Entre dosimetria e anistia: o cálculo político por trás da disputa no Congresso

As ruas falaram que a democracia é um bem que não é negociável

Manifestantes protestaram contra o PL da Dosimetria

Pedro do Coutto

O último domingo foi marcado por um recado claro e direto vindo das ruas brasileiras. Em capitais e grandes cidades, milhares de pessoas se mobilizaram contra o Projeto de Lei da Dosimetria, que altera critérios de aplicação de penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mais do que um protesto pontual, as manifestações expressaram um sentimento profundo de desconfiança em relação a acordos políticos que, na avaliação dos manifestantes, podem abrir caminho para a impunidade.

Os atos reuniram movimentos sociais, partidos de esquerda, centrais sindicais, artistas, parlamentares e cidadãos sem filiação partidária explícita, unidos por uma palavra de ordem comum: sem anistia. Para os participantes, a proposta em debate no Congresso representa uma tentativa indireta de reduzir punições impostas aos responsáveis pelos ataques às instituições em 8 de janeiro de 2023 — episódios que incluíram a invasão e depredação do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto.

RELATIVIZAÇÃO – Embora pacíficas, as manifestações foram politicamente contundentes. Cartazes, discursos e palavras de ordem ressaltaram que os crimes cometidos contra a democracia não podem ser relativizados por meio de ajustes legislativos casuísticos. A leitura predominante entre os manifestantes é que a dosimetria, apresentada como um debate técnico, carrega forte conteúdo político e simbólico: o de reescrever a gravidade de atos que atentaram contra a ordem constitucional.

Os números de público foram menores do que em mobilizações anteriores, mas isso não esvaziou o significado político do movimento. Pelo contrário. Em um ambiente de fadiga social e dispersão do debate público, a capacidade de reunir milhares de pessoas em diferentes regiões do país revela que o tema segue sensível e mobilizador. A mensagem transmitida é a de que a sociedade civil permanece vigilante e disposta a reagir quando percebe riscos à institucionalidade democrática.

PAUTAS – Outro ponto relevante foi a diversidade das pautas incorporadas aos protestos. Além da rejeição ao PL da Dosimetria, surgiram reivindicações ligadas a direitos trabalhistas, críticas à escala de trabalho 6×1 e à condução do Congresso Nacional. Esse entrelaçamento de agendas reforça a percepção de que, para muitos brasileiros, a defesa da democracia não está dissociada de justiça social e respeito aos direitos fundamentais.

Ao final do dia, o saldo político das manifestações foi menos quantitativo e mais simbólico. As ruas lembraram ao Parlamento que decisões tomadas a portas fechadas, ainda que dentro da legalidade formal, precisam considerar o impacto social e histórico de seus efeitos. A democracia, como deixaram claro os manifestantes, não é apenas um arranjo institucional — é um pacto que exige memória, responsabilidade e limites claros.

O recado do domingo foi simples e poderoso: crimes contra a democracia não são moeda de troca. Cabe agora ao Congresso decidir se ouvirá o eco das ruas ou se assumirá o ônus político de ignorá-lo.

Corrupção do Banco Master exibe a fragilidade da confiança institucional

Charge de Fred Ozanan (Instagram)

Pedro do Coutto

O episódio envolvendo o Banco Master, a Operação Compliance Zero da Polícia Federal e o contrato milionário com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes — esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — tornou-se um dos casos mais delicados do Brasil em 2025, não apenas por seus elementos jurídicos e econômicos, mas pelo impacto que exerce sobre a percepção pública das instituições democráticas.

A operação policial, que apura supostas fraudes bilionárias na emissão de créditos e vendas de ativos sem lastro, derrubou parte do véu de normalidade que por vezes envolve o sistema financeiro e suas relações com o mundo jurídico e político. Entre os documentos apreendidos pela PF no celular do controlador do banco, Daniel Vorcaro, havia um contrato de prestação de serviços jurídicos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, no qual Viviane Barci de Moraes e dois filhos do casal atuam como sócios.

REMUNERAÇÃO – O contrato, assinado em janeiro de 2024, previa uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões pelo período de 36 meses, podendo totalizar R$ 129 milhões caso não tivesse sido interrompido pela liquidação extrajudicial da instituição financeira. Mensagens internas obtidas pelos investigadores apontam que os pagamentos eram tratados como prioridade absoluta dentro do banco, mesmo em meio à crise de liquidez que se avolumava.

