CPI conseguiu provar que governo federal fracassou miseravelmente nessa pandemia

Charge do Zé Dassilva: boa notícia para quem? | NSC Total

Charge do Zé Dassilva: (NSC Total)


Hélio Schwartsman
Folha

Quando a CPI da Covid começou, avaliei que ela seria capaz de produzir um relatório forte, mas não o impeachment de Bolsonaro. No plano objetivo, não há o que mudar na análise, mas, no subjetivo, vejo-me obrigado a morder a língua. A comissão se saiu bem melhor do que eu esperava.

Não é que eu tenha recobrado a fé em CPIs. Continuo achando que elas não são bons instrumentos de investigação. Fora uns poucos parlamentares, em geral com experiência como delegados ou promotores, os membros dessas comissões não sabem instruir um processo nem estão muito interessados nisso. Sua prioridade é criar fatos políticos e produzir imagens em que apareçam bem, para usá-las na próxima campanha eleitoral.

AGIU COM INDEPENDÊNCIA – Politicamente, o mais frequente é que os núcleos oposicionista e governista mantenham certa paridade de armas, o que garante que as comissões não avancem muito (se vocês investigarem nossos amigos, nós investigaremos os seus).

A CPI da Covid fugiu a esse roteiro, antes de mais nada, porque o governo, em suas múltiplas incompetências, não foi capaz de articular-se com os partidos que o apoiam para que indicassem membros alinhados ao Planalto. A comissão acabou ficando com uma composição pouco sensível aos interesses do governo, o que lhe permitiu agir com independência.

O ingrediente mais importante, porém, foi a magnitude do desastre.

ÓBITOS EVITÁVEIS -A Covid matou mais de 600 mil brasileiros, ou 286 de cada 100.000 habitantes. Só epidemias e guerras produzem morticínios desse calibre. E uma parte desses óbitos era evitável.

Essa é uma história que não havia como ignorar, e a CPI foi o único canal institucional pelo qual ela pôde ser contada, já que a Câmara e a PGR optaram por não se mexer. Sem a CPI, não se teria consolidado na população a percepção de que o governo federal fracassou miseravelmente em sua missão de enfrentar a pandemia —o que basta para garantir-lhe um lugar na história.

Meirelles rebate crítica de Guedes e diz que resultado da política econômica “é ruim”

Meirelles defende o teto de gastos e diz que Guedes vai mal

Rosana Hessel
Correio Braziliense

Após o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmar que a economia brasileira vai crescer e chamar de “conversinha” a piora nas estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2022, o ex-ministro da Fazenda e atual secretário de Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles, aproveitou para dar uma alfinetada no atual chefe da equipe econômica, que não consegue entregar nada do que prometeu e ainda sinaliza em destruir o teto de gastos — emenda constitucional que limita o aumento das despesas à inflação.

Segundo ex-ministro da Fazenda, o resultado da política econômica é muito ruim e Paulo Guedes está fazendo confusão, porque o Brasil não está crescendo no ritmo desejado, porque a renda per capita está caindo.

RESULTADOS NEGATIVOS – “Os resultados da atual política econômica são negativos. É possível que o Ministro da Economia esteja até conseguindo fazer o melhor possível dentro da confusão que virou este governo e a área econômica, mas o resultado é ruim”, escreveu Meirelles, nas redes sociais, logo após o discurso de Guedes em evento no Palácio do Planalto, nesta segunda-feira (25/10).

Apesar da piora nas previsões do mercado para o ano que vem, em grande parte, por conta da piora na questão fiscal, Guedes voltou a falar que o Brasil está crescendo em ritmo mais acelerado do que o resto do mundo além de insistir na história da retomada em V, que só ele costuma enxergar.

“Vamos crescer ano que vem de novo. A conversinha é sempre essa. Primeiro que ia cair, ia ficar lá embaixo, não ia voltar. Aí volta em V”, disse o ministro da Economia para a plateia que participava do lançamento do Programa Nacional de Crescimento Verde.  Segundo ele, o PIB vai crescer de novo e “cada um vai fazer o seu trabalho”.

ALVO DE GUEDES –  No domingo, Meirelles foi um dos alvos das críticas de Paulo Guedes, que resolveu falar à imprensa ao lado de Bolsonaro sem máscaras. O ministro da Economia, que vem sendo chamado de “fura-teto”, saiu atirando ao lado do chefe contra os críticos do fim do teto de gastos.

Disse que Meirelles deu aumento aos servidores no governo Michel Temer, como se fosse um erro, também criticou Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, um dos maiores economistas do país, e disse que ele está velho e  “deveria ficar quieto e ter uma velhice digna”.

Outra vítima da ira do Posto Ipiranga foi o ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, que segundo o titular da Economia, fez a inflação chegar a 5.000% ao ano.

PREVISÕES SINISTRAS – No meio da briga, vale lembrar que nesta segunda-feira o Itaú Unibanco passou a prever queda de 0,5% no PIB do ano que vem. A MB Associados também atualizou as estimativas e, apesar de prever zero de crescimento em 2022, afirma que o viés “é de baixa”, não descartando recessão técnica do PIB, com retração no 4º trimestre de 2021 e no 1º trimestre de 2022.

Conforme dados do boletim Focus, do Banco Central, as novas estimativas do mercado apontam uma taxa de crescimento abaixo de 5% neste ano, apesar de o ministro Paulo Guedes ainda apostar em alta acima desse patamar. A mediana das projeções do PIB de 2021 passou de 5,01%, na semana passada, para 4,97%, nesta semana. Já a mediana para a expansão do PIB no ano que vem foi reduzida de 1,5% para 1,4% na mesma base de comparação.

Bolsonaro deu munição à oposição ao passar fake news associando vacina da Covid a Aids

Oposição critica fala de Bolsonaro que liga vacinas à aids | Poder360

No Twitter, o senador Humberto Costa ironizou Bolsonaro

Valdo Cruz
G1 Brasília

Aliados e interlocutores de Jair Bolsonaro avaliam que o presidente da República dá munição a adversários ao continuar disseminando fake news, entre as quais a falsa notícias que associa a vacina contra Covid-19 a casos de Aids.

Esses aliados avaliam ainda que Bolsonaro dificulta o trabalho que tenta recuperar eleitores que votaram nele mas, neste momento, estão mudando de lado.

TIRO NO PÉ – “O presidente parece gostar de dar um tiro no pé. Ele busca agradar seus apoiadores fieis, ao divulgar fake news como essa, de associar vacina com a Aids, mas afasta cada vez eleitores que votaram nele na última eleição, que hoje estão se distanciando com esse tipo de comportamento”, disse ao blog um aliado de Bolsonaro.

Interlocutores do presidente disseram reservadamente ao blog que pretendem aconselhá-lo a mudar de comportamento porque, além de afastar eleitores, também vai aumentar a possibilidade de o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral tomarem medidas judiciais contra ele.

A cúpula da CPI da Covid, por exemplo, vai encaminhar ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news no STF, pedido de medidas legais contra o presidente, inclusive a solicitação de que ele tenha suas contas nas redes sociais bloqueadas.

