O sigilo que provocou toda a crise do Supremo enfim está sendo quebrado

O STF diante do espelho: a crise que já não pode ser administrada nos bastidores

A queda e a volta do delegado Andrei Rodrigues revelam uma crise muito maior

Lula perde a folga, Flávio cresce e eleição de 2026 entra em território de alto risco

Juros altos: a conta inexorável que chega para os cidadãos, as empresas e o governo

Corrupção e democracia ganham maior destaque na decisão dos eleitores em 2026

Charge do Duke (Instagram)

Pedro do Coutto

A eleição presidencial de 2026 começa a revelar, para além da disputa entre nomes e partidos, quais serão os critérios capazes de definir o voto de uma parcela decisiva do eleitorado. Pesquisa Quaest divulgada neste domingo (6) mostra que a ausência de envolvimento em casos de corrupção e o compromisso com a defesa da democracia estão entre os fatores de maior peso na escolha do próximo presidente da República. ,

O resultado ajuda a explicar por que a campanha que se aproxima tende a ser travada não apenas no terreno tradicional da economia, da segurança pública e dos programas sociais, mas também em torno de uma questão mais profunda: em quem o eleitor acredita ser possível confiar para exercer o poder.

LUGAR CENTRAL – A corrupção volta, assim, a ocupar um lugar central no imaginário político brasileiro. Não se trata de uma novidade absoluta. Poucos temas foram tão decisivos nas últimas décadas para destruir reputações, impulsionar candidaturas e reorganizar forças políticas. A diferença é que, depois de anos de polarização extrema, o tema reaparece num ambiente em que praticamente todos os grandes campos políticos carregam desgastes, contradições ou questionamentos.

Isso torna a exigência do eleitor potencialmente mais ampla: não basta denunciar a corrupção do adversário; será preciso convencer que se está disposto a submeter o próprio grupo aos mesmos critérios de investigação, transparência e responsabilização.

É nesse ponto que a pesquisa contém uma advertência importante para a política brasileira. O combate à corrupção pode ser uma bandeira democrática, mas também pode ser transformado em instrumento de manipulação. A experiência recente do país mostrou como denúncias legítimas podem coexistir com espetacularização, seletividade e exploração eleitoral da indignação pública. Para o eleitor de 2026, portanto, a diferença poderá estar menos no político que simplesmente grita mais alto contra a corrupção e mais naquele que apresenta coerência entre discurso e comportamento.

SEQUÊNCIA DE CRISES – A defesa da democracia, outro fator que aparece com grande peso, acrescenta uma dimensão ainda mais significativa à eleição. O Brasil chega a 2026 depois de uma sequência de crises institucionais que colocou no centro do debate a relação entre eleições, respeito ao resultado das urnas, funcionamento das instituições e limites da ação política. Não por acaso, pesquisas anteriores já vinham identificando o crescimento da preocupação com ameaças à democracia como critério de avaliação e rejeição de lideranças políticas.

Esse dado é particularmente relevante porque desmonta uma leitura simplista segundo a qual a democracia seria uma preocupação restrita a especialistas, instituições ou setores politicamente engajados. Quando a preservação democrática entra na conta do eleitor, ela passa a ser uma questão eleitoral concreta. O candidato não será avaliado apenas pelo que promete fazer com o poder, mas também pela forma como demonstra que pretende exercê-lo e, sobretudo, pelos limites que aceita respeitar quando contrariado.

Há, naturalmente, uma contradição que desafia os candidatos. A polarização produz um eleitorado disposto a defender valores democráticos, mas também alimenta a tentação de relativizar esses mesmos valores quando a ameaça vem do próprio campo político. A democracia, porém, não se prova apenas quando protege aliados. Ela se prova justamente na disposição de aceitar regras, instituições e direitos mesmo quando beneficiam adversários. Esse será um dos testes mais difíceis para os discursos de 2026.

DISPUTA ACIRRADA – O cenário eleitoral recente torna essa discussão ainda mais relevante. A disputa pela Presidência permanece acirrada, com diferentes levantamentos indicando forte polarização e, em alguns cenários, margens muito estreitas entre os principais concorrentes. A própria Quaest divulgada nos últimos dias mostrou uma corrida competitiva, com grande contingente de eleitores ainda sujeito à influência dos acontecimentos e do desempenho das campanhas.

