Alcolumbre recua após pressão do Planalto e de Hugo Motta sobre maioridade penal

Derrota de Trump deixa Flávio e Eduardo Bolsonaro sob pressão nos Estados Unidos

Quem atua na web precisa conviver com hackers e ataques de todo tipo

Reprodução do Arquivo Google

Carlos Newton

Estamos sempre reclamando de hackers que invadem e atacam periodicamente a Tribuna da Internet. É um problema sem solução. Nem mesmo o Pentágono consegue se livrar de hackers, cuja participação faz parte do jogo da informação digital, ninguém consegue se livrar de invasores, então é preciso aprender a conviver com eles.

Nas últimas semanas, os comentaristas e leitores sentiram dificuldades de acesso à Tribuna, mas desta vez não foram hackers. A lentidão era causada propositadamente pelo servidor UOL, sob alegação de que a Tribuna estaria com leitores demais, segundo os registros da plataforma WordPress .

PROVIDÊNCIAS – Quando percebemos algum ataque à Tribuna, informamos imediatamente as equipes da WordPress e do UOL, para as medidas cabíveis.

À solução pode ser rápida, no atendimento técnico, mas às vezes demora alguns dias, que chamamos de “férias”, porque somente assim conseguimos escapar do esquema de trabalho 7 por 0, como diz o bem-humorado comentarista paulista Armando Gama, que nos abastece com opiniões e músicas da maior qualidade.

Uma dessa invasões causou tantos problemas que tivemos de refazer inteiramente o blog, como se ele jamais tivesse existido, e isso demorou alguns dias, é claro.

DESTRUIÇÃO – O ataque mais grave ocorreu há seis anos. Além de tirar do ar a Tribuna da Internet, os invasores destruíram a maior parte dos nossos arquivos, que continham grande número de artigos de Helio Fernandes, Carlos Chagas, Sebastião Nery, Pedro do Coutto, Jorge Béja, Vicente Limongi, José Carlos Werneck e muitos outros. 

Outros ataques são diários, de leitores e comentaristas querendo que este blog defenda esta ou aquela facção polarizada. Esses intervencionistas incomodam, mas perdem tempo, porque jamais defenderemos partidos ou facções. Nosso empenho é defender o certo. Não nos interessa se o governante é de direita ou esquerda; o importante é que ele aja corretamente.

Os ataques são inúteis, porque sempre daremos um jeito de voltar, sob o signo da liberdade. E já temos um plano delineado para que o blog sobreviva quando seu editor-chefe não mais estiver aqui, e estamos tomando as primeiras providências.

BALANÇO DE OUTUBRO – Como sempre fazemos, vamos divulgar o balanço das contribuições ao blog, no mês passado. De início, os depósitos feitos na conta da Caixa Econômica Federal.

DIA   REGISTRO  OPERAÇÃO          VALOR
07       071215       DEP DIN LOT…….200,00

14       141408       DEP DIN LOT…….100,00
19       191836       DEP DIN LOT…….100,00
24       241529       DEP DIN LOT…….200,00
30      000001       TED J.P.VIDAL…….40,00
30      301530       DEP DIN LOT…. ..100,00

Agora, as colaborações recebidas na conta do Itaú/Unibanco:

01  PIX TRANSF JOSE FR ………….150,00
02  PIX TRANSF JOSE AN………….352,10
16  TED MARIO A C R O…………….300,00
29  TED 033.3591.ROB S D………..200,00
30  PIX TRANSF PAULO ROB……..100,00        

Agradecendo muitíssimo a todos os que colaboram para manter a utopia de um espaço independente na web, vamos em frente, sempre juntos.  (C.N.)   

Lula enfrenta pressão do Centrão por espaço no comando político do governo

Derrota de Flávio expõe o isolamento de sua estratégia entre governadores

PL lança Rogério Marinho ao comando do Senado, mas há impasse com Tereza Cristina

Carla Zambelli transforma fuga para a Itália em campanha de arrecadação

Zambelli anunciou criação de perfil em site de vendas de curso

Rafaela Gama
O Globo

A ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) anunciou pelas redes sociais a abertura de uma comunidade on-line para a arrecadação de doações de apoiadores para financiar sua estadia na Itália. No país, ela ficou presa por cerca de dez meses e agora aguarda a análise de um pedido de extradição feito pelas autoridades brasileiras para o cumprimento de sua pena.

Ela foi condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pela invasão hacker dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça e pelo porte ilegal de arma de fogo. Em uma publicação feita nas redes sociais, a ex-deputada afirma que o ministro Alexandre de Moraes, relator de seu processo no Supremo, “destruiu” sua vida ao determinar a inclusão do nome dela na lista vermelha da Interpol como autora de um crime de “invasão com prejuízo financeiro”.

CONTEÚDOS E RELATOS – Segundo Zambelli, a medida a impede de abrir uma conta corrente “em qualquer lugar do mundo” e de encontrar emprego na Itália. Em resposta, ela anunciou a criação de uma conta no site “Kiwify”, usado para a produção de cursos online, por onde planeja a distribuição de “conteúdos exclusivos” e de relatos de experiências vividas na prisão.

— São R$ 50 por mês. Eu sei que muita gente não tem como ajudar com isso mensalmente, mas eu vou prover para vocês conteúdos exclusivos de várias áreas de conhecimento. Nós vamos falar sobre tudo e também vou passar um pouco da experiência que tive na prisão e o que isso me ensinou. Se você um dia me admirou, eu peço a sua ajuda para que você entre nessa comunidade e faça a sua inscrição para que eu possa me manter aqui na Itália até as coisas se resolverem no Brasil — disse no vídeo em que anuncia a conta na plataforma.

Em julho, a Justiça italiana anulou uma decisão que autorizava a extradição de Zambelli, determinando que o pedido feito pelo Brasil fosse submetido a um novo julgamento, mas descartou a tese de perseguição política apresentada pelos advogados da ex-deputada. Uma nova audiência na Corte de Apelação de Roma estava marcada para a semana passada, mas foi cancelada a pedido da defesa, que argumentou não ter tido acesso aos documentos enviados pelo governo brasileiro. Uma nova sessão está prevista para o dia 24 de setembro.

FUGA – A ex-deputada bolsonarista, que tem cidadania italiana, deixou o Brasil em maio de 2025, passando pelos Estados Unidos antes de se mudar para o país europeu. Dois meses depois, ela foi incluída na lista da Interpol, foi presa e afirmou que queria ser julgada na Itália.