RANDOLFE CONFIRMA – “Vamos pedir o banimento do presidente das redes sociais enquanto ele ficar divulgando esse tipo de fake news”, disse à GloboNews o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Facebook e Instagram retiraram de suas redes a transmissão ao vivo do presidente, da última quinta-feira (21), quando ele divulgou uma informação falsa de que um estudo britânico estaria associando a vacinação contra a Covid-19 a uma contaminação acelerada de pessoas por Aids.

Subprocurador-geral representa ao TCU para impedir Bolsonaro de furar o teto

Licitações e Contratos - Parte 01 - YouTube

Lucas Furtado quer evitar medidas populistas e eleitoreiras

Malu Gaspar
O Globo

O subprocurador-geral junto ao Tribunal de Contas da União, Lucas Rocha Furtado, entrou com representação junto à presidência do TCU pedindo que a corte de contas emita uma liminar impedindo o governo de fazer qualquer despesa acima do teto de gastos. No pedido, o subprocurador requer ainda que plenário do tribunal avalie e julgue se as novas regras de flexibilização que o governo está tentando aprovar no Congresso ferem a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Em sua representação, o subprocurador-geral diz que as medidas de flexibilização do teto anunciadas pelo ministro Paulo Guedes na última sexta-feira são destinadas a “permitir a adoção de políticas populistas, com interesses políticos-eleitorais inteiramente desassociados do interesse público, com vistas à obtenção de benefícios pessoais em detrimento da população”.

PEDALADAS FISCAIS – O governo Bolsonaro quer aprovar no Congresso uma nova lei de precatórios permitindo que parte dessas dívidas judiciais possa ser paga fora dos limites constitucionais para os gastos públicos. Além disso, na semana passada, o governo decidiu também retirar do teto de gastos R$ 30 bilhões para bancar o novo Auxílio Brasil.

Cálculos da Instituição Fiscal Independente, órgão do Senado, indicam que o estouro pode chegar a R$ 94,9 bilhões, uma vez que já apareceram outras finalidades como o bônus de R$ 400 reais para os caminhoneiros e os gastos com vacinas.

Falta ao governo encaixar ainda o pagamento do fundo eleitoral, aumentado no ano que vem, e emendas parlamentares do orçamento secreto, sem critério claro para sua aplicação nem transparência na destinação dos recursos, para que a desconfiança que o extra-teto fique ainda maior.

DEBANDADA – A flexibilização do teto levou ao pedido de demissão, na semana passada, dos secretários da Fazenda, Bruno Funchal, e do Tesouro, Jefferson Bittencourt, e de seus adjuntos. Num pronunciamento feito na semana passada em conjunto com o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia relativizou a gravidade do que ele mesmo chamou de “licença para gastar”, mas não escondeu que era contra a flexibilização do teto de gastos.

Para o subprocurador-geral do TCU, “a relativização do teto de gastos para o aumento da despesa pública provoca desequilíbrio fiscal, inflação, desconfiança internacional, redução de investimentos, desemprego, crise econômica, aumento da pobreza e da violência”.

Segundo ele, é dever do TCU “perseguir de maneira intransigente o respeito ao equilíbrio fiscal da Administração Pública” para garantir que “os recursos públicos estejam a serviço de todos, de acordo com a lei e com a vontade da maioria”.

CRIME DE RESPONSABILIDADE – Para o subprocurador, a flexibilização do teto terá “efeitos inevitáveis no campo do julgamento das contas do Presidente da República”. Isso porque, se ficar caracterizado que Bolsonaro vai gastar mais em ano eleitoral para se beneficiar politicamente, ele poderá ser acusado de crime de responsabilidade.

Para que a representação tenha consequências práticas, cabe à presidente do TCU, Ana Arraes, despachar sobre o pedido de liminar, e ao plenário da corte deliberar sobre a flexibilização do teto de gastos.

Bolsonaro diz não poder renovar Auxílio Emergencial: “Contas no limite do limite”

Auxílio emergencial: Bolsonaro diz que manterá se pandemia continuar

Bolsonaro relatou as dificuldades ao dar uma entrevista

Israel Medeiros
Correio Braziliense

As últimas parcelas do auxílio emergencial estão previstas para este mês e o governo ainda não tem como bancar o Auxílio Brasil, que substituirá o Bolsa Família. Apesar do apelo de vários aliados no Congresso, Bolsonaro disse, nesta segunda-feira (25/10), que não pode renovar o benefício concedido durante a pandemia porque as contas estão “no limite”.

“Alguns falam: o presidente não tem coração. Nós concedemos, a título de auxílio emergencial, o equivalente a 13 anos de Bolsa Família. O auxílio emergencial acaba agora, este mês, não tem como continuar. Muita gente quer que continue, continue até quando? A nossa capacidade de endividamento já está ultrapassando o limite. Estamos no limite do limite”, afirmou, em entrevista a uma rádio de Mato Grosso do Sul.

AGRADAR AS BASES – O Auxílio Emergencial tinha sido finalizado no ano passado, mas retornou para uma segunda rodada este ano. Em julho foi prorrogado por mais três meses, e havia políticos ligados ao governo que defendiam uma prorrogação ao menos até o fim do ano, para agradar suas bases eleitorais.

Porém, a ordem, agora, é colocar o Auxílio Brasil — substituto do Bolsa Família — para funcionar a qualquer custo, mesmo que isso signifique um furo no teto de gastos.

“Vamos atender, sim, o pessoal do Bolsa Família, que agora chama-se Auxílio Brasil, mudou de nome, com R$ 400, e ponto final. É onde podemos chegar. A média do Bolsa Família é R$ 192, estamos dobrando esse valor. Estamos fazendo o possível”, disse o presidente.

GUEDES EM CRISE – Na semana passada, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizou que deixaria a defesa da integridade do teto de lado para agradar o governo, seu cargo ficou por um fio e houve uma debandada de secretários na pasta.

Apegado à cadeira, Guedes, agora, está disposto a ir com Bolsonaro rumo à reeleição em 2022. O problema é que as fontes de custeio do programa (o projeto da reforma do Imposto de Renda e a PEC dos precatórios) ainda não estão garantidas, e o furo no teto é, segundo o ministro, a única opção que restou.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É preciso falar claro, furar o teto é sinônimo de pedalar, que significa crime de responsabilidade, passível de provocar impeachment. Apenas isso. (C.N.)

“É difícil a candidatura de terceira via ter unidade para 2022”, avalia Pedro Simon

Pedro Simon em evento em Porto Alegre: para ex-senador, CPI da Covid levou governos a agirem Foto: Rodrigo Ziebell

Aos 91 anos, Simon faz uma análise precisa da situação política

Marlen Couto
O Globo

Senador por mais de três décadas, até decidir se aposentar da carreira política em 2014, Pedro Simon, hoje com 91 anos, se diz “angustiado” com a “radicalização” no cenário eleitoral, representada, na sua avaliação, pelas candidaturas do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ao Globo, o experiente ex-parlamentar classifica como difícil uma articulação que garanta a unidade da chamada terceira via, campo que reúne partidos de centro e se coloca como alternativa à polarização.

