Um poema sem esperança, na visão de Drummond, sobre o que é viver neste mundo

A conquista da liberdade é algo que faz... Carlos Drummond de Andrade -  PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O bacharel em Farmácia, funcionário público, escritor e poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), um dos mestres da poesia brasileira, fala das angústias de quem esperava mais do viver.

VIVER
Carlos Drummond de Andrade

Mas era apenas isso,
era isso mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?

O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

“Olha, lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão”, cantava Gil

Em vídeo, Gilberto Gil canta música da banda capixaba Manimal | A Gazeta

Gilberto Gil, um artista que contesta a desigualdade social

Paulo Peres
Poemas & Canções

O administrador de empresas, político, cantor, compositor e poeta baiano Gilberto Passos Gil Moreira, proporciona na letra de “Procissão” uma interpretação marxista da religião, vista como ópio do povo e fator de alienação da realidade, segundo o materialismo dialético. A letra mostra a situação de abandono do homem do campo do Nordeste, a área mais carente do país. A música foi gravada por Gilberto Gil em compacto simples  e no LP Louvação, em 1967, pela gravadora Unima Music.

PROCISSÃO
Gilberto Gil

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão, só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus, só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho prá viver

Muita gente se arvora a ser Deus e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido prá Maria, e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem, meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento, cá na Terra isso tem que se acabar

Cairo Trindade, poeta gaúcho, queria ser o arauto dos sem-terra, dos sem-teto e dos sem-voz

Cairo Trindade foi criador do movimento “Poeme-se”

Paulo Peres
Poemas & Canções

A arte do poeta gaúcho Cairo de Assis Trindade tem forte conotação social. Ele jamais esquecia os  fracos, marginalizados e renegados pela sociedade, mas sempre mantinha seu viés romântico, como neste “Cantor do Amor”.  Cairo Trindade morreu em 2019.

CANTOR DO AMOR
Cairo Trindade

Eu queria ser o poeta
dos sem-terra e dos sem-teto;
servir, como um anjo da guarda,
aos tristes e deserdados;

ser o arauto dos sem-voz,
dos loucos, perdidos e sós;
dos feios, fracos, falidos,
sem porra nenhuma na vida.

Eu queria ser o poeta
de todos os que não deram certo;
sem deixar, por um instante,
de ser o cantor dos amantes.

“Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente…

Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré | Análise sobre  música brasileira

Vandré, grande destaque nos festivais de música

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, na letra de “Disparada”, faz uma crítica à ditadura vivida na época e, consequentemente, apresenta uma maravilhosa comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente.

Neste sentido, a boiada é o povo, a massa (população inconsciente, alienada). Boiadeiro é um líder carismático, que pode ser político ou religioso. Logo, quando o povo começou a sonhar, teve revelações sob a realidade das coisas e, então, acordou da ignorância e teve consciência da realidade.

Em 1966, a música “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, participou do II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), dividindo o primeiro lugar com “A banda” de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Nesse mesmo ano, a música foi gravada pelo próprio Jair Rodrigues no LP O Sorriso de Jair, pela Philips.

DISPARADA
Théo de Barros e Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

O romantismo do poeta Belmiro Braga, num soneto que desliza como as águas de um rio…

Olhando O Rio | Poema de Belmiro Ferreira Braga com narração de Mundo Dos  Poemas - YouTubePaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta Belmiro Ferreira Braga (1872-1937), nascido em Vargem Grande (MG), no soneto “Olhando o Rio”,  compara o transcurso do rio com o sofrimento de seu coração tristonho.

OLHANDO O RIO
Belmiro Braga

Nas noites claras de luar, costumo
ir das águas ouvir o vão lamento;
e, após o ouvi-las, cauteloso e atento
que o rio também sofre, eis que presumo.

Nesse que leva tortuoso rumo,
que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
e agora desce encachoeirado e a prumo.

O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
ali o deslizar calhau lhe veda;
além, de novo, sem fragor, desliza…

És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
vives tu a gemer de sonho em sonho.

