Canais de apoiadores dividem ministros do TSE após caso Exército do Lula

Nunes Marques já não esconde parcialidade em suas decisões

Mariana Muniz
O Globo

Ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avaliam que canais de WhatsApp mantidos por apoiadores de candidatos à Presidência da República não precisam de registro na Justiça Eleitoral para funcionar. O entendimento contraria a interpretação adotada pelo presidente da Corte, Nunes Marques, que utilizou a ausência de registro como um dos fundamentos para determinar a suspensão do canal “Exército do Lula”, ligado a apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na última quarta-feira, Nunes Marques determinou o restabelecimento imediato do canal, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), e derrubou o prazo de 48 horas que havia estabelecido para seu retorno. A nova decisão, porém, não alterou a exigência de registro na Justiça Eleitoral, ponto central das críticas feitas por integrantes do tribunal à condução do episódio.

APENAS CANAIS OFICIAIS – Nos bastidores do TSE, a avaliação é que as regras eleitorais estabelecem a obrigatoriedade de registro apenas para canais oficiais das campanhas, sem alcançar iniciativas autônomas de apoiadores, parlamentares ou integrantes da sociedade civil. Para esses ministros, ampliar a exigência significaria submeter manifestações espontâneas de apoio político ao controle dos partidos e das campanhas eleitorais.

O entendimento foi discutido internamente na Corte em meio à controvérsia sobre o funcionamento do “Exército do Lula”, que teve suas atividades suspensas por determinação de Nunes Marques no último domingo. A interpretação defendida por integrantes do tribunal é de que não há previsão nas normas eleitorais para exigir que canais independentes sejam formalmente vinculados a uma candidatura.

RESTRIÇÃO – A avaliação é de que a exigência de registro deve ficar restrita aos canais administrados oficialmente pelas campanhas eleitorais, que estão sujeitos às regras específicas estabelecidas pelo TSE. Já os espaços criados por apoiadores, mesmo quando utilizados para divulgar conteúdos favoráveis a determinado candidato, não estariam automaticamente submetidos à mesma obrigação.

Como exemplo, integrantes da Corte mencionam canais vinculados a parlamentares e políticos que não integram formalmente as estruturas das campanhas presidenciais. Esses espaços, segundo essa interpretação, não precisam de registro prévio para continuar funcionando.

EXEMPLO – O caso do deputado federal André Janones, aliado de Lula, é citado como exemplo dessa distinção. A avaliação é de que o parlamentar, por não integrar formalmente a campanha petista, não poderia ser obrigado a registrar seu canal como se fosse um instrumento oficial da candidatura.

Ministros também apontam que canais ligados a outros políticos, como Carlos Bolsonaro, Pablo Marçal e Nikolas Ferreira, funcionam sem registro específico como canais oficiais de campanha. Para essa ala do tribunal, a exigência não poderia ser aplicada de maneira distinta a espaços de mobilização política semelhantes.

A divergência ocorre em meio a críticas internas à condução do episódio por Nunes Marques. Integrantes do TSE defendem que a controvérsia seja resolvida de acordo com os limites estabelecidos pela própria regulamentação eleitoral, sem a criação de novas exigências para a atuação de apoiadores nas redes sociais.

URGÊNCIA – Há ainda um incômodo com a ausência de uma deliberação colegiada sobre o tema. Embora ministros defendam uma interpretação mais restrita da obrigatoriedade de registro, a definição sobre a inclusão do assunto na pauta do plenário depende do presidente da Corte. Na terça-feira, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva pediu que o caso fosse analisado com urgência pelo plenário.

Nos bastidores, a avaliação é de que a discussão poderia ser resolvida pelo conjunto dos ministros, estabelecendo uma orientação uniforme para as campanhas de Lula e do senador Flávio Bolsonaro (PL). Até o momento, porém, Nunes Marques não submeteu a controvérsia sobre a obrigatoriedade de registro ao colegiado.

MUDANÇA NA REGRA –  Na decisão desta quarta-feira, Nunes Marques alterou a regra que previa um intervalo de 48 horas para a utilização de endereços eletrônicos registrados na Justiça Eleitoral entre o primeiro e o segundo turno. A mudança, feita por decisão da Presidência e sujeita à confirmação pelo plenário, permite que esses canais sejam utilizados imediatamente após a comunicação ao tribunal.

O ministro justificou a alteração pelas particularidades do segundo turno, que tem um período de campanha mais curto. A decisão também levou em consideração informações prestadas pelas áreas técnicas do TSE sobre o registro de outros canais de comunicação.

