Mesmo quando tomado pelo desencanto, Manuel Bandeira fazia poemas admiráveis

Manuel Bandeira - 1959, Trecho do documentário "O poeta do castelo" (1959) de Joaquim Pedro de Andrade com Manuel Bandeira. Manuel Bandeira é considerado como parte da geração de 1922 do modernismo no ...

Manuel Bandeira sabia o que significa o amor

Paulo Peres
Poemas e Canções

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968), conhecido como Manuel Bandeira, no soneto “Desencanto”, estava na pior fase de sua vida, enfrentando a tuberculose e desencantado com a vida, que depois lhe sorriria, porque ele só viria a morrer muito depois, com mais de 80 anos.

DESENCANTO
Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.

No carnaval do Rio, a falsa baiana acabou sendo inspiração de um cantor mineiro

LP – História Da Música Popular Brasileira - Geraldo Pereira ( Vários  Artistas )

Geraldo Pereira, grande compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

No carnaval carioca, o cantor e compositor mineiro Geraldo Theodoro Pereira (1918-1954), nascido em Juiz de Fora, se encontrou com o grande músico e compositor Roberto Martins (1909-1992), cuja mulher estava fantasiada de baiana, mas não demonstrava animação e reclamava o tempo todo.

Pereira perguntou ao amigo o que estava acontecendo e Martins respondeu: “É a falsa baiana…”.

Essa situação inspirou o compositor mineiro a fazer um samba mostrando a diferença existente entre a verdadeira e a “falsa baiana”. Este samba foi gravado por Ciro Monteiro, em 1944, pela RCA Victor, fazendo grande sucesso.

FALSA BAIANA
Geraldo Pereira

Baiana que entra no samba e só fica parada
Não samba, não dança, não bole nem nada
Não sabe deixar a mocidade louca
Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira
Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras
Deixando a moçada com água na boca

A falsa baiana quando entra no samba
Ninguém se incomoda, ninguém bate palma
Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba
Salve a Bahia, senhor

Mas a gente gosta quando uma baiana
Samba direitinho, de cima embaixo
Revira os olhinhos dizendo
Eu sou filha de são salvador

Relembre a belíssima “Disparada”, que serviu como crítica ao regime militar em 1966

Geraldo Vandré – Disparada / Canto Aberto – Vinyl (7", 33 ⅓ RPM), 1979  [r5868347] | Discogs

“Disparada” fez um sucesso enorme

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, e seu parceiro Théo de Barros (1943-2023), na letra de “Disparada” fazem um belíssimo relato sobre a vida do vaqueiro no sertão. Por analogia, a canção serviu também como uma crítica à ditadura vivida na época e, consequentemente, apresenta uma maravilhosa comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente. 

Em 1966, a música “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, participou do II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), dividindo o primeiro lugar com “A Banda” de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Nesse mesmo ano, a música foi gravada pelo próprio Jair Rodrigues no LP O Sorriso de Jair, pela Philips.

DISPARADA
Théo de Barros e Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei       

Um domingo na praça, revivendo pequenas lembranças do poeta Mauro Mota

ROGEL SAMUEL: A Elegia Nº1 de Mauro Mota

Mauro Motta, grande poema pernambucano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), membro da Academia Brasileira de Letras revive com este poema “Domingo na Praça” suas lembranças de menino criado em cidade do interior.

DOMINGO NA PRAÇA
Mauro Mota

Na praça, este domingo
não é de hoje: é antigo.
O banco, o lago, a relva
para onde é que me levam?

Ai, dezembro de acácias,
esta praça não passa.
E essa gente depressa
(a moça e a bicicleta)
passa para deixar-se
um pouco nesta tarde.

Ai, dezembro de acácias,
este cheiro, esta música…
Sou, domingo na praça,
um momento o que fui.       

Um lamento sertanejo muito realista, na inspiração de Gil e Dominguinhos

Tribuna da Internet | O comovente lamento do sertanejo, na visão de Gil e  Dominguinhos

Dominguinhos e Gil, parceiros e grandes amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor, político e escritor baiano Gilberto Passos Gil Moreira, o famoso Gilberto Gil, e seu parceiro Dominguinhos (1941-2013) fizeram a letra de “Lamento Sertanejo” de uma maneira bem realista. Eles se inspiraram na vida de tantos que partem do interior do país à procura de oportunidades melhores e, ao chegarem na cidade grande, deparam-se com uma realidade bem diferente daquela conhecida em suas vidas.

