Por que é preciso detestar a literatura de autoajuda e de cunho motivacional

Ilustração de Ricardo Cammarota, executada em técnica de lápis de cor sobre papel. A composição horizontal, 13,9 x 9,1cm, apresenta um trecho de arame farpado, desenhado em tons de azul, roxo e rosa, com quatro pontos de amarração e pontas metálicas. Dos pontos de contato e das extremidades do arame surgem pequenos ramos com folhas, em tons de verde, amarelo e rosa, como se a vegetação estivesse brotando do próprio arame. O fundo é claro, quase branco, deixando evidente a textura do lápis de cor sobre o papel.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Por que detesto literatura de autoajuda e motivacional? Por várias razões, mas uma delas é que esse tipo de literatura é descompadecida. Alimenta-se do real desespero humano e lhe devolve uma grande mentira, baseada na premissa de que podemos fabricar esperança se decidirmos fazê-lo.

Ela mistura estoicismo para consumo barato com uma pitada de teoria cognitiva comportamental, como se essa fosse a programação neurolinguística dos anos 1990, requentada. Não há esperança para o ser humano, o que não implica que as pessoas não vivam esse imperativo existencial de formas distintas, enfrentando esse impasse com graus variados de elegância.

DESELEGÂNCIA – Eu, particularmente, discordo da literatura de autoajuda e motivacional por sua profunda deselegância diante do impasse existencial humano estrutural. Por algum motivo, que talvez eu nunca venha a saber, detesto de modo visceral esse tipo de conteúdo. Em algumas áreas da vida há que se viver visceralmente ou ela será mero teatro de variedades.

Sei bem que esse tipo de mentira vende rios de dinheiro. Quem a pratica chega mesmo a parecer legal. Algo em nós ama a mentira, como dizia o escritor francês do século 20, Georges Bernanos.

Quando se é jovem, a esperança é fruto da fisiologia. Quando o tempo passa, o fracasso dessa mesma fisiologia implica o desaparecimento da esperança por razões miseravelmente materiais.

VIRTUDES MORAIS – Para mim, se a melhor teologia é aquela que começa agradecendo por existirmos, a melhor filosofia é aquela que parte da contingência que reina cega sobre as coisas — como suspeitava a personagem Hécuba, rainha de Troia, pela pena de Eurípedes, descrevendo as agonias das mulheres troianas sendo levadas, ao fim da guerra mais famosa de todos os tempos, como escravas sexuais para a Hélade na tragédia “As Troianas” —, e a melhor moral é aquela que transita entre o perdão, a compaixão e a misericórdia, virtudes irmãs.

Sem perdão, compaixão e misericórdia não é possível se viver em sociedade. Mas, evidentemente, a espécie Homo sapiens parece ser capaz dessas virtudes morais apenas em momentos raros. Daí uma das razões de elas serem tão belas, porque se assemelham ao milagre. Como não há esperança, fazem-se necessários o perdão, a compaixão e a misericórdia.

A tentativa de usar tais virtudes como objetos de literatura de autoajuda e motivacional revelará sua condição de deselegância e falsidade.

MAU-CARATISMO MORAL – Afirmar que somos todos capazes de tais virtudes, se assim o quisermos, temo, beira o mau-caratismo moral. E mau-caratismo sempre foi muito lucrativo, justamente, porque amamos a mentira, como disse aqui.

Muito pelo contrário. Filosoficamente falando, suspeito que virtudes raras como essas, exteriores a qualquer forma de conquista ou dominação, podem ser mais bem vislumbradas quando partimos da constatação que disse antes, e repito aqui, de que não há esperança, mas o desespero não é o destino único e necessário.

O perdão, a compaixão e a misericórdia podem ser o caminho de volta ao lar, sendo o lar aqui a representação de um lugar onde há alguma possibilidade de beleza moral no mundo.

SOFRER É PRECISO – O mundo é mau, a injustiça reina, o sofrimento é inevitável. Se alguém rege as coisas, é cego. O salto no perdão, na compaixão e na misericórdia pode ser semelhante ao encontro entre os pulmões e o ar. A radicalidade dessa questão reside no fato de que as características do mundo descritas no início desse parágrafo são terrivelmente verdadeiras do ponto de vista de uma apreciação desassombrada da realidade.

Aliás, um dos filósofos em que essa constatação se faz dramaticamente evidente é Arthur Schopenhauer. Para nosso pessimista alemão, “a vida é essencialmente sofrimento”.

