O pré-sal chega à maturidade e o Brasil precisa pensar no futuro

País deve repor reservas para manter autossuficiência

Pedro do Coutto

Vinte anos após a descoberta do pré-sal, o Brasil consolidou-se entre os grandes produtores mundiais de petróleo. A exploração em águas profundas transformou a economia nacional, ampliou as exportações e fortaleceu a posição estratégica do país no mercado internacional. Mas esse sucesso traz um desafio que não pode ser ignorado: como garantir que essa riqueza continue sustentando o desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas?

A questão vai além do volume de petróleo disponível. O verdadeiro desafio é preservar reservas, assegurar o abastecimento interno e aproveitar economicamente um recurso que, por natureza, é finito.

DIMENSÃO – Os números mostram a dimensão dessa transformação. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o Brasil produziu, em maio de 2026, cerca de 4,3 milhões de barris de petróleo por dia. O pré-sal respondeu por mais de 80% dessa produção, confirmando sua importância para a matriz energética nacional.

O desempenho, entretanto, esconde uma realidade importante. Quanto maior a produção atual, maior também é a necessidade de descobrir novas reservas capazes de substituir os campos que naturalmente perderão produtividade ao longo do tempo. Nenhuma província petrolífera é inesgotável.

Outro aspecto pouco compreendido é que produzir muito petróleo não significa independência total. O Brasil exporta grande parte do petróleo bruto, mas continua importando determinados derivados, como diesel e gasolina, em razão das características do parque de refino e das exigências do mercado. Isso evidencia que a segurança energética depende não apenas da extração, mas também da capacidade de transformar essa matéria-prima em produtos de maior valor agregado.

REPOSIÇÃO – Por isso, a reposição das reservas deve ocupar posição central na política energética brasileira. A continuidade da produção exige investimentos permanentes em pesquisa geológica, exploração de novas áreas e desenvolvimento tecnológico. Sem isso, a atual liderança pode se transformar, no futuro, em declínio produtivo.

Ao mesmo tempo, o debate precisa considerar a transição energética. O petróleo continuará sendo essencial por muitos anos, mas sua exploração deve servir para financiar a economia do futuro. Os recursos gerados pelo pré-sal podem impulsionar inovação, infraestrutura, educação, ciência e energias renováveis, reduzindo gradualmente a dependência dos combustíveis fósseis.

Também é necessário ampliar a agregação de valor. Exportar petróleo bruto e importar derivados significa abrir mão de parte da riqueza que poderia ser gerada internamente. Fortalecer o refino, a petroquímica e a indústria associada aumenta a competitividade do país e reduz vulnerabilidades externas.

CONDIÇÕES RARAS – O Brasil reúne condições raras: grandes reservas, domínio tecnológico na exploração em águas profundas e uma matriz energética relativamente diversificada. A questão não é apenas produzir mais, mas definir uma estratégia capaz de transformar essa vantagem em desenvolvimento sustentável.

A discussão sobre novas fronteiras exploratórias também deve seguir critérios técnicos, econômicos e ambientais. Não se trata de escolher entre preservação e crescimento, mas de encontrar um equilíbrio que permita aproveitar os recursos naturais sem comprometer o futuro.

O maior risco seria acreditar que a abundância atual garante segurança permanente. O pré-sal representou uma conquista extraordinária da engenharia brasileira, mas seu legado dependerá das decisões tomadas agora.

FORMA DE UTILIZAÇÃO – Mais importante do que perguntar quanto petróleo ainda existe é definir como essa riqueza será utilizada. Se servir apenas para ampliar exportações, o país desperdiçará uma oportunidade histórica. Se financiar inovação, industrialização e a transição energética, poderá deixar um legado que sobreviva ao próprio petróleo.

O pré-sal colocou o Brasil entre as grandes potências energéticas. O desafio dos próximos anos será provar que o país é capaz não apenas de extrair essa riqueza, mas de transformá-la em um projeto duradouro de desenvolvimento nacional.

O risco de transformar a eleição brasileira em palco da direita internacional

Sem projeto, Flávio recorre ao espetáculo

Pedro do Coutto

O lançamento oficial da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência deveria representar a afirmação de um projeto político nacional. O que se viu, porém, foi uma cerimônia marcada menos pela apresentação de uma agenda própria e mais pela tentativa de reafirmar a continuidade do bolsonarismo, pela presença simbólica de Jair Bolsonaro e pela intervenção de um presidente estrangeiro no debate eleitoral brasileiro. Em vez de projetar autonomia, o evento expôs a dependência de uma candidatura que ainda parece procurar sua própria identidade.

Flávio atacou o PT, criticou o governo Lula e prometeu chegar ao Palácio do Planalto acompanhado do pai, a quem atribui papel central em uma eventual vitória. A promessa tem força emocional para a base bolsonarista, mas também revela um paradoxo: uma candidatura que pretende representar o futuro continua organizada em torno da figura de um ex-presidente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O passado, nesse caso, não aparece apenas como herança eleitoral. É o eixo da narrativa.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – A própria convenção deixou isso evidente. Impedido de participar presencialmente, Jair Bolsonaro esteve presente por meio de uma mensagem produzida com inteligência artificial. A tecnologia permitiu reproduzir a presença política de um líder ausente, mas também criou uma imagem carregada de simbolismo: o candidato que busca representar a continuidade de um projeto precisou recorrer a uma versão virtual do próprio pai para ocupar o espaço que, em outras circunstâncias, seria naturalmente dele. A mensagem reforça a força do sobrenome, mas evidencia também a dificuldade de Flávio em se apresentar como liderança plenamente autônoma.

O elemento mais controverso, contudo, foi Javier Milei. A presença do presidente argentino transformou o lançamento em algo maior do que uma convenção partidária brasileira. Milei subiu ao palco, atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes e associou a candidatura de Flávio a uma suposta ofensiva continental contra o socialismo. A eleição brasileira passou, assim, a ser apresentada como parte de uma disputa ideológica latino-americana.

A estratégia tem lógica eleitoral. Flávio tenta transformar uma candidatura ainda marcada por dificuldades de articulação em um capítulo de uma onda conservadora internacional. Ao lado de Milei, busca transmitir a ideia de que não está isolado e de que existe uma corrente política regional capaz de enfrentar a esquerda. O problema é que essa associação pode funcionar para consolidar uma base já convencida, mas não necessariamente para ampliar o eleitorado.

PROJETO DEFINIDO – A eleição brasileira, afinal, não será decidida em Buenos Aires. Será disputada diante de uma sociedade que enfrenta problemas concretos, como segurança pública, custo de vida, emprego, saúde e educação. A presença de líderes estrangeiros pode produzir imagens fortes e alimentar as redes sociais, mas dificilmente substitui a necessidade de apresentar ao eleitor um projeto consistente para o país.

Há ainda uma questão institucional que não deveria ser minimizada. Um chefe de Estado estrangeiro participar ativamente do lançamento de uma candidatura presidencial no Brasil é algo incomum e politicamente sensível. Não se trata de afirmar que a presença de Milei constitua, por si só, uma interferência ilegal no processo eleitoral.

Mas sua participação introduziu uma dimensão externa em uma disputa que deveria, essencialmente, ser decidida pelos brasileiros. Ao atacar diretamente o presidente brasileiro e um ministro do Supremo Tribunal Federal durante um evento partidário, Milei deixou de ser apenas um convidado internacional e assumiu o papel de protagonista de uma disputa política doméstica.

REFERÊNCIA EXTERNA – O contraste é significativo. Enquanto Flávio procura se afirmar como alternativa para governar o Brasil, o palco do lançamento foi ocupado por referências externas: Milei, Jair Bolsonaro e até a inteligência artificial usada para recriar a presença do ex-presidente. A impressão que fica é a de uma candidatura que ainda precisa responder a uma pergunta fundamental: o que há de Flávio Bolsonaro além do sobrenome Bolsonaro?

Esse será um dos maiores desafios de sua campanha. O apoio de Milei pode oferecer entusiasmo à militância e reforçar a imagem de pertencimento a uma direita internacional. Mas uma eleição presidencial exige mais do que mobilizar os já convencidos. Exige conquistar eleitores que não votaram no candidato anterior, dialogar com setores moderados e apresentar uma agenda capaz de ultrapassar as fronteiras ideológicas de sua própria base.

Flávio precisa administrar três forças: a fidelidade ao pai, que continua sendo seu principal patrimônio eleitoral; a necessidade de conquistar uma direita menos confrontacional e mais capaz de formar alianças; e a pressão para integrar uma articulação internacional que tem em Milei um de seus principais símbolos. O equilíbrio entre essas dimensões será decisivo para saber se sua candidatura conseguirá crescer ou permanecer restrita ao núcleo mais fiel do bolsonarismo.

MAIS DO MESMO– Por isso, o lançamento merece ser observado menos pelo espetáculo e mais pelo que revela. Ao colocar Milei no centro da cerimônia, apresentar Jair Bolsonaro por meio da inteligência artificial e fazer da crítica a Lula e Alexandre de Moraes um dos principais eixos do discurso, a candidatura parece ter escolhido reafirmar suas trincheiras antes de demonstrar capacidade de ampliar seu território político.

Milei pode ter ajudado Flávio a ocupar as manchetes e oferecido à campanha uma fotografia poderosa para sua base. Mas a mesma imagem que fortalece sua identidade ideológica também pode reforçar a percepção de dependência de referências externas e de uma política cada vez mais internacionalizada por líderes que não disputarão a Presidência do Brasil.

ARTIFÍCIO –  A presença de Milei produziu um efeito ambíguo. Para os que já estão com Flávio, foi um gesto de força e solidariedade política. Para os que estão fora desse campo, pode ter parecido justamente o contrário: a demonstração de que uma candidatura que pretende governar o Brasil ainda precisa recorrer a um presidente estrangeiro para ampliar sua estatura.