Em setembro deste ano, Carla pediu ao STF autorização para retornar temporariamente ao Brasil durante a eleição, sob a garantia de não ser presa, com o argumento de que pretendia votar na mãe, Rita Zambelli, candidata a deputada federal em São Paulo.

Rita não foi eleita, mas o irmão da ex-deputada Bruno Zambelli conseguiu ser reconduzido nas urnas a deputado estadual por São Paulo. Filiado ao PL, ele buscava permanecer na Assembleia Legislativa. O candidato recebeu 82.946 votos.

Cúpula do PT racha e o vice-presidente Quaquá é ameaçado de expulsão

Retrovisor embaçado - Blog do Ari Cunha

Charge do Newton Silva (Arquivo Google)

Vera Rosa
Estadão

Passada a eleição, o PT vai para o divã. O racha na corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), que o presidente Lula apoia nas fileiras petistas, ganhou novos capítulos durante a campanha e agora explodiu. A intenção do presidente do PT, Edinho Silva, é tirar do papel pedidos de abertura de processo contra o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, na Comissão de Ética. O mais antigo deles remonta a 2021.

Quaquá é um dos vice-presidentes do PT e integra a ala do partido conhecida como “CNB do B”. O grupo é integrado, entre outros, por Gleide Andrade (tesoureira), Jilmar Tatto (vice-presidente), Beto Faro e Humberto Costa (senadores) e José Guimarães (ministro da Secretaria de Relações Institucionais).

EDINHO AMEAÇA – Edinho fala em “saída negociada” de Quaquá, mas afirma que, se isso não for possível, haverá um “divórcio litigioso” porque o partido passará por “profundas mudanças” de agora em diante.

A “reconstrução” do PT foi acertada por Edinho em conversa de três horas com o próprio Lula, após o segundo turno de uma disputa acirrada para vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL).

“O presidente quer que o PT interprete a mobilização das ruas. É preciso trazer a juventude para dentro dele”, disse Edinho à coluna. “O PT não pode apenas reproduzir as relações de poder nem ser um amontoado de projetos pessoais, utilizado para promover enriquecimento e crescimento patrimonial”.

PODER DEMAIS – Eleito deputado federal em outubro, Edinho observou que, em muitos lugares, o PT virou “um ajuntamento de mandatos, com mais poder de deliberação do que as próprias instâncias partidárias”.

O PT não pode apenas reproduzir as relações de poder nem ser um amontoado de projetos pessoais, utilizado para promover enriquecimento e crescimento patrimonial

Pivô da queda de braço na corrente CNB, Quaquá publicou vídeo nas redes sociais, durante a campanha, criticando a estratégia adotada por Edinho. À época, disse que, enquanto Flávio tratava da vida real, como preços em supermercado, a campanha de Lula falava de “terras raras”.

 

CASO DE POLÍCIA – Na lista de pedidos de Comissão de Ética para Quaquá estão a defesa feita por ele dos irmãos Brazão no caso do assassinato da então vereadora Marielle Franco e afirmações de que a Polícia do Rio “só matou otário, vagabundo, bandido” durante a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou mais de 120 mortos, no ano passado.

Há, ainda, a divulgação de uma foto em que Quaquá, então deputado, aparece sorridente, abraçado ao deputado-general Eduardo Pazuello (PL-RJ).

A foto foi considerada por petistas como “indignidade inaceitável”, sobretudo pelo fato de Pazuello ter sido ministro da Saúde no governo de Jair Bolsonaro na época da pandemia de covid-19.

DIZ QUAQUÁ – “O medo do Edinho é da disputa pelo comando do PT”, afirmou Quaquá à coluna. “Ele quer transformar o PT num partido autoritário e fascista, stalinista. Eu continuarei disputando os rumos políticos e a direção do PT. Ele é que tem de explicar o uso particular de recursos e influência no partido. Eu não! Tenho a vida limpa. Ele, eu já não sei”.

Lula perdeu as eleições em Maricá, cidade administrada por Quaquá, para Flávio Bolsonaro. Em Araraquara, terra em que Edinho foi prefeito, o presidente ficou atrás do senador no primeiro turno, mas virou no segundo por uma diferença de 5.481 votos.

“Enquanto o PT de Araraquara arrecadou R$ 5 milhões com a influência óbvia do presidente do PT sobre empresários, faltava material para a campanha de Lula nos Estados e os diretórios tinham que se virar para rodar material”, protestou Quaquá.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Excelente matéria de Vera Rosa. A jornalista lembra que Quaquá sempre disse que quem pedia sua expulsão do partido era apenas um “dinossauro soviético”, Valter Pomar, dirigente da Articulação de Esquerda. Mas agora Edinho tomou a frente, porque usou o dinheiro da campanha de Lula para se eleger deputado federal. (C.N.)

Casa Branca esfria expectativas de aliados de Flávio Bolsonaro por apoio político

Charge de Mauro Iasi (Instagram)

Edilene Lopes
CNN

A postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, frustrou aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que esperavam uma reação mais contundente da Casa Branca após a saída do senador do Brasil. Entre as expectativas estava a retomada das sanções previstas na Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Aliados de Flávio defendiam a medida sob o argumento de perseguição política, especialmente após Moraes determinar a entrega dos passaportes do senador apenas sete minutos depois de uma decisão judicial relacionada ao caso.

SANÇÕES – O grupo também cogitava sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Cristiano Zanin, em razão da prorrogação do horário de votação no dia das eleições. Nesse caso, porém, a iniciativa poderia expor uma contradição política, já que o próprio PL havia solicitado a prorrogação.

Outra aposta era a concessão de asilo político a Flávio Bolsonaro. Até agora, porém, o senador conta com uma autorização de permanência temporária nos Estados Unidos, e não com o reconhecimento formal da condição de asilado. Embora Trump tenha declarado que Flávio pode permanecer no país pelo “tempo que quiser”, não anunciou a concessão de asilo.

BOA RELAÇÃO COM LULA – A frustração aumentou depois que o presidente norte-americano afirmou não ter planos de se encontrar com o senador. O contraste ficou ainda mais evidente quando Trump declarou manter uma boa relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vencedor das eleições brasileiras. Para aliados de Flávio, os gestos ficaram aquém do apoio político esperado de Washington.

O cenário também é influenciado pelas prioridades domésticas de Trump. Nesta terça-feira (3), os Estados Unidos realizaram as eleições de meio de mandato, as chamadas “midterms”, que definirão a composição da Câmara e parte do Senado.

