitante e independente de diversas frentes — penal, civil, administrativa e de improbidade — todas orientadas pela primazia da recomposição integral do dano, tal como se pretende na espécie.
TOFFOLI ANULA TUDO – Em setembro, Toffoli determinou a nulidade de todos os atos no processo do ex-gerente. O ministro atendeu pedido da defesa, que solicitou, para Gonçalves, a extensão de uma decisão do próprio Toffoli anulando provas da Lava Jato contra o advogado Rodrigo Tacla Duran.
Segundo a Folha de S. Paulo, Toffoli argumentou que o caso do ex-gerente tem situação igual à de uma outra ação que já tinha sido anulada anteriormente.
Na época, a condenação de Gonçalves havia transitado em julgado, e ele já havia começado a cumprir a pena. O processo tinha passado por todas as instâncias da Justiça — em 2024, o STF resolveu manter a sentença de 17 anos e nove meses de prisão, com voto favorável de Toffoli.
PETROBRAS REAGE – Com anulação da sentença, a Petrobras pediu que o dinheiro fosse mantido bloqueado para garantir eventual reparação em ação de improbidade. Em decisão de dezembro, Toffoli entendeu que não havia elementos de prova mínimos que justificassem abertura de ação de improbidade e a manutenção do bloqueio dos valores.
Toffoli tem anulado uma série de atos da Lava Jato. As decisões são baseadas em dois argumentos principais: a alegação de conluio do então juiz Sergio Moro com os procuradores, escândalo batizado de “Vaza Jato”, e também o uso nas denúncias de elementos do acordo de colaboração da empreiteira Odebrecht que foram considerados inválidos pela corte.
Segundo a sentença do caso, expedida em 2017 por Sergio Moro, Gonçalves recebeu propina da Odebrecht e da construtora UTC. Na época dos pagamentos, ele era gerente-executivo da área de engenharia e serviços da Petrobras, entre 2011 e 2012.
PRESO DUAS VEZES – Gonçalves foi preso duas vezes na Lava Jato. A primeira, de forma temporária, em 2015. Depois, na 39ª fase da Lava Jato em 2017, desta vez, preventivamente, quando ficou na cadeia por três anos.
Em junho passado, a sentença transitou em julgado. Com isso, o juiz federal Guilherme Borges, responsável atualmente pala operação no Paraná, determinou a prisão para cumprimento da pena definitiva. Aceitou pedido, no entanto, para que o réu ficasse em detenção domiciliar, com tornozeleira eletrônica, devido a problemas de saúde da esposa.
Com a nova decisão do Supremo, em outubro, a Vara de Execuções Penais do Rio de Janeiro deliberou a soltura.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Até quando o Supremo continuará a suportar um ministro como Toffoli? Ora, vamos ser francos. Ele não tem notório saber nem reputação ilibada, simplesmente aplica um golpe atrás do outro, não respeita a Suprema Corte, a Procuradoria-Geral nem a Constituição. Tenho vergonha de ser compatriota de um tipo dessa qualidade. (C.N.)

Moraes e Toffoli têm um comportamento nada republicano
Lygia Maria
Folha
Conexões entre familiares de Toffoli e Moraes com o caso do Banco Master não podem ser tratadas como mera coincidência. Se esses vínculos, além dos abusos de poder, são aceitáveis, então o STF acha que está acima da lei e da própria República
O ministro Dias Toffoli impediu a perícia em celulares pela Polícia Federal imediatamente após a apreensão, durante investigação do escândalo do Banco Master. Os aparelhos deveriam ficar no STF; depois, enviou à Procuradora-Geral da República e escolheu quatro peritos da Polícia Federal para realizar o procedimento.
Um dos aparelhos é de um cunhado do dono do Master, que está ligado a fundos com participação societária num resort no Paraná que pertencia, em parte, a irmãos de Toffoli até 2025.