A eleição, entretanto, será brasileira. E o desafio de Flávio Bolsonaro será provar que consegue ser mais do que o herdeiro político de Jair Bolsonaro e mais do que o aliado brasileiro de Javier Milei. Precisará convencer o eleitor de que existe, em sua candidatura, um projeto próprio de país. Até aqui, o lançamento ofereceu muitas referências ao passado e ao exterior. O que ainda falta apresentar, com clareza, é o futuro que pretende construir para o Brasil.

Trump transforma o comércio em um labirinto de tarifas e incertezas

Trump cria um comércio de regras móveis

Pedro do Coutto

O novo ciclo de tarifas imposto por Donald Trump ao Brasil revela algo mais profundo do que uma disputa comercial. O problema para empresas e investidores não está apenas no tamanho da sobretaxa, mas na dificuldade de prever qual será a próxima medida, quais produtos serão atingidos e até onde poderá chegar a escalada protecionista de Washington.

É essa instabilidade que começa a alterar o comportamento das empresas. Exportadores precisam refazer contratos, recalcular margens e avaliar se ainda vale a pena manter determinados produtos no mercado americano. Importadores, por sua vez, não sabem se o custo de hoje será o mesmo daqui a alguns meses. O comércio deixa de ser organizado apenas pela lógica da competitividade e passa a incorporar uma variável cada vez mais importante: o risco político.

CAUTELA – A estratégia de Trump funciona justamente porque produz esse efeito. Uma tarifa conhecida pode ser incorporada ao planejamento. Uma tarifa que pode mudar a qualquer momento obriga empresas a agir com cautela. Investimentos são adiados, contratos são revistos e fornecedores começam a procurar alternativas. A incerteza, nesse cenário, torna-se uma espécie de imposto invisível sobre a economia.

O Brasil está particularmente exposto. Os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações brasileiras e representam um mercado relevante para setores industriais e do agronegócio. Mesmo quando determinados produtos são preservados por exceções, a complexidade do sistema tarifário dificulta o planejamento. Empresas precisam entender não apenas a alíquota anunciada, mas também como ela se combina com outras cobranças, classificações e eventuais medidas futuras.

O efeito pode ser mais duradouro do que a própria tarifa. Um comprador americano que substitui um fornecedor brasileiro por outro país pode não retornar imediatamente quando as condições comerciais melhorarem. A perda de mercado, portanto, não acontece necessariamente no momento em que a tarifa entra em vigor. Ela pode se consolidar lentamente, à medida que cadeias de fornecimento são reorganizadas.

CONTRADIÇÃO – Há ainda uma contradição na política de Trump. Ao tentar proteger empresas e empregos americanos por meio de barreiras comerciais, Washington também aumenta os custos e a insegurança para empresas que dependem de cadeias internacionais. O protecionismo pode favorecer determinados setores no curto prazo, mas, quando aplicado de forma ampla e imprevisível, tende a criar distorções que ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos.

Para o Brasil, a resposta exige equilíbrio. Uma reação automática, baseada apenas em retaliação, pode ampliar o conflito e gerar custos adicionais para empresas e consumidores. Mas uma postura passiva também seria um erro. O governo precisa manter a negociação diplomática, buscar exceções e defender os interesses dos exportadores, ao mesmo tempo em que prepara uma estratégia para reduzir a vulnerabilidade externa.

Esse talvez seja o ponto mais importante da atual crise. O Brasil não deveria limitar sua política comercial à tentativa de adivinhar o próximo movimento de Trump. A questão estratégica é construir condições para que decisões tomadas em Washington tenham impacto cada vez menor sobre a economia brasileira.

DEPENDÊNCIA – Isso significa diversificar mercados, ampliar acordos comerciais, melhorar a infraestrutura de exportação e aumentar a capacidade de vender produtos de maior valor agregado. Não se trata de abandonar o mercado americano, mas de evitar que ele seja uma dependência.

A política tarifária de Trump também expõe uma transformação mais ampla na economia mundial. Comércio e geopolítica estão cada vez mais misturados. Tarifas podem ser utilizadas não apenas para proteger setores econômicos, mas como instrumentos de pressão política e diplomática.

Empresas, portanto, precisam incorporar ao planejamento uma realidade que antes parecia excepcional: decisões políticas podem alterar rapidamente a lógica de seus negócios. É por isso que a questão central não é saber apenas quanto o Brasil pagará para exportar aos Estados Unidos. O verdadeiro custo está na imprevisibilidade.

DESCONFIANÇA– Quando regras comerciais mudam constantemente, o investimento se torna mais cauteloso, a confiança diminui e as empresas começam a buscar segurança em outros mercados. Trump pode usar as tarifas para pressionar parceiros e defender seus interesses, mas também corre o risco de acelerar um movimento de diversificação que, no longo prazo, reduza a centralidade do próprio mercado americano.

Para o Brasil, a lição é evidente. A diplomacia precisa tentar reduzir os danos imediatos, mas a política econômica deve olhar além da crise. Se cada nova decisão de Washington obriga o país a refazer seus cálculos, o problema não está apenas na tarifa. Está na dependência. E essa é uma vulnerabilidade que nenhuma negociação pontual será capaz de resolver.

O tarifaço como instrumento de pressão: quando o comércio vira arma política

Charge do J.Bosco (O Liberal)

Pedro do Coutto

A nova sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros representa mais do que uma decisão de natureza comercial. Ao acrescentar 12,5% às tarifas que já incidiam sobre parte das exportações brasileiras, Washington eleva a pressão sobre o Brasil e transforma a relação econômica entre os dois países em mais um capítulo de uma disputa que há muito deixou de ser apenas tarifária.

A medida, que se soma à alíquota de 25% anunciada anteriormente, cria um ambiente de crescente tensão e expõe a fragilidade de uma relação bilateral submetida, cada vez mais, à lógica do confronto político. O argumento apresentado pelo governo norte-americano para justificar a nova cobrança é particularmente controverso.

JUSTIFICATIVA – Segundo a justificativa divulgada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), países afetados pela medida teriam falhado em impor e aplicar de maneira efetiva uma proibição à importação de produtos fabricados com trabalho forçado. No caso brasileiro, a acusação provocou reação imediata do governo, que considerou a justificativa descabida e sem fundamento.

É preciso, portanto, separar duas coisas. O combate ao trabalho forçado é uma pauta legítima e universal, que deve ser defendida por qualquer democracia. O problema surge quando uma questão de direitos humanos é utilizada como fundamento para uma política comercial unilateral sem que estejam claros os critérios objetivos, as evidências e a proporcionalidade da punição aplicada. A defesa dos direitos trabalhistas não pode ser seletiva, tampouco transformar-se em instrumento de coerção econômica.

A nova tarifa também precisa ser analisada dentro de um contexto mais amplo. A política comercial do governo de Donald Trump tem recorrido sistematicamente às tarifas como mecanismo de pressão sobre parceiros e concorrentes. Nesse modelo, a barreira alfandegária deixa de ser apenas uma ferramenta de proteção econômica e passa a funcionar como instrumento de negociação diplomática e, em determinadas circunstâncias, de pressão política. É justamente aí que está o aspecto mais preocupante para o Brasil.

DESAFIO – Quando tarifas são impostas com justificativas que ultrapassam a esfera estritamente comercial, o país atingido precisa responder com equilíbrio. Não basta reagir com indignação, mas também seria um erro aceitar passivamente uma escalada que pode prejudicar empresas brasileiras, trabalhadores e setores inteiros da economia. O desafio é construir uma resposta que combine firmeza diplomática, proteção aos exportadores e diversificação de mercados.

O Brasil tem razões para questionar a medida. A economia brasileira possui uma relação comercial relevante com os Estados Unidos, mas não depende exclusivamente do mercado norte-americano. O país tem condições de ampliar sua presença na Ásia, na Europa, no Oriente Médio e em outras regiões.

A diversificação, porém, não acontece da noite para o dia. Empresas que construíram cadeias produtivas e relações comerciais ao longo de décadas não conseguem simplesmente substituir um mercado por outro a partir de uma decisão governamental. Por isso, o tarifaço representa um problema imediato, mas também uma oportunidade para o Brasil rever sua estratégia de inserção internacional.

CAUTELA – A resposta brasileira não deveria ser uma guerra comercial movida pela emoção. Retaliações podem ser necessárias em determinadas circunstâncias, sobretudo quando mecanismos multilaterais e negociações bilaterais fracassam, mas precisam ser calculadas. Uma escalada indiscriminada poderia atingir consumidores brasileiros e setores que dependem de produtos, componentes e tecnologias importados dos Estados Unidos. O caminho mais inteligente é combinar diplomacia, direito internacional e política econômica.

O Brasil deve contestar as medidas nos fóruns adequados, negociar diretamente com Washington e, ao mesmo tempo, acelerar uma estratégia de abertura de novos mercados. Também precisa fortalecer sua indústria, agregar valor às exportações e reduzir a dependência de uma pauta baseada predominantemente em commodities. Quanto maior a capacidade brasileira de exportar produtos de maior valor agregado, menor será sua vulnerabilidade diante de decisões unilaterais tomadas por grandes potências.

A nova tarifa, nesse sentido, revela uma contradição importante da política comercial norte-americana. Os Estados Unidos defendem, com razão, padrões elevados de direitos humanos e combate ao trabalho forçado. Mas a credibilidade dessa defesa depende da consistência com que esses princípios são aplicados. Se o argumento humanitário aparece apenas quando serve para justificar barreiras comerciais, sua força moral inevitavelmente diminui.