Como consta no livro do escritor francês Michel Houellebecq dedicado ao filósofo (“En Présence de Schopenhauer”) sem tradução em português, até onde sei, “a desilusão não é uma coisa má” porque ela poderá nos levar, justamente, à constatação de que qualquer forma de ética deverá partir dessa ontologia do sofrimento.

SEM BAIXO ASTRAL – Nada disso significa que devemos fazer uma ode ao baixo astral, inclusive porque essa ode já é feita, de forma prática e repetitiva, pelo cotidiano.

Significa que, talvez, devamos procurar melhor companhia quando quisermos refletir sobre a realidade, em vez de enterrar nossa alma no lixo barato de quem nos toma por idiotas.

A mentira esvazia a alma. Arriscaria dizer que refletir sobre a felicidade deveria partir da constatação de Sigmund Freud, outro schopenhauriano, em seu “O Mal-Estar na Civilização”, de que a felicidade é episódica e que ela não parece fazer parte dos planos da Criação.

Amorim acusa EUA de desrespeitar Brasil e chama indicação de embaixador de “bizarra”

Tarde demais, Lula agora corre para criar Ministério da Segurança antes das eleições

PEC da Segurança é prioridade do governo no Senado

Valdo Cruz
G1

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) definiu como prioridade, junto com o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, a votação no Senado da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A proposta amplia a coordenação da União na área e estabelece diretrizes nacionais para o combate ao crime organizado.

Aprovada a proposta, Lula quer criar o Ministério da Segurança Pública antes do primeiro turno das eleições, para apresentar a iniciativa como um trunfo de campanha na área em que enfrenta mais dificuldades de aprovação.  A votação da PEC da Segurança será um dos temas prioritários da próxima conversa entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que está sendo articulada para esta semana.

PRIMEIRO ENCONTRO – Os dois tiveram um primeiro encontro na semana passada, depois do rompimento em abril, provocado pela rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). A avaliação do governo é que a votação da PEC da Segurança Pública tem mais viabilidade de ocorrer do que a PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6×1, outra prioridade do Palácio do Planalto.

Nesse caso, a expectativa é que a proposta avance na tramitação, mas dificilmente seja aprovada antes das eleições deste ano. Integrantes do governo avaliam, porém, que politicamente o Planalto já obteve dividendos com a defesa da proposta, tema que pretende explorar durante a campanha presidencial, que começa oficialmente neste fim de semana.

“TAXA DAS BLUSINHAS” – O governo também quer tentar aprovar no Senado o projeto que regulamenta a exploração de terras raras, grupo de minerais estratégicos usados em setores de alta tecnologia, na transição energética e na indústria de defesa. Após reunião com Lula nesta terça-feira, José Guimarães ainda destacou em sua rede social a importância da aprovação da MP que acaba com a chamada “taxa das blusinhas”, cobrada sobre compras internacionais de até US$ 50.

“Não há nenhuma dúvida em relação à Medida Provisória que trata do fim da taxa das blusinhas. É nossa prioridade a instalação da comissão mista e trabalhar pela sua rápida aprovação, fazendo valer a Medida Provisória assinada pelo presidente Lula. Vamos solicitar ainda hoje ao presidente Davi Alcolumbre a instalação das comissões das Medidas Provisórias, entre elas a que trata desse tema”, escreveu.

CÂMARA – Na Câmara dos Deputados, o governo pretende votar, nos esforços concentrados antes das eleições, pelo menos dois projetos. Um deles autoriza o uso do excesso de arrecadação obtido com a comercialização de petróleo para conter eventuais altas nos preços da gasolina e do diesel.

O outro criminaliza a misoginia, criando punições específicas para práticas motivadas por ódio, discriminação ou violência contra mulheres. A proposta é considerada importante pelo governo para dialogar com o eleitorado feminino, segmento em que Lula mantém vantagem.

Flávio Bolsonaro admite erros em currículo divulgado por páginas oficiais

Troca de advogado pode reabrir a possibilidade de delação de Vorcaro

Dino rejeita “crise apocalíptica”, mas admite que Judiciário precisa de reformas

Dino reage à pressão política sobre o Judiciário

Mariana Muniz
O Globo

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino afirmou nesta terça-feira que é “falso” dizer que o Judiciário vive uma “crise terminal e apocalíptica”, mas defendeu uma série de reformas para aprimorar o funcionamento das instituições jurídicas do país.

Em publicação nas redes sociais em homenagem aos 199 anos dos cursos jurídicos no Brasil, o ministro reconheceu que há problemas nas instituições, mas criticou o que classificou como uma narrativa alimentada por interesses políticos, ideológicos e econômicos.

