“Massacre” da esquerda nas urnas acende o sinal de alerta na cúpula do Judiciário

Onda bolsonarista chegou ao Senado e assustou o STF

Rafael Moraes Moura
O Globo

O resultado do primeiro turno das eleições foi considerado um “massacre”, por integrantes da cúpula do Poder Judiciário. O avanço da bancada bolsonarista no Senado deixou integrantes do Supremo Tribunal Federal e de tribunais superiores em alerta com o risco de avanço dos mais de 100 pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e materializou o maior receio do presidente do STF, Edson Fachin, com as investigações do caso Banco Master: o de que, sem autocontenção, o Judiciário acabaria sendo contido por algum “poder externo”.

A eleição de 33 novos senadores que defendem abertamente o impeachment de ministros do STF, levando a “bancada pró-impeachment” a 49 integrantes, também foi um resultado mais pessimista do que o projetado internamente pelo próprio STF em julho, a partir das pesquisas eleitorais da época.

“BANCADA DO IMPEACHMENT” – Há três meses, integrantes da Corte estimavam que a “bancada do impeachment” chegaria a 40 senadores – um patamar alto, mas ainda aquém dos 54 votos estabelecidos no ano passado por Gilmar Mendes como o quórum necessário para afastar um ministro do STF. Embora tenha sido dada em dezembro de 2025, a liminar de Gilmar até hoje não foi submetida para referendo do plenário.

A onda conservadora derrotou candidatos do campo progressista como Leila do Vôlei (PSB-DF), Benedita da Silva (PT-RJ), Randolfe Rodrigues (PT-AP) e Manuela d’Ávila (PSOL-RS). “O resultado do Senado foi um massacre. Foi uma revolta contra o sistema”, afirma um interlocutor próximo do ministro Alexandre de Moraes.

Nas palavras de um ministro de tribunal superior, o “eleitor puniu o presidente Lula pela crise ética do STF”, em referência à guerra na Corte agravada com as investigações do caso Master, que trouxeram à tona as conexões pessoais e financeiras do banqueiro Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.

INDICAÇÃO – Dos três, só Toffoli foi indicado por Lula, mas como o presidente da República conta com a boa vontade do STF para manter a governabilidade e se tornou aliado de Moraes e Gilmar, o escândalo também respingou na administração petista. “O STF foi derrotado, mas o PT foi humilhado”, resumiu um ministro com bom trânsito no Palácio do Planalto.

Ao defender a adoção de um Código de Ética, Fachin costumava dizer que se o Supremo não fizesse uma reforma por iniciativa própria ela acabaria vindo de fora. O resultado das urnas aponta nessa direção.

O principal alvo dos pedidos de impeachment é Moraes, por conta de seu papel como relator das principais investigações que fecharam o cerco contra Jair Bolsonaro e aliados, além das suas conexões pessoais e de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, com Vorcaro.

PANOS QUENTES – Em entrevista à Globonews, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, tentou colocar panos quentes, sinalizando que há espaço para uma acomodação nos bastidores. “Eles [senadores] têm que conduzir isso com sabedoria e inteligência, porque não adianta pôr fogo no país”, afirmou.

“Essa discussão de impeachment vai depender do Senado. Cada senador pensa de um jeito, e os senadores têm muita força, têm muita independência, e eles vão se entender para que façam o melhor para o país. Não interessa pôr fogo no país. O que nós precisamos agora é tocar o país para frente.”

REFORMA DO JUDICIÁRIO –  Mesmo sendo ele mesmo algo de um inquérito no STF aberto por conta dos US$ 12,3 milhões recebidos de Daniel Vorcaro para supostamente financiar um filme sobre a vida do pai, Jair Bolsonaro, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, surfou na rejeição ao Supremo.

Enquanto Lula ainda busca uma proposta de reforma do Judiciário, o programa de governo de Flávio, intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso”, defende uma série de medidas na arena jurídica, como impor um limite às decisões monocráticas dos ministros e o fim das chamadas competências criminais originárias do STF. “No segundo turno é de esperar um tom mais duro do atual governo em favor de mudanças profundas na cúpula do Judiciário”, prevê um ministro de tribunal superior.

Nesta semana, Lula já deu o tom do discurso do segundo turno, ao dizer que está “carregando nas costas uma coisa muito grave, que é a promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira depois das denúncias”. O petista também disse ser preciso “definir concretamente” os critérios para a escolha de um ministro da Suprema Corte – ainda que tenha indicado neste terceiro mandato um ex-advogado pessoal (Cristiano Zanin) e um ex-ministro da Justiça de seu governo (Flávio Dino).

INSTÂNCIAS INFERIORES – Pela proposta de Flávio, parlamentares e outras autoridades da República passariam a ser julgados por instâncias inferiores, como os Tribunais Regionais Federais e o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Os detalhes da proposta de Flávio, no entanto, não foram divulgados até hoje.

Flávio tem afirmado que vai indicar homens e mulheres conservadores para o STF, “que sejam contra o aborto, contra as drogas, que respeitem a Constituição acima de tudo e que estejam lá pra obedecer à Constituição e não pra ficar defendendo interesses pessoais como o que está acontecendo hoje lá no Supremo”.