COMBATE PERMANENTE – O Brasil também precisa fazer sua parte. Não há espaço para negar problemas reais relacionados ao trabalho escravo contemporâneo ou às violações trabalhistas que ainda existem no país. O combate a essas práticas deve ser permanente, independentemente de qualquer pressão estrangeira. Mas reconhecer problemas internos não significa aceitar que outro país estabeleça unilateralmente sanções econômicas sem transparência suficiente sobre os critérios utilizados.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre tarifas e passa a envolver soberania. Nenhum país deve ser indiferente às consequências de suas políticas comerciais. Mas também nenhuma nação pode aceitar que relações econômicas sejam utilizadas como instrumento para impor decisões políticas ou interferir em assuntos internos. O comércio internacional precisa de regras, previsibilidade e mecanismos multilaterais de arbitragem. Quando cada potência passa a impor unilateralmente suas próprias condições, o sistema internacional se torna mais instável e imprevisível.

ERROS PERIGOSOS – O Brasil, portanto, precisa evitar dois erros igualmente perigosos: a submissão e o nacionalismo inconsequente. Submissão seria aceitar qualquer medida externa por medo de represálias. Nacionalismo inconsequente seria responder a toda provocação com uma escalada que prejudique a própria economia brasileira. Entre os dois extremos existe uma política externa madura, capaz de defender interesses nacionais sem transformar cada conflito em uma crise permanente.

A nova sobretaxa de 12,5% é um sinal de alerta. Somada à tarifa de 25% anunciada anteriormente, ela amplia significativamente a pressão sobre as exportações brasileiras e mostra que a relação entre Brasília e Washington entrou em uma fase de maior complexidade.

O governo brasileiro precisa compreender que o problema não será resolvido apenas com discursos. Será necessário negociar, contestar, diversificar e proteger. Ao mesmo tempo, é preciso comunicar à sociedade, com clareza, quais setores serão afetados e quais medidas concretas serão adotadas para reduzir os impactos.

INSTRUMENTO DE PRESSÃO – No fundo, a questão central não é apenas quanto o Brasil pagará para vender seus produtos aos Estados Unidos. A questão é até que ponto o comércio internacional continuará sendo regido por regras compartilhadas ou se será progressivamente transformado em instrumento de pressão das grandes potências.

Se prevalecer a segunda hipótese, o Brasil terá de estar preparado. Porque, quando tarifas deixam de ser apenas tarifas e passam a funcionar como armas de pressão política, a resposta de um país não pode ser improvisada. Ela precisa ser estratégica.

O Centrão se afasta de Flávio Bolsonaro — e o bolsonarismo sente o golpe

Entre a reação e a prudência, o Brasil precisa defender seus interesses

Brasil evita uma retaliação imediata ao tarifaço

Pedro do Coutto

A decisão do governo brasileiro de não responder imediatamente às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos com uma retaliação equivalente é, antes de tudo, uma escolha de estratégia. Em um cenário de crescente tensão comercial, reagir por impulso pode produzir um efeito político imediato, mas não necessariamente protege os interesses econômicos do país.

O desafio de Brasília é mais complexo: enfrentar uma medida que atinge parte relevante das exportações brasileiras sem transformar uma disputa tarifária em uma guerra comercial capaz de ampliar ainda mais os prejuízos para empresas, trabalhadores e consumidores dos dois países.

PERSPECTIVA – O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, tem insistido justamente nessa perspectiva. A nova tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos atinge uma série de produtos brasileiros, embora importantes setores tenham ficado de fora da medida.

Café, carne bovina e produtos aeronáuticos, por exemplo, estão entre as exportações preservadas das novas tarifas, enquanto segmentos como máquinas, móveis, calçados, açúcar, etanol e outros bens industriais enfrentam um cenário mais difícil de acesso ao mercado americano.  Segundo estimativas divulgadas pelo governo brasileiro, cerca de 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, equivalentes a aproximadamente US$ 7 bilhões, podem ser afetadas.

A dimensão do problema, portanto, não pode ser minimizada. Uma tarifa de 25% representa um aumento significativo do custo de entrada dos produtos brasileiros no mercado americano. Em setores nos quais as margens já são estreitas e a concorrência internacional é intensa, o impacto pode ser suficiente para reduzir vendas, provocar desvio de comércio e obrigar empresas a buscar rapidamente novos mercados. A indústria de calçados, por exemplo, já revisou para baixo suas perspectivas de exportação diante das dificuldades impostas pelo novo cenário.

CAUTELA – É nesse ponto que a cautela defendida por Alckmin ganha relevância. O Brasil dispõe de mecanismos jurídicos e comerciais para reagir. A Lei da Reciprocidade Econômica foi criada justamente para permitir respostas a medidas consideradas prejudiciais aos interesses nacionais. Mas ter um instrumento à disposição não significa que ele precise ser utilizado imediatamente ou da maneira mais contundente possível.

Uma retaliação automática poderia desencadear uma sequência de novas barreiras. Washington poderia responder com novas tarifas, o Brasil reagiria novamente e, em pouco tempo, empresas que nada têm a ver com a disputa política estariam pagando a conta. Em uma guerra comercial, governos anunciam medidas, mas são os produtores que enfrentam a perda de mercados e os consumidores que, em muitos casos, absorvem parte do aumento dos preços.

A experiência internacional mostra que tarifas raramente são uma solução simples. Elas podem proteger determinados setores em circunstâncias específicas, mas também elevam custos, alteram cadeias de fornecimento e criam incerteza para investimentos. O próprio governo brasileiro argumentou, durante as negociações, que medidas amplas contra produtos brasileiros poderiam gerar custos também para empresas e consumidores americanos, especialmente nos segmentos em que não existem substitutos nacionais competitivos em quantidade suficiente.

NEGOCIAÇÕES – Isso não significa, porém, que o Brasil deva aceitar passivamente a decisão americana. Prudência não é sinônimo de inação. O governo brasileiro tem mantido negociações com Washington e, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, foram realizadas mais de 30 reuniões entre as partes desde o início das investigações relacionadas à Seção 301. Brasília também contesta a justificativa das medidas e sustenta que elas não encontram respaldo suficiente nas regras multilaterais de comércio.

O caminho mais inteligente, portanto, parece estar entre dois extremos igualmente problemáticos: a submissão e a escalada. O Brasil precisa continuar negociando, mas sem abrir mão de seus interesses. Deve recorrer aos mecanismos da Organização Mundial do Comércio quando houver base jurídica para isso, preservar a possibilidade de aplicar medidas de reciprocidade e, ao mesmo tempo, ampliar sua estratégia de diversificação comercial.

Essa última frente talvez seja uma das lições mais importantes da crise. Quanto maior a dependência de um único mercado, maior a vulnerabilidade diante de decisões políticas tomadas fora do país. O Brasil tem uma pauta exportadora diversificada e relações comerciais relevantes com China, União Europeia, países da América Latina, Oriente Médio e outras regiões. A abertura de novos mercados não acontece de um dia para o outro, mas o episódio com os Estados Unidos reforça a necessidade de uma política comercial que não dependa excessivamente de qualquer parceiro individual.

CONTEXTO POLÍTICO – Há ainda uma dimensão política que não pode ser ignorada. O governo brasileiro avalia que as tarifas possuem componentes que ultrapassam a lógica estritamente econômica e estão inseridos em um contexto político mais amplo. A própria Agência Brasil registrou a avaliação de representantes brasileiros de que o tarifaço poderia estar relacionado ao ambiente eleitoral de 2026.

Ao mesmo tempo, autoridades americanas apresentaram justificativas ligadas a supostas práticas comerciais consideradas injustas por Washington. O fato é que a disputa combina comércio, política externa e interesses domésticos, tornando ainda mais delicada qualquer tentativa de resposta simplista.

Nesse ambiente, o Brasil precisa evitar dois erros. O primeiro seria transformar a negociação comercial em uma disputa de orgulho nacional, na qual a demonstração pública de força se sobrepusesse à defesa concreta dos interesses econômicos brasileiros. O segundo seria aceitar qualquer condição para evitar o conflito. Nenhuma dessas alternativas serve ao país.

INSTRUMENTOS DE RESPOSTA – A melhor política é aquela capaz de combinar firmeza e racionalidade. O governo deve negociar enquanto houver espaço para negociação, contestar juridicamente o que considerar abusivo e manter instrumentos de resposta preparados para o caso de as tratativas fracassarem. Ao mesmo tempo, precisa oferecer apoio aos setores atingidos, ajudar empresas a encontrar novos mercados e impedir que os efeitos das tarifas se transformem em desemprego e perda de competitividade.

A questão central não é, portanto, quem reage primeiro ou quem demonstra maior disposição para o confronto. A questão é quem consegue atravessar a crise preservando sua capacidade econômica e sua autonomia estratégica.

DIPLOMACIA –  A decisão de não retaliar imediatamente pode ser compreendida nessa perspectiva. Uma resposta precipitada talvez produzisse manchetes e satisfação política no curto prazo, mas poderia dificultar ainda mais a vida de exportadores brasileiros que dependem do mercado americano. A diplomacia econômica, nesse caso, exige paciência sem ingenuidade: conversar não significa concordar, assim como evitar uma retaliação imediata não significa abrir mão do direito de reagir.

O Brasil precisa deixar claro que deseja o diálogo, mas também que possui alternativas. A negociação será mais eficaz se vier acompanhada de capacidade de resposta, diversificação comercial e segurança jurídica. Em tempos de protecionismo crescente, a força de um país não está apenas no tamanho de suas tarifas de retaliação, mas na capacidade de proteger sua economia sem colocar seus próprios produtores no centro do fogo cruzado.

A prudência, nesse caso, não é fraqueza. É uma forma de estratégia. E, diante de uma disputa que pode se prolongar muito além de uma simples rodada de tarifas, talvez seja justamente a estratégia — e não a retaliação imediata — que melhor preserve os interesses brasileiros.

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Decisivo na eleição, voto feminino está no centro da disputa bolsonarista

Michelle ajudava o bolsonarismo a dialogar com eleitoras

Pedro do Coutto

A eleição de 2026 começa a revelar uma disputa que vai muito além da corrida presidencial. Dentro do próprio campo bolsonarista, o eleitorado feminino passou a ocupar uma posição estratégica, especialmente diante da distância que ainda separa Flávio Bolsonaro de Lula entre as mulheres. Nesse cenário, a movimentação política de Michelle Bolsonaro e a presença crescente de Fernanda Bolsonaro, mulher do senador, podem transformar a campanha em uma espécie de batalha silenciosa pela representação feminina da direita.