Estamos a menos de um ano da eleição de 2022. Como o senhor vê a disputa?
Estou angustiado com a radicalização entre Lula e Bolsonaro e preocupado se teremos um pleito normal. Eu me pergunto se não é hora de buscarmos um encaminhamento tranquilo, sereno e responsável. Aqueles que têm preocupação com a busca do bem comum têm que estar presentes para encontrarmos um entendimento. Estamos em uma época cruel. Já vivemos uma ditadura, na qual a imprensa não podia se manifestar. Hoje, é o contrário: há tanta informação e desinformação, uma avalanche de ideias e propostas controvertidas, que ficamos incapazes de saber o que fazer. Os que têm bom senso têm que estar presentes. Não é possível a maioria ficar silenciosa.

A polarização entre Bolsonaro e Lula é uma constante, segundo as pesquisas. O que explica esse cenário?
O Lula é um candidato que tem uma história, e Bolsonaro é o atual presidente. Fora isso, há ainda muita indefinição entre os partidos políticos. São 30 partidos, mas poucos têm representatividade. A maioria é sem conteúdo, sem ideias. O PSDB, por exemplo, vai no caminho certo ao debater internamente uma candidatura com as prévias.

Haverá unidade na chamada terceira via?
É muito difícil. O MDB, que é um grande partido, ainda não tomou uma decisão, mas na minha opinião deve ter um candidato. Não sabemos como serão feitas as coligações. Um fato novo que apareceu é a possibilidade de uma coligação permanente (federação), o que seria interessante.

Diante da sua experiência no Senado, como o senhor avalia a condução da CPI da Covid?
A discussão tinha que ser ampla e foi. Agora, é dura porque, ao mesmo tempo em que a comissão estava trabalhando o tema da Covid, a pandemia estava sendo vivida diariamente e de forma diferente em cada momento. Não é uma CPI para investigar coisas que ocorreram no passado, mas que funcionavam concomitantemente. A CPI é impressionante, porque envolve toda a situação dramática do país. O presidente podia ter se tornado um grande herói, ter se esforçado e lutado contra a pandemia, que era a missão natural dele, mas passou a se colocar como um inimigo do combate à Covid. A CPI trouxe ao debate o que o presidente devia ou não devia fazer. Há ações erradas que devem ser punidas, mas, apesar dos pesares, o Brasil entrou no caminho certo e tem agora um bom desempenho.

O Brasil entrou no caminho certo com a ajuda da CPI?
Acredito que sim. Com o trabalho que a CPI fez, cada um quis se defender e fazer sua parte. Da parte do governo, apesar de todo o comportamento por parte do presidente, não faltou dinheiro. Os governadores e prefeitos também, pela pouca presença do presidente, avançaram e fizeram um papel importante.

O senhor já declarou que a democracia “vai bem” com Bolsonaro, sob o ponto de vista institucional. O senhor ainda pensa da mesma forma?
Há vários Bolsonaros. Naquelas entrevistas que está acostumado a dar na saída do Palácio da Alvorada ao lado de simpatizantes, ele diz as coisas mais imprevisíveis, inclusive coisas negativas para si. Bolsonaro sempre será uma interrogação sobre o que faz, o que quer e qual será realmente sua posição. Passamos por um momento difícil no 7 de setembro, naquela mobilização que levou a um conflito entre o presidente e o Supremo. Passamos por obstáculos para nossa democracia, mas isso se estabilizou. O mais difícil já passou.

As instituições se fortalecem?
O Congresso tem atitudes com as quais tenho preocupação do ponto de vista da defesa da democracia e da liberdade. Um exemplo foi a proposta para alterar a estrutura do Conselho Nacional do Ministério Público (derrotada pela Câmara na semana passada). Já o Supremo tomou uma grande decisão quando permitiu a prisão após condenação em segunda instância e, de repente, voltou atrás. Toda a caminhada que fizemos para fortalecer o combate à corrupção praticamente está sendo jogada fora.

Governo lança plano agrícola ambiental para a COP26, do tipo “feito para inglês ver”

Governo busca solução para recuperação de produtor rural

Plano ambiental fica a cargo do produtor, sem fiscalização

Ana Paula Castro
TV Globo — Brasília

O governo pretende apresentar na Conferência do Clima em Glasgow (Escócia), a COP26, que começa dia 31, a meta de reduzir em 1,1 bilhão de toneladas a emissão de carbono pelo setor agropecuário até 2030. Para a entidade ambientalista Greenpeace, a meta é “para inglês ver”.

Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, as atividades rurais (agropecuária e uso da terra) foram responsáveis em 2019 pela emissão de 1,56 bilhão de toneladas — o correspondente a 72% do total dos 2,17 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa emitidos pelo Brasil em 2019.

IMAGEM NO EXTERIOR – A meta de redução de 1,1 bilhão de toneladas até 2030 estabelecida pelo Ministério da Agricultura faz parte do Plano de Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária (ABC+).

O novo plano será apresentado pelo governo durante o evento numa tentativa de defender a imagem da agropecuária brasileira no exterior.

“No próximo dia 6 de novembro, iremos apresentar o ABC+ na Conferência do Clima em Glasgow. (…) Iremos demonstrar todo o potencial da agropecuária brasileira como parte da solução e oferecer nossa experiência àqueles países de realidades semelhantes, com um chamamento à colaboração dos países industrializados por meio da cooperação internacional”, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

TUDO AO CONTRÁRIO – Para a coordenadora de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Fabiana Alves, o Plano ABC+ é “para inglês ver” e não condiz com a política ambiental do governo.

“Um plano para inglês ver, na véspera da COP26. Não é o que eles estão fazendo o ano todo, não é o que estão votando e apoiando no Congresso. Hoje, o que a gente tem é uma flexibilização de toda a legislação ambiental brasileira. (…) As metas não condizem com a política que está sendo feita pelo governo, uma política de desmonte ambiental no Brasil”, afirmou a coordenadora do Greenpeace.

O ABC+ é uma continuidade do projeto que esteve em vigor entre 2010 e 2020, conhecido como Plano ABC. O objetivo, de acordo com o Ministério da Agricultura, é promover uma agropecuária de baixa emissão de carbono e contribuir com a preservação do meio ambiente.

A CARGO DO PRODUTOR – O programa já tinha sido anunciado pelo Ministério da Agricultura em abril, mas a divulgação foi realizada novamente nesta segunda-feira (25), no Planalto.

Para se atingir as metas, o plano propõe que os próprios agricultores adotem práticas mais sustentáveis, como a recuperação de pastagens degradadas; o sistema de plantio direto; os bioinsumos e o manejo de resíduos da produção animal.

Só que a implementação dessas medidas fica a cargo do próprio produtor, que pode recorrer ao Plano Safra para financiar as mudanças na propriedade.

OUTRAS MEDIDAS  – Além de incentivar a redução da emissão de carbono equivalente até o final da década, o plano também prevê:

Aumentar a área em que tecnologias de produção sustentável são utilizadas. O objetivo é que mais 72,68 milhões de hectares adotem alguma das práticas para reduzir o carbono;

Ampliar o tratamento de 208,4 milhões de metros³ de resíduos animais. O volume corresponde a 27% do total de resíduos gerados por sistemas de produção pecuários;

Abater 5 milhões de cabeças de gado em terminação intensiva. Essa tecnologia permite que, a partir de suplementação da dieta do bovino com ração, o animal atinja idade e peso para abate antecipadamente, reduzindo a quantidade de gás poluente que seria emitida pelo animal.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A ideia não é ruim e a última edição do Plano Safra trouxe uma linha de crédito voltada ao Plano ABC, com R$ 5 bilhões em recursos, com juros menores que os de mercado. O problema é que não há fiscalização. O ruralista pega o dinheiro para reduzir o carbono e investe no aumento da produção, que elevará a emissão de gases. (C.N.)