Em versos, Bastos Tigre reclama da amada que não sabia como colocar os pronomes

Bastos Tigre – Wikipédia, a enciclopédia livre

Bastos Tigre foi o criador da famosa revista “Don Quixote”

Paulo Peres
Poemas & Canções

O publicitário, bibliotecário, humorista, jornalista, compositor e poeta pernambucano Manoel Bastos Tigre (1882-1957), sentia-se perturbado com a “Sintaxe Feminina” de sua amada.

SINTAXE FEMININA
Bastos Tigre

Leio: “Meu bem não passa-se um só dia
Que de você não lembre-me”… Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem às regras de sintaxe!

Continuo: “Em ti penso noite e dia…
Se como eu amo a ti, você me amasse!”
Não! É demais! Com bruta grosseria
A gramática insulta em plena face!

Respondo: “Sofres? Sofrerei contigo…
Por que razão te ralas e consomes?
Não vês em mim teu dedicado amigo?

Jamais, assim, por teu algoz me tomes!
Tu me colocas mal! Fazes comigo
O mesmo que fizeste com os pronomes!”…

Um desesperado poema de amor, na criatividade das palavras de Aurélio Buarque de Holanda

O assunto é Língua Portuguesa: Aurélio Buarque de Holanda – Blog da EAD  Unipar

Aurélio era mais conhecido como o “Homem-Dicionário”

Paulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário, lexicógrafo, filólogo, professor, tradutor e ensaísta alagoano, Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989), também usou as palavras para nos brindar com este belo soneto “Amar-te”.

AMAR-TE
Aurélio Buarque de Holanda

Amar-te – não por gozo da vaidade,
Não movido de orgulho ou de ambição,
Não a procura da felicidade,
Não por divertimento à solidão.

Amar-te – não por tua mocidade
– Risos, cores e luzes de verão –
E menos por fugir à ociosidade,
Como exercício para o coração.

Amar-te por amar-te: sem agora,
Sem amanhã, sem ontem, sem mesquinha
Esperança de amor, sem causa ou rumo.

Trazer-te incorporada vida fora,
Carne de minha carne, filha minha,
Viver do fogo em que ardo e me consumo

Na genialidade de Fernando Lobo, “podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais…”

Fernando Lobo, com o neto Bernardo, e o filho Edu Lobo

Paulo Peres
Poemas & Canes

O jornalista, radialista e compositor pernambucano Fernando de Castro Lobo (1915-1996), ao compor Chuvas de Vero, retratou na letra o clima de confisses amorosas que prolongavam ou encerravam romances iniciados nos ambientes das boites dos anos 40 e 50.

A msica, gravada originalmente por Francisco Alves, em 1949, pela Odeon, e por Nelson Gonalves, talvez no se tornasse um clssico, conforme reconheceu o prprio Fernando Lobo, no fora a verso gravada por Caetano Veloso, vinte anos depois.

Caetano Veloso juntou a beleza j existente na composio ao clima de rompimento amoroso, com uma delicadeza de tratamento que faltou gravao original; a cano tem seu momento culminante no verso que repete o ttulo, definindo com lirismo e preciso a transitoriedade dos romances de ocasio.

CHUVAS DE VERO
Fernando Lobo

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, no presente
Repetem velhos temas to banais

Ressentimentos passam como o vento
So coisas de momento
So chuvas de vero.
Trazer uma aflio dentro do peito
dar vida a um defeito
Que se extingue com a razo

Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma
No te desejo mais

Podemos ser amigos simplesmente
Amigos, simplesmente, nada mais

Augusto Frederico Schmidt queria dizer “as grandes palavras, as que parecem sopradas de cima”

Augusto Frederico Schmidt - poemas - Revista Prosa Verso e Arte

Schmidt e o galo branco que inspirou um de seus poemas

Paulo Peres
Poemas & Canes

O jornalista, conselheiro poltico, editor, empresrio e poeta carioca Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), no poema Compreenso, usa palavras conjugadas s verdades para falar com o seu amor.