Com o controle do Congresso em disputa e a preocupação dos eleitores com a inflação, o custo de vida e os rumos da economia, o presidente norte-americano tem desafios internos que dominam a prioridade. Nesse contexto, ampliar o confronto com o governo brasileiro pode representar um desgaste adicional para a Casa Branca.

Primeiro teste de Lula após a eleição termina com oposição isolada no Senado

Lula assume protagonismo na segurança pública

Caio Junqueira
CNN

O presidente Lula venceu nesta terça-feira (3) o primeiro teste de força no Congresso Nacional após a vitória sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições ao aprovar por unanimidade no Senado a PEC da Segurança Pública.

A vitória chama atenção não só pelo placar de 73 votos favoráveis, o que mostra na prática uma rendição da oposição à proposta do governo, cujo placar unânime não seria possível sem os votos da oposição. Mas principalmente pelo fato de ter sido excluída do relatório aprovado e do próprio debate a emenda do PL que reduz a maioridade penal de 18 anos para 16 anos. Ela sequer foi apreciada pelos senadores.

COMISSÃO ESPECIAL – O acordo feito durante a reunião dos líderes do Senado pela manhã foi no sentido de deixar a Câmara analisar o assunto em uma comissão especial montada em agosto deste ano, que analisa uma PEC sobre o assunto protocolada há mais de dez anos.

Chama a atenção também que a vitória do governo se dá dentro de um tema — segurança pública — em que a direita tradicionalmente transita com maior vigor do que a esquerda.

MINISTÉRIO – A partir da promulgação da emenda constitucional, que deve ser feita nos próximos dias, o governo Lula 3 já poderá estruturar uma das principais apostas para o governo Lula 4, criando um ministério específico para a área e tentando agir sobre aquele que é considerado, segundo todas as pesquisas, a maior preocupação do brasileiro: a criminalidade.

A aprovação da PEC da Segurança Pública sinaliza ainda uma fragilização imediata da oposição após a derrota eleitoral e a fuga do seu candidato para os Estados Unidos, e deve reforçar a aliança que o Palácio do Planalto tem com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, responsável direto pela operação política que isolou a oposição e deu a Lula sua primeira vitória no Congresso com folga após a eleição presidencial.

Vitórias democratas nos EUA e de Lula no Brasil mudam cálculo da direita nas Américas

Lula vê janela para pacificação do Brasil

Valdo Cruz
G1

A derrota política sofrida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições de meio de mandato e a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil enfraquecem a direita nas Américas e abrem uma oportunidade para o brasileiro buscar a pacificação do país.

A avaliação é de assessores e interlocutores de Lula. Para eles, os dois movimentos colocam um freio na ofensiva da ala mais ideológica do governo Trump, que buscava ampliar a influência da direita nas Américas.

NO COMANDO – Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado dos Estados Unidos nas eleições realizadas nesta terça (3), retirando dos republicanos o domínio das duas Casas do Congresso.

No Brasil, Lula foi reeleito no segundo turno, realizado em 25 de outubro, ao derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL). Com 100% das urnas apuradas, Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

DIFICULDADES INTERNAS – Na avaliação dos auxiliares do presidente brasileiro, os resultados nos dois países dificultam uma tentativa de tornar a direita hegemônica na região. Eles lembram ainda que governos de direita eleitos recentemente na América do Sul já enfrentam dificuldades internas, o que, na visão desses interlocutores, pode limitar a capacidade de articulação regional desse campo político.

Na Argentina, o presidente Javier Milei representa a direita. No Chile, José Antonio Kast, também de direita, assumiu a Presidência neste ano. Antes da eleição brasileira, o avanço conservador havia levado a direita a governar metade dos países da América do Sul.

OPORTUNIDADE – Agora, segundo os assessores de Lula, o novo cenário cria uma oportunidade para que o presidente, em seu quarto mandato, busque reduzir a polarização política no Brasil e ampliar o isolamento dos setores mais radicais da direita.

Na avaliação desses interlocutores, Lula terá no próximo mandato a oportunidade de avançar numa agenda de pacificação que não conseguiu implementar plenamente durante o terceiro mandato e, com isso, tentar reduzir a força política do bolsonarismo.

Acordo no Senado abre caminho para reduzir maioridade penal, mas divide o PT

A saga do nordestino que busca trabalho em obras na cidade grande

Compositor Lúcio Barbosa - Palco MP3

Lúcio Barbosa era chamado de profeta cidadão

Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta e compositor baiano Lúcio Barbosa (1947-2022) tornou-se conhecido em 1979, quando sua música “Cidadão” foi gravada pelo cantor Zé Geraldo no LP “Terceiro mundo”, da CBS, e depois teve muitas regravações, inclusive de Luiz Gonzaga e Zé Ramalho..

Segundo Lúcio Barbosa, “Cidadão” foi composta em homenagem ao seu tio Ulisses, que trabalhava como pedreiro, mas em razão da sua condição humilde, não podia frequentar nenhuma das obras por ele construídas. A inspiração veio do fato do tio também ser pedreiro, ter construído inúmeras obras na cidade grande, mas não possuir casa própria.

A música fez grande sucesso e decolou a carreira de Zé Geraldo no Norte/Nordeste.

CIDADÃO
Lúcio Barbosa

Tá vendo aquele edifício, moço,
Ajudei a levantar.
Foi um tempo de aflição, era quatro condução,
Duas pra ir, duas pra voltar.
Hoje depois dele pronto,
Olho pra cima e fico tonto,
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado:
“Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?”

Meu domingo tá perdido,
Vou pra casa entristecido,
Dá vontade de beber.
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
que eu ajudei a fazer.

Tá vendo aquele colégio, moço,
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar.
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente,
“Pai vou me matricular”
Mas me vem um cidadão:
“Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar”.

Essa dor doeu mais forte,
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer:
Lá a seca castigava,
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo quela igreja, moço,
Onde o padre diz amém,
Pus o sino e o badalo,
Enchi minha mão de calo,
Lá eu trabalhei também
Lá foi que valeu a pena,
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar.
Foi lá que Cristo me disse:
“Rapaz deixe de tolice,
Não se deixe amedrontar.
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra,
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar”

Democracia prevê que o cidadão exija a correção dos erros dos governantes

Lula gosta de relatórios em papel e critica quem é “refém de celular”; veja hábitos do presidente - Estadão

Não se pode aplaudir irresponsavelmente os erros de Lula

Roberto Rachewsky
Brazil Journal 

Há um número impressionante de pessoas incomodadas com quem ficou inconsolável com o resultado das eleições. O argumento costuma vir embrulhado em serenidade: não adianta sofrer, o Brasil sempre foi assim, governos passam, empresas continuam funcionando e a vida segue. Parece sabedoria. Em boa medida, é resignação racionalizada.