Vexame! Facebook e Instagram derrubam live em que Bolsonaro associou Aids à  vacinação

Cientistas e políticos reagem a mentira dita por Bolsonaro sobre vacinas -  Politica - Estado de Minas

Bolsonaro fala à nação para espalhar mais uma fake news

Renata Galf
Folha

Na noite deste domingo (24), o Facebook derrubou a live semanal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) transmitida na última quinta-feira (21). O vídeo não está mais disponível nem no Facebook nem no Instagram.

De acordo com porta-voz da companhia, o motivo para a exclusão foram as políticas da empresa relacionadas à vacina da Covid-19. “Nossas políticas não permitem alegações de que as vacinas de Covid-19 matam ou podem causar danos graves às pessoas.”

COVID E AIDS – Em sua live semanal, Bolsonaro leu uma suposta notícia que alertava que “vacinados [contra a Covid] estão desenvolvendo a síndrome da imunodeficiência adquirida [Aids]”.

Médicos, no entanto, afirmam que a associação entre o imunizante contra o coronavírus e a transmissão do HIV, o vírus da Aids, é falsa, inexistente e absurda.

Jamal Suleiman, infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, destaca que as vacinas da Covid não utilizam nenhum fragmento de HIV em sua composição. Denise Garrett, epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin (EUA), reforça: “Não tem nenhuma possibilidade ou plausabilidade dessas vacinas fazerem isso. A afirmação é absurda e anticientífica.” ​

UMA VERGONHA – Esta é a primeira vez que a empresa remove uma live semanal do presidente. Até hoje o Facebook só tinha derrubado um post de Bolsonaro relacionado à pandemia: um vídeo de março de 2020 em que ele citava o uso de cloroquina para o tratamento da doença e defendia o fim do isolamento social.

Apesar de o presidente reiteradamente espalhar desinformação em suas lives, as demais não foram excluídas pelo Facebook. Segundo a Folha apurou, a exclusão desta vez ocorreu porque a fala do presidente foi considerada taxativa pela empresa.

Em março, reportagem da Folha mostrou que Bolsonaro violou a política do Facebook sobre Covid-19 ao menos 29 vezes até então, apenas em 2021. Em 22 dos casos, isso ocorreu em suas lives às quintas-feiras.

ENVIO AO SUPREMO – Neste domingo (25), o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) fez requerimento em que pede à CPI da Covid que envie o inteiro teor desses fatos ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal). O parlamentar quer que o assunto seja incluído no inquérito das fake news, tocado por Moraes.

“Trata-se de uma das diversas ocasiões em que o chefe do executivo federal vem espalhando notórias fake news, criando grandes obstáculos ao enfrentamento da pandemia”, diz o requerimento.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É um vexame internacional. Infelizmente, foi eleito um presidente despreparado e que não tem o menor respeito aos homens de ciência, como se dizia antigamente. (C.N.)

Damares levou sete parentes de Michelle Bolsonaro em voo da FAB para uma festa em São Paulo

Agustin Fernandez ao lado de Damares e Michelle: comemoração em restaurante badalado de São Paulo Foto: Reprodução

O maquiador aniversariante, a ministra e a primeira-dama

Daniel Gullino e Naira Trindade
O Globo

A ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) deu carona em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) a sete parentes da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, em uma viagem de Brasília para São Paulo no dia 21 de agosto, um sábado. O voo foi solicitado por Damares com a justificativa de ir a um evento do Pátria Voluntária, programa social coordenado por Michelle, que também estava na aeronave.

Um decreto do governo federal estipula que “a comitiva que acompanha a autoridade na aeronave do Comando da Aeronáutica terá estrita ligação com a agenda a ser cumprida, exceto nos casos de emergência médica ou de segurança”. À noite, Damares e Michelle participaram na capital paulista do aniversário do maquiador e influenciador digital Agustin Fernandez, amigo das duas.

MULHER DO MINISTRO – O avião deixou Brasília com 16 passageiros, incluindo Sarita Pessoa, mulher do ministro do Turismo, Gilson Machado. No dia seguinte, na volta para a capital federal, o grupo se manteve: a filha mais velha, três irmãos, uma cunhada e dois sobrinhos de Michelle embarcaram. Fernandez, o aniversariante, também pegou carona no voo oficial de retorno.

Na noite anterior, a comemoração ocorreu em um restaurante badalado em Moema, bairro nobre de São Paulo, e contou com um bolo de quatro andares, mesa de doces, espumantes, vinhos e uma cabine de fotos.

Damares e Michelle não eram as únicas autoridades presentes. Gilson Machado e a mulher também estiveram no local — o ministro, inclusive, arriscou a veia de cantor.

IMPESSOALIDADE IGNORADA – A nova versão do decreto que regula os voos da FAB foi editada em março de 2020, após Bolsonaro se irritar com o que, à época, considerou mau uso das aeronaves. Na ocasião, Vicente Santini, então secretário-executivo da Casa Civil, perdeu o cargo depois de usar um jato para ir de Davos, na Suíça, à Índia.

Para a advogada Vera Chemim, mestre em direito público administrativo, a situação contraria os princípios da moralidade e da impessoalidade da administração pública, previstos na Constituição:

— Você está usando um bem público, que tem que ser utilizado estritamente para o exercício da função pública daquela pessoa. Eu colocaria a moralidade e a impessoalidade como princípios violados.

DAMARES E A LEI – Questionada pelo Globo sobre a viagem, Damares não deu uma justificativa.

— A gente vai explicar. Tem algum impedimento na lei? — perguntou, ao ser abordada em um evento no Palácio do Planalto.

Em nota, o ministério disse que cabe à autoridade que solicitou a aeronave definir os critérios para o preenchimento das vagas e que todos os que foram transportados são voluntários no programa social coordenado por Michelle.

Marianna Ferrodri, jovem e talentosa escritora que dá a arrancada para o sucesso

Quem odeia despedidas - Loja MultifocoJorge Béja

Aqui na Tribuna da Internet há quase 10 anos escrevo artigos sobre Direito. E vez ou outra sobre assunto diverso. Mas quem escreve mesmo sobre poesia e literatura é Paulo Peres, a quem, mesmo sem ter eu o seu talento, peço licença para escrever sobre esta notável escritora-poetisa que começa a trilhar o caminho do sucesso. Ela é jovem. Tem apenas 20 anos. Jovem e linda. Estuda Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sem exagero, estuda o dia inteiro. Sou testemunha. Marianna Ferrodri nasceu de Romário e Simone, casal perfeito e que não sabe dizer não a quem lhes pede ajuda e socorro, eles sempre têm as mãos estendidas.

QUEM ODEIA DESPEDIDAS – Marianna Ferrodri lançou neste 2021, em plena pandemia, seu primeiro livro de poesia. “Quem Odeia Despedidas” é o título da obra de 77 páginas (Editora Birrumba ).