COMPREENSO
Augusto Frederico Schmidt

Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das guas lcidas.
Eu te direi a minha compreenso do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada.
E sentirei que te libertei da solido
Porque desci ao teu ser mltiplo e sensvel.
Quero descer s tuas regies mais desconhecidas
Porque s minha Ptria
As tuas paisagens so as da minha saudade.
Quero descer ao teu corao como se descesse ao mar,
Quero chegar tua verdade que est sobre as guas.
Quero olhar o teu pensamento que est sobre as guas
E azul
Como este cu cortado pelas aves,
Como este cu limpo e mais fundo que o mar.
Quero descer a ti e ouvir
As tuas manhs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de rseo como nuvens frgeis
tangidas pelo ventos
Quero assistir tua noite e ao sacrifcio dos teus martrios.
Oh! estrela, oh! msica,
Oh! tempo, espao meu!

Eu te direi as grandes palavras,
As que parecem sopradas de cima.
Eu te direi as grandes palavras,
As que conjugam com as grandes verdades,
E saem do sentimento mais fundo,
Como os animais marinhos das guas lcidas.
Eu te direi a minha compreenso do teu ser,
E sentirei que te transfiguras a ti mesmo revelada.
E sentirei que te libertei da solido
Porque desci ao teu ser mltiplo e sensvel.
Quero descer s tuas regies mais desconhecidas
Porque s minha Ptria
As tuas paisagens so as da minha saudade.

Quero descer aoteu corao como se descesse ao mar,
Quero chegar tua verdade que est sobre as guas.
Quero olhar o teu pensamento que est sobre as guas
E azul
Como este cu cortado pelas aves,
Como este cu limpo e mais fundo que o mar.
Quero descer a ti e ouvir
As tuas manhs acordadas pelos galos.
Quero ver a tua tarde banhada de rseo como nuvens frgeis
tangidas pelo ventos
Quero assistir tua noite e ao sacrifcio dos teus martrios.
Oh! estrela, oh! msica,
Oh! tempo, espao meu!

De repente, um poema menos sombrio e mais otimista na obra de Augusto dos Anjos

Os 27 melhores poemas de Augusto dos Anjos sobre a morte e o amor - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canes


O advogado, professor e poeta paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914)
o mais sombrio dos poetas brasileiros, e tambm o mais original. Sua obra, influenciado por Naturalismo e Simbolismo, absolutamente pessoal e pessimista. Neste soneto Vencedor, porm, Augusto dos Anjos mostra um lado mais otimista.

VENCEDOR
Augusto dos Anjos

Toma as espadas rtilas, guerreiro,
E rutilncia das espadas, toma
A adaga de ao, o gldio de ao, e doma
Meu corao estranho carniceiro!

No podes?! Chama ento presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu corao triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem
E no pude dom-lo, enfim, ningum,
Que ningum doma um corao de poeta!

“Mande notcias do mundo de l”, pediam Milton Nascimento e Fernando Brant, na estao do trem

Orquestra Ouro Preto: live para Milton e Brant - Blima Bracher

Brant e Milton, dois amigos eternos, parceiros geniais

Paulo Peres
Poemas & Canes

O advogado, compositor e poeta mineiro Fernando Rocha Brant (1946-2015), na letra de Encontro e Despedidas, retrata o que sempre representou uma estao de trem, diariamente, na vida de uma cidadezinha do interior. A msica deu ttulo ao LP gravado por Milton Nascimento, em 1985, pela Barclay/PolyGram.


ENCONTROS E DESPEDIDAS

(Milton Nascimento e Fernando Brant)

Mande notcias do mundo de l
Diz quem fica
Me d um abrao venha me apertar
T chegando
Coisa que gosto poder partir sem ter planos
Melhor ainda poder voltar quando quero
Todos os dias um vai-e-vem
A vida se repete na estao
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio s olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
So dois lados da mesma viagem
O trem que chega
o mesmo trem da partida
A hora do encontro tambm despedida
A plataforma dessa estao
a vida desse meu lugar
a vida desse meu lugar, a vida

Conhea um cano de protesto de Noel Rosa e Andr Filho, que jamais perde a atualidade

TRIBUNA DA INTERNET | A filosofia imortal, na criatividade de Noel Rosa e Andr FilhoPaulo Peres
Site Poemas & Canes


O cantor, msico e compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (1910-1937) e seu parceiro Andr Filho, na letra de Filosofia, retratam exatamente como a sociedade em que vivemos, em que todos somos criticados quando no estamos de acordo com conceitos impostos por ela. Esse samba foi gravado por Mrio Reis e Orquestra Pixinguinha, em 1933, pela Columbia.

FILOSOFIA
Andr Filho e Noel Rosa

O mundo me condena, e ningum tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome

Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontido sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ningum zombar de mim

No me incomodo que voc me diga
Que a sociedade minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo

Quanto a voc da aristocracia
Que tem dinheiro, mas no compra alegria
H de viver eternamente sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

“Poesia tem que ter todo dia e ainda sobrar para o caf da manh”, diz Eurdice Hespanhol

TRIBUNA DA INTERNET | Do que  feito o poema?, indaga Eurdice Hespanhol,  que d uma resposta potica

Eurdice Hespanhol num encontro literrio em Petrpolis

Paulo Peres

Poemas & Canes
A professora e poeta Eurdice Hespanhol, nascida em Santa Maria Madalena (RJ), mostra a sua Satisfao cotidiana atravs gneros, estilos, caractersticas etc., utilizados na composio potica.

 

SATISFAO
Eurdice Hespanhol

Eu almoo sonetos,
de sobremesa uma trova.
Bebo tercetos,
lancho haikais.
Derramo na xcara,
rimas de sonhos

Sinto no rosto
a brisa leve de um
dodecasslabo inusitado
Aborto todas as mtricas,
dissimulo rplicas
E noite,
embriago-me,
com todos os goles
de versos livres,
da forma mais s.

Porque poesia
tem que ter todo dia
e ainda sobrar
pro caf da manh

Um poema verdadeiramente pattico, na criatividade do intelectual mineiro Emlio Moura

Emilio Moura, ao retratar o escritor Ciro dos Anjos

Paulo Peres

Site Poemas & Canes

 

O jornalista, professor, artista plstico e poeta mineiro Emlio Guimares Moura (1902-1971) fez parte do brilhante grupo de intelectuais formado por poetas, escritores e polticos mineiros, como Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Martins de Almeida, Joo Alphonsus, Cyro dos Anjos, Anbal Machado, Abgar Renault, Milton Campos e Gustavo Capanema, entre outros, que na dcada de 1920 influenciou notavelmente o movimento que mudou os rumos da literatura brasileira, o modernismo. Diferentemente da maioria dos amigos, que se mudaram para a capital, Rio de Janeiro, Moura permaneceu em Belo Horizonte, onde passou toda sua vida.

Neste poema Poema Pattico, revela como o amor entremeia emoes diferentes entre o desejo e a angstia.

POEMA PATTICO
Emlio Moura

Como a voz de um pequeno brao de mar perdido dentro de uma caverna,
Como um abafado soluo que irrompesse de sbito de um quarto fechado,
Ouo-te, agora, a voz, meu desejo, e instintivamente recuo at as
origens de minha angstia,
Policiada e vencida, oh! afinal vencida por tantos e tantos sculos
de resignao e humildade.
Em que hora remota, em que poca j to distanciada, foi que os ares
vibraram pela ltima vez, diante de teu ltimo grito de rebeldia?
Quantas vezes, meu desejo, tu me obrigaste a acender grandes fogueiras dentro da noite.
E esperar, cantando, pela madrugada?
Mas, e hoje? Hoje a tua voz ressoa dentro de mim, como um cntico de rgo.
Como a voz de um pequeno brao de mar perdido dentro de uma caverna,
Como um abafado soluo que irrompesse, de sbito, de um quarto fechado.

“O que pode acontecer, menino, se o tempo no passar?”, perguntam Vital Lima e Nilson Chaves

TRIBUNA DA INTERNET | Um amor como gua de chuva, na viso de Nilson Chaves  e Vital Lima

Vital Lima e Nilson Chaves, grandes msicos do Par

Paulo Peres

Site Poemas & Canes
O cantor e compositor paraense Carlos Nilson Batista Chaves, na letra de Tempo e Destino, em parceria com Vital Lima, retrata etapas, acontecimentos e conquistas que obtemos no passar do tempo. Essa msica foi gravada por Sebastio Tapajs e Nilson Chaves no CD Amaznia brasileira, em 1997, pela Outros Brasis.

TEMPO E DESTINO
Vital Lima e Nilson Chaves

H entre o tempo e o destino
Um caso antigo, um elo, um par
Que pode acontecer, menino,
Se o tempo no passar?

Feito essas guas que subindo
Foraram a gente a se mudar
Que pode acontecer, meu lindo,
Se o tempo no passar?

O tempo que me deu amigos
E esse amor que no me sai
Que doura os campos de trigo
E os cabelos de meu pai
Faz rebentar as paixes
Depois se nega s criaes
E assim mantm a vida

Que acontecer aos coraes
Se o tempo no passar?
No mato o meu amor, no fundo,
Porque tenho amizade nele
Que j faz parte do meu mundo
O tempo entre eu e ele…

Para alcanar a felicidade, preciso amar e sonhar em harmonia, e isso um dom

Efigenia Coutinho (Mallemont) Poesias : Junho 2010

Efignia Coutinho, na busca da felicidade

Paulo Peres

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A artista plstica e poeta Efignia Coutinho, nascida em Petrpolis (RJ), afirma neste poema que a felicidade um dom, que s acontece quando possibilita o encontro de duas pessoas que verdadeiramente se amam e conseguem sonhar juntas.

FELICIDADE DOM
Efignia Coutinho

O amor em que eu acredito
sentido apenas num olhar,
Traz o azul da cor do mar
Por teu olhar seja bendito.

Pois a felicidade um dom,
Que dois seres une pra vida
Que traz na essncia vivida
Os acordes de doce som.

Marejo os olhos de emoo,
Constatando tal realidade.
Ento, diante desta festividade,
Entrego-te todo meu corao.

Para que juntos sonhemos,
As ordens do Deus Cupido,
Selando o desejo cumprido
Dos sonhos que almejamos.

E quando o poeta sai em busca da rima ideal, porm jamais consegue encontr-la?

Sinto que ns, eu e voc, vivemos, intensos, a chegada da morte, por amor  vida | TiVi Brasil

Charge do Rafael Corra (Arquivo Google)

Paulo Peres

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A professora e poeta carioca Eda Carneiro da Rocha, no soneto Procuro a Rima, confessa sua busca desesperada da rima que combine com seus desejos.

PROCURO A RIMA
Eda Carneiro da Rocha

Procuro a rima que rime com rima.
No a encontro e me desespero.
Onde ests, Rima dos meus amores
dos meus cantos, anseios e dores?

Quem sabe um dia eu a encontre
e v correndo levar a esta amiga
tudo o que no sei dela ainda
e a farei feliz numa rima linda

De um Soneto que ela tanto insiste
que na minha insapincia desiste.
Ah! Rima de minhalma, vem agora
e no deixes mais este ser que chora!

Procuro a rima de uma cano
repartida como rosa em boto
rima que persegue meu corao.

A sinfonia imortal que uniu para sempre os talentos musicais de Cartola e Nlson Sargento

O samba fica mais triste com morte de Nelson Sargento, baluarte da Mangueira

Nelson Sargento, grande amigo e parceiro de Cartola

Paulo Peres

Poemas & Canes


O artista plstico, escritor, cantor e compositor carioca Nelson Mattos foi sargento do Exrcito, da o apelido que virou nome artstico. Com parceria de Angenor de Oliveira, que ainda no usava o apelido de “Cartola”, fez da vida amorosa uma bela Sinfonia Imortal. O samba foi lanado no CD Nelson Sargento Verstil, em 2008, patrocinado pela Natura.

SINFONIA IMORTAL
Cartola e Nelson Sargento

Ns dois somos um naipe de orquestra
Raios de sol pela fresta
Nas partituras do amor
Surgiu no brilho dos instrumentos
Feito uma sombra, um lamento
Um contratempo da dor

Jamais a corda l do destino
Fez nosso amor peregrino
Vagando em acordes vos
E a paz era perfeita harmonia
At que chegou o dia
Da gente fora do tom

Quando o amor desafina
As notas que predominam
Saudade e desiluso
Mas se o maestro de fato
Pe na pauta um pizzicato
Resolve a situao
O que eu desejo afinal
fazer das nossas vidas
Uma sinfonia imortal
O que eu desejo afinal
fazer das nossas vidas
Uma sinfonia imortal

O eterno sonho de viajar e conhecer outras terras, em “Oropa, Frana e Bahia, de Ascenso Ferreira

A poesia inovadora de Ascenso Ferreira completa 125 anos | Notcias | A  Cepe | Cepe - Companhia Editora de Pernambuco

Ascenso criou uma poesia realmente inovadora

Paulo Peres
Poemas & Canes

O poeta e folclorista pernambucano Ascenso Carneiro Gonalves Ferreira (1895-1965), pelas eternas naus do sonho viajou em versos por Oropa, Frana e Bahia, poema inspirado no canto composto pelo Heitor Villa-Lobos.

OROPA, FRANA E BAHIA
Ascenso Ferreira

Num sobrado arruinado,
Tristonho, mal-assombrado,
Que dava fundos pr terra.

( para ver marujos,
Ttituliluliu!
ao desembarcar).

Morava Manuel Furtado,
portugus apatacado,
com Maria de Alencar!

Maria, era uma cafuza,
cheia de grandes feitios.
Ah! os seus braos rolios!
Ah! os seus peitos macios!
Faziam Manuel babar

A vida de Manuel,
que louco algum o dizia,
era vigiar das janelas
toda noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de Oropa, Frana e Bahia!

Me d uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
Ests idiota , Maria.
Essas naus foram vintena
Que eu herdei da minha tia!
Por todo o ouro do mundo
eu jamais a trocaria!

Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim

Nada.
A mulata s queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
pr ela ir ver essas terras
De Oropa, Frana e Bahia

Maria, hoje ns temos
vinhos da quinta do Aguirre,
uma queijadas de Sintra,
s pr tu te distraire
desse pensamento ruim
Seu Manuel, isso besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!

lua que alumias
esse mundo de meu Deus,
alumia a mim tambm
que ando fora dos meus
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.

Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas no so
Cantava forte Maria,
pisando fub de milho,
lentamente no pilo

Uma noite de luar,
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul
Ah! Seu Manuel, isso chega
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

Onde vais mulh?
Vou me dan no carros!
Tu no vais, mulh,
mulh, voc no vai lᅔ

Maria atirou-se ngua,
Seu Manuel seguiu atrs
Quero a mais pichititinha!
Raios te partam, Maria!
Essas naus so meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido da minha tia !
Vm dos confins do mundo
De Oropa, Frana e Bahia!

Nadavam de mar em fora
(Manuel atrs de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia
Faz-se um silncio nas guas,
cad Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia
Seu Manuel era um Boi Morto,
Maria, uma Cotovia!

E as naus de Manuel Furtado,
herana de sua tia?

continuam mar em fora,
navegando noite e dia
Caminham para Pasrgada,
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que, ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

As eternas naus do Sonho,
de Oropa, Frana e Bahia..

Imagens nordestinas e de filmes famosos inspiraram mais um sucesso de Fausto Nilo

Opinio | Fausto Nilo: A Fortaleza do nosso futuro | CAU/CE

Fausto Nilo comps grandes msicas da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canes

O arquiteto, poeta e compositor cearense Fausto Nilo Costa Jnior, comps em parceria com Geraldo Azevedo e Pippo Spera a msica Voc se lembra, que evoca imagens nordestinas e passagens musicais da cano As Time Goes By e dos filmes Casablanca, Anjo Azul e A Caravana do Deserto. A msica foi gravada no lbum Focus: O Essencial de Geraldo Azevedo, em 1999, pela Sony.

VOC SE LEMBRA
Geraldo Azevedo, Pippo Spera e Fausto Nilo

Entre as estrelas do meu drama
Voc j foi meu anjo azul
Chegamos num final feliz
Na tela prateada da iluso
Na realidade onde est voc
Em que cidade voc mora
Em que paisagem em que pas
Me diz em que lugar, cad voc
Voc se lembra
Torrentes de paixo
Ouvir nossa cano
Sonhar em Casablanca
E se perder no labirinto
De outra histria
A caravana do deserto
Atravessou meu corao
E eu fui chorando por voc
At os sete mares do serto
Voc se lembra