Luiz Gustavo Bichara publicou no Brazil Journal o artigo “Coragem. O Brasil é isso aí”. Concordo com a primeira palavra. Discordo profundamente do resto.

CONSEQUÊNCIAS – Seu texto começa reconhecendo algo importante. Decisões tomadas em Brasília têm consequências “geralmente desastrosas”.  Governos fazem diferença. “E muita”, escreve ele. Logo depois, começa a anestesia: fazem diferença, “mas talvez não tanta quanto gostamos de imaginar”.

Esse “talvez” carrega o artigo inteiro nas costas. Se decisões governamentais podem destruir capital, aumentar impostos, gerar insegurança jurídica, alterar contratos, impedir investimentos, criar privilégios e submeter quem produz à vontade de burocratas, não há exagero em atribuir importância ao governo. Há causalidade.

Reconhecer uma causa relevante não é conceder poderes sobrenaturais aos políticos. É reconhecer a realidade.

NÃO É ISSO – A primeira evasão aparece quando uma constatação histórica se converte, sem ponte lógica, numa afirmação metafísica: “O Brasil é isso aí mesmo”. Não. O Brasil está assim. Talvez esteja assim há muito tempo. Pode continuar assim por muito tempo. “Mas nada disso permite concluir que o Brasil é assim”.

Trocar “estar” por “ser” parece detalhe gramatical, mas é uma fraude conceitual. Transforma instituições criadas por homens em fenômenos da natureza. A neve não cair no Rio de Janeiro decorre de fatos geográficos e climáticos. A burocracia, a insegurança jurídica, a irresponsabilidade fiscal e a impunidade foram criadas, mantidas e toleradas por pessoas. É muito diferente. 

O Natal provavelmente continuará sem neve. Já o Código Tributário não foi escrito pelas placas tectônicas.

PAÍS DO COITADINHO – A frase de Beto Sicupira, citada no artigo, sofre do mesmo problema. O Brasil seria “o País do coitadinho”, “do direito sem obrigação”, “da impunidade”. Isso seria cultural. Portanto, não mudaria. A ideia deles é determinismo cultural.

Como algo existe há muito tempo, continuará existindo. Cultura, porém, não é DNA. É um conjunto de ideias, valores, hábitos e instituições criados por seres humanos. Ideias podem ser rejeitadas e substituídas.

Há ainda uma confusão importante na expressão “direito sem obrigação”. Direitos individuais não são recompensas concedidas a quem cumpriu previamente algum dever perante a sociedade. Meu direito à vida não depende de uma obrigação coletiva, nem meu direito à propriedade da aprovação de um burocrata. Direitos delimitam a esfera de ação do indivíduo que os outros, inclusive o governo, não podem violar.

“ISSO AÍ…” – Bichara admite que teremos governos melhores e piores, alguns mais responsáveis, outros menos, “mas o Brasil continuará sendo isso aí”.

A conclusão não decorre das premissas. Se governos melhores e piores produzem consequências diferentes, escolhas institucionais importam. Logo, não estamos diante de uma essência brasileira imutável, mas de alternativas humanas. “O Brasil continuará sendo isso aí” não é uma conclusão. É uma desistência colocada no lugar dela.

Depois vem um argumento sedutor de Bichara: apesar da burocracia, do Estado dispendioso e da insegurança jurídica, há empresários que aprenderam a produzir riqueza. Claro que há. E daí?

E OS OBSTÁCULOS? – O fato de alguém sobreviver a um obstáculo não demonstra que o obstáculo seja irrelevante. Empresas que prosperam apesar de impostos, insegurança e burocracia provam alguma coisa sobre os empresários. Não provam nada em favor do ambiente que os castiga.

Pior: esse raciocínio enxerga os sobreviventes e ignora o invisível. Não vemos as empresas que nunca foram abertas, os investimentos que não foram feitos, os empregos que não existiram, o capital que foi embora e os talentos que desistiram.

A adaptação humana é extraordinária. Transformá-la em atenuante para aquilo a que foi preciso adaptar-se é um erro.

SEM INJUSTIÇA – A realidade deve ser aceita. A injustiça, não. Aceitar a realidade significa reconhecer que A é A. Se o governo é gastador, reconhecê-lo como gastador. Se a lei é arbitrária, reconhecê-la como arbitrária. Se uma política destrói riqueza, identificar sua causa e suas consequências.

Resignação é outra coisa. É transformar aquilo que homens fizeram naquilo que homens supostamente não podem mudar. A vida precisa de razão, propósito, autoestima, produtividade e liberdade para que cada indivíduo possa buscar seus próprios valores.

O Brasil não “é isso aí”. Não existe uma essência metafísica chamada Brasil condenada à burocracia, à insegurança jurídica, ao estatismo ou à irresponsabilidade fiscal. Existem ideias, instituições e escolhas feitas por indivíduos. Algumas boas. Outras desastrosas. O fato de uma injustiça ser antiga não a transforma em natureza das coisas. Apenas significa que já demoramos demais para corrigi-la.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
. Um artigo instigante, enviado por Mário Assis Causanilhas. Realmente, não se pode aceitar que governos errem, porque “o Brasil é assim”. Cabe aos eleitores criticar erros dos governantes e tudo fazer para corrigi-los, e essa prerrogativa é uma das principais bases da democracia. (C.N.)  

Trump terá de se curvar aos democratas para conseguir tocar o governo

Trump tem equilíbrio psíquico apropriado para o cargo que ele ocupa?