Esse elemento — a magnitude dos valores e a posição institucional de uma das partes — foi destacado na coluna de Elio Gaspari na Folha de S.Paulo quando chamou a atenção para o fato de que, mesmo sem qualquer acusação formal de irregularidade contra o escritório ou sua sócia, o contrato revela zonas de tensão entre interesses privados e a confiança pública nas instituições de controle e no Judiciário. A crítica não se apoia necessariamente na imputação de crime, mas na sensibilidade institucional e na dissociação entre legitimidade legal e legitimidade percebida pela sociedade.

CHOQUE SIMBÓLICO –  Gaspari ressalta o choque simbólico que emerge quando figuras próximas a operadores do sistema jurídico aparecem associadas a contratos vultosos com agentes sob investigação. Esse choque não se confunde com prova de irregularidade, mas é um reflexo da fragilidade da confiança pública quando essas relações não são clarificadas de modo íntegro e transparente, sobretudo em um ambiente já marcado por descrédito e polarização.

Especialistas em governança corporativa e ética pública têm apontado que contratos desse tipo, ainda que legais, precisam ser avaliados sob o prisma não apenas jurídico, mas também da percepção de conflito de interesse — especialmente quando envolvem figuras ligadas ao mais alto escalão do Judiciário, mesmo que de forma indireta. A preocupação não é, necessariamente, que algo de ilícito tenha ocorrido, mas que a mera aparência de confluências entre poder econômico e proximidade institucional possa corroer a confiança dos cidadãos nas regras e mecanismos de fiscalização que deveriam ser imparciais e robustos.

IMPLICAÇÕES – O caso também transitou para o campo político, com parlamentares da oposição pedindo que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analise o contrato em sua amplitude, incluindo possíveis implicações de atuação junto a órgãos como o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso Nacional, como consta no escopo do acordo. Esse movimento evidencia que, mesmo sem condenações, o episódio é politicamente sensível e suscita debates sobre transparência e limites éticos em relações jurídicas de grande vulto.

Enquanto o Banco Master segue em liquidação e suas irregularidades financeiras são investigadas sob rigor técnico e jurídico, o episódio do contrato com o escritório da mulher de um ministro do STF se instala no debate público como um caso emblemático. Ele exige que o Brasil reflita não apenas sobre aspectos legais, mas sobre percepções de integridade e os mecanismos pelos quais instituições públicas protegem sua credibilidade, até porque, em democracias saudáveis, a confiança pública é tão essencial quanto a legalidade dos atos.

No fim de ano, o isolamento bolsonarista e as zonas de sombra institucionais

Haddad, Lula e o intrincado xadrez político rumo à eleição de 2026

Haddad confirma que pode deixar a Fazenda

Pedro do Coutto

A entrevista recente concedida pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acendeu um novo capítulo no já movimentado tabuleiro político brasileiro. Com tom sereno, mas carregado de sinais, Haddad admitiu que pode deixar o comando da Economia para atuar diretamente na campanha de reeleição do presidente Lula da Silva em 2026. A fala, embora envolta em cautela, deixou no ar a sensação de que a decisão está mais encaminhada do que o ministro quis admitir explicitamente.

Segundo relatou, essa foi a primeira vez em que conversou abertamente com Lula sobre a possibilidade de sair da pasta para colaborar com o projeto eleitoral. O presidente, em resposta, adotou uma postura compreensiva e amistosa, afirmando que respeitará qualquer escolha de Haddad. Não houve menção a datas, tampouco a uma decisão formal, mas ficou evidente que o ministro deseja participar diretamente da elaboração do programa de governo e da estruturação da campanha — não como candidato, e sim como colaborador estratégico.

ESPECULAÇÕES – A sinalização da possível saída de Haddad naturalmente abre espaço para especulações dentro do governo sobre quem poderia assumir o Ministério da Fazenda. Ainda que o ministro não tenha citado nomes, o ambiente político observa atentamente os movimentos internos, já antecipando mudanças que podem remodelar a equipe econômica.

Durante a entrevista, Haddad também abordou temas que têm exigido atenção constante do governo, entre eles a situação delicada dos Correios. Ele reconheceu que a estatal vive um momento que “inspira cuidados”, diante de um rombo financeiro expressivo e de uma necessidade urgente de reinvenção. Para o ministro, será indispensável que a empresa busque novos modelos de negócio e parcerias, alinhando-se a tendências internacionais para sobreviver em um mercado em transformação.

Outro ponto que ganhou destaque foi sua avaliação sobre o relacionamento com o Congresso. Haddad admitiu que, em alguns momentos, o Legislativo acabou engessando a execução orçamentária, dificultando a capacidade do governo de remanejar recursos e avançar com as políticas planejadas. Em um ambiente onde o debate eleitoral já se insinua nos bastidores, essas tensões tendem a se intensificar, pressionando tanto o Executivo quanto os parlamentares.

