PT e PL ampliam recursos para candidatos ao Senado em meio a embates com STF

PL e PT ficaram com as maiores parcelas do Fundo Eleitoral

Hugo Henud
Estadão

O PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, e o PL, do senador Flávio Bolsonaro, deram mais peso ao Senado na distribuição do Fundo Eleitoral de 2026. No partido do petista, a parcela reservada às candidaturas ao cargo mais que quadruplicou em relação a 2022. Já a sigla de Flávio deu à bancada de senadores peso próprio na repartição entre os Estados.

O movimento ocorre em meio ao esforço dos partidos para ampliar suas bancadas numa Casa decisiva para a análise de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e para a votação de pautas centrais do próximo governo. PL e PT ficaram com as maiores parcelas do Fundo Eleitoral em 2026, com R$ 881,7 milhões e R$ 615 milhões, respectivamente.

PESO ADICIONAL – Formado por recursos públicos destinados ao financiamento das campanhas, o fundo é distribuído pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aos partidos segundo critérios previstos em lei, que levam em conta, entre outros fatores, o tamanho das bancadas na Câmara e no Senado. Neste ano, a disputa pela Casa Alta ganha peso adicional porque dois terços de suas cadeiras serão renovados: cada Estado e o Distrito Federal elegerão dois senadores, num total de 54 dos 81 integrantes.

No PT, a parcela do fundo reservada às candidaturas ao Senado passou de 2,48% em 2022 para 10,08% neste ano. Em valores, o montante saltou de cerca de R$ 12,5 milhões para R$ 62 milhões, quase cinco vezes o destinado nas últimas eleições. A direção nacional decidirá como o dinheiro será dividido entre candidatos e Estados, e os percentuais ainda poderão ser ajustados para garantir o cumprimento das cotas legais.

No PL, por sua vez, a mudança ocorreu na própria fórmula de distribuição. Em 2022, Câmara e Senado integravam um mesmo critério, sem que a resolução informasse quanto cabia a cada Casa. Neste ano, a legenda separou as duas Casas. Dos 70% do fundo destinados à repartição entre os Estados, até 48% serão distribuídos de acordo com o tamanho da bancada na Câmara, enquanto o Senado ganhou uma faixa própria de até 15%, calculada com base no número de senadores do partido.

PROJEÇÃO – Na prática, essa faixa corresponde a até R$ 92,6 milhões, ou 10,5% de todo o fundo recebido pelo PL. A Executiva Nacional mantém poder sobre a distribuição final e poderá levar em conta pesquisas, potencial eleitoral e a estratégia política da legenda em cada Estado. Esse peso maior dado ao Senado na divisão dos recursos também aparece no discurso da própria cúpula do partido. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, projeta a eleição de mais 20 senadores pelo PL em outubro. “Do jeito que estão as avaliações, e mesmo de outros partidos, nós temos oito senadores hoje que não vão disputar (governo), que têm mais quatro anos de mandato. Então, nós devemos fazer mais 20 senadores”, afirma.

A aposta em ampliar a bancada também está ligada a bandeiras caras ao bolsonarismo. Durante a convenção do PL no Distrito Federal, o presidenciável Flávio Bolsonaro voltou a defender a eleição de um número maior de senadores e afirmou que uma Casa fortalecida seria necessária para fazer com que ministros do Supremo voltassem, segundo ele, a respeitar a Constituição.

A declaração ocorre em meio ao confronto do clã Bolsonaro com a Corte, especialmente com o ministro Alexandre de Moraes. A ampliação da bancada também é associada pelo grupo a bandeiras como o impeachment de integrantes do STF e uma anistia “geral e irrestrita” aos condenados pelos atos de 8 de janeiro.

PRIORIDADE – A tentativa de conquistar uma bancada maior no Senado antecede a candidatura de Flávio e já era uma prioridade declarada do ex-presidente Jair Bolsonaro. Antes de ser preso, Bolsonaro dizia que pretendia eleger ao menos 20 senadores em 2026 e associava diretamente esse avanço à capacidade de influenciar a composição do Supremo. “Com metade do Senado, vou mandar mais que o presidente da República”, afirmou em julho de 2025, ao mencionar o poder dos senadores de aprovar ou rejeitar indicados à Corte.

O PL pretende lançar candidatos ao Senado em 24 unidades da Federação. Atualmente, o partido reúne 16 senadores, dos quais 11 foram eleitos em 2022 e ainda têm quatro anos de mandato.

