Está chegando a hora de colocar ministros do Supremo na cadeia?

Charge do Kleber Sales (Correio Braziliense)

Malu Gaspar
O Globo

Quando Dias Toffoli chamou para si o caso do Banco Master e decretou sigilo absoluto, muita gente em Brasília dormiu aliviada. Acreditou-se que a decisão era suficiente para conter as revelações que poderiam emergir do inquérito que estava na primeira instância.

De fato, ela fez parar tudo, das oitivas à abertura de novos inquéritos, assim como as perícias no material apreendido pela Polícia Federal no dia da prisão do dono do Master, Daniel Vorcaro, e dos outros alvos da Operação Compliance Zero.

RETROCESSO – A investigação que começou com a venda fraudulenta de créditos de R$ 12,2 bilhões do Master ao estatal BRB ameaçava se espraiar por outros ramos dos negócios de Vorcaro e seus parceiros da política, mas a decisão de Toffoli parecia ter levado os potenciais envolvidos a porto seguro.

Logo se viu que a blindagem tinha furos. Só que os primeiros atingidos não foram os suspeitos habituais do Congresso, e sim os próprios ministros do Supremo. A revelação de que o próprio Toffoli viajou para o Peru com o advogado de um dos investigados no jato de um empresário amigo para assistir à final da Libertadores, horas antes de decretar o “sigilo master” sobre o processo, jogou por terra a pretensão de controlá-lo.

Dias depois, soubemos que Moraes também tinha muito a perder com o escrutínio sobre o Master. Já era público que o escritório de sua mulher e de seus filhos, o Barci de Moraes Associados, tinha um contrato com o banco. O que não se conhecia era o valor: R$ 3,6 milhões ao mês por três anos, ou R$ 129,6 milhões ao todo.

DEFESA TOTAL – O objeto da contratação é amplo. Prevê desde a defesa do banco e de seus controladores na Justiça até o “acompanhamento de projetos de lei de interesse” do Master no Senado e na Câmara Federal. Que projetos são esses e que tipo de acompanhamento? Isso ainda é mistério, já que nem Moraes nem sua mulher, Viviane, se manifestaram até agora.

Mas não precisa ter carteira da OAB para saber que a remuneração está muito acima dos parâmetros de mercado, mesmo o das grandes estrelas da advocacia.

Os defensores de Toffoli, Moraes e Viviane dizem que não há regra que impeça ministros de viajar em jatos e que não é ilegal seus parentes prestarem serviços a clientes privados — é verdade, assim como também é fato que o próprio Supremo liberou seus magistrados para julgar processos de escritórios de seus parentes.

SEM PERDÃO – Se houvesse algum argumento aceitável, porém, já teria aparecido algum acólito de plantão para defendê-lo em público.

Antes, até havia quem dissesse que o sigilo de Toffoli era necessário para impedir vazamentos ou que o caso do Master poderia se transformar em Lava-Jato 2.0 e levar ao surgimento de novos outsiders como o ex-mito, na linha do “se investigar o Master, o fascismo volta”. Agora, até esse pessoal anda calado.

No Supremo, o constrangimento pelo que já se sabe só não é maior que o pavor do que ainda pode vir à tona. Quem conhece bem as entranhas do Master, reconhece que o abalo pode ser gigante.

APOIO DE GONET – A nova esperança de Toffoli, Moraes e companhia é que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, mantenha o processo com o Supremo, endosse o sigilo e ajude a dificultar o andamento da investigação.

Não é uma expectativa descabida, dado que Moraes foi um dos principais padrinhos da indicação de Gonet ao cargo. Com Gilmar, ambos formam uma trinca azeitada. Mesmo que o caso venha a ser abafado pela PGR, porém, o estrago já está feito.

Os requintes de promiscuidade com o Master são o coroamento de uma degradação que vem de longe — e resulta da simbiose entre a onipotência alienada dos ministros e a conivência de amplos setores da sociedade.

GELÉIA MORAL – O temor de Moraes e seu modus operandi faz com que muita gente prefira não dizer em público o que fala todo dia em Brasília, na Faria Lima, ou na Central do Brasil: “O STF, fundamental para assegurar a estabilidade democrática e proteger a Constituição, desmoralizou a si próprio ao se afundar na geleia moral dos centrões da vida”.