Michelle, que durante anos foi um dos principais ativos eleitorais do bolsonarismo, continua sendo pressionada por aliados a disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. A governadora Celina Leão voltou a defender publicamente sua candidatura e afirmou, neste fim de semana, que ainda tenta convencê-la a entrar na disputa. A assessoria da ex-primeira-dama, por sua vez, já negou que ela tenha desistido do projeto eleitoral.

PROTAGONISMO – A questão ganhou outra dimensão porque Michelle se tornou uma personagem central da crise interna que atingiu a família Bolsonaro. O rompimento político com Flávio, marcado por críticas públicas e pela saída da presidência do PL Mulher, retirou da campanha presidencial uma das figuras que mais ajudavam o bolsonarismo a dialogar com eleitoras, especialmente nos segmentos conservador e evangélico. A crise expôs justamente uma dificuldade histórica da direita brasileira: ampliar sua capacidade de comunicação com o eleitorado feminino.

É nesse espaço que a presença de Fernanda Bolsonaro ganha importância. A mulher de Flávio passou a aparecer mais na cena política e eleitoral justamente quando Michelle se afastou do núcleo da campanha. A movimentação não significa necessariamente que Fernanda possa substituir a ex-primeira-dama — são personagens com trajetórias, públicos e capital político diferentes —, mas revela uma tentativa de preencher uma lacuna que se tornou evidente.

O problema é que o eleitorado feminino não funciona como um bloco homogêneo, tampouco pode ser simplesmente transferido de uma liderança para outra. Michelle construiu uma identidade política própria, sobretudo entre mulheres evangélicas e conservadoras, e sua influência não se confunde automaticamente com a candidatura de Flávio.

DIFERENÇAS – A pesquisa Genial/Quaest citada pela Folha mostrou uma diferença expressiva entre os sexos: no cenário de primeiro turno divulgado em junho, Lula aparecia com 41% entre as mulheres, enquanto Flávio registrava 24%. No eleitorado geral, os números eram de 39% e 29%, respectivamente.

A matemática eleitoral ajuda a explicar a tensão. Se a campanha de Flávio precisa avançar entre as mulheres, a ausência de Michelle representa uma perda potencial de interlocução. Não por acaso, o senador declarou recentemente que não mantém relação com a ex-primeira-dama e afirmou que não pretende pressioná-la a apoiar sua candidatura. A declaração expõe uma realidade política difícil de esconder: a campanha presidencial do bolsonarismo terá de lidar com a possibilidade concreta de seguir sem uma de suas principais figuras de comunicação com o eleitorado feminino.

Há, portanto, uma contradição no centro da estratégia. De um lado, Michelle pode fortalecer sua própria trajetória política ao disputar o Senado pelo Distrito Federal e consolidar uma posição independente dentro do campo conservador. De outro, sua eventual candidatura pode acentuar a fragmentação de um eleitorado que o grupo de Flávio precisa conquistar. A disputa deixa de ser apenas familiar ou interna ao bolsonarismo e passa a ter consequências eleitorais.

CAPITAL POLÍTICO – A tentativa de ampliar a presença feminina na campanha, portanto, não deve ser confundida com uma simples substituição de nomes. Fernanda pode ganhar espaço, mas Michelle possui um capital político acumulado que não se transfere por herança familiar. A questão decisiva será saber se a direita conseguirá apresentar uma narrativa capaz de reunir essas diferentes figuras ou se a disputa entre elas acabará aprofundando a divisão de um eleitorado estratégico.

O próprio cenário nacional mostra o tamanho do desafio. Pesquisa Quaest divulgada em julho apontou Lula à frente de Flávio na corrida presidencial, enquanto levantamentos anteriores já indicavam dificuldades maiores do senador entre as mulheres.

DIVISÃO – No fim, a eleição poderá produzir uma resposta para uma pergunta que hoje permanece em aberto: o voto feminino conservador seguirá orbitando uma liderança central ou começará a se dividir entre diferentes nomes e projetos dentro da própria direita?

A resposta terá impacto não apenas sobre a disputa pelo Senado no Distrito Federal, mas também sobre a capacidade de Flávio Bolsonaro de construir uma candidatura presidencial competitiva. Porque, em uma eleição tão polarizada, conquistar o eleitorado feminino não será apenas uma questão de imagem. Será uma questão de sobrevivência eleitoral.

Brasil reforça apoio a exportadores para evitar escalada da crise com os EUA

Governo dimensiona perdas dos setores atingidos

Pedro do Coutto

A escalada da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos impôs ao governo Lula da Silva um desafio que vai muito além da política externa. Ao mesmo tempo em que precisa responder aos efeitos econômicos do novo tarifaço norte-americano, o Planalto procura evitar uma reação que possa aprofundar as tensões com Washington e comprometer ainda mais as exportações brasileiras.

Nesse contexto, o governo intensificou uma rodada de conversas com os setores mais atingidos pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. O objetivo é dimensionar as perdas efetivas de cada segmento e calcular o volume de recursos necessários para reforçar o programa Brasil Soberano, criado justamente para oferecer apoio financeiro e preservar a competitividade das empresas exportadoras afetadas pelas restrições comerciais.

ORÇAMENTO – Até o momento, o programa conta com orçamento de aproximadamente R$ 21 bilhões. A tendência, segundo integrantes do governo, é que esse montante seja ampliado caso os levantamentos indiquem impactos superiores aos inicialmente projetados. A prioridade é direcionar os recursos para empresas mais expostas ao mercado norte-americano, preservando empregos, capacidade produtiva e fluxo de exportações.

A estratégia, entretanto, revela um aspecto importante da condução política do governo: a preferência por uma resposta econômica, e não por uma escalada diplomática. Embora o Brasil tenha aprovado instrumentos legais que permitem medidas de reciprocidade comercial, o presidente Lula tem tratado com cautela a possibilidade de retaliar diretamente os Estados Unidos.

NOVAS SANÇÕES – No entendimento do Palácio do Planalto, uma resposta equivalente poderia provocar uma nova rodada de sanções por parte do governo norte-americano, ampliando as perdas para setores estratégicos da economia brasileira.

Essa avaliação é compartilhada por integrantes da equipe econômica e diplomática. A leitura predominante é que, diante da atual disposição da administração norte-americana, uma retaliação dificilmente encerraria o conflito. Ao contrário, poderia alimentar uma dinâmica de sucessivas respostas comerciais, aumentando a insegurança para empresas e investidores.

Há ainda outro componente que pesa nas decisões do governo brasileiro: o calendário político. Nos bastidores de Brasília cresce a percepção de que uma negociação de maior alcance entre os dois governos dificilmente avançará antes das eleições presidenciais brasileiras. A avaliação é que tanto Brasília quanto Washington tendem a evitar concessões relevantes durante um período marcado pela disputa política e pelo elevado custo eleitoral de eventuais recuos.

IMPACTOS INTERNOS – Na prática, isso significa que o governo trabalha com um horizonte de convivência prolongada com as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos. Em vez de apostar exclusivamente na reversão das tarifas por meio da negociação diplomática, o Executivo concentra esforços em reduzir os impactos internos, fortalecendo instrumentos de crédito, apoio financeiro e preservação da capacidade exportadora.

Essa postura também reflete uma mudança de enfoque na política econômica. Em cenários de maior instabilidade internacional, programas de apoio ao setor produtivo deixam de funcionar apenas como medidas emergenciais e passam a integrar uma estratégia de proteção da atividade econômica. O desafio consiste em evitar que empresas competitivas percam mercados externos em razão de fatores geopolíticos sobre os quais possuem pouca influência.

DIÁLOGO – Ao mesmo tempo, o governo busca preservar canais institucionais de diálogo com os Estados Unidos, ainda que reconheça as limitações atuais dessas negociações. A aposta é que manter aberta a interlocução diplomática poderá facilitar uma futura recomposição das relações comerciais quando o ambiente político se mostrar mais favorável.

Entre ampliar o apoio aos exportadores e evitar uma escalada de retaliações, o governo Lula procura construir uma resposta pragmática. A prioridade, neste momento, parece ser reduzir os danos econômicos imediatos sem transformar uma disputa comercial em uma crise diplomática ainda mais profunda. Enquanto as negociações permanecem praticamente congeladas, o fortalecimento do Brasil Soberano surge como o principal instrumento para amortecer os efeitos de um conflito que, ao que tudo indica, continuará influenciando a economia brasileira até que o cenário político permita uma reaproximação entre os dois países.

O que as exceções do tarifaço revelam sobre a estratégia de Washington

O que a nova pesquisa Quaest revela sobre a disputa eleitoral de 2026

Aprovação do governo atingiu seu melhor patamar

Pedro do Coutto

Pesquisas eleitorais fotografam um momento, mas, quando sucessivos levantamentos apontam na mesma direção, deixam de registrar apenas um instante e passam a indicar uma tendência. É exatamente esse o aspecto mais relevante da nova pesquisa Genial/Quaest.

Mais do que mostrar Lula da Silva numericamente à frente de Flávio Bolsonaro, o levantamento revela um movimento político mais profundo: o presidente cresce enquanto seu principal adversário perde terreno. A mudança parece pequena quando observada apenas pelos números, mas seu significado é bem maior.

INFLEXÃO – Depois de meses em que Lula e Flávio Bolsonaro alternaram empates técnicos ou pequenas oscilações, a série histórica da Quaest passou a indicar uma inflexão. Em junho, Lula já havia rompido o empate e aberto vantagem. Agora, o novo levantamento mostra que essa diferença aumentou, ao mesmo tempo em que a aprovação do governo atingiu seu melhor patamar desde meados de 2025 e voltou a superar a desaprovação, algo que não ocorria desde 2024.

