Lula agora enfrenta o desafio de ajustar contas públicas, sem reclamar dos juros

Charge: Batendo na taxa de juros - Blog do AFTM

Charge do Cazo (Arquivo Google)

Fernando Canzian
Folha

Confrontando a autonomia do Banco Central desde que assumiu a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu o que queria: o início do processo de queda da Selic, reduzida em 0,5 ponto percentual nesta quarta-feira (2), para 13,25% ao ano.

Mas caberá ao seu governo prover as condições para que a queda nas próximas reuniões do Copom seja sustentada, sem que o descontrole atual das contas públicas siga colocando em risco a estabilização dos preços e da economia como um todo.

DENTRO DA META – Em desaceleração há vários meses, o IPCA registrou queda de 0,08% em junho, na primeira deflação de 2023, acumulando 3,16% em 12 meses. O indicador está dentro da meta para a inflação deste ano —de 3,25%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Mas ainda há desafios não desprezíveis à frente: o acumulado em 12 meses para a inflação de serviços (setor que representa dois terços do PIB) foi de 6,21%, o dobro do IPCA.

Entre maio e junho, o núcleo de serviços acelerou de 0,32% para 0,53%, excluindo da conta passagens aéreas. Itens de peso como alimentação fora do domicílio também seguem pressionados.

NÚCLEO DA INFLAÇÃO – Segundo o último relatório do BC, o núcleo da inflação — que exclui preços que tiveram grande volatilidade em determinado período— segue acima de 6%, além do teto da banda de tolerância para o IPCA deste ano (4,75%).

Há, no entanto, alguns motivos para esperar um comportamento mais benigno para a inflação, com queda, ou pelo menos acomodação, nos preços de várias commodities — o que justifica a queda no juro real (acima da variação dos preços).

No caso do petróleo, no entanto, a Petrobras está operando com defasagem. Ou seja, os preços estão artificialmente contidos, o que mascara a desaceleração da inflação como um todo.

ALTA DEFASAGEM – No final de julho, a defasagem no preço médio da gasolina vendida nas refinarias da estatal em comparação com os preços internacionais chegou a 24%. Já o óleo diesel estava 21% abaixo, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis.

Há sinais também de que a economia pode perder tração neste segundo semestre. Por um lado, isso ajuda a conter a inflação. Por outro, pode implodir as perspectivas otimistas do Ministério da Fazenda em relação à redução do déficit fiscal e azedar as expectativas dos agentes econômicos

Dólar voltando ao patamar de R$ 4,80 e o índice Bovespa patinando ao redor de 120 mil pontos seriam sintomas dessa preocupação.

MAIOR RECEITA??? – Todo o ajuste fiscal previsto pela Fazenda baseia-se não em controle de gastos, mas na premissa de que o governo conseguirá um aumento brutal na arrecadação para diminuir o déficit neste ano e no próximo, recolhendo cerca de R$ 130 bilhões a mais. Nada disso está garantido.

Para 2023, ninguém acredita mais em um déficit de 1% do PIB. Para 2024, a meta depende do aumento de impostos ou de forte aceleração da economia. Se as perspectivas fiscais deteriorarem, não serão as reclamações de Lula que levarão à estabilização duradoura da economia.

Sobre o comportamento de Roberto Campos Neto nesse processo, registre-se que a alta dos juros começou no governo de Jair Bolsonaro (PL). Nos 12 meses até a eleição que o ex-presidente perdeu, a Selic praticamente dobrou, segurando a economia e reduzindo suas chances de vencer.

Omissão do GSI faz governo ser acusado de “armação” para que Planalto fosse invadido

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

No seu depoimento à CPMI dos Atos Golpistas, o ex-diretor adjunto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Saulo Cunha, complicou a situação do general Gonçalves Dias, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), quanto à omissão da segurança do Palácio do Planalto em 8 de janeiro. Cunha era o diretor em exercício da agência quando os palácios dos Três Poderes foram invadidos e vandalizados.

Ele declarou que avisou ao então ministro do GSI, general Gonçalves Dias, sobre os riscos de ocorrer a invasão. O ex-diretor da Abin disse que fez o alerta pessoalmente uma hora antes dos atos se concretizarem.

DISSE CUNHA – “Um pouco antes de a marcha começar o deslocamento, nós já tivemos informações de que havia, entre os manifestantes, efetivamente, um chamamento, inclusive estavam fazendo isso no carro de som, há relatórios aí, há fotos, para chamamentos para invasões de prédios, certo? Por volta das 13h, 13h e alguma coisa”, relatou.

O depoente foi contactado por um colega responsável pela segurança de um dos órgãos dos Três Poderes, muito preocupado com a situação, logo após a marcha ser iniciada. “E ele, inclusive, me pede para falar com o general G.Dias, e eu passo o contato do general. E ligo para o general G.Dias por volta das 13h30”, completou.

Cunha revelou que avisou ao então ministro do GSI sobre os riscos de ocorrer a invasão uma hora antes de os atos se concretizarem, mas o general pediu que remetesse diretamente aos seus auxiliares e não fizesse novos contatos com ele.

EXÉRCITO CONFIRMA – Essa informação coincide com o relatório do Exército, que responsabiliza o GSI pela falta de planejamento e pronta reação aos invasores, com o argumento de que a Guarda Presidencial não foi acionada. G. Dias acabou no fogo cruzado entre seus colegas de caserna e a Abin. Sua oposição é, no mínimo, ambígua em relação ao que estava ocorrendo.

Os dois responsáveis diretos pela defesa do palácio em 8 de janeiro eram oficiais indicados pelo general Augusto Heleno, chefe do GSI do governo Bolsonaro, mantidos por G.Dias.

O relatório do Exército responsabiliza o general Carlos Feitosa Rodrigues, ex-secretário de Segurança e Coordenação Presidencial, e o coronel Wanderli Baptista da Silva Junior, ex-chefe do Departamento de Segurança Presidencial, por não terem levado em consideração as informações da Abin e acionado as tropas do Exército.

GENERAL “BOA PRAÇA” – Como há fortes suspeitas de que havia uma conspiração golpista com participação de militares que assessoravam diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro, o depoimento de Saulo Cunha deixou Gonçalves Dias numa saia justa.

 Gozava de plena confiança do presidente Lula, de quem cuidou da segurança na Presidência nos dois primeiros mandatos. Mas sempre teve um espírito de comandante “boa praça”, como ficou demonstrado na greve da Polícia Militar baiana, em fevereiro de 2012, no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

Na ocasião, comandava a 6ª Região Militar, da qual acabou afastado por fraquejar na operação militar montada para debelar o motim da PM da Bahia. Foi afastado da chefia da operação pelo comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, que deslocou para o estado o general Odilson Sampaio Benzi, comandante militar do Nordeste.

LÁGRIMAS NOS OLHOS – O motivo foi sua confraternização com os grevistas em frente à Assembleia Legislativa baiana, ocupada pelos manifestantes, alguns deles com ordem de prisão decretada pela Justiça. Dirigindo-se a um grupo de PMs, com lágrimas nos olhos, Gonçalves Dias disse: “Não vai ter combate, não vai ter invasão, não vai ter nada”.

O general fazia aniversário e aceitara um bolo dos grevistas, em sua homenagem. O choro do general frente às câmeras de tevê foi desmoralizante e convenceu o Alto Comando do Exército de que lhe faltava liderança.

O 8 de janeiro foi outro “case” de falta de liderança. As imagens gravadas pelas câmeras de segurança do Palácio do Planalto mostram uma atuação apaziguadora e até condescendente com os invasores por parte do militar, em meia à desorientação dos responsáveis pela segurança física da Presidência.

ABSURDO TOTAL – Uma discussão entre um oficial do Exército que comandava a guarnição do palácio e um oficial da Polícia Militar, que deu voz de prisão aos invasores, é outra prova cabal de que nada funcionou direito.

À paisana, a maior preocupação de Gonçalves Dias quando chegou ao Planalto parecia ser muito mais com a integridade física dos invasores do que com a proteção do patrimônio público e a defesa da inviolabilidade de um poder constituído democraticamente pelo povo, cujo valor é altamente simbólico.

A omissão do GSI em 8 de janeiro agora é o principal argumento da oposição na CPMI, que acusa o próprio governo de uma “armação” para que o Planalto fosse invadido. O comportamento de Gonçalves Dias, segundo eles, corrobora a tese, o que não é o caso. Mas é difícil acreditar que o então chefe do GSI não soubesse o que aconteceria. Estava suficientemente informado pela Abin.

