
Programa vai beneficiar principalmente São Paulo
Idiana Tomazelli
Folha
A nova rodada de renegociação das dívidas dos estados vai gerar uma perda de R$ 347 bilhões para a União nos próximos 30 anos, segundo estimativa do Tesouro Nacional obtida pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação.
O cálculo considera as condições escolhidas pelos 22 estados que aderiram ao chamado Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados). O número está expresso em valor presente —isto é, reflete o quanto seria a perda hoje caso a União tivesse de abrir mão dos recursos imediatamente. Em valores nominais, que consideram o custo da dívida ao longo do tempo, o impacto chegará a R$ 747,4 bilhões nas próximas três décadas.
MAIORES DEVEDORES – Mais de 92% do benefício será usufruído por quatro estados, que também são os maiores devedores da União: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Todos eles são chefiados hoje por governadores do campo adversário ao do presidente Lula (PT).
O pagamento da dívida pelos estados representa uma receita financeira para a União, que usa esses recursos para honrar seus próprios compromissos. Deixar de recebê-los amplia a necessidade de o governo federal obter financiamento do mercado financeiro para rolar a dívida e quitar obrigações. Em abril deste ano, a dívida bruta estava em 80,4% do PIB (Produto Interno Bruto).
As perdas decorrentes da redução dos juros prevista no programa não afetam o limite de despesas do arcabouço fiscal, nem o cumprimento das metas de resultado primário, mas podem impulsionar a dívida pública do país.
AMPLIAÇÃO DE GASTOS – Do lado dos estados, a redução do serviço da dívida abre espaço para ampliar gastos. O programa incentiva isso, ao elencar como contrapartida despesas em áreas como educação, saneamento, habitação, transportes e segurança.
O resultado pode ser o agravamento de uma situação fiscal que já vem se deteriorando: em 12 meses até abril, os estados acumulam um déficit de R$ 3,4 bilhões, segundo o Banco Central.
O Propag prevê duas mudanças significativas nos encargos da dívida dos estados com a União. A primeira delas é a simplificação do coeficiente de atualização monetária, que antes seguia uma fórmula complexa e resultava em correção ao redor de 6,5% ao ano, acima da inflação. Agora, essa variável será o IPCA.
REDUÇÃO DE JUROS – A segunda medida é a possibilidade de reduzir os juros reais de 4% ao ano para 0%, mediante entrega de ativos ou compromisso com investimentos nas áreas listadas. Ao todo, 18 estados aderiram à modalidade de juro zero, um deles pagará 1% ao ano, e outro, 2%. Outros dois entes não têm dívidas com a União e entraram apenas para receber o dinheiro redistribuído entre estados, conforme previsto no programa.
Nas estimativas do Tesouro, São Paulo será o principal beneficiário do Propag e responderá por quase um terço do impacto do programa. O governo paulista deixará de pagar R$ 109,3 bilhões em valores de hoje, ou R$ 186 bilhões em cifras nominais. A conta considera o desconto nos juros, que deixarão de ser incorporados à dívida.
O estado é governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), principal adversário de Fernando Haddad (PT) na corrida pelo governo estadual em 2026. Como ministro da Fazenda do governo Lula, Haddad foi quem elaborou a proposta que acabou sendo o embrião do Propag —que, agora, vai proporcionar um alívio de R$ 8,4 bilhões no caixa de seu concorrente só neste ano, em pleno período eleitoral.
ARGUMENTO – A equipe econômica argumenta que não poderia oferecer melhores condições de pagamento apenas a alguns estados. Em rodadas anteriores de negociação, como em 1997, 2014 e 2016, todos puderam aderir caso tivessem interesse. Os outros três principais beneficiados estão no grupo dos que contaram com decisões judiciais para suspender ou reduzir os pagamentos à União.
O Rio de Janeiro deixará de pagar R$ 88,3 bilhões em valores presentes, ou R$ 200,6 bilhões ao longo do contrato. Para Minas Gerais, o alívio será de R$ 82,9 bilhões em valores de hoje, ou R$ 225,4 bilhões durante o acordo. Já o Rio Grande do Sul terá uma redução de R$ 39,9 bilhões em cifras atuais, ou R$ 88,5 bilhões em termos nominais.
Para se ter uma ideia da concentração dos benefícios, os outros 16 estados que têm dívidas e aderiram ao programa deixarão de repassar à União apenas R$ 26,6 bilhões em valores de hoje, ou R$ 46,9 bilhões ao longo dos contratos.
PERDA NO CAIXA – Os cálculos foram feitos comparando as prestações antes e depois da adesão ao Propag. Técnicos do governo argumentam que, como alguns estados estavam inadimplentes, a perda efetivamente sentida no caixa federal será menor. Ainda assim, são valores que nunca mais poderão ser cobrados dos estados. Além disso, os técnicos reconhecem que a medida afetará a dívida pública, embora esse impacto não tenha sido mensurado isoladamente pelo Tesouro.
O economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, diz que os valores assustam, sobretudo porque não houve discussão sobre a dimensão das benesses durante a tramitação no Congresso Nacional.
“Eu sou crítico desse programa desde o início, quando ainda era o “Juros por Educação” do Haddad [que previa desconto menor nos juros e gastos focados em educação], e só piorou. Ficou cada vez maior e virou gasto com qualquer coisa”, afirma. “Já era ruim na origem, ficou assustador com esse valor.”
