Refletir sobre felicidade, forçosamente, significa encarar também a infelicidade

Ilustração de Ricardo Cammarota está em formato horizontal, proporção aproximada de 13,9 × 9,1 cm. A imagem foi criada manualmente com pincel e nanquim sobre papel, com traços tortuosos, orgânicos e estilizados, e uso intenso de hachuras para construção de volume e textura. A coloração foi aplicada digitalmente. A composição apresenta dois rostos humanos estilizados, sem corpo, posicionados lado a lado e levemente inclinados um em direção ao outro, ocupando quase toda a área da imagem. * O rosto à esquerda, em vermelho-alaranjado, possui contornos grossos em preto, olhos brancos sem pupilas e boca pequena, fechada, em tom lilás. As linhas de expressão são densas e irregulares, e a expressão facial sugere raiva ou tristeza. * O rosto à direita, em lilás, também delineado em preto, apresenta olhos brancos sem pupilas e boca levemente curvada para cima, em tom alaranjado, indicando uma expressão de sorriso. As hachuras acompanham a forma do rosto, criando sensação de relevo e movimento. Os dois rostos se tocam ou quase se encostam na região central, formando uma composição de contraste entre as expressões. O fundo é branco, sem outros elementos visuais.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Para mim, Sigmund Freud disse tudo o que se tem a dizer sobre o dualismo felicidade e infelicidade, de forma sintética, no seu grandioso “Mal-Estar na Civilização”: a felicidade é episódica, e ela não parece fazer parte dos planos da criação.

O tema “felicidade” deve ser o topo da lista de vendas em qualquer plataforma de conteúdo no século 21. Chama a atenção o fato que não deixemos claro que o ponto de partida do tema seja o caráter estrutural da infelicidade. O que está em questão aqui, na verdade, é o dualismo felicidade e infelicidade. Falar de uma é, necessariamente, falar da outra.

CIÊNCIA DA FELICIDADE – Se pegarmos, por exemplo, o best-seller americano de Arthur Brooks “The Happiness Files”, ou arquivos da felicidade, de 2021, vemos um exemplo do que hoje se chama “ciência da felicidade”.

A primeira parte do livro mapeia, de forma didática e consistente, as principais causas da infelicidade em nosso ridículo século. Numa tradução selvagem, “Fazendo a gestão de si mesmo” é o título da primeira parte, com fracassos, exaustão, dificuldade de dizer “não”, em que a prática da autocontenção ajuda muitas vezes.

Uma vez tendo as necessidades básicas assistidas, o resto importa pouco ou, ao contrário do que pensavam os românticos e existencialistas, a tão glamourizada autenticidade pode levar você a encher o saco dos outros, mas levar à felicidade é muito pouco provável

E POR AÍ VAI – O autor, sem dúvida, analisa as principais causas que nos atormentam no mundo contemporâneo, passando por temas como redes sociais, polarização, política — territórios que para o autor são uma enorme cilada como esperança de alguma felicidade—, consumo, medo, insegurança social. Se olharmos mais a fundo para esse dualismo, veremos que a filosofia nunca encontrou um grande denominador comum ao refletir sobre ele.

Na Antiguidade, foi muito comum em pensadores como Aristóteles, Epicuro e estoicos entenderem a felicidade como o resultado de uma construção pessoal, na interação com a pólis ou a política — principalmente em Aristóteles. A ideia de esforço contínuo que levaria as pessoas a atingirem um certo controle sobre o desejo —sob o olhar antigo, ao contrário do olhar contemporâneo, um grande amigo da infelicidade.

A felicidade seria uma espécie de “segunda natureza” atingida por meio do esforço da virtude em busca da excelência no exercício das próprias virtudes. Aliás, para muitos, a concepção de virtude em si é a ideia de excelência prática de bons comportamentos.

DESEJO COMEDIDO – No caso do epicurismo é muito clara a busca de um desejo comedido, próximo das necessidades básicas, parceiro da ideia de que prazer é a ausência de dor. No estoicismo, a busca pelo autodomínio é essencial, assim como superar a intenção de controlar o incontrolável, em si a maior parte das coisas na vida. Arriscaria dizer que o estoicismo, nesse caso, faz um enorme contraponto à ideia moderna de que a felicidade é resultado de mecanismos cada vez mais aperfeiçoados de controle das infinitas variáveis que nos assolam.

