Mario Sergio Conti
Folha
Olavo Bilac diria que “foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada do outono”, nas terras de Poço Fundo, sítio na Serra Fluminense, que Antônio Carlos Jobim compôs há 54 anos a melhor música brasileira de todos os tempos, “Águas de Março”.
Superlativo e subjetivo, esse “melhor” tem razão de ser. Há 24 anos, a Folha pediu a 214 pessoas ligadas à música que levassem em conta letra, melodia, importância histórica e razões afetivas para eleger a canção nacional máxima, e “Águas de Março” chegou na frente.
Em segundo lugar ficou “Construção” de Chico Buarque, que, por sua vez, considerava a composição de Jobim “o samba mais bonito do mundo”. Leonard Feather, crítico do New York Times, disse algo parecido: “Águas de Março” é uma das dez músicas mais lindas do século 20.
OURO E PRATA – Além do que, foi cantada pela prata da casa – Elis Regina, Nara Leão, Gal Costa, Ná Ozzetti – e pelo ouro, João Gilberto. Em inglês, por Ella Fitzgerald, Art Garfunkel e Dionne Warwick. Há versões em espanhol, francês, italiano e, infelizmente, em alemão – a patética fábula “O Cão, o Gato e o Rato”.
Forma musical dominante no Brasil desde sempre, a canção não é mais o sol do sistema cultural. Mas “Águas de Março” permanece, é um clássico que parece ter sido composto ontem. É complicado dizer por que, pois ela afronta a tradição e o senso comum, tanto que se inspirou no Bilac de “O Caçador de Esmeraldas”.
É difícil cantá-la. Dançá-la, nem pensar. Cantarolá-la, sim, mas uns poucos versos da letra quilométrica. Não é brejeira nem carrancuda, festiva ou funesta. Passa-se num presente perene no qual vige um único verbo: ser. Ele é conjugado 92 vezes na terceira pessoa do singular do presente do indicativo: é. E quatro no plural: são. Quem ou o que é o sujeito da ação, caso ação haja, é um mistério profundo.
UM BELO LIVRO – Saiu agora um livro que lança a luz da manhã nesse mistério: “Águas de Março: Sobre a Canção de Tom Jobim”. Publicado pela editora 34, traz ensaios do historiador Milton Ohata, do crítico literário Augusto Massi, do músico Arthur Nestrovski e do compositor Walter Garcia –professores que escrevem com conhecimento de causa e clareza.
Milton Ohata enraíza a canção na meninice mateira de Jobim, que nadou numa Lagoa Rodrigo de Freitas límpida e brincou no ermo Morro do Cantagalo, hoje favela. A natureza, que também enformava Poço Fundo, se fragmenta na letra em estilhaços: a peroba do campo, o regato e a fonte, o nó da madeira, o vento ventando, a chuva chovendo, o pingo pingando.
Jobim foi detido por ter assinado um protesto contra a censura, conta Ohata. Grampearam seu telefone e bisbilhotaram a correspondência. Mesmo a apolítica “Águas de Março” enfrentou problemas para ser liberada: uma censora asnática cismou com o primeiro verso: “pau” significaria polícia; “pedra”, um líder estudantil do maio francês, Cohn-Bendit; “fim do caminho”, a derrubada do regime.
CARRO ENGUIÇADO – Augusto Massi analisa a letra, o “desenvolvimento compacto” e o “fluxo contínuo de palavras” no trajeto do carro enguiçado até as promessas de vida, pontilhado por oposições como “a vida é o sol” e “a noite é a morte”.
Arthur Nestrovski estuda a “fluidez da música”, sua “forma líquida, sem ângulos”. Detém-se na melodia e na harmonia para revelar como os compassos ensaiam um rumo e tomam outro sentido, formando “pequenas espirais ou redemoinhos, torcendo a canção dentro de si”. Ousado, liga “Águas de Março” a Schumann, Schubert, sobretudo Chopin.
No último ensaio, o mais denso, Walter Garcia repassa o percurso artístico de Jobim, o abandono da bossa nova, a opressão ditatorial e a melancolia que o asfixiou em 1972. Embora as circunstâncias do autor e o processo histórico contem, diz, o objetivo da crítica é esclarecer como “os elementos internos da canção se articulam, constituindo a forma sonora, a qual sintetiza e potencializa certa experiência”.
MÚSICA E LETRA – Como um relojoeiro, desmonta e remonta a fusão de música e letra. Mostra que os versos sombrios são mais numerosos e marcantes que os solares. O caco de vidro, o espinho na mão, o corte no pé, o desgosto no rosto e a febre terçã obscurecem a prata brilhando, o belo horizonte, a ave no céu, a festa da cumeeira.
A promessa de vida no teu coração é uma pausa efêmera, uma esperança frustrada antes do retorno à marcha estradeira e ao tombo na ribanceira – ao caminho infindável pelos “destroços do presente”, expressão de Manuel Bandeira que Walter Garcia cita.
É a lama, é a lama.








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Paulo Peres



José Carlos Werneck