Lula quer mudar as quatro linhas e limitar ação dos militares em crises no artigo 142

Charge do JCaesar | VEJA

Charge do JCaesar | VEJA

Fabio Victor
Folha

O governo Lula (PT) prepara uma alteração da legislação sobre o emprego das Forças Armadas durante crises de segurança e ordem pública ou de instabilidade institucional. A proposta elimina o atual modelo de operações de garantia da lei e da ordem (GLO).

Embora nos últimos anos o recurso às chamadas GLOs tenha, na maioria dos casos, buscado sanar problemas de segurança pública, os ataques golpistas de 8 de janeiro e a distorção com viés político do artigo constitucional que trata das atribuições das Forças Armadas nessas operações levaram o Executivo a buscar uma resposta política. Na prática, um modo de tentar limitar o poder dos militares em crises domésticas de toda ordem.

NAS QUATRO LINHAS – Pela proposta concebida pelo ministro da Justiça, Flávio Dino, em parceria com o titular da Defesa, José Múcio, não haveria mudanças no artigo 142 da Constituição, que trata das competências das Forças Armadas, mas na Lei Complementar que o regulamenta (nº 97, de 1999).

A intenção é criar no texto a possibilidade de as Forças Armadas cooperarem eventualmente em crises de segurança e ordem pública sem que seja necessário para isso a decretação de GLOs.

A princípio, haveria mexidas nos artigos 15 (que trata do emprego das Forças Armadas na defesa da Pátria e na garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem) e 16 (sobre atribuição subsidiária das Forças Armadas) da Lei Complementar de 1999.

SEM PEC – A alteração teria de passar pelo Congresso, mas sem as exigências de tramitação de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição). Estuda-se a possibilidade de mudanças correlatas serem feitas via decreto presidencial.

Não há apoio político no Congresso para alterar o próprio artigo 142 da Constituição, como propõe uma PEC do deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP).

Para aprovar uma emenda constitucional são necessários três quintos dos votos em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado – no caso, uma quimera, num Congresso de extração conservadora, com uma Câmara presidida por Arthur Lira (PP-AL), que foi eleitor de Jair Bolsonaro.

SEM BRIGAS – Não há tampouco disposição do governo em comprar uma briga desse porte com os militares, que são frontalmente contra a alteração do artigo 142, em meio a outras prioridades do Planalto, sobretudo a agenda econômica.

As movimentações do Executivo desidratam a PEC de Zarattini, anunciada em fevereiro como resposta aos ataques de 8 de janeiro.

A PEC de Zarattini, que condensou proposta convergente do colega Alencar Santana (PT-SP), propõe retirar do texto constitucional a competência dos militares de garantir os poderes constitucionais e a lei e a ordem (artigo 142).

PODER MODERADOR – Para além do escopo amplo, que dá poder excessivo aos fardados, tais atribuições foram distorcidas nos últimos anos por bolsonaristas para sustentar que as Forças Armadas poderiam atuar como “poder moderador” em crises institucionais – uma interpretação já repelida pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso Nacional.

Pelo entendimento de Zarattini e de boa parte do PT, o artigo alterado diria apenas que as Forças Armadas “destinam-se a assegurar a independência e a soberania do país e a integridade do seu território”.

Para que a PEC comece a tramitar na Câmara, são necessárias 171 assinaturas. Zarattini ainda não as tem e retomou a tarefa de reuni-las a partir desta semana, no reinício dos trabalhos da Casa após o recesso.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Vão mexer no que está correto. É preciso que as Forças Armadas atuem em caso de desordem interna, como já aconteceu nos casos das PMs que entraram em greve a abandonaram o policiamento, irresponsavelmente. Mas quem se interessa? (C.N.)

Carla Zambelli entregou a Moraes a arma que ele precisava para destruir Bolsonaro

Zambelli sinaliza trégua a Moraes e racha com Bolsonaro

Zambelli levantou a bola para Moraes encestar Bolsonaro

Malu Gaspar
O Globo

Assim que surgiram as primeiras informações a respeito da operação da PF que teve como alvos a deputada federal Carla Zambelli e o Walter Delgatti Neto, o hacker da Vaza Jato, os advogados de Jair Bolsonaro enviaram uma ordem unida ao ex-presidente e a Valdemar Costa Neto, presidente do partido: submergir. Na avaliação dos times jurídicos que assessoram o presidente, a operação de quarta-feira é potencialmente mais perigosa do que as anteriores envolvendo Bolsonaro, por dois fatores.

O primeiro é que ninguém sabe exatamente o que Zambelli escreveu em mensagens ou disse a Delgatti Neto a respeito de Bolsonaro, do governo e da campanha eleitoral e ainda, o que ela pode ter feito que poderia levar à sua cassação. O segundo fator de risco é o próprio hacker, que está negociando com a PF uma delação premiada que teria como principal atrativo aos investigadores a possibilidade de comprometer em definitivo o ex-presidente com a trama golpista na eleição de 2022.

TAMANHO DO ESTRAGO – Enquanto não se puder avaliar o tamanho do estrago que a operação deve causar, a orientação é para que nem Valdemar nem Bolsonaro dêem nenhuma declaração e nem participem de eventos públicos. Além disso, a defesa do ex-presidente já decidiu que não vai deixá-lo depor antes que venha a público a versão definitiva de Delgatti Neto a respeito do episódio.

Bolsonaro, aliás, só vai se reunir com seus advogados na semana que vem. Nos bastidores, ele vem dizendo a aliados que não pediu nada ao hacker além de informações e que não fala com Zambelli há meses.

Já a deputada enviou recados nos últimos dias à cúpula do PL de que “não fez nada de errado” e que não teme que surja nenhuma nova prova contra ela ou contra Bolsonaro.

JÁ ERA ESPERADO – A equipe da coluna apurou que Zambelli já dava como certo há meses uma operação da Polícia Federal contra ela, desde que veio à tona o seu papel na articulação de um encontro do hacker com Bolsonaro no Palácio da Alvorada para armar um plano contra Alexandre de Moraes.

Com o fim do governo Bolsonaro e o fracasso dos atos golpistas de 8 de janeiro, aliados do ex-presidente passaram a se sentir mais vulneráveis a investigações de Moraes, o que ajuda a explicar por que os agentes da PF encontraram o gabinete de Zambelli “limpo”, sem computador de uso da parlamentar, conforme informou o blog da jornalista Andréia Sadi, no G1.

“O Daniel Silveira foi preso só por xingar e ofender o Moraes. A prisão dela é só uma questão de tempo”, afirma um interlocutor de Bolsonaro.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Vejam bem o que é a certeza da impunidade. O hacker Delgatti, ao invés de ser considerado um criminoso, era cultuado pela classe política por ter destruído a Lava Jato. A tal ponto que Carla Zambelli não teve dúvida de levá-lo ao encontro do então presidente Bolsonaro, que aceitou recebê-lo com todas as honras.

Com isso, Zambelli municiou Moraes para acabar de destruir Bolsonaro. Agora, o hacker fará delação premiada e apenas confirmará o que já se sabe que Bolsonaro e Zambelli pediram que invadisse as urnas eletrônicas. Fim de jogo. A deputada entregou tudo o que Moraes precisava. (C.N.)  

Na nuvem do Banco Central, Selic e inflação descem, mas juros reais sobem

Charge do Sinfrônio (humornanet.com)

Pedro do Coutto

O Banco Central reduziu de 13,75% para 13,25% os juros da taxa Selic que se mantinham elevados há praticamente três anos. O voto de desempate, surpreendentemente, foi de Roberto Campos Neto, que comandava a resistência a qualquer recuo da taxa. Tornou-se assim alvo do presidente Lula e do governo, pois se transformou num verdadeiro líder da oposição no universo monetário no país.

À primeira vista, a decisão foi recebida com alívio, um avanço para facilitar o acesso ao crédito tanto por parte das empresas que querem investir quanto da população que deseja consumir. Entretanto, examinando-se bem a questão, verifica-se que a influência da redução de 0,5% não alcançará efeito concreto na distensão de uma política de concentração de renda. Isso porque vamos comparar os números mais recentes entre a inflação e a Selic fixada pelo BC.

JUROS REAIS – Dentro da relatividade, constatamos que em 2021 para uma inflação de 10,6%, a Selic alcançou 13,75%. Logo, os juros reais estão em cerca de 3%. Em 2022, o IBGE estimou a inflação em 5,7%, e a Selic continuou em 13,75%. Os juros reais foram de 8% ao ano. Agora, na previsão para 2023, a inflação está calculada em 3,2%. A Selic passou para 13,25%. Portanto, os juros reais do mercado subiram e não desceram, atingindo dez pontos percentuais. Não há como negar esse resultado. Continua a ser ótimo para que o pequeno grupo de empresas e pessoas mantenham lucros elevados fomentando a política de concentração de renda.