POLÍTICA MONETÁRIA – No pano de fundo, paira também o debate sobre a condução da política monetária. Embora Lula tenha sido um crítico ferrenho dos juros elevados durante a gestão anterior do Banco Central, permanece o silêncio presidencial diante do patamar atual — mais alto do que aquele que criticava. A leitura política é complexa e envolve desde a autonomia do Banco Central até os efeitos da política econômica sobre o humor dos mercados e da opinião pública.

O cenário institucional brasileiro, já congestionado por disputas entre poderes, ganhou novos contornos com a controvérsia envolvendo o mandato da deputada Carla Zambelli. A decisão do ministro Alexandre de Moraes de anular a manutenção do mandato pela Câmara, diante de uma condenação que deveria, segundo interpretação constitucional, acarretar sua cassação, aprofundou as tensões entre Judiciário e Legislativo. O episódio reforça a sensação de que 2026 não será apenas mais uma eleição, mas um marco decisivo sobre o equilíbrio de poderes no país.

Alguns movimentos partidários também começam a redesenhar as projeções eleitorais. A articulação que busca lançar Ratinho Junior e Romeu Zema como alternativa ao Planalto reorganiza peças no campo da centro-direita e pressiona candidaturas já declaradas. Essa reestruturação amplia a complexidade do tabuleiro político e evidencia que a disputa presidencial já está em curso, mesmo que oficialmente ainda distante.

IMPACTOS – Nesse contexto, a posição de Haddad se torna ainda mais estratégica. Sua eventual saída não representaria apenas uma mudança administrativa: teria impactos na economia, na articulação política e na própria campanha de Lula. Por outro lado, sua permanência poderia garantir estabilidade à condução da política fiscal em um momento de volatilidade política e incertezas institucionais.

O que a entrevista deixa claro é que o Brasil já respira o clima pré-eleitoral. Entre ajustes econômicos, tensões políticas e rearranjos partidários, o país se prepara para uma disputa que promete ser uma das mais complexas e imprevisíveis desde a redemocratização. E Haddad, seja como ministro ou como articulador de campanha, permanecerá no centro dessa travessia.

A crise institucional gerada por Motta e o ataque à Imprensa no Parlamento

A sessão da Câmara que envergonhou a democracia e a suspensão de Glauber Braga

O cálculo silencioso da direita e a hesitação de Tarcísio de Freitas

Tarcísio volta a acenar com a possibilidade de ser alternativa

Pedro do Coutto

A declaração de Tarcísio de Freitas em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência parece, à primeira vista, um gesto de solidariedade dentro do campo conservador. Mas basta escutar com atenção para perceber que ela carrega muito mais subtexto do que entusiasmo. Ao afirmar que Flávio é um nome possível, mas não o único, Tarcísio abriu espaço para si mesmo num jogo que, oficialmente, ele havia abandonado.

Depois de repetir que não disputaria o Planalto, o governador paulista volta agora a acenar — ainda que de forma oblíqua — com a possibilidade de ser alternativa. É um movimento calculado, típico de quem sabe que política se faz tanto com silêncios quanto com frases soltas ao vento.

DILEMA – A hesitação de Tarcísio tem lógica. O PL enfrenta um dilema estratégico: lançar um nome competitivo o bastante para chegar ao segundo turno ou arriscar-se a repetir o isolamento que marcou parte da direita após a condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo. Flávio até tenta vestir o figurino de “Bolsonaro viável”, mas seu lançamento precoce, seguido de gestos contraditórios — como a admissão de que poderia desistir mediante “um preço” e, depois, a afirmação de que sua candidatura é “irreversível” — não empolgou o bolsonarismo raiz, nem seduziu o centrão.

É justamente nesse vácuo que Tarcísio se coloca como o plano B natural: alguém capaz de dialogar com o mercado, manter interlocução institucional e oferecer uma imagem mais moderada ao eleitor urbano. Mas ele sabe que entrar na disputa só faz sentido se houver consenso mínimo dentro da direita — algo que hoje simplesmente não existe. O PL está dividido entre lealdade e pragmatismo, o Republicanos prefere preservar o capital político de Tarcísio para 2030, e os partidos do entorno conservador não querem repetir a dispersão que já ampliou o espaço de Lula em disputas anteriores.

DESALINHADOS – A consequência desse impasse é direta: cada hesitação, cada gesto contraditório, cada sinal desalinhado no campo conservador torna o caminho mais simples para Lula. O presidente, que já conta com a força da máquina e um eleitorado consolidado, observa a fragmentação adversária com a tranquilidade de quem sabe que o segundo turno só existe quando há adversário à altura. Se a direita não definir logo seu projeto — e sobretudo seu candidato — continuará ajudando, involuntariamente, a consolidar o cenário que pretende evitar.