Fux abre nova tensão no STF ao pedir acesso integral ao Inquérito das Fake News

Eleita senadora, Bia Kicis delira e até sonha em substituir Moraes na Suprema Corte

Bia Kicis: CCJ deve analisar reformas política e administrativa semana que  vem

Bia Kicis está se achando e já faz planos mirabolantes

Vicente Limongi Netto

No primeiro turno, Bia Kicis era puro amor no coração. Macarronada com a família, preces na refeição. Agora, com o enfraquecimento da esquerda, a postura mudou. É sarrafo na virilha dos adversários. Coisa medonha. Quem quiser que compre gente como Bia Kicis.

Quem acompanha minhas redes sabe – frisei aqui na Tribuna que esta é a eleição do ódio, do rancor, da canalhice explícita. Com ar de dona da verdade e chicote no coração, Bia Kicis mostra-se por inteiro no Correio Braziliense, exigindo o couro de Alexandre de Moraes. Intolerante, em outra coluna a nova senadora de Brasília – credo, Santo Deus! – já planta nota apregoando que é candidata ao Supremo Tribunal Federal.

Cinismo é pouco, oportunismo total. Mostra desrespeito ao coitado do incauto eleitor que votou nela. Nem assumiu, e já sonha com a toga da Suprema Corte.

CRIANÇAS NO PODER – Sonho com crianças governando o mundo. O ar seria infinitamente mais puro. As pessoas seriam mais felizes. O amor cantaria as belezas do mundo em todas as janelas. Ruas estariam tomadas por poetas. Maldades e infâmias seriam incineradas.

A vida transcorreria bela, com saúde e alegrias, a paz moraria em todos os corações. Canalhas, intolerantes e covardes seriam execrados. Proibidos de chegar perto das crianças.

Por fim, em meio à minha felicidade, a atuação estupenda do Fluminense. Bola redondinha de pé em pé.  Sem pressa. Ganso cadenciando o jogo. Elenco está unido e jogando com alegria. Estamos na terceira colocação. Com méritos.  Flamengo e Palmeiras que fiquem espertos.

Moraes manda intimar Bolsonaro por cobrança fiscal no caso das joias sauditas

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Helena Prestes
CNN

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), atendeu a um pedido da Receita Federal e determinou, nesta quarta-feira (7), que o ex-presidente Jair Bolsonaro seja intimado sobre uma cobrança por infração fiscal no caso das joias sauditas que recebeu durante seu mandato.

Moraes autorizou a intimação de Bolsonaro, que está preso em regime domiciliar há pouco mais de um ano por determinação do ministro. O ex-presidente foi preso após ser condenado por tentativa de abolição do Estado democrático de direito e outros cinco crimes.

CUSTÓDIA – Em julho deste ano, Moraes determinou a transferência da custódia das joias sauditas dadas de presente pela Arábia Saudita ao ex-presidente e à ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

O ministro atendeu a um pedido da Receita e acatou a um parecer favorável da PGR (Procuradoria-Geral da República), decidindo arbitrar pelo envio dos itens de uma agência da Caixa Econômica Federal para a Alfândega do Aeroporto de São Paulo.

O CASO –  A Polícia Federal indiciou Bolsonaro, em 2024, pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos por tentar vender as joias sauditas dadas ao governo brasileiro nos Estados Unidos. Segundo o relatório da corporação, a venda dos itens teria como objetivo o enriquecimento ilícito do ex-presidente. O valor da operação é estimado em cerca de R$ 6,8 milhões.

Em março, porém, a PGR pediu o arquivamento da investigação, argumentando que não há uma legislação clara que regulamente esse tipo de situação. Para o órgão, não é possível responsabilizar criminalmente alguém com base em cenários marcados por lacunas legislativas ou por forte divergência interpretativa sobre o que é lícito ou ilícito.

Gonet ressaltou, no entanto, que sua análise se limita à esfera penal e não impede a apuração de eventuais responsabilidades em outras áreas, como na esfera civil ou administrativa. Ainda no mesmo mês, o TCU (Tribunal de Contas da União) decidiu que presentes de uso pessoal, recebidos por presidentes e vice-presidentes, não são patrimônios públicos e podem continuar com os políticos ao saírem do cargo.

As três questões fundamentais que desafiavam o poeta Paulo Mendes Campos

Paulo Mendes Campos - Sentimento do tempo - Blog do Castorp

Mendes Campos, um grande poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções 

O jornalista, escritor e poeta mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) fez reflexões poéticas sobre as três coisas que mais o incomodavam e desafiavam na vida, mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.

TRÊS COISAS
Paulo Mendes Campos

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.
A morte será o escuro?
Em teu olhar me procuro.

Veja acaba com Lula, ao mostrar o acordo entre Vorcaro e o PT, de R$ 1 bilhão

Edições - Revista VEJA | VEJA

Vorcaro conta o acordo bilionário feito com os lulistas

Cláudio Humberto
Diário do Poder

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, preso sob acusação de protagonizar uma das maiores fraudes bancárias da História, afirma em áudios e documentos obtidos pela revista Veja ter liberado milhões de reais para um documentário sobre Lula (PT) em troca de um acerto para fazer negócios com fundos de pensão de servidores federais.

O objetivo era pagar propinas de R$1 bilhão para a meta de negócios de R$9 bilhões com os fundos de pensão. Os detalhes constam de um anexo levado à Procuradoria-Geral da República em junho, na segunda proposta de delação que foi descartada.