A escolha que os ministros têm diante de si, agora, não é entre matar ou não o inquérito do Master, e sim entre aceitar que não são intocáveis e devem satisfação ao público ou se preparar para um futuro descrito de forma bastante crua nesta semana pelo senador Alessandro Vieira na CPI do Crime Organizado: “Este é um país que já teve presidente preso, já teve ministro preso, senador preso, deputado preso, prefeito, vereador, mas ainda não teve ministros de tribunais superiores. E me parece que esse momento se avizinha”.

Pode parecer exagero, mas talvez seja melhor não pagar para ver.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Este é um artigo histórico, que mostra a importância da imprensa e a coragem de Malu Gaspar, que brilhou na cobertura da Lava Jato e agora se confirma como uma das maiores jornalistas brasileiras. Em Brasília, a imprensa costuma se curvar diante do poder. Mas ainda há quem saiba colocar essa gentalha no seu devido lugar. (C.N.)

11 thoughts on “Está chegando a hora de colocar ministros do Supremo na cadeia?

  1. SUPREMO SE DESMORALIZA COM DECISÃO DE TOFFOLI SOBRE O MASTER

    Revelações sobre ministros afundam Supremo na crise do Master

    Fonte: O Globo, Opinião, 11/12/2025 04h00 Por Malu Gaspar

  2. No mínimo, o ministro Dias Toffoli deveria se considerar impedido para relatar o caso Banco Master.
    Não o fazendo, deixou o STF a descoberto, sujeito a críticas e trovoadas.
    As críticas seguem avassaladoras na sociedade e principalmente no trade jurídico.

    Inacreditável. Se torna imprescindível a quebra do sigilo, para que a sociedade saiba de todas as tramas desta lambança do Banco Master e todos que se beneficiaram dessa fraude bancária com dinheiro público.
    E também, liberar a investigação, que foi interrompida pelo engavetados geral do Supremo.

  3. Dona Magalu está correndo sérios riscos de ter o PIX do dia 30 bloqueado……

    Mas….

    Será que ainda tem alguém que quer fazer estátua para o Sinistrão da Careca de Ouro..??

  4. O ministro Tófolli viajando nos jatinhos do PCC; a famíglia do Xandão do PCC contratada a peso de ouro pelo Banco Master: o Brasil foi sequestrado por um bando de ladrões e narcotraficantes, enquanto o idiota de nascimento e o jacuzinho grasnam “vamos construir estátuas para os ladrões”.

  5. “A fala do senador Alessandro Vieira acendeu alertas em Brasília ao afirmar que o Brasil está “perto de ver ministros dos tribunais superiores presos”.
    A declaração, feita durante a CPI do Crime Organizado, expõe um problema que a classe política e parte da imprensa tentam esconder: o avanço da infiltração de facções e interesses criminosos no coração das instituições que deveriam defender a lei. Segundo Vieira, há magistrados que viajam, se hospedam e participam de eventos pagos pelo crime organizado — e depois voltam para Brasília para julgar casos sensíveis.

    A repercussão foi imediata. Mesmo o ministro da Justiça de Lula, Ricardo Lewandowski, admitiu que a legislação já é suficiente — basta aplicá-la. Mas essa é justamente a contradição brasileira: a lei existe, porém não vale para todos. Quando o assunto é governo Lula, quando são aliados do sistema, quando interessa ao establishment, a Constituição vira mera sugestão. Mas contra Bolsonaro, contra a direita, contra jornalistas e advogados que defendem o 8 de janeiro, a lei é interpretada de forma expansiva, criativa e muitas vezes autoritária.

    Entre denúncias, contradições e silêncios, uma coisa fica clara: o Brasil vive uma escalada de poder concentrado no STF, um Congresso acuado e um Executivo que prefere ignorar a contaminação institucional desde que sirva ao seu projeto de poder. A CPI do Crime Organizado pode ser o ponto de virada — ou mais um capítulo do grande teatro político brasileiro, que pune seletivamente e protege seus aliados de sempre.”

    (Gazeta do Povo, 11/12/2025)

    Curtinhas

    PS.: BOMBA – “mais sujo que pau de galinheiro”. Prof. Maierovitch resume a trajetória de Dias Toffoli .

    PS. 02: CPI DO CRIME ORGANIZADO
    Relator da CPI PREVÊ PRISÃO de ministros de tribunais: “me parece que esse momento se avizinha”

    PS. 03: O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), impôs um severo regime de sigilo ao caso envolvendo o presidente do Banco Master.
    Sem justificativa clara, ministro do STF decreta sigilo em caso sobre suspeitas graves de fraude bancária.
    (Folha de São Paulo)

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