Para o PT, a ampliação da bancada no Senado também está entre as prioridades eleitorais do partido, seja para avançar projetos defendidos pelo governo, seja para reduzir o risco de novas derrotas políticas. “Será fundamental para o PT para o próximo ciclo formar uma boa quantidade de senadores”, resume o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), coordenador do Grupo de Trabalho Eleitoral do partido.

ESCALA 6X1 – Uma das bandeiras é o fim da escala de trabalho 6×1, tratada pelo Planalto como prioridade. A proposta foi aprovada pela Câmara no fim de maio, mas ainda aguarda votação no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, segurou o avanço do texto ao determinar que a proposta passasse pelas comissões antes de chegar ao plenário, apesar da pressão dos governistas para que a medida fosse aprovada antes das eleições.

Uma bancada mais numerosa também daria ao governo maior segurança na aprovação de autoridades indicadas pelo presidente da República. Cabe ao Senado sabatinar e aprovar nomes para a Procuradoria-Geral da República, o Banco Central, as agências reguladoras e as embaixadas brasileiras, além de tribunais superiores como o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo.

Sem o aval dos senadores, a nomeação não se concretiza. Foi o que ocorreu em abril, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo, com 42 votos contrários e 34 favoráveis. Foi a primeira vez em 132 anos que a Casa recusou um nome escolhido pelo presidente da República para o STF, numa das principais derrotas impostas ao governo Lula pelo Congresso neste mandato.

IMPEACHMENT – Nesta eleição, o PT lançou 18 nomes para disputar vagas no Senado em 2026. O tamanho da bancada também pesa na eleição do presidente do Senado, a quem cabe decidir sobre a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo. Além disso, quanto maior o número de senadores de uma legenda ou bloco, menor sua dependência de aliados para alcançar os diferentes quóruns exigidos pela Casa.

Projetos de lei ordinária são aprovados por maioria simples dos presentes, desde que haja ao menos 41 senadores na sessão. Propostas de emenda à Constituição exigem 49 votos, equivalentes a três quintos da Casa, em dois turnos. Já a condenação de um ministro do STF ou do presidente da República em processo de impeachment depende do apoio de 54 senadores, dois terços do plenário.

CENTRALIDADE – Para o professor do Insper Leandro Consentino, a tendência é que o peso dado ao Senado nas estratégias partidárias não seja circunstancial e aumente nas próximas eleições.

Para ele, a Casa ganhou centralidade no jogo político à medida que passou a concentrar disputas antes menos presentes no debate eleitoral, impulsionadas pela polarização e pela maior politização de temas como a relação com o Supremo, a aprovação de autoridades e a agenda do governo. “O Senado sempre teve um papel central, mas agora os partidos acordaram para sua importância estratégica. Essa valorização veio para ficar”, diz.

Michelle fecha apoio do Podemos e amplia alianças para disputar o Senado no DF

Republicanos do DF acena apoio à ex-primeira-dama

Felipe Gelani
O Globo

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) fechou um acordo com o Podemos para sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. O entendimento foi costurado com a ajuda da governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e da senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

O movimento amplia a articulação de Michelle em busca de apoio de partidos fora do PL para a disputa. O presidente distrital da legenda, Cristian Viana, deve ocupar a segunda suplência da chapa.

APOIO – O Republicanos do estado também acenou apoio à candidatura da ex-primeira-dama no Distrito Federal. Na sexta-feira (7), o presidente distrital do partido, Joaquim Mauro Silva, publicou em seu perfil no Instagram uma foto de uma reunião com Michelle e escreveu: “Vem novidade por aí”. Participaram do encontro Damares e Cristiane Britto, que foi ministra da Mulher no governo Jair Bolsonaro.

O registro foi a primeira aparição de Michelle em uma agenda política desde o lançamento de sua candidatura. Ela não participou da convenção do PL em Brasília, em 2 de agosto, por causa de uma crise de enxaqueca.

Apesar das articulações locais em torno de Michelle, o cenário nacional é diferente. O Republicanos declarou neutralidade na eleição presidencial de 2026, decisão que deixou o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, mais isolado na disputa. Em São Paulo, porém, o partido declarou apoio a Flávio. O governador paulista, Tarcísio de Freitas, é um dos principais aliados do senador.

Bolsonaro agiu nos bastidores para reunir Michelle e Flávio na campanha

Gesto não altera participação pontual de Michelle na campanha

Luísa Marzullo
O Globo

O ex-presidente Jair Bolsonaro intercedeu para que Michelle Bolsonaro participasse das gravações com Flávio Bolsonaro (PL) na última terça-feira, segundo aliados do pré-candidato e da ex-primeira-dama, no primeiro encontro presencial entre os dois desde a crise que marcou a montagem da campanha.