A suposta unidade em torno de Flávio Bolsonaro, sustentada por declarações protocolares como a de Tarcísio, pode não resistir ao tempo. No fim das contas, o que se desenha para 2026 é menos uma estratégia e mais um experimento de risco: colocar o nome de um herdeiro impopular à frente de um projeto que depende de alianças frágeis, apoios voláteis e um eleitorado que já demonstra clara fadiga com instabilidades. Se o “plano B” hesitar — ou se o centrão recuar — a direita pode, antes mesmo da campanha começar, entregar ao adversário a vantagem que prometia combater.

“Basta de feminicídio!” — este é o grito que o país não pode ignorar

Protestos contra feminicídio reúniram milhares de manifestantes

Pedro do Coutto

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas no último domingo para dizer, em voz alta e conjunta, aquilo que muitos relatórios frios e números procuram esconder: as mulheres do Brasil vivem sob uma ameaça que mata.

Em São Paulo, a Avenida Paulista reuniu milhares que caminharam com cartazes, flores e histórias — no Rio de Janeiro, pontos como Copacabana viraram ponto de encontro de quem exige medidas reais, não apenas notas oficiais. As imagens e o clamor nas ruas lembram que o problema não é episódico; é estrutural e cotidiano.

GRAVIDADE – Os números confirmam a gravidade que as vozes nas manifestações denunciam. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 o país registrou um número recorde de mulheres assassinadas por serem mulheres — cerca de 1.492 casos — e, em 2023, já haviam sido contabilizadas 1.463 vítimas. Essas cifras não são meras estatísticas: representam vidas interrompidas, famílias destroçadas e comunidades marcadas por medo.

Há padrões dolorosos por trás desses dados. A maioria esmagadora das vítimas conhece o agressor: em cerca de 8 em cada 10 casos o autor é companheiro ou ex-companheiro. A residência, que deveria ser o espaço de proteção, é o local onde muitas mulheres são mortas — quase dois terços dos casos ocorreram dentro de casa.  A cor da pele também é um indicador brutal da desigualdade: a maioria das vítimas é negra. Esses recortes deixam claro que o feminicídio se entrelaça com desigualdade social, racismo e falhas das redes de proteção.

Dizer que “o Brasil mata mulheres” é chocante — e, por isso, necessário. As explicações não se reduzem a um único fator. Há uma confluência de elementos: uma cultura de normalização da agressão contra a mulher, sistemas de proteção pública muitas vezes ineficientes, ausência de políticas públicas contínuas e investimentos insuficientes em prevenção e atendimento, além de falhas no registro e na resposta imediata quando a mulher denuncia. Quando a denúncia não é seguida por proteção, criam-se condições para que a violência escale.

INDIGNAÇÃO – As ruas mostram algo que os gráficos também apontam: indignação e vontade de mudança. Mas o protesto não é substituto de política pública. Para transformar o grito das manifestações em políticas permanentes são necessárias ações concretas e integradas: formação de profissionais de segurança e saúde para atendimento com perspectiva de gênero; ampliação e qualificação das casas de acolhimento; investimentos em programas de prevenção nas escolas e comunidades; mecanismos ágeis para afastamento do agressor e monitoramento eletrônico quando cabível; e políticas que enfrentem o racismo e a vulnerabilidade econômica que aumentam o risco para tantas mulheres.

Também é preciso melhorar o registro e a coleta de dados: só com informações precisas será possível direcionar recursos e avaliar resultados. A própria evolução dos registros durante a última década mostra que, em parte, o aumento observado também se deve a melhores práticas de notificação — mas nem por isso o número deixa de ser uma tragédia. Entre 2015, quando a Lei do Feminicídio foi sancionada, e os anos mais recentes, contabilizam-se dezenas de milhares de vítimas; cada número carrega uma história que exige memória e justiça.

LONGO PRAZO – No campo da cultura e da educação, a transformação é de longo prazo, mas imprescindível. Campanhas públicas eficazes, educação nas escolas sobre respeito e igualdade, formação de masculinidades não violentas e responsabilização judicial são peças de um quebra-cabeça que, montado, pode reduzir a banalização da violência. Paralelamente, a imprensa, os espaços artísticos e as redes sociais têm papel central em manter a pauta viva e em dar voz às vítimas sem revitimização.

As manifestações recentes — de São Paulo ao Rio, de capitais a pequenas cidades — têm um papel simbólico e prático: mostram que a sociedade não aceita mais a normalização do assassinato de mulheres. Mas essa energia precisa encontrar concretude: projetos de lei que priorizem prevenção e proteção, orçamentos que garantam atendimento e abrigo, sistemas de justiça que agilizem medidas protetivas e uma política pública intersetorial que transforme a raiva em resultado eficaz. A urgência é evidente; a resposta não pode mais ser fragmentada.

