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Senador tenta passar imagem de ‘Bolsonaro moderado’
Rafaela Gama
O Globo
Em busca do voto dos eleitores independentes, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato ao Planalto, tem apostado em uma guinada na linguagem usada em suas redes sociais e discursos públicos. Os ataques ao governo passaram a ser revezados com memes usados para divulgar suas promessas de campanha e posts sobre temas ligados a pautas identitárias, tradicionalmente associadas à esquerda e rechaçadas pelo bolsonarismo.
No domingo, Dia Internacional da Mulher, mais uma vez o senador sinalizou a mudança no discurso ao publicar um vídeo sobre a data comemorativa e usar a ocasião para defender a ampliação do número de vagas nas creches ofertadas pelo governo, em tom crítico à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“PAÍS JUSTO” – “Uma mulher não deveria escolher entre cuidar dos filhos e seguir seus sonhos. O Brasil pode garantir que ela possa fazer o que ela quiser, só assim seremos um país justo. Não adianta chegar no 8 de março e fazer discurso bonito de igualdade, enquanto milhares de mulheres brasileiras querem trabalhar e estudar, mas não têm onde deixar seus filhos em segurança”, disse na gravação.
Na semana anterior, durante a manifestação que reuniu apoiadores bolsonaristas na Avenida Paulista, ele também abordou um tema de interesse do eleitorado feminino: ao discursar no palanque, comentou sobre a escalada de casos de feminicídio no país e afirmou ser necessária “a defesa intransigente das mulheres”.
Nas redes, a música “Meu amigo Flávio”, produzida pelo comediante Murilo Couto, chamou atenção para a troca de tom e viralizou depois de ser usada com ironia como trilha sonora em um show de stand-up para contar a história do momento em que foi seguido pelo senador no Instagram.
TOM HUMORÍSTICO – Após ser veiculada, a expressão se tornou uma hashtag no X e passou a ser compartilhada pelo próprio parlamentar em tom humorístico. “Meu amigo Flávio vai modernizar o Brasil”, escreveu ao compartilhar uma foto, usando óculos futuristas. “Junto com o povo brasileiro, meu amigo Flávio vai resgatar o Brasil das mãos sujas do PT”, disse em outra publicação.
Em outra ocasião, ele publicou um vídeo em defesa do jogador Vini Jr, depois que ele foi alvo de ataques racistas proferidos por um jogador do Benfica durante uma partida contra o Real Madrid. “Não podemos nos calar e deixar o racismo silenciar um dos maiores talentos do nosso futebol”, escreveu em uma publicação no X. Apoiadores o criticaram pela postura, dizendo que ele iria “queimar” sua candidatura e “perder votos em Santa Catarina” com o discurso.
Nos comentários, no entanto, seguidores também relembraram falas racistas de Jair Bolsonaro, como um episódio em 2021, quando ele comparou o cabelo crespo de um apoiador negro a um “criatório de baratas”. A declaração rendeu uma condenação na Justiça ao pagamento de R$ 1 milhão em verbas indenizatórias.
EM DEFESA DO PAI – Anos antes, ainda durante a primeira campanha do pai à Presidência, em 2018, o senador saiu em defesa de Bolsonaro após ele ser denunciado por ofensas contra comunidades quilombolas. “Jair Bolsonaro foi forjado em quartel, lugar de gente decente, humilde, trabalhadora e cheia de negão”, escreveu em uma publicação.
Hoje postulante ao Planalto, o parlamentar tem buscado se colocar como uma versão diferente do pai, muito criticado como negacionista durante a pandemia de Covid-19. Flávio declarou, por exemplo, que tomou “no braço” duas doses da vacina contra o vírus. Em uma publicação recente, também saiu em defesa da pesquisadora Tatiana Sampaio, criadora da polilaminina, medicamento usado no tratamento de pacientes com lesão na medula espinhal, e que perdeu a patente da substância por cortes no orçamento federal.
Após o carnaval, Flávio também defendeu a festa ao afirmar que os desfiles nos sambódromos da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, e do Anhembi, em São Paulo, eram o testemunho “da maior festa popular do planeta e do trabalho de milhares de pessoas”. “É o exemplo de que o Brasil pode ser criativo mesmo com pouco”, disse.
CRÍTICA – No entanto, criticou a escola de samba Acadêmicos de Niterói pela homenagem ao presidente Lula e pela ala com a fantasia da “família em conserva”. Após o desfile, entrou com ação no Tribunal Superior Eleitoral contra o PT por propaganda antecipada com uso de dinheiro público.
Em tom irônico, o senador também usou o gênero neutro e pediu o apoio de “todas, todos, todes, todys e todXs” para ganhar a eleição. Antes, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) também compartilhou uma imagem criada por IA que mostrava o irmão recebendo um beijo na bochecha de um apoiador gay. “Vocês já ouviram alguma fala homofóbica de Flávio?”, dizia a publicação.
O ex-presidente Bolsonaro, por sua vez, declarou no passado que “preferia ter um filho morto a um herdeiro gay” e disse ao repórter em 2019 que ele teria “uma cara de homossexual terrível”.
CAMPANHA NOS ESTADOS – Em busca do voto bolsonarista e dos eleitores independentes, a mudança no tom também coincidiu com a atuação direta de Flávio pelo fechamento das chapas estaduais. No mês passado, ele esteve presente no anúncio das candidaturas no Rio de Janeiro, que terá o secretário das Cidades, Douglas Ruas (PL), como postulante ao governo, e o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP) como vice. Em paralelo, também foram acertadas as indicações para o Senado do governador Cláudio Castro (PL) e do prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União).
Além do Rio de Janeiro, o senador atuou no desenho de uma chapa puro-sangue para o Senado em Santa Catarina, após atritos gerados pela indicação do ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL) para concorrer pelo estado. No final deste mês, Flávio também deverá estar no Rio Grande do Sul para o lançamento da pré-candidatura ao governo do deputado federal Luciano Zucco (PL), cuja vice tende a ser ocupada por uma indicação do PP, enquanto as vagas para o Senado ficarão com os deputados Sanderson (PL-RS) e Marcel Van Hattem (Novo-RS).
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Os discursos de Flávio Bolsonaro são tão verdadeiros quanto uma nota de R$ 3, já que não condizem com as declarações repetidas à exaustão pelos membros do seu clã a respeito de temas sensíveis. Sua “moderação” é conveniente em ano eleitoral. Como dizia Cazuza, “tuas ideias não correspondem ao fatos”. Mas o tempo não para. (M.C)