A combinação desses indicadores merece atenção porque campanhas presidenciais costumam ser influenciadas por dois fatores simultâneos: a avaliação do governo e a percepção sobre a força dos adversários. Quando esses dois movimentos caminham na mesma direção, o cenário eleitoral tende a se consolidar com maior rapidez.

Não significa, naturalmente, que a eleição esteja decidida. Faltam meses para a votação, a campanha ainda não começou oficialmente e episódios econômicos, políticos ou judiciais podem alterar significativamente o ambiente eleitoral. Ainda assim, ignorar a mudança registrada pelas pesquisas seria deixar de perceber um fenômeno importante.

DIVERGÊNCIAS – Parte dessa transformação pode ser explicada pelo momento vivido pelo campo conservador. Desde a definição de Flávio Bolsonaro como principal representante do bolsonarismo, a direita deixou de apresentar a aparência de unidade construída ao longo dos últimos anos. As divergências tornaram-se públicas, lideranças passaram a disputar protagonismo e diferentes correntes começaram a questionar qual deveria ser o caminho para enfrentar Lula.

Esse ambiente naturalmente produz efeitos eleitorais. Nenhuma candidatura cresce apenas pela força do próprio discurso. Ela depende também da capacidade de unificar aliados, reduzir conflitos internos e transmitir segurança aos eleitores. Quando o debate passa a ocorrer dentro da própria oposição, parte da energia política deixa de ser direcionada contra o governo e passa a ser consumida pelas disputas internas.

Nesse contexto, a queda de Flávio Bolsonaro pode ser mais significativa do que a própria vantagem numérica obtida por Lula. Durante meses, o senador havia conseguido consolidar sua posição como principal nome da direita e reduzir progressivamente a distância para o presidente. Em determinados momentos da série histórica, chegou inclusive a aparecer tecnicamente empatado ou numericamente à frente dentro da margem de erro. O novo levantamento, entretanto, indica uma inversão dessa trajetória.

RECUO – Mais importante do que estar atrás é interromper uma curva ascendente. Campanhas vivem de expectativas. Quando um candidato cresce sucessivamente, transmite a sensação de que pode vencer. Quando passa a recuar em pesquisas consecutivas, o ambiente político muda. Parlamentares tornam-se mais cautelosos, partidos começam a recalcular estratégias, financiadores reavaliam apostas e aliados passam a considerar alternativas.

Esse efeito psicológico costuma ser subestimado, mas exerce enorme influência na política. Boa parte das decisões tomadas por dirigentes partidários não depende apenas dos números absolutos, mas da direção em que eles caminham.

No caso de Lula, o movimento parece seguir a lógica inversa. O presidente atravessou um longo período em que sua popularidade foi pressionada pela inflação dos alimentos, pela percepção negativa sobre a economia e pelas dificuldades de comunicação do governo. Em diversos momentos, a desaprovação superou a aprovação, alimentando dúvidas sobre sua capacidade de disputar um novo mandato em condições competitivas.

APROVAÇÃO DE LULA – A nova pesquisa sugere uma recuperação desse quadro. A aprovação voltou a superar a desaprovação e isso tende a produzir consequências eleitorais importantes. Presidentes que conseguem recuperar apoio popular normalmente também ampliam sua capacidade de mobilizar aliados, reduzir tensões na base parlamentar e transmitir estabilidade institucional.

Não é coincidência que o crescimento eleitoral de Lula ocorra paralelamente à melhora na avaliação do governo. Historicamente, no Brasil e em outras democracias presidencialistas, existe forte correlação entre aprovação administrativa e desempenho nas urnas. Quando o eleitor melhora sua percepção sobre o governo, frequentemente reduz sua disposição para apostar numa mudança de comando.

Isso não significa que o governo tenha resolvido todos os seus problemas. A economia continuará sendo um fator decisivo até outubro. Questões como inflação, renda, emprego, segurança pública e qualidade dos serviços continuarão influenciando o humor do eleitorado. Da mesma forma, a oposição ainda dispõe de tempo suficiente para reorganizar sua estratégia e reconstruir uma narrativa capaz de recuperar competitividade.

INTENÇÃO DE VOTO – Outro aspecto relevante é que pesquisas não medem apenas intenção de voto. Elas capturam expectativas sociais. Quando um candidato passa a ser percebido como favorito, parte do eleitorado moderado tende a migrar para aquele que considera mais viável, enquanto lideranças políticas procuram aproximar-se de quem enxergam com maiores chances de vitória. Esse movimento costuma ser lento no início, mas pode acelerar à medida que a campanha se aproxima.

É justamente por isso que a atual sequência de levantamentos merece atenção. O dado mais importante talvez não seja a diferença específica entre Lula e Flávio Bolsonaro em um único levantamento, mas a direção assumida pela curva nas últimas pesquisas. Enquanto Lula registra recuperação gradual de aprovação e melhora eleitoral, Flávio deixa de crescer e passa a perder espaço.

Ainda é cedo para afirmar que essa tendência será definitiva. A história eleitoral brasileira está repleta de mudanças bruscas ocorridas durante as campanhas. Debates, crises econômicas, fatos políticos inesperados ou acontecimentos internacionais podem alterar rapidamente o cenário.

IMPULSO – Mas também seria um erro minimizar o que os números revelam neste momento. A política costuma premiar quem consegue transformar estabilidade em impulso. Hoje, é exatamente isso que as pesquisas sugerem em relação ao presidente: além de recuperar aprovação, Lula voltou a converter essa melhora administrativa em vantagem eleitoral.

Para a oposição, o desafio deixou de ser apenas reduzir a distância para o presidente. Passa, antes, por reconstruir a unidade interna e convencer o eleitorado de que continua existindo um projeto capaz de disputar o poder em condições reais de vitória. Sem essa reorganização, a tendência observada pela Quaest poderá deixar de ser apenas uma fotografia do presente para tornar-se o roteiro dominante da campanha presidencial de 2026.

O desafio de Flávio Bolsonaro para conter o efeito das reações de Michelle

Charge do Cláudio (Folha)

Pedro do Coutto

A política costuma ensinar que adversários externos são mais fáceis de enfrentar do que divergências internas. Quando o conflito nasce dentro da própria família política, o custo tende a ser maior porque afeta aquilo que nenhuma campanha consegue fabricar rapidamente: a percepção de unidade.

É nesse contexto que se insere o esforço do senador Flávio Bolsonaro para reduzir os efeitos políticos do crescente protagonismo de Michelle Bolsonaro, tema abordado por Vera Magalhães em sua coluna publicada em O Globo. Segundo a jornalista, Flávio trabalha para reconstruir pontes com o eleitorado feminino e impedir que a ex-primeira-dama consolide um espaço político autônomo capaz de alterar os equilíbrios internos do bolsonarismo.

ESPÓLIO POLÍTICO – A movimentação não surpreende. Desde que Jair Bolsonaro passou a enfrentar restrições judiciais e viu diminuir sua capacidade de liderar diretamente a oposição, a disputa pela condução do espólio político do ex-presidente deixou de ser uma hipótese para se tornar um processo em andamento. Embora o discurso oficial continue enfatizando união, os sinais emitidos pelas principais lideranças indicam que diferentes projetos convivem sob o mesmo guarda-chuva partidário.

Flávio Bolsonaro ocupa uma posição singular nessa arquitetura. Como filho mais velho politicamente ativo e senador da República, procura apresentar-se como o herdeiro natural do capital político do pai. Sua estratégia tradicionalmente privilegia a negociação institucional, o diálogo com dirigentes partidários e a construção de alianças que ampliem a margem de sobrevivência eleitoral do grupo. É um perfil mais pragmático do que ideológico, preocupado em preservar a influência da família no Congresso e nas articulações nacionais.

Michelle Bolsonaro, por outro lado, construiu uma trajetória distinta. Sua força deriva menos da ocupação de cargos públicos e mais da conexão emocional estabelecida com parcelas importantes do eleitorado conservador, especialmente entre mulheres evangélicas. Durante a passagem pelo Palácio do Planalto, consolidou uma imagem pública baseada na religiosidade, na assistência social e em pautas familiares, atributos que lhe conferem identidade própria, relativamente independente da atuação parlamentar dos filhos de Jair Bolsonaro.

DESCONFORTO – É justamente essa autonomia que produz desconforto. Enquanto Flávio opera dentro da lógica da política institucional, Michelle dialoga com um campo marcado pela identificação simbólica. Em campanhas eleitorais contemporâneas, esse tipo de vínculo costuma ser mais resistente às oscilações da conjuntura, porque depende menos de resultados concretos e mais da construção de identidade coletiva.

Nos últimos meses, entretanto, o senador passou a enfrentar um ambiente menos favorável. O noticiário político deixou de oferecer fatos capazes de reorganizar a narrativa da oposição, enquanto episódios sucessivos ampliaram o desgaste interno do campo bolsonarista. Sem acontecimentos suficientemente fortes para alterar a agenda pública, a disputa por espaço dentro da própria direita ganhou mais visibilidade.

Esse talvez seja o maior problema para Flávio. Em política, narrativas precisam ser alimentadas continuamente por fatos novos. Quando eles deixam de surgir, prevalecem interpretações produzidas pelos próprios atores políticos e pela imprensa. Nesse vazio informativo, qualquer sinal de divergência passa a adquirir dimensão muito maior do que teria em momentos de intensa polarização nacional.

DIÁLOGO DIRETO – A dificuldade também decorre de uma mudança estrutural da política brasileira. Durante muitos anos, partidos concentravam o poder de definir candidaturas e controlar a comunicação. Hoje, lideranças individuais dialogam diretamente com milhões de seguidores nas redes sociais, produzindo agendas próprias e reduzindo a capacidade de coordenação das estruturas partidárias. Michelle Bolsonaro tornou-se uma expressão desse fenômeno. Sua influência já não depende exclusivamente da família nem do PL; ela resulta de uma comunidade política que reconhece nela atributos específicos.