Ao final, o que as ruas pedem é simples e humano: que as mulheres vivam. Não como estatística, mas como pessoas com sonhos, trabalho, afeto. É responsabilidade do Estado, da sociedade e de cada um de nós transformar o grito em medidas que salvem vidas — hoje, amanhã e sempre. Se queremos um país que se orgulhe de suas cidades, não podemos aceitar que parte delas continue marcada por medo; é preciso agir, já.

O risco de o país legitimar a aliança entre Estado, dinheiro e crime organizado

Dono da Refit, vive em Miami e influencia diferentes órgãos

Pedro do Coutto

As recentes revelações sobre o Grupo Refit — e, em particular, sobre seu proprietário, Ricardo Magro — expõem de modo estarrecedor como o entrelaçamento entre poder econômico, corrupção e possível envolvimento com redes criminosas ameaça corroer a integridade das instituições e o interesse público. Não é apenas mais um escândalo: é um alerta sobre os perigos de um capitalismo de laços em que o trânsito entre negócios, política e ilegalidade se torna quase invisível — até explodir em prejuízo da sociedade inteira.

A “Operação Poço de Lobato”, deflagrada em 27 de novembro de 2025, tornou público o que há muito vinha sendo investigado: o Grupo Refit seria responsável por um gigantesco esquema de sonegação fiscal, fraude tributária e lavagem de dinheiro. O conglomerado é apontado como o maior devedor de ICMS do estado de São Paulo, com débitos que, somados aos passivos de outros estados, ultrapassam a marca de R$ 26 bilhões.

REDE DE EMPRESAS – As autoridades identificaram uma extensa rede de empresas — algumas em outros países — usadas como veículos para ocultar patrimônio, disfarçar lucros ilícitos e blindar bens. Apenas entre 2024 e 2025, segundo a investigação, o grupo movimentou cifras impressionantes: empresas próprias, fintechs, fundos de investimento e offshores foram parte de uma estrutura projetada para driblar a fiscalização e manter níveis de riqueza e poder incompatíveis com a atividade declarada de uma refinaria.

Mas a gravidade do caso não está apenas na fraude tributária. Ricardo Magro não construiu sua fortuna apenas com operações empresariais. Ele tem histórico de articulação política: chegou a ser advogado do ex-deputado federal Eduardo Cunha, figura que carrega um pesado histórico de desvios e corrupção. Essa proximidade indica que o patrimônio e a influência do empresário sempre estiveram inseridos no tabuleiro da política nacional — o que torna mais grave sua ascensão financeira e a eventual reprodução de mecanismos de poder indevido.

Quando um empresário com débitos bilionários, suspeita de lavagem de dinheiro e redes de offshores mantém ligações com figuras influentes e conta com blindagem institucional, abre-se um precedente perigosíssimo: legitima-se a infiltração do dinheiro sujo nas estruturas do Estado, transformando a democracia em fachada para interesses privados e ilícitos.

SONEGAÇÃO – E o cenário se agrava ainda mais quando há suspeitas — já ventiladas em investigações recentes — de que a Refit não só sonegava impostos, mas poderia estar envolvida com o abastecimento de esquemas ligados ao crime organizado, especialmente após o desmonte da cadeia anterior de distribuição de combustíveis apontada em outra operação.

Se confirmada essa conexão, trata-se de algo ainda mais grave: não apenas um crime econômico, mas uma ponte concreta entre o poder econômico formal, o coração do Estado e redes criminosas, com potencial para corroer o tecido institucional e degradar a governança.

É como se um mesmo personagem — o empresário — transitasse simultaneamente por três mundos: o dos negócios, o da política e o do crime. E cada um desses mundos, sozinho, já demanda vigilância intensa; juntos, formam uma bomba combinada para a democracia brasileira.

BENEFICIADOS – Em nome de quem, afinal, foi construída essa fortuna? Quem se beneficiou com a cumplicidade política e com a blindagem institucional? Quantos cofres públicos foram saqueados — enquanto se mantinha a aparência de legalidade? E, acima de tudo: quantos direitos sociais deixaram de ser garantidos, que poderiam ser assegurados com o dinheiro furtado à sociedade?

Cobrar a resposta dessas perguntas não é mero ativismo: é um ato de cidadania. Permitir que continuem sem resposta é abrir caminho para o avanço da impunidade. A justiça e a democracia não podem conviver com privilégios construídos em cigarros apagados, empresas-fantasma e lavagem de dinheiro.