É justamente nesse espaço que corrupção e democracia podem ganhar importância decisiva. Em eleições altamente polarizadas, os candidatos normalmente preservam núcleos fiéis de apoio, mas precisam disputar o eleitor menos ideológico, aquele que não se identifica integralmente com nenhum dos polos e que tende a fazer uma avaliação mais pragmática e moral dos concorrentes. Para esse segmento, uma nova denúncia, uma investigação mal explicada, uma contradição ou um comportamento considerado autoritário pode custar votos suficientes para alterar o resultado.

A pesquisa também deve ser lida como um recado às campanhas que apostam exclusivamente na guerra cultural e na mobilização das paixões políticas. O eleitor pode continuar preocupado com emprego, inflação, saúde, segurança e renda — temas que não desaparecem de uma eleição presidencial —, mas está sinalizando que deseja respostas para outra questão: quem merece receber poder sem representar um risco para o patrimônio público e para as regras do jogo democrático?

DESCONFIANÇA – Não existe resposta fácil. A desconfiança nas instituições e nos políticos não será resolvida por slogans sobre honestidade nem por declarações genéricas em defesa da democracia. O combate à corrupção exige mecanismos concretos de transparência, prevenção e investigação. A defesa democrática exige respeito efetivo à Constituição, às eleições, à liberdade de expressão, ao devido processo legal e à separação dos Poderes. Organizações dedicadas ao acompanhamento da corrupção, como a Transparência Internacional – Brasil, têm insistido justamente na importância de transformar compromissos genéricos em medidas verificáveis e políticas públicas concretas.

A eleição de 2026, portanto, poderá ser decidida também por uma disputa de credibilidade. O eleitor parece menos disposto a conceder um cheque em branco e mais interessado em saber o que cada candidato representa quando a propaganda termina e o poder começa. Corrupção e democracia não são temas abstratos: a primeira trata do uso privado de recursos e estruturas que deveriam servir ao interesse público; a segunda estabelece os limites para que ninguém se considere acima das regras.

Quem compreender essa mudança terá uma vantagem importante na campanha. Quem imaginar que bastará acusar o adversário de corrupto ou inimigo da democracia, sem responder às próprias contradições, poderá descobrir tarde demais que o eleitor está cobrando algo mais difícil: coerência. E, numa eleição em que a confiança se torna um dos principais ativos políticos, talvez seja justamente ela, muito mais do que uma promessa de campanha, que venha a decidir quem terá a chave do Palácio do Planalto.

Fachin assume o centro da crise e tenta impedir que o Supremo se divida

A guerra entre ministros que chegou ao Supremo e está desmoralizando a instituição

Responsabilidade de administrar a crise recai sobre Fachin

Pedro do Coutto

A crise no Supremo Tribunal Federal acaba de ultrapassar uma fronteira que, até pouco tempo atrás, parecia intransponível. O ministro Alexandre de Moraes pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, a abertura de uma investigação contra o próprio colega André Mendonça, sob acusações de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. O pedido está relacionado à atuação de Mendonça em investigações que envolvem o Banco Master e o INSS e aprofunda um conflito que já vinha crescendo nos bastidores do STF.

O episódio ganha uma dimensão ainda mais grave porque não se trata de uma divergência jurídica comum entre ministros. Moraes sustenta que Mendonça teria adotado procedimentos irregulares e atuado de maneira direcionada em medidas que poderiam atingir, entre outros, o próprio Moraes. Mendonça, por sua vez, havia levantado o sigilo de documentos e informações que colocaram Moraes no centro de uma forte controvérsia pública. O que antes era uma sucessão de revelações, decisões e reações passou a configurar um confronto institucional explícito entre dois integrantes da Suprema Corte.

RESPONSABILIDADE – Agora, a responsabilidade de administrar essa crise recai diretamente sobre Edson Fachin. O presidente do STF decidiu separar o pedido de investigação do inquérito das fake news e abrir um procedimento específico para tratar do caso, dando prazo para manifestações e encaminhando a discussão para análise institucional. A Procuradoria-Geral da República, comandada por Paulo Gonet, também terá papel importante nos próximos passos.