Segundo os relatos, Bolsonaro pediu que Michelle fizesse o gesto de apoio ao filho e atuou para diminuir as arestas de uma relação que, apesar da reconciliação pública pelas redes sociais, ainda passava por ajustes nos bastidores.

MEDIAÇÃO – A participação de Michelle, portanto, não partiu apenas de uma iniciativa da campanha para incorporá-la à propaganda de Flávio. Bolsonaro entrou na articulação para que a ex-primeira-dama comparecesse à sede jurídica da candidatura, em Brasília, e produzisse ao lado do filho a primeira imagem dos dois juntos desde o desentendimento.

A mediação ocorre num momento em que Bolsonaro, em prisão domiciliar, está impedido de participar diretamente da campanha, mas continua sendo acionado nas negociações e decisões envolvendo seu núcleo político e familiar.

A crise começou durante as negociações para a montagem dos palanques estaduais de Flávio. Michelle se insurgiu contra o apoio do PL a Ciro Gomes (PSDB) no Ceará e defendeu que o partido lançasse dois candidatos ao Senado no estado, sem compor com o postulante ao governo.

REAÇÃO – O episódio provocou uma reação pública de Flávio e expôs divergências dentro da família. Depois, o presidenciável publicou um vídeo pedindo desculpas à madrasta, que respondeu que o perdoava. Os dois, no entanto, não haviam voltado a se encontrar.

Na terça-feira, Michelle chegou à sede da campanha por volta das 14h e permaneceu pouco mais de uma hora. Antes das gravações, ela e Flávio ficaram alguns minutos sozinhos em uma sala e oraram juntos. Pessoas que acompanharam a movimentação descreveram o clima como amistoso e “leve”.

Os dois produziram conteúdos que serão usados nas redes sociais e na propaganda eleitoral. Michelle, porém, dedicou apenas parte do período ao enteado. Aproveitou a concentração de candidatos para gravar também com outros nomes, entre eles a deputada Rosana Valle (PL-SP) e o ex-ministro Marcelo Queiroga (PL-PB).

CALIBRAGEM –  Apesar da iniciativa de Bolsonaro e da imagem de unidade produzida pelas gravações, aliados de Michelle não enxergam no encontro uma mudança significativa na relação com Flávio ou no grau de envolvimento dela na campanha presidencial. A avaliação é que a ex-primeira-dama fez o gesto político esperado depois da crise, mas continuará calibrando suas aparições ao lado do enteado.

A própria passagem pela sede do partido reforçou essa leitura. Michelle reafirmou que preferia uma mulher na vice de Flávio, embora tenha manifestado apoio a Alfredo Gaspar (PL-AL), e voltou a classificar como “visceral” sua oposição à aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará. Também tornou pública sua insatisfação com a autonomia que teve para trabalhar candidaturas femininas à frente do PL Mulher.

Ao tratar da relação com Flávio, afirmou que não guarda mágoas, mas reconheceu que a recomposição ainda é gradual: disse que “as coisas vão se ajustando aos poucos”.

NOVO ENCONTRO – A campanha gostaria de aproveitar o reencontro para ampliar as aparições dos dois. Flávio estará novamente em Brasília no próximo dia 19, e integrantes de seu entorno chegaram a avaliar a possibilidade de promover um compromisso conjunto. A presença de Michelle, porém, não está prevista até o momento.

A expectativa entre aliados da ex-primeira-dama é que ela continue participando principalmente por meio de vídeos e das redes sociais, com aparições presenciais pontuais. Michelle concentra seus esforços na própria candidatura ao Senado pelo Distrito Federal e na rotina de cuidados com Bolsonaro.

Ela mesma afirmou nesta terça que ainda não sabe se conseguirá viajar pelo país para ajudar o enteado e relatou que até a ida às gravações exigiu uma reorganização em casa: deixou a rotina de Bolsonaro preparada e pediu que uma funcionária permanecesse por mais tempo na residência.

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Uma dramática síntese da vida, na visão poética de Francisco Otaviano

Francisco Otaviano – Wikipédia, a enciclopédia livre

Francisco Otaviano, grande poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, político, diplomata e poeta carioca Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889) imortalizou-se ao escrever o poema “Ilusões da Vida”. Em poucas palavras, Otaviano faz um convite à reflexão sobre o sofrimento que a vida reserva a cada um de nós.

Era um poeta tão consagrado que Machado de Assis escreveu um livro sobre a morte do amigo.

