Trabalhadores têm medo de retaliação nas empresas
Luciana Casemiro
O Globo
Mais da metade dos trabalhadores brasileiros (54,4%) afirma evitar expressar opiniões políticas sempre ou algumas vezes por receio de consequências profissionais. Entre os jovens, entre 18 e 24 anos, esse percentual chega a 61,2% dos trabalhadores. Além disso, 23,5% dizem já ter se sentido pressionados por uma autoridade a apoiar ou rejeitar uma posição política. Entre os que fizeram esse relato, 54,7% apontam proprietário, sócio ou integrante da alta liderança como uma das origens da pressão.
A Pesquisa Nacional Heach 2026 – Política sob Pressão, realizada com 2.080 trabalhadores das cinco regiões brasileiras, mostra que 42,7% dos entrevistados já viveram ou presenciaram alguma forma de pressão ou constrangimento político.
DIVERGÊNCIAS PREJUDICAM – O levantamento aponta ainda que, para 44,8%, divergências políticas já prejudicaram o clima, os relacionamentos ou a produtividade no trabalho. Em canais corporativos, como o WhatsApp, 43,2% dizem encontrar conteúdos políticos ou eleitorais com frequência ou algumas vezes.
Um dos pontos mais preocupantes da pesquisa é que 59,4% dos entrevistados afirmam que não se sentiriam seguros para recusar ou denunciar uma pressão eleitoral, não encontrariam um canal confiável ou não saberiam como fazer uma denúncia. Além disso, 31,9% temem sofrer retaliações.
Soma-se a esse cenário, o fato de que quase metade dos trabalhadores, 47,8%, afirmam não ter recebido nenhuma orientação da empresa sobre respeito às diferenças políticas e prevenção do assédio eleitoral. Apenas 13,6% dizem ter recebido orientações claras sobre o tema.
MEDO – Na avaliação de Elcio Paulo Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, quando mais da metade dos trabalhadores afirma evitar se posicionar por receio de consequências profissionais, o problema ultrapassa a discussão política.
— O silêncio deixa de ser simplesmente uma escolha pessoal quando é motivado pelo medo. Uma opinião deixa de ser apenas uma opinião quando vem acompanhada do poder de contratar, promover, avaliar ou demitir. A empresa não precisa impedir conversas sobre política. O que precisa impedir é que o poder econômico ou hierárquico seja utilizado para constranger, intimidar, favorecer ou prejudicar alguém por sua posição política — avalia Teixeira.