A operação contra a Refit não é apenas mais uma investigação: é um teste para a capacidade do Estado de proteger o interesse público, de garantir transparência e impedir que o crime — financeiro ou organizado — transforme o Brasil num terreno fértil para a corrupção institucionalizada.

O nó político de 2026 e a reconfiguração abrupta do tabuleiro

Estagnação é o alerta no convés da economia, embutido no PIB de apenas 0,1%

Dados foram divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE

Pedro do Coutto

O crescimento de apenas 0,1% do PIB brasileiro no terceiro trimestre de 2025, conforme revelado pelos dados recentes do IBGE, expõe de maneira clara e preocupante a perda de fôlego da economia nacional.

Embora tecnicamente positivo, esse número é tão baixo que se confunde com estagnação — e, na prática, funciona mais como um alerta do que como um indicador de avanço. O dado revela uma economia que se move, mas sem força, sem ritmo e sem capacidade real de induzir melhorias perceptíveis no bem-estar da população.

DESEMPENHO – Quando se observa os componentes desse resultado, a fotografia fica ainda mais nítida. O setor de serviços — que representa mais de 70% da atividade econômica brasileira — cresceu o mesmo que o PIB: 0,1%, ou seja, praticamente nada. É um desempenho muito distante do que se esperava de um segmento que vinha sendo o motor da recuperação pós-pandemia.

A indústria, com alta de 0,8%, e a agropecuária, com 0,4%, ofereceram algum alívio, mas não foram suficientes para puxar o conjunto para cima. A economia parece ter perdido tração justamente onde é mais vital — naquilo que movimenta o dia a dia das pessoas, das empresas e do comércio.

DEMANDA – O ponto mais preocupante desse cenário, porém, não está na produção, mas na demanda. O consumo das famílias cresceu apenas 0,1%, o menor ritmo em um ano. A retração do consumo tem efeitos diretos e imediatos sobre o PIB: famílias que compram menos pressionam toda a cadeia produtiva, dos serviços ao varejo, da indústria aos pequenos negócios.

É um ciclo que se retroalimenta. Com juros ainda elevados, crédito caro, renda comprimida e inflação que, mesmo moderada, corrói silenciosamente o poder de compra, o brasileiro comum se vê forçado a reduzir gastos, adiar compras e priorizar o básico.

E quando o consumo perde força, a economia como um todo perde direção. No Brasil, onde o mercado interno historicamente sustenta grande parte do crescimento, essa desaceleração indica que o país está avançando sem energia e sem sustentação. Não há dinamismo, não há impulso, não há perspectiva de aceleração espontânea. Mesmo o leve aumento dos investimentos — a Formação Bruta de Capital Fixo subiu 0,9% — não se traduz em otimismo suficiente para mudar o cenário no curto prazo.

CRESCIMENTO – O quadro geral, portanto, é de uma economia que cresce apenas no papel — e muito pouco — enquanto, na prática, permanece estacionada. O Brasil não está em recessão, mas também não está avançando o suficiente para sair do lugar. O risco de um longo período de “crescimento baixo crônico” se torna mais concreto a cada trimestre em que os números repetem essa mesma lógica: expansão mínima, consumo fraco, serviços enguiçados e investimentos tímidos.

O crescimento de 0,1% deve ser lido como um aviso. Ele mostra que o país está em marcha lenta e que, se não houver uma inflexão clara — com estímulos à produtividade, reforço da renda, redução sustentável dos juros, incentivo ao consumo e avanços estruturais — continuaremos presos ao mesmo ciclo de mediocridade econômica.

O Brasil tem condições para crescer mais — mas não crescerá por inércia. O dado de 0,1% é um pedido silencioso de mudança. É a economia dizendo que, do jeito que está, não basta. É um lembrete de que estagnação também traz custos — sociais, políticos e humanos — e de que é preciso agir antes que esse ritmo anêmico se torne a nova normalidade.

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O triunfo que tomou as ruas do Rio, com a cidade rendida ao vermelho e preto

Vitória ficará inscrita na memória coletiva

Pedro do Coutto

O Rio de Janeiro viveu, na noite de sábado, uma daquelas jornadas que marcam uma geração inteira. A vitória monumental do Flamengo, que garantiu ao clube o tetracampeonato da Taça Libertadores da América, ultrapassou o território do esporte e se transformou em um fenômeno cultural, social e emocional. Não foi1 apenas um título. Foi um reencontro de um país com a sua paixão coletiva mais vibrante.