REGISTRO DOS CANAIS – A mudança, no entanto, não afastou a necessidade de registro dos canais considerados oficiais de campanha. No caso do “Exército do Lula”, Nunes Marques considerou suficiente a comunicação do endereço feita pela campanha petista e autorizou o restabelecimento imediato de seu funcionamento.

O presidente do TSE também estabeleceu que, enquanto não forem definidos critérios para identificar quando um canal deve ser considerado oficialmente vinculado a uma candidatura, a campanha de Lula poderá supervisionar o funcionamento do espaço administrado por Janones.

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“Noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho”, no amor do seresteiro

Cândido das Neves (Índio) | Discografia Brasileira

Cândido dos Neves, elegante e discreto

Paulo Peres
Poemas & Canções

O carioca Cândido das Neves (1899-1934), apelidado de “Índio”, era compositor, cantor e instrumentista, parceiro de grandes compositores, como Pixinguinha.

“Noite Cheia de Estrelas”, gravada em 1932 na RCA Victor, por Vicente Celestino, mostra as características de Cândido das Neves na arte de compor: letras sempre muito extensas, cantavam a natureza duma forma romântica, com expressões intelectuais e rebuscadas.

NOITE CHEIA DE ESTRELAS
Cândido das Neves

Noite alta, céu risonho.
A quietude é quase um sonho,
O luar cai sobre a mata
Qual uma chuva de prata
De raríssimo esplendor…
Só tu dormes, não escutas
O teu cantor.
Revelando à lua airosa
A história dolorosa desse amor…

Lua!
Manda a tua luz prateada
Despertar a minha amada!
Quero matar meus desejos!..
Sufocá-la com os meus beijos…

Canto
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta, está dormindo…
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim,
Pois ao ver que quem te chama sou eu
E entre a neblina se escondeu…

Lá no alto a lua esquiva…
Está no céu tão pensativa,
As estrelas tão serenas
Qual dilúvio de falenas
Andam tontas ao luar,
Todo o astral ficou silente
Para escutar:
O teu nome entre as endeixas
A dolorosas queixas
Ao luar.

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O fim da escala 6×1 é uma conquista. Agora é preciso protegê-la

Senado aprovou o fim da escala 6×1 por 75 votos a um

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A aprovação de uma medida por ampla maioria não significa que todos os partidos partilhem a mesma visão sobre o futuro das relações de trabalho. A votação de 14 de outubro, por 75 votos a um, demonstrou o amplo apoio parlamentar ao fim da escala 6×1, mas não eliminou as diferenças sobre os caminhos para garantir melhores condições aos trabalhadores. O único voto contrário foi o do senador Hamilton Mourão.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, prevê a redução gradual da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, além de dois dias de descanso remunerado por semana, um deles preferencialmente aos domingos. O objetivo é ampliar o tempo disponível para descanso, convívio familiar, estudo e cuidados pessoais, preservando a remuneração.

DEBATE PÚBLICO – A trajetória da proposta combina mobilização social, articulação parlamentar e decisão política. A pressão de trabalhadores e movimentos sociais levou o tema ao debate público. No Congresso, a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes, serviu de base para a proposta aprovada, enquanto a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton, foi apensada à primeira. A Câmara concluiu a votação em maio.

A atuação do governo Lula foi decisiva para dar dimensão institucional à pauta. O presidente assumiu publicamente a defesa da redução da jornada, e o governo incorporou o tema à sua agenda política e às negociações com o Congresso. Ao assumir essa causa, Lula contribuiu para transformar uma reivindicação histórica em prioridade nacional, somando-se à pressão social e parlamentar que impulsionou a proposta.

A conquista não pertence exclusivamente a um partido ou a um governo. Os seus efeitos devem ser avaliados pelo que podem representar para a vida de milhões de trabalhadores, independentemente dos dividendos políticos que a aprovação possa gerar.

POSICIONAMENTOS – A votação ocorreu a onze dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. A proximidade da disputa eleitoral não permite atribuir a decisão a uma única motivação, mas torna inevitável examinar as posições dos candidatos diante de uma pauta de forte impacto social.

No caso de Flávio Bolsonaro, a sequência dos acontecimentos merece atenção. Antes de anunciar o voto favorável, o senador criticava a proposta e defendia um modelo alternativo, baseado na remuneração por hora trabalhada. Em 13 de outubro, declarou que votaria a favor do fim da escala 6×1, afirmou defender «algo ainda melhor» e sustentou que o governo deveria compensar os custos para o setor produtivo. No dia seguinte, votou favoravelmente à PEC nos dois turnos, de forma remota.