SEM FORO ESPECIAL – Ademais, o processo só está no STF porque Toffoli mandou o princípio do juiz natural às favas e trouxe para a Corte um caso sem réus com foro privilegiado. Não contente, colocou sigilo elevado no processo. Tudo isso logo após viajar ao Peru acompanhado por um advogado de um dirigente do Master. Calma, piora.
Lembram do resort? A participação dos irmãos de Toffoli foi comprada por um advogado que atua para a JBS. A empresa faz parte da holding J&F, cuja multa no valor de R$ 10 bilhões prevista em acordo de leniência foi suspensa em 2023 por quem? Sim, Toffoli.
E tem mais. Na época, a esposa do magistrado, que é advogada, prestava serviços jurídicos para a J&F em outros casos.
SUPERCONTRATO – Agora, o escritório de advocacia da mulher de outro ministro, Alexandre de Moraes, tem um contrato de R$ 129,6 milhões com o Banco Master para realizar serviços que não se sabe quais são.
O mesmo Moraes que, após as notícias sobre o resort, abriu inquérito de ofício para apurar supostos vazamentos de dados de ministros pela Receita Federal.
A mesma arbitrariedade, cujo intuito é blindar membros do STF, usada por Toffoli em 2019 na instauração do inquérito das fake news —que vigora sob sigilo até hoje e tem Moraes como relator.
FESTIVAL DE ABSURDOS – Como os outros ministros do Supremo acham que a sociedade deve encarar esse festival de absurdos? Todas essas conexões são mera coincidência? Os fins justificam os abusos de poder?
Se assim for, a Corte constitucional não quer cidadãos, mas cordeiros. Acha que está acima da lei e até da própria República. Não à toa, assim funciona o Judiciário em regimes autoritários.

Ilustração reproduzida do Arquivo Google
Vicente Limongi Netto
Na edição do Correio Braziliense de 6/8/23, com o título “Que as mulheres sejam honradas”, Ana Dubeux escrevia forte, repudiando patifes e covardes que se aproveitam de mulheres vulneráveis. Dubeux agora volta ao tema, no CB de 18/01, clamando “Salvemos todas as mulheres”, ao salientar que a “escalada da violência contra as mulheres e dos feminicídios é uma certeza, medida em número e casos”.
A seu ver, nenhuma mulher merece ser ultrajada, ridicularizada, humilhada. Dubeux prossegue: “Nosso convite é olhar para essa realidade em filtros. Entendê-la e trabalhar para mudá-la”.
Ana destaca, nessa linha, que no próximo dia 27 o jornal promoverá mais uma edição do “CB.Debate”, com o tema “Pela proteção das mulheres: um compromisso de todos”.
OTIMISMO– O presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), José Roberto Tadros, saudou a aprovação do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a Opinião Europeia.
“Este acordo histórico marca o início de uma nova era para o setor produtivo brasileiro”, frisou Tadros.

Irmão e pai de Vorcaro foram alvos da PF
Juliana Arreguy
Folha
A irmã e o pai do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acumulam R$ 8.037.024,02 em dívidas com a União, oriundas de seis empresas da teia de negócios da família.
Natália Vorcaro Zettel e Henrique Moura Vorcaro foram alvos da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero, na quarta-feira (14), contra suspeitos de envolvimento nas fraudes por meio de fundos de investimento do Master. O marido de Natália, Fabiano Zettel, foi preso na manhã daquele dia quando se preparava para deixar o país, de jatinho, sendo solto horas depois.
DÍVIDA – Pai e filha constam como devedores em 13 inscrições na dívida ativa da União. Sete delas são em conjunto, uma está no nome de Natália e outras cinco, no nome de Henrique. As dívidas se referem a contribuições sociais como PIS e Cofins e impostos como IRPJ (que incide sobre o lucro das empresas).
Do total devido, R$ 5,8 milhões se referem a débitos da Mercatto Corporações Imobiliárias, que tem no quadro societário Henrique e a Multipar, uma holding que tem o pai de Vorcaro como presidente e a irmã como diretora. A Multipar é a principal companhia da família Vorcaro, onde o próprio Daniel teve uma passagem no início de sua carreira.