A música foi gravada por Gilberto Gil no LP Refazenda, em 1975, pela Warner, e fez enorme sucesso.

LAMENTO SERTANEJO
Dominguinhos e Gilberto Gil

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado,
Lá do interior do mato,
Da caatinga e do roçado,
Eu quase não saio,
Eu quase não tenho amigo.
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade
Sem viver contrariado.

Por ser de lá,
Na certa, por isso mesmo,
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão, boiada
Caminhando a esmo…

A genialidade de Gonzaguinha, em sua crítica ao comportamento geral

30 anos sem Gonzaguinha

Gonzaguinha, grande nome da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canções

O economista, cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Junior (1945-1991) , mais conhecido como Gonzaguinha, é, sem dúvida, um dos maiores talentos da Música Brasileira em seus diversos estilos populares. Inicialmente, sua obra teve como característica sua postura de crítica à ditadura militar, conforme mostra a letra da música “Comportamento Geral”, gravada no LP Luiz Gonzaga Junior (Gonzaguinha), em 1973, pela Odeon.

COMPORTAMENTO GERAL
Gonzaguinha

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: “Muito obrigado”
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
E um Fuscão no juízo final

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
E diploma de bem comportado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Esqueça que está desempregado

A saudade eterna da despedida de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Paulo Peres 
Poemas & Canções

O pintor, escultor, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bollhorst (1922-2006), na letra de “Quando Eu Me Chamar Saudade”, parceria com Nelson Cavaquinho *(1911-1986), pede aos amigos que façam tudo quanto quiserem fazer por ele, mas somente enquanto estiver vivo. Este samba foi gravado por Nora Ney no LP “Tire Seu Sorriso Do Caminho, Que Eu Quero Passar Com A Minha Dor”, em 1972, pela Som Livre.

QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Sei que amanhã,
Quando eu morrer,
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração.
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear,
Fazendo de ouro um violão.
Mas depois que o tempo passar,
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora.
Por isso é que eu penso assim,
Se alguém quiser fazer por mim,
Que faça agora.

Me dê as flores em vida,
O carinho,
A mão amiga,
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade,
Não preciso de vaidade,
Quero preces e nada mais

Uma desesperada canção de amor, bem ao estilo do genial Antonio Maria 

Antônio Maria | Autores | Portal da Crônica Brasileira

Antonio Maria era um poeta extraordinário

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria Araújo de Morais (1921-1964), em parceria com o cantor e compositor paraense Ismael de Araújo Silva Netto (1925-1956), escreveu um clássico do repertório da MPB: “Canção da Volta”, que retrata o arrependimento de quem tenta retomar um amor que abandonou.

Este samba-canção foi gravado por Dolores Duran, em 1954, pela Copacabana, e fez grande sucesso.

CANÇÃO DA VOLTA!
Antonio Maria e Ismael Netto

Nunca mais vou fazer
O que o meu coração pedir.
Nunca mais vou ouvir
O que o meu coração mandar.
O coração fala muito
E não sabe ajudar.
Sem refletir,
Qualquer um vai errar, penar,

Eu fiz mal em fugir,
Eu fiz mal em sair
Do que eu tinha em você.
E errei em dizer
Que não voltava mais, 
Nunca mais

Hoje eu volto vencida
A pedir pra ficar aqui.
Meu lugar é aqui,
Faz de conta que eu não saí

Dante Milano, um poeta que sonhava em escrever versos sem pensar

Veredas da Língua: DANTE MILANO – POEMASPaulo Peres
Poemas & Canções 

O poeta Dante Milano (1899-1991), que nasceu em Petrópolis (RJ), no poema “Descobrimento da Poesia” deseja escrever versos sem pensar, mas que sejam puros e inocentes como o princípio do amor.

DESCOBRIMENTO DA POESIA
Dante Milano

Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
sem saber o que dizer,
Quero escrever uma coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.

Uma inesquecível canção de amor, criada por Herivelto Martins e David Nasser

Tribuna da Internet | “Pensando em Ti”, uma canção imortal, de David Nasser e Herivelto Martins

Herivelto e Nasser, uma dupla inspiração

Paulo Peres
Poemas & Canções 

O  jornalista, escritor e letrista, nascido em Jaú (SP), David Nasser (1917-1980), era parceiro frequente do cantor Herivelto Martins (1912  -1992). Juntos, ele compuseram diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “Pensando em ti “, cuja letra, através de hipérboles, destaca uma paixão desmesurada.