A mudança de posição não encerra a discussão sobre o modelo de relações de trabalho que Flávio defende. O senador é um dos signatários da PEC 12/2026, apresentada por Rogério Marinho, líder da oposição no Senado e coordenador da sua campanha presidencial. A proposta prevê a possibilidade de escolha entre o regime tradicional da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e um regime flexível, no qual a remuneração depende das horas efetivamente trabalhadas. Nesse segundo modelo, férias, 13.º salário e FGTS seriam proporcionais às horas trabalhadas. A proposta também estabelece um valor mínimo para a hora trabalhada, calculado proporcionalmente ao salário mínimo ou ao piso da categoria.

PODER DE NEGOCIAÇÃO – A questão central não é apenas a possibilidade de escolha, mas as condições em que ela ocorre. Quando o trabalhador depende do salário para sobreviver e o empregador controla a oferta de horas, a liberdade formal para optar por um regime flexível não significa necessariamente poder real de negociação. Se a remuneração depende das horas disponibilizadas, o empregado pode ficar exposto a oscilações de rendimento sem controlar a quantidade de trabalho que receberá.

A PEC apoiada por Flávio prevê a prevalência do contrato individual sobre eventuais acordos coletivos em matérias como compensação de horários e redução da jornada. Na prática, essa regra pode ampliar o poder das empresas para negociar condições diretamente com cada empregado, mesmo quando existe uma relação desigual entre as partes.

Sob o argumento da autonomia, existe o risco de enfraquecer a proteção coletiva e transferir parte da insegurança económica para quem vive do próprio trabalho. Quem controla a distribuição das horas e quem suporta as consequências quando elas diminuem? A pergunta é especialmente relevante para quem não dispõe de margem financeira para compensar uma redução inesperada dos rendimentos.

ARGUMENTO – Rogério Marinho sustenta que a proposta amplia a autonomia do trabalhador e preserva direitos previstos na Constituição. Mas a manutenção formal desses direitos não resolve, por si só, o problema das condições desiguais de negociação. A flexibilidade pode responder às necessidades de determinadas atividades económicas. O ponto decisivo é saber quem determina quantas horas serão trabalhadas e quem assume os custos quando não há trabalho suficiente.

A posição do PL indica que a disputa continuará para além da votação. O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante, afirmou que a sigla pretende defender, em 2027, uma proposta alternativa sobre o tema, caso Flávio vença a eleição. O anúncio sinaliza a intenção de retomar a discussão para promover um modelo diferente daquele aprovado pelo Senado.

É nesse contraste que o voto de Flávio deve ser compreendido. Apoiar o fim da escala 6×1, num momento de forte mobilização social e ampla adesão parlamentar, não elimina as diferenças entre os projetos em disputa. A PEC 221/2019 prevê a redução da jornada sem diminuição salarial e dois dias de descanso remunerado por semana. Já a PEC 12/2026 abre espaço para vincular a remuneração às horas efetivamente trabalhadas e altera o papel da negociação coletiva em matérias específicas.

VERDADEIRAS INTENÇÕES – Não é necessário presumir as intenções de Flávio para reconhecer que os dois modelos podem produzir efeitos distintos. A questão não se resume a ser favorável ou contrário à flexibilidade, mas a saber se o trabalhador terá condições reais de escolha, previsibilidade de rendimento e proteção suficiente para negociar com o empregador.

O argumento a favor da flexibilidade merece ser considerado. Há setores com horários complexos e custos reais de adaptação. Mas a liberdade formal de negociar não significa que as partes tenham o mesmo poder para recusar condições. Quem depende do salário para pagar a renda da casa e as despesas básicas tende a ter menos margem para rejeitar o que lhe é oferecido. Um valor mínimo por hora não garante, por si só, um número mínimo de horas nem um rendimento mensal estável.

A votação de 14 de outubro mostrou que o fim da escala 6×1 pode reunir uma maioria parlamentar sem encerrar a disputa sobre o futuro do trabalho no Brasil. A mobilização social, a pressão no Congresso e a decisão de Lula de assumir publicamente a pauta ajudaram a transformar uma reivindicação histórica em prioridade política. O alcance da conquista dependerá também da forma como os novos direitos serão protegidos e aplicados.

GARANTIAS – O desafio agora é garantir que a redução da jornada se traduza em mais tempo para viver, sem abrir caminho a mudanças que transfiram aos trabalhadores os riscos da falta de horas e de rendimento. O voto favorável de Flávio não apaga a sua assinatura numa proposta de orientação diferente.