ILUSÕES DA VIDA
Francisco Otaviano

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Ministros do STF determinam devolução de penduricalhos e citam pagamentos ‘exorbitantes’

TSE prepara julgamento que pode definir os limites da IA na eleição

Com seus penduricalhos imorais, os magistrados estão desmoralizando a Justiça brasileira

Saem 15 penduricalhos, fica o penduricalhão - Espaço Vital

Reprodução do site Espaço Vital

Vicente Limongi Netto

Quem merece punição:  o desempregado que rouba carne no mercado para alimentar os filhos, muitas vezes o desesperado cidadão acaba preso e espancado pelos brutamontes do estabelecimento, ou a escória de juízes que ganha salários muitas vezes maiores que os vencimento do Presidente da República, professores universitários, cientistas, bombeiros, policiais civis e militares, motoristas de ônibus, deputados e senadores?

No maior descaramento, magistrados permanecem impunes, ganhando fortunas por mês, muito acima do teto constitucional, desmoralizando leis e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

SERES SUPERIORES – Os magistrados e operadores do Direito estão se lixando para tudo e todos. Sentem-se superiores aos demais cidadãos. O Supremo permitiu esses excessos, que começaram a pretexto de dinheiro adquirido, embora privilégios jamais possam ser considerados como direitos.

Agora o próprio STF procura conter a roubalheira, tenta estabelecer limites, e pela primeira vez passa a  exigir que os cretinos togados gulosos devolvam o que ganharam a mais.

Em meio a essa farra salarial, apareceu um desequilibrado mental em Minas Gerais, fantasiado de juiz, fumando e bebendo vinho na boca da garrafa, durante uma sessão virtual do tribunal.

AFASTAMENTO – O irresponsável togado foi afastado das funções. Protestou. Xingou todo mundo. Sobrou até para o Xandão Moraes. Punido, vai encher a cara em casa, com 80 mil de salários mantidos intactos.

O fato concreto é que o Brasil perdeu o pudor. Aqueles que deveriam zelar pelo bem público são os primeiros a manchar leis e normas. Magistrados jogaram o pudor no lixo.

Os cretinos acham que ganham pouco, mas a imprensa denuncia que eles criam cada vez mais penduricalhos, sem que ninguém verdadeiramente tome providências. É surrealismo puro e imoral.

Michelle e Flávio: a trégua que expõe a disputa pelo futuro do bolsonarismo

Michelle ganha espaço, e campanha quer usá-la como trunfo

Pedro do Coutto

O primeiro encontro público entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro depois do recente atrito entre os dois não deve ser interpretado apenas como uma reconciliação familiar. Em plena preparação para a eleição presidencial, a imagem dos dois juntos tem uma função política evidente: reconstruir a unidade de um grupo que depende fortemente da força simbólica da família Bolsonaro.

A crise havia adquirido dimensão suficiente para ameaçar a campanha. Agora, Michelle e Flávio voltam a aparecer juntos e procuram transmitir a mensagem de que as divergências foram superadas. A estratégia faz sentido eleitoralmente. Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 59% dos eleitores consideraram positiva a reaproximação, percentual que chegou a 90% entre os bolsonaristas.

ATIVO POLÍTICO – Mas a fotografia da reconciliação também revela uma questão mais profunda: Michelle se tornou um ativo político que Flávio não pode ignorar. Sua influência ultrapassa o papel de ex-primeira-dama e alcança segmentos importantes do eleitorado conservador, especialmente entre mulheres e evangélicos. Por isso, sua presença na campanha deixou de ser acessória. Ela passou a integrar a própria equação de poder do bolsonarismo.

Flávio, por sua vez, precisa ampliar sua candidatura para além do núcleo mais fiel ao pai. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em agosto mostra Lula com 39% e Flávio com 30% no primeiro turno; no segundo, o presidente aparece com 44%, contra 39% do senador. Já a CNT/MDA, divulgada nesta terça-feira, apontou Lula com 42,4% contra 28,7% de Flávio no primeiro turno e 48% contra 39,1% no segundo.

Os números mostram que Flávio está competitivo, mas ainda enfrenta um obstáculo central: transformar a herança política de Jair Bolsonaro em uma candidatura capaz de conquistar eleitores além da base bolsonarista.

UNIDADE FAMILIAR – É nesse ponto que Michelle pode ajudar. Sua imagem pode suavizar a candidatura, ampliar sua capacidade de comunicação e reforçar a sensação de unidade familiar. Mas existe também um risco: se Flávio depender excessivamente da ex-primeira-dama, poderá reforçar justamente a percepção de que ainda não construiu uma identidade política própria.