Charge Kleber Sales (Correio Braziliense)

Vicente Limongi Netto

Com a mania de xerifão do mundo, se intrometendo nas gestões de outros países, dando ordens e opiniões descabidas e hilárias, Donald Trump começa a ver que faz tempo que vai queimando o próprio filme junto aos americanos, pelos quais ele jura amor e devoção.
Com as derrotas na Câmara dos Deputados e no Senado Trump sabe que precisa rápido mudar de táticas para conseguir governar. Para começar, deveria usa menos deboche e ameaças a países amigos ou inimigos, e mais conversas francas e educadas, sem pisar no calo de ninguém.
EFEITO BRAZIL – É preciso salientar que a derrota do fujão Flávio Miliciano respingou forte em Trump, sabidamente ardoroso defensor e padrinho do medonho clã Bolsonaro. Trump exagera na dose. Com tudo e com todos. Insiste na pose e no ar vitorioso. 
Garantiu que acabaria com a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os conflitos pioram e se agravaram. Trump avacalha o regime do Irã. Promete jogar bomba no país se seus líderes não se renderem diante  de suas ordens, mas ninguém obedece.
Trump se autointitulou merecedor do Nobel da Paz. Por algum tempo parecia que os ventos estavam favoráveis a ele. Liderava a disputa com facilidade. Na quadra atual, Donald Trump foi expulso da disputa. Sem merecer voltar a sonhar com o almejado troféu.

Na véspera da prisão, Vorcaro dizia a Flávio que havia enviado duas parcelas de dinheiro

Vorcaro disse que ‘tá muito difícil’ em mensagem a Flávio

Deu na Folha

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou mensagem de visualização única ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) um dia antes de ser preso, afirma reportagem do portal Uol.

Segundo o texto publicado nesta terça-feira (3), o ex-banqueiro afirmou ter enviado duas parcelas da “grana”, mas disse que estava com dificuldade de concretizar as transferências. A mensagem foi recuperada pelo portal a partir de uma análise do log (arquivo que guarda registros de atividade de dispositivos eletrônicos) do telefone de Vorcaro.

“MUITO DIFÍCIL” – “Tá muito difícil, mas vamos vencer. Se eu passar da semana que vem aí resolvemos tudo em seguida”, prosseguiu o empresário. A reportagem indica que Vorcaro já sabia da operação que resultaria na própria prisão, e por isso teria citado que precisaria sobreviver até a semana seguinte.

O banqueiro utilizava imagens de visualização única para esconder rastros ao conversar com Flávio e com outras autoridades, como o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

Vorcaro escrevia a mensagem no bloco de notas, capturava a tela e enviava a imagem pelo WhatsApp aos destinatários. Após o receptor ver o conteúdo, a mensagem é destruída no aplicativo. Apesar de apagar as imagens e as notas, o iPhone guarda temporariamente um arquivo PDF de cada captura de tela criada. Os dados do documento, então, foram cruzados com o log do celular para identificar a data e a hora do texto.

SEM MEIA CONVERSA – Segundo o Uol, a mensagem sobre as transferências foi enviada em resposta ao congressista. O candidato derrotado na eleição para a Presidência da República enviou duas fotos temporárias seguidas da mensagem “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.

O dono do Master detalha ao senador a dificuldade para transferir recursos. “Vai dar certo essa semana. O cara que mandei a grana não liquidou, e eu estou num momento difícil demais. Foram duas parcelas que mandei e ele não liquidou. Muito foda. Mas já organizei pra fazer de novo na terça.”

A última mensagem de Flávio Bolsonaro, conforme a reportagem, foi enviada às 15h46 de 16 de novembro de 2025 —Vorcaro estaria em Brasília aguardando possível encontro com Moraes. O ex-banqueiro desbloqueou o telefone, abriu o bloco de notas às 15h51 e digitou por 70 segundos o conteúdo que enviaria ao filho de Jair Bolsonaro (PL). Capturou a tela às 15h52 e, cinco segundos depois, enviou a imagem que expira no WhatsApp. No minuto seguinte, Flávio responde “amém!”.

DARK HORSE – A reportagem procurou as defesas de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, que não se manifestaram. Segundo o Uol, a conversa leva a entender que as mensagens tratavam do financiamento do filme “Dark Horse”, que retratava a trajetória política de Jair Bolsonaro, em especial o tempo dele no Palácio do Planalto.

O dono do Master se comprometeu a enviar R$ 134 milhões para o longa-metragem em 14 parcelas. Até a prisão de Vorcaro foram enviados sete repasses, em um total de R$ 67 milhões. A Polícia Federal investiga Flávio por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no caso do filme.

A reportagem também cita mensagens a Moraes na antevéspera e na véspera da prisão de Vorcaro, também combinada em conversa no WhatsApp enviada por imagens que desapareciam. Apenas o conteúdo do ex-banqueiro foi recuperado. “Não conseguimos reverter isso com Paulo [Gonet] ou Andrei [Rodrigues]? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”, enviou a Moraes às 18h23 de 15 de novembro de 2025. “Esses caras devem estar sabendo que estou resolvendo tudo essa semana e querem acabar com tudo antes”, escreveu Vorcaro às 19h43.

“BEM RÁPIDO” – O dono do Master pergunta a Moraes, às 21h23, se “podemos nos ver amanhã rapidamente algum horário?”. E emendou dez minutos depois que “vou na parte da tarde então. Veja um horário que não vai te atrapalhar muito. Pode ser bem rápido”.

Em 16 de novembro, Vorcaro enviou mensagem ao ministro do STF às 13h40 dizendo que estava no avião. “Vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”, disse. Eles voltam a se falar às 16h57. “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu o ex-banqueiro.

ELOS ENTRE FLÁVIO BOLSONARO E DANIEL VORCARO

FILME SOBRE BOLSONARO – Conversas divulgadas pelo The Intercept Brasil indicam que Flávio Bolsonaro manteve relação próxima com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apesar de antes negar conhecê-lo; as mensagens mostram cobranças de Flávio por recursos para o filme Dark Horse, e o ex-banqueiro teria repassado R$ 61 milhões ao projeto entre fevereiro e maio de 2025, dentro de um acordo estimado em R$ 134 milhões — cifra incomum para produções cinematográficas brasileiras

VISITAS AO DONO DO MASTER – O senador confirmou ter visitado Vorcaro após a primeira prisão do empresário, no fim de 2025, mas afirmou que o encontro em São Paulo serviu para encerrar qualquer relação comercial entre ambos; o senador também chamou o ex-banqueiro de “irmão” em contatos entre setembro e novembro de 2025, enquanto a situação o Banco Master se agravava. O Banco Central vetou a venda da instituição financeira ao BRB em setembro de 2025, a PF abriu inquérito no fim daquele mês e Vorcaro foi preso novamente em novembro

