Com base fiel de 200 deputados, Lula terá de disputar apoio no Centrão

Lula deixa definição de ministros para depois de viagem internacional

Presidente ficará fora do país entre 9 e 16 de novembro

Sérgio Roxo
O Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva só deve, segundo aliados, começar a definir os ministros que vão compor o seu quarto mandato depois de voltar da viagem que fará à Turquia e às Filipinas, entre 9 e 16 de novembro.

De acordo com pessoas próximas, o presidente não tem tratado da escolha dos nomes que vão ocupar por enquanto, mas isso não impede que ocorram movimentações de bastidores de quadros que tentam se cacifar.

EXPECTATIVA – A tendência é que Lula comece as escolhas pelos titulares da Casa Civil e da Fazenda. Para o primeiro posto, os mais cotados são Fernando Haddad e Camilo Santana. Para o comando da equipe econômica, o vice Geraldo Alckmin e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, aparecem como os mais citados.

Uma das preocupações de Lula no momento tem sido manter a mobilização de eleitores que saíram às ruas no segundo turno. Nesta quinta-feira, o presidente recebeu o deputado André Janones (Rede-MG), que criou o canal de Whatsapp “Exército do Lula”, para um almoço no Alvorada. O petista anunciou em um áudio enviado no canal que na próxima semana fará um pronunciamento à nação e uma live nas redes sociais.

Janones é citado como um nome para comandar um possível ministério de Comunicação Digital. Durante o discurso da vitória no domingo na Paulista, o presidente disse que avalia a criação da pasta.

NOMES CERTOS – Também são considerados nomes certos, entre outros, no ministério do novo mandato o atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, da Saúde, Alexandre Padilha, do Planejamento, Bruno Moretti, além da ex-ministra Gleisi Hoffmann.

Lula deve embarcar no dia 9 de novembro para a cidade de Antália, na Turquia, onde será realizada a COP 31. Em seguida, fará uma visita de estado às Filipinas no dia 13. Nos dias 14 e 15, está prevista a participação do presidente brasileiro na Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), que ocorrerá nas Filipinas.

Aos trancos, os Bolsonaros corroem o robusto capital político da família

Charge do J. Bosco (O Liberal)

Dora Kramer
O Globo

Os quase 60 milhões de brasileiros que optaram pelo candidato derrotado na eleição à Presidência tiveram seus votos inutilizados por ele. Em suma, foram feitos de palhaços.

No lance da fuga, de uma tacada, Flávio Bolsonaro (PL) revelou sua face golpista e mostrou-se um colosso em matéria de autodestruição. Virou as costas para o eleitorado, deixou no “ora, veja” os políticos aliados, provou-se inabilitado para liderar a oposição e lustrou de razão o equívoco tático de Alexandre de Moraes de retomar a ofensiva judicial na base da afobação.

FORAGIDOS – O senador em fim de mandato junta-se ao irmão deputado cassado e demais foragidos da Justiça homiziados nos Estados Unidos, para de lá viver a ilusão de ser “o verdadeiro presidente eleito”, o “líder do Brasil” ao molde de um perseguido político que, na realidade, é um investigado por crimes comuns.

A direita que foi até a boca da urna não chorou no velório. Todos os partidos, inclusive o PL do senador ora iludido, deixaram-no berrando sozinho. Ao autoproclamado líder da oposição, no momento faltam liderados. A conferir se o campo que o quase ex-senador pretende representar vai rever a posição e continuar prisioneiro de uma gente que desrespeita as regras ou se aproveita o ensejo para se libertar da política de arreganhos radicais.

A julgar pelo padrão de covardia na adversidade, lícito supor que o evadido em questão tremeria na base ante a enormidade e a gravidade dos problemas que teria de enfrentar caso tivesse alcançado o cargo que, vê-se, em boa hora a maioria lhe negou.

NOMES A ZELAR – Há, no campo que se aliou ao Bolsonaro da vez, políticos com nomes a zelar. Há também os oportunistas, o pessoal da arruaça digital e o contingente de reacionários. A uni-los, a sociedade no vexame.

