
Bolsonaro segue com soluços e reclama de pesadelos
Laura Scofield
Augusto Tenório
Carolina Linhares
Folha
Preso desde janeiro no 19º Batalhão da Polícia Militar do DF, a Papudinha, Jair Bolsonaro (PL) divide suas visitas entre encontros políticos e pessoais, quando aproveita para fazer desabafos e tenta organizar a estratégia eleitoral deste ano.
Detido em regime fechado desde novembro, o ex-presidente diz a aliados ter pesadelos constantes e que come pouco para evitar soluços. Relata ainda medo de que o filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja alvo de um atentado, como ocorreu com ele nas eleições de 2018.
MOVIMENTAÇÕES POLÍTICAS – Durante as visitas, se queixa também de não ter acesso pleno às movimentações políticas que ocorrem fora da prisão. O ex-presidente pode assistir a TV aberta, mas apenas por algumas horas ao dia. Os relatos foram colhidos pela Folha com ao menos seis pessoas que o visitaram na Papudinha nas últimas semanas.
O ex-secretário de Assuntos Fundiários Nabhan Garcia encontrou Bolsonaro no sábado de Carnaval. Nabhan diz que o ex-presidente pediu que levasse a Flávio um recado: que o filho tome cuidado durante a corrida eleitoral deste ano. O aliado afirma que Bolsonaro se emocionou ao falar do assunto. Na manifestação bolsonarista do dia 1º de março, em São Paulo, Flávio utilizou um colete à prova de balas por baixo da camisa verde e amarela.
O mesmo temor foi tema de uma conversa com o bispo Robson Rodovalho, líder da igreja Sara Nossa Terra, que presta assistência religiosa a Bolsonaro com autorização do STF (Supremo Tribunal Federal). “Acho que Bolsonaro é um homem traumatizado. Ele teme por várias coisas e se sente injustiçado, impotente para se defender e defender os seus”, afirmou o bispo à Folha.
VIAGENS PELO BRASIL – Flávio foi indicado pelo ex-presidente em dezembro para concorrer ao Planalto. Bolsonaro tem dito estar esperançoso com a eleição do filho, mas pede aos aliados que digam ao primogênito que é hora de ele parar com as viagens internacionais para percorrer o Brasil.
Nas conversas com pessoas próximas, o ex-presidente afirma ainda ter medo da própria morte. Afirmou ter pensado que morreria na última cirurgia, feita em dezembro. “Eu trabalhei com ele a esperança, a fé no futuro. O corpo dele pode estar lá [na Papudinha], mas a mente tem que sair”, diz Rodovalho, que afirma ter conduzido orações e cantado para tentar tranquilizar o ex-presidente.
Após a cirurgia de dezembro, Bolsonaro intensificou o aconselhamento religioso. Ele também recebe visitas constantes do bispo Thiago Manzoni, deputado distrital pelo PL. A autorização dada pelo STF prevê uma visita semanal dos religiosos, individualmente, às terças e quintas.
SOLUÇOS – Mesmo com remédios para dormir, Bolsonaro relata que dorme mal e tem pesadelos, afirmam aliados que o visitaram nas últimas semanas, como Nabhan Garcia. Apesar de a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) enviar marmitas de almoço e jantar ao marido, as refeições se tornaram um medo de Bolsonaro, diz Rodovalho. “Ele não se alimenta muito. Fica com medo, receio de se alimentar e desencadear o soluço.”
Aliados que estiveram com Bolsonaro afirmam que as crises de soluços constantes atrapalham conversas mais longas. Além disso, dizem que as medicações deixam o ex-presidente fisicamente desequilibrado, com náuseas. “É uma temeridade Bolsonaro ficar ali. Deveria estar em casa por causa da idade e das comorbidades. Não tem justificativa para estar na Papudinha, que é um lugar longe, de difícil deslocamento até um hospital”, defende Rodovalho.
Condenado por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro tem se queixado durante as visitas a aliados de não saber de tudo que está acontecendo do lado de fora da Papudinha. Um pedido constante é para que seja mais bem informado das movimentações políticas.
SAÍDA DE TOFFOLI – Ele disse a Nabhan Garcia que não sabia detalhes, por exemplo, da saída do ministro do STF Dias Toffoli da relatoria da investigação do Banco Master. Segundo a perícia médica feita pela PF, Bolsonaro costuma assistir a programas esportivos na TV. De manhã, ele toma banho, faz a barba e lê livros. À tarde, descansa 20 minutos depois do almoço e faz caminhadas.
De acordo com Nabhan, o ex-presidente sente que há pessoas que vão prestar solidariedade e ver como ele está, enquanto outras que o visitam pelo seu papel eleitoral.
Como mostrou a Folha, Bolsonaro tem sido procurado na Papudinha por pré-candidatos que buscam sua bênção para se lançarem em seus redutos eleitorais, destravando acordos regionais.
PAPEL ATIVO – Mesmo na prisão, o ex-presidente tem se envolvido na pré-campanha de Flávio e na montagem de palanques nos estados. Ele teve papel ativo na consolidação da candidatura do filho, alvo de descrença inicial do centrão e do mercado, que preferiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Nas visitas, o ex-presidente convenceu aliados de que a presença do filho na eleição nacional era incontornável. O conturbado processo que levou Tarcísio a decidir por concorrer à reeleição foi encerrado com uma visita do governador ao ex-presidente, em janeiro.
TORNOZELEIRA – Bolsonaro é descrito por quem conviveu com ele como uma pessoa sujeita a paranoias, mania de perseguição e teorias da conspiração, especialmente após a facada que sofreu em 2018. Em novembro passado, quando cumpria prisão domiciliar, ele tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, o que levou o ministro do STF Alexandre de Moraes a determinar sua transferência ao sistema prisional.
Aliados dizem que o ex-presidente teve um surto e estava paranoico com a ideia de que um grampo havia sido instalado na tornozeleira. Para ele, terceiros conseguiam ouvir suas conversas. A reportagem apurou ainda que, enquanto ainda estava preso em casa, Bolsonaro afirmou a visitantes que estava sendo observado por um drone no quintal da própria residência.

Paulo Peres



Eliane Cantanhêde


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