A posição assumida por Campos Neto, elogiada por Fernando Haddad, é apenas uma cortina de fumaça para ocultar a verdadeira face da questão. Devemos observar paralelamente que o governo Lula não tocou em salários e a remuneração do trabalho humano. Pelo menos numa escala que não perca para o processo inflacionário é fator decisivo para o combate à fome, à insegurança alimentar e para o desenvolvimento social do país.

A compressão social era tão grande que se refletiu no número de 74 milhões de pessoas com dívidas vencidas a pagar. O governo teve que desencadear a operação “Desenrola” para aliviar uma situação que também inclui o risco de se eternizar, pois uma vez reabilitados no crédito, uma tendência inevitável será a de que uma parcela muito grande da população venha a contrair novas dívidas. A propaganda é intensa nesse sentido e os apelos são fortíssimos ao consumo e ao acesso aos cartões de crédito.

OFENSIVA – Os bancos mantêm a ofensiva da oferta dos cartões, não se incomodando muito com o cadastro das pessoas que possam contratá-los. O problema, assim, continua e a nuvem sobre o Bacen, a qual me refiro, assemelha-se às nuvens brancas do inverno que tornam o panorama de rara beleza em que permitem que o sol chegue suavemente nas praias, nas praças e nas ruas das cidades.  

A sensação do sol de inverno assemelha-se à da redução nominal dos juros da Selic, mas é preciso confrontar os juros da Selic com a inflação, uma vez que eles são feitos para remunerar credores e investidores dos títulos que lastreiam uma dívida interna de R$ 6 trilhões. A resolução do problema social brasileiro não avançou com a falsa diminuição dos juros cobrados. Ao contrário, representa um artifício conservador para transmitir uma sensação de falso avanço nas contas públicas.

ASPECTO POSITIVO – As reportagens foram amplamente publicadas na imprensa. Na Folha de S. Paulo, foi de Nathalia Garcia, no O Globo, de Renan Monteiro, e no Estado de S. Paulo, de Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues. Míriam Leitão em seu artigo no O Globo, focaliza bem o tema e destaca como um aspecto positivo a perspectiva de reduções seguidas de meio ponto percentual.

Cada meio ponto percentual, acentuo, equivale a uma redução de R$ 30 bilhões nas despesas do Tesouro com os juros da dívida. A projeção de juros até o final deste ano é observada também por Juliana Causin e João Sorima Neto, O Globo. A perspectiva é favorável, creio, inclusive, que seja a única possível. A força do mercado é muito grande e esse mercado, conforme já me referi, pode ser simbolizado na mão de um tigre.

ZAMBELLI – A deputada Carla Zambelli levou o hacker Walter Delgatti ao encontro do ex-presidente Jair Bolsonaro numa tentativa de fraudar as urnas das eleições de outubro e de preparar uma armadilha para o ministro Alexandre de Moraes. A Polícia Federal, diante das afirmações de Zambelli, quer ouvir novamente o ex-presidente da República.

No O Globo, a reportagem é de Paola Serra, Daniel Gullino, Eduardo Gonçalves e Daniel Saboya. Na Folha de S. Paulo, de Fábio Serapião. No Estado de S. Paulo, escreveram Pepita Ortega e Levi Teles.

ENCONTRO – Walter Delgatti, inclusive, diz ter se encontrado com Jair Bolsonaro no Palácio Alvorada, levado por Carla Zambelli. Delgatti é investigado por vazamento de dados da Lava Jato e outras atividades ilegais na internet. Não conseguiu penetrar nas urnas eletrônicas, principalmente porque elas não estão interligadas ao sistema eletrônico das redes sociais.

Estava tentando, sem conseguir, acessar dados pessoais do ministro Alexandre de Moraes. Como é possível, cabe a pergunta, o então presidente da República receber o hacker no Palácio Alvorada? Surgem novos caminhos que levam à invasão de Brasília e à tentativa de um golpe contra o presidente Lula.

Ricos emprestam a juros ao nosso governo o dinheiro que não pagaram em tributos

Juros

Charge do J. Bosco (O Liberal)

André Roncaglia
Folha

O Brasil é um dos países mais desiguais do planeta. O poder econômico se converte em poder político para blindar a riqueza hiperconcentrada. A influência dos ricos sobre a política econômica busca proteger o valor real de seu patrimônio, enquanto a interferência sobre o processo legislativo visa a isenções tributárias e ao alívio da regulação estatal.

A resistência à reforma dos tributos indiretos (sobre consumo) revela bem a força desses grupos de interesse, os quais impõem regimes especiais que isentem seus negócios da mordida do fisco.

MEXER NO VESPEIRO – Mas é na tributação direta da renda e da riqueza que a temperatura sobe. Equilíbrio fiscal com maior justiça tributária exige “colocar o rico no Imposto de Renda”. Mexer nesse vespeiro aguça os mais selvagens instintos de autoproteção da turma endinheirada.

Ao ameaçar eliminar a isenção dos fundos de investimentos exclusivos, Fernando Haddad desnuda o pilar essencial de uma plutocracia, a saber: os ricos emprestam a juros para o Estado o dinheiro que não pagaram em tributos. Parece exagero, mas não é.

A Receita Federal divulga anualmente os Grandes Números do Imposto da Renda Pessoa Física (IRPF): uma radiografia do topo da distribuição de renda no Brasil. Os números são estarrecedores.

LUCROS E DIVIDENDOS – Recente reportagem de Idiana Tomazelli na Folha mostrou que o acúmulo de lucros e dividendos declarados bateu R$ 555,7 bilhões, um crescimento de 44,6% entre 2020 e 2021. Deste total, R$ 411 bilhões ficaram nas mãos do 1% mais rico, e R$ 117 bilhões, com o 0,01% no topo. Essa fonte de renda representa 36% do total de rendimentos isentos de IRPF em 2021.

O aumento incomum não foi fruto de um surto de lucratividade das empresas, mas uma reação evasiva à retomada da tributação de lucros e dividendos distribuídos à pessoa física, com alíquota prevista de 15%.

Além de não poupar a saúde do trabalhador nem o meio ambiente, a ganância patológica do velho extrativismo investe também contra nossas empresas. Caso exemplar desse movimento foi a Petrobras distribuir mais dividendos que todas as empresas juntas em 2022.

MEDO DO COMUNISMO – Felizmente, para os super-ricos que adoram uma “inconsistência contábil”, a proposta de Guedes morreu antes de chegar à praia. Em tempo: o medo do comunismo deve ter motivado o aumento de 34%, entre 2020 e 2021, nas heranças e doações —R$ 148 bilhões, também isentas de IRPF.

As rendas não tributáveis e aquelas sujeitas à tributação exclusiva representam 95% dos rendimentos do 0,01% mais rico do Brasil. A renda anual dessas 2.342 pessoas varia de R$ 20 milhões a R$ 22 bilhões. Sim, bilhões! O patrimônio declarado desse grupo soma R$ 2,33 trilhões (você não leu errado). Esse valor representa 62% da riqueza do 0,1% mais rico e 40% do total detido pelo 1% no topo.

Como nem todo patrimônio tem valor de mercado atualizado, esses dados estão provavelmente subestimados. Traduzindo: a concentração de riqueza entre os ricos no Brasil é obscena: uma verdadeira plutocracia!

INJUSTIÇA TRIBUTÁRIA – A dissertação de mestrado de Jonathan Vieira Lopes (Unifesp) analisou a progressividade do Imposto de Renda sobre rendimentos do trabalho e do capital. Os mais ricos (R$ 4 milhões por ano) pagaram, em 2020, alíquota média de 2% sobre as rendas do trabalho, ante 10,6% de quem ganha entre R$ 250 mil e R$ 370 mil por ano.

No caso dos rendimentos de capital, os mais ricos pagaram mais impostos, mas com uma alíquota efetiva muito baixa (1,98% em 2020); já o fisco arrecadou R$ 31 bilhões de um total de R$ 3,3 trilhões desse tipo de rendimento.

Enfraquecer a plutocracia brasileira requer ampliar a tributação dos rendimentos do capital. O fim da isenção de lucros e dividendos é o primeiro passo para ter maior justiça tributária e proteger a nossa democracia.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
André Roncaglia é professor de Economia da Unifesp e doutor em Economia do Desenvolvimento pela FEA-USP. Um especialista de tal porte jamais será chamado para ser ministro, por motivos óbvios. O PT diz representar os trabalhadores, mas na verdade representa as zelites, que sabem agradar aos socialistas refinados. É pena. (C.N.)

Aliança com Centrão é compensada por Lula com insensatos acenos à esquerda

TRIBUNA DA INTERNET | Brasil é refém do Centrão, que mantém tudo dominado,  não importa quem seja o “eleito”

Charge do Duke (O Tempo)

Dora Kramer
Folha

Os preparativos para a entrada oficial do Centrão no governo exibem movimentos interessantes. A negativa do presidente Luiz Inácio da Silva, por exemplo, sobre a inexistência do bloco. “O Centrão não existe”, pontificou.

Ora, não apenas existe como detém a maioria dos votos no Congresso, matéria-prima de interesse do Planalto. Trata-se, no entanto, de uma aquisição que demanda compensações à esquerda pela perda de um antagonista de estimação.

TROCAS DE INSULTOS – Na falta desse antagonista, há sempre à disposição Jair Bolsonaro para trocas de insultos (a mais recente acerca de jumentos) com Lula ou um Roberto Campos Neto a quem se pode chamar de “capacho” e “lacaio” do capital sem maiores consequências.

Fica bonito na foto para a arquibancada. Distrai a torcida enquanto se negociam ministérios ao arrepio da qualificação profissional dos candidatos e se jogam ministros na bacia das almas, expostos ao entra e sai de frigideiras sob a alegação de que não têm votos.

Quem os têm é o Centrão, que está mais vivo do que nunca. Daqui deste canto, nada contra deputados e senadores escolhidos de maneira limpa e legítima para representar seus eleitores. Quem se encabula da convivência é quem lhes nega a existência mediante um reposicionamento de marca para justificar a união.

DOIS EXEMPLOS – Dessa espécie de política compensatória há mais dois exemplos recentes. A imposição de Marcio Pochmann para a presidência do IBGE, estranho no ninho da equipe e visto na área econômica como um ideólogo da obsolescência.

Outro, a bravata presidencial sobre a extinção dos clubes de tiro, rapidamente legendada pelo ministro da Justiça em tradução para fechamento dos estabelecimentos “ilegais”. E a direita logo se apropriou de argumento (falso) para combater o pacote das armas.

A arte do equilibrismo de resultados requer destreza para não deixar que o Centrão entre por uma porta e o juízo saia pela outra.

Um dia melancólico na História do STF, com a posse do ministro Cristiano Zanin 

Lula e Janja cumprimentam Zanin em posse no STF

Nesta foto, faltou o sogro de Zanin, que não foi convidado

Carlos Newton

Desta vez, a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Rosa Weber, nem fez o discurso protocolar sobre a chegada do novo ministro, o advogado Cristiano Zanin, alçado à função pela amizade ao presidente Lula da Silva, que sem dúvida será eterno devedor desses dois magistrados. E trata-se de dívidas que jamais conseguem ser pagas.

Em 2019, foi o voto de Rosa Weber que tirou Lula da cadeia e colocou o Brasil na humilhante situação de ser o único membro da ONU que não prende condenados em segunda instância, algo somente concebível na Idade Média, quando criminosos de elite jamais cumpriam penas.

Quanto à dívida de Lula com Zanin, seria até pequena, porque na verdade seu maior advogado no Supremo foi o ministro Edson Fachin, que em 2021 interpretou às avessas a legislação e criou no Brasil a “incompetência territorial absoluta”, uma circunstância jurídica que não existe em nenhum outro país.

MUITOS ELOGIOS – Embora Cristiano Zanin não tenha o notório saber exigido, durante a solenidade de posse a presidente Rosa Webwe destacou a trajetória e experiência do novo integrante para ocupar a cadeira deixada pelo ministro aposentado Ricardo Lewandowski.

Para a magistrada, Zanin tem “cultura jurídica, preparo técnico e experiência”, que, segundo ela, enriquecerão o tribunal. Será mesmo?

O presidente Lula dizia estar muito feliz, o que compreensível, com a Justiça transformada em sucursal do Planalto. Mas a cerimônia foi tão deprimente que não houve discurso dos ministros e nem do novo integrante. Realmente, não se trata de uma data a ser lembrada.  

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P.S. –
Ah, Dr. Adaucto Lúcio Cardoso… Saudades dos tempos em que o Supremo representava o “crème de la crème”, como diziam os franceses. Mas isso é apenas um passado que talvez nem volte mais. E o mais triste de todos, barrado na festa, era o advogado Roberto Teixeira, aquele velho amigo de Lula, que lhe cedeu uma casa para morar nos tempos de dureza.

Zanin casou com a filha de Teixeira e foi acolhido no escritório dele. Recentemente, Zanin brigou com o sogro por causa da divisão dos honorário$$$ e abriu um escritório próprio. Como dizia Ibrahim Sued, em sociedade tudo se sabe. (C.N.)

Mais casos de escritores que previram como ou quando iriam morrer — e acertaram…

Guimarães Rosa, na noite de sua posse na Academia Brasileira de Letras --- Reprodução

Guimarães Rosa tomou posse na ABL e nunca mais voltou

Ruy Castro
Folha

Em 1963, eleito para a Academia Brasileira de Letras, Guimarães Rosa, cardíaco e temendo não resistir à emoção, adiou sua posse enquanto pôde. Rosa era médico, devia saber o que dizia. A ABL não o pressionou e o esperaria pelo tempo que ele quisesse. Em 1967, Rosa criou coragem e marcou a cerimônia para 16 de novembro. Foi uma grande noite, a que ele sobreviveu e saiu de lá feliz. Três dias depois, morreu de enfarte em casa. Rosa sabia mesmo o que dizia.

Em 1862, jornais noticiaram a morte do poeta Gonçalves Dias por afogamento. Mas ele estava vivo e levou a coisa na brincadeira: “Vi nos jornais que tinha morrido. Atiraram-me às ondas. O oceano é o único túmulo digno de um poeta. Vou cuidar da impressão das minhas obras póstumas.”

NÃO DEU OUTRA – Em 1864, quando ele vinha da França pelo “Ville de Boulogne”, o navio se chocou com um banco de areia na costa maranhense e naufragou. Todos se salvaram, menos Gonçalves Dias, que, adoentado em sua cabine, morreu afogado.

Os poetas devem ter um canal exclusivo para essas coisas. Mario Faustino, um talento dos anos 1950, era admirado por seu poema “Mito”, que dizia: “Os cães do sono calam/ E cai da caravana um corpo alado/ E o verbo ruge em plena/ Madrugada cruel de um albatroz/ Zombado pelo sol”.

Pois não é que, em 1962, Mario Faustino morreu num avião que explodiu sobre os Andes?

BIERCE SUMIU – E nunca se explicou o sumiço do escritor e jornalista americano Ambrose Bierce. Num de seus contos, ele falou de um homem que desaparecia num deserto ou floresta sem deixar vestígio, como se se evaporasse.

Pois foi o que lhe aconteceu no México, em 1913: evaporou-se. Se o mataram, ninguém soube ou viu. E era famoso. Seu corpo nunca foi encontrado.

Outro dia, escrevi sobre Thomas Jefferson, Mark Twain, Dolores Duran e outros que intuíram a data de sua morte e acertaram. Mas não me confundam. O máximo a que chego em profecias é prever o passado.

Com atraso de anos, Pacheco critica STF por invadir a competência do Legislativo

Presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Só agora Pacheco percebeu que o STF está se excedendo

Camila Turtelli
O Globo

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), fez críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o que ele considera como “invasão de competência do Poder Legislativo”. Ele se referia a dois temas: o piso da enfermagem e a descriminalização do porte de drogas. Os assuntos estão sendo tratados pelo Supremo Tribunal Federal atualmente. Pacheco considera que são assuntos que foram debatidos pelo Congresso Nacional e devem ser tratados no âmbito do legislativo.

— Se pretender legalizar ou descriminalizar, que é uma tese que pode ser sustentada por aqueles que defendem que a questão é mais de saúde pública do que uma questão judicial ou uma questão penal, o foro de definição dessa realidade é o Congresso Nacional brasileiro — disse Pacheco no plenário do Senado.

DISSE PACHECO — “Eu considero que uma decisão, num caso concreto, de descriminalização de um tipo penal criado a partir de uma discussão no Congresso Nacional, que elaborou uma lei, à míngua e sem a criação de um programa de saúde pública governamental a partir da discussão no Congresso Nacional é uma invasão de competência do Poder Legislativo”, assinalou.

Pacheco falou também sobre o piso nacional da enfermagem, já aprovado pelo Congresso.

Ele afirmou que a advocacia do Senado vai recorrer da decisão do Supremo que limitou o pagamento do piso nacional da enfermagem.

É INUSITADO — “Há, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, o questionamento em relação a esse tema. E é inusitado. É inusitado que, depois de um projeto, uma proposta de emenda à Constituição, submetida ao crivo de Comissões, de debates, de votação de Plenário, tanto no Senado quanto na Câmara, uma decisão de um juiz, que é o Ministro do Supremo Tribunal Federal, suspenda a eficácia da lei” — disse Pacheco.

O Congresso Nacional promulgou em 2022 duas emendas constitucionais sobre do piso da enfermagem. Mas o STF condicionou o pagamento do piso, no caso de enfermeiros celetistas que trabalham em hospitais privados, a um acordo coletivo firmado entre patrões e trabalhadores.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Antes tarde do que nunca, diria o ditado, mas às vezes já não adianta mais nada. O fato concreto é que Pacheco demorou anos e anos até perceber (?) que o Supremo estava se assenhorando dos poderes exclusivos do Congresso. Só acordou agora? É dono de um conceituado escritório de advocacia e não disse nada quando o Supremo fez as maiores barbeiragens jurídicas, interpretando leis a seu bel prazer, em razão de conveniências políticas? Agora é tarde, senador Pacheco. Não adianta mais reclamar. O mal já está mais do que feito. (C.N.)

No Pará, a Polícia Federal prende Bruno Heller, ‘o maior devastador da Amazônia’

Mais uma grande operação da Polícia Federal no meio ambiente

Deu no UOL

A Polícia Federal prendeu hoje o empresário Bruno Heller, apontado pelos investigadores como o “maior devastador” da Amazônia já identificado. O empresário foi capturado em Novo Progresso, no Pará, em meio à Operação Retomada, que mira um esquema de invasão de terras da União e desmatamento para criação de gado na floresta amazônica. Também foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Novo Progresso (PA) e Sinop (MT).

A Justiça autorizou o bloqueio de R$ 116 milhões, além do sequestro de veículos, 16 fazendas, imóveis e a indisponibilidade de 10 mil cabeças de gado. O valor, segundo a PF, é o mínimo para o restauro ambiental das áreas afetadas.

REI DOS GRILEIROS – Bruno Heller foi preso em flagrante com ouro bruto e uma arma ilegal, afirmou a PF. Ele foi conduzido ao sistema prisional em Itaituba (PA), onde deve passar por audiência de custódia amanhã.

Heller teria desmatado 6,5 mil hectares de floresta e se apossado ilegalmente de 21 mil hectares de terra da União, diz a PF. A área destruída equivale a quase quatro ilhas de Fernando de Noronha, destacou a corporação.

PF diz que o empresário já havia sido autuado 11 vezes e recebido seis embargos do Ibama por irregularidades. Uma perícia identificou danos do grupo do grileiro à Terra Indígena Baú.

CADASTROS FALSOS – Desmatamento ocorria para liberar área para pastagem, assim como esquema de grilagem de terras, incluindo em terras indígenas. O pecuarista e sua família realizavam cadastros falsos no Cadastro Ambiental Rural em nome de terceiros para, depois, destinar a área à criação de gado.

O grupo desmataria tais áreas e as destinaria para criação de gado. Assim, os verdadeiros responsáveis pela exploração das atividades se sentiriam protegidos contra eventuais processos criminais ou administrativos, os quais seriam direcionados aos participantes sem patrimônio

O UOL tenta contato com a defesa de Bruno Heller. Se houver resposta, o texto será atualizado.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
Auspiciosa matéria enviada por Armando Gama. Mostra que nem tudo está perdido e a Polícia Federal continua sendo uma das instituições mais eficientes do País, após o esquema Lava Jato, que foi por ela descoberto. Os delegados federais deveriam assumir o governo inteiro durante quatro anos, para varrer da política essa gentalha que hoje a ocupa. Com isso, o Brasil poderia usar a crise climática a seu favor para diminuir a desigualdade. Os EUA nos oferecem uso de satélites para monitoramento da Amazônia, mas os militares brasileiros não têm medo do ridículo e fazem o governo recusar, alegando que não aceitam o país ser espionado. Ah, Brasil… (C.N.)

Vexame! 68% das escolas vistoriadas no Pará em projeto para receber internet não têm energia

Imagem ilustrativa de sala de aula

Escolas sem energia também receberiam o famoso kit robótica

Augusto Tenório
Estadão

Mais da metade das 1.059 escolas vistoriadas no projeto Aprender Conectado no Pará, articulado pelo governo federal, não possui sequer energia elétrica, segundo dados obtidos pela Coluna. Foram exatamente 68% delas nesta situação.

O programa visa levar internet banda larga, rede wi-fi e kits de informática para unidades de ensino de todo o Brasil.

O programa interministerial em parceria com empresas privadas de telefonia vai instalar soluções para o fornecimento de energia nas escolas.

Além dessas unidades no Pará, as visitas da fase 2 do Aprender Conectado também foram feitas em 968 escolas no Amazonas e 297 instituições na Paraíba.

A maioria das escolas é de difícil acesso, e só se chega a elas de barco.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGSinceramente, parece brincadeira, mas não é. Robótica ou roubótica? Fica demonstrado que o governo do Pará, comandado por Helder Barbalho (MDB), herdeiro de um dos clãs mais corruptos da política brasileira, que emplacou um ministro no atual governo, não tinha conhecimento se as escolas do Estado eram servidas por energia elétrica. Quer dizer, não havia iluminação nas salas de aula, mas os parlamentares indicavam essas escolas para que recebessem a roubótica,  tudo superfaturado, e não vai acontecer nada, rigorosamente nada. E ainda chamam isso de administração pública. Ah, Brasil… (C.N.)

Impunidade do crime organizado favorece apoio popular à extrema violência policial

Violência policial, liberalismo e políticas públicas • LIVRES

Criminalidade não justifica excessos na repressão policial

Bruno Boghossian
Folha

Lotar cadeias e derrubar taxas de homicídios de El Salvador fizeram de Nayib Bukele o governante mais popular da América Latina. Nove de cada dez eleitores aprovam o trabalho do presidente, sem se importar com denúncias de tortura, execuções e prisões arbitrárias. Muitos certamente preferem que seja assim.

Quase dois terços dos salvadorenhos (63%) acham que um governo autoritário pode ficar no poder se resolver os problemas do país, segundo números do Latinobarómetro. O combate às gangues e a redução dos índices de violência foram ferramentas ideais para o presidente testar os limites desse consentimento.

ABUSOS DO ESTADO – O exemplo de Bukele reproduz um padrão que intoxica o debate sobre a segurança pública no mundo. Há décadas, políticos aproveitam rancores históricos, exploram medos imediatos e vendem a ideia de que é impossível ser severo com criminosos sem violar direitos. A aprovação popular é exibida como salvo-conduto para os abusos do Estado.

A violência crônica, o enraizamento de quadrilhas e a fadiga com o crime fazem com que a lógica seja candente no Brasil. Segundo o Datafolha, 83% dos eleitores concordam com a afirmação de que o país “tem muita mordomia para bandido”. A adesão à tese é alta entre eleitores de Bolsonaro (93%) e de Lula (73%).

São muitos os governantes de direita que agitam essa flâmula para colher popularidade e disfarçar o fato de que não têm uma política de segurança com início, meio e fim.

BARBÁRIE DO GUARUJÁ – O mais recente foi Tarcísio de Freitas, que se recusou a fazer uma inflexão civilizada para reagir à barbárie de Guarujá, que começou com o assassinato de um policial e terminou com uma matança.

A tolerância com a letalidade policial reduz o espaço da esquerda, que custa a encontrar lugar nas discussões sobre segurança.

A pauta continuará dominada pelo populismo selvagem enquanto não surgirem plataformas alternativas que sejam tão rigorosas no controle de armas e na defesa dos direitos humanos como no combate ao crime organizado.

Indicação de Pochmann para o IBGE e as lições alarmantes vindas da Argentina

Marcio Pochmann, um radical até entre os heterodoxos

Maior problema de Pochmann são as teses heterodoxas

Diogo Schelp
Gazeta do Povo

Indicado por Lula para presidir o IBGE, Márcio Pochmann é o que se costuma chamar de “economista heterodoxo”. Heterodoxo é alguém que foge dos padrões aceitos ou prevalentes numa área de conhecimento, contrariando suas ideias centrais e tradicionais — na maioria das vezes testadas e confirmadas ao longo do tempo.

Um certo tipo de heterodoxia pode ajudar a trazer inovação ao pensamento econômico. Há quem diga, por exemplo, que o bem-sucedido Plano Real, que acabou com a hiperinflação no Brasil, sustentou-se em princípios heterodoxos.

QUESTÃO IDEOLÓGICA – Há um tipo de heterodoxia, no entanto, que não passa de repetição de modelos ou ideias econômicas historicamente fracassados. O socialismo, uma heterodoxia econômica, é o exemplo mais óbvio e conhecido.