Este samba-canção foi gravado por Nelson Gonçalves, em 1957, pela RCA Victor.

PENSANDO EM TI 
Herivelto Martins e David Nasser

Eu amanheço,
Pensando em ti.
Eu anoiteço,
Pensando em ti
Eu não te esqueço,
É dia e noite
Pensando em ti.

Eu vejo a vida
Pela luz dos olhos teus.
Me deixe, ao menos,
Por favor, pensar em Deus

Nos cigarros que ,eu fumo
Te vejo nas espirais,
Nos livros que tento ler
Em cada frase tu estás.

Nas orações que eu faço
Eu encontro os olhos teus.
Me deixe, ao menos,
Por favor pensar em Deus.

“O tempo é um fio por entre os dedos; escapa o fio, perdeu-se o tempo…”

Henriqueta Lisboa - desbravadora de caminhos | Templo Cultural Delfos

Henriqueta Lisboa foi premiada pela Academia

Paulo Peres
Poemas & Canções

Henriqueta Lisboa (1901-1985), professora universitária de Literatura em lingua portuguesa e espanhola, foi uma das maiores poetas brasileiras do século passado. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Poeta sensível, dedicou sua vida à poesia. Neste poema que selecionamos, Henriqueta Lisboa demonstra que “O Tempo é Um Fio”, e com bastante fragilidade.

O TEMPO É UM FIO
Henriqueta Lisboa

O tempo é um fio
bastante frágil
Um fio fino
que à toa escapa.

O tempo é um fio.
Tecei! Tecei!
Rendas de bilro
com gentileza.

Com mais empenho
franças espessas.
Malhas e redes
com mais astúcia.

O tempo é um fio
que vale muito.

Franças espessas
carregam frutos.
Malhas e redes
apanham peixes.

O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.

Lá vai o tempo
como um farrapo
jogado à toa.

Mas ainda é tempo!

Soltai os potros
aos quatro ventos,
mandai os servos
de um pólo a outro,
vencei escarpas,
voltai com o tempo
que já se foi!…

“Fim de Caso”, uma canção de Dolores Duran que jamais será esquecida

Quem Foi? – música e letra de Dolores Duran | Spotify

Dolores morreu aos 29 anos e deixou uma grande obra

Paulo Peres
Poemas & Canções

A pianista, cantora e compositora carioca Adiléa da Silva Rosa (1930-1959), conhecida como Dolores Duran, foi uma das maiores representantes do samba-canção, gênero musical onde prevaleciam a “fossa e a dor de cotovelo” nos anos 50.

Uma de suas obras principais é o samba-canção “ Fim de Caso”, gravado por Dolores Duran, em 1959, pela Copacacabana. Outros grandes sucessos foram “A Noite do Meu Bem”, “Estrada do Sol” , “Ternura Antiga” e “Por Causa de Você”, que Frank Sinatra gravou numa versão em inglês.

FIM DE CASO
Dolores Duran

Eu desconfio,
Que nosso caso
Está na hora de acabar.
Há um adeus
Em cada gesto, em cada olhar,
O que não temos é coragem de falar.

Nos já tivemos
A nossa fase de carinho apaixonado
De fazer verso,
De viver sempre abraçados.
Naquela base do eu só vou se você for.
Mas de repente,
fomos ficando cada dia mais sozinhos.
Embora juntos,
cada qual tem seu caminho.
E já não temos nem vontade de brigar…

Tenho pensado,
E Deus permita que eu esteja errada.
Ah, eu estou.
Eu estou desconfiada
que o nosso caso está na hora de acabar…

Um estranho mundo imaginário, descortinado pelo poeta Emílio Moura ao cair da tarde

emílio mouraPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, professor e poeta mineiro Emílio Guimarães Moura (1902-1971), ao lado de Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, fez parte da célebre geração que renovou a literatura na Belo Horizonte dos anos 20 e 30. Neste poema, Moura revela uma visão melancólica sobre seu “Mundo Imaginário”.

MUNDO IMAGINÁRIO
Emílio Moura

Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia?

Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados,
o que era tudo some-se
e num mundo fechado
outras vigílias doem.

A noite se organiza e, no entanto,
ainda restam certas luzes ao longe.
Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve
e deixa vagos traços na tarde?