O banqueiro também trabalhou em três das seis empresas listadas na dívida ativa: além da Mercatto, a Pacific Realty, de aluguel de imóveis, e a PQS Empreendimentos Educacionais, de livros didáticos. Todas elas são sediadas no mesmo local, na Vila da Serra, bairro de alto padrão de Nova Lima quase na divisa com Belo Horizonte.
SOCIEDADE – O endereço também abriga Eukaryota Participações, sociedade anônima que tem, novamente, Henrique como presidente e Natália como diretora. Na dívida ativa, apenas Natália consta como devedora pela Eukaryota, em um débito de R$ 7 mil. Henrique, sozinho, responde pelas dívidas da PQS, da Mercato Consultoria Imobiliária e do Tropical Clube de Minas Gerais. O clube é o único que tem apenas Henrique como sócio, sem envolver outros parentes ou holdings ligados à família Vorcaro.
Todos os 13 débitos apresentam exigibilidade suspensa, o que permite aos devedores atuarem como se eles estivessem quites com a União, sem empecilhos para realizar empréstimos e contratos, por exemplo. O vencimento de cada uma das dívidas será ainda este mês.
Segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, que gerencia o banco de devedores, caso as dívidas não sejam quitadas, a cobrança pode ser feita por vias judiciais e incluir penhoras de bens.
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Haddad afirmou que quer tempo para discutir o país
Marcos Hermanson
Folha
O ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) afirmou nesta segunda-feira (19), em entrevista ao UOL News, que uma decisão sobre eventual candidatura sua em 2026 só sairá após conversas com o presidente Lula (PT).
“Comecei uma conversa com o presidente”, relatou, respondendo se teria sido intimado pelo petista a se candidatar ao governo paulista. “Tenho ouvido o presidente. Levei minhas colocações à consideração dele. É uma conversa de amigos, que pode se estender, mas não concluímos nada nessa primeira conversa. Vamos chegar em algum consenso logo mais.”
DISCUSSÃO – Haddad disse que tem falado de questões pessoais com o presidente, ressaltou que vai completar uma década como ministro, e afirmou que quer tempo para discutir o país. “[Quero] discutir o que vai ser do Brasil nesse contexto internacional, quais as formas de nós nos inserirmos nesse quadro tão dramático e desafiador.”
Questionado sobre o que seria um descolamento entre a percepção da opinião pública e o estado real da economia, Haddad afirmou que o tema tem perdido importância nas preocupações do brasileiro. Ele citou pesquisa do Datafolha que aponta o tópico como prioridade para 11% do eleitorado.
“Eu não acredito que a economia vai derrotar o governo. Pode ser que não eleja o governo. Economia no mundo inteiro está sendo um elemento importante, mas não necessariamente decisivo para ganhar eleição”, disse.
ATRITOS – O ministro também comentou os atritos acumulados dentro do PT e com a Faria Lima, que acusa o governo de exagerar nos gastos públicos. “Se a esquerda dogmática e a direita dogmática estão criticando a mesma pessoa no contexto histórico, quem sabe não era a linha fina pela qual eu podia passar garantindo bem-estar da população ao mesmo tempo em que eu arrumava as contas.”
Adiantando o que devem ser bandeiras da campanha de Lula no pleito de outubro, ele citou a política de valorização do salário mínimo, a recuperação do programa Farmácia Popular e a isenção do imposto de renda para trabalhadores com salário de até R$ 5.000, aprovada no Congresso em 2025.
O titular da Fazenda também respondeu sobre possível interferência das big techs nas eleições de 2026, afirmando ter preocupação com o tema. “Estamos na mão de um oligopólio de comunicação mundial que tem, visivelmente, viés do ponto de vista ideológico.”