No meio do desacerto, o certo é que mais um Bolsonaro sai da cena nacional. Ficam no Congresso Nacional os herdeiros: Carlos (PL-SC), Renato (PL-SP), Jair Renan (PL-SC) e Michelle (PL-DF) —dos quatro, a mais (única?) esperta.

Sem maioria no Congresso, Lula aposta nas redes para equilibrar forças

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PEC da Segurança volta à pauta, e governo tenta evitar impasse sobre maioridade penal

Alcolumbre pauta PEC da Segurança para terça-feira

Luísa Marzullo
O Globo

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), pautou para a próxima terça-feira a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, após adiar a análise do texto às vésperas do segundo turno da eleição presidencial. Até lá, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta construir um acordo para deixar a redução da maioridade penal fora da proposta, tema que provocou divergências entre integrantes da base governista e impediu o avanço da votação antes da eleição.

A intenção do Planalto é aprovar a PEC sem alterações, para evitar que o texto tenha de retornar à Câmara dos Deputados. A orientação é que a discussão sobre a redução da maioridade penal seja feita separadamente, sem comprometer a votação da proposta, considerada uma das prioridades de Lula na área da segurança pública.

PRIORIDADE – Na última terça-feira, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), reforçou a posição do governo ao lado do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães. Segundo o deputado, a prioridade é garantir a aprovação da PEC para viabilizar a criação do Ministério da Segurança Pública, prometido por Lula durante a campanha presidencial.

— A PEC da Segurança Pública é prioridade para nós e queremos excluir o tema da maioridade penal nessa PEC para dar condições de o presidente Lula criar um ministério. Maioridade penal é um debate específico, não tem que ser na PEC da Segurança Pública — afirmou Uczai.

Antes do adiamento, o líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), apresentou uma emenda para reduzir a maioridade penal para 16 anos como regra geral e para 14 anos em determinados crimes graves, como tráfico de drogas e participação em organizações criminosas. Em resposta, o líder do PT, Camilo Santana (CE), apresentou uma proposta para permitir a responsabilização penal a partir dos 16 anos apenas em casos de crimes hediondos.

DIVISÃO – A iniciativa de Camilo, no entanto, dividiu a base governista. Parte dos senadores petistas se posicionou contra a redução da maioridade penal, enquanto outros, embora favoráveis à discussão, defenderam que o assunto fosse tratado separadamente, sem alterar a PEC da Segurança.

Na ocasião, a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), afirmou que já havia um entendimento para aprovar a proposta sem emendas, firmado ainda durante a tramitação na Câmara dos Deputados. Segundo ela, a apresentação de novas propostas sobre a maioridade penal não deveria comprometer o acordo.

— O acordo para que a PEC fosse aprovada, e será, sem emendas, precede a apresentação da emenda do senador Camilo Santana — afirmou Teresa, acrescentando que a redução da maioridade penal seria discutida em outra PEC.

PROPOSTAS INDEPENDENTES – O relator da proposta no Senado, Rogério Carvalho (PT-SE), também anunciou que pediria a tramitação autônoma das emendas apresentadas por Camilo e Marinho, transformando-as em propostas independentes. A medida permitiria que a PEC da Segurança fosse aprovada sem alterações e seguisse diretamente para promulgação.

O tema também provocou uma mudança de posição pública de Lula. Em entrevista ao Jornal Nacional, na reta final da campanha presidencial, o petista afirmou ser favorável à redução da maioridade penal em casos de crimes hediondos, mas defendeu que a discussão ocorresse separadamente.

— Eu sou favorável a reduzir para 16 anos, mas não nessa PEC. Aprova a PEC e aí discute isso — disse o presidente.

MUDANÇAS – A PEC prevê mudanças na organização da segurança pública do país, na divisão de competências entre União, estados e municípios e no enfrentamento às facções criminosas. Lula condicionou a recriação do Ministério da Segurança Pública à aprovação da proposta.