A filósofa contemporânea Martha Nussbaum, especialista em antiguidade grega e ética trágica, acrescentaria, com razão, a ideia de que a felicidade, como um bem individual e coletivo que é, seria uma frágil realização em meio à fúria da contingência ou, como também se diz em filosofia, da fortuna. Os romanos cultuavam mesmo uma deusa da fortuna, minha deusa predileta.

Agostinho, filósofo já cristão e romano, entendia que o coração humano é, necessariamente, atravessado por uma inquietação herdada do pecado original de Adão e Eva, sendo este um orgulho profundo. Essa forma de soberba seria a tentativa constante de negar nossa insuficiência essencial quando não repousamos em Deus. Dito de forma simples: sem Deus, somos nada. Portanto, sem o transcendente, não há felicidade possível.

EGOÍSMO E CULPA – Essa ideia segue, ainda que de forma muito mais sofisticada, uma noção transversal em muitas religiões históricas, a de que sem o “sagrado todo-poderoso” estamos perdidos, inclusive, devido à pressão que ele exerce sobre nós.

E o que a modernidade tem a dizer sobre esse dualismo? Ah! A modernidade! Essa adolescente arrogante que nos cerca. Felicidade, grosso modo, desde o século 18 europeu, passa a ser um projeto racionalista de engenharia psicológica, social, política e tecnocientífica, ideia esta, aliás, que aparece na obra aqui citada de Arthur Brooks. Os românticos recusarão esse projeto.

Se identificarmos o que deu certo na nossa vida e dos nossos semelhantes, poderíamos atingir a felicidade? Esta seria a aposta da psicologia positiva? A resposta fica para um outro momento.

5 thoughts on “Refletir sobre felicidade, forçosamente, significa encarar também a infelicidade

  1. Entonces, ponderemos!

    “16 de fevereiro – A conspiração judaico-maçônica está implodindo
    15 de fevereiro de 2026.”
    Michael Snyder: ” “A única maneira de evitarmos um confronto final com o Irã é se uma solução diplomática for encontrada.”

    Snyder e a maioria dos comentaristas da extrema-direita provam que você pode levar o cavalo até a água, mas não pode obrigá-lo a beber. Trump admitiu publicamente ser membro do Chabad , um culto dedicado ao genocídio de gentios por meio da orquestração de guerras mundiais.

    Não haverá “solução diplomática”.

    Trump, Satanyahu e Putin são membros do Chabad e da Maçonaria. Khomeini, do Irã, também é maçom. Albert Pike disse que maçons infiltrados em ambos os lados iniciariam a Terceira Guerra Mundial. Em 1991, Satanyahu prometeu ao Rebe Schneerson do Chabad que estava “trabalhando nisso”.

    Muitos comentaristas da extrema-direita temem colocar em risco seus impérios editoriais sendo “antissemitas”. Mas os Arquivos Epstein levantaram a pedra, os pedófilos estão em pânico e a maré está virando. A humanidade está reconhecendo que o judaísmo organizado (Rothschild) são os inimigos implacáveis ​​da humanidade. Nós lhes demos nossos cartões de crédito nacionais. Eles compraram ou chantagearam todos que têm influência. “Eu represento os Rothschild”, disse Jeffrey Epstein.”
    https://www.henrymakow.com/

    • Quem sabedor ou ignorante faz parte desse identifiados servis e apátridas crimimosos regimentos, foi divina.ente admoestado, conforme:
      “Sai dessa babilonia povo Meu, para que como pertícipe, não incorras em seus pecados e crimes!”

  2. Felicidade
    É viver na sua companhia
    Felicidade
    É estar contigo todo dia

    De Vinícius até Seu Jorge, passando pelo Rei Salomão, a felicidade está dentro e é Carpe Diem.

    A cada dia o seu próprio mal

    E a cada dia o seu próprio bem também

    Aproveite porque dura pouco

  3. Licença…

    1) ‘Ciência da Felicidade’ é uma linhagem pós-budista fundada no Japão pelo falecido Ryuho Okawa …

    2) “Happy Science” como também é conhecida, tem templos em vários países, inclusive em SP e RJ…

    3) Autor com mais de 3 mil livros (isso mesmo) tem mais de 20 publicados em português…

    4) É só procurar na web…

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