Ao fazer a apresentação do livro, Isabelle Scalambrini, poeta e estudante de Estudos Literários da UFMG, diz nas primeiras linhas: “Marianna estreia seu primeiro livro, uma poética que se localiza imersa no cenário da capital carioca: “Serão os gritos da Lapa, Selarón”, e onde ela enxerga “desde que o Rio é de Janeiro”, a “dualidade vertical, alto e baixo/dicotomia horizontal, norte e sul”,  a “dualidade social, incluir e excluir”, que registra em seus versos”.

Marianna não é apenas uma promissora escritora que vai galgar a fama. Nem apenas uma estudante de Psicologia. Marianna se preocupa com o social, com a sociedade, com os pobres, sem vez e sem voz. Daí também o seu empenho e seu ativismo político por um Brasil que seja próspero, democrático, em que a miséria e a fome desapareçam de uma vez para sempre.

APRENDER A SOFRER – Do seu primeiro livro de 47 poemas-poesias, selecionei este, muito oportuno, atual e presente. É simples e renova a esperança dos que estão caídos. Ou perto de cair.

“PARA EU MESMA APRENDER A SOFRER DIREITINHO”

Calma,
Relaxa,
Respira,
O que te aflige agora não vai durar a vida toda.
A maioria dos motivos pra sofrer desaparecerão em um ano.
E ao notar isso você vai se sentir mais leve
Vai ver que as coisas vão se encaixar.
Pense em como isso tudo pode te ajudar a crescer.
E a entender um pouco mais sobre seus limites.
A manhã nasce daqui a pouco
É um outro dia
Isso vai ter fim”

Para ser candidato a senador ou deputado, Bolsonaro teria que renunciar em abril de 2022

Possibilidade de reeleição de Bolsonaro é cada vez mais remota

Pedro do Coutto

Em seu espaço no O Globo de domingo, Elio Gaspari levanta a hipótese de o presidente Jair Bolsonaro desistir de sua candidatura à reeleição e disputar uma cadeira no Senado ou na Câmara Federal. Isso, se concluir, como os sintomas estão indicando, que a sua possibilidade de vitória para Presidência está desaparecendo pelos fatos. Elio Gaspari ressalta que Jair Bolsonaro por esse caminho buscaria alcançar uma imunidade que não teria se ao deixar o poder voltasse a ser apenas um cidadão, um rosto na multidão, para citar o título de um filme de Elia Kazan.

A imunidade não é mais a de antigamente, pois a Constituição de 1946 condicionava o processo aos que possuíam mandato à licença prévia da Casa do Congresso a que pertencessem. Isso foi alterado substancialmente pela Constituição de 1988 que prevê o processo através da Procuradoria-Geral da República e aceitação pelo Supremo Tribunal Federal. Mas essa é outra questão.  

CONTRADIÇÃO –  Um ponto da lei que no governo FHC instituiu a reeleição aponta uma questão essencialmente contraditória: alguém que possua um cargo e pretende disputar uma cadeira no Congresso terá que renunciar ao cargo até seis meses antes das urnas. Portanto, para 2022, até o início de abril.

A contradição está no fato de o próprio presidente, o governador ou o prefeito não precisarem renunciar para buscar a reeleição. Porém, um secretário de Estado tem que cumprir o prazo de desincompatibilização. No caso de Jair Bolsonaro, ele teria que sair da Presidência seis meses antes do próximo pleito.

No caso de parentesco, como aconteceu no estado do Rio de Janeiro, o governador tem que sair até seis meses antes para tornar viável a candidatura de um parente. Foi o caso do governador Anthony Garotinho que elegeu a esposa Rosinha a sua sucessora. A legislação na reeleição instituída por Fernando Henrique Cardoso é efetivamente absurda.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA – Reportagem de Érica Fraga, Douglas Gavras e Gustavo Queirolo, Folha de S. Paulo, revela um estudo inédito até o final da última semana, realizado por um grupo de pesquisadores internacionais do Instituto Insper. A redistribuição de renda que vinha crescendo no país de 2002 a 2015, sofreu um retrocesso, principalmente na administração de Jair Bolsonaro, sendo substituída por uma forte concentração do produto econômico e financeiro.

Para mim é o resultado da subida dos preços e da descida relativa dos salários que efetivamente são reduzidos na medida em que não acompanham o crescimento das taxas inflacionárias. Através do tempo, essa diferença social produziu a favelização de cidades como o Rio de Janeiro e, mais recentemente, a busca até por sobras de comida para responder à fome que passou a atingir cerca de 45 milhões de pessoas, de acordo com as estatísticas mais recentes, como o IBGE comprova. Nos últimos dois anos verificou-se a perda da renda do trabalho na ordem de 9% diante de um crescimento de aumento de renda dos investimentos financeiros. O estudo baseia-se inclusive em dados da Receita Federal de nosso país.

Os autores do trabalho publicaram uma nota técnica sobre o assunto. São os pesquisadores Maurício de Rosa, Ignacio Flores e Marc Morgan, do World Inequality Lab, centro fundado e codirigido pelo economista francês Thomas Piketty. No caso brasileiro, o retrocesso da redistribuição de renda é flagrante. Tampouco poderia ser de outra forma dentro da política traçada desastrosamente pelo ministro Paulo Guedes. Com os salários congelados e com os preços em ascensão, a concentração de renda é uma consequência inevitável. Com ela, a fome passa a alarmar parcelas crescentes da população.

CRIVELLA –  O presidente Jair Bolsonaro dirigiu um apelo ao chefe do governo na África do Sul, Cyril Ramaphosa, segundo revelam Bernardo Della Coleta e Marianna Holanda, Folha de S. Paulo, para que seja dada uma solução quanto à indicação de Marcelo Crivel para embaixador do Brasil nesse país.

A indicação foi formulada há quatro meses e até hoje não obteve uma resposta sobre a sua aceitação ou rejeição. Fontes do Itamaraty acentuam que sempre que a aceitação custa a ser liberada é sinal de que o país não se encontra disposto a concordar com a indicação.

Frentistas abandonam Guedes, o Posto Ipiranga de Bolsonaro, que se meteu onde quis, mas não devia

FMI corta projeção para crescimento global por preocupação com a covid-19 | Exame

Mansueto Almeida foi um dos primeiros a debandar

Elio Gaspari
Folha/O Globo

​Num governo que já explodiu a meta da inflação, o ministro Paulo Guedes adoçou sua adesão ao estouro do teto de gastos falando difícil, com uma azeitona em inglês: “Estamos buscando a formatação final dos R$ 400, fazendo a sincronização dos ajustes das despesas obrigatórias, dos salários e do teto ou pedindo um waiver”.

Na gíria do carteado, a tradução dessa palavra é “estia”. O jogador que tem menos habilidade pede uma estia ao outro. Quanto à sincronização, Guedes conseguiu a demissão sincronizada de quatro colaboradores.

19 FRENTISTAS – Desde a posse do Posto Ipiranga, 19 frentistas já pediram o boné. Quase todos por terem percebido que estavam perdendo tempo ou queimando biografias. Na Prevent Senior diriam que elas caminhavam para uma “alta celestial”.

Guedes parece ter subestimado a saída do secretário do Tesouro Mansueto Almeida, em julho do ano passado. Mesmo antes da posse, Mansueto mostrou ao czar que uma parte de suas promessas eram fantasias.