“FALTA DE PROVAS” – A PGR recusou a proposta que envolvia o próprio Lula alegando “falta de provas”, já que os pagamentos teriam sido feitos em espécie. A defesa de Vorcaro informou então que as provas eram concretas: mensagens de WhatsApp, registros de quem retirou o dinheiro e informações sobre locais e rotas das entregas.

Segundo o relato de Vorcaro, a aproximação com o PT foi articulada por seu então sócio e CEO do Master, Augusto Lima, com intermediação do então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

Em encontro com o ex-tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, compadre e homem de confiança de Lula, o ex-banqueiro teve de combinar pagamento de cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo ao Instituto Lula, dirigido p or Paulo Okamotto, para “cobrir despesas” de documentário sobre Lula produzido no exterior — o filme Lula, de Oliver Stone, que reúne depoimentos de aliados do presidente, como o advogado Walfrido Warde. Haveria ainda outro valor, não detalhado, pago diretamente à instituição.

“CONFISSÕES” – A reportagem, de Robson Bonin, é destaque de capa na revista Veja sob o título “Primeiras confissões”. Segundo os relatos atribuídos ao banqueiro, os pagamentos fariam parte de uma articulação para facilitar o acesso do Banco Master a investimentos de fundos de pensão federais, como Previ, Petros e Postalis.

Entre os nomes mencionados estão o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ex-ministro Alexandre Padilha, o ex-secretário-executivo da Presidência Olavo Noleto e Paulo Okamotto, ligado ao Instituto Lula.

Além desse adiantamento, o amigo e compadre de Lula, João Vaccari, exigiu uma taxa de 10% sobre tudo o que o banco captasse junto a fundos de previdência de servidores da Caixa (Funcef), do Banco do Brasil (Previ), da Petrobras (Petros) e dos Correios (Postalis). Se a operação se concretizasse, o esquema embolsaria R$1 bilhão e Vorcaro, R$ 9 bilhões.

“POR FORA” – Em áudio, o banqueiro descreve o acerto e contrasta o pagamento com o patrocínio ao filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro: o recurso para o documentário de Lula foi feito “por fora”, enquanto o outro seria um patrocínio regular.

Vorcaro também aponta a participação do então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, do então secretário-executivo Olavo Noleto e de operadores ligados a eles. Ele diz ter formado, no fim de 2023 e início de 2024, uma equipe no Master para captar recursos nos fundos de pensão federais e, a partir daí, ter recebido propostas de “mordidas”.

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro indicam contatos com o entorno de Padilha; Vorcaro afirma ainda ter ido ao Planalto e participado de jantares com o ministro.

LABORATÓRIO – Em abril de 2024, Lula participou da inauguração de um Biomm, laboratório de produção de insulina em Nova Lima (MG) cujo controle foi adquirido por Daniel Vorcaro junto a Walfrido ds Mares Guia, ex-ministro e amigo pessoal de Lula. Dessa inauguração participaram ministros como o próprio Padilha.

O ex-banqueiro não estava presente porque no mesmo dia, 24 de abril, ele se encontrava em Londres em evento com a participação de autoridades brasileiras, as quais seriam recebidas por ele no George Club, à noite, para uma degustação de uísque Macallan e charutos que custou a Vorcaro o equivalente a R$ 3,4 milhões. Entre as autoridades presentes estavam ministros do STF como Alexandre de Moraes, o PGR Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Desde a eclosão do escândalo do Banco Master, Lula tem usado o caso para atacar adversários ligados ao banqueiro, entre eles o senador Flávio Bolsonaro.

Lula não tem de onde tirar mais votos e a esquerda permanece desarvorada

Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentam no segundo turno pela Presidência |  Sobral em Revista

Charge do Clayton (Sobral em Revista)

Luiz Felipe Pondé
Folha

As democracias andaram, rodaram, e parecem caminhar para dar razão ao filósofo antiliberal alemão Carl Schmitt. A polarização é um exemplo muito forte do que ele definiu como o centro da vida política, a saber, a identificação dos amigos e inimigos no espaço social e político. Só quando atingimos o nível de odiar o outro a ponto de considerá-lo uma ameaça existencial é que chegamos ao coração do que significa a política.

Um diagnóstico, sem dúvida, terrível. Entretanto, nem por isso descartável como chave analítica do mundo em que vivemos. Essas eleições de 2026 parecem dar, cada vez mais, razão a Schmitt.

É AMEAÇA? – A política seria mesmo feita de ódio? E essa hipótese, se comprovada em alguma medida, seria a verdadeira ameaça à democracia liberal tal como conhecemos? Diferente da Europa da primeira metade do século 20, com suas ditaduras à esquerda e à direita, agora esse ódio circularia pela livre escolha dos cidadãos. “Eu escolho odiar” ou “nós contra eles, até a morte, sem negociação com nenhum adversário”.

Schmitt é um pensador maldito. Foi do partido nazista e antissemita, apesar de ser acusado por outros nazistas de adesão por oportunismo.

A classe acadêmica, jornalística e artística, apesar de respeitosas exceções, costuma ser covarde e oportunista, o que nega o mito de “resistentes”. Portanto, Schmitt e Heidegger podem ter sido oportunistas mesmo. De qualquer modo, a maldição, com razão, permanece.