Para o eleitor, importa saber não apenas quem votou pelo fim da escala 6×1, mas também quem defenderá a renda, o descanso e o poder de negociação dos trabalhadores quando chegar a hora de definir as regras. É nessa diferença, para além do placar do Senado, que se mede o alcance de cada compromisso. 

Pesquisa Datafolha aponta que Flávio ganhou a eleição, mas ainda não sabe…

Confira a charge do dia por J. Bosco (@jboscoazevedo), publicada no jornal  O Liberal desta terça-feira (06).

Charge do J.Bosco ( O Liberal)

Carlos Newton

Depois do erro clamoroso, quando todas as pesquisas davam Lula à frente no empate técnico, com clara possibilidade de antecipar a vitória no primeiro turno, agora todos os institutos se acertam num empate técnico de todos os seus levantamentos, para não perderem o que resta de sua quase inexistente credibilidade.

Aliás, não podemos esquecer que, no primeiro turno, tivemos aquela cena insólita de ocorrer um apagão na contagem dos votos para presidente, deixando em situação vexaminosa os distraídos apresentadores globais Renata Lo Prete e César Tralli, que passaram mais de 20 minutos repetindo os mesmos números, como pode ocorrer com Inteligência Artificial de segunda categoria, incapaz de prever apagões e manipulações.

SEM JUSTIFICATIVA – O pior é que a Justiça Eleitoral e a TV Globo não apresentaram nenhum explicação para a falha técnica, que jogou para o alto a tão apregoada garantia  do sistema, até porque, quando voltou a contagem, tinha havido apenas modificação nos resultados para presidente, pois nos Estados a votação continuara seguindo a tendência anterior.

Bem, repita-se ad nauseam que o apagão na contagem mudou justamente apenas a tendência dos votos de Lula, que conseguiu ter espantosa recuperação e evitou a derrota no primeiro turno, vejam que coincidência…

Mas vida que segue, como diria João Saldanha, e precisamos abordar agora as novas previsões dos institutos, que voltam a indicar empate técnico, igual à do primeiro turno que não deu certo, e mais uma vez as pesquisas apontam tendência de alta de Lula e de baixa de Bolsonaro. Mas quem se interessa? Todos acham normais as evoluções e os requebros das pesquisas, para justificar o injustificável no desfile da Sapucaí eleitoral.

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P.S. 1
– Nas últimas pesquisas, chamaram minha atenção os resultados da mineira Quaest, que disse ter entrevistado os 22 por cento que não compareceram no primeiro turno, anularam os votos ou fizeram votos em branco. E esses misteriosos eleitores, em sua maioria, disseram que agora estão com Lula e não abrem.

P.S. 2 – Também despertou meu interesse a notícia de que a Datafolha concluiu que no segundo turno Flávio está na frente com 51% a 49% dos votos válidos. Mas o pior para Lula é que sua rejeição é de 46% e Flávio tem mesmo, 44%. Em tradução simultânea, cruzando-se os dois indicadores, isso significa que Flávio Bolsonaro já ganhou a eleição, mas ainda não sabe… (C.N.)

Por que o Deus israelita e cristão iria escolher só alguns para dar sua graça?

Deus de israel

Reflexões sobre o Deus voluntarioso de Israel e dos cristãos

Luiz Felipe Pondé
Folha

O Deus de Israel e dos cristãos é um Deus voluntarioso. Ele escolhe os seus. E, quando o faz, o objeto da sua escolha é tomado de assalto, sem que se possa oferecer resistência. Este é um traço deste que é o maior personagem da literatura ocidental — não falo aqui do ponto de vista da fé, não porque a negue como experiência humana essencial, mas, sim, porque não é o meu ponto de vista.

Se ampliarmos o olhar sobre a história das religiões, veremos que esse caráter voluntarioso é um traço comum aos deuses e deusas em geral. Por exemplo, na tragédia de Eurípides, “Fedra”, Afrodite decide castigar Hipólito pelo fato de ele adorar apenas a deusa Ártemis. Esse castigo virá pela paixão por ele que ela lançará sobre sua madrasta Fedra, causando muita destruição.

VONTADE DIVINA – Uma causa possível desse elemento voluntarioso das divindades pode ser a experiência que temos, desde sempre, de que estamos à mercê de elementos exteriores e interiores que nos assolam. No limite, sentimos que não escapamos da “vontade dos deuses” e, portanto, buscamos negociar com essa vontade via sacrifícios, oferendas, orações, liturgias e lágrimas.

Temor e tremor são nossa sina. Atribuímos uma intenção a tudo o que nos acontece e que não podemos controlar. Decifrar essa intenção é parte do exercício da fé nos deuses. O ato de decifrar sua vontade é fundamental para atribuirmos sentido às coisas que nos acontecem ao longo da vida e da história. Precisamos de água, comida e sentido para viver.

Assim sendo, o Deus israelita não é absolutamente original no seu caráter voluntarioso. Se olharmos para o personagem em questão, principalmente no Velho Testamento ou na Bíblia hebraica, ele apresenta traços comuns aos deuses da Antiguidade, a começar pelo fato de que ele escolhe um povo e combate ao lado dele. Esse mesmo povo será aquele que narrará a história desse Deus e das suas escolhas, envolvendo o chamado povo eleito.

ELEITOS POR DEUS – Se mergulharmos nessa narrativa, veremos que ele tem seus eleitos. Abel, filho de Adão e Eva, morto pelo irmão Caim, desprezado por Deus. Noé e sua família, os eleitos para sobreviver ao dilúvio. Os profetas, vítimas da mão pesada de Deus sobre suas cabeças, mensageiros de tantas notícias devastadoras.

O rei Davi, o bem-amado de Deus, apesar do seu caráter libidinoso, ambicioso e violento, muitas vezes. Nos Salmos atribuídos a ele —provavelmente não escritos por ele, pelo menos na sua totalidade—, percebem-se já traços da doçura de Deus, assim como da sua misericórdia, ao lado do seu duro julgamento dos ímpios.

SOMOS PÓ – No Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão, filho do rei Davi e Bate-Seba, é muito claro que somos pó ou nuvem de nadas diante da vontade de Deus. Este acima do Sol, e nós abaixo do Sol. Vaidade das vaidades, tudo não passa de vazio.

Quando o salmista diz que sua vida não passa de uma sombra que passa, cuja grandeza ínfima cabe na palma da mão de Deus, trata-se da mesma “cosmologia bíblica”, descrita no Eclesiastes, em que somos pó diante da vontade infinita de Deus. O Eclesiastes fala do nosso lugar no universo, uma nuvem de nadas.

Essa condição cosmológica fere nosso orgulho e nossa pretensão de suficiência. Determina, assim, nossa insuficiência diante do mundo e de Deus. Enfim, nossa vulnerabilidade estrutural, ou ontológica, como se costuma dizer em filosofia.

No Novo Testamento, repete-se esse caráter voluntarioso, mesmo que de algum modo atenuado na sua violência —se excluirmos a paixão de Cristo, em si, um ato de enorme violência, reconhecido pelo próprio Cristo, seja em Getsêmani, seja na cruz.

PAIXÃO DE CRISTO – Maria, mãe de Jesus, “teotókos” —mãe de Deus—, como dizem os gregos ortodoxos, também é escolhida à revelia da sua vontade e sofrerá por ver o martírio do seu filho amado. Jesus escolhe seus apóstolos de forma voluntariosa, arrancando-os das suas vidas comuns e lançando-os ao martírio.

Ao longo da história posterior ao período bíblico, o dito povo eleito será lançado aos leões inúmeras vezes, culminando no Holocausto — que recebe esse nome, justamente, pelo caráter teológico atribuído ao massacre dos judeus pelos nazistas — e no Sete de Outubro. A suspeita de que a mão de Deus se manifesta em toda a história do povo eleito revela o peso desta mesma mão sobre a cabeça desse povo feito de sacerdotes.

Já no cristianismo, a ideia de graça —”cháris”, nas cartas de Paulo— virá coroar a vontade de Deus com uma beleza que lhe é peculiar. A gratuidade ou contingência da graça encanta e atordoa a consciência cristã. Por que Deus escolheria alguns para dar a sua graça e não a todos?

Itália marca para 29 de outubro a audiência sobre extradição de Zambelli

Carla Zambelli está em liberdade na Itália

Deu no O Globo

A Justiça italiana marcou para 29 de outubro uma nova audiência para reanalisar o pedido de extradição da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP). As autoridades brasileiras requereram ao país europeu que a ex-parlamentar seja enviada ao Brasil para cumprir a pena pela condenação por perseguir, com uma arma, um homem pelas ruas de São Paulo, em 2022.

Carla está em liberdade na Itália depois de a Corte Suprema de Cassação em Roma anular o pedido de extradição feito pelo governo brasileiro e determinar sua soltura imediata. O requerimento apresentado pelo Brasil voltou ao patamar inicial e deverá ser submetido a um novo julgamento.