Mas o problema que se desenha vai além da apuração formal dos fatos. O Supremo corre o risco de assistir à formação de alinhamentos internos em torno dos dois ministros. Não necessariamente de maneira oficial, nem por uma divisão mecânica entre ministros indicados por Jair Bolsonaro e ministros nomeados por Luiz Inácio Lula da Silva. Seria simplista imaginar que a origem da indicação presidencial determina automaticamente o comportamento de cada integrante da Corte. A história do STF mostra que ministros indicados por um mesmo presidente podem divergir profundamente entre si, enquanto alianças circunstanciais frequentemente atravessam governos e ideologias.

INDICAÇÃO – Ainda assim, a origem política dos protagonistas não pode ser ignorada. André Mendonça foi indicado ao STF por Bolsonaro e se tornou uma referência importante para setores conservadores. Alexandre de Moraes, por outro lado, transformou-se no principal inimigo político do bolsonarismo depois de comandar investigações relacionadas aos ataques às instituições e à trama golpista. Quando os dois passam a ocupar polos opostos de uma crise dessa magnitude, é inevitável que a disputa jurídica seja contaminada pela polarização política que existe fora dos muros do Supremo. E é exatamente aí que mora o maior perigo.

A crise pode produzir, dentro da Corte, uma lógica de agrupamentos. Alguns ministros poderão se aproximar da posição de Moraes, seja por concordarem com a tese de que houve irregularidades na condução das investigações, seja por considerarem necessário proteger determinados procedimentos institucionais. Outros poderão demonstrar maior sintonia com Mendonça, especialmente se enxergarem no episódio uma oportunidade para discutir os limites dos poderes exercidos por Moraes e o funcionamento de investigações que há anos provocam controvérsia política e jurídica.

A partir daí, cada decisão corre o risco de ser interpretada não apenas pelo seu conteúdo, mas pela suposta corrente à qual pertence o ministro que a proferiu. E esse seria um dano profundo para o STF. Uma Corte constitucional precisa conviver com divergências. O conflito faz parte de sua natureza. O problema começa quando a divergência deixa de ser percebida como expressão de interpretações diferentes da Constituição e passa a ser vista como uma disputa entre grupos internos.

PRESSÃO – As informações que emergiram nos últimos dias mostram justamente uma Corte submetida a uma pressão incomum. Há ministros e autoridades discutindo procedimentos, relatórios policiais, nulidades, competências e limites de atuação. Há também um conflito público que já ultrapassou Brasília e passou a alimentar o debate político nacional. Analistas têm chamado atenção para o caráter excepcional da crise e para seus efeitos sobre a credibilidade do Supremo, especialmente em um ambiente de forte polarização e às vésperas de uma eleição presidencial.

Paulo Gonet será uma peça central nesse tabuleiro. A posição da Procuradoria-Geral da República poderá influenciar o rumo institucional da controvérsia. Mas o desafio não será apenas jurídico. A PGR, Fachin e os demais ministros estarão sob pressão para demonstrar que o STF é capaz de investigar suspeitas envolvendo seus próprios integrantes sem transformar o processo numa guerra de poder ou, no extremo oposto, num acordo silencioso para preservar todos os envolvidos.

A pior saída seria permitir que o caso terminasse numa simples disputa de forças. De um lado, os aliados de Moraes. De outro, os aliados de Mendonça. Se essa lógica prevalecer, o Supremo poderá sair da crise ainda mais fragilizado, porque cada decisão será imediatamente submetida à leitura política: quem ganhou, quem perdeu, qual grupo avançou, qual ministro ficou isolado.

GUERRA DE FACÇÕES – O desafio de Fachin será impedir que a crise se transforme numa guerra de facções dentro da mais alta Corte do país. Isso exigirá uma apuração rigorosa, critérios claros e tratamento institucional igual para todos. Nem blindagem, nem perseguição. Nem proteção automática de Moraes, nem uma investigação conduzida como instrumento político contra ele. O que está em jogo é maior do que o destino individual de qualquer ministro.

O Supremo chegou a um momento em que precisará provar que é capaz de aplicar a si mesmo os princípios que exige dos demais. A autoridade de uma Corte não nasce da ausência de crises. Nasce da maneira como ela enfrenta suas próprias crises.