A votação estava prevista inicialmente para ocorrer antes do segundo turno, mas Alcolumbre decidiu adiá-la diante das divergências sobre a maioridade penal. Na ocasião, aliados do presidente do Senado avaliaram que a decisão também evitava expor o governo a um novo desgaste eleitoral, em meio à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL).

Lula prepara convite a Trump e Milei para posse apesar de tensões diplomáticas

Alcolumbre tenta atrair oposição, enquanto PL prepara ofensiva para tomar o Senado

PL deve anunciar Rogério Marinho como candidato

Caetano Tonet
Sara Curcino
G1

Apesar das tratativas do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com senadores de todos os partidos, o PL deve anunciar, na próxima quarta-feira (4), Rogério Marinho (RN) como candidato à presidência do Senado em fevereiro de 2027.

O partido terá a maior bancada do Senado a partir dos novos senadores, eleitos em outubro. Serão 28 parlamentares. Alcolumbre tenta se reeleger ao cargo. A estratégia do amapaense passa por conseguir votos mesmo de senadores de partidos da oposição, como PL, PP e Republicanos.

ANISTIA – Na última semana, Alcolumbre tem discutido com parlamentares a possibilidade de pautar um projeto para anistiar os condenados pelo 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Desta forma, o presidente do Senado poderia angariar apoio da oposição para uma eventual reeleição e ainda conter a pressão por impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

O último levantamento do STF, de abril, informa que, dos condenados pela tentativa de golpe, há ainda 190 presos. Desses, 70 estão em prisão domiciliar. Em abril desde ano, o Congresso deu aval a uma proposta que permite a redução das penas, que será avaliada caso a caso pelo STF.

Uma liderança importante do PL dentro do Senado afirmou, nos bastidores, que essa tese da anistia poderia servir tanto para os condenados quanto para quem os julgou, em referência ao relator do caso, ministro Alexandre de Moraes. Desta forma, uma apuração relativa à conduta do ministro na condução do processo não seria aberta pelo Senado.

DESGASTE – Esse senador também afirmou que defendeu, para os colegas de partido, que talvez não valha para o PL o “desgaste” de apostar numa candidatura própria para disputar a presidência do Senado e, em caso de derrota, a legenda ficar sem o comando de comissões importantes. A exemplo do que aconteceu em 2023, quando Rogério Marinho, candidato pelo PL, foi derrotado por Rodrigo Pacheco.

O parlamentar do PL argumenta ser contrário a uma “radicalização” na eleição da Mesa, ou seja, que o PL lance candidato sem antes tentar compor um acordo com Alcolumbre.

Mesmo com a tentativa de aproximação, o PL, de forma majoritária, não aceitou um acordo com o presidente do Senado e pretende colocar Marinho em campanha a partir da próxima semana. “A candidatura com mais força e votos hoje é a de Rogério Marinho”, afirmou o senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ).

NA DISPUTA – Além de Marinho, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) é outro quadro da oposição que deseja disputar o comando da Casa. Mesmo com o PL lançando Rogério Marinho, Tereza mantém o desejo de concorrer à presidência do Senado. “Eu mantenho meu desejo de concorrer, de ser a primeira mulher presidente do Senado. Temos 90 dias até a eleição. Tem muita água pra rolar”, declarou Tereza ao G1.

Entre os parlamentares de oposição, há uma avaliação de que a carta escrita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em que se autodeclarou “presidente eleito” e depois mudou para líder do Brasil, enfraqueceu a candidatura de Rogério Marinho.

Senadores acreditam que Marinho, que foi coordenador da campanha de Flávio à presidência da República, comandaria o Senado sem autoridade e “precisando ligar para os Estados Unidos” para definir o rumo da Casa.