“DINHEIRO NÃO TEM CARIMBO” – Barros alerta que “dinheiro não tem carimbo”, e os estados poderão elevar despesas sob uma fiscalização frágil dos tribunais de contas locais. Além disso, o programa não faz grandes exigências de ajuste, o que para ele desperdiça a oportunidade de resolver problemas estruturais, como Previdência e gastos com pessoal.
“Parece uma boa proposta, mas, na verdade, vai acontecer o que sempre aconteceu: não resolve o problema [da dívida], os estados usam a renegociação como espaço fiscal para gastar mais e não encaram os desafios estruturais. É uma licença para gastar”, afirma.
Nossa dívida só aumenta.
IMPOSTO É ROUBO
Muitas dívidas públicas estão atreladas a municípios sem qualquer relevância econômico-financeira. Há que se ter coragem para baixar o nº de municípios para um número razoável. São, por baixo, cerca de 5.500; algo em torno de 3.000 seria um bom começo. A coragem para se materializar isso é que o problema…
Um país sem solução infelizmente.
“O poder se auto protege”, Senhor José Perez, lamentavelmente. Talvez ainda mais quando corrupto, autocrata.
É uma tendência natural de sistemas, instituições e indivíduos no poder de criar mecanismos de blindagem para garantir sua própria sobrevivência, perpetuação e imunidade contra ameaças ou cobranças de responsabilidade.
Alta da dívida no governo Lula é uma aberração
O terceiro mandato de Lula é uma aberração. Em maio, a dívida pública chegou a 81,1% do PIB, um salto em relação aos já aberrantes 71,7% entregues por Jair Bolsonaro.
A expectativa é que, entre o início de 2023 e o fim de 2026, o aumento fique próximo de 12 pontos. (…). Confirmada a projeção, o terceiro mandato de Lula só perderá para o desastroso segundo mandato de Dilma Rousseff, quando a alta foi de 13 pontos.
Toda essa irresponsabilidade com a questão fiscal tem um preço.
As despesas com o pagamento de juros em 12 meses ultrapassaram a barreira de R$ 1 trilhão no ano passado. De lá para cá, aumentaram ainda mais e não se sabe quando estabilizarão. Como papéis da dívida têm vencido, o governo se vê na obrigação de substituí-los por novos, pagando taxas maiores.
Quando Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto para receber a faixa presidencial em 2023, o custo médio para rolar a dívida em 12 meses era de 10,5%.
Hoje está em 12,3% e, até dezembro, deverá se aproximar de 14%, tamanha a desconfiança na capacidade do governo de honrar seus compromissos. Confirmada a projeção, a alta será comparável à vista na pandemia.
A previsão é que o custo continue subindo, e alguns falam que poderá chegar a 16%, patamar registrado apenas na recessão que sucedeu ao estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos (uma crise vinda de fora) e depois no governo Dilma (esta, de produção caseira mesmo).
Deve-se lembrar que o custo crescente incide sobre uma dívida muito superior às de 2009 ou 2016. (…) No cenário mais provável, o endividamento continua crescendo até chegar a 115%, um patamar elevadíssimo.
É preciso reconhecer que a estratégia adotada até agora é insustentável.
Sem um ajuste nas contas públicas no próximo governo, seja quem for o vencedor na eleição de outubro, a crise fiscal cobrará um preço altíssimo no longo prazo, com retrocesso provável em indicadores sociais de que o governo tanto se vangloria.
Fonte: O Globo, Opinião, 05/07/2026 00h10 Por Editorial
Gasto público está na origem dos juros, não o contrário
A recente disparada das taxas de juros no mercado de títulos públicos acende mais um alerta sobre a fragilidade das finanças do governo Lula.
Papéis de longo prazo indexados à inflação são negociados com TAXAS REAIS SUPERIORES A 8% AO ANO — e o GANHO DOS SONHOS PARA RENTISTAS reflete problemas crescentes de financiamento.
São as pressões fiscais persistentes —expansão contínua de gastos públicos, especialmente os obrigatórios, sob Lula — que impulsionam o déficit do Tesouro e a inflação, também alimentada pelo estímulo eleitoreiro ao crédito favorecido.
Para evitar o descontrole de preços, o Banco Central precisa manter seus juros nas alturas. O resultado é um círculo vicioso: taxas mais altas elevam o serviço da dívida, que consome fatia crescente da poupança nacional já escassa e reduz o espaço para investimento do setor privado.
O Brasil flerta com um cenário em que a degradação fiscal pode começar a limitar a ação da política monetária: mais elevações de juros para conter a inflação gerariam desconfiança quanto à solvência do Tesouro e novas pressões sobre os preços.
A margem para aperto adicional também é estreita devido aos impactos no setor privado, que sente o peso do crédito caro por meio de endividamento das famílias em nível recorde e inadimplência alta entre empresas.
A dependência de juros altos como único instrumento de controle da inflação não oferece, portanto, saída sustentável. Sem reconhecer esse fato básico, as autoridades semeiam ainda mais incerteza no mercado credor.
Fonte: Folha de S. Paulo, Opinião, 4.jul.2026 às 22h00 Por Editorial