A reconciliação, portanto, resolve uma emergência, mas não encerra a disputa de fundo. O bolsonarismo entrou numa fase de sucessão. Jair Bolsonaro continua sendo sua principal referência, mas a eleição de 2026 definirá muito mais do que o adversário de Lula: definirá quem terá condições de comandar esse campo político nos próximos anos.

Nesse cenário, Michelle não é apenas uma apoiadora de Flávio. Ela também preserva capital próprio e capacidade de influência. E isso explica por que o reencontro interessa aos dois lados.

TOMA LÁ, DÁ CÁ – Flávio precisa de Michelle para fortalecer sua candidatura. Michelle precisa manter espaço dentro do grupo que continua orbitando o sobrenome Bolsonaro. O PL precisa dos dois para evitar que uma disputa familiar se transforme em fratura eleitoral. A paz, portanto, é conveniente para todos. Mas conveniência não significa consenso.

O vídeo dos dois juntos pode representar o fim de uma crise. Politicamente, porém, também funciona como o primeiro capítulo de uma disputa muito maior: quem herdará, de fato, o poder construído por Jair Bolsonaro.

Presidente do STM admite fracasso do Judiciário durante a ditadura: “não houve resistência”

Flávio mantém Gaspar como vice e descarta troca em meio a novas suspeitas

Flávio atribui ataques à atuação do aliado no caso do INSS

Luísa Marzullo
O Globo

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) descartou na última terça-feira a possibilidade de substituir Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice de sua chapa e fez uma defesa pública do aliado, que passou a ser alvo de questionamentos após suspeitas envolvendo uma acusação de estupro de vulnerável e de desvios de emendas parlamentares.

O senador afirmou ter “confiança” no deputado, a quem classificou como uma “pessoa preparada” e “de coragem”. Gaspar é alvo de um procedimento no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionado a uma acusação de estupro de vulnerável, que ele nega.

“JUSTIFICATIVA” – Flávio atribuiu os questionamentos sobre Gaspar à atuação do deputado nas investigações sobre as fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. “Foi exatamente no momento em que ele estava ali defendendo os aposentados roubados pelo governo do PT, inclusive pedindo a prisão do Lulinha, que foi feito isso contra ele. É uma pessoa do bem, uma pessoa preparada, da área da segurança pública, de quem temos confiança, de coragem”, afirmou Flávio.

O caso que está no pano de fundo das especulações tramita sob sigilo no STF, sob relatoria do ministro Gilmar Mendes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) avalia se endossa um pedido da Polícia Federal para a abertura de inquérito destinado a investigar uma acusação feita por parlamentares de um suposto estupro de vulnerável pelo deputado. Na semana passada, Gilmar encaminhou à PF uma solicitação da PGR para que haja diligências adicionais antes de decidir se há ou não elementos para a abertura de uma investigação.

O episódio veio à tona em março, durante a CPI do INSS, da qual Gaspar foi relator. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), adversários do parlamentar na comissão, acionaram a Polícia Federal para pedir a apuração de “fatos graves” aos quais afirmaram ter tido acesso.

SEM PROVAS – Na representação, os parlamentares relataram ter recebido documentos segundo os quais uma menina, então com 13 anos, teria sido estuprada, engravidado e tido um filho. O episódio teria ocorrido há oito anos. Os autores do pedido não apresentaram provas naquele momento, sob a justificativa de preservar a adolescente e a mãe.

Gaspar nega ter cometido crime e afirmou desejar fazer um exame de DNA para comprovar sua inocência. Depois que as acusações vieram a público, o deputado também entrou com ações no Supremo contra Lindbergh e Soraya e disse ter disponibilizado seu material genético para eventual exame.

Em nota, Gaspar classificou as acusações como “falsas, levianas e absolutamente irresponsáveis” e afirmou que se tratava de uma tentativa de desviar o foco das investigações sobre o INSS.

EMENDAS –  Além da acusação dos parlamentares, Gaspar também teve uma emenda sua alvo de um procedimento do STF na semana passada. Na sexta-feira, o ministro Flávio Dino mandou a PF apurar se há indícios de crimes na execução de R$ 55,4 milhões na modalidade Pix. A decisão do magistrado se baseia em uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), que apontou “falhas sistêmicas” no controle dos recursos entre 2020 e 2024.

Entre as emendas listadas pelo TCU está uma de R$ 6,2 milhões enviadas por Gaspar para São José da Laje (AL), a 100 quilômetros da capital, Maceió. Segundo a auditoria, não é possível saber como o dinheiro foi gasto pela administração municipal.