Há ainda um componente geracional. Parte do eleitorado conservador demonstra disposição para preservar o legado de Jair Bolsonaro, mas sem necessariamente reproduzir toda a configuração familiar construída ao longo da última década. Isso abre espaço para diferentes interpretações sobre quem deve representar esse patrimônio eleitoral. Para alguns, a continuidade passa pelos filhos; para outros, Michelle reúne melhores condições de ampliar a base social do movimento.

Flávio parece compreender esse risco. Sua tentativa de reforçar a interlocução com o público feminino não decorre apenas de uma preocupação eleitoral imediata. Trata-se de reconhecer que as mulheres passaram a ocupar papel decisivo na definição das disputas presidenciais brasileiras. Nenhuma candidatura competitiva consegue ignorar esse segmento, especialmente depois das mudanças observadas nas eleições recentes, quando questões relacionadas à economia doméstica, segurança, saúde e qualidade de vida passaram a pesar tanto quanto as grandes disputas ideológicas.

CREDIBILIDADE – O desafio, entretanto, é que comunicação política não se resume à elaboração de discursos. Ela depende de credibilidade acumulada ao longo do tempo. Michelle construiu essa relação durante anos de exposição pública em agendas sociais, religiosas e assistenciais. Flávio precisaria produzir uma identidade própria para esse eleitorado, e isso dificilmente ocorre apenas como resposta a uma conjuntura desfavorável.

Outro fator limita sua margem de ação. A oposição enfrenta dificuldades para estabelecer uma agenda positiva capaz de deslocar o debate nacional. Enquanto permanece concentrada na defesa de Jair Bolsonaro e na reação às decisões judiciais envolvendo o ex-presidente, sobra pouco espaço para apresentar propostas capazes de mobilizar novos segmentos sociais. Sem uma plataforma programática renovada, cresce a tendência de que as disputas internas ocupem o centro do debate.

Esse cenário torna a administração das diferenças ainda mais delicada. Qualquer movimento excessivamente agressivo contra Michelle poderia ser interpretado como disputa familiar e produzir desgaste adicional. Por outro lado, a ausência de reação reforçaria a percepção de que sua liderança cresce sem contrapontos relevantes. Trata-se de um equilíbrio difícil de administrar.

MODELO DE LIDERANÇA – No fundo, a questão ultrapassa a relação entre Flávio e Michelle. O que está em disputa é o modelo de liderança que prevalecerá na direita brasileira após Jair Bolsonaro. Permanecerá uma estrutura fortemente familiar, organizada em torno dos filhos, ou surgirá uma configuração mais ampla, capaz de incorporar novas lideranças com autonomia política?

Ainda é cedo para responder. Mas uma conclusão parece inevitável: quando os principais desafios de um grupo político deixam de vir dos adversários e passam a nascer dentro de casa, o problema dificilmente pode ser resolvido apenas com estratégias de comunicação.

Ele exige redefinição de liderança, reorganização de prioridades e capacidade de construir consensos. Até aqui, os fatos sugerem que Flávio Bolsonaro ainda procura encontrar esse ponto de equilíbrio, enquanto Michelle Bolsonaro continua ampliando um capital político cuja principal característica é justamente não depender exclusivamente do sobrenome que a projetou nacionalmente.

A corrida presidencial sob a sombra de uma grave crise institucional

Saída de Damares Alves expõe custo político da divisão no bolsonarismo

Damares foi alvo de ataques da própria direita

Pedro do Coutto

Em uma campanha presidencial, as perdas mais preocupantes nem sempre são as registradas nas pesquisas de intenção de voto. Muitas vezes, o maior dano ocorre nos bastidores, quando aliados estratégicos começam a se afastar, a coordenação perde coesão e a percepção de unidade dá lugar à narrativa de fragmentação. É nesse contexto que deve ser compreendida a decisão da senadora Damares Alves de deixar a equipe responsável pela elaboração do plano de governo do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). Ela diz que voltou atrás, mas a boataria continua.

A balançada de Damares vai além da substituição de um nome na estrutura da campanha. Ela simboliza uma crise que já ultrapassou o campo das divergências privadas e passou a afetar diretamente a construção política da candidatura. Ao justificar sua decisão, a senadora afirmou que “já fez o que era preciso no primeiro momento” e que poderia voltar a colaborar apenas em um eventual governo de transição. A declaração, longe de representar um rompimento definitivo, revela um claro distanciamento do núcleo da campanha justamente em seu momento mais delicado.

ATAQUES – O motivo apresentado também merece atenção. Damares afirmou ter sido alvo de ataques promovidos por integrantes da própria direita e revelou que Flávio Bolsonaro não a procurou diretamente após o agravamento da crise. Para uma liderança reconhecida como uma das principais pontes entre o bolsonarismo e segmentos expressivos do eleitorado evangélico e feminino, a ausência de uma tentativa pública de recomposição possui significado político evidente.

A situação ganha contornos ainda mais relevantes porque Damares não é apenas uma ex-ministra do governo Jair Bolsonaro. Ao longo dos últimos anos, consolidou-se como uma das figuras mais influentes do conservadorismo brasileiro, especialmente em pautas ligadas aos direitos das mulheres, infância, liberdade religiosa e políticas familiares. Sua participação na elaboração do programa de governo conferia legitimidade a uma área sensível da campanha, especialmente diante do desafio histórico da direita em ampliar sua aceitação entre o eleitorado feminino.

INSTABILIDADE INTERNA – Sua saída ocorre num ambiente de sucessivos episódios que alimentam a percepção de instabilidade interna. A crise envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro já havia produzido desgaste público, expondo divergências que anteriormente permaneciam restritas ao ambiente familiar e partidário. Damares, tradicionalmente próxima da ex-primeira-dama, acabou posicionada no centro desse conflito e tornou-se alvo de ataques nas redes sociais por parte de setores alinhados ao próprio campo conservador.

Outro aspecto relevante é a dimensão institucional do episódio. A senadora informou ter sido vítima de uma campanha coordenada de ataques e mencionou que a bancada feminina do Senado discute mecanismos institucionais para enfrentar episódios recentes de violência política contra mulheres, independentemente da formalização de denúncias individuais. O tema amplia o debate para além das disputas eleitorais, inserindo-o no contexto da proteção das mulheres que exercem mandato político e da crescente preocupação com campanhas de intimidação no ambiente digital.

Do ponto de vista eleitoral, o episódio alimenta uma narrativa difícil de administrar. Campanhas competitivas costumam buscar transmitir estabilidade, disciplina e capacidade de liderança. Quando figuras importantes passam a deixar a coordenação ou reduzem seu envolvimento, adversários encontram espaço para reforçar a ideia de enfraquecimento político, enquanto aliados passam a questionar os rumos estratégicos da candidatura.

DIFICULDADES – Isso não significa, necessariamente, que a candidatura de Flávio Bolsonaro esteja inviabilizada. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, reconheceu publicamente que o senador enfrenta dificuldades políticas, mas afirmou não acreditar que ele deixará a disputa presidencial. A avaliação de Kassab sugere que, apesar do momento turbulento, ainda existe margem para reorganização da campanha e recomposição das alianças internas.

Historicamente, campanhas eleitorais conseguem sobreviver a crises quando demonstram capacidade de absorver conflitos, reconstruir pontes e reorganizar suas lideranças. O problema surge quando episódios isolados passam a formar um padrão recorrente. A sucessão de saídas, desentendimentos públicos e disputas internas tende a produzir um efeito cumulativo, reduzindo a confiança de apoiadores, lideranças regionais e potenciais aliados.

DIMENSÃO SIMBÓLICA – Há ainda uma dimensão simbólica particularmente sensível. Em política, a percepção frequentemente pesa tanto quanto os fatos objetivos. Quando uma liderança reconhecida afirma que foi atacada pelo próprio campo político e decide interromper sua colaboração com o programa de governo, transmite-se a imagem de que os conflitos internos deixaram de ser pontuais para se tornarem estruturais.

Independentemente dos desdobramentos eleitorais, o episódio revela um desafio que ultrapassa uma candidatura específica. Movimentos políticos fortemente personalizados dependem da manutenção permanente da unidade entre suas principais lideranças. Quando essa coesão se rompe, a disputa deixa de ser apenas contra adversários externos e passa a ocorrer também dentro da própria coalizão.

Nos próximos meses, a capacidade de Flávio Bolsonaro de recompor sua base política será tão importante quanto sua estratégia para conquistar novos eleitores. Afinal, antes de convencer o eleitorado, toda candidatura precisa demonstrar que consegue manter unido o próprio grupo que pretende conduzir ao poder.

Adiar o Conselho de Ética do Supremo é mau sinal para a democracia brasileira

Charge do CVazo (Blog do AFTM)

Pedro do Coutto

A decisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal de postergar a apreciação do Código de Ética da Corte para depois das eleições de outubro produz um efeito simbólico que ultrapassa a própria pauta administrativa do tribunal.

Independentemente das razões que tenham levado ao adiamento, a mensagem transmitida à sociedade é difícil de conciliar com o momento político vivido pelo país: justamente quando a democracia será submetida ao seu maior teste — o processo eleitoral —, a principal Corte brasileira opta por adiar a discussão sobre as regras de conduta que disciplinarão seus próprios integrantes.

CONFLITO DE INTERESSES – O Código de Ética não é um detalhe burocrático nem uma peça decorativa da administração pública. É um instrumento de governança institucional destinado a prevenir conflitos de interesse, fortalecer a transparência, orientar comportamentos e preservar aquilo que nenhuma decisão judicial consegue impor por decreto: a confiança pública.

Foi exatamente por reconhecer essa necessidade que, na abertura do Ano Judiciário de 2026, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, anunciou a elaboração do código como uma das prioridades de sua gestão, destacando a importância de consolidar padrões de integridade e ampliar a credibilidade da instituição.