O economista havia passado com brilho pelo Massachusetts Institute of Technology e conhecia as mumunhas de Brasília. Ao ir embora, mostrou que entendia muito de política.

DEBANDADA – A última debandada da ekipekonômika mostrou que Guedes não entendeu onde se meteu. Nenhum deles foi-se embora porque Guedes sofreu derrotas políticas, mas porque tendo-as sofrido, meteu-se numa aventura injetando cloroquina na sofrida economia nacional.

Guedes encantou-se ao ver que as portas se abrem sozinhas para deixar o excelentíssimo senhor ministro passar e por essa porta dezenove se foram.

De uma víbora: “O Posto Ipiranga de Jair Bolsonaro virou uma daquelas casas pelas quais, segundo o escritor Guimarães Rosa, homens sérios entravam, mas por elas não passavam”. E o ex-ministro Mailson da Nóbrega disse tudo: “Parece um grande manicômio.”

 

Em poucas linhas, um poema dilacerante do modernista e imortal Cassiano Ricardo

RETALHOS DO MODERNISMO: ¨1922: DEPOIMENTO INÉDITO" (CASSIANO RICARDO)

Cassiano Ricardo, grande poeta paulista

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O jornalista, ensaísta e poeta paulista Cassiano Ricardo (1895-1974) nasceu em São José dos Campos (SP). Formado em Direito, foi um dos líderes do Modernismo , iniciado em 1922, tendo participado dos grupos “Verde-Amarelo” e “Anta”. Estréia em 1915, com o livro Dentro da Noite, de cunho sentimental, passou pelo parnasianismo com A Frauta de Pan  e define-se como modernista e nacionalista, a partir de 1925, com Vamos caçar papagaios, Borrões de Verde e Amarelo.

Neste poema, “Depois de Tudo”, Cassiano Ricardo afirma que hoje seu coração é um pássaro pousado “depois de tudo” passar tão depressa.

DEPOIS DE TUDO
Cassiano Ricardo

Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

Na última década, 64% dos generais do Alto Comando foram nomeados para cargos políticos

Brum ar Twitter: “Charge da Tribuna do Norte #brum #charge  #chargespoliticas #governobolsonaro #militares #militarizacao #cargoscivis  #governomilitar… https://t.co/YtEITkGx1f”

Charge do Brum (Tribuna do Norte)

Bernardo Mello e Jan Niklas
(O Globo)

O Alto Comando do Exército, que configura o topo da hierarquia militar, também vem representando — especialmente no governo Bolsonaro — um estágio que antecede a obtenção de cargos políticos. Levantamento do Globo com os promovidos ao Alto Comando na última década mostra que, de 33 generais hoje na reserva, 21 — isto é, 64% ou aproximadamente dois em cada três — foram nomeados para funções de confiança, cuja remuneração se acumula à aposentadoria militar.

Na prática, as nomeações configuram uma espécie de “porta giratória”, permitindo o retorno a cargos públicos para oficiais compulsoriamente retirados do serviço ativo, por esgotarem o prazo de permanência no Alto Comando.

RESERVA E ATIVA -A maioria das nomeações ocorreu sob a presidência de Jair Bolsonaro, e depois de esses generais esgotarem seu ciclo de promoções no Exército. Dos 21 generais, 17 receberam seu primeiro cargo fora da estrutura militar depois de terem ido à reserva.

Entre as exceções nomeadas quando ainda eram da ativa, dois são ministros de Bolsonaro: Walter Braga Netto (Defesa) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência). Metade dos egressos do Alto Comando em cargos de confiança foi nomeada a partir de 2019. Especialistas avaliam que houve uma “exacerbação” da presença no governo de militares do topo da hierarquia.

POLITIZAÇÃO – O Alto Comando é formado pelos 17 generais de quatro estrelas da ativa, que podem ficar até quatro anos nesse estágio hierárquico. Por ser o último degrau do Exército, é obrigatória a passagem à reserva após esse prazo. No levantamento, O Globo desconsiderou cargos inseridos na estrutura das Forças Armadas, como os de chefe do Estado-Maior e de ministro do Superior Tribunal Militar (STM), bem como em estatais, fundações e autarquias com finalidade militar, casos da Imbel e da Fundação Habitacional do Exército. Também não foram contabilizados cargos eletivos, como o do vice-presidente Hamilton Mourão.

— Em que pese a qualificação dos generais, a exacerbação de cargos ocupados por eles não é boa nem para a corporação, nem para a sociedade. Ela traz antagonismos políticos para uma instituição, o Exército, que deveria ser funcional — avalia Eurico Figueiredo, ex-diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), que desenvolveu pesquisas em cooperação com a Escola de Comando e Estado Maior do Exército (Eceme).

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A intenção de Bolsonaro ficou muito clara. Ele queria cooptar o Alto Comando do Exército para que apoiasse o golpe de Estado que acalentou desde o início do mandato. Foi por isso que convocou para a Casa Civil dois generais da ativa, que estavam na chefia do Estado Maior quando foram nomeados – Luiz Eduardo Ramos e Walter Braga Netto. Ou seja, em dois anos, Bolsonaro obrigou que a chefia do Estado Maior sofresse substituição duas vezes. Depois, para endurecer o ansiado golpe, nomeou Braga Neto para o Ministério da Defesa e trocou os comandantes militares. Mesmo assim, o Alto Comando disse não ao golpe, no Sete de Setembro, retirou a escada e deixou Bolsonaro suspenso, com a broxa na mão, como se dizia antigamente. Agora, para continuar no poder, vai ter de ganhar a eleição, e isso não será nada fácil. (C.N.).

Moro se filia ao Podemos em novembro e vai começar a campanha lançando seu livro

Candidatíssimo, Sergio Moro confirma lançamento de livro em dezembro ::  Caldeirão Político

Livro de Moro conta histórias inéditas da Operação Lava Jato

Lauro Jardim e Amanda Almeida
O Globo

O ex-juiz Sergio Moro não tem deixado um pingo de dúvida aos interlocutores com quem tem conversado nos últimos 15 dias: em novembro, vai se filiar ao Podemos e assumirá sua candidatura a presidente. A propósito, será uma filiação em família: sua mulher, Rosângela, também assinará a ficha do partido.

Chega às livrarias em dezembro “Contra o sistema de corrupção” (Sextante/Primeira Pessoa), de autoria de Sergio Moro. O lançamento será em grande estilo, com uma série de palestras do já pré-candidato por Curitiba, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo.

LAVA JATO – No livro, o ex-juiz revela histórias inéditas da Lava-Jato, explica (ou tenta…) por que aceitou ser ministro de Jair Bolsonaro, fala de sua saída do governo e dos recentes recuos institucionais no combate à corrupção.

E todas as sextas-feiras, no fim do dia, um quarteto se reúne para uma conversa sobre política por chamada de vídeo do celular: Luiz Henrique Mandetta, João Amoedo, o general Santos Cruz e Sergio Moro.

BOLSONARO CALADO – No recente tour em comemoração aos mil dias de governo, aliados de Jair Bolsonaro aproveitaram a oportunidade de viajar com o presidente para “alertá-lo” sobre a candidatura de Sergio Moro. Disseram a ele que colegas do Podemos estão sustentando no Congresso que a candidatura do ex-ministro dele é para valer.

