Caravana com apoiadoras de Flávio trava após um mês
Letícia Pille
O Globo
Um mês após a previsão inicial, a caravana de mulheres planejada por integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para percorrer o país e aproximar a candidatura do eleitorado feminino ainda não saiu do papel. A iniciativa passou a ser tratada internamente como “stand-by”, e aliadas do presidenciável já manifestaram preocupação com a possível perda de foco na busca de apoio das eleitoras.
A ofensiva havia sido apresentada como uma das principais apostas para ampliar o diálogo com as mulheres, segmento em que o bolsonarismo enfrenta maior resistência. A ideia era que Fernanda Bolsonaro, mulher do candidato, a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e a deputada Simone Marquetto (PP-SP) percorressem diferentes regiões do país para apresentar propostas do programa Brasil por Elas, parte do plano de governo desenvolvido com foco nas mulheres.
ADIAMENTO – O plano inicial era que as viagens começassem logo após a convenção do PL em que Flávio foi oficializado candidato ao Planalto, em 25 de julho. Procurada para comentar o adiamento, a campanha de Flávio não se manifestou.
O projeto previa que, inicialmente, as três participassem juntas de agendas ao lado de Flávio. Depois, cada uma seguiria roteiros próprios, de forma a alcançar simultaneamente diferentes estados e municípios. Entre as propostas apresentadas estavam a promessa de zerar filas por vagas em creches, criar um benefício para mães que não conseguissem matrícula para os filhos por falta de vagas, ampliar políticas de cuidado com idosos e incentivar o empreendedorismo feminino.
Agora, porém, não há cronograma definido para a caravana. Segundo pessoas envolvidas nas discussões, uma reunião que deveria ocorrer no início de agosto para tratar da iniciativa não aconteceu.
SEM PREVISÃO – Simone Marquetto, que seria uma das integrantes das viagens, tem dito a interlocutores que, até o momento, sua participação na campanha se resume às agendas de Flávio que são divulgadas publicamente nas redes sociais. Segundo esses relatos, ela não recebeu nenhuma nova informação sobre a realização de uma agenda específica com mulheres.
Uma das explicações dadas nos bastidores para a paralisação é que Daniella, que seria uma das responsáveis pela coordenação da operação, está concentrada na elaboração e revisão do plano de governo.
O documento, embora já entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ainda tem sido alvo de melhorias e discussões internas para detalhamentos. Além disso, com a chegada de novos integrantes à equipe econômica, a campanha passou a revisar alguns pontos do programa, detalhar propostas e definir melhor como algumas das promessas apresentadas por Flávio poderiam ser executadas.
MUDANÇA DE COMPORTAMENTO – A paralisação da caravana ocorre ao mesmo tempo em que mulheres do PL e aliadas de Flávio percebem uma mudança no comportamento do candidato. A avaliação entre algumas dessas interlocutoras é que, depois de um período em que a campanha passou a cortejar possíveis vices mulheres de outros partidos, o presidenciável passou a adotar uma postura menos evidente na tentativa de ampliar seu diálogo com o eleitorado feminino.
A percepção ocorre justamente em um momento em que a campanha enfrenta um desafio já conhecido por seu entorno. Recém-chegado à equipe, o marqueteiro Duda Lima reconheceu na semana passada que o “jeito” de Jair Bolsonaro provoca resistência entre as mulheres e classificou a aproximação com esse eleitorado como um desafio de comunicação para o campo bolsonarista.
“Quando você pega alguém como Jair, que tem essa estrutura militar, motociata, essa coisa toda, esse jeito duro de falar, normalmente, mulher tem uma certa repulsão a isso. Então, é muito mais forma, muito mais jeito do que conteúdo. E esse, de fato, é um desafio de comunicação mesmo”, afirmou Duda.
CONEXÃO EMOCIONAL – O publicitário também avaliou que Lula tem maior capacidade de estabelecer uma conexão emocional com o eleitorado, enquanto o campo bolsonarista mantém uma relação mais racional com seus eleitores. Para ele, superar essa dificuldade não depende de uma ação isolada, mas da forma como a candidatura será construída e comunicada ao longo da campanha.
A preocupação tem peso eleitoral, uma vez que as mulheres representam 52,8% do eleitorado brasileiro, segundo dados divulgados pelo TSE em junho. Na última pesquisa Quaest, divulgada em 14 de agosto, Lula aparece à frente de Flávio entre as mulheres. No primeiro turno, o petista tem 39% das intenções de voto nesse segmento, contra 28% do senador. Em um eventual segundo turno, a vantagem é de 44% a 35%.
A percepção de que a pauta feminina perdeu espaço contrasta com o movimento feito pela campanha em julho, quando o tema estava em destaque na comunicação de Flávio. O programa Brasil por Elas foi apresentado como uma das apostas para conquistar o público feminino, e a caravana seria o braço presencial dessa estratégia.
POSIÇÃO DE DESTAQUE – Flávio ainda faz menções ao tema em lives e eventos e mantém Daniella em posição de destaque. Recentemente, chegou a brincar que passaria a chamá-la de “Dani IA”, em referência a “inteligência aumentada”.
A presença de Fernanda Bolsonaro também aumentou. A mulher do candidato vem desempenhando papel mais ativo na campanha, participando de agendas ao lado do marido e ampliando a produção de conteúdo nas redes sociais. Segundo pessoas próximas, o movimento é planejado como estratégia eleitoral para aproximar Flávio do eleitorado feminino.