A linha de pensamento de Pochmann enquadra-se no segundo tipo de heterodoxia econômica. Em vez de inovação, ela resiste a novidades; em vez de rigor técnico, ela mergulha o debate econômico em dogmas ideológicos ultrapassados. Isso fica bem evidente nas críticas que Pochmann fez ao lançamento do Pix, em 2020.

“Com o Pix, Bacen [Banco Central] concede mais um passo na via neocolonial à qual o Brasil já se encontra ao continuar seguindo o receituário neoliberal. Na sequência, vem a abertura financeira escancarada com o real digital e a sua conversibilidade ao dólar. Condição perfeita ao protetorado dos EUA”, escreveu o economista em uma rede social.

BOA INOVAÇÃO – O Pix foi uma inovação muito bem-sucedida. Se fosse ruim para a população, não teria sido adotado pelos brasileiros tão rapidamente, fazendo do país em pouco tempo o vice-campeão mundial em pagamentos instantâneos. Mas Pochmann só conseguiu enxergar sob a ótica do antiamericanismo e do medo do bicho-papão neoliberal esse novo sistema de pagamentos, que reduziu custos e burocracia bancária para os cidadãos e aumentou a inclusão financeira para os mais pobres.

O cargo que Pochmann irá ocupar, presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), exige acima de tudo apego a critérios técnicos.

Trata-se da instituição responsável não apenas pela elaboração e divulgação dos resultados do Censo Demográfico, que embasam as políticas públicas, mas também pelas estatísticas oficiais de inflação, mercado de trabalho e crescimento econômico.

EXEMPLO ARGENTINO – Sem dados confiáveis, na Argentina era impossível reajustar salários de forma justa e não se conseguia descobrir o tamanho da pobreza crescente no país

Quando a ideologia e os interesses políticos contaminam o trabalho técnico de instituições como o IBGE, o resultado é o caos, como comprova o caso da Argentina.

Entre 2007 e 2016, nos governos de Néstor e Cristina Kirchner, o equivalente argentino do IBGE, o Indec, sofreu interferência política e seus técnicos foram pressionados a maquiar os dados econômicos, especialmente de inflação e de PIB.

INFLAÇÃO OCULTA – Como a realidade econômica não era favorável à imagem do governo e aos cálculos para o pagamento dos credores da dívida argentina, os Kirchner acharam que bastava contar uma história diferente divulgando números falsos, mais positivos.

Assim, a inflação acumulada no período de dez anos, que segundo o governo foi de cerca de 90%, na realidade chegou a 170%, no cálculo de entidades independentes — que eram multadas por ousar desafiar os números oficiais.

A maquiagem das estatísticas destruiu a credibilidade do Indec, do governo e, aos olhos de investidores e credores externos, da Argentina em si. Sem dados confiáveis, era impossível reajustar salários de forma justa e não se conseguia descobrir o tamanho da pobreza crescente no país, além de criar uma situação de incerteza que alimentava o próprio dragão da inflação.

E POCHMANN? – Não é preciso que Márcio Pochmann chegue ao extremo de maquiar os números descaradamente, como fez o Indec nos governos Kirchner, para abalar a credibilidade do IBGE.

Basta que continue ventilando suas ideias heterodoxas em entrevistas, que promova um aparelhamento do IBGE com funcionários de perfil ideológico, como fez durante sua presidência no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômico Aplicada) entre 2007 e 2012, e que defenda mudanças metodológicas nos índices para que se instale a suspeita de que o padrão técnico no órgão foi abandonado em prol de interesses imediatos do Palácio do Planalto, abalando a credibilidade dos dados oficiais.

Como mostra o exemplo argentino, quando se está lidando com estatísticas, credibilidade é tudo — e desconfiança pode gerar o caos.

(Artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

Missões dadas ao hacker Delgatti por Carla Zambelli eram sinal de desespero golpista

Zambelli é alvo de operação da PF e tem sigilo quebrado | Política | Valor  Econômico

Carla Zambelli posou para a posteridade ao lado do hacker

Bruno Boghossian
Folha

A gana bolsonarista por um golpe pode ser medida pelo número de vezes em que a turma acionou o hacker Walter Delgatti na reta final da eleição. Ele teria recebido quatro missões para tumultuar a campanha, atacar a credibilidade do TSE e abrir caminhos para melar a votação.

A convocação do hacker foi uma daquelas ideias ambiciosas de quem tem teorias da conspiração nas veias. Ao conhecer Delgatti em setembro de 2022, a deputada Carla Zambelli perguntou se ele conseguiria invadir as urnas eletrônicas para provar uma suposta vulnerabilidade.

DUAS MISSÕES – No encontro, de acordo com o depoimento do hacker à Polícia Federal, a parlamentar fez um segundo pedido. Se não fosse possível invadir as urnas, ele poderia usar sua experiência na Vaza Jato para acessar o celular de Alexandre de Moraes e roubar mensagens que comprometeriam o presidente do TSE.

A prova de que o plano era levado a sério veio quando Delgatti foi chamado ao Palácio da Alvorada para uma reunião com Jair Bolsonaro. Lá, o presidente teria repetido a encomenda da invasão das urnas.

O hacker não conseguiu executar a tarefa, mas entregou outro produto. Ele contou à PF que, a pedido de Zambelli, invadiu um sistema para criar um mandado de prisão fajuto contra Moraes. Parece maluquice, mas há gente que chorou de alegria nas ruas de Brasília com a notícia falsa de um estado de sítio em 2021.

DIZ O ADVOGADO – Além de ir à casa de Bolsonaro, o hacker também pode ter participado de reuniões no Ministério da Defesa. O advogado de Delgatti disse à GloboNews que seu cliente contribuiu com questionamentos feitos pelos militares ao TSE sobre as urnas.

As maquinações golpistas eram comuns porque os bolsonaristas provavelmente sabiam que perderiam a eleição, pensavam que era possível virar a mesa e acreditavam que não seriam punidos.

Se tivessem dedicado tanta energia a ganhar no voto, talvez também tivessem fracassado, dada a baixa qualidade dos personagens, mas ao menos correriam um risco menor de parar na prisão.

Câmara vai aprovar o vexaminoso perdão aos desvios de recursos feitos pelos partidos

TRIBUNA DA INTERNET | Emenda que anistia dívidas e multas dos partidos políticos é uma vergonha mundial

Charge do Marco Jacobsen (Arquivo Google)

Carlos Andreazza
O Globo

A melhor representação — o mais preciso rosto — do Congresso Lira, com seu rito-ritmo atropelador do Parlamento, está na chamada PEC da Anistia, a PEC do Esculacho, como prefiro; uma Proposta de Emenda à Constituição que consistirá, prosperando, no maior perdão da História a partidos políticos no Brasil. Algo sem precedentes até para a cultura corporativista brasileira.

Protocolada em março na Câmara, passou largamente — em maio — pela Comissão de Constituição e Justiça, 45 x 10, e só não teve comissão especial instalada em julho, antes do recesso, por gestões proteladoras do PSOL, que se valeu dos instrumentos de obstrução ainda restantes à atividade legislativa, combinadas sobretudo à imposição da ordem do dia do Congresso Nacional, que fez soar o gongo e determinou o adiamento da sessão. Mas a comissão foi instalada logo na primeira sessão pós-recesso, nesta terça-feira.

RITMO ACELERADO – É questão de tempo, porém. Pouquíssimo. E não será surpresa se a cousa andar rapidamente para logo chegar ao plenário. A matéria é prioritária — muito mais que a apreciação do Orçamento — para os deputados; especialmente para os donos dos partidos. É fácil compreender as razões.

A PEC tem somente três artigos, aos quais concedo o mérito da clareza. Não há o mais mínimo pudor. Nenhum rubor. A proposta de esculacho é objetiva. Concentrada. Focada. Obra-prima da concisão. Tentarei ser igualmente conciso para resumi-la.

O primeiro artigo estende ao período da última eleição — a de outubro de 2022 — a anistia a partidos que descumpriram a cota mínima de repasses de recursos públicos a candidaturas de mulheres e negros.

PUXADINHOS – Estende porque, em abril do ano passado, o Congresso — com o estadista Pacheco e outros alcolumbres — já aprovara e promulgara emenda à Constituição que anistiava os partidos por ignorarem as cotas em eleições passadas. É legislação em causa própria sobre legislação em causa própria — essa sucessão de desmandos se dando sob a forma de puxadinhos inscritos, como quem bebesse água, na Carta.

Não vi barulho, certamente não um alto, dos ministérios do governo Lula que cuidam dos direitos iguais para mulheres e negros. Decerto houve constrangimento, já que o PT — de braços dados com o PL de Bolsonaro e Valdemar — apoia a PEC. Espero que tenha havido vergonha.