“CRISE TERMINAL” – “Claro que há pontos negativos em tais instituições, porém é falso que existe uma ‘crise’ terminal e apocalíptica no mundo do Direito, mormente no Judiciário”, escreveu. Segundo Dino, essa visão é, “no mais das vezes”, resultado de “objetivos ideológicos, oportunismos político-eleitorais e interesses econômico-financeiros” ou de “vieses de confirmação” que distorcem a realidade.

Apesar da crítica ao discurso de crise, o ministro afirmou que mudanças são necessárias. “Acredito que reformas são sempre necessárias para que os profissionais do Direito sirvam cada vez melhor à nossa Nação”, escreveu.

MOROSIDADE PROCESSUAL – Na postagem, Dino elenca o que considera prioridades para uma eventual reforma do sistema de Justiça, citando a redução da morosidade processual, a punição de profissionais corruptos, o enfrentamento ao “uso e abuso da inteligência artificial”, o combate a “precatórios fabricados e utilizados para perpetração de crimes”, a utilização de fundos para lavagem de dinheiro e a compra e venda de decisões judiciais.

Ao concluir a mensagem, o ministro afirma que é preciso conduzir essas mudanças com “perseverança e coragem”, preservando os direitos fundamentais e os princípios constitucionais da legalidade, moralidade, impessoalidade, publicidade e eficiência.

Brasileiros desconfiam das redes, mas recorrem a elas para se informar sobre política

Planalto teme novas revelações e questiona assessor de Lula sobre lobista

Congresso retoma ofensiva pela redução da maioridade penal, mas votação fica pós-eleições

Nota de apoio a Andrei Rodrigues expõe divisão interna na Polícia Federal

Acusação contra vice de Flávio Bolsonaro é cercada por versões contraditórias

Imprensa reage à operação de Moraes contra fonte de jornalista e alerta para precedente perigoso

Envolvimento da namorada do diretor da PF com o banco Master agita redes sociais

EXCLUSIVO: Escritório da namorada de Andrei Rodrigues defende sócio de Vorcaro

Andrei, da PF, estará investigando a própria namorada?

Carlos Newton

A imprensa informa que a Polícia Federal está concluindo o primeiro inquérito do chamado caso do Banco Master, ligado às fraudes no sistema financeiro. A previsão óbvia é de que estejam entre os indiciados o banqueiro Daniel Vorcaro e outros nomes de peso, como o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRM), Paulo Henrique Costa, que já está até preso na chamada “Papudinha”, junto com Vorcaro.

Relatado pelo ministro André Mendonça, do Supremo, este será o primeiro inquérito atingindo alguns dos personagens principais do escandaloso esquema de corrupção, que somente aconteceu com a conivência e participação diretas das autoridades financeiras incumbidas de fiscalizar o mercado, o que inclui dirigentes do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliário, diga-se de passagem.

SOB SIGILO – Pouco se sabe a respeito do alcance das investigações, porque não há a necessária transparência. Aliás, muito pelo contrário, o Brasil de hoje se caracteriza pelo excesso de sigilo, num posicionamento nada republicano adotado e difundido pelo próprio presidente Lula da Silva, que prometerá combatê-lo.

O que se sabe é que houve graves divergências entre o relator André Mendonça e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que tinha relações com Vorcaro e participara de evento no exterior patrocinado pelo banqueiro. Tanto assim é que antes de ser preso, em novembro de 2025, o dono do Master pediu que o chefe da PF fosse contatado para impedir que alguma “sacanagem” fosse praticada contra ele..

Segundo o jornalista Oswaldo Eustáquio, que está asilado na Espanha e escreve na Gazeta do Paraná, a jornalista Renata Varandas, namorada do diretor da PF, estava na folha de pagamento do esquema criminoso de Vorcaro, que incluía a Ambipar, empresa de gestão ambiental que prestava serviços milionários ao governo Lula.

INFLANDO AS AÇÕES – Investigações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Polícia Federal apontam que o empresário Nelson Tanure e fundos associados atuaram de forma coordenada com o CEO da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, em manobras financeiras complexas para elevar o preço das ações da companhia de gestão ambiental.

Segundo o relatório da CVM, Daniel Vorcaro, Nelson Tanure e Tércio Borlenghi inflaram artificialmente o preço das ações da Ambipar. Fundos ligados ao Master compraram 25,1 milhões de ações da empresa entre junho e agosto de 2024, movimentando R$ 754 milhões. As ações saíram de R$ 8,07 em maio e chegaram a R$ 159,00 em agosto — valorização de 863% em três meses.