MAIS GARANTIAS – As autoridades italianas pediram mais garantias do governo federal e do Supremo Tribunal Federal (STF) do tratamento que Carla poderia receber no sistema prisional brasileiro, considerando seu estado de saúde. Segundo o g1, os dados já foram fornecidos, o que viabilizou o agendamento da reavaliação do caso.

A decisão da Justiça italiana de libertá-la foi tomada na mesma semana em que o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou que o Ministério da Justiça e o Itamaraty adotassem providências para viabilizar a extradição da bolsonarista. A ordem de Moraes teve como base uma decisão anterior da Justiça italiana, em Roma, favorável ao pedido brasileiro.

Dois processos estão ligados às condenações impostas pelo STF à ex-parlamentar. No caso da invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Carla Zambelli foi condenada a dez anos de prisão. Foi com base nessa sentença que o Brasil solicitou sua extradição à Justiça italiana, que em março havia dado parecer favorável ao pedido.

SEGUNDO PEDIDO – Mas a decisão da Corte de Cassação alcançou também o segundo pedido de extradição apresentado pelo Brasil, relacionado à condenação por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal.

A ex-deputada bolsonarista, que tem cidadania italiana, deixou o Brasil em maio de 2025, passando pelos Estados Unidos antes de se mudar para o país europeu. Dois meses depois, ela foi incluída na lista da Interpol, foi presa e afirmou que queria ser julgada na Itália.

AUTORIZAÇÃO – Em setembro deste ano, Carla pediu ao STF autorização para retornar temporariamente ao Brasil durante a eleição, sob a garantia de não ser presa, com o argumento de que pretendia votar na mãe, Rita Zambelli, candidata a deputada federal em São Paulo.

Rita não foi eleita, mas o irmão da ex-deputada Bruno Zambelli conseguiu ser reconduzido nas urnas a deputado estadual por São Paulo. Filiado ao PL, ele buscava permanecer na Assembleia Legislativa. O candidato recebeu 82.946 votos.

PL explica a estratégia de Flávio contra Lula no debate da TV Band

TSE cobra neutralidade da Meta após denúncia de tratamento desigual entre Lula e Flávio

Governo Lula reage a ameaças de Eduardo Bolsonaro contra o Itamaraty

Diplomata critica tentativas de intimidação por Eduardo

Fábio Zanini
Folha

Número dois da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, o diplomata Marcelo Costa reagiu a uma nova postagem do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro em que ameaça retaliar a atual gestão do Itamaraty.

No texto, Eduardo, que vive nos EUA e é cotado para ser chanceler em eventual governo do irmão Flávio, critica a existência de uma “Assessoria de Participação Social e Diversidade” e de uma “Assessoria Especial para a Transversalização de Gênero” no Ministério das Relações Exteriores.

NARRATIVA – “Não é piada. É o seu imposto”, diz o ex-deputado, que acrescenta que “isso não é diplomacia, é aparelhamento”. Ele finaliza dizendo que “se Deus quiser, em 2027 isso acaba”, em referência à possível eleição de Flávio.

Secretário-executivo da pasta, que é a responsável pela coordenação política do governo Lula, Costa afirmou em uma postagem no Instagram que “mais uma vez testemunhamos uma lamentável tentativa de intimidação e ataque ao Itamaraty por parte do ex-deputado Eduardo Bolsonaro”.

Segundo o diplomata, “os alvos são sempre os mesmos: os servidores públicos, a sociedade civil (no fundo, a própria essência da democracia) e as mulheres em particular”. “Trata-se claramente de mais uma tentativa por parte dele de disseminar desinformação e sorrateiramente defender interesses estrangeiros e não dos brasileiros”.

RETALIAÇÕES – Entre servidores do Itamaraty o clima de preocupação com possíveis retaliações de um eventual governo Flávio é grande, em razão das ameaças abertas proferidas por Eduardo.

No final de setembro, em um vídeo, o deputado eleito prometeu que haverá uma “faxina” no Itamaraty, como punição a diplomatas que teriam sabotado o governo de seu pai, Jair Bolsonaro.

O que a Polícia Federal diz sobre a reunião de sua cúpula com Moraes no Supremo

Para eleger Lula, PT quer manipular os votos nulos, brancos e abstenções

Charge do Billo (Arquivo Google)

Duarte Bertolini

Se mantivermos pelo menos dois neurônios funcionando e permanecermos distantes do circo tresloucado e irreal dos fanatizados de plantão (e de cores variadas) é sempre impressionante acompanhar as movimentações dos exércitos durantes as batalhas, especialmente as eleitorais.