REALINHAMENTO – E esta, sem dúvida, é uma das maiores da história recente do STF. O embate entre Alexandre de Moraes e André Mendonça pode redefinir relações internas, produzir novos alinhamentos e expor divergências que até agora permaneciam restritas aos corredores e gabinetes de Brasília. A questão central será saber se essas diferenças continuarão submetidas à institucionalidade ou se o Supremo permitirá que a polarização política brasileira finalmente atravesse de vez as portas da Corte.

Porque, se ministros passarem a ser identificados прежде de tudo pelos grupos aos quais supostamente pertencem — bolsonaristas, lulistas ou integrantes de qualquer outro campo de poder —, o STF terá perdido algo essencial: a capacidade de fazer com que suas decisões sejam julgadas pelo direito, e não pela contagem de aliados.

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Braskem: quando uma crise empresarial deixa de ser apenas uma questão de dívida

Empresa protocola pedido de recuperação extrajudicial

Pedro do Coutto

A crise da Braskem chegou a um ponto em que já não pode ser tratada como simples dificuldade de caixa. A maior petroquímica da América Latina apresentou à Justiça de São Paulo um plano de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras. O tamanho da cifra impõe uma pergunta que ultrapassa os balanços da companhia: como uma empresa de importância estratégica para a indústria brasileira chegou a esse nível de endividamento?

A resposta, porém, não está necessariamente em uma sucessão de erros administrativos. A crise resulta de uma combinação mais complexa: um ciclo prolongado de baixa da indústria petroquímica mundial, perda de competitividade, pressão sobre margens, estrutura de capital excessivamente alavancada, problemas societários e de governança e os custos decorrentes do desastre ambiental provocado pela exploração de sal-gema em Maceió.

DIMENSÃO DO PROBLEMA – Os próprios resultados da empresa dimensionam o problema. No quarto trimestre de 2025, a Braskem encerrou o período com dívida bruta corporativa de US$ 9,4 bilhões e alavancagem de 14,74 vezes a relação entre dívida líquida e EBITDA. A companhia reconheceu que atravessava um ciclo prolongado de baixa da indústria global.

O dado mais recente revela um paradoxo. No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou EBITDA de US$ 1,043 bilhão e lucro líquido de US$ 664 milhões, impulsionados pela melhora dos spreads petroquímicos. Ainda assim, a dívida líquida ajustada chegou a US$ 9,5 bilhões e a alavancagem permaneceu em 6,74 vezes. A operação pode melhorar, portanto, sem que a estrutura financeira deixe de ser vulnerável.

É aí que a discussão precisa ser aprofundada. Uma empresa pode apresentar recuperação operacional em determinado trimestre e continuar financeiramente fragilizada. Se a geração de caixa não basta para sustentar juros, vencimentos, investimentos e obrigações extraordinárias, uma melhora pontual dos resultados não resolve o problema estrutural.

DESVANTAGEM – Há ainda uma questão industrial. A petroquímica brasileira enfrenta desvantagem diante de produtores estrangeiros com acesso a matérias-primas mais baratas. Nos Estados Unidos, a abundância de gás natural ampliou a disponibilidade de etano, utilizado na produção de etileno. No Brasil, a dependência da nafta impõe custos maiores. Ao mesmo tempo, a desaceleração chinesa e o excesso de oferta internacional pressionaram as margens. A participação da Braskem no mercado brasileiro também caiu significativamente nos últimos anos.

Isso muda a natureza da pergunta. Não basta saber quem errou dentro da Braskem. É preciso compreender se o modelo industrial sobre o qual a companhia construiu sua posição dominante continua sustentável diante das condições atuais do mercado mundial.

Isso, evidentemente, não absolve a administração. Quanto maior a relevância econômica de uma empresa, maior deveria ser sua capacidade de antecipar riscos, controlar o endividamento e responder a mudanças estruturais. A própria governança da companhia merece escrutínio.

QUALIDADE DA GOVERNANÇA – Em junho de 2026, a CVM divulgou decisões envolvendo termos de compromisso relacionados à divulgação de informações ao mercado sobre negociações envolvendo ativos da Braskem. O episódio não explica, por si só, a atual crise financeira, mas reforça a necessidade de examinar a qualidade da governança corporativa.