CANDIDATURA – Na quarta-feira (28), Marinho confirmou que deverá ser o candidato da legenda. Neste mesmo dia, quando questionado sobre a carta redigida por Flávio Bolsonaro, Alcolumbre sinalizou esta aproximação que tenta com o grupo de oposicionistas: “Eu estou falando todo dia de pacificação do Brasil. Tudo que eu comentar para vocês pode ser contrário à minha tese”, disse.

Um interlocutor do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), avaliou que o amapaense já reúne os votos suficientes para sua reeleição, ou seja, ao menos 41 e que, diante da fuga de Flávio Bolsonaro do país, Marinho virou o candidato ideal para enfrentar em fevereiro.

VOTOS – Esse interlocutor confirmou que ele já possui votos dentro do próprio PL, mas ponderou que o presidente do Senado ainda não dialogou com a ala dita mais “radical” do bolsonarismo, composta pelos senadores eleitos como Guilherme Derrite (PP-SP) e Carol de Toni (PL-SC).

Além disso, afirmou que Alcolumbre ainda espera conversar nas próximas semanas com a senadora eleita pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL), que hoje apoia a candidatura de Tereza Cristina. Apesar de alguns governistas, como o senador Otto Alencar (PSD-BA), defenderem o projeto de anistia, siglas como o MDB já estão se posicionando contra essa possibilidade.

TSE decide que condenação por agressão contra mulher pode tornar candidato inelegível

Condenação por violência de gênero pode impedir candidatura

Mariana Muniz
O Globo

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que condenações por lesão corporal contra a mulher em razão do gênero podem tornar candidatos inelegíveis, mesmo que o crime não esteja expressamente previsto entre as hipóteses da Lei da Ficha Limpa. Por unanimidade, os ministros entenderam que esse tipo de violência pode ser enquadrado na categoria de crimes contra a vida, que impedem a candidatura de pessoas condenadas por decisão judicial colegiada.

O entendimento foi firmado durante o julgamento de um recurso apresentado por João Francisco de Assis Neto (Solidariedade), conhecido como Dr. João Neto, que pretendia disputar uma vaga de deputado federal por Alagoas nas eleições deste ano. O político teve o registro de candidatura negado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) após ser condenado por agredir a esposa. A decisão foi mantida pelo TSE.

APELO AO CONGRESSO – Além de confirmar a inelegibilidade, os ministros decidiram encaminhar um apelo ao Congresso Nacional para que a legislação passe a prever expressamente a proibição de candidaturas de pessoas condenadas por crimes de violência contra a mulher.

Relator do caso, o ministro Dias Toffoli argumentou que a decisão não representa a criação de uma nova hipótese de inelegibilidade, mas uma interpretação das regras já previstas na legislação eleitoral. Segundo ele, as alterações introduzidas pela Lei do Feminicídio, em 2024, aproximaram juridicamente os crimes de feminicídio e de lesão corporal praticada contra mulheres por razões de gênero.

A Lei da Ficha Limpa estabelece restrições à candidatura de pessoas condenadas por determinados crimes, entre eles aqueles cometidos contra a vida e a dignidade sexual. Para Toffoli, a proteção à integridade física das mulheres deve ser considerada na interpretação dessas hipóteses, independentemente da classificação formal do delito no Código Penal.

FEMINICÍDIO – A posição foi acompanhada pelos demais integrantes da Corte. Durante o julgamento, ministros destacaram que episódios de agressão física frequentemente antecedem casos mais graves de violência contra mulheres, incluindo o feminicídio.

O presidente do TSE, Nunes Marques, classificou a decisão como um momento histórico para a Justiça Eleitoral e ressaltou que o tribunal não estava assumindo uma função legislativa, mas interpretando as normas em vigor.

— Esse é um momento histórico para o TSE. Mas o que estamos a fazer nada mais é do que sempre ocorreu: a jurisprudência chegando à frente da norma — afirmou.

CONDENAÇÃO – João Neto foi condenado em 2025 pela Justiça de Alagoas a quatro anos e dois meses de prisão por lesão corporal contra a esposa. Segundo o processo, ele empurrou a mulher dentro de casa, quando ela estava descalça sobre um piso escorregadio. A vítima caiu, bateu o queixo no chão e sofreu um ferimento que exigiu intervenção cirúrgica.