ANTIPOLARIZAÇÃO – Muita gente já sabe que, talvez, a única forma de escapar da polarização é ampliar o repertório em filosofia, história e ciência política, além, é claro, de abandonar o vocabulário viciado das redes.

Toda ideologia é burra. A política é o território da violência, segundo o filósofo Francis Fukuyama. Eleições e redes sociais são irmãs gêmeas, não há mais como negar esse fato. E as redes são a mídia do ódio em política.

Independe de quão longe formos na análise dessas eleições e do processo que vem se acirrando, principalmente desde as eleições de 2018, que sagrou Bolsonaro presidente, o fato é que a política no Brasil — e não só nele — se torna, a cada dia, uma arena de gladiadores. Para eles, a ideia de diálogo, de busca de consenso e constitucionalidade perde força diante do ódio como afeto essencial da política, tal qual pensava Schmitt. Um sintoma claro disso é a politização do Supremo Tribunal Federal que é marcado, também, pelo ódio como afeto essencial nas relações institucionais.

É UMA GUERRA – Do ponto de vista da democracia liberal e de seus teóricos, o ódio como afeto essencial da política é o fracasso absoluto da busca por um contrato social que reduza o convívio violento. O ódio na política de hoje é a guerra, por outros meios.

Esse primeiro turno das eleições parece apontar para uma humilhação em larga escala da esquerda. Mesmo que Flávio Bolsonaro e Lula terminem quase empatados, pelo que as pesquisas apontavam, Lula estaria À frente numericamente. O cenário que se delineia é um no qual Lula chega aos números previstos, enquanto Flávio vai além dos números previstos para ele.

Apesar desse quase empate, simbolicamente, Flávio sai “vitorioso” desse primeiro turno, apesar de todo o pacote de bondades do Lula —que destruiu de vez o equilíbrio fiscal e as contas do governo— e dos escândalos do “Dark Horse” ou das fake news de uma ridícula guerra espiritual. Nunca vi petista rezando para santa. A esquerda está em pânico.

DILEMA DE LULA – Os candidatos nanicos, pelo menos os que passaram de 2% dos votos, são do espectro da direita, mesmo que tenham xingado Flávio na propaganda eleitoral desse primeiro turno. A pergunta é: de onde Lula tirará mais votos?

Claro que do primeiro turno para o segundo, muita coisa pode acontecer. Mas a agonia da esquerda não para aí. Lula não tem herdeiros, muito por culpa do seu estilo populista, egocentrado e centralizador. Lula transformou o PT num quintal de irrelevantes.

Quando olhamos para o restante do resultado das eleições, por exemplo, o pleito para governadores e senadores, a direita devastou a esquerda em razoável medida. O crescimento da bancada de direita no Senado poderá tentar emparedar o humilhado STF de fato. Trata-se de um passo importante no projeto da direita para os próximos quatro anos, mesmo que Lula ganhe no segundo turno por uma margem quase nula. A esquerda foi derrotada nesse primeiro turno. Hora de rezar?

Flávio admite mandato de cinco anos se PEC do fim da reeleição for aprovada

O indulto a Bolsonaro que Flávio promete e o STF ainda acha que pode barrar

O que Flávio Bolsonaro está querendo dizer com “redemocratizar” o Brasil?

Lula reconhece a desorganização do PT e tenta reconstruir sua campanha

Lula quer alcançar eleitors além de sua base tradicional

Pedro do Coutto

O reconhecimento feito porLula da Silva de que sua campanha foi “a menos organizada” de que participou desde 1989 é mais do que uma autocrítica circunstancial. A declaração, feita em reunião com parlamentares aliados após o primeiro turno, revela que o resultado das urnas obrigou o presidente a rever uma premissa que orientou boa parte da estratégia petista: a expectativa de que a força política de Lula, associada às realizações do governo, seria suficiente para conduzi-lo à liderança. Não foi. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, diferença de cerca de 2,25 milhões de votos.

O aspecto mais importante da declaração, portanto, está menos na admissão do erro administrativo e mais na constatação de uma falha de comunicação política. O próprio Lula reconheceu que as realizações do governo não foram suficientemente compreendidas por parte do eleitorado. Essa distância entre aquilo que o governo considera ter entregue e aquilo que o eleitor efetivamente percebeu tornou-se um dos problemas centrais da campanha. A eleição mostrou que resultado administrativo e capacidade de comunicação não são variáveis equivalentes.

COORDENAÇÃO – As informações divulgadas nos últimos dias ajudam a dimensionar o problema. A Folha relata dificuldades de coordenação entre diferentes estruturas da campanha, problemas logísticos e até desencontros na convocação de dirigentes e parlamentares. A Reuters, por sua vez, registrou que a campanha pretende reformular sua comunicação para alcançar grupos nos quais encontrou maior dificuldade, especialmente jovens e mulheres, além de ampliar sua presença digital.

Esse diagnóstico também explica a mudança rápida de linguagem observada depois do primeiro turno. Lula passou a utilizar vídeos gravados pelo próprio celular, em formato mais informal, enquanto aliados mais jovens ganharam espaço na tentativa de aproximar a campanha das redes sociais. A mudança é significativa porque reconhece uma transformação no modo como parcelas importantes do eleitorado consomem informação política.