Em outubro de 2025, quando o Master já estava quebrado, a Ambipar pediu recuperação judicial, declarando dívidas de R$ 10,5 bilhões. Portanto, a empresa estava insolvente quando recebeu contratos milionários do governo federal e deu um golpe na praça, lesando milhares de investidores.

FOI PORTA-VOZ – A namorada da Andrei Rodrigues era remunerada regiamente pela Ambipar. Atuou como sua porta-voz em eventos de alto perfil, incluindo painel sobre sustentabilidade na Expert XP em 2025, ao lado de membros do Conselho Diretor da companhia. Mas o nome da Ambipar foi removido do seu perfil no Instagram após o início das apurações sobre o caso.

O fato é que Renata Varandas está sempre por cima. Saiu da Ambipar antes da quebradeira e em janeiro de 2025 foi trabalhar justamente no escritório de advocacia Figueiredo & Velloso, que hoje defende Vorcaro.

A namorada de Andrei, que foi demitida da TV Record em circunstâncias altamente negativas, agora é apresentadora do programa “Poder em Foco”, no SBT News, emissora lançada em dezembro de 2025 com a presença de Lula da Silva, Alexandre de Moraes e Andrei Rodrigues. Nos bastidores do canal está Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro e genro de Silvio Santos, que recebeu do esquema de Vorcaro cerca de R$ 70 milhões, em negócios envolvendo um projeto de energia eólica e um apartamento de R$ 50 milhões em São Paulo.

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P.S.
Em meio a essas denúncias estarrecedoras, que têm enorme repercussão nas redes sociais, mas são desprezadas pela grande imprensa, surge a notícia de que André Mendonça aceitou ter um encontro com o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para discutir a relação. Mas como discutir? Se a sua namorada está envolvida no caso do Banco Master, o diretor da PF não pode participar das investigações, conforme Mendonça já determinou. Aliás, Mendonça reclama muito do ritmo das investigações da PF e do pequeno efetivo disponível. Se realmente ele aceitar esse encontro com Andrei, que está claramente boicotando a investigação, é melhor chamar um padre para comandar a extrema-unção do regime democrático. (C.N.)

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Nova Guerra Fria inclui eleições brasileiras na disputa entre as potências

Progressistas alertam Parlamento dos EUA contra interferência de Trump no Brasil

Frente evangélica tse reuniu com parlamentares americanos

Bela Megale
O Globo

Representantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito estiveram em Washington (EUA), na semana passada, para entregar uma carta a congressistas americanos sobre as eleições brasileiras de outubro. O documento foi levado pelo grupo aos gabinetes dos senadores Raphael Warnock e Adam Schiff, e da deputada Hillary Scholten, três lideranças religiosas ativas.

Warnock é pastor titular da Ebenezer Baptist Church, em Atlanta, a mesma congregação de Martin Luther King Jr. Schiff, que é judeu, presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara, com atuação histórica em política externa e defesa das instituições democráticas. Scholten atuou como auxiliar na LaGrave Avenue Christian Reformed Church, igreja localizada em Grand Rapids, conhecida por sua atuação comunitária e pela ênfase em valores bíblicos.

INTERFERÊNCIA – Na carta, o grupo progressista criado em 2016 destaca a preocupação com a tentativa de interferência dos Estados Unidos nas eleições presidenciais do Brasil e aponta reportagens que destacam o plano da gestão Donald Trump de enviar funcionários a Brasília para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

A Frente também criticou as recentes medidas tarifárias dos EUA que afetam exportações brasileiras, ressaltando que elas deveriam se basear em critérios econômicos e técnicos, evitando influências políticas internas.

REPRESENTATIVIDADE – Por fim, os signatários da carta destacam que, embora alguns líderes evangélicos brasileiros apoiem publicamente o senador Flávio Bolsonaro, eles não representam a totalidade da comunidade evangélica brasileira, que é diversa em opiniões políticas.

A carta ainda reforça a importância do Brasil como maior democracia da América do Sul e sua influência regional, destacando a necessidade de proteger suas instituições contra pressões externas que possam fragilizar o processo democrático. A Frente solicita um canal de diálogo permanente com os parlamentares americanos, cooperação para fortalecer a independência das instituições brasileiras e a abstenção de intervenções externas nas eleições.

