Moraes devia renunciar ao STF, antes de haver a investigação que irá condená-lo

Alexandre de Moraes e o golpe, Leite interrompe as férias e outras frases  da semana | GZH

Charge do Gilmar Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Eliane Cantanhêde
Estadão

A decisão que o Supremo Tribunal Federal está prestes a tomar, na próxima terça-feira, é doída, sim, mas de uma simplicidade desconcertante: se, em tese, qualquer cidadão pode ser investigado por suspeita de ter cometido desvios, por que não Sua Excelência Alexandre de Moraes? Se julgado culpado, que seja condenado. Se não, inocentado. Pelo menos, deve, ou deveria, ser assim…

O que, definitivamente, os ministros da corte não podem fazer é ignorar os 134 milhões de motivos para uma investigação. Para tentar salvar Moraes, um caso perdido, ao custo de esgarçar sem conserto a credibilidade do Supremo, desmoralizar as instituições e, tudo junto e combinado, impactar a eleição presidencial sem retorno?

DESMORONAMENTO – Se for nessa direção, o plenário vai concluir o desmoronamento do Supremo sem conseguir salvar a pele, a reputação e o destino de Alexandre de Moraes. Em vez de desmoronar um, desmontaria a corte com todos dentro.

Moraes insiste em fazer pronunciamento na terça-feira, mas o que tem o que dizer? Não tem como explicar o valor do contrato com o escritório da família, negar as 51 mensagens de Daniel Vorcaro e que usou “visualização única” nas suas respostas para não deixar rastros. Sabia o que estava fazendo e quais as consequências.

A única saída para Alexandre de Moraes é renunciar à toga, antes que seja obrigado a despi-la. Como esse ato, estaria dando uma trégua à divisão – ou polarização? – no STF e livrando seus pares, sobretudo os paus para toda obra, do profundo incômodo de ter de defendê-lo sem argumentos. O mais provável, porém, é que ele saia com quatro pedras e mais um rascunho da PF para tentar puxar André Mendonça para o seu próprio buraco. Só vai piorar as coisas para ele, para o Supremo e para a eleição.

FACHIN REINA – O ministro Edson Fachin demorou a engrenar, até o empurrão de ex-presidentes do STF, empresários, entidades e líderes, mas começa a ser saudado por fazer a coisa certa, como desconsiderar o mau conselho de juntar o caso de Moraes e as críticas processuais contra Mendonça no mesmo saco e na mesma sessão.

Ok, Mendonça deve explicações, inclusive sobre a demora em investigar o escândalo “Dark Horse”, que envolve Flávio Bolsonaro e valores iguais aos do contrato do Barci Advogados. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O problema de Moraes é muito mais grave, desvia o foco da eleição para o Supremo e pode deixar cicatrizes indeléveis. Aliás, que mal lhes pergunte: se a cabeleireira Débora pegou 14 anos de prisão por escrever na estátua da Justiça com batom, qual a pena para quem joga lama na Justiça?

One thought on “Moraes devia renunciar ao STF, antes de haver a investigação que irá condená-lo

  1. Supremo: dez escorpiões numa garrafa

    O Supremo meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise.

    Não há um fiapo de política pública separando Moraes e Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Vorcaro e Mendonça já chamou o ex-moto (que o indicou para o STF) de “profeta”.

    Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise — Toffoli, Moraes, Dino e Mendonça — vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do banco Master preocupados em apagar as luzes da sala.

    Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.

    Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.

    Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal.

    Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque julgaram-se invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.

    (xxx)

    Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do Tayayá, por exemplo, o STF deu-se ao ridículo.

    Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez.

    Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino disse do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá:

    -“Essas 200 páginas (de relatório da PF), para mim, são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico.”

    Fonte: O Globo, Opinião, 13/09/2026 03h30 Por Elio Gaspari

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