“Não te quero todo, nem te quero meio, quero-te inteiro!”, diz a poesia de Márcia Barroso

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O eterno amor platônico, sempre a inspirar poemas

Paulo Peres
Poemas & Canções

A letrista, poeta e assistente social do Tribunal de Justiça (RJ), Márcia Figueiredo Barroso, nascida em São Gonçalo (RJ), no poema “Amantes”, revela desejos de um amor platônico.

AMANTES
Márcia Barroso

Não te quero todo,
Nem te quero meio
Quero-te inteiro!
E inteira quero estar
Ainda que para isso
Tenhamos que juntar
Todos os cacos
Perdidos nas viagens,
Mas que, certamente,
Podemos remontar

Não quero a culpa
Como nossa companheira
Nem seu eterno amor
De mim prisioneiro
Ao contrário,
Quero a liberdade do voo
E a cumplicidade
Do simples desejo de voltar

Não quero promessas sem sentido,
Nem juras mal proferidas
Quero mesmo é ser feliz
Até nas despedidas
Para, assim, testar a saudade
Sem pressa, nem ansiedade,

Afinal se o amor é verdadeiro
Estaremos juntos,
Ainda que distantes
E seremos amantes,
Mesmo que seja
Em sonho, ou bruma,
E viveremos nosso idílio,
Nem que seja
Num só instante!

O amor de Manuel Bandeira em três tempos marcados pelo romance e pela poesia

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Poemas & Canções

O crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e poeta pernambucano Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968), conhecido como Manuel Bandeira, no poema “Três Idades” lembra a sua primeira paixão.

TRÊS IDADES
Manuel Bandeira

A vez primeira que te vi,
Era eu menino e tu menina.
Sorrias tanto… Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina…
Meu coração entristeceu.
Por quê? Relembro, nota a nota,
Essa ária como enterneceu
O meu olhar cheio do teu.
Quando te vi segunda vez,
Já eras moça, e com que encanto
A adolescência em ti se fez!
Flor e botão…sorrias tanto…
E o teu sorriso foi meu pranto…
Já eras moça…Eu, um menino…
Como contar-te o que passei?
Seguiste alegre o teu destino…
Em pobres versos te chorei.
Teu caro nome abençoei.
Vejo-te agora. Oito anos faz,
Oito anos faz que não te via…
Quanta mudança o tempo traz
Em sua atroz monotonia!
Que é do teu riso de alegria?
Foi bem cruel o teu desgosto.
Essa tristeza ê que mo diz…
Ele marcou sobre o teu rosto
A imperecível cicatriz:
És triste até quando sorris…
Porém teu vulto conservou
A mesma graça ingênua e fina…
A desventura te afeiçoou
À tua imagem de menina.
E estás delgada, estás franzina…

“Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com minha dor…”

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Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho na roda de samba

Paulo Peres
Poemas & Canções

O pintor, escultor, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bollhorst (1922-2006), na letra do samba “A Flor e o Espinho”, parceria com seu grande amigo Nelson Cavaquinho e Alcides Caminha, apresenta o oposto ao amor antes existente e passa a desprezá-lo. A primeira gravação do clássico “A flor e o espinho” foi feita por Raul Moreno, em 1957, pela Todamérica, mais tarde também gravada por Elizeth Cardoso e outros grande nomes da MPB.

A FLOR E O ESPINHO
Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh’alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

É no espelho que eu vejo a minha mágoa
É minha dor e os meus olhos rasos d’água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh’alma a sua
O sol não pode viver perto da lua

“A gente não tem cara de panaca, a gente não tem jeito de babaca”, cantava Gonzaguinha

E é tão bonito quando a gente sente Que nunca está sozinho por mais que pense estar...... Frase de Gonzaguinha.Paulo Peres
Poemas & Canções

O economista, cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Junior (1945-1991) , mais conhecido como Gonzaguinha, é, sem dúvida, um dos maiores talentos da Música Brasileira em seus diversos estilos populares. Sua obra teve, inicialmente, como característica sua postura de crítica à ditadura militar, conforme mostra a letra de “É”, que expressa um desabafo, o grito de um povo para ter condições melhores de vida. Para isso é necessário ter carinho, atenção, afeto, respeito, liberdade, amor , saúde e trabalho digno. O cidadão tem direitos e deveres que devem ser respeitados, para ele exerça a sua cidadania plena.

“É”
Gonzaguinha

É!
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor…

A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade…

É!
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Prá passar a mão nela…

É!
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação…

“Meu quintal é maior do que o mundo, sou um apanhador de desperdícios”, diz o poeta Manoel de Barros

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Poemas & Canções

O advogado e poeta matogrossense Manoel Wenceslau Leite de Barros (1916-2014) afirmava ser “O Apanhador de Desperdícios”, que através das palavras compõe seus silêncios.

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Os sonhos e as decepções das favelas, para sempre na lembrança poética de Malú Mourão

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Malú Mourão, inspirada na realidade das favelas

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, no poema “Olhando da Janela”, confessa que guardará no coração a imagem triste das favelas.

OLHANDO DA JANELA
Malú Mourão

Do alto da montanha se ostenta,
De um povo, a marca de uma vida,
Que na verdade em nada lhe contenta,
O vil poder que a muitos intimida.

Vejo a favela assim imperiosa,
Onde esconde sutil a incerteza,
De uma vivência às vezes duvidosa,
Que do morro faz parte da beleza.

Mas naquela hipotética comunidade,
Existem os sonhos e as decepções,
Que se misturam a cada realidade,
Mesclando de anseios as emoções.

Ali surgem incógnitas impetuosas,
Onde a vida arquitetada na carência,
Entrega-se confusa às teias laboriosas,
Do escárnio prepotente da violência.

E no compasso da eterna esperança,
A comunidade no seu pensar latente,
Deseja ter um viver de bonança
Onde a paz ilumine cada vivente.

Moradores da Rocinha, Sereno ou Fé,
Quitungo ou Complexo do Alemão,
Corôa , Caixa D’água ou Guaporé!…
Guardarei esta imagem no coração.
 

“Olha, lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão”, cantava Gil

Resultado de imagem para gilberto gil/procissaoPaulo Peres   
Poemas & Canções

O administrador de empresas, político, cantor, compositor e poeta baiano Gilberto Passos Gil Moreira proporciona na letra de “Procissão” uma interpretação marxista da religião, vista como ópio do povo e fator de alienação da realidade, segundo o materialismo dialético. A letra mostra a situação de abandono do homem do campo do Nordeste, a área mais carente do país. A música foi gravada por Gilberto Gil em compacto simples e  no LP Louvação, em 1967, pela gravadora Unima Music.

PROCISSÃO
Gilberto Gil

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão, só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus, só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho prá viver

Muita gente se arvora a ser Deus e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido prá Maria, e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem, meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento, cá na Terra isso tem que se acabar

Capitu tinha “olhos de ressaca”, mas a verdadeira musa de Machado de Assis tinha “olhos verdes”

O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele.... Frase de Machado de Assis.Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. Poeticamente, declara sua paixão pela “Musa dos Olhos Verdes”, que ninguém sabe