REORGANIZAÇÃO – Há, porém, um problema adicional: reorganizar uma campanha em três semanas não significa apenas trocar peças publicitárias ou aumentar a presença digital. O segundo turno exige uma definição mais clara de prioridades. A campanha precisa decidir quais temas podem ampliar o eleitorado de Lula para além de sua base tradicional e quais mensagens são capazes de dialogar com eleitores que votaram em outros candidatos ou simplesmente não compareceram às urnas. Cerca de 21% dos eleitores se abstiveram no primeiro turno, enquanto os demais candidatos somaram milhões de votos que agora entram no cálculo da segunda rodada.

A dificuldade é que o tempo também reduz o espaço para improvisações. A disputa deixou de ser uma eleição de primeiro turno, marcada por múltiplas candidaturas, e passou a ser uma escolha direta entre Lula e Flávio Bolsonaro. Isso modifica completamente a lógica da comunicação: cada gesto passa a ser interpretado como posicionamento presidencial, e cada erro de coordenação pode adquirir dimensão nacional.

A autocrítica de Lula, nesse sentido, funciona como ponto de partida para uma tentativa de correção. Mas ela também expõe uma questão mais profunda: o segundo turno não será apenas uma disputa para recuperar votos perdidos. Será uma disputa pela capacidade de transformar uma campanha que o próprio candidato classificou como desorganizada em uma operação política mais coordenada, capaz de traduzir realizações de governo em argumentos compreensíveis para um eleitorado que, no primeiro turno, não respondeu como o Palácio do Planalto esperava. O resultado de 4 de outubro não encerrou a eleição. Ele revelou que, para Lula, a segunda etapa exigirá não apenas mais campanha, mas uma campanha diferente.

Anistia aos golpistas é uma promessa de Flávio que os militares querem “festejar”

Charge de Thiago Lucas (Jornal do Commercio)

Charge de Thiago Lucas (Jornal do Commercio)

Carlos Newton

O assunto está na ordem do dia nos portais da imprensa e nas redes sociais. O candidato Flávio Bolsonaro, que está se mantendo à frente de Lula da Silva nas pesquisas (52% a 48% no Datafolha, 53% a 47% no PoderData), reafirma que vai conceder anistia ao próprio pai, Jair Bolsonaro, alegando a norma constitucional que dá esse direito ao presidente da República, embora o Supremo Tribunal Federal já tenha adotado decisão em contrário.

Em abril de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro editou um decreto concedendo uma “graça institucional” (indulto individual) para perdoar a pena do então deputado Daniel Silveira, que havia sido condenado pelo STF. A decisão presidencial foi obedecida, mas teve prazo de validade, porque em maio de 2023 o plenário da Suprema Corte anulou o decreto de Bolsonaro por 8 votos a 2, sob a justificativa de que teria havido desvio de finalidade para beneficiar um aliado político.

PROBLEMA DE FLÁVIO – Se tiver a eleição confirmada no segundo turno do dia 25, o filho Zero Um já confirmou que vai cumprir a promessa, exercendo o direito da “graça institucional” brasileira, uma imitação da prática norte-americana, que o presidente Donald Trump costuma usar com frequência na matriz U.S.A.

Aqui na filial Brazil, os governantes têm mais pudor e só costumam usar a prerrogativa nos fins de ano, ao beneficiar com indulto os presidiários de bom comportamento.

Para evitar o desvio de finalidade que o Supremo poderia alegar, Flávio Bolsonaro vai assinar indulto coletivo a todos os réus do 8 de janeiro e da trama do golpe, que são mais de 1.5 cidadãos brasileiros, condenados pela formação da maior “organização criminosa armada” da História Universal, sem que conhecessem uns aos outros, tivessem um chefe determinado e carregassem alguma arma, além de um ameaçador batom.

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P.S. 1 –
Com essa estratégia, Flávio Bolsonaro vai dar um drible da vaca no Supremo e marcar o gol da anistia, para delírio da torcida das Forças Armadas, que engoliu, mas ainda não deglutiu a condenação e prisão de oficiais de quatro estrelas, que planejaram o golpe de estado, mas não chegaram a concretizar, o que significa que não houve crime. Tanto isso é verdade que o senador Randolfe Rodrigues (PSOL–AP) já tentou alterar o Código Penal para criar o crime de conspiração, mas não conseguiu aprovar o projeto.

P.S. 2 – A anistia será comemoradíssima nos salões dos quartéis, porque os chefes militares não aceitam a tentativa em curso no Superior Tribunal Militar, onde há ministros que sonham em retirar a patente dos generais que estão presos e cassar os rendimentos deles. Isso não poderá ocorrer, é claro. Se não houver anistia e o STM insistir em cassar patentes e proventos, a democracia brasileira vai para o espaço. Apenas isso. (C.N.)

Hugo Motta se antecipa ao PL e sonha costurar sua reeleição na Câmara

Motta  articula reeleição ao comando da Câmara

Victoria Azevedo
O Globo

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), se reuniu na manhã desta quarta-feira com parlamentares para discutir estratégias para garantir sua recondução à frente da Casa, a partir de fevereiro de 2027, diante do aumento expressivo da bancada do PL neste ano.