Não há nada que domine e vença  a alma romântica do poeta, dizia Cruz e Sousa

Do apartamento de Dora Ouve-se o ruído lá fora Do carnaval que ...Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta e jornalista João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis. Era filho de escravos e se tornou conhecido nacionalmente. Quando morreu de tuberculose, seu corpo foi transportado para sepultamento no Rio de Janeiro, onde tinha grandes amigos, como José do Patrocínio. No poema “Inefável”, Cruz e Sousa fala da invencibilidade de sua alma romântica.

INEFÁVEL
Cruz e Sousa

Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda…
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.

Sou como um Réu de celestial sentença,
Condenado do Amor, que se recorda
Do Amor e sempre no Silêncio borda
De estrelas todo o céu em que erra e pensa.

Claros, meus olhos tornam-se mais claros
E tudo vejo dos encantos raros
E de outras mais serenas madrugadas!

Todas as vozes que procuro e chamo
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo
Na minha alma volteando arrebatadas.

“Só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz…”

CD - Abel Silva - Abel Prazer

Abel Silva, grande compositor da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor, jornalista, escritor e compositor Abel Ferreira da Silva, nascido em Cabo Frio (RJ), em parceria com Sueli Costa, revela na letra de “Jura Secreta” que, enquanto durou certo romance, muita coisa deixou de ser feita. 

Maria Bethânia não quis gravar essa canção, Simone relutou, mas acabou gravando no long-play “Sou Eu”, em 1993, Sony/CBS, e fez um enorme sucesso..

JURA SECRETA
Sueli Costa e Abel Silva

Só uma coisa me entristece:
O beijo de amor que não roubei.
A jura secreta que não fiz,
A briga de amor que não causei.

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz,
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis.

Só uma palavra me devora,
Aquela que meu coração não diz.
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri.

Adelino Moreira, rei da seresta, e a eternidade de “A Volta do Boêmio”

na Intimidade | Álbum de Adelino Moreira - LETRAS.MUS.BRPaulo Peres
Poemas & Canções

O compositor luso-brasileiro Adelino Moreira de Castro (1918-2002) tem como seu maior sucesso “A Volta do Boêmio”,  cuja letra revela a compreensão, o consolo e a alegria de uma mulher ao entender a vida boêmia de seu amado. Este samba-canção foi gravado,  primeiramente, por Nélson Gonçalves, em 1956, pela RCA Victor.

Adelino compôs muitos sucessos, na maioria gravados inicialmente por Nelson Gonçalves, como “Meu Vício É Você”, “Fica Comigo Esta Noite”, “Escultura”, “Última Seresta”, “Deusa do Asfalto” e “Negue”, está última, regravada por Maria Bethania e Ney Matogrosso. 

A VOLTA DO BOÊMIO
Adelino Moreira

Boemia, aqui me tens de regresso
e suplicante te peço
a minha nova inscrição. 
Voltei, pra rever os amigos que um dia
eu deixei a chorar de alegria,
me acompanha o meu violão

Boemia, sabendo que andei distante
sei que essa gente falante
vai agora ironizar.
Ele voltou, o boêmio voltou novamente
partiu daqui tão contente
por que razão quer voltar?

Acontece, que a mulher que floriu meu caminho
de ternura, meiguice e carinho,
sendo a vida do meu coração.
Compreendeu, e abraçou-me dizendo a sorrir:
meu amor você pode partir,
não esqueça o seu violão.

Vá rever, os seus rios, seus montes, cascatas,
vá sonhar em novas serenatas
e abraçar seus amigos leais.
Vá embora, pois me resta o consolo e a alegria
de saber que depois da boemia
é de mim que você gosta mais

Os argumentos de defesa do humorista Bastos Tigre, ao ser acusado de calúnia

Tribuna da Internet | Os argumentos de defesa do poeta Bastos Tigre são uma aula de bom humorPaulo Peres
Poemas & Canções

O publicitário, bibliotecário, humorista, jornalista, compositor e poeta pernambucano Manoel Bastos Tigre (1882-1957) no soneto “Argumento de Defesa” ao ser acusado de caluniar uma senhora, apresenta o seu melhor argumento, embora preconceituoso, ou seja,  ele sempre achou-a feia demais para não ser honesta.

ARGUMENTO DE DEFESA
Bastos Tigre

Disse alguém, por maldade ou por intriga,
que eu de Vossa Excelência mal dissera:
que tinha amantes, que era “fácil”, que era
da virtude doméstica, inimiga.