Republicanos abraça Lula onde convém e Bolsonaro onde interessa

A escolha de Motta obedece à realidade eleitoral da Paraíba

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

O apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta, à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva expõe a ambiguidade eleitoral do Republicanos. Formalmente, o partido decidiu permanecer neutro na disputa pelo Palácio do Planalto, não indicar o candidato a vice de Flávio Bolsonaro nem integrar nenhuma coligação presidencial. Na prática, liberou seus dirigentes e diretórios estaduais para escolherem publicamente o lado mais conveniente às respectivas circunstâncias locais. É uma salvo-conduto para múltiplas alianças regionais, inclusive com forças antagônicas.

Foi o que permitiu a Hugo Motta anunciar o apoio a Lula sem romper com a direção partidária. “A tendência nossa aqui na Paraíba é que caminhemos com o presidente Lula”, declarou, acrescentando que o petista representa aquilo que seu grupo considera “o melhor para o país”. O presidente da Câmara aguardou deliberadamente a decisão nacional do Republicanos para somente então revelar sua posição. O Republicanos da Paraíba apoiará a reeleição de Lula, segundo Motta.

INTERESSES – A escolha obedece à realidade eleitoral da Paraíba. Motta precisa renovar seu mandato, preservar a influência nacional conquistada na Presidência da Câmara e eleger o pai, Nabor Wanderley, para o Senado. Seu grupo participa da aliança que sustenta o governador Lucas Ribeiro, do PP, herdeiro da coalizão liderada anteriormente por João Azevêdo, do PSB, e apoiada por Lula. Embora o atual governador não pertença à esquerda, governa com uma composição na qual PT e PSB exercem grande influência. O que também explica a neutralidade do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

Romper com Lula na Paraíba significaria desafiar um eleitorado majoritariamente lulista e colocar em risco a própria sobrevivência política do grupo de Motta. Os números explicam o movimento. Na pesquisa Genial/Quaest, Lula ampliou de 57% para 64% sua votação num eventual segundo turno no Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro recuou de 31% para 25%. A diferença de 39 pontos transforma qualquer tentativa de impor um palanque bolsonarista exclusivo na região em aventura de alto risco.

Nacionalmente, Lula aparece com 39% no primeiro turno, contra 30% de Flávio, e vence o segundo por 44% a 39%. Flávio cresceu e reduziu a distância, mas ainda não conseguiu transformar a polarização social existente no país numa coalizão partidária equivalente àquela que sustentava seu pai.

SÃO PAULO E MINAS –  A decisão do Republicanos também revela uma estratégia que mira as eleições de 2030. Tarcísio de Freitas, principal liderança da legenda e candidato à reeleição em São Paulo, depende do eleitorado bolsonarista para se manter no Palácio dos Bandeirantes, mas não deseja subordinar completamente seu futuro político ao projeto pessoal de Flávio.

Tarcísio mira 2030, quando o cenário poderá ser definido pela sucessão simultânea de Lula e de Jair Bolsonaro como grandes polos organizadores da política nacional. Para chegar competitivo a essa eleição, precisa conservar o apoio da direita, dialogar com o centro, cultivar relações institucionais com o governo federal e não se tornar mero coadjuvante do clã Bolsonaro. O Republicanos procura ocupar simultaneamente o governo e a oposição, o Nordeste lulista e o Sudeste conservador, a eleição de 2026 e a sucessão de 2030.

O mesmo fenômeno aparece em Minas Gerais, onde a candidatura camaleônica de Cleitinho Azevedo ao governo embaralhou os palanques presidenciais. O senador do Republicanos chegou a ser impedido pelo próprio partido de concorrer, reagiu publicamente e acabou reconduzido à disputa depois da intervenção de dirigentes interessados em sua capacidade de puxar votos para as chapas proporcionais.

DIVISÃO – Cleitinho lidera a corrida mineira com 35%, muito à frente de Alexandre Kalil, com 12%, e Patrus Ananias, com 10%. No plano presidencial, porém, Minas está dividida: Lula tem 30% e Flávio, 29%, no primeiro turno; num eventual segundo turno, o petista aparece com 38% e o bolsonarista, com 35%, ambos em empate técnico. A pesquisa mineira mostra a liderança isolada de Cleitinho e o equilíbrio entre Lula e Flávio.

Qual é a do Cleitinho? Ele necessita dos eleitores bolsonaristas, mas não pode hostilizar a parcela lulista de Minas nem atrelar completamente sua candidatura a um presidenciável que aparece numericamente atrás no estado. Nos bastidores, prevalece a expectativa de que abra o palanque, permitindo que aliados e candidatos proporcionais façam campanha para Flávio ou Lula segundo suas bases.