Motta teve apoio de quase todos os partidos quando foi eleito presidente pela primeira vez, em 2024, mas se aproximou do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos últimos meses por interesses eleitorais na Paraíba, seu reduto eleitoral, contrariando parlamentares da oposição.

ESTRATÉGIAS – Agora, com o crescimento da bancada do PL (foram eleitos 121 deputados, ante 99 em 2022), aliados de Motta falam em traçar estratégias para evitar uma candidatura adversária competitiva na oposição ou que demais partidos deixem de apoiá-lo.

O presidente da Câmara já tinha designado um grupo pequeno de aliados próximos para ajudá-lo nesse processo, entre eles os líderes do PP, Dr. Luizinho (RJ), e do MDB, Isnaldo Bulhões Jr. (AL). Agora, segundo relatos, a ideia é buscar amarrar o apoio dos partidos enquanto intensifica o diálogo individual com os deputados, sobretudo os que tomarão posse para seus primeiros mandatos no próximo ano.

Foram eleitos 183 novos deputados no domingo —de um total de 513—, numa taxa de renovação de cerca de 35,6%. Desde agosto Motta já vinha afirmando a aliados que buscaria aproximação com os novatos. A avaliação é que é preciso usar as ferramentas que um presidente da Câmara tem a seu dispor para se aproximar dos estreantes: entre elas a distribuição de relatorias de projetos estratégicos, cargos administrativos na Casa, divisão de gabinetes e até mesmo fatia das emendas parlamentares.

REUNIÃO – A estratégia é colocar isso em prática a partir de agora, já com o resultado das urnas. Procurado, Motta não se manifestou. Nesta quarta, o parlamentar se reuniu com alguns deles, como Lucas Reis (PT-BA), ex-chefe de gabinete de Jaques Wagner (PT-BA), que teve 192 mil votos, e Ditinho Avivip (União Brasil-BA), que teve 111 mil votos. O parlamentar também se reuniu com Luizinho, Isnaldo e outros aliados como o líder do PSDB, Adolfo Viana (BA). O recém-eleito senador Guilherme Derrite (PP-SP), que hoje exerce mandato de deputado, também passou na residência oficial da presidência da Câmara.

Outros encontros na próxima semana com deputados também estão sendo discutidos por esse entorno de Motta, além de viagens aos estados para buscar aproximação com os parlamentares. Na primeira eleição à presidência, o parlamentar cumpriu agendas em diversas cidades de diferentes estados.

Um aliado de Motta diz que a recondução ao posto estaria mais bem encaminhada se Lula fosse reeleito presidente no próximo dia 25, diante da força da máquina federal que poderia atuar em favor do deputado. Apesar disso, mesmo com eventual eleição de Flávio Bolsonaro (PL), ele acredita que o parlamentar já larga com uma base de 250 a 300 votos — para ser eleito presidente é preciso ter votos de mais da metade dos 513 votantes, em votação secreta. Isso porque o cenário hoje é que os partidos do chamado centrão apoiem Motta.

APOIO – Nos bastidores, esse grupo entende que Dr. Luizinho deverá ser o candidato de Motta em 2029, o que amarra o partido agora na sua reeleição. Além disso, o presidente da Câmara é próximo de Ciro Nogueira, presidente nacional da legenda. Com o PP numa federação com o União Brasil, a expectativa é que também a sigla apoie Motta. Além disso, o parlamentar conta com sinalizações positivas do PT e de partidos da esquerda como PSB e PDT.

Uma dúvida é o PSD, que em 2023 lançou o líder da bancada, Antonio Brito (BA), à disputa. Brito desistiu depois que Motta conseguiu endosso do PT e do PL. O PL, por sua vez, tem falado do desejo de lançar uma candidatura, e o mais cotado é o líder da sigla, Sóstenes Cavalcante (RJ). A avaliação de integrantes do partido é que Motta perdeu as chances de ter apoio dos deputados da oposição após se aproximar de Lula.

Buscando apoio do presidente para eleger o pai, Nabor Wanderley (Republicanos-PB), a uma vaga ao Senado, Motta declarou publicamente apoio à reeleição do petista, participou de atos pró-Lula na Paraíba e posou para fotos usando boné vermelho com o nome do presidente e fazendo o “L” com as mãos, gestos associado a apoiadores do presidente. O pai do deputado, no entanto, não teve apoio formal de Lula na disputa, e ficou em terceiro lugar.

NEGOCIAÇÃO –  O presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), levou o apoio à recondução de Motta à mesa de negociação com o PL para que o partido endossasse a candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Apesar disso, não há nenhuma garantia nesse movimento, segundo relatos, e essa discussão ainda será feita.

Aliados de Motta minimizam a possibilidade de o PL lançar um candidato próprio, mas afirmam ser preciso já amarrar apoios agora, evitando que sua candidatura desidrate. Eles dizem que há instrumentos da Presidência da Câmara que podem criar dificuldades para essa iniciativa, como, por exemplo, ameaçar o partido com perda de espaço na Casa e nas comissões temáticas. Além disso, há uma avaliação que o PL tem como prioridade eleger o próximo presidente do Senado, abrindo espaço para uma composição com os partidos do Centrão pela recondução de Motta na Câmara.