A legitimidade do Poder Judiciário repousa sobre um ativo invisível, mas indispensável: a confiança social. Juízes não possuem exércitos, nem dependem do voto popular para permanecer no cargo. Sua autoridade decorre da convicção coletiva de que suas decisões são tomadas com independência, imparcialidade e responsabilidade. Sempre que surgem dúvidas sobre esses pilares, a força institucional do Judiciário sofre desgaste, ainda que suas decisões permaneçam juridicamente válidas.

REGRAS DEMOCRÁTICAS –  É precisamente por isso que causa estranheza o adiamento da votação do Código de Ética para um momento posterior ao processo eleitoral. As eleições representam a mais elevada manifestação da soberania popular. São o instante em que divergências políticas encontram solução pacífica dentro das regras democráticas. Nesse ambiente, não basta que as instituições sejam corretas; é indispensável que também sejam percebidas como comprometidas com os mais elevados padrões éticos.

Naturalmente, um Código de Ética não elimina conflitos nem impede controvérsias. Nenhum documento possui esse poder. Sua função é outra: estabelecer parâmetros claros de conduta, disciplinar situações potencialmente sensíveis, oferecer transparência sobre procedimentos internos e reduzir zonas cinzentas capazes de alimentar suspeitas. Em democracias consolidadas, códigos dessa natureza constituem mecanismos permanentes de fortalecimento institucional, não respostas ocasionais a crises.

Nos últimos anos, o Supremo assumiu um protagonismo crescente na vida política brasileira. Questões eleitorais, disputas entre os Poderes, temas constitucionais de grande impacto e conflitos envolvendo agentes públicos passaram a ocupar frequentemente sua pauta. Esse protagonismo amplia também a responsabilidade da Corte perante a sociedade. Quanto maior o poder institucional, maior deve ser a preocupação com mecanismos de integridade, prestação de contas e autorregulação.

PARADOXO – Sob esse aspecto, o adiamento produz um paradoxo difícil de ignorar. Se o Código de Ética é importante — e a própria Presidência do STF afirmou que é —, sua utilidade se torna ainda mais evidente antes de uma eleição nacional, período em que a atuação da Justiça Eleitoral e do Supremo naturalmente desperta atenção redobrada da sociedade, dos partidos e da comunidade internacional.

É evidente que a ética não nasce da publicação de uma resolução. Ela depende da consciência individual, da cultura institucional e da observância cotidiana dos deveres funcionais. Mas normas possuem valor pedagógico, preventivo e simbólico. Elas tornam explícitos compromissos que deixam de depender exclusivamente da interpretação subjetiva de cada integrante da instituição.

O Brasil atravessa uma fase de intensa polarização política, na qual praticamente todas as instituições convivem com elevados níveis de desconfiança por parte de segmentos da população. Nesse contexto, toda iniciativa destinada a ampliar transparência e reforçar padrões éticos deveria ser compreendida como investimento na estabilidade democrática, e não como mera formalidade administrativa.

INTEGRIDADE INSTITUCIONAL – A questão central, portanto, não é jurídica. É institucional. O adiamento pode ser plenamente legítimo do ponto de vista procedimental. Contudo, sua oportunidade política suscita questionamentos inevitáveis. Quando se posterga justamente o debate sobre ética em um dos períodos mais sensíveis da vida democrática, perde-se a chance de transmitir uma mensagem clara de compromisso com a integridade institucional.

Democracias não se sustentam apenas por leis, votos ou decisões judiciais. Elas dependem, sobretudo, da confiança recíproca entre cidadãos e instituições. Essa confiança é construída lentamente, mas pode ser desgastada por sinais que, isoladamente, parecem pequenos, embora produzam grande impacto simbólico.

Talvez o Código de Ética venha a ser aprovado logo após as eleições. Se isso ocorrer, continuará sendo uma iniciativa relevante. Mas permanecerá a pergunta que o adiamento inevitavelmente deixa no ar: se a ética é essencial para fortalecer a legitimidade do Supremo, por que esperar justamente o término da eleição, momento em que ela se mostra mais necessária?

Valdemar Costa Neto expõe a engrenagem informal das emendas parlamentares

O método Vorcaro provoca a corrosão silenciosa das instituições brasileiras

Vorcaro tentava transformar informação em arma de poder

Pedro do Coutto

O escândalo envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, já extrapolou há muito tempo os limites de uma investigação sobre fraudes financeiras. A cada nova etapa da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, o que emerge é um retrato preocupante de um modelo de atuação que, segundo os investigadores, buscava combinar influência econômica, produção de narrativas, coleta de informações sensíveis e pressão sobre adversários. Se confirmados pela Justiça, os fatos revelam um mecanismo muito mais sofisticado do que um simples caso de corrupção financeira. Revelam uma tentativa de transformar informação em arma de poder.

A nova fase da investigação trouxe à tona mensagens que indicam que Vorcaro teria determinado ao publicitário Thiago Miranda o levantamento de informações pessoais e patrimoniais sobre o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho. De acordo com os autos mencionados na decisão judicial que autorizou buscas e apreensões, o executivo era visto como um obstáculo aos interesses do grupo ligado ao Banco Master. A resposta atribuída a Miranda — “deixa comigo” — tornou-se um dos símbolos daquilo que a Polícia Federal descreve como uma estrutura organizada para monitorar pessoas consideradas inconvenientes aos interesses da organização investigada.

MESMO PADRÃO – O episódio ganhou ainda maior dimensão porque não se restringia ao ambiente empresarial. As investigações apontam que o mesmo padrão teria sido empregado contra jornalistas responsáveis pela cobertura do caso Master. A colunista Malu Gaspar, de O Globo, aparece nas investigações como alvo de uma verdadeira devassa em seus dados pessoais, familiares e patrimoniais. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro demonstrava preocupação com novas reportagens e teria afirmado ser necessário “frear” a jornalista. O objetivo, segundo os investigadores, seria encontrar elementos capazes de constrangê-la ou enfraquecer sua credibilidade pública.

Não se trata apenas de um ataque a uma profissional de imprensa. Trata-se de um questionamento ao próprio funcionamento da democracia. Em qualquer Estado de Direito, jornalistas, investigadores, reguladores e executivos de instituições concorrentes exercem papéis distintos, mas igualmente essenciais para o equilíbrio do sistema. Quando passam a ser monitorados, pressionados ou transformados em alvos de campanhas coordenadas, o prejuízo deixa de ser individual. O dano alcança a capacidade das instituições de exercerem suas funções com independência.

As investigações também descrevem uma sofisticada estratégia de comunicação destinada a influenciar a opinião pública durante a crise do Banco Master. Segundo documentos da Polícia Federal, recursos financeiros teriam sido utilizados para contratar influenciadores digitais, estruturar campanhas em defesa da instituição e atacar decisões do Banco Central após a liquidação extrajudicial do banco. A suspeita é de que essa estratégia buscasse alterar a percepção pública dos fatos enquanto as autoridades aprofundavam as investigações. A defesa dos investigados nega a prática de crimes.

MECANISMOS DE PRESSÃO – O aspecto mais preocupante, contudo, talvez seja outro. Ao longo das últimas décadas, grandes escândalos de corrupção no Brasil frequentemente estiveram associados à compra de apoio político ou ao desvio direto de recursos públicos. O caso Master parece apontar para uma evolução desse modelo. Em vez de apenas buscar influência sobre decisões, a estrutura investigada teria investido também na construção de mecanismos permanentes de pressão, coleta de informações estratégicas e produção de narrativas favoráveis aos seus interesses.

Essa lógica representa uma ameaça mais sofisticada. Não depende exclusivamente de agentes públicos corrompidos. Ela procura capturar o ambiente onde decisões são tomadas, opiniões são formadas e reputações são construídas. Trata-se de um processo silencioso, capaz de atingir órgãos reguladores, veículos de comunicação, concorrentes privados e até integrantes do sistema financeiro.

O episódio envolvendo o executivo do Itaú ilustra exatamente essa mudança de paradigma. Não se investigava apenas um concorrente de mercado. Segundo a Polícia Federal, buscava-se mapear vulnerabilidades pessoais e patrimoniais que pudessem ser utilizadas futuramente. Ainda que eventual utilização desse material não tenha sido demonstrada, a própria produção desses levantamentos já desperta preocupações relevantes sobre privacidade, abuso de poder econômico e utilização de dados pessoais para fins de intimidação.

MONITORAMENTO – A reação institucional também revela a gravidade do caso. Entidades representativas da imprensa, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), manifestaram preocupação com as revelações envolvendo o monitoramento de jornalistas, classificando a prática como incompatível com a liberdade de imprensa e defendendo investigação rigorosa sobre eventual acesso ilegal a dados protegidos pela legislação brasileira.

O Brasil já conheceu diferentes formas de captura das instituições. Algumas ocorreram pela corrupção tradicional. Outras, pelo loteamento político. O caso envolvendo Daniel Vorcaro sugere um fenômeno ainda mais complexo: o uso integrado de poder econômico, inteligência informal, campanhas digitais e coleta clandestina de informações para neutralizar adversários e moldar o ambiente institucional em benefício próprio.

A responsabilidade de confirmar ou rejeitar essas acusações caberá ao Poder Judiciário, assegurando aos investigados o pleno direito ao contraditório e à ampla defesa. Mas as informações já tornadas públicas deixam uma advertência importante. A maior ameaça às democracias contemporâneas nem sempre se manifesta por ataques frontais às instituições. Muitas vezes, ela se desenvolve silenciosamente, por meio da intimidação, da manipulação da informação e da tentativa de transformar dados privados em instrumentos de poder. Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas criminal ou financeiro. Passa a ser institucional. E, por isso mesmo, interessa a toda a sociedade.

