Na Páscoa, lembre que o Jesus histórico e o Cristo da fé não são a mesma pessoa

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

O Jesus histórico e o Cristo da fé (o Jesus Deus) não são a mesma pessoa. O Jesus histórico foi “apenas” um “entusiasta apocalíptico, um curandeiro e um mestre carismático”, que morreu na cruz como inimigo de Roma, segundo o historiador Geza Vermes.

Como parte dessa figura histórica, será também essencial conhecer o contexto religioso no qual se deu o nascimento desse movimento apocalíptico conhecido como o judeu-cristianismo, em Israel do século I.

OS MANUSCRITOS – Como uma dessas fontes contextuais, o historiador David Flusser descreverá de forma primorosa como muitas das ideias cristãs foram influenciadas pela seita conhecida como os “qumranitas” — criadores dos famosos manuscritos do mar Morto, encontrados nas cavernas de Qumran, em Israel, na segunda metade do século 2.

Os “qumranitas” já existiam antes do nascimento de Jesus e dele foram contemporâneos, assim como dos primeiros anos da igreja de Jerusalém.

Entre outras, ideias dos “qumranitas”, como os filhos da luz versus os filhos das trevas, serão essenciais para a concepção de predestinação da graça no cristianismo, assim como a afirmação forte de que o fim do mundo se aproximava, como acreditava Jesus, e que se manterá como marco escatológico da expectativa cristã do retorno de Cristo.

CONSTRUÇÃO SOCIAL – O Cristo da fé — pedra fundamental do cristianismo como religião histórica — será uma construção social levada a cabo por personagens como Paulo de Tarso, João, o evangelista, e Lucas, o médico evangelista, que provavelmente escreveu os Atos dos Apóstolos, texto que narra os dias de Jesus na Terra após sua ressurreição e os primeiros anos da nascente igreja cristã, principalmente com personagens como Paulo e Pedro.

E, finalmente, será também fundamental o Concílio de Niceia em 325 d.C., com suas discussões acerca da substância divina e humana de Cristo.

As cartas de Paulo estabelecerão que Jesus é o Cristo (o messias) que venceu a morte, o salvador universal da humanidade, e não unicamente um messias judeu para os judeus.

CARÁTER DIVINO – Outra fonte que construirá o Cristo da fé será o famoso prólogo do evangelho de João que, ao afirmar que “no princípio era verbo [logos], e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus” e mais adiante “e o verbo se fez carne e habitou entre nós”, fundou a cristologia como a ciência que estuda o caráter divino, pré-existente de Jesus, o Cristo.

Esse caráter pré-existente de Jesus implica que o Cristo da fé já existia como espírito antes da geração milagrosa do seu corpo no ventre de Maria. Portanto, ele é incriado. Nele, nada há de “matéria de criatura”, como afirmará acerca de si mesma, após a união plena com Deus, a mística herege Marguerite Porete, queimada em Paris em 1º de junho de 1310.

Em 325 d.C., o Concílio de Niceia afirmará, definitivamente, esse Cristo da fé como sendo aquele que tem a mesma substância do Pai, o Deus de Israel. Jesus será Deus, a partir de então, e o cristianismo se tornará uma religião teologicamente unificada. O imperador Constantino foi quem convocou esse concílio dos bispos e dele participou.

AS BASES DE CRISTO – Portanto, ao longo desse processo, serão construídas as bases do personagem de Cristo, não apenas do personagem do judeu Jesus, o profeta apocalíptico que, por si, não sustentaria a religião cristã.

Nesse sentido, reflete Joseph Ratzinger, o papa Bento 16, no seu “Jesus de Nazaré” que, sem o Cristo da fé, o cristianismo teria permanecido como mera heresia judaica, condenada a desaparecer por conta da morte de seu profeta Jesus e do parco reconhecimento que ele teve entre seus conterrâneos judeus, como o esperado messias. Noutras palavras, o cristianismo não teria vingado.

Ratzinger não pretende com isso negar a importância do estudo histórico e crítico dos textos que servirão como fonte do cristianismo. Muito pelo contrário, a religião cristã, assim como sua “ancestral”, o judaísmo, são religiões para as quais a sustentação histórica é pedra fundamental para sua existência enquanto religião.

Isto é, crer na historicidade das narrativas do Velho Testamento (ou Bíblia hebraica) e do Novo Testamento é essencial para a afirmação teológica de que o Deus único não só escolheu seu povo eleito e se envolveu na história deles, os judeus, como encarnou num deles, o Jesus de Nazaré.

Esta semana é a Semana Santa, na qual os cristãos celebram a paixão e a ressurreição de Cristo. Nesta mesma semana acontece a Pessach, a Páscoa judaica, em que os judeus celebram a fuga da escravidão no Egito.

Jesus, o judeu, celebrava este mesmo Pessach na noite que mais tarde ficou conhecida como a Santa Ceia. Boa Páscoa a todos.

7 thoughts on “Na Páscoa, lembre que o Jesus histórico e o Cristo da fé não são a mesma pessoa

    • Adolpho Bloch era de origem judaica, nascido na Ucrânia, e um judeu praticante e sionista que manteve forte ligação com sua fé e cultura.

      Ele foi um destacado membro da comunidade judaica no Brasil, atuando como um dos grandes mantenedores do Grande Templo Israelita no Rio de Janeiro.

      Adolpho Bloch (1908–1995) foi um magnata da mídia brasileira, fundador e dono do Grupo Bloch.

      Suas principais empresas incluíam a Bloch Editores (responsável pela revista Manchete, Fatos & Fotos, Pais & Filhos, entre outras) e a Rede Manchete de Televisão (fundada em 1983).

      Ele também possuía rádios e uma editora de livros.

  1. “Esta semana é a Semana Santa, na qual os cristãos celebram a paixão e a ressurreição de Cristo.

    Nesta mesma semana acontece a Pessach, a Páscoa judaica, em que os judeus celebram a fuga da escravidão no Egito.

    Jesus, o judeu, celebrava este mesmo Pessach na noite que mais tarde ficou conhecida como a Santa Ceia.

    Boa Páscoa a todos.”

  2. Que houve um pregador pelo nome de Jesus Cristo na época de César Augustus e de Heródoto parece inegável a julgar pelo que diziam os apóstolos. Mas os exageros a respeito dos poderes de Jesus de transformar água em vinho e reviver um morto são façanhas impossíveis. Também mentirosas são as afirmações de que um anjo avisou José sobre a intenção de Herodes de matar crianças para evitar a vinda do Messias (não há menção disso em Roma!). Isso nunca foi mencionado por Flávio Josefo em seu livro (principal fonte histórica não-bíblica sobre a Judeia da época de Cristo).
    Bom, de que adianta malhar em ferro frio : a crença não exige racionalidade.

  3. Loas, à um “amor diferenciado” e ao “Principe da Paz!”

    “Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.
    Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra;
    os inimigos do homem serão os da sua própria família’.
    “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim:”
    Mateus 10:34-37.

    ” Todos tem uma mesma ideia Dar à Besta o seu reino:
    J=10=2
    E= 5=1
    S=19=2
    U=21=2
    S=19=2
    =====
    74×9=666
    Exemplo: A letra J é a 10(decima) letra do alfabeto e o numero 10 é composto por 2 algarismos e assim por diante, quanto ao nome Jesus, cuja letra J inexiste no alfabeto hebraico, sendo portanto um “enriquecedor” Bezerro de Ouro, de todas as denominaçoes religiosas.
    A soma dos valores alfabeticos das letras(74), multiplicadas pela soma dos algarismos(9) dessas mesmas letras, resultam em 666.

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