Um dos interlocutores de Bolsonaro emendou numa análise sobre a eventual disputa com o ex-juiz. Disse que o presidente não deveria se preocupar porque Moro tem a antipatia da esquerda e perdeu parte da direita ao deixar o governo atirando.

Bolsonaro ouviu calado.

No desespero, Paulo Guedes joga pressão sobre o Banco Central exigindo juros mais elevados

Charge do Duke (domtotal.com)

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O ministro da Economia, Paulo Guedes, se transformou em um zumbi na Esplanada dos Ministérios. Apesar de garantir, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, que continua firme no cargo, todos sabem que ele pediu, sim, demissão, e que só não caiu porque ninguém de peso quer assumir o comando da política econômica do país no atual governo.

Atacado por todos os lados e totalmente fragilizado, Guedes, joga pressão sobre o Banco Central para que controle a inflação. O ministro disse que o Comitê de Política Monetária (Copom) terá que acelerar o aumento da taxa básica de juros (Selic), que está em 6,25% ao ano.

AUMENTO DA SELIC – Na próxima semana, mais precisamente nos dias 26 e 27, o Copom se reunirá para definir o novo patamar da Selic. Por tudo o que disse o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e por todos os documentos divulgados pela instituição, está contratado, até o momento, aumento de mais de um ponto percentual na taxa, para 7,25%.

Pelo que Guedes deixou claro, porém, esse arrocho não será suficiente para dar uma trava na inflação. O ministro endossa o que defende uma ala do mercado financeiro: que o BC pese mais a mão e eleve os juros em ao menos 1,5 ponto percentual, repetindo esse aumento nas duas reuniões seguintes. Com isso, a Selic encerraria o ano em 10,75% anuais.

CREDIBILIDADE EM JOGO – Dentro do governo, não é só Guedes que defende uma ação mais enérgica por parte do Banco Central. A ala política quer que o BC dê logo um choque de juros e encerre esse capítulo neste ano, para que, com a inflação sob controle ao longo de 2022, possa vir a boa notícia de um corte de juros às vésperas das eleições.

Os bancos estrangeiros são os que estão mais alinhados ao pensamento de Guedes. O Credit Suisse prevê que os juros subirão até 10,50% ao ano como forma de reduzir a pressão inflacionária. O JP Morgan fala em Selic de 9,75%, com viés de alta. A média do mercado, porém, estima taxa no fim deste ano de 8,75%, conforme a pesquisa Focus.

Para o ministro da Economia, o Banco Central está atrás da curva, isto é, não está conduzindo a política monetária no ritmo necessário para pôr a inflação nos eixos. Resta saber se Roberto Campos Neto e companhia entenderam o recado. Se falta credibilidade na politica fiscal, com o rompimento do teto de gasto, pelo menos a credibilidade deve prevalecer em relação à política monetária.

Europa investe na revolução verde, na certeza de que defender o planeta agrada os eleitores

Ursula Von der Leyen

Ursula Leyen, da Comissão Europeia: “Futuro é verde e digital”

João Gabriel de Lima
Estadão

Em 14 de julho deste ano, aniversário da queda da Bastilha, a Comissão Europeia propôs ao mundo uma nova revolução: o “European Green Deal”. O ambicioso projeto tem três objetivos: zerar as emissões de carbono até 2050, promover um crescimento econômico que não destrua o planeta, e compensar, de alguma forma, os perdedores da nova economia verde.

O “European Green Deal” será amplamente discutido na COP 26, a conferência do clima que começa no próximo dia 31 em Glasgow, maior cidade da Escócia.

“NEW DEAL” – O nome evoca o “New Deal” americano. Não é por acaso. Na década de 1930, os Estados Unidos viviam a ressaca da quebra da Bolsa de Nova York, e o presidente Franklin Roosevelt investiu pesado para recuperar a economia dos Estados Unidos.

A Europa vive atualmente a ressaca da pandemia. Será gasto 1,8 trilhão de euros na recuperação econômica. Um terço desse valor será destinado ao “European Green Deal”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, foi ministra no governo conservador de Angela Merkel, na Alemanha. Ela baseia sua gestão no slogan ‘o futuro será verde e digital’.

INVESTIMENTO VERDE – Os europeus querem transformar a crise em oportunidade. Trata-se, antes de tudo, de um grande projeto de política setorial. A União Europeia investirá dinheiro público para incentivar indústrias da economia verde – painéis solares, carros elétricos, materiais de construção energeticamente eficientes, por exemplo – e para promover o desenvolvimento das respectivas tecnologias.

Tudo isso custa caro – e também será necessário dinheiro para compensar os “perdedores”. Indústrias como a petrolífera e a de carros tradicionais ficarão fragilizadas, gerando desemprego. “A União Europeia precisa fortalecer sua rede de proteção para lidar com os problemas sociais que irão surgir”, diz João Mourato, professor da Universidade de Lisboa, especialista em sustentabilidade.

VOTOS ECOLÓGICOS – Nem tudo se resume à economia. “Existe uma combinação rara entre recursos financeiros e circunstâncias favoráveis na política”, diz Mourato. Ele se refere ao fato de que, hoje em dia, defender o planeta dá votos na Europa Ocidental, especialmente entre os jovens.

Em alguns países, como a Alemanha, o consenso em torno da economia verde perpassa o espectro político.

Se a dura transição para a economia verde, no entanto, gerar desemprego ou abalos no estado de bem-estar social tão caro aos europeus, a boa vontade dos eleitores pode acabar. Esse equilíbrio delicado é o principal desafio do “European Green Deal”.

“Sabatina de Mendonça deve ser em novembro”, diz Pacheco, mas Alcolumbre não confirma

Indicação de André Mendonça ao STF pode ser votada em novembro, segundo  Pacheco - Terra Brasil Notícias

Rodrigo Pacheco diz que tem conversado com Alcolumbre

José Carlos Werneck

Mais um capítulo da mais polêmica indicação ao Supremo Tribunal Federal, feita até agora. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, declarou que a indicação de André Mendonça para o STF pode ser votada em plenário na segunda quinzena de novembro.

Indicado há 101 dias pelo presidente Jair Bolsonaro, o nome de André Mendonça está em quarentena, por decisão do senador Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, órgão incumbido regimentalmente para sabatinar os indicados para os Tribunais Superiores. A votação pelo plenário depende da apreciação do indicado pela CCJ.

ESFORÇO CONCENTRADO – Rodrigo Pacheco, que nesta sexta-feira confirmou sua saída do DEM para se filiar ao PSD, disse que o Senado deve fazer um esforço concentrado depois do dia 15 de novembro para votar indicações para embaixadas, agências reguladoras, conselhos  “e também a indicação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal”.

“Eu acredito nessa solução nas próximas semanas, no âmbito do Senado, mas primeiro é preciso que haja de fato a apreciação pela Comissão de Constituição Justiça, que é algo que eu também aguardo e espero”, declarou o senador.

Para que isso aconteça, Davi Alcolumbre, presidente da CCJ,  igualmente deve promover na Comissão, um esforço concentrado, como são denominadas as sessões no Congresso Nacional, em que os parlamentares votam uma lista extensa de propostas que estão aguardando apreciação.

O TEMPO PASSA – Bolsonaro oficializou em 13 de julho a escolha de Mendonça para a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio Mello, mas Alcolumbre até hoje não pautou a sabatina na CCJ.