Por isso os generais, desde a antiguidade, pouco se envolviam diretamente nas lutas. É claro que existiam generais guerreiros, que participavam  dos combates junto aos legionários, mas geralmente tinham de se manter em posições elevadas, para vislumbrar os cenários amplos e raciocinar sobre as melhores estratégias para derrotar o inimigo.

TENDÊNCIA – Logo após a votação do primeiro turno, ao ouvir as manifestações, quase em coro e numa só direção, contra Lula, seus acólitos do PT e a imprensa amestrada, cheguei a comentar esse fenômeno, 

Agora, nota-se o contrário: há um esforço descomunal dos petistas visando à conversão massiva dos que votaram em branco, anularam o voto ou sequer compareceram.

Os adeptos de Lula estão animados e confiam que algum Deus socialista, preocupado com o sofrimento de seu povo, possa descer dos céus. Diferentemente da Bíblia, porém, não será o Mar Vermelho que se abrirá; desta vez os mares brasileiros é que se tornarão vermelhos.

CASO PROCONSULT – Desde o escândalo Proconsult em 1982 ,denunciado pelo jornalista Pedro do Coutto no Jornal do Brasil, evitando o golpe eleitoral para derrotar Leonel Brizola no Estado do Rio, o caminho da roça para a vitória extra-eleitoral está bem definido – basta manipular abstenções, votos brancos e nulos.

Assim, mais de 40 anos depois, a História estaria se repetindo como farsa, e os petistas se dedicam à explorar o redirecionamento dos votos nulos, em branco e das abstenções, para inverter o resultado do primeiro turno e reeleger o ainda presidente Lula.

Mas uma manobra desse tipo não acontece de uma hora para outra. É preciso estratégia, adesão de grupos e entidades, controle das pesquisas, para aos aos poucos formar na opinião pública o sentimento de que a virada é possível.

ROLO COMPRESSOR – A estratégia petista foi bem delineada e o rolo compressor começou a se mover. Até mesmo a Tribuna da Internet, que opera sob o signo da liberdade e sempre busca a isenção, desta vez tem suas páginas tomadas por uma enxurrada de artigos da grande imprensa e de supostos juristas, economistas, malabaristas e vigaristas de sempre, para comprovar que estaria ocorrendo uma virada em favor do dilúvio petista.

Os autodenominados institutos de pesquisas nem precisam ser convocados. Estão em regime de plantão, sempre preparados para um faturamento extra.

E a cada momento nos deparamos com artigos de renomados jornalistas que tudo legitimam e tudo condenam ou avisam (como se alguém precisasse deles para o bem do Brasil). Por tudo isso,  vamos preparando o estômago e mantendo distanciamento para evitar  contaminação e preservar nossa mente. Vamos ganhar no voto, como estamos fazendo até agora, para conseguir uma desinfecção da política, limpando a imundície e eliminando as bactérias que hoje contaminam os três Poderes.

Lula transforma promulgação do fim da escala 6×1 em demonstração de força

Sessão expõe sintonia de Lula, Alcolumbre e Motta

Victoria Azevedo
O Globo

A promulgação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1 reuniu autoridades do Executivo e do Legislativo, além de integrantes da coordenação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A sessão expôs o clima amistoso entre o petista e os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e foi marcada pela ausência de aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do próprio presidenciável.

A sessão desta sexta-feira mostrou um alinhamento entre os chefes do Congresso e Lula em meio ao processo eleitoral, num momento em que os partidos dos dois parlamentares anunciaram apoio a Flávio. Antes de começar a sessão, Alcolumbre recebeu Lula na porta da sala da presidência do Senado. Eles ficaram no local por cerca de dez minutos e saíram andando lado a lado com Motta até entrarem no plenário.

INFLUÊNCIA – O presidente posou para fotos e cumprimentou aliados no caminho até a mesa das autoridades. Pouco antes de começar a sessão, o ex-ministro da Educação Camilo Santana se levantou e levou ao presidente uma cópia da Constituição — exemplar que Lula ergueu no momento em que foi promulgada a PEC e depois após encerrar seu discurso. Camilo passou a ser um dos aliados mais próximos do presidente e ganhou influência junto à coordenação da campanha do petista após o resultado das urnas no primeiro turno.