Gaspar afirmou não ser investigado no procedimento que apura a aplicação dos recursos e que cabe à prefeitura de São José da Laje prestar contas. “As emendas parlamentares foram destinadas de forma regular ao município, conforme a legislação, cabendo exclusivamente à prefeitura a execução dos recursos e a respectiva prestação de contas”, disse, acrescentando que “confia no trabalho dos órgãos de controle”. A prefeitura também foi procurada, mas não respondeu.

Fachin reconhece que o STF não parece ser imparcial em julgamentos e decisões

Fachin: leia o discurso do ministro em evento da Folha - 10/08/2026 - Política - Folha

Fachin anuncia um projeto para evitar os penduricalhos

Carlos Newton

Já faz tempo que Brasília foi denominada como “Ilha da Fantasia”, um seriado sobre um hotel onde tudo poderia se transformar e uma nova situação se criar subitamente. O apelido pegou e se consolidou, porque Brasília se tornou uma ilha onde a realidade pode se mostrar fantasiosa e ilusória.

O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, é hoje um dos maiores exemplos da realidade virtual que caracteriza a capital da República, uma cidade que parece ter sido criada para falsear a verdade.

PROJETO DE LEI – Nesta segunda-feira, dia 10, o excelentíssimo presidente do STF anunciou que deve ficar pronta até o final do ano a minuta de um projeto de lei para regulamentar a descontrolada remuneração de juízes e operadores de Direito, um absurdo que revolta a opinião pública nacional.

A declaração foi dada na abertura da série de seminários “O Judiciário em Debate: Integridade, Eficiência e Acesso à Justiça”, promovida pela Folha em parceria com a OAB-SP.

Fachin diz o que todo querem ouvir, menos os que se beneficiam com penduricalhos salariais. Segundo ele, é necessário encontrar soluções “públicas, justas e fiscalmente sustentáveis” para questões estruturais do Brasil. O ministro, especialista em dizer o óbvio, incluiu a remuneração de magistrados e disse que a moralização dos gastos públicos, a corrupção e a regulamentação do pagamento de juízes devem ser enfrentadas com seriedade.

CÓDIGO DE ÉTICA – A imagem do Supremo está inteiramente desgastada, devido à promiscuidade e ao conluio com o Executivo, mas Fachin tenta ser exceção e pretende que  sua gestão fique marcada pela adoção de um código de ética, algo que soa ridículo, porque já existem leis que impõe aos ministros um comportamento absolutamente ético, porém são solenemente desprezadas.

Sua iniciativa só teve apoio da ministra Cármen Lúcia, que foi nomeada relatora de uma proposta de Código de Ética a ser apresentada ao plenário, mas sentou em cima das ideias de Fachin e até agora… nada.

Em junho, o presidente do Supremo já tinha dito que esperava para novembro a criação de um anteprojeto de lei sobre a remuneração dos magistrados. Ele apenas está repetindo a informação de que criou um grupo de trabalho para discutir o tema, como se estivesse mesmo empenhado em resolver, enquanto os demais ministros do Supremo desprezam solenemente o assunto.

IMPUNIDADE– Em seu discurso nesta semana repleto de obviedades, o presidente do STF chegou a dizer que é necessário que haja uma aparência de imparcialidade. “A Justiça não deve apenas ser independente e imparcial. Ela precisa também ser percebida como independente e imparcial.”

É inacreditável que tenha dito tamanha asneira. O Supremo não precisa ter aparência de imparcialidade, porque os tribunais existem justamente para serem imparciais e implacáveis. A aparência negativa resulta direta e exclusivamente do comportamento de seus ministros.

Mas como o STF pode ser imparcial tendo entre seus membros alguns ministros que desobedecem as leis porque confiam na impunidade? Ora, foi o que  aconteceu nos julgamentos que libertaram Lula em 2019 e que lhe devolveram os direitos políticos e 2021, em decisões totalmente parciais e fora da lei.

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P.S.
Em 2019, o Supremo transformou o Brasil no único país da ONU (são 193 nações) que não prende criminosos após julgamento em segunda instância e o mais vexaminoso é que passou a somente prendê-los após a quarta instância, embora a maioria das nações só tenha três instâncias. Na ocasião, Fachin votou contra, respeitando a legislação vigente no mundo inteiro.

