
Charge do Alpino (Yahoo Notícias)
Luiz Felipe Pondé
Folha
O Brasil é um cemitério de filósofos. Caçadores de túmulos buscam localizar suas tumbas, mas, apesar de identificarmos o odor azedo da morte deles por todos os lados e apesar de essas mortes serem encenadas todos os dias das mais variadas formas, até hoje os caçadores de túmulos não tiveram qualquer sucesso.
Talvez seja da natureza do Brasil tornar impossível qualquer atividade que siga um método e uma prática racionais. O sucesso no Brasil é reservado aos bandidos, aos canalhas e aos répteis.
ANO PERDIDO – Um dos grandes filósofos assassinados no Brasil é Montesquieu. Conhecido pela defesa da separação entre os Três Poderes, Montesquieu se desespera lá do além vendo a patifaria que a República brasileira é desde o golpe de 1889, que destituiu a razoável monarquia nacional. Uma monarquia constitucional poderia, talvez, diminuir o grau de ridículo que passamos a cada eleição desde então. O ano de 2026 já está perdido: ninguém fará nada.
O Supremo acaba de declarar solenemente, com toda pompa e circunstância, que na grande capitania hereditária do Brasil há “racismo estrutural” e que medidas devem ser tomadas.
NO TETO DO STF – A famosa frase de Luís 14, “O Estado sou eu”, deveria ser escrita no teto da sala de reuniões magistrais do Supremo.
Engolindo, com um sorriso na face, os outros dois Poderes, o extinto Poder Executivo e o guloso e corrupto Poder Legislativo, o STF projeta sua sublime sombra sobre a Acrópole, declarando-se herdeiro absoluto da democracia ateniense com todos os Poderes.
O que significa o “reconhecimento legal” de que há racismo estrutural no Brasil e de que medidas devem ser tomadas imediatamente? Na prática, isso significa o aprofundamento do mercado de contencioso no Brasil e o contínuo deslize do país em direção a uma república refém de juízes, promotores e advogados, em uma catástrofe histórica.
DESMORALIZAÇÃO – Montesquieu não só foi morto, como acabou desmoralizado no país. Não só não há separação entre os Poderes no Brasil, como os próprios Poderes só servem para destruir os brasileiros, ainda que gritem bravatas do tipo “está declarado oficialmente que há racismo estrutural no Brasil”.
Imagino que em breve o STF declarará solenemente que “há vida inteligente fora da Terra e que medidas sejam tomadas para que o eterno Lula mande naves espaciais até esses locais a fim de extraditar possíveis bolsonaristas e golpistas que lá estejam”.
Outro filósofo assassinado todo dia no Brasil é o pobre e obsessivo Immanuel Kant. Definitivamente, não há maioridade no Brasil.
MORAL RACIONAL – Segundo Kant, a maioridade seria o estado em que uma pessoa introjetaria a lei moral racional universal, superando a necessidade de contenção externa —ou seja, já com a lei no coração, sem necessidade da espada no pescoço.
Tal pessoa passaria a ter a virtude moderna por excelência, a autonomia moral. No Brasil, a última vez que Kant foi visto, ele corria, desesperadamente, recebendo pauladas de todos os lados.
Aqui, até o STF espanca Kant. Mas o que vem a ser “introjetar a lei moral racional universal”? E qual seria essa lei?
LICENÇA POÉTICA – O termo “introjetar” aqui é, seguramente, uma licença poética anacrônica. Significa “colocar para dentro”, “assimilar”.
Neste sentido, “introjetar a lei moral” significa assimilá-la “como uma segunda natureza”, termo comum em filosofia moral desde Aristóteles. Agirás de acordo com a lei moral de modo natural, assim como tu respiras.
Por sua vez, a lei moral racional universal kantiana é o seguinte: cada vez que você for fazer algo, se pergunte antes “todo mundo poderia fazer a mesma coisa?”. Se a resposta for não, você não estaria sendo ético. Se ninguém catar o cocô do cachorro na rua, o bairro será um lixo, se todo mundo estacionar o carro no shopping ocupando duas vagas, o espaço terá apenas metade das vagas.
É UMA PIADA – Logo, ser ético é catar o cocô do cachorrinho na rua. Ser ético é ocupar apenas uma vaga no estacionamento no shopping. Essa forma de pensamento ético se chama “imperativo categórico”. Só é ético aquilo que vale para todos. No Brasil, isso é uma piada.
Esses são exemplos singelos. Imagine se passássemos a exemplos institucionais maiores e mais dramáticos? Talvez, o STF declarasse que, oficialmente, há um déficit de prática moral baseada no imperativo categórico no país e que medidas urgentes deveriam ser tomadas a fim de resolver esse déficit. Pergunta: começariam eles mesmos, membros da corte, a praticar esse tipo de autocontenção? Duvido.
Enfim, desejar feliz Ano Novo no Brasil é uma piada de mau gosto. Aqui, nunca há Ano Novo.
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Paulo Peres
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Paulo Peres


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