Ignorância dos evangélicos pentecostais foi decisiva na vitória de Flávio no 1º turno

Flávio inicia tour de igrejas e amplia ofensiva entre evangélicos: 'Que o  Senhor o leve para ser presidente'

Flávio está reiniciando o tour nas igrejas pentecostais

Vicente Limongi Netto

O que levou Flávio Bolsonaro à vitória neste primeiro turno foi a imbecilidade de parte do eleitorado e de parte dos evangélicos, em especial das igrejas neopentecostais, que são de pastores que apoiaram Bolsonaro pai na tentativa do golpe. Os votos desses fiéis são os votos de cabresto seguros, certos.

A campanha de Flávio foi dirigida para essas pessoas politicamente ignorantes, que aceitam manipulações e narrativas que nada têm com a realidade. Na campanha, ia aos mercados dizer que estava tudo mais caro e ninguém aguenta mais, que esse governo aumentou os impostos, mas não diz que os imposto sobre os milionários é que incomodam a elite, e metia medo nas pessoas incapazes de fazer comparação do governo atual com o anterior, sobre o que foi o governo de Bolsonaro e o que está sendo o governo Lula. 

PASSADO NEBULOSO – Se a justiça realmente funcionasse contra as elites, Flávio jamais poderia ser candidato à Presidência. Foi salvo na Hora H, porque o Supremo reconheceu que ele tinha foro privilegiado e deveria ter sido investigado em órgão especial do Tribunal de Justiça.

E assim, as abundantes provas do enriquecimento ilícito foram anuladas. Com o retorno da investigação à estaca zero, o Ministério Público do Rio de Janeiro viu-se sem base para sustentar a denúncia, levando o TJ-RJ a arquivar o caso em maio de 2022, sem que as acusações de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa fossem julgadas no mérito.

Após o primeiro turno, Flávio deu duas declarações que mostram por inteiro o perfil intolerante igual ao pai. Disse que vai redemocratizar o Brasil e dar anistia aos golpistas, debochando da firme e respeitada democracia brasileira, que resistiu à tentativa de golpe de estado no início do governo Lula.

Flávio sinaliza retomada da política de armas pretendida por Bolsonaro

Datafolha mostra Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos

Nova geração se elegeu e tomou a Câmara usando as redes sociais

As redes sociais mudam o mapa da Câmara

Luis Felipe Azevedo
O Globo

O sucesso nas urnas de nomes como o de Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) — os candidatos mais votados para a Câmara, com mais de três milhões de votos cada — aponta para uma tendência não só de eleição de candidatos cada vez mais jovens na Casa, mas também para a força de uma nova leva de políticos embalados pelo uso estratégico das redes sociais. O movimento ocorreu ao mesmo tempo em que quadros tradicionais, com longos mandatos no Congresso, não se reelegeram.

O resultado dos dois bolsonaristas superou a votação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em 2018. Com cerca de 1,8 milhão de votos, o agora ex-deputado federal detinha o recorde até então. Nikolas conquistou 3,1 milhões de votos, o dobro do alcançado pelo mineiro em 2022, quando teve quase 1,5 milhão.

MAIS VOTADO – Na ocasião, ele já havia conquistado o título de deputado federal mais votado do país. Já Pavanato é ex-integrante do MBL e ingressou na política após participar de manifestações à favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. No último domingo, ele teve 3 milhões de votos por São Paulo.

Pavanato faz parte de uma nova safra de políticos inspirados na “guerra cultural” proposta pelo guru Olavo de Carvalho. A vertente tem forte presença digital e um empurrão decisivo de Nikolas.

CONFRONTOS – Para alcançar votação expressiva, o vereador adotou as redes e o conflito como principais instrumentos políticos. Abordagens de rua e confrontos com adversários ideológicos em universidades ajudaram a construir a persona “anti-woke” de Pavanato, que se coloca contra pautas identitárias associadas à esquerda. Entre os temas que decidiu levar para o Legislativo estão a proibição do aborto, a restrição de políticas relacionadas à população trans e a revisão da política de cotas raciais.

A tendência de jovens com alta votação na direita também se materializou com a performance do presidente do PL no Ceará, André Fernandes, de 28 anos, que alcançou a marca de 684 mil votos. Ele foi o quarto deputado com maior votação no país este ano.

CONEXÃO – Para a cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a votação expressiva de jovens na direita é fruto do uso do discurso antissistema: “Jovens têm mais pertinência em se apresentar dessa maneira. Esse tipo de candidato tem maior probabilidade de estar mais conectado a novas formas de comunicação e cognição, por meio das redes”.

Também compõem o top cinco de mais votados no país as deputadas Érika Hilton (PSOL-SP), de 33 anos, e Sâmia Bomfim (PSOL-SP), de 37 anos. Reeleitas, elas conquistaram, respectivamente, 1,59 milhão e 583 mil votos. Ambas tiveram alto crescimento na comparação com a votação alcançada em 2022.

Em São Paulo, também chama atenção o fato de que nenhum dos cinco mais votados tem mais de 40 anos. Além de Pavanato, Érika e Sâmia, completam a lista Kim Kataguiri (Missão) e Tabata Amaral (PSB).

DA ESQUERDA À DIREITA –  Na esquerda, entre os eleitos com votação expressiva está Ricardo Cardoso de Azevedo, o Rick Azevedo, de 32 anos. Em meio à discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1, sua principal pauta, o psolista conquistou 191.371 votos, sendo o segundo mais votado da bancada federal do Rio.