P.S. 2 – Em março de 2021, como relator da Lava Jato, em decisão individual, Fachin anulou as condenações de Lula pela 13ª Vara Federal de Curitiba. Em abril, o plenário do STF confirmou a decisão. Portanto, ao beneficiar Lula, o Brasil vergonhosamente se tornou o único país do mundo em que existe “incompetência   territorial absoluta”. Nas outras nações, a “incompetência territorial” é sempre considerada  “relativa” e não anula condenações. Mas quem se interessa? (C.N.)

Por que é preciso detestar a literatura de autoajuda e de cunho motivacional

Ilustração de Ricardo Cammarota, executada em técnica de lápis de cor sobre papel. A composição horizontal, 13,9 x 9,1cm, apresenta um trecho de arame farpado, desenhado em tons de azul, roxo e rosa, com quatro pontos de amarração e pontas metálicas. Dos pontos de contato e das extremidades do arame surgem pequenos ramos com folhas, em tons de verde, amarelo e rosa, como se a vegetação estivesse brotando do próprio arame. O fundo é claro, quase branco, deixando evidente a textura do lápis de cor sobre o papel.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Por que detesto literatura de autoajuda e motivacional? Por várias razões, mas uma delas é que esse tipo de literatura é descompadecida. Alimenta-se do real desespero humano e lhe devolve uma grande mentira, baseada na premissa de que podemos fabricar esperança se decidirmos fazê-lo.

Ela mistura estoicismo para consumo barato com uma pitada de teoria cognitiva comportamental, como se essa fosse a programação neurolinguística dos anos 1990, requentada. Não há esperança para o ser humano, o que não implica que as pessoas não vivam esse imperativo existencial de formas distintas, enfrentando esse impasse com graus variados de elegância.

DESELEGÂNCIA – Eu, particularmente, discordo da literatura de autoajuda e motivacional por sua profunda deselegância diante do impasse existencial humano estrutural. Por algum motivo, que talvez eu nunca venha a saber, detesto de modo visceral esse tipo de conteúdo. Em algumas áreas da vida há que se viver visceralmente ou ela será mero teatro de variedades.

Sei bem que esse tipo de mentira vende rios de dinheiro. Quem a pratica chega mesmo a parecer legal. Algo em nós ama a mentira, como dizia o escritor francês do século 20, Georges Bernanos.

Quando se é jovem, a esperança é fruto da fisiologia. Quando o tempo passa, o fracasso dessa mesma fisiologia implica o desaparecimento da esperança por razões miseravelmente materiais.

VIRTUDES MORAIS – Para mim, se a melhor teologia é aquela que começa agradecendo por existirmos, a melhor filosofia é aquela que parte da contingência que reina cega sobre as coisas — como suspeitava a personagem Hécuba, rainha de Troia, pela pena de Eurípedes, descrevendo as agonias das mulheres troianas sendo levadas, ao fim da guerra mais famosa de todos os tempos, como escravas sexuais para a Hélade na tragédia “As Troianas” —, e a melhor moral é aquela que transita entre o perdão, a compaixão e a misericórdia, virtudes irmãs.

Sem perdão, compaixão e misericórdia não é possível se viver em sociedade. Mas, evidentemente, a espécie Homo sapiens parece ser capaz dessas virtudes morais apenas em momentos raros. Daí uma das razões de elas serem tão belas, porque se assemelham ao milagre. Como não há esperança, fazem-se necessários o perdão, a compaixão e a misericórdia.

A tentativa de usar tais virtudes como objetos de literatura de autoajuda e motivacional revelará sua condição de deselegância e falsidade.

MAU-CARATISMO MORAL – Afirmar que somos todos capazes de tais virtudes, se assim o quisermos, temo, beira o mau-caratismo moral. E mau-caratismo sempre foi muito lucrativo, justamente, porque amamos a mentira, como disse aqui.

Muito pelo contrário. Filosoficamente falando, suspeito que virtudes raras como essas, exteriores a qualquer forma de conquista ou dominação, podem ser mais bem vislumbradas quando partimos da constatação que disse antes, e repito aqui, de que não há esperança, mas o desespero não é o destino único e necessário.

O perdão, a compaixão e a misericórdia podem ser o caminho de volta ao lar, sendo o lar aqui a representação de um lugar onde há alguma possibilidade de beleza moral no mundo.

SOFRER É PRECISO – O mundo é mau, a injustiça reina, o sofrimento é inevitável. Se alguém rege as coisas, é cego. O salto no perdão, na compaixão e na misericórdia pode ser semelhante ao encontro entre os pulmões e o ar. A radicalidade dessa questão reside no fato de que as características do mundo descritas no início desse parágrafo são terrivelmente verdadeiras do ponto de vista de uma apreciação desassombrada da realidade.