Desde a noite da final, quando o time dominou a partida de forma madura e segura — como destacaram análises de veículos como Globo Esporte, ESPN e Uol Esporte, apontando a superioridade técnica e a consistência tática do Flamengo — a sensação de que algo extraordinário estava acontecendo era evidente. A vitória começou no campo, mas se completou no coração dos torcedores. E isso ficou claro nas ruas.

MULTIDÃO – No domingo, um mar de gente tomou caminhos, avenidas e passarelas rumo ao Aeroporto Tom Jobim. Famílias inteiras deixaram suas casas nas primeiras horas do dia. Jovens com bandeiras amarradas ao corpo. Idosos que já testemunharam títulos antigos, mas que queriam ver de perto a nova geração de campeões.

A cena, registrada amplamente por jornalistas e transmissões ao vivo, lembrava outros momentos históricos da relação entre o Flamengo e o Rio — daqueles em que a cidade parece renunciar ao seu ritmo habitual para se entregar à celebração de um símbolo afetivo comum.

Era mais do que recepcionar um time. Era agradecer. Retribuir. Confirmar, com cada canto e cada lágrima, o que a torcida costuma repetir com orgulho: o Flamengo não é apenas um clube; é uma nação. E essa nação, espalhada de norte a sul, de leste a oeste, fez mais uma vez o Brasil parar. A força que parte das arquibancadas, das ruas e dos lares — aquilo que cronistas esportivos e sociólogos, como já mencionou Ronaldo Helal, chamam de “a mística rubro-negra” — se materializou de forma exuberante.

SENTIMENTO COLETIVO – Confundem-se, nesse tipo de vitória, o desempenho esportivo e o sentimento coletivo. O Flamengo entra em campo com onze jogadores, mas, na prática, carrega um país inteiro nas costas. A torcida exerce esse papel de 12º jogador com naturalidade: é ela que amplifica o entusiasmo, empurra, vibra e transforma o futebol em experiência emocional compartilhada. Na chegada dos campeões, a sensação era a de que ninguém ali era mero espectador. Todos se sentiam parte da conquista.

A cidade amanheceu rubro-negra. As ruas ainda exalam resquícios da celebração — buzinas isoladas, bandeiras penduradas em janelas, crianças imitando seus ídolos nos campos de terra, adultos revivendo lances da final como se os narrassem de dentro do estádio. E as comemorações não devem cessar tão cedo. O título, pelo peso histórico e pela intensidade afetiva que desperta, continuará ecoando ao longo do dia, da semana, talvez do ano.

Vitórias esportivas costumam ser efêmeras. Mas algumas, como esta, ultrapassam o tempo. A do Flamengo na Libertadores de 2025 — marcada pela mobilização monumental, pela comunhão nas ruas e pela reafirmação de identidade — é dessas que se inscrevem na memória coletiva. Uma vitória que, para milhões, não terminou no apito final. Ela apenas começou ali.

Lula, Alcolumbre e a batalha silenciosa pela indicação de Messias ao STF

O cerco se fecha: o Brasil diante de um retrocesso ambiental sem precedentes

Charge do Lila (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

A derrubada dos vetos ao novo marco do licenciamento ambiental abriu uma ferida profunda na já fragilizada política ambiental brasileira. Ao permitir que empresas potencialmente envolvidas em desmatamento e outras formas de degradação possam se autodeclarar em conformidade com normas ambientais, o país inaugura um capítulo de retrocesso que especialistas, organizações civis e instituições independentes classificam como o mais grave em quatro décadas.

O mecanismo da autodeclaração — vendido como modernização e desburocratização — funciona, na prática, como um atalho perigoso: ele elimina análises técnicas, enfraquece a fiscalização e desloca a responsabilidade do Estado para o próprio empreendedor, como se interesses econômicos e proteção ambiental fossem forças espontaneamente conciliáveis.

ABUSOS – Para completar, a descentralização das autorizações cria um mosaico normativo vulnerável à pressão de elites econômicas regionais, enfraquecendo a uniformidade das salvaguardas que antes eram estabelecidas pela esfera federal. O resultado é um terreno fértil para abusos, conflitos fundiários e danos irreversíveis a biomas sensíveis.

Com as garantias reduzidas, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais tornam-se ainda mais expostos. Territórios sem titulação definitiva — que já enfrentam histórico de invasões e grilagem — agora perdem etapas essenciais de consulta e proteção.

Em paralelo, relatos de articulação intensa de setores econômicos interessados na flexibilização, e a velocidade com que o Congresso derrubou os vetos, alimentam suspeitas de conivência, tráfico de influência e captura institucional. A sensação generalizada é de que se fecha um cerco não sobre empresas que degradam, mas sobre o próprio sistema de fiscalização, que vai sendo desmontado peça por peça.