A decisão de não pautar a indicação é tida como um recado de Alcolumbre ao Palácio do Planalto, de quem ele foi aliado quando presidiu o Senado.

Alguns parlamentares que trabalham contra a indicação de Mendonça acreditam que a demora poderia levar o presidente da República desistir do nome e escolher um outro com currículo mais robusto ou com mais trânsito no mundo político, como é o caso do procurador-geral da República, Augusto Aras.

COMPROMISSO EVANGÉLICO – Bolsonaro deu sobejas demonstrações que não pretende recuar da indicação. A escolha de Mendonça é parte de um compromisso com líderes evangélicos, que fazem campanha permanente para pressionar o Governo e o Senado a ir adiante com a indicação.

Pacheco disse que, além das indicações de autoridades, o Senado Federal pretende resolver “até o final do ano” proposições que alteram o pagamento de precatórios e o teto de gastos públicos, além da definição do Auxílio Brasil, programa social que deve substituir o Bolsa Família.

Tudo bem, mas a principal razão da sabatina ainda não ter sido marcada foi a declaração feita por Alcolumbre, que disse ter certeza da rejeição do nome de André Mendonça para integrar o STF. Depois, afirmou que não se submete a pressões e até agora não marcou a sabatina. Aguardemos.

Kid Morengueira e as “polacas” que foram trazidas ao Brasil pela máfia judaica

Moreira Da Silva - O Último Malandro | Edições | DiscogsJacques Gruman
A Voz da Esquerda Judaica

Calhava de ser na hora do almoço. Entrava no ar uma seleção musical e os ouvintes ligavam para escolher suas prediletas. Era o Peça bis pelo telefone, programa da rádio Mayrink Veiga. Imaginem vocês o engarrafamento telefônico numa época em que conseguir linha era mais difícil do que arrancar verba federal para a educação. O sucesso ganhava destaque nos Mexericos da Candinha.

Pois foi ali, pelas ondas do rádio a válvula, chiados em penca, que ouvi Moreira da Silva pela primeira vez. Eu ainda não sabia, mas aquele era o samba de breque em seu não raro esplendor.

REI DO GATILHO – Kid Morengueira invadia o velho oeste como Rei do gatilho, numa sátira engraçadíssima. O Menino, fascinado, decorou a letra quilométrica, simulando duelos improváveis e soprando o cano fumegante de pistolas invisíveis. Até hoje lembro do início da história: Começa o filme com um garoto me entregando/um telegrama lá do Arizona onde um bandido de lascar/um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona/e não deixava nem defunto descansar. E por aí a coisa ia, até o final, que era meio impróprio…

Pesquisando a trajetória do Moreira, descobri uma história de paixão que durou 18 anos e se confunde com a história do Rio. Em 1964, ele gravou Judia rara. No começo, fala em ídish: Minha linda menina, sou louco por você. Durma, minha criança. Imaginem um malandro frequentador da Lapa, terno branco e chapéu panamá, gingado até no gogó, falando na mame loshn! Intrigado com aquilo, corri atrás da dita cuja. Quem era? Como se conheceram?  Eis que surgem as polacas.

MÁFIA JUDAICA – Negócio Na segunda metade do século XIX, a organização Zwi Migdal, uma espécie de máfia judaica com sede em Varsóvia, conduzia um negócio lucrativo. Rufiões muito bem apessoados percorriam aldeias e povoados da Europa profunda, oferecendo casamento a mocinhas judias.

Vítimas de pobreza secular, virgens das malícias do mundo, as famílias consentiam que as moças viajassem com os charlatães. No navio, eram estupradas e, ao chegarem no destino, que podia ser o porto de Santos ou do Rio de Janeiro, acabavam em bordéis.

Embora viessem de vários países, foram apelidadas de polacas. A paixão de Moreira da Silva, Estera Gladkovicer, era cafetina num daqueles bordéis.

JACOB DO BANDOLIM– Pequena pausa com patrocínio do Colírio Moura Brasil. Jacob do Bandolim, na verdade Jacob Pick Bittencourt, era filho de polaca. Sara Raquel Pick gerenciava uma pensão na rua Joaquim Silva, usada por prostitutas.

Criança, Jacob ouvia um francês cego, sobrevivente da I Guerra Mundial, que, no térreo, tocava violino. Gostava daquilo e, sabendo disso, Sara lhe deu um de presente. Decepção. O arco do violino cansava demais o pequeno Jacob, que acabou dedilhando, melhor seria dizer pinicando, as cordas do instrumento com um grampo da mãe.

Sofia, inquilina da pensão e com bom ouvido musical, percebeu a semelhança do novo timbre com o bandolim. Resultado: Jacob ganhou este instrumento aos 13 anos. Funcionou tão bem que, aos 15, estreava na rádio Guanabara. O resto, bem, o resto é a carreira de um dos maiores músicos que já pisaram nessa terra.

SINAGOGA PRÓPRIA – Voltamos à nossa programação normal. Para manter sua identidade, as polacas, perseguidas pela polícia e discriminadas pela comunidade judaica (que temia ser associada a uma atividade condenada pela moral da época e, com isso, abastecer o antissemitismo), criaram sinagoga e cemitério próprios, administrados por uma sociedade de ajuda mútua. O cemitério, inaugurado em 1916 e desativado desde a década de 1970, fica em Inhaúma.

É interessante lembrar que os cafetões do Zwi Migdal patrocinaram peças do teatro ídish, encenadas nas décadas de 1910 e 1920 em teatros do Rio de Janeiro. Sob protesto de lideranças comunitárias judaicas, as polacas adquiriam os melhores lugares dos teatros e para lá iam, paramentadas comme Il faut.

ASSUNTO TABU – Embora estudos acadêmicos já tenham lançado luz na trajetória destas mulheres, ainda hoje o assunto é uma espécie de tabu. Muitos judeus gostariam que a história permanecesse clandestina, não querem “manchar” a versão oficial, idealizada, da formação da comunidade judaica no Brasil.

Não percebem, como lembrou o Millôr, que o passado não passa. E é melhor que não passe mesmo. Maquiá-lo ou apresentá-lo apenas como sucessão virtuosa de “superações” e “sacrifícios” significa legar às novas gerações uma farsa.

As polacas morreram duas vezes. Primeiro, enganadas por exploradores, que lhes roubaram juventude e sonhos. Depois, por uma comunidade que não compreendeu seu drama. Censurou ao invés de dialogar ou simplesmente compreender e acolher. Não merecem a terceira morte: a do olvido, como se não tivessem sequer existido.

Abraço. E coragem.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Sensacional o artigo enviado por Mário Assis Causanilhas. Considero Jacques Gruman um dos melhores cronista do país. Não entendo porque ainda não é famosíssimo, como João do Rio, Rubem Braga, Fernando Sabino, Elsie Lessa, Mário Prata, José Carlos Oliveira ou Ruy Castro. Ao texto maravilhoso, acrescento que a música “Rei do Gatilho”, foi composta por Miguel Gustavo, meu vizinho no Edifício Zacatecas, casado com a famosa vereadora Sagramor de Scuvero. Como todos sabem, recordar é viver, uma marchinha inesquecível, de Aldacir Louro e Aluísio Martins. (C.N.)