A condenação foi confirmada por unanimidade pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Alagoas. Embora ainda existam recursos pendentes de julgamento, os ministros do TSE destacaram que a Lei da Ficha Limpa não exige uma condenação definitiva para a aplicação da inelegibilidade, sendo suficiente uma decisão de órgão colegiado.

A defesa sustentou que o crime de lesão corporal não está expressamente incluído entre as hipóteses de inelegibilidade discutidas no processo e que a legislação eleitoral não poderia ser interpretada de forma ampliativa para restringir direitos políticos. O argumento foi rejeitado pelo relator e pelos demais ministros, que mantiveram a decisão do tribunal regional.

MANIFESTAÇÃO – Durante o julgamento, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva propôs que o TSE encaminhasse uma manifestação formal às presidências da Câmara dos Deputados e do Senado para defender uma atualização da Lei de Inelegibilidades.

A proposta é incluir expressamente entre as causas de inelegibilidade as condenações por crimes praticados com violência contra mulheres, independentemente da classificação do delito no Código Penal. A sugestão foi acolhida por unanimidade.

Uma proposta de lei complementar com esse objetivo já tramita no Senado, mas está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde maio de 2025. O texto prevê a inelegibilidade de pessoas condenadas por violência doméstica e familiar contra a mulher, por decisão definitiva ou colegiada, pelo período de oito anos após o cumprimento da pena.

Ex-agente do Mossad aparece em operação que levou Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos

Abandono do Dia dos Mortos exibe a decadência da sociedade moderna

Ilustração de Ricardo Cammarota, realizada em técnica pastel oleoso sobre papel, na proporção 13,9 × 9,1 cm, horizontal. A imagem figurativa apresenta, ao centro, uma caveira estilizada, com grandes cavidades oculares em preto, dentes aparentes e um pequeno coração vermelho na testa. A caveira segura, com as duas mãos, uma vela acesa, de cuja chama partem raios e nuances de cores em diferentes direções, formando uma composição multicolorida. Ao redor da figura central, distribuem-se círculos coloridos em diferentes tamanhos, em tons de vermelho, laranja, amarelo, rosa, azul e verde. O fundo é predominantemente verde-escuro e preto, com pequenos pontos e traços claros. Linhas finas e curvas em preto atravessam a composição.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Lembro-me de que, há anos, no Dia de Finados —2 de novembro—, a Avenida Dr. Arnaldo, aqui na zona oeste de São Paulo, nas imediações do cemitério do Araçá, nas bancas de flores, o trânsito era bem intenso. Essa intensidade arrefeceu. A redução da intensidade é indicativa da perda de lugar dos mortos em nossas vidas, nossas famílias e nossas cidades.

Já não se celebram os mortos. Já não se pensa neles como alguém a quem devemos o mundo e a vida, pelo contrário, muitos discursos atuais falam deles como culpados por tudo de ruim que existe, e que, portanto, não merecem qualquer respeito de nossa parte.

ESTUPIDEZ MODERNA – Esse é um dos inúmeros exemplos da estupidez arrogante e ruidosa da nossa modernidade. Um exemplo crasso dessa estupidez ruidosa é o fato de que muitos daqueles que praticam esse desprezo nunca passaram por nem um décimo pelo que nossos ancestrais passaram, mas a soberba é o pecado máximo dos modernos.

O culto dos ancestrais, traço presente em muitas religiões tradicionais, às vezes associadas aos povos ditos “primitivos”, é combatido pela moçadinha politicamente correta condena essa expressão. Mas toda pessoa politicamente correta é mentirosa. Portanto, essa moçadinha nega a expressão, mas acredita nela no fundo do seu coração falso, por ser um indicativo de respeito e gratidão aos que nos legaram a vida e o mundo. Cultuar esse legado é uma forma de amor à vida e ao mundo.

