Fernanda e Adélia Prado na montagem de “Dona Doida”
Paulo Peres
Poemas & Canções
A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “A Serenata”, pressente a chegada do desespero. Este poema ficou famoso e serviu e inspiração a Fernanda Montenegro para montar o monólogo teatral “Dona Doida”, que fez enorme sucesso e consolidou a amizade entre ela e Adélia Prado.
A SERENATA
Adélia Prado
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Queria ver-te nua, inteiramente nua
Não por erotismo, embora assim pareça
Mas para que em teu corpo não exista
Um só milímetro que eu não conheça
Queria tua pele macia tocar
E no meu corpo o teu aquecer
Queria ter-te sôfrega a exsudar
O suor quente do lascivo prazer
Queria ser louco por ti, te amar
Ser parte do teu próprio ser
Queria, enfim, de todo me dar
E ver de ti parte de mim renascer
Grande Sapão…
aquele abraço