Outro ponto incontornável é Maceió. A exploração de sal-gema provocou o deslocamento de milhares de pessoas e deixou um passivo socioambiental de enormes proporções. As vítimas já manifestaram preocupação com a possibilidade de que a reestruturação financeira afete obrigações de reparação. A empresa sustenta que o processo é exclusivamente financeiro e não alcança suas obrigações com outras partes interessadas.

Essa distinção será fundamental. Recuperação extrajudicial não pode significar recuperação seletiva. Uma empresa pode renegociar dívidas financeiras; não pode transformar uma crise de liquidez em mecanismo para enfraquecer responsabilidades sociais, ambientais ou jurídicas.

COMPOSIÇÃO DOS CREDORES – Também chama atenção a composição dos credores. Cerca de 92,4% da dívida incluída na reestruturação está vinculada a credores estrangeiros. O maior credor individual é o Bank of New York Mellon, enquanto investidores internacionais também representam parcela expressiva dos créditos. A crise da Braskem, portanto, está diretamente conectada ao mercado internacional de capitais.

Há ainda uma dimensão política. A Petrobras possui participação relevante na estrutura majoritária da  Braskem, junto com a IG4 Capital, controlada e liderada por seu fundador e CEO global, o advogado brasileiro Paulo Todescan Lessa Mattos, e é estruturada globalmente por meio da holding estrangeira IG4 Capital Partners Holding Investments LP. A estatal afirma que qualquer decisão sobre aumento de participação ou eventual operação envolvendo a petroquímica dependerá de estudos técnicos e dos mecanismos internos de governança.

É nesse ponto que a crise empresarial se transforma em questão de política industrial. A Braskem não é uma companhia qualquer. Sua produção está integrada a diversas cadeias industriais brasileiras, e sua situação pode afetar fornecedores, trabalhadores, bancos e setores consumidores de insumos petroquímicos.

COMPETITIVIDADE – Por isso, a solução não pode ser reduzida à pergunta sobre quem colocará dinheiro na empresa. É preciso saber que estrutura de capital, governança e estratégia industrial permitirão à Braskem recuperar competitividade sem simplesmente transferir o custo da crise para credores, acionistas, trabalhadores ou Estado.

O plano apresentado prevê a possibilidade de capitalização de parte da dívida e eventual suporte de liquidez dos principais acionistas. A adesão inicial, contudo, estava em 39,6% dos créditos abrangidos, e a empresa terá 90 dias para alcançar o apoio necessário. Sem acordo, a recuperação judicial poderá entrar no horizonte.

A recuperação extrajudicial pode reorganizar vencimentos e dar tempo para a companhia respirar. Mas não elimina uma estrutura de dívida excessiva nem resolve, por si só, os problemas de competitividade e governança.

ACÚMULO DE SINAIS – Por isso, a pergunta decisiva não é apenas como a Braskem chegou a US$ 10,9 bilhões em dívidas. É por que tantos sinais de deterioração puderam se acumular até que a renegociação se tornasse inevitável.

Será necessária uma investigação econômica profunda da trajetória do endividamento, das decisões de investimento, da política de capital, da evolução das margens, dos passivos de Maceió, da estrutura societária e das escolhas administrativas diante das transformações do mercado internacional.

A Braskem pode sair da crise. Mas não apenas com boa vontade entre credores e devedores. Será necessário capital, governança, transparência, disciplina financeira e uma estratégia industrial compatível com um mercado mundial muito diferente daquele em que a empresa consolidou sua posição.

INSUSTENTABILIDADE –  A dívida é assustadora. Mais preocupante é que uma companhia estratégica tenha chegado a esse ponto depois de anos dispondo de informações suficientes para perceber que sua estrutura financeira estava se tornando insustentável.

A recuperação extrajudicial pode comprar tempo. A verdadeira questão é se a Braskem conseguirá transformar esse tempo em recuperação — e impedir que a crise de uma das maiores companhias industriais do continente se converta em mais uma perda de capacidade produtiva, tecnológica e estratégica do Brasil.

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