Paulo Peres
Poemas & Canções
O advogado, compositor e poeta baiano Waly Dias Salomão (1943-2003), um dos mais atuantes agitadores do movimento Tropicália, no poema “Amante da Algazarra”, fala sobre uma sombra sobrenatural que se apodera dele, que os espiritualistas chamam de “encosto”.
AMANTE DA ALGAZARRA
Waly Salomão
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela!!!
Todo mundo sabe,
sou uma lisa flor de pessoa,
sem espinho de roseira
nem áspera lixa de folha de figueira.
Esta amante da balbúrdia
cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé,
pedestre–peregrino atônito até a morte,
Sem motivo nenhum de pranto
ou angústia rouca ou desalento.
não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura
que fez de mim seu encosto.
E se apossou do estojo de minha figura
e dela expeliu o estofo.
Quem corre desabrida,
sem ceder a concha do ouvido
a ninguém que dela discorde,
é esta selvagem sombra acavalada
que faz versos como quem morde.