Aliás, vale lembrar que hoje a palavra “legado” está na moda. Tem até gente de 15 anos mandando a IA escrever um livro sobre o legado desses 15 anos de vida dela.

SÉCULO RIDÍCULO – O século 21 é mais ridículo da História até aqui, por isso mesmo, condenado à lata de lixo dos historiadores do futuro, a menos que algo de significativo aconteça até o final dele.

A importância dos ancestrais nessas formas de cultos tradicionais não fala só da gratidão que os vivos devem aos mortos. Fala, antes de tudo, da potência deles, justamente porque estão mortos. Essa potência demanda dos seus descendentes vivos atenção, sacrifícios, orações, liturgias, alimentos oferecidos nos locais em que eles descansam, ou seja, nos locais onde estão seus túmulos. Esses locais são, portanto, espaços sagrados de culto. Os antigos praticavam essa forma de culto.

Esses cultos eram formas de gratidão, eram práticas de homenagem e pedidos de ajuda aos ancestrais para que eles ajudassem os seus descendentes vivos a enfrentar os desafios da vida. Mas (e isso é fundamental) caso os espíritos dos ancestrais não recebessem essas honrarias, eles poderiam se transformar em demônios ou espíritos malignos que atormentariam seus descendentes ingratos, causando-lhes sofrimentos e desventuras.

DESPREZO AOS MORTOS – Se voltarmos ao desprezo que a sociedade moderna tem pelos seus mortos, se esses cultos estivessem certos na sua hipótese, podemos imaginar quantos milhões de demônios existem por aí a nos espreitar. Mas, na verdade, não há qualquer risco, porque esses demônios não passam de representações e imagens que criamos na nossa cabeça. Ou, se existem, são obrigados a serem nossos servos para nos fazer ter sucesso sempre.

O mundo espiritual hoje é visto pela maioria dos vivos como mero auxiliar, sem nenhum respeito. Fato evidente. O mundo espiritual, hoje, é pleno de escravos — ou escravizados, como reza a cartilha do politicamente correto.

A famosa citação do filósofo britânico Edmund Burke no seu clássico “Considerações Sobre a Revolução na França” é emblemática dessa discussão. Eis a citação: “A sociedade é um contrato (…) não apenas entre os vivos, mas entre os mortos, os vivos e os que ainda estão por nascer”. A sociedade é uma comunidade moral entre as gerações.

ETERNO PRESENTE – Burke não está fazendo referência aos cultos dos túmulos dos nossos mortos, ele está criticando a tendência moderna, presente de forma radical nos revolucionários franceses, de acreditar que a sociedade é feita apenas de vivos, presa num eterno presente cego.

Os mortos dos quais Burke fala aqui são todas as pessoas que viveram antes de nós e que construíram toda uma cultura —ideias, práticas, leis, valores, crenças, instituições, vínculos— graças às quais temos um lugar para nascermos e crescermos. Essa cultura permanece conosco, nos nutre, criamos a partir dela, nos desenvolvemos a partir dela. Não há como zerar o tempo. O mundo não começou quando nascemos e não acabará quando morrermos.

Quem acredita que o tempo existe para nos trazer ao mundo —ou seja, que o nosso ego, e nossas manias e ideiazinhas desprovidas de substância são o que há de mais sublime—, não entendeu nada.

Entre a euforia eleitoral e o grave risco fiscal, Lula precisa definir a estratégia

Trump oferece permanência a Flávio, mas descarta encontro com o senador

Lula fará mesmo a irresponsabilidade de seguir elevando o déficit público?

Tribuna da Internet | Omissão política do governo causa decepção em setores da economia

Charge do Cícero (Arquivo Google)

Fernando Schüler
Estadão

“O tesouraço foi derrotado nas urnas”, disse o ministro Boulos. Seu ponto: a agenda econômica é de quem ganhou, não a de quem perdeu. E quem insiste no tema do “ajuste fiscal” não teria entendido “nada do que foi essa eleição”. Boulos acrescenta um detalhe: ajuste fiscal cortando “gastos em políticas sociais”.