O novo normal da instabilidade entre Washington e Teerã é a guerra

Cada ataque é instrumento de pressão política

Pedro do Coutto

A sucessão de ataques, retaliações pontuais e tréguas provisórias entre Estados Unidos e Irã indica que o Oriente Médio entrou em uma nova fase estratégica. Não se trata propriamente de paz, mas também não é uma guerra convencional em larga escala. O que surge é um modelo de confronto permanente, no qual o uso calculado da força passa a conviver com canais diplomáticos ativos. A lógica deixa de ser derrotar o adversário e passa a ser administrar o conflito.

Essa dinâmica representa uma mudança importante em relação às últimas décadas. Tanto Washington quanto Teerã parecem reconhecer que uma guerra aberta produziria custos políticos, militares e econômicos muito superiores aos possíveis ganhos. Os Estados Unidos procuram preservar seu poder de dissuasão sem serem arrastados para mais um conflito prolongado no Oriente Médio.

CAPACIDADE DE RESPOSTA – O Irã, por sua vez, busca demonstrar capacidade de resposta suficiente para manter sua credibilidade regional, evitando, ao mesmo tempo, um confronto que coloque em risco a sobrevivência do próprio regime. O resultado é um equilíbrio instável, sustentado muito mais pelo cálculo dos riscos do que por uma aproximação política efetiva.

Esse “novo normal” aproxima-se do conceito de conflito permanente de baixa intensidade. Cada ataque deixa de ser interpretado como o início inevitável de uma guerra total e passa a funcionar como um instrumento de pressão política. A força militar transforma-se em mecanismo de negociação. Bombardeios, ataques cibernéticos, operações de inteligência e demonstrações de poder naval deixam de ser exceções para integrar uma diplomacia coercitiva, na qual momentos de escalada e de distensão se sucedem quase simultaneamente.

Entretanto, a estabilidade produzida por esse modelo é apenas aparente. Quanto mais frequentes se tornam os episódios de violência controlada, maior é o risco de erros de cálculo. Um ataque que provoque um número elevado de vítimas, uma interpretação equivocada das intenções do adversário ou mesmo a atuação de grupos aliados fora do controle direto de Washington ou de Teerã pode romper rapidamente os mecanismos informais que hoje limitam a escalada do conflito. A história das crises internacionais demonstra que guerras muitas vezes não começam por decisão deliberada, mas pela incapacidade dos próprios atores de controlar a dinâmica que criaram.

DIMENSÃO ECONÔMICA –  Outro aspecto relevante é a dimensão econômica desse confronto. O Estreito de Ormuz continua sendo um dos principais pontos de vulnerabilidade da economia mundial. Sempre que as tensões aumentam, os mercados reagem imediatamente com oscilações no preço do petróleo, no custo dos fretes marítimos e na percepção global de risco. Assim, mesmo quando os confrontos permanecem limitados, seus efeitos extrapolam o campo militar e atingem cadeias de abastecimento, inflação e decisões de investimento em diversas partes do mundo.

Há, porém, uma consequência geopolítica que costuma passar despercebida. O prolongamento desse estado de tensão permanente favorece a consolidação de uma ordem internacional mais fragmentada, na qual a diplomacia tradicional perde espaço para relações baseadas na demonstração contínua de força. O conflito deixa de ser uma ruptura da política para se tornar um de seus instrumentos permanentes. Trata-se de uma realidade compatível com um sistema internacional cada vez mais multipolar, em que as grandes potências procuram evitar confrontos diretos, mas aceitam conviver com crises recorrentes como parte da competição estratégica.

Nesse contexto, talvez a maior ilusão seja imaginar que o Oriente Médio caminha para uma paz duradoura. O cenário mais provável não é o fim das hostilidades, mas a consolidação de um ciclo permanente de tensão, negociação e novos confrontos. A guerra deixa de ser um episódio extraordinário para se tornar uma ferramenta recorrente da política regional. A paz, por sua vez, transforma-se apenas em um intervalo precário entre duas crises.

Entre Washington e Brasília, a política externa se torna palco da disputa eleitoral

Flávio buscou reposicionar sua imagem nos EUA

Pedro do Coutto

A política externa raramente ocupa o centro do debate nas campanhas presidenciais brasileiras. Em geral, temas como economia, segurança pública, emprego e saúde dominam as preocupações do eleitorado. O atual embate em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, porém, alterou essa lógica.

A decisão da administração de Donald Trump de propor uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações nacionais transformou-se em um dos principais capítulos da pré-campanha presidencial, aproximando interesses comerciais, diplomacia e estratégia eleitoral.

REPOSICIONAMENTO – Foi nesse contexto que o senador Flávio Bolsonaro buscou reposicionar sua imagem. Depois de semanas sendo associado por adversários à escalada das tensões entre Brasília e Washington, o parlamentar viajou aos Estados Unidos para participar de audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Diante das autoridades norte-americanas, afirmou defender o cancelamento — e não apenas o adiamento — das novas tarifas, procurando afastar a narrativa de que seu grupo político teria contribuído para o endurecimento da posição americana.

A iniciativa revela um movimento de contenção de danos políticos. Em campanhas eleitorais, a percepção pública costuma ser tão importante quanto os fatos objetivos. A associação entre um candidato e medidas que possam produzir prejuízos econômicos tende a gerar custos eleitorais elevados, sobretudo quando atingem setores exportadores, produtores rurais, indústria e empregos.

Ao mesmo tempo, o governo federal procurou reafirmar seu protagonismo institucional. O Palácio do Planalto sustentou que as negociações comerciais pertencem ao campo da diplomacia oficial, conduzida pelo Ministério das Relações Exteriores, e criticou a atuação paralela de lideranças políticas brasileiras junto à administração Trump. Essa disputa pela legitimidade da interlocução internacional passou a fazer parte da narrativa eleitoral de ambos os campos.

INTERNACIONALIZAÇÃO – Mais do que uma divergência comercial, o episódio evidencia uma característica crescente da política contemporânea: a internacionalização das disputas domésticas. Cada vez mais, atores nacionais buscam apoio, legitimidade ou influência junto a governos estrangeiros para fortalecer posições internas. Trata-se de um fenômeno observado em diferentes democracias e que tende a produzir efeitos complexos sobre a percepção da soberania nacional.

Nesse ambiente, também circularam especulações sobre uma eventual possibilidade de intervenção militar norte-americana no Brasil, hipótese atribuída por alguns interlocutores a discussões ocorridas nos bastidores diplomáticos. Entretanto, um porta-voz do Departamento de Estado classificou tal cenário como absurdo, afastando oficialmente qualquer possibilidade dessa natureza. A manifestação contribuiu para reduzir a temperatura política em torno do tema e esvaziar uma narrativa que alimentava forte polarização nas redes sociais e no debate público.

O episódio ilustra como rumores e hipóteses geopolíticas podem ganhar enorme repercussão durante períodos eleitorais, sobretudo quando envolvem a maior potência mundial. Em contextos de elevada polarização, informações ainda não confirmadas frequentemente passam a influenciar a disputa política antes mesmo de serem verificadas pelos canais oficiais.

AGENDA BILATERAL – Outro aspecto relevante da viagem de Flávio Bolsonaro foi a tentativa de ampliar a agenda bilateral para além das tarifas comerciais. Entre os temas apresentados às autoridades americanas estiveram o combate ao crime organizado transnacional, especialmente em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho, organizações criminosas que vêm sendo tratadas por setores da política americana como potenciais ameaças de alcance internacional.

A cooperação em segurança permanece um dos pilares históricos das relações entre Brasil e Estados Unidos, embora qualquer mudança de classificação jurídica dessas organizações dependa exclusivamente das autoridades norte-americanas e de seus critérios legais.

A tentativa de deslocar o debate para a segurança pública também possui evidente dimensão eleitoral. Trata-se de uma agenda tradicionalmente favorável à direita brasileira e que busca dialogar com parcelas do eleitorado preocupadas com criminalidade e violência urbana. Entretanto, sua eficácia política dependerá da capacidade de separar cooperação internacional legítima de eventual percepção de interferência externa em assuntos internos.

PESQUISAS – Enquanto isso, as pesquisas começam a medir os efeitos dessa sucessão de episódios. Levantamentos recentes indicam estabilidade da intenção de voto do presidente Lula da Silva, ao mesmo tempo em que registram oscilações negativas para Flávio Bolsonaro em alguns cenários simulados de segundo turno. Ainda é cedo para interpretar esses movimentos como tendência consolidada, mas eles sugerem que a controvérsia envolvendo o tarifaço passou a produzir efeitos políticos concretos sobre a campanha.

Paralelamente à disputa presidencial, o cenário eleitoral também apresenta mudanças relevantes nas eleições proporcionais e para o Senado. Em São Paulo, pesquisas recentes apontam desempenho competitivo das candidaturas de Marina Silva e Simone Tebet na corrida pelas duas vagas em disputa, indicando que o eleitorado paulista poderá protagonizar uma das eleições senatoriais mais disputadas dos últimos anos.

O episódio envolvendo as tarifas americanas deixa uma lição importante sobre o atual momento político brasileiro. A fronteira entre política interna e política externa tornou-se cada vez mais tênue. Questões comerciais, relações diplomáticas, cooperação em segurança e disputas geopolíticas passaram a influenciar diretamente o ambiente eleitoral, ampliando o peso estratégico da atuação internacional dos candidatos.

PRESSÃO POLÍTICA – Num mundo marcado pela competição entre grandes potências, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente instrumentalização da economia como ferramenta de pressão política, campanhas presidenciais dificilmente conseguirão manter a política externa em segundo plano. O caso do tarifaço demonstra que decisões tomadas em Washington podem alterar narrativas em Brasília, influenciar expectativas econômicas e repercutir imediatamente nas urnas.

Mais do que uma disputa sobre tarifas, trata-se de um exemplo de como a geopolítica passou a integrar definitivamente o cálculo eleitoral brasileiro. Para qualquer governo — seja qual for sua orientação ideológica — o desafio permanece o mesmo: preservar os interesses nacionais, fortalecer a credibilidade das instituições diplomáticas e impedir que divergências partidárias fragilizem a posição do país perante seus principais parceiros internacionais.