Proposta seria uma forma de o Senado “retaliar” o STF
Malu Gaspar
O Globo
Após a polêmica decisão do ministro Gilmar Mendes, que dificultou o avanço de pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), aliados de Jair Bolsonaro passaram a discutir no bastidores do Senado Federal a elaboração de uma PEC para dar o troco na Corte. O objetivo é aumentar o número mínimo de votos exigidos para aprovar os indicados para assumir uma vaga no STF – dos atuais 41 para 54, o equivalente a ⅔ da Casa.
O assunto foi discutido em um almoço no mês passado em Brasília, segundo relataram ao blog quatro parlamentares ouvidos em caráter reservado, mas com o recesso parlamentar ainda não houve avanços nas tratativas. De acordo com eles, a ofensiva não está diretamente relacionada às dificuldades do governo Lula em garantir a aprovação para o STF do advogado-geral da União, Jorge Messias, que enfrenta resistência entre alguns parlamentares da oposição que o veem como “quadro ideológico do PT” e “homem de confiança do Lula e da Dilma”.
RETALIAÇÃO – A proposta seria mais uma forma de o Senado “retaliar” o Supremo, após o ministro Gilmar Mendes dar uma decisão, há um mês, em que esvaziava o poder de parlamentares e de cidadãos comuns de pedirem a cassação de magistrados, deixando essa prerrogativa apenas nas mãos da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Após forte pressão da opinião pública e do Congresso, Gilmar voltou atrás nesse ponto, mas manteve um outro trecho da decisão em que determinava que são exigidos 54 votos para abrir um pedido de impeachment contra ministros do STF, e não mais maioria simples.
“Se for aumentar [o número de votos exigidos] para [abrir] impeachment [contra ministro do STF], tem que aumentar para aprovação da indicação. Essa é a lógica, mas não está relacionada ao Messias”, disse ao blog um dos senadores envolvidos nas discussões. “Se é 54 votos pra tirar [cassar um ministro do STF], é 54 votos para entrar [no STF] também”, concorda outro parlamentar.
VACINA – A decisão de Gilmar foi interpretada nos bastidores da Corte como uma espécie de vacina para as eleições de outubro deste ano, quando aliados de Bolsonaro planejam formar maioria no Senado e desengavetar os mais de 80 pedidos de impeachment contra ministros do STF que aguardam análise do plenário.
Segundo Gilmar, “a intimidação do Poder Judiciário por meio do impeachment abusivo cria um ambiente de insegurança jurídica, buscando o enfraquecimento desse poder, o que, ao final, pode abalar a sua capacidade de atuação”.
REJEIÇÃO – Dos atuais 10 ministros que atuam no STF, dois poderiam ter tido a indicação ameaçada se essas regras já estivessem em vigor: André Mendonça e Flávio Dino, indicados respectivamente por Jair Bolsonaro e Lula. Os dois atraíram rejeição de parte do Senado e foram aprovados com 47 votos, apenas seis a mais que o mínimo atualmente exigido.
Para um senador da oposição, conhecido pelo perfil moderado, a medida pode se voltar contra a direita e dificultar eventuais indicações ao STF desse campo, caso Lula seja derrotado nas próximas eleições. “Eu particularmente prefiro deixar tudo do jeito que está”, afirmou.
DOIS TURNOS – A tramitação de uma PEC exige aprovação em dois turnos nas duas Casas (Câmara dos Deputados e Senado), com apoio de ⅗ dos membros de cada uma, ou seja, o endosso de 308 deputados federais e de 49 senadores.
O histórico do Senado mostra que não é tão fácil assim derrubar uma indicação ao STF. Na história da República, apenas o presidente Floriano Peixoto teve indicações rejeitadas pelo Senado — cinco ao todo, todas em 1894, entre elas a do médico Barata Ribeiro, que batiza rua no bairro de Copacabana, no Rio.
Paulo Peres
Poemas & Canções
O advogado e poeta baiano Pedro Militão Kilkerry (1885-1917), no soneto “Ritmo Eterno”, faz uma rebuscada apologia à natureza.
RITMO ETERNO
Pedro Kilkerry
Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha… Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.
Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo…
Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar…
Alvor, turquesa, ondula a matéria… É veludo,
É minh’alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!