É um pouco vago definir o que está incluído nisso. Gasto previdenciário seria “política social?”. E os R$ 17 bilhões em prejuízos dos Correios, desde 2023? E as vinculações constitucionais da saúde e educação? É tudo “incortável”, como diria o antigo filósofo Antônio Magri?

NADA DE REFORMAS – Daria para ir longe, aqui. O que o governo de fato não prometeu, na campanha, e, logo, não está obrigado a fazer, são reformas estruturais. Reformas que mexam com interesses bem enraizados na estrutura do Estado. Lula não prometeu nada disso em 2022, e não fez. Muita gente à época não quis escutar o que Lula dizia (um velho hábito brasileiro).

Ainda lembro da curiosa carta telepática enviada a Lula por Armínio Fraga pedindo reformas. A intenção de Armínio era boa, mas a mensagem ficou pelo caminho.

Agora, o fenômeno se repete. Mesmo o governo praticamente gritando que um ajuste não está na agenda, e nada disso tendo sido discutido na campanha, muita gente parece imaginar que alguma “racionalidade” autoevidente se imporá sobre a vontade política, e um Lula “reformador” surgirá, perto do Natal. De minha parte, torço para que isto aconteça. Apenas não acho prudente confundir desejo com realidade.

SINAIS DE ALARME – Ainda esta semana, a IFI, Instituição Fiscal Independente, do Senado, apresentou duas projeções inquietantes: um déficit potencial de R$ 145 bilhões em 2027 e a necessidade de um superávit de até 2,1% do PIB para estabilizar a dívida pública. Isto significa um ajuste superior a R$ 400 bilhões, praticamente o déficit anual da Previdência Social, juntando o regime geral e setor público.

Os números podem variar um pouco e a própria IFI reconhece que há promessas não contabilizadas aí, como o ônibus gratuito nos fins de semana e o “Pé-de-Meia Universitário”, entre outros.

Diante desses números, o ministro José Guimarães diz que ajuste fiscal “não está nas prioridades”, e muita gente fica nervosa com isso. Digo que não deveria. Da mesma forma que digo que Boulos não está errado. Isto foi uma escolha da sociedade nas eleições. E é preciso respeitar.

NÃO APRENDEMOS – Já passamos por dez eleições presidenciais, e quem sabe deveríamos ter aprendido. A democracia nos dá o direito de escolher. Só não nos dá o de escolher as consequências de nossas escolhas.

É evidente que governo pode mudar o rumo. Tem capital político e o diagnóstico é bastante claro. Em 2003, na gestão Palocci, o País gerou um superávit de 4,3% do PIB no primeiro ano do governo. O País vinha de uma fase de reformas, o contexto global era outro, mas houve decisões em um sentido diferente. Foi feita uma reforma na Previdência do setor público.

Por estas semanas, entre o primeiro e o segundo turno, demos marcha ré. Recriamos a “paridade” e a “integralidade” para agentes de saúde. Ao invés de andar para frente em uma reforma da Previdência, andamos para trás.

CARTAS NA MESA – No fundo, as cartas estão na mesa do governo. Boulos acerta quando diz que ninguém prometeu e ninguém votou por “reformas” ou para recolocar o País no trilho da responsabilidade fiscal.

Mas a matemática, por vezes, pode ser cruel com a imaginação política. Weber insistiu que as convicções, na vida política, deveriam ser temperadas com um sentido de responsabilidade. E isto significava, entre muitas coisas, em ajustar a rota e rever escolhas quando os fatos se impõem. Mesmo quando alguma coisa não tenha sido prometida em uma campanha. Porque isto é um gesto de grandeza.

Confesso não enxergar, nos vencedores do dia, muita disposição, nesta direção. Mas espero estar enganado.

A derrota de Flávio revelou o que o Brasil teria enfrentado com sua vitória