MANOBRAS – O escândalo, como muitos ambientalistas apontam, não tem fim — não porque faltem denúncias, mas porque cada semana revela novas brechas, manobras políticas e avanços sobre áreas antes protegidas. O país assiste, praticamente sem freios, à possibilidade de expansão de obras, desmatamentos, mineração e empreendimentos de alto impacto sem a devida avaliação de risco.

O Brasil, que deveria ser protagonista da preservação ambiental global e exemplo de governança sustentável, arrisca desperdiçar capital diplomático, comprometer acordos internacionais e perder credibilidade justamente às vésperas de debates globais decisivos sobre clima e biodiversidade.

Nesse cenário, fica cada vez mais evidente que não se trata apenas de um embate técnico ou legal: trata-se de uma disputa moral, institucional e civilizatória. Entre a proteção do patrimônio natural e o avanço de interesses privados; entre a ciência e o improviso; entre o futuro e o lucro imediato. O país ainda tem caminhos de resistência — via sociedade civil, organismos independentes, pesquisadores e eventual reação do Judiciário —, mas a cada dia, com a nova regra em vigor, cresce o risco de danos irreversíveis. A história cobrará essa conta, e o Brasil precisará decidir, o quanto antes, de que lado quer estar.

Entre o capricho e a responsabilidade, a ausência que não se justifica

Motta e Alcolumbre faltam ao evento de sanção do IR no Planalto

Pedro do Coutto

Há gestos na política que ultrapassam o campo do protocolo e se instalam no terreno simbólico, onde verdadeiramente se mede a maturidade institucional de um país. A decisão de Hugo Motta e Davi Alcolumbre de não comparecerem ao ato em que o presidente Lula da Silva oficializou o reajuste da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil por mês pertence exatamente a esse campo: é um gesto pequeno, mas que produz sombras longas.

A medida anunciada por Lula — tecnicamente relevante, socialmente sensível e politicamente expressiva — deveria ter sido o tipo de ato público capaz de unir as principais lideranças do país em torno de um objetivo comum: aliviar a carga tributária de milhões de brasileiros, reorganizar critérios de justiça fiscal e sinalizar responsabilidade econômica.

COMPROMISSOS DE ESTADO – Em democracias consolidadas, movimentos desse porte são tratados como compromissos de Estado, não como eventos facultativos submetidos ao humor de parlamentares. Mas, ao faltar deliberadamente, Motta e Alcolumbre transformaram um ato de governo em palco para ressentimentos pessoais.

Um comportamento juvenil que fere a liturgia dos cargos que ambos ocupam. Não se trata aqui de alinhamento com o Executivo, mas de respeito à institucionalidade, ao cargo que representam e à maturidade política que se espera de dirigentes do Legislativo.

A justificativa implícita — o inconformismo com a não indicação de Rodrigo Pacheco ao Supremo Tribunal Federal — expõe algo ainda mais grave: uma leitura patrimonialista das instituições. O STF não é extensão dos desejos do Congresso, do Planalto ou de qualquer grupo específico. É uma Corte de Estado, e suas cadeiras não podem ser tratadas como moeda de troca, prêmio de consolação ou compensação por acordos não atendidos.

BOICOTE – Não existe, em nenhum manual republicano, base moral para um boicote dessa natureza. A escolha de ministros do Supremo é prerrogativa constitucional do presidente da República, que deve exercê-la de acordo com critérios técnicos, políticos e institucionais — e não como pagamento de promessas informais a chefes de Poder. Se Lula julgou que Pacheco não era o nome adequado, cabe aos demais atores respeitar essa decisão. Divergir, sim. Retaliar com ausência calculada, não.

Esse tipo de comportamento corrói algo profundo: o pacto tácito de responsabilidade entre os Poderes. Quando figuras centrais do Legislativo se permitem atitudes performáticas para sinalizar descontentamentos internos, enviam ao país a mensagem de que as prioridades nacionais podem ser atropeladas por disputas de bastidores. É a política convertida em teatro de vaidades.

SOLAVANCOS – Mais do que um episódio isolado, esse gesto ajuda a explicar por que o Brasil tantas vezes avança aos solavancos: porque ainda convivemos com lideranças que se esquecem de que cargos públicos exigem grandeza — não apenas habilidade de articulação. O país não pode ser refém da frustração de parlamentares que tratam a institucionalidade como extensão de seus desejos individuais.

Num momento em que o Brasil precisa de estabilidade, cooperação e foco nas agendas estruturais, atitudes assim não apenas surpreendem: envergonham. É preciso lembrar, todos os dias, que a política não é sobre quem foi lembrado ou preterido para um cargo; é sobre como as lideranças servem ao país — e não a si mesmas.