Maldito seja o cérebro que gera
infâmias tais que, em cólera, maldigo!
Se eu disser tal, que tenha por castigo
o beijo de uma sogra ou de outra fera!

Ponho a mão espalmada na consciência
e ela, senhora, impávida, protesta
contra essa intriga da maledicência!

Indague a amigos meus: qualquer atesta
que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
feia demais para não ser honesta…

Uma cadeira vazia aguarda que a mulher se arrependa da traição amorosa…

O compositor Lupicínio Rodrigues — Foto: Reprodução Um dos maiores  embaixadores dos amores mal resolvidos, Lupicínio Rodrigues nascia há 110  anos, em 16 de setembro de 1914, colocando em definitivo seu município

Lupicínio, o rei da fossa e da dor de cotovelo

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor gaúcho Alcides Gonçalves (1908-1987), na letra de “Cadeira Vazia”, em parceria com Lupicínio Rodrigues, conta a estória da vítima da mulher traidora, volúvel, sempre disposta à traição que, ao voltar arrependida, encontra, senão amor, pelo menos compaixão, uma vez que perdoá-la é impossível. Este samba-canção foi gravado por Francisco Alves, em 1950, pela Odeon.

CADEIRA VAZIA
Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves

Entra meu amor fique a vontade
E diz com sinceridade o que desejas de mim
Entra podes entrar a casa é tua
Já que cansaste de viver na rua
E os teus sonhos chegaram ao fim

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas tristes
Que não gosto de lembrar esse dia
Mas de uma coisa pode ter certeza
Teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia

Tu es a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que eu sou o teu paizinho
Que há tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu

Voltaste estás bem, estou contente
Só me encontraste um pouco diferente

Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar podes comer meu pão

Voltaste estás bem, estou contente
Só me encontraste um pouco diferente

A genial e eterna aquarela de Ary Barroso fez grande sucesso no mundo inteiro

Ary Barroso: álbuns, músicas, shows | Deezer

Ary Barroso, no começo da carreira, era músico de jazz

Paulo Peres
Poemas & Canções 

O radialista, músico e compositor mineiro Ary de Resende Barroso (1903-1964) na letra de “Aquarela do Brasil” escrita, em 1932, exalta a beleza, a grandeza, a miscigenação e seu amor pelo Brasil.

Historicamente, “como foi gravada durante o governo Getúlio Vargas, a música sofreu críticas por iniciar o movimento samba-exaltação, que tinha meios ufanistas de enaltecer o potencial brasileiro, suas belezas naturais, riqueza e povo.

Vele ressaltar que, na época, o patriotismo que os brasileiros tinham pelo país não pode ser comparado com o atual. Era um sentimento de amor pelo país, que mesmo não concordando com o governo que tinha poder no Brasil, o compositor consegue esquecer todos os problemas e ainda assim, presta um tributo ao povo e a sua terra.

Era a música brasileira mais gravada, em 416 discos, e recentemente foi superada por Garota de Ipanema, com 423 gravações.

AQUARELA DO BRASIL
Ary Barroso

Brasil!
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Pra mim! Pra mim, pra mim
Ah! abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil! Práaa mim! Pra mim, pra mim!

Deixa cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a sá dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil! Pra mim, pra mim, pra mim

Brasil! Brasil!
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiferente
O Brasil, samba que dá
bamboleio que faz gingar
O Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil!, Pra mim, pra mim, pra mim

O esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil!, Pra mim, pra mim, pra mim.
Ah! e estas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah! esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil! Pra mim, pra mim! Brasil!
Brasil! Pra mim, Brasil!, Brasil!

Casimiro de Abreu, o poeta que morreu aos 21 anos e jamais será esquecido

Tribuna da Internet | A poesia simples e cativante de Casimiro de Abreu,  onde também canta o sábiaPaulo Peres
Poemas & Canções

O dramaturgo, romancista e ensaísta brasileiro Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), nascido em Barra de São João (RJ), que depois da morte dele passou a ser denominada como Casimiro de Abreu, foi um intelectual brasileiro da segunda geração romântica. Sua poesia tornou-se muito popular durante décadas, devido à linguagem simples, delicada e cativante, conforme o poema “Meus Oito Anos”, que fala da saudade de sua infância. Morreu aos 21 anos, mas ficou tão famoso que se tornou patrono da cadeira nº 6 na criação da Academia Brasileira de Letras.

MEUS OITO ANOS
Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!