“DINHEIRO PRIVADO” –  Flávio Bolsonaro, inicialmente, classificou como falsa a informação de que procurou Vorcaro para o financiamento do filme; após a divulgação dos áudios, reconheceu a busca por patrocínio privado e defendeu uma CPI do Banco Master. O argumento de que o dinheiro era exclusivamente privado é questionado porque as fraudes atribuídas ao Master envolvem recursos de entes públicos, incluindo Rioprevidência, previdência do Amapá e o BRB

CONFIDENCIALIDADE – Flávio passou a citar cláusula de confidencialidade e descreveu Vorcaro como investidor, não doador do longa-metragem; também afirmou que conheceu o banqueiro em dezembro de 2024, embora haja referência pública anterior de Jair Bolsonaro a investigações contra o banco

DESPESAS DE EDUARDO – A Polícia Federal também apura se recursos ligados a Vorcaro teriam custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos por meio de um fundo texano; Eduardo e Flávio negam o uso, enquanto Flávio admite que valores passaram pelo fundo para o filme

As eleições norte-americanas e o impacto sobre a ordem internacional

Trump poderá ter que rever prioridades e métodos

Pedro do Coutto

As eleições legislativas nos Estados Unidos não colocam em discussão apenas o equilíbrio político interno entre democratas e republicanos. O resultado também terá implicações para a política internacional e para a forma como Washington se relaciona com os seus aliados, adversários e parceiros comerciais.

Num cenário marcado por tensões geopolíticas, disputas económicas e incertezas diplomáticas, a composição do Congresso americano tornou-se um elemento importante para compreender os possíveis rumos da política externa do país. Os efeitos dessa disputa ultrapassam as fronteiras americanas e alcançam diretamente países como o Brasil.

DESAFIO PARA TRUMP – Uma eventual perda de espaço dos republicanos no Congresso representaria um desafio político para Donald Trump e poderia obrigar a Casa Branca a rever prioridades, métodos e estratégias. Não significaria, necessariamente, uma mudança imediata na orientação internacional dos Estados Unidos, uma vez que o presidente conserva importantes instrumentos de decisão em matéria de política externa. Entretanto, uma Câmara dos Representantes controlada pela oposição teria condições de ampliar a fiscalização sobre o Executivo, dificultar a aprovação de determinadas iniciativas e aumentar o custo político de decisões controversas.

A questão central, portanto, não está apenas na possibilidade de os democratas conquistarem a maioria parlamentar, mas na capacidade de essa mudança alterar a margem de atuação do governo. A política externa americana não é uma dimensão isolada da disputa doméstica. Decisões sobre tarifas comerciais, sanções económicas, compromissos militares, relações diplomáticas e acordos internacionais produzem consequências que repercutem sobre mercados, governos e instituições em diferentes regiões do mundo.

O levantamento Reuters/Ipsos divulgado às vésperas da votação oferece uma indicação da dimensão do desgaste político enfrentado pelo presidente. A aprovação de Trump estava em 32%, enquanto os democratas apareciam com 46% das preferências na consulta sobre qual partido deveria controlar o Congresso, contra 38% dos republicanos. Os números, contudo, precisam ser interpretados com cautela: a votação para a Câmara é nacional, mas as disputas são decididas distrito a distrito. No Senado, a distribuição das cadeiras e as particularidades de cada estado tornam o cenário ainda mais complexo.

AMBIENTE POLÍTICO – Uma eventual vitória democrata na Câmara já seria suficiente para modificar o ambiente político em Washington. O partido passaria a controlar as comissões, ampliar sua capacidade de investigação e convocar integrantes do governo para prestar esclarecimentos. Isso imporia maior escrutínio às decisões presidenciais e reduziria a liberdade política de Trump para conduzir sua agenda sem enfrentar resistência institucional. Se também conquistasse o Senado, a oposição ampliaria sua influência sobre indicações para cargos estratégicos e sobre a tramitação de matérias de interesse do Executivo.

É importante, entretanto, não confundir maior fiscalização parlamentar com uma mudança automática na política externa. O presidente americano mantém poderes significativos para conduzir relações diplomáticas, determinar medidas comerciais e orientar decisões de segurança nacional. Mesmo diante de um Congresso controlado pelos democratas, Trump conservaria instrumentos para dar continuidade a parte substancial de sua agenda. O que mudaria seria o custo político e institucional dessas iniciativas, além da capacidade de a oposição expor contradições, questionar decisões e construir obstáculos legislativos.

O comércio internacional oferece um exemplo concreto dessa possibilidade. A política tarifária adotada por Trump, que tem provocado atritos com parceiros comerciais e incertezas nos mercados, estaria sujeita a uma fiscalização parlamentar mais intensa. Reportagem da Reuters publicada em 1º de novembro apontou que uma eventual maioria democrata poderia promover audiências, investigações e votações para contestar tarifas, embora a possibilidade de reverter medidas presidenciais esbarrasse no poder de veto do presidente. Portanto, o efeito mais imediato seria ampliar a pressão sobre o governo, e não necessariamente desfazer suas decisões.

REFLEXOS NO BRASIL – Para o Brasil, as consequências também merecem atenção. A relação com os Estados Unidos envolve interesses comerciais, diplomáticos e estratégicos que não podem ser tratados como uma questão secundária. As decisões de Washington afetam exportações brasileiras, investimentos, negociações tarifárias e a própria capacidade de o país manter uma política externa independente. A disputa entre os dois países não se limita às relações entre seus presidentes: envolve interesses económicos e geopolíticos que permanecem mesmo quando mudam os governos.

Uma mudança na composição do Congresso americano poderia abrir espaço para questionamentos sobre medidas comerciais, ampliar o debate sobre a relação com a América Latina e reduzir a margem política para iniciativas que aprofundem conflitos diplomáticos. Isso não significa que os democratas adotariam necessariamente uma postura mais favorável ao Brasil. Há interesses estratégicos americanos que atravessam governos e partidos, especialmente nas relações com a China, no acesso a minerais críticos e na disputa por influência internacional. O que poderia mudar seria a forma de administrar essas divergências e o grau de resistência institucional a decisões unilaterais.

O alcance da eleição também precisa ser observado em relação aos conflitos internacionais. A condução da guerra com o Irã, as relações com a Rússia e a China, o apoio aos aliados e os compromissos militares americanos estão entre os temas que podem ganhar maior fiscalização parlamentar. A Reuters identificou justamente a política externa como um dos elementos que passaram a repercutir diretamente no cotidiano dos eleitores, sobretudo pelo impacto das tarifas e do conflito no Oriente Médio sobre os preços e os custos de vida. Uma alteração no equilíbrio do Congresso poderia, assim, aumentar a pressão por justificativas, transparência e limites para determinadas decisões do Executivo.