Tenho certeza de que haverá negócio. E intuo que esse — por mais midiaticamente escandaloso — seja o artigo negociável. Abrandado, flexibilizado, em nome da manutenção do próximo — o que verdadeiramente fará a rapaziada lavar a égua.

SEM PUNIÇÕES – O segundo artigo estabelece que — e veja-se o grau de inconstitucionalidade admitido pela CCJ da Câmara, instância tornada mera carimbadora dos interesses liristas — “não incidirão sanções de qualquer natureza, inclusive de devolução e recolhimento de valores, multa ou suspensão do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, nas prestações de contas de exercício financeiro e eleitoral de partidos políticos que se derem anteriormente à promulgação desta alteração de emenda constitucional.”

Preferi reproduzir o texto, entre aspas, para não parecer que exagero ao apontar a gravidade do troço. Propõe-se anistia geral, absoluta, sem senões, a cobrir mesmo, para além do que seria um marco tangível, a eleição de 2022, o futuro — o que se faz agora e o que se fará, com dinheiros públicos, até a promulgação da lei.

É um convite, cheque em branco, a que se barbarize ainda mais e imediatamente — um estímulo a que partidos adquiram aviões, renovem a frota de automóveis e comprem toneladas de carnes para churrasco. Serão anistiados. E — a história indica, arrombada a porteira — de novo e de novo.

TRABALHO INÚTIL – Aprovada a PEC, seus efeitos equivalerão a anular todo o trabalho de análise da Justiça Eleitoral sobre as contas dos partidos.

Para que se tenha a ordem de grandeza da tunga: só no último pacote de julgamentos das prestações partidárias, o TSE determinou a devolução de R$ 40 milhões aos cofres públicos.

Foram 19 as contas reprovadas. Dezesseis as aprovadas com ressalvas. Não à toa tão unidos, com raras exceções, partidos cujos discursos apregoam visões de mundo de todo diversas — menos na hora de proteger o tesouro (para geri-lo sob lógica privada) proveniente de fundos públicos.

MAIS DINHEIRO – Por fim, o terceiro artigo permite que os partidos voltem a receber dinheiro de empresas “para quitar dívidas com fornecedores contraídas ou assumidas até agosto de 2015”.

Trata-se de uma afronta, indisfarçada, à decisão do Supremo Tribunal Federal (de setembro de 2015) que proibiu financiamento empresarial a partidos e campanhas.

Aprovada, essa PEC do Esculacho formará — ao lado da institucionalização do orçamento secreto, que continua — como símbolo das lideranças de Arthur Lira e Rodrigo Pacheco no Congresso Nacional.

Lula ainda não tem um projeto de governo e nem um plano de metas

Charge do galvão Bertazzi (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Há mais de seis meses no Palácio do Planalto, o presidente Lula da Silva, cuja popularidade segue em boa escala, não tem ainda um projeto integrado de governo e muito menos um plano de metas através do qual possa cobrar os desempenhos de sua equipe, incluindo além dos ministérios, as principais empresas estatais.

Ontem mesmo, quarta-feira, em artigo no O Globo, Vera Magalhães destacou a pressão de Lula sobre a administração da Petrobras para que funcione alinhada com os interesses do país. Portanto, na visão da jornalista, Lula ainda não considera a Petrobras integrada com os seus objetivos econômicos e sociais.

REFLEXOS – Mais uma vez, entra em foco, a questão dos preços tanto do petróleo quanto de seus derivados como a gasolina, o óleo diesel e o gás de modo geral. Com a política de preços que vinha sendo adotada no governo Bolsonaro, a estatal alcançou grandes lucros e distribuiu muitos dividendos. Mas seus resultados não refletiram numa melhoria das condições de vida da população. Pode-se dizer que a Petrobras atuou como uma empresa privada voltada para o lucro e para a sua acumulação.

Na realidade ela é uma empresa estatal e, por isso, tem que se encontrar vinculada a uma política de governo. Caso contrário, não faria sentido ela ter a União como a sua principal acionista. A questão do petróleo sempre foi motivo de amplo debate e de pressões externas e internas. A criação da Petrobras em 1953 é um exemplo. Mas isso pertence ao passado.

No presente é indispensável que o presidente Lula da Silva consiga traçar uma política definida claramente para a Petrobras e para o país. O presidente da República toca em pontos isolados da administração e não consegue fechar uma rede de iniciativas decorrentes de seus próprios conceitos.

ATAQUES –  Há meses, por exemplo, ele atacou fortemente a privatização da Eletrobras, dizendo, inclusive, que o processo foi marcado por uma “bandidagem”. Afirmação gravíssima, atingindo a segunda maior estatal do país. Mas não houve sequência para o combate à bandidagem que o próprio presidente identificou.

O programa Bolsa-Família permanece, mas não vem à tona os seus principais resultados, talvez por consequência da falta de divulgação profissional e gratuita sobre o trabalho do governo. Na edição de ontem de O Globo, Sérgio Roxo destaca um aspecto importante que acentua uma falta de articulação.

São anúncios do presidente Lula que surpreendem ministros do seu próprio governo. Isso aconteceu em vários casos, incluindo o programa de incentivos para a aquisição de eletrodomésticos. Há também o caso de passagens aéreas a preços reduzidos, além do financiamento de automóveis populares, que de populares só têm o nome.

ANTECEDÊNCIA – Trata-se não apenas que ministros contestem as iniciativas, mas que sejam avisados com antecedência. Agora mesmo, ocorreu o caso da nomeação de Marcio Pochmann para o IBGE, episódio que o presidente da República diz ter avisado à ministra Simone Tebet. É possível que em alguns casos, consequência do acúmulo de trabalho e responsabilidade, Lula possa fazer alguma confusão sobre os assuntos, mas isso não elimina a existência de uma descoordenação bastante visível.

Jeniffer Gularte, O Globo, destaca que a presidente da Caixa Econômica Federal, Rita Serrano, reuniu-se com o ministro Alexandre Padilha e com Marcio Macedo, secretário-geral da Presidência, num esforço para se manter no posto para o qual foi nomeada no início do atual governo. A permanência de titulares de cargos importantes, entre eles o da Petrobras, não deve continuar sendo uma consequência de pressões políticas que surgem repentinamente de vários ângulos. Tem que ser resultado de uma política integral do próprio Poder Executivo.

PGR – O presidente Lula da Silva, pelas suas próprias declarações e o seu ângulo de visão, está procurando um novo procurador-geral da República.  O tema é objeto de excelente reportagem de Jeniffer Gularte, Marianna Muniz, Alice Cravo e Paola Serra, O Globo. Lula deixou claro que substituirá Augusto Aras no momento em que disse que fará um pente-fino nos nomes cotados.

Pretende ouvir, sustenta a reportagem, os ministros Flávio Dino, Jorge Messias, Alexandre Padilha e o líder no Senado, Jaques Wagner. Ele já conversou sobre o assunto com os ministros do Supremo Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. De fato, a substituição de Augusto Aras sempre pareceu inevitável, sobretudo em função dos atritos que manteve com o STF.

A lista tríplice parece estar ultrapassada no pensamento do presidente da República. Mas isso não impede que algum procurador bem aceito por seus pares não termine sendo indicado para o posto. Como se observa, há vacilações demais e decisões de menos no Palácio do Planalto.

COPA FEMININA –  Foi uma partida difícil a que a seleção brasileira enfrentou diante da Jamaica que conseguiu neutralizar os ataques da seleção dourada que precisava da vitória. O empate classificou a Jamaica. Mais uma Copa se foi, mas outras Copas virão.

É do futebol, é do esporte em geral. Na minha opinião faltou comando à treinadora da equipe, Pia Sundhage.

CPIs mostram que general GDias é um dos principais protagonistas do 8 de janeiro

ex-ministro do GSI de Lula, Gonçalves Dias.

Equipe de GDias não reprimiu e até serviu água aos vândalos

Camila Turtelli e Luísa Marzullo
O Globo

Exonerado por suspeita de omissão no 8 de janeiro, o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI) general Gonçalves Dias tornou-se personagem principal de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) no Congresso. O ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Saulo Moura Cunha afirmou, em oitiva no colegiado que apura os Atos Golpistas, que mandou alertas a GDias, como é conhecido, sobre a possibilidade de uma ação extremista como a que acabou ocorrendo naquela data.

Já na comissão que mira a atuação do Movimento dos Trabalhadores Sem terra (MST), onde prestou depoimento, o ex-chefe do GSI foi pivô de um bate-boca entre o relator, deputado Ricardo Salles (PL-SP), e a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR).