O resultado das urnas também levou à Câmara a influenciadora mineira Ana Elisa (PT), de 21 anos, a mulher mais jovem a ser eleita para a Casa. Ela foi a segunda mais votada no estado, atrás somente de Nikolas. Com mais de 2 milhões de seguidores, ela defende que “não existe mais separação de redes e ruas”.

“Gostaria de deixar realmente um apelo para toda a esquerda. É o momento de nós deixarmos realmente a ignorância de lado, calçarmos a sandália da humildade e entendermos que com a rede social a gente precisa sim aprender”, disse a petista sobre a disputa presidencial.

SEGUNDA MAIOR VOTAÇÃO – Também na esquerda, Jones Manoel (PSOL), de 36 anos, chegou ao Congresso com a segunda maior votação do ano em Pernambuco. Na direita, Jeffrey Chiquini (Novo), de 36 anos, alcançou a maior votação da história para deputado federal no Paraná. O bolsonarista Lucas Polese (PL), de 29 anos, conquistou o mesmo feito no Espírito Santo.

Também chega à Casa Alvinho Lira (PP), de 20 anos. O filho do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP) foi o mais votado de Alagoas e será o deputado mais jovem da história.

Para o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que não conseguiu o sexto mandato na Câmara, um vendaval de extrema direita varreu o país e deixará a política mais medíocre a partir de 2027.

A eleição não acabou: Lula ainda pode virar o jogo

Lula pode virar se mudar a rota e souber jogar

Dora Kramer
Folha

O desempenho da direita impressionou, mas não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição esteja resolvida, Jair Bolsonaro indultado e os golpistas anistiados. É verdade que não há registro de virada do segundo sobre o primeiro colocado de um turno a outro, e é fato também que nunca a distância foi tão estreita.

Foram menos de dois pontos percentuais de diferença. Dianteira que a oposição tem motivo para comemorar, mas que o governo tem condição de inverter nas próximas três semanas se souber disputar com competência os cerca de 8% dados aos demais candidatos.

CAUTELA – Posta a bola no chão, fica a lição de que a subestimação do adversário é péssima conselheira. Isso valeu para Luiz Inácio da Silva (PT), que desde o início menosprezou a oponente, e vale agora para Flávio Bolsonaro (PL), que será imprudente se desdenhar da capacidade de reação de Lula, decorrente do susto.

O choque de realidade ficou evidente no semblante de decepção dos aliados e na aparente calma da manifestação do presidente logo após a confirmação do resultado do primeiro turno. Lula mediu palavras, procurou se ater aos limites da normalidade a fim de ganhar tempo e não se precipitar sobre o que fazer.

SUPERAÇÃO – O petista acostumou-se a colher vitórias em sua trajetória, mas também a enfrentar adversidades e superar obstáculos. Nas piores horas, soube pisar no freio e redirecionar a rota. Daí ter sido eleito depois de três derrotas, reeleito no meio da tempestade do mensalão e voltado à Presidência depois de parecer que a prisão na Lava Jato seria o fim de carreira.

Lula ignorou orientações, deixou-se tomar pelo ressentimento, deu espaço à figura antipatizada de Janja, reduziu os eleitores a devedores de gratidão, ignorou a demanda por progresso e bem-estar, deu prioridade a temas alheios aos reais interesses do país e, diante disso, preferiu o culto à própria personalidade. Pode produzir uma guinada na direção? Pode, resta saber se terá força e discernimento bastantes para dar conta do recado.

Flávio e Lula entram no segundo turno sob pressão para fazer debates na TV

STF traça estratégia para enfrentar Senado que ameaça vários ministros da Corte

STFbuscará diálogo e usará investigações como pressão

Bela Megale
O Globo

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm conversado sobre estratégias a serem adotadas diante da eleição de senadores que formam uma bancada com grandes chances de fazer impeachment de integrantes da corte e tentar esvaziar a atuação do tribunal.

A avaliação feita por quatro magistrados à coluna é que há duas frentes de atuação. Uma delas seria estabelecer diálogo com correligionários do PL que não são considerados da ala radical, que tem o ataque ao STF como bandeira.

ESPAÇO PARA DIÁLOGO – A leitura é que, apesar de todos os senadores eleitos da extrema direita terem feito campanhas com ataques ao tribunal, há espaço para diálogo com uma ala desses parlamentares. Entre os eleitos citados nominalmente por ministros estão Reinaldo Azambuja, do Mato Grosso do Sul, e Eduardo Gomes, do Tocantins.

Outra frente envolve parlamentares que estão na mira de investigações da Polícia Federal sob a relatoria do STF. É o caso do senador do PL eleito pelo Rio de Janeiro, Carlos Jordy, investigado por suposto desvio de cotas parlamentares, e do senador e ex-governador eleito pelo Mato Grosso, Mauro Mendes, que também é investigado por desvios de recursos do seu estado envolvendo uma empresa de telefonia.

Ministros relataram que as investigações em andamento podem ter desdobramentos até mesmo antes dos senadores eleitos assumirem seus cargos. Com os inquéritos sob relatoria do STF, integrantes da corte avaliam que aqueles que têm situação complicada na Justiça não vão querer dobrar a aposta sobre o impeachment de ministros. “A valentia vai até a página dois”, disse um magistrado.