DIMENSÃO INTERNACIONAL – É nesse contexto que a disputa americana ganha dimensão internacional. Uma eventual derrota republicana não produziria, por si só, uma reforma da política externa dos Estados Unidos, tampouco garantiria o desaparecimento das tensões atuais. Mas poderia alterar os mecanismos de decisão, elevar o custo de iniciativas controversas e estimular uma reavaliação de métodos que têm provocado atritos com aliados e parceiros comerciais. Mesmo quando a orientação estratégica permanece, a forma de executá-la pode sofrer mudanças relevantes.

O resultado, portanto, não será importante apenas pelo que representa para democratas e republicanos. Estará em jogo também a capacidade das instituições americanas de estabelecer limites ao Executivo e de preservar algum equilíbrio entre os interesses nacionais e as responsabilidades internacionais do país. Para o Brasil, compreender essa dinâmica é fundamental. Washington continua a exercer influência decisiva sobre a economia e a geopolítica mundiais, e qualquer alteração significativa no seu comportamento repercute muito além das fronteiras americanas. A eleição não decidirá sozinha os rumos da política internacional, mas poderá redefinir as condições em que os Estados Unidos exercerão sua influência nos próximos anos.

Tarcísio é “líder inconteste” da direita, afirma ex-líder do governo Bolsonaro

Senador Eduardo Gomes evita falar sobre futuro de Flávio

Letícia Pille
Luísa Marzullo
Bruno Góes
O Globo

O senador Eduardo Gomes (PL-TO), vice-presidente do Senado e ex-líder do governo Jair Bolsonaro no Congresso, destacou o papel dos governadores na reorganização da direita após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em entrevista ao O Globo, apontou Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador reeleito de São Paulo, como uma das principais lideranças do campo político e evitou garantir que Flávio conseguirá comandar a oposição dos Estados Unidos.

DEBATE – “Temos um número muito grande de senadores, de deputados federais. Isso vai ser processado dentro do partido, dentro da capacidade de trabalho de cada um, também com os governadores. Os governadores são fundamentais nesse debate”, afirmou Gomes.

Para o senador, os governadores, principalmente os seis eleitos pelo PL, terão papel central na articulação da oposição. Gomes destacou a força política de Tarcísio, que já admitiu a possibilidade de disputar a Presidência em 2030, mas evitou avaliar uma eventual nova candidatura de Flávio, afirmando que ainda é necessário ouvi-lo sobre seus próximos passos.

Flávio Bolsonaro está nos Estados Unidos, enquanto o PL precisa se reorganizar no Brasil. O senhor acha que ele conseguirá liderar a oposição à distância?
É como se a gente estivesse preparado para ter uma discussão sobre uma dinâmica que não foi colocada em prática. Não sabemos o que vai acontecer. Temos um número muito grande de senadores e deputados federais. Isso será processado dentro do partido, dentro da capacidade de trabalho de cada um, também com os governadores, que são fundamentais.

Quem pode assumir esse protagonismo na oposição?
Desde o primeiro turno, desde o final do mandato passado, há um líder nessas discussões, nas escolhas, no trabalho e no legado do governo, que é o presidente Jair Messias Bolsonaro. Ele não está na atividade política, mas o presidente Valdemar, os presidentes dos partidos, os parlamentares, inclusive de outras legendas, e os governadores têm papéis de liderança muito significativos.

Hoje temos governadores de grandes estados, como Tarcísio, reeleito em primeiro turno, Sérgio Moro (Paraná), Jorginho Mello (Santa Catarina) e Cleitinho (Minas Gerais), que apoiou Flávio. Tem uma ansiedade muito grande por entender como é que vai ser o processo de acomodação das forças políticas depois de uma eleição tão disputada, mas há coisas que só vão ficar mais claras quando todos conversarem.

Tarcísio afirmou que pode colocar seu nome à disposição para disputar a Presidência em 2030. Como o senhor vê essa possibilidade?
Ele é um líder inconteste nesse campo político no Brasil. Governa o maior estado do país, chegou à reeleição, elegeu os dois senadores da sua chapa e a grande maioria das bancadas federal e estadual de São Paulo. É um político de perfil diferente, mas que tem o respeito das forças políticas, assim como outros governadores que tiveram a sua reeleição consagrada que vão ter um novo passo político.

E Flávio? O senhor acha que ele pode voltar a disputar a Presidência em 2030?
É um julgamento que quase ninguém consegue fazer, porque houve uma saída dele do país e ainda não houve uma fala dele sobre esse assunto. Acho que o momento está muito mais dramático. Todo mundo está analisando com muita tristeza tudo o que aconteceu no segundo turno, as brigas que ocorreram. Isso ele vai dizer. Tem que dizer.

O senhor conseguiu identificar os erros que levaram à derrota de Flávio? Houve falta de mobilização ou salto alto no segundo turno?
Acho que ainda não conseguimos fazer uma autocrítica, a não ser sobre aquilo que as pessoas estão vivendo do questionamento da pauta da eleição no segundo turno, que foi muito para a questão econômica, as promessas e os compromissos de mudança dos programas de governo. Ainda está muito cedo para discutirmos onde erramos.

Como o senhor recebeu a carta em que Flávio se declarou presidente eleito e levantou suspeitas de fraude? O partido ainda pretende discutir o resultado eleitoral?
O que se sabe até agora é que, na própria confecção da carta, os erros ocorridos foram corrigidos pelo próprio autor. E o que se viu de fraude, uso do poder econômico ou qualquer outra coisa, será fruto de debate ainda. Houve, ao mesmo tempo, o reconhecimento do resultado da eleição do ponto de vista do resultado final.

Acho que esse debate está acontecendo agora e vai acontecer nos próximos dias. Mas há também uma consciência de que é preciso reconhecer o momento, tomar posse nos mandatos que a população designou à bancada da centro-direita e pensar também na governabilidade.

O PL elegeu uma bancada expressiva no Congresso, mas partidos que apoiaram Flávio podem negociar espaço no governo Lula. Será possível manter essa aliança na oposição?
Acho que existe, sim, uma sintonia. Mas também existem parlamentares desses grupos políticos que tiveram apoio do presidente Lula. É o caso, por exemplo, do MDB, que teve 17 diretórios apoiando Flávio e dez apoiando Lula.