Mas, em algumas das agendas mais recentes do candidato, o apelo às mulheres apareceu mais associado a aliados do que ao próprio Flávio. Em um ato de campanha no Rio, no último sábado, por exemplo, o senador concentrou seu discurso em propostas de segurança pública, como a classificação de facções criminosas e milícias como grupos terroristas, endurecimento de penas e castração química para condenados por estupro e abuso sexual de crianças.
APELO – Antes de Flávio discursar, o candidato ao governo do Rio Douglas Ruas (PL) fez um apelo específico às mulheres e afirmou que elas serão decisivas na eleição. “Vocês são a maioria da população. Vocês vão decidir o futuro do nosso Brasil. A melhor política de proteção para as mulheres é a autonomia financeira, para tomarem a decisão que quiserem quando quiserem”, afirmou.
A estratégia da caravana havia sido desenhada também como uma forma de preencher o espaço deixado pela ausência de Michelle Bolsonaro. A campanha chegou a reconhecer, à época, que precisava construir uma operação própria para dialogar com as mulheres, sem depender de uma única liderança.
Ao mesmo tempo, também havia uma comparação com a estratégia adotada por Jair Bolsonaro em 2022, o que fazia parte do desenho original. Naquele ano, Michelle percorreu o país ao lado de lideranças como Celina Leão (PP), em uma tentativa de reduzir a resistência do ex-presidente entre o eleitorado feminino – o que acabou alavancando sua atividade política nacionalmente. A campanha de Flávio havia optado por não concentrar essa missão em uma única liderança, distribuindo a tarefa entre Fernanda, Daniella e Simone, entre outras lideranças femininas do partido.
BRASIL POR ELAS – A ausência de Michelle já havia ficado evidente em outra tentativa da campanha de estruturar uma frente feminina. No início de julho, depois de a ex-primeira-dama renunciar à presidência do PL Mulher, Flávio reuniu cerca de 50 parlamentares, vereadoras, presidentes estaduais do PL Mulher e pré-candidatas em Brasília para discutir a construção do programa Brasil por Elas. Michelle havia sido convidada, mas recusou participar e disse a interlocutores que não havia recebido um convite diretamente de Flávio.
Coube a Daniella Marques, que coordenava a elaboração do programa, abrir a reunião. Simone Marquetto também participou e deveria assumir o eixo de desenvolvimento social da plataforma. Uma das principais aliadas de Michelle, a então vereadora Priscila Costa, compareceu ao encontro, em um aceno ao senador.
REPERCUSSÃO – A reunião ocorreu em meio à crise entre Flávio e Michelle e também foi marcada pela repercussão da declaração do influenciador Paulo Figueiredo, que havia colocado em dúvida a capacidade das mulheres de votar. Na ocasião, Flávio repudiou publicamente a fala e afirmou ter se sentido “ofendido” com a declaração.
“Não concordo com o que ele falou. Ele não faz parte da nossa campanha. Ele trabalha e ajuda dos EUA, e é por isso que colocam no meu colo uma fala que não é minha. Eu não tenho responsabilidade, mas tenho obrigação de dizer que me senti ofendido. Nunca ele poderia dizer que é culpa das mulheres”, afirmou o senador na época.
Agora, mesmo com a reconciliação entre Flávio e a madrasta, interlocutores de Michelle afirmam que é difícil que ela participe presencialmente de agendas ou viagens com o candidato, devido às limitações impostas pelo cuidado diário do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar em Brasília.
VÁRIAS FRENTES – Entre as mulheres que fazem essa avaliação, há ainda uma leitura de que a dificuldade para tirar a caravana do papel expõe problemas mais amplos de organização da campanha. A percepção é de que a equipe ainda precisa administrar muitas frentes simultaneamente e, diante da necessidade de escolher prioridades, outras áreas acabaram se sobrepondo à estratégia específica para o eleitorado feminino.
A segurança pública é um exemplo. O tema ganhou espaço nas últimas semanas e passou a ocupar parte importante das agendas de Flávio. A estratégia também dialoga com uma das principais bandeiras do candidato e com a tentativa de diferenciar sua candidatura da de Lula.
MENOS ÊNFASE – A avaliação, porém, não é de que Flávio tenha abandonado o discurso voltado às mulheres. Mesmo as aliadas que fazem críticas reconhecem que o candidato continua mencionando o público feminino em discursos, lives e eventos e mantém propostas voltadas a esse segmento entre os eixos de sua candidatura – embora não com a mesma ênfase apresentada anteriormente.
Interlocutores de Flávio, por outro lado, minimizam a avaliação de que a campanha tenha reduzido a atenção dada às mulheres. Segundo pessoas próximas ao candidato, a pauta feminina continua sendo considerada um dos pilares da candidatura, mas divide espaço neste momento com outras prioridades eleitorais.
A justificativa é que Flávio passou a concentrar parte significativa da agenda em temas como economia, segurança e viagens pelos estados, além da conclusão e detalhamento do plano de governo. A campanha também avalia que a estratégia para as mulheres não depende necessariamente da realização da caravana nos moldes previstos em julho.
Deve ser porque é menos hipócrita do que Lula.
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-bate-recorde-de-feminicidios-pelo-quarto-ano-seguido/
E não deve saber dos índices de nossos problemas estruturais.
A expansão dos Estados Unidos pela América do Sul
Os Estados Unidos entraram no Equador com Forças Militares com o apoio do Presidente Daniel Noboa para o combate ao narcotráfico
Os EUA voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
(…)
Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os EUA voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul:
– Na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019;
– Na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo;
– No Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai;
– E, agora, no Equador.
Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.
O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária.
Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências.
E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.
Temos que olhar para o futuro.
Fonte: Metrópoles, 28/08/2026 15:55 Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago