Um poema em homenagem à Música Brasileira, na criatividade de Olavo Bilac

Há quem me julgue perdido,porque... Olavo BilacPaulo Peres
Poemas & Canções
 

O jornalista e poeta carioca Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918), no soneto “Música Brasileira”, faz uma homenagem poética aos diferentes gêneros musicais que à época eram os preferidos em nosso país. Bilac foi responsável pela criação da letra do Hino à Bandeira, inicialmente criado para circulação na capital federal da época (o Rio de Janeiro), e mais tarde sendo adotado em todo o Brasil. Também ficou famoso pelas fortes convicções políticas, sobressaindo-se a ferrenha oposição ao governo militar do marechal Floriano Peixoto.

MÚSICA BRASILEIRA
Olavo Bilac

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, xiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes. 

“Deixei a porta aberta, vi passar a convivência, nem percebi o rancor, a maldade…”

TRIBUNA DA INTERNET | Diálogos de poetas, na criatividade de Luiz Otávio  Oliani

Luiz Otávio Oliani exibe os livros de poemas já lançados

Paulo Peres
Poemas & Canções

O Bacharel em Letras e Direito e poeta carioca Luiz Otávio Oliani teve a ideia de reunir diálogos com poetas brasileiros contemporâneos, divulgando-os nas redes sociais. Esses poemas foram inicialmente publicados no seu mural do Facebook e depois migraram para o primeiro livro impresso “Entre-textos”, lançado pela Editora Vidráguas, de Porto Alegre, em 2013, uma publicação de 41 diálogos, ou seja, para cada poema Luiz Otávio responde com outro poema, um desafio chamado: o avesso do verso (reverso).

Neste sentido, Luiz Otávio Oliani, através o poema “Busca” responde ao poema “Desarticulação”, da ativista cultural e poeta carioca Neudemar Sant’Anna.

DESARTICULAÇÃO
Neudemar Sant’Anna

Deixei a porta aberta
Aberta demais
Apenas vi passar
a convivência

Nem percebi
o rancor
a maldade
o falso rastro

Ao tentar fechá-la
com lágrimas lubrifico
as dobradiças
enferrujadas

Disfarço o ranger   
da própria dor

###
BUSCA
Luiz Otávio Oliani

nas frestas do mundo
fogos de artifício,
serpentinas,
palmas…

o que houve?
felicidade à porta
e minha porta, trancada

“Meu coração tropical está coberto de neve”, dizia a canção de João Bosco e Aldir Blanc

João Bosco repudia ação da PF e uso de sua música - GGNPaulo Peres
Poemas & Canções

O psiquiatra, escritor e compositor carioca Aldir Blanc Mendes (1946-2020), na letra de “Corsário”, em parceria com João Bosco, mostra o canto do homem frio despertando para novas possibilidades de vida. A música faz parte do LP Essa é a Sua Vida gravado por João Bosco, em 1981, pela RCA Victor.

CORSÁRIO
João Bosco e Aldir Blanc

Meu coração tropical
está coberto de neve, mas,
ferve em seu cofre gelado
e a voz vibra e a mão escreve: mar
Bendita a lâmina grave
que fere a parede e traz
as febres loucas e breves
que mancham o silêncio e o cais

Roseirais
Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso
vou partir a geleira azul da solidão
e buscar a mão do mar,
me arrastar até o mar,
procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas
mensagens por todo o mar,
meu coração tropical
partirá esse gelmurtilo e irá
com as garrafas de náufrago
e as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha
e as rosas partindo o ar

Um retrato da noite carioca de outrora, na visão do poeta mineiro Murilo Mendes

Só não existe o que não pode ser... Murilo MendesPoemas & Canções
Paulo Peres
 
O notário e poeta mineiro Murilo Monteiro Mendes (1901-1975) descreve os componentes existentes na “Noite Carioca, mormente, nas duas primeiras décadas do século passado.

NOITE CARIOCA

Murilo Mendes

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.

Casais grudados nos portões de jasmineiros…
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.

Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas…

Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos criouléus suarentos
O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos para dormir.

Conheça um poema de protesto de Moacyr Félix, nos tempos da ditadura militar

Moacyr Felix - Poemas escolhidos

Moacyr Felix. um líder entre os intelectuais

Paulo Peres
Poemas & Canções

O editor, escritor e poeta carioca Moacyr Félix de Oliveira (1926-2005), como intelectual e ativista, foi um dos fundadores do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), que teve a adesão no Rio de Janeiro de mais de quatrocentos intelectuais de todas as áreas das artes, da literatura, da ciência e das profissões liberais. Em 1964, foi eleito membro do Conselho Deliberativo deste movimento político. No poema “Sentimento Clássico”, expõe a dor que colocamos em tudo e, calados, procuramos ser o que jamais seremos.


SENTIMENTO CLÁSSICO

Moacyr Félix

Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste!

Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.

Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.

Uma desesperada canção de amor perdido, na criatividade de Alceu Valença

Alceu Valença anima véspera de São Pedro em Arcoverde | NE10 Interior

Alceu Valença canta a alegria, mas também canta a dor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O pernambucano Alceu Valença é formado em Direito e pós-graduado em Sociologia, mas por causa da música desistiu dessas carreiras, para ser cantor e compositor. Na letra da música “Na Primeira Manhã”, gravada em 1980 no seu LP “Coração Bobo”, Alceu utiliza metáforas para definir a perda e, consequentemente, a solidão pela qual estava passando.

NA PRIMEIRA MANHÃ
Alceu Valença

Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho
Como um conde falando aos passarinhos
Como Bumba-Meu-Boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como sol no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei mares, estradas e caminhos
Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca um sussurro
Fiz um canto doente, absurdo
Um lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão
Solidão

“Quando a lua vem surgindo, cor de prata”, cantava Nélson Gonçalves a canção de Adelino Moreira

LP ENCONTRO COM ADELINO MOREIRA

Adelino Moreira foi autor de grandes sucessos

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O compositor luso-brasileiro Adelino Moreira de Castro (1918-2002), na letra de “Sinfonia da Mata”, invoca o som do riacho, da cascata e da viola para completar sua orquestração. Este samba-canção foi gravada por Nelson Gonçalves, em 1965, pela RCA Victor.

SINFONIA DA MATA
Adelino Moreira

Tenho a viola, que retiro da parede
Quando é noitinha, para pontear
Tenho a gaiola, meu canário e uma rede
Sempre esticadinha, pra meu bem sonhar.

Quando a lua vem surgindo, cor de prata
Ilumina meu pedaço de torrão
Meu ranchinho, aqui no seio da mata
Não precisa, nem que acenda lampião.

Sinfonia do riacho e da cascata
Minha viola completa a orquestração

Uma homenagem poética de Millôr ao grande ator e compositor Mário Lago

TRIBUNA DA INTERNET | Uma brincadeira poética de Millôr Fernandes com seu  amigo Mário LagoPaulo Peres
Poemas & Canções
 

O desenhista, humorista, dramaturgo, tradutor, escritor, jornalista e poeta carioca Milton Viola Fernandes (1923-2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, revela a “Predestinação” que poetizou para Mário Lago.

PREDESTINAÇÃO
Millôr Fernandes

Tinha no nome seu destino líquido: mar, rio e lago.
Pois chamava-se Mário Lago.
Viu a luz sob o signo de Piscis.
Brilhava no céu a constelação de Aquário.

Veio morar no Rio.
Quando discutia, sempre levava um banho.
Pois era um temperamento transbordante.
Sua arte preferida: água-forte.

Seu provérbio predileto: “Quem tem capa, escapa”.
Sua piada favorita:
“Ser como o rio: seguir o curso sem deixar o leito”.
Pois estudava: engenharia hidráulica.

Quando conheceu uma moça de primeira água.
Foi na onda.
Teve que desistir dos estudos quando
já estava na bica para se formar.

Então arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde desceu até ser leiteiro.
Encarregado de pôr água no leite.
Ficou noivo e deu à moça uma água marinha.

Mas ela o traiu com um escafandrista.
E fugiu sem dizer água vai.
Foi aquela água.
Desde então ele só vivia na chuva

Virou pau de água.
Portanto, com hidrofobia.
Foi morar numa água furtada.
Deu-lhe água no pulmão.

Rim flutuante.
Água no joelho.
Bolha d’água.
Morreu afogado.

Na visão de Del Picchia, as roupas dançam nos varais, numa fila macabra de enforcados!

Menotti Del Picchia – Wikipédia, a enciclopédia livre

Menotti Del Picchia, um intelectual multifacetado

Paulo Peres
Poemas & Canções

O político, tabelião, advogado, jornalista, pintor, cronista, ensaísta, romancista e poeta paulista Paulo Menotti Del Picchia (1892-1988) se inspirou numa chuva de granizo que fustigava um cafezal.

CHUVA DE PEDRA
Menotti Del Picchia

O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de frutas dos pomares…

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes…
fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pêlos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura dinamite dos coriscos.
Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados!

Uma belíssima homenagem do poeta Abel Silva à vida e à obra de Vinicius de Moraes

A bel prazer' reanima dor de amor do poeta Abel Silva em vozes estelares | G1 Música Blog do Mauro Ferreira

Abel Silva gravou um CD só com canções inéditas

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor, jornalista, escritor e compositor Abel Ferreira da Silva, nascido em Cabo Frio (RJ), diz que é um dos “filhos ideológicos” de Vinícius de Moraes: “Ele nos apontou para o fim das hierarquias opressivas e patrimonialistas entre poesia “superior” e “popular” e minha geração entendeu claramente o recado, razão pela qual escrevi a letra de “Rua Vinícius de Moraes”. A música foi gravada por Fernanda Cunha no CD O Tempo e o Lugar, em 2002, produção independente.

 

RUA VINÍCIUS DE MORAES
Sueli Costa e Abel Silva


Vou pela Rua Vinícius de Moraes
Enquanto amendoeiras dispensam
Folhas mortas
Como se fossem papéis
Escritos com sangue e alegria
Papéis manchados de vida
E poesia

Sou as canções que eu faço
E as que farei
Sou os amores que tenho
E os que terei
Pois o amor e as canções
São o esperanto geral
Que me protege das manhãs
Do mal

Ando sem medo da dor
Ou da morte
Nasce o dia
Com suas trombetas tropicais
Enquanto piso as folhas
Das amendoeiras vermelhas
Da Rua Vinícius de Moraes

Numa rua morta, o passeio do poeta e a presença dos fantasmas daquelas moças

100 POEMAS ESCOLHIDOS - CEPE EditoraPaulo Peres
Poemas & Canções
 

O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), no poema “Rua Morta”, não sente um cheiro dos jardins abandonados, mas os perfumes dos cabelos dos fantasmas das moças de outras épocas.

RUA MORTA
Mauro Mota

Longa rua distante de subúrbio,
velha e comprida rua não violada pelos prefeitos,
passo sobre ti suavemente neste fim de tarde de domingo.

Sinto-te o coração pulsando oculto sob as areias.
O sangue circula na copa imensa dos flamboyants.

Tropeço nos passos perdidos há muito nestas areias,
onde as pedras não vieram ainda sepultá-los.
Passos de homens que jamais voltarão.

Ó velhos chalés de 1830,
eterniza-se entre as paredes o eco das vozes de invisíveis habitantes.
Mãos de sombras femininas abrem de leve janelas no oitão.

Há um cheiro de jasmins e resedás
que não vem dos jardins abandonados,
mas dos cabelos dos fantasmas das moças de outrora. 

Quintana fez um poema sobre o riso de sua amada, mas as palavras se perderam na chuva

Resultado de imagem para mário quintana frasesPaulo Peres
Poemas & Canções
O tradutor, jornalista e poeta gaúcho Mário de Miranda Quintana (1906-1994) fez um poema à procura do riso de sua amada.
EU FIZ UM POEMA
Mário Quintana
Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro…
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavra de um dicionário.
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra…
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?

“Lá fora faz um tempo confortável, a vigilância cuida do normal…”, canta o genial Zé Ramalho

Cantor Zé Ramalho passa por cirurgia no coração | VEJA

Zé Ramalho, um compositor que mostra a realidade

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor paraibano José Ramalho Neto, mais conhecido como Zé Ramalho, em 1979 lançou o LP A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu, pela EPIC/CBS, onde a música “Admirável Gado Novo” destacou-se como sucesso, mormente, pela crítica que sua letra fazia à ditadura militar e ao conformismo da maior parte do povo, comparado ao gado, “povo marcado, povo feliz”. Povo (massa) que paga impostos (dá muito mais do que recebe).

O povo espera sempre o melhor, porém não tem consciência da sua força, do seu poder, especialmente, através do voto, visto que a mudança depende dele mesmo. A ditadura militar acabou, mas a letra da música continua bastante atual, diante do quadro econômico-político-social vigente no país.

ADMIRÁVEL GADO NOVO
Zé Ramalho

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam esta vida numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível,
Não voam, nem se pode flutuar
Êh, oô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!

“Podem prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião”

  Musica popular brasileira, Canção

Cartola, Nara Leão, Zé Keti e Nelson Cavaquinho.

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Zé Kéti, nome artístico de José Flores de Jesus (1921-1999), compôs em 1964 o samba “Opinião”, cuja letra possui um impacto forte, criado pelo relato  do dia-a-dia na favela. Alguns historiadores afirmam que a data desta composição é anterior a 1964, porque fora composta em protesto ao governador Carlos Lacerda, do antigo Estado da Guanabara, o qual decidira acabar com as favelas, removendo os seus habitantes para a bairros afastados do centro e da Zona Sul. Em 1964, Nara Leão e João do Vale participaram do Show Opinião, um dos primeiros gritos artísticos de protesto contra o regime militar. O samba “Opinião” inspirou os nomes de um jornal, de um teatro, do grupo que encenou a peça e do segundo LP de cantora, intitulado Opinião de Nara, lançado no final de 1964, pela Philips.
 
OPINIÃO
Zé Keti
Podem me prender
Podem me bater
Podem, até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar


Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor
Estou pertinho do céu

Um poema denunciando a desigualdade social, na visão crítica de Mário de Andrade

90 anos da Semana de Arte Moderna (1922) – JOAQUIM

Mário de Andrade, retratado por Tarsila do Amaral

Paulo Peres
Poemas & Canções

O romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotógrafo e poeta paulista Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) faz, neste poema, uma comparação entre o homem de um grande centro urbano e a vida precária de um seringueiro, o homem do Norte, naquela época uma região praticamente abandonada pelas autoridades. Logo, trata-se de uma forma indireta de denúncia bem própria do Modernismo da primeira geração.

DESCOBRIMENTO

Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte,
meu Deus! muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro
de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

“O sofrimento dos fortes”, um desabafo social de Márcia Barroso, em forma de poema

Moradores de rua reclamam da falta de assistência da Prefeitura de SP em noite fria | São Paulo | G1

O abandono dos moradores de rua é totalmente injustificável

Paulo Peres
Poemas & Canções

A assistente social do Tribunal de Justiça (RJ), letrista e poeta Marcia Figueiredo Barroso, nascida em São Gonçalo (RJ), no poema “O Sofrimento dos Fortes”, mostra a triste realidade de parte de nossa população.

O SOFRIMENTO DOS FORTES
Marcia Barroso

Tenho em mim
o sofrimento dos fortes
que suportam a fome
e carregam no corpo
as marcas do açoite, mas,
nem assim,
desistem da liberdade!
Sou tatuado  em brasas,
choro sem lágrimas
e nem a cegueira imposta
impede a minha visão
de saber que ainda assim
sou humano sobrevivente….
Sou aquele que insiste em ser
apesar de há muito
estar esquecido
e não passar de uma sombra
de viver nas trevas,
no abandono
e na marginalização.
Sou aquele que vive
mesmo não sendo visto…
Sou estatística
de violência,
de mau comportamento,
de pobreza e inadequação.
Moro nas favelas,
nos guetos,
nas ruas
e nos cárceres.
Minha sina é não ter um lar.
Eu sou vagabundo!
Aquele que pede,
que ronda,
que rouba e furta
os bens das pessoas reais.
Enfim sou o desemprego,
o camelô,
a prostituta,
o “menor” abandonado.
Sou as sobras,
o incômodo,
o lixo não reciclável…
E que pena!
Continuo a me multiplicar
para quem sabe um dia,
minha semente
possa ser abençoada
e me permitam viver
entre os humanos brancos
eleitos!
E tenha a absolvição
de uma condenação perpétua
proferida por um Deus
que há muito me esqueceu!

Quando tudo está perdido, surge um caminho, diz o cantor Zé Geraldo

Musical: - Todo Seu (14/11/18) - YouTube

Zé Geraldo, um dos maiores compositores mineiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor mineiro José Geraldo Juste, explica na letra de “Galho Seco” que nunca tudo está perdido diante dos obstáculos com que nos defrontamos.  A música foi gravada por Zé Geraldo no LP Ninho de Sonhos, em 1991, pela Eldorado.
 
GALHO SECO 
ZÉ GERALDO

Quando um homem chega numa encruzilhada,
Quando a gente chega numa encruzilhada
Olha prum lado é nada
Olha pro outro é nada também
Aí o céu escurece, o céu desaba
Tudo se acaba.
Quando tudo tá perdido na vida
Só quando tudo tá perdido na vida
É que a gente descobre que na vida
Nunca tudo tá perdido, meu irmão.
Eu andava acabrunhado e só
Perdido e sem lugar
Feito um galho seco
Arrastado pelo temporal
Pensei até
Em enrolar minha bandeira
E dar no pé
Eu pensei até em jogar fora a minha história
Os documentos e aquela fé


Fazia tempo que o sol não derramava
Luz na minha vidraça
Depois que tudo passa
O vento leva as nuvens negras
Noutra direção
Também pudera uma hora
Era o fogo que rasgava o chão
Outra hora era a água que
Descia e afogava toda plantação

Ainda bem que me restou o seu sorriso
Que me alumia a alma que me acalma
Quando é preciso
E como eu preciso.

No poema “Boda Espiritual”, Manuel Bandeira exibe toda a intensidade do amor verdadeiro. 

Eu gosto de delicadeza. Seja nos gestos,... Manuel BandeiraPaulo Peres
Poemas & Canções
 

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1866-1968), conhecido como Manuel Bandeira, no poema “Boda Espiritual”, mostra toda a intensidade do amor verdadeiro. 

BODA ESPIRITUAL
Manuel Bandeira
Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
– Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a…afago-a
Ah, como a minha mão treme…Como ela é tua…

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra nágua.

Gemes quase a chorar. Súplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso…

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo…

E te amo como se ama um passarinho morto.

Há quem diga que Lula e o PT são comunistas, mas isso é coisa de analfabeto político

TRIBUNA DA INTERNET | Governo do PT não tem nada de comunistaPaulo Peres

É sempre bom repetir essa matéria do Santos Aquino, a qual mostra que os Estados Unidos desde 1964 são quem manda no Brasil, nos militares que deram o golpe que destituiu o governo João Goulart, criaram o PT e o Lula, com medo do Leonel Brizola que voltava do exílio e poderia vencer as eleiçõs no Brasil.

Vale acrescentar, que o PT disse que iria tacar fogo no Brasil, caso o Presidente Jair Bolsonaro tomasse em janeiro de 2019, mas isto jamais aconteceu, pois o PT é cria dos militares.

###
SE FALAR, LULA INCRIMINARÁ MUITA GENTE QUE ESTÁ LIVRE

Antonio Santos Aquino

Poucos sabem que Luiz Ignacio Lula da Silva é produto pronto e acabado da Revolução (golpe de 1964). Foi protegido desde que os irmãos Villares, empresários do ramo metalúrgico naval, o apresentaram como sindicalista confiável aos militares. Desde então foi protegido pelo general Golbery do Couto e Silva, ideólogo da “Revolução” de 1964.

Lula fez curso numa escola paga pelos americanos desde 1953 em São Paulo, para formar líderes sindicais. Em 1972/73 foi para os Estados Unidos tomar aulas de “sindicalismo” na central sindical AFL-CIO e na Johns Hopkins University.

BRIZOLA DE VOLTA – Lula foi preparado para se contrapor a Leonel Brizola que voltava do exílio depois de 15 anos e ainda metia medo aos militares com a tal “República Sindicalista” que nunca existiu e nunca foi cogitada. Foi até um pretexto para o golpe planejado nos Estados Unidos em 1964 (isso é conhecido e provado).

Lula deve saber alguma coisa dos militares e muitas coisas pesadas de políticos, corrupção e crimes, inclusive. E se Lula, seguindo o amigo Sérgio Cabral, resolver fazer uma delação?

Já ouvi falar nisso ao jogar “dama” com outros cascudos como eu, na Praça Cruz Vermelha, e que têm filhos que exercem funções de destaque no governo, inclusive oficiais das Forças Armadas. Não são daquela época, mas ouvem muitas coisas e relatam aos pais.

MEDO DE FALAR – O que sei é que Lula tem medo de falar. Só fará delação se a imprensa internacional assistir. Seria “um deus nos acuda”. O que tem de pilantras e bandidos que comeram do fruto proibido e estão posando de vestais é impensável.

Perguntem quem é Lula ao José Sarney, ao filho de Tuma, ao ministro aposentado Almir Pazzianoto e ao representante da Volkswagen na Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores, Mário Garneiro.

Há quem diga que Lula e o PT são comunistas, mas isso representa a maior ignorância. É coisa de analfabeto político.

“Não quero a boa razão das coisas, quero o feitiço das palavras”. pedia a Deus o poeta

Poesia não é para compreender mas para... Manoel de BarrosPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta mato-grossense Manoel Wenceslau Leite de Barros, no poema “Deus Disse”, menciona os seus desejos depois que recebeu um dom Divino.

DEUS DISSE
Manoel de Barros

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.

Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.

Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.

Quero o feitiço das palavras.