RECEBEU ALERTAS – Ao comparecer à CPI dos Ataques, Cunha afirmou que o registro de que GDias havia recebido os alertas chegou a ser formalizado em um documento, depois arquivado por ordem do próprio general, segundo o ex-diretor da Abin. Cunha estava à frente da agência no dia 8 de janeiro.

— Fiz os dois relatórios. O primeiro continha os alertas encaminhados pela Abin a grupos e também os alertas encaminhados por mim pessoalmente ao ministro-chefe do GSI. Entreguei essa planilha ao ministro, e ele determinou que fosse retirado o nome dele dali, porque não era o destinatário oficial daquelas mensagens, e que ali fosse mantido apenas as mensagens encaminhadas para os grupos de WhatsApp. Eu obedeci a ordem.

A alteração dos registros originou dois relatórios com informações distintas sobre os destinatários dos alertas: um com e outro sem o nome de GDias. A edição do documento, com a extração do nome de GDias, foi revelada em maio pela colunista do GLOBO Malu Gaspar.

GDIAS NEGOU FRAUDE – Em depoimento à CPI da Câmara Legislativa do Distrito Federal, em junho, o militar negou adulteração do material.

— A Abin respondeu (a solicitação do Congresso) com um compilado de mensagens de aplicativo. Esse documento tinha lá ‘ministro do GSI’. Eu não participei de nenhum grupo de WhatsApp, eu não sou o difusor daquele compilado de mensagens. Então aquele documento não condizia com a realidade. Esse era um documento. Ele foi acertado e enviado — disse na ocasião.

De acordo com Cunha, o documento com o registro de que GDias recebeu alertas foi arquivado na Abin em caso de necessidade de “consulta futura”. Ele refutou que tenha adulterado informações e reiterou que a mudança ocorreu por ordem do então ministro. Segundo o oficial de inteligência, a Abin difundiu para diversos órgãos do governo 33 alertas citando, entre outros pontos, a “detecção ao estímulo de invasões”.

GDIAS TENTA MANIPULAR – Mais tarde, durante depoimento à CPI do MST, GDias afirmou que a Abin ficou subordinada ao GSI do início do governo até 1º de março e que, nesse período, não recebeu “pelo correio Sisbin nenhum relatório” sobre os atos. O ex-ministro fez referência ao Sistema Brasileiro de Inteligência, que reúne diferentes órgãos de inteligência de governo e que, no entendimento dele, seria o canal oficial para a difusão de informações do tipo. Ele não tratou dos “alertas” citados pelo ex-chefe da Abin. Procurada, a defesa de GDias não se manifestou.

— Não recebi nenhum relatório pelo sistema Sisbin no período em que a Abin ficou sob minha gestão — afirmou Dias.

A esse respeito, Cunha acrescentou que o então ministro foi avisado também por telefone, cerca de uma hora antes da invasão das sedes dos três Poderes. Mais cedo, por volta das 8h, disse que havia tratado com ele sobre as movimentações de ônibus. Segundo Cunha, GDias respondeu: “Acho que vamos ter problemas”.

BATE-BOCA – Ontem GDias compareceu na CPI do MST e seu depoimento terminou em bate-boca. Ao ser questionado pelo relator, Ricardo Salles, sobre como classifica a ditadura militar, o ex-ministro não respondeu, afirmando que o assunto não era objeto da comissão. O relator, no entanto, insistiu na pergunta repetidas vezes.

— Quero apenas entender se você faz parte da ala que considera revolução ou golpe — disse Salles. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, saiu em defesa do ex-ministro, afirmando que a pergunta não tinha pertinência, e foi rebatida pelo relator: — A senhora fala na sua vez. O bate-boca se estendeu por mais de dez minutos.

— Seus colegas, unanimemente, defendem a ação de 1964. Vou perguntar novamente, é a última oportunidade — prosseguiu Salles. Mesmo assim, GDias insistiu em não responder.  “Deputado, isso não é objeto da comissão”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É um teorema simples, em que A (Exército) e B (Governo do Distrito Federal) se somam para permitir, prazerosamente, acampamentos diante de quartéis-generais. Com a cumplicidade de C (Polícia Militar) permitem o vandalismo noturno de 12 de dezembro em Brasilia.

Depois, apesar de ter havido tentativa de atentado a bomba em 24 de dezembro, A + B + C, com a conivência de D (Gabinete de Segurança Institucional do Planalto), permitem em 8 de janeiro que o acampamento se desloque para a Praça dos Três Poderes, escoltado por batedores de C.

Como apenas E (Polícia Federal) não participou da trama, o resultado do teorema é: apenas E é confiável, não acredite em nada que A, B, C e D afirmem. Estarão sempre mentindo. Apenas E cumpriu seu dever institucional. (C.Q.D.)  

Na poesia de Flora Figueiredo, um amor abençoado pela oração “Ave Maria dos amantes”

Retrospectiva | Um poema de Flora Figueiredo - YouTubePaulo Peres
Poemas & Canções

A tradutora, cronista e poeta paulista Flora Figueiredo, no poema “Reza”, suplica pela existência de um espaço em que o cotidiano do amor e suas contradições possam coexistir, abençoados por uma oração “Ave Maria dos amantes”.

REZA
Flora Figueiredo

Tem que haver um espaço pra nós dois
onde caibam nossos amores,
nossos temores,
nossos dilemas.

Tem que haver pra nós um tema
que fale de flores.
Tem que haver uma canção
de versos sofridos, amargos e doces.

Tem que haver uma oração
que fale de ciúme, de saudade, de perdão,
que abençoe os beijos
e os desejos retumbantes.

Para quando declinada ao fim do dia,
possa ser a Ave Maria dos amantes.

Se não fizer muita burrice, Tarcísio será favorito na eleição presidencial de 2026

Bolsonaro pede que Tarcísio empregue mãe de sua neta em cargo nos Estados  Unidos - Brasil 247

Tarcísio aprendeu a fazer política e sabe agradar Bolsonaro

Carlos Newton

Sob condições normais de temperatura e pressão, poder-se-ia dizer que as carreiras políticas de Carla Zambelli e Jair Bolsonaro estariam destruídas, devido à contratação do hacker Walter Delgatti Neto para invadir os computadores da Justiça Federal e do ministro Alexandre de Moraes. Mas não é assim que a banda toca no Brasil.

No caso da atrevida, inconsequente e irresponsável Carla Zambelli, por exemplo, se ela não for processada e condenada pelo Supremo Tribunal Federal, tendo a cassação do mandato como consequência, continuará a ser eleita indefinidamente. E o motivo é um só — a impressionante aversão que grande parte do eleitorado dedica ao petismo e a Lula.

POLARIZAÇÃO – Se Lula e Bolsonaro fossem mais jovens, fica claro que essa sinistra polarização tão cedo não iria acabar, mas o tempo não para, dizia Cazuza, e os dois principais líderes políticos do Brasil estão com prazo de validade quase vencido.

Por coincidência, ambos têm um passado de superação de graves problemas de saúde e estão com inevitáveis cirurgias a curto prazo — Lula, para conseguir andar normalmente, e Bolsonaro, para remendar a tela implantada na parede de seu abdome.

Apesar dos problemas de saúde, a vaidade fala mais alto e Lula já admite tentar a reeleição, caso se aguente em pé até 2026, mas Bolsonaro só pode se candidatar em 2030, caso não seja novamente condenado, e já terá 75 anos.

MAIS PROVÁVEL – O futuro a Deus pertence, como dizia Armando Falcão, um ex-deputado cearense que Roberto Marinho conseguiu emplacar na pasta da Justiça no governo Geisel. Assim, o mais provável é que Lula, cansado de guerra e quase chegando aos 81 anos, desista da reeleição em 2026.

Sem os dois na disputa, a disputa terá uma polarização mitigada, livre da radicalização de sempre. E a sucessão será novamente decidida pelos eleitores de centro, que em 2022 apoiaram o petista.

Se Lula não disputar a reeleição e seu governo Lula não conseguir um desempenho espetacular, o candidato a ser apoiado por Bolsonaro deve ganhar com facilidade, caso conquiste os votos do centro, porque o sentimento antipetista ainda será muito forte em 2026.

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P.S. –
Esses prognósticos pouco valem, são apenas indicadores de circunstâncias. Em tradução simultânea, porém, pode-se dizer que o governador paulista Tarcísio de Freitas só perde a sucessão de 2026 se der muita bobeira. Ele continua ligado a Bolsonaro, que tem filhos, mas nenhum deles é seu herdeiro político. Além disso, Tarcísio de Freitas tem espaço e jogo de cintura para conquistar os votos do centro e da chamada terceira via. Posso estar errado, é claro, mas… (C.N.)