Como será a disputa pela presidência do Senado? O PL poderá apoiar Davi Alcolumbre ou deve escolher entre Rogério Marinho e Tereza Cristina?
Estamos conhecendo a bancada que será apresentada agora. Na próxima semana, teremos uma reunião. O senador Rogério colocou sua candidatura, assim como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), que foi ministra do presidente Bolsonaro e revelou o desejo de disputar a presidência do Senado.

Ainda está muito cedo. Acho que, a partir da próxima semana, as articulações vão acontecer, assim como no campo do governo, com a candidatura de Davi Alcolumbre.

O PL poderia eventualmente apoiar a reeleição de Davi Alcolumbre?
Não, isso não foi discutido. O primeiro passo será uma reunião interna do PL na próxima quarta-feira. Mas não será apenas do PL. É uma reunião que também contará com senadores de outros partidos.

Como será a relação do PL com o novo governo Lula? Haverá espaço para diálogo?
O PL é o partido que atua no campo da oposição. Fez isso durante os últimos quatro anos. Mas, em alguns momentos importantes, como na Lei Geral do Saneamento, não houve oposição de lado a lado, o Arcabouço Fiscal acabou tendo boa parte de sua aprovação com apoio das bancadas.

Existe espaço no Parlamento para matérias de Estado que nem sempre refletem a divisão existente no campo político.

Existe espaço para uma revisão das regras das emendas parlamentares no governo Lula?
Acho que tem, porque foram feitas algumas modificações no semestre passado e não foram suficientes. Isso será discutido com certeza. Não apenas isso, mas outras matérias também devem sofrer revisão.

Democratas conquistam as duas Casas e impõem derrota histórica a Trump

Sem saída, o Brasil tem de aturar essa inútil polarização entre Lula e Bolsonaro

Arquivos #PolarizaçãoPolítica - Blog do Ari Cunha

Charge do Cazo (Blog do AFTM)

Carlos Newton

Acredita-se que a política brasileira esteja hoje polarizada em 70%, com cerca de 35% de lulistas e 35% de bolsonaristas. Dos 30% restantes, uns 20% seriam cidadãos independentes, que abominam os mitos polarizadores, por considerar que tanto Lula da Silva quanto Jair Bolsonaro são absolutamente despreparados para atuar na vida pública.

E os outros 10% seriam de pessoas egocêntricas, excessivamente religiosas ou imbecis, sem o menor interesse em política, que estão pouco se incomodando com o que acontece ao país

“A MANHA” E “O PASQUIM” – A esculhambação que caracteriza a política brasileira faz lembrar os dois jornais humorísticos que marcaram época no país: “A Manhã”, editado de 1926 a 1959 por Apparício Torelli, que se dizia Barão de Itararé; e “O Pasquim”, de 1969 a 1991, que teve como idealizadores Tarso de Castro, Jaguar, Sérgio Cabral, Carlos Prósperi e Claudius Ceccon.

O autodenominado Barão – (Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895–1971) – morava na Rua Conde de Baipendi, em Laranjeiras, pertinho da casa de meus pais, e sinto muita falta dos três livros publicados por ele (“Almanhaques”) , que meu amigo Rogério Carneiro,  excelente fotógrafo da Ultima Hora e da IstoÉ, me fez o favor de levar e jamais devolver.

Considerado o pai do humorismo político e do jornalismo alternativo no Brasil, chamado de Apporelly pelos amigos, o Barão foi o grande inspirador do “Pasquim”. Gaúcho de Rio Grande, ele usou a sátira, a ironia e o deboche como armas afiadas contra o autoritarismo, a censura e as elites brasileiras.

PÚBLICA E PRIVADA – Apporelly gostava de política e chegou a ser vereador pelo Partido Comunista Brasileiro, eleito em 1947, com um slogan de campanha que ficou famoso no Rio de Janeiro – “Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite!“.

Foi cassado dois meses depois, em janeiro de 1948, quando o governo Dutra cancelou o registro do PCB. Ao deixar o cargo, fez o discurso em que lançou sua famosa frase: “Saio da vida pública para entrar na privada”.

Outra frase muito conhecida do Barão estava afixada na porta de seu jornal e era dirigida aos policiais que frequentemente invadiam a redação. “Entre Sem Bater”, dizia a placa na porta, pedindo que os policiais não espancassem os funcionários do jornal.

Entre sem bater” na vida e obra do genial Barão de Itararé – Matéria IncógnitaNA PORTA DO PASQUIM – Quarenta anos depois, quando fui convidado a escrever no “Pasquim”, que era então dirigido por Jaguar e César Tartaglia, a placa criada pelo Barão estava afixada na porta de entrada. Ou seja, o tempo passara, mas a política brasileira continuava a mesma esculhambação. A diferença hoje é que não mais existem “A Manha” e o “Pasquim” para desmascarar os detentores do poder.

Hoje a política está polarizada entre dois farsantes, um de direita e o outro de esquerda. Tanto Jair Bolsonaro quanto Lula da Silva são dois grandes aproveitadores. Vejam o exemplo do capitão que virou mito: Bolsonaro fez carreira tipo samba de uma nota só, apenas defendendo aumento salarial para os militares, sem fazer nada que prestasse. Com isso, acabou enfiando a família inteira na política, fazendo fortuna com rachadinhas e negócios imobiliários em dinheiro vivo.

Quanto a Lula, segundo o Google ele só trabalhou até os 19 anos, quando perdeu o dedo mínimo e se aposentou precocemente. Depois, virou sindicalista e descolava um dinheiro extra como informante do regime militar, sob codinome “Barba”, subordinado ao delegado Romeu Tuma, então superintendente da Polícia Federal em São Paulo. Mesmo assim, também virou mito.

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P.S. 1
– A política brasileira é um enredo totalmente surrealista. Nenhum cientista político consegue entender como Lula e Bolsonaro, dois líderes desqualificadas e execráveis, podem ser apoiados por tantas pessoas sabidamente esclarecidas e bem informadas, como se não existissem outros políticos no país. Parece um filme de terror, exibido ininterruptamente.

P.S. 2 – É claro que um dia isso vai acabar, porque tudo tem limites e a vida sempre se renova. Hão de surgir outros líderes, que sejam menos irracionais e patéticos. Mas até lá, teremos de aturar, pacientemente, essa absurda polarização. (C.N.)