
Charge do Baggi (Jornal de Brasília)
Elio Gaspari
O Globo
Lula desistiu de ir ao debate desta quinta-feira na TV Globo. Com isso, o primeiro turno ficará sem debate entre os candidatos competitivos. É pena, mas os nomes de uma terceira via tiveram meses para romper a barreira do dígito e não conseguiram. Essa monotonia fez da eleição presidencial um evento burocrático, sem ideias, plataformas ou desafios. Lula 4.0 seria uma continuação de Lula 3.0 que nada foi além dos Lulas passados. Há um candidato do PT, outro contra o PT, e estamos conversados.
A ideia de faltar a mais esse debate é arriscada. Numa eleição apertada como essa, a imagem da cadeira vazia pode ter um efeito desastroso, mesmo para o segundo turno.
PRINCIPAL ALVO – Num debate com quatro candidatos, Lula será o principal alvo. Se as chances de cada um fossem semelhantes, tudo bem. Mas não: Lula e Flávio disputam uma eleição apertada, e os demais tornaram-se figurantes. Está na memória de todos a figura patética do padre Kelmon em 2022. Só com quatro candidatos esse risco estaria reduzido, mas não eliminado.
Ir ao debate seria a melhor ideia. No caso de Lula, teria a vantagem adicional de espanar a ideia segundo a qual está cansado.
Com Flávio Bolsonaro a situação se agrava. Ele é o pai, que por sua vez personifica pouco mais que um renitente sentimento antipetista. O Brasil é maior que essa mixaria, e os desafios estão aí.
CRISE DO SUPREMO – A novela da corrupção na alta magistratura continuará sendo assunto nos próximos meses e é bom que seja assim, mas o país de farofeiros deslumbrados está ofuscando outro país, que anda.
Nele constroem-se novas linhas de metrô em São Paulo, mais o túnel Santos-Guarujá. Na semana passada zarpou do porto de Lüsi, na China, o maior bate-estacas marítimo do mundo. Ele vem para a obra da ponte que ligará Salvador à Ilha de Itaparica, com 12,4 quilômetros de extensão, um pouco maior que a Rio-Niterói.
Com obras desse tamanho, os charutos do procurador-geral Paulo Gonet são apenas fumaça, produzida por um burocrata deslumbrado, escoltado por um banqueiro espertalhão.
NÍVEL DE INDIGÊNCIA – O Brasil é muito maior do que a arena onde pontificam esses doutores. Por isso é pena que a sucessão presidencial esteja num nível inédito de indigência. Parece até que a eleição é uma formalidade. Temas abundam, mas falta disposição aos candidatos, sobretudo a Lula e Bolsonaro, para debatê-los.
Como não há debates, ideias nem propostas, Nossa Senhora Aparecida ocupou o espaço vazio. Se algum político ou religioso quiser retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, terá uma surpresa: a fé popular manterá o título. A ideia de destronar Nossa Senhora é velha e inútil.
Os poderosos da ocasião tomam carona na história da santa que atrai milhões de peregrinos a cada ano. Mexer com devoções populares nunca deu certo. A hierarquia católica tentou enquadrar a devoção dos napolitanos por San Gennaro ou a dos nordestinos por Padre Cícero. Pura perda de tempo.
Chamar figurões mafiosos que mandam e desmandam no país de burocratas deslumbrados subestima a sua real importância.
Das obras citadas, retardatárias e superfaturadas, o Brasil clama por infraestrutura, mas não é ouvido.
Vastas regiões seguem isoladas.
Até as eleições dependem da tecnologia de Elon Musk.
Nossos competentes engenheiros estão mendigando, dormindo nas calçadas, fazendo uber e entregando IFood.
Enquanto continuamos extraindo e mandando matéria prima.
Bajulando China e Estados Unidos.
E arrotando “soberania”
Como papagaios
Ou piores
Sem a mínima noção do que significa.
Esse é o Brasil tacanho, parado e roubado.
De FHC, passando por poste, usurpador e Bolsonaro até Lula 6.