Aliás, um dos filósofos em que essa constatação se faz dramaticamente evidente é Arthur Schopenhauer. Para nosso pessimista alemão, “a vida é essencialmente sofrimento”.

Como consta no livro do escritor francês Michel Houellebecq dedicado ao filósofo (“En Présence de Schopenhauer”) sem tradução em português, até onde sei, “a desilusão não é uma coisa má” porque ela poderá nos levar, justamente, à constatação de que qualquer forma de ética deverá partir dessa ontologia do sofrimento.

SEM BAIXO ASTRAL – Nada disso significa que devemos fazer uma ode ao baixo astral, inclusive porque essa ode já é feita, de forma prática e repetitiva, pelo cotidiano.

Significa que, talvez, devamos procurar melhor companhia quando quisermos refletir sobre a realidade, em vez de enterrar nossa alma no lixo barato de quem nos toma por idiotas.

A mentira esvazia a alma. Arriscaria dizer que refletir sobre a felicidade deveria partir da constatação de Sigmund Freud, outro schopenhauriano, em seu “O Mal-Estar na Civilização”, de que a felicidade é episódica e que ela não parece fazer parte dos planos da Criação.

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É preciso entender que determinados serviços públicos funcionam pior quando privatizados

Charge reproduzida do Arquivo GoogleRoberto Nascimento

É ilusão achar que vamos nos livrar da dicotomia esquerda & direita, que surgiu na Revolução Francesa de 1789. Do lado direito do salão do Parlamento ficavam os girondinos; à esquerda, os jacobinos; e ao centro, os planaltinos.

Esse legado da Revolução Francesa está presente em todas as instituições do poder e hoje a Direita está em viés de alta. Na América Latina, o campo progressista, como se intitulam os adeptos da esquerda, somente governa o Brasil e o México. O sonho de Donald Trump é dominar esses dois importantes países da América Latina, onde a esquerda ainda resiste.

PRIVATIZAÇÃO – Um dos debates ideológicos mais intensos na disputa entre direita e esquerda está evidenciada na política de estatizar ou privatizar. No Brasil, os neoliberais tucanos cometeram graves erros ao privatizar estatais altamente rentáveis, como a Vale do Rio Doce, uma gigantesca empresa construída com dinheiro público.

Na época, a mineradora tinha valor de mercado em torno de R$ 20 bilhões, mas foi vendida no governo FHC por R$ 3 bilhões e não foi à vista, pois houve  financiamento a juros baixos pelo BNDES.

O sistema de energia das distribuidoras estatais foi todo vendido/privatizado, com exceção da estatal de Minas, por causa da oposição do então governador Itamar Franco. Mudou alguma coisa? O serviço está melhor? As tarifas diminuíram?

CONTRADIÇÃO – Empresas de áreas estratégicas, como fornecimento de energia e prospecção de petróleo, devem ser estatais. A riqueza da Arábia Saudita, por exemplo, deve-se à Aramco, que é estatal.

Uma das multinacionais que entrara m mercado de energia no Brasil é a Eneil, uma gigantesca empresa italiana. Foi fundado como estatal na Itália em 1962 e semiprivatizada nos anos 1990, mas o governo da Itália continua como o maior acionista individual, detendo cerca de 23,6% das ações por meio do Ministério da Economia e Finanças, enquanto o restante do capital é negociado na bolsa de valores.

A multinacional Enel trata tão mal os paulistas, que até o governador Tarcísio de Freitas, forte adepto das privatizações, já se manifestou pela rescisão do contrato, junto com o parceiro de toda hora, o prefeito Ricardo Nunes. Infelizmente, parece que já mudaram de ideia, tanto Tarcísio quanto Nunes, porque pararam de falar do assunto.

CONCESSÕES – Os chamados serviços públicos, como geração e distribuição de energia, abastecimento de água, tratamento de esgoto, fornecimento de gás, transporte de massa etc. são estratégicos e deveriam ser providos pelo poder público, por envolverem responsabilidade social, que a iniciativa privada se nega a oferecer.

Mas os políticos inventaram as “concessões” e hoje somos reféns dessa gente que controla as empresas concessionárias. Pagamos tarifas altíssimas de água, luz, gás e telefone, tudo privatizado, sem falar nos trens urbanos, uma porcaria de serviço.

É uma eterna Odisseia de sofrimento, sem nenhuma expectativa de vencermos essa batalha. Vamos morrer na praia antes de chegar a Ítaca, como no filme de Cristian Nolan, que vem lotando os cinemas do Rio de Janeiro.