Ao longo da sessão, Alcolumbre e Lula cochicharam ao pé do ouvido algumas vezes. Em uma delas, as duas autoridades deram risadas. Os dois congressistas fizeram falas elogiosas a Lula. Motta disse que “quis Deus que nosso destino fosse cruzado com esse grande brasileiro” antes de citar o nome do petista. Alcolumbre, por sua vez, afirmou que a presença do presidente na sessão reforçava “imensamente a importância deste momento para o país”. O chefe da República abriu sua fala citando as autoridades presentes e chamou Motta e Alcolumbre de seus amigos.

PANO DE FUNDO – O clima amistoso tem como pano de fundo as eleições. Lula e Alcolumbre ficaram três meses sem se falar, mas retomaram o contato em agosto, com objetivo do presidente em destravar as propostas de um pacote eleitoral no Congresso. Motta declarou apoio público a Lula antes do primeiro turno, posou para fotos usando bonés vermelhos com o nome do petista e participou de atos eleitorais do presidente na Paraíba. Alcolumbre destravou as pautas de interesse de Lula. Às vésperas do primeiro turno, pautou a PEC do fim da escala 6×1, bandeira da campanha do petista.

Lula citou o momento de ruído na relação com Alcolumbre no discurso e fez uma fala acenando a deputados e senadores ao dizer que o voto que elege o presidente da República é o mesmo que elege os parlamentares (“o voto de um não é melhor que o voto de outro, são iguais, é o mesmo povo que está votando”). “Outro dia, parecia que eu e você (Alcolumbre) éramos dois inimigos”, disse Lula.

DIVERGÊNCIAS – Alcolumbre, então, respondeu: “Eu não fui avisado disso”. O presidente seguiu: “De vez em quando tem uma futrica colocando a inimizade do presidente da República, os deputados, os senadores. Isso é uma bobagem (…) Muitas vezes é ruim a nossa convivência por conta da divergência, mas sem ela seria muito pior. Se eu não pudesse divergir de vocês e vocês de mim, a democracia estava sendo jogada no lixo. Quero parabenizar o Congresso Nacional, Senado e Câmara, por esses dois presentes que deram ao povo brasileiro”.

Além dos interesses eleitorais nos respectivos estados, os parlamentares querem apoio de Lula, do governo e do PT para buscar a recondução no comando da Câmara e do Senado, em fevereiro de 2027. Por isso, contam com a eleição do petista. Os dois estão pressionados após o PL aumentar expressivamente a sua bancada e demonstrar interesse em lançar candidatos. Um integrante da campanha de Lula que acompanhou a cerimônia disse que a retomada da relação entre eles tem sido importante nesta reta final e fala do “modo sobrevivência” de Alcolumbre. O chefe do Senado enfrenta mais dificuldades para conseguir se reeleger.

O presidente vinha sendo aconselhado por aliados a acompanhar in loco a promulgação da PEC, reforçando a vinculação do tema ao seu governo. A proposta é uma bandeira eleitoral e vitrine de sua gestão. As duas primeiras fileiras do plenário foram ocupadas por ministros do governo —a primeira-dama, Janja da Silva, acompanhou a cerimônia em uma dessas cadeiras. Atrás, integrantes da campanha de Lula, como o presidente do PT, Edinho Silva, o ministro da Secom licenciado Sidônio Palmeira, o presidente do PSB, João Campos, e o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT).

AUSÊNCIA DE FLÁVIO –  A sessão desta sexta foi marcada também pela ausência de aliados de Flávio Bolsonaro e do próprio candidato à Presidência —nenhum senador alinhado ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro compareceu. Flávio está no Rio de Janeiro. Integrantes da oposição mais distantes de Flávio também não aparecerem, apesar da Casa ter se posicionado majoritariamente a favor da proposta, com 75 votos a favor e apenas um contra, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).

O presidenciável tem sido criticado por Lula e aliados pela atuação contrária ao avanço do fim da escala de trabalho 6×1. O senador fez uma série de declarações críticas à PEC, defendeu uma proposta alternativa em que os trabalhadores negociem jornadas flexíveis junto a seus empregadores e atuou para adiar a votação da proposta.

Na véspera, entretanto, recuou e deu declaração favorável à medida, diante da pressão popular e mirando evitar desgastes nas urnas. Ele não participou da votação na quarta-feira, no entanto. Votou favorável à distância. A interlocutores do setor empresarial disse que a PEC poderá ser revisada pelo Congresso, caso ele seja eleito presidente da República.

A seca e a chuva pintam os dois quadros sertanejos de Patativa do Assoré

Meus versos é como semente Que nasce... Patativa do Assaré - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme podemos perceber no poema “Dois Quadros”, que mostra o cotidiano do nordestino em busca de melhores condições de vida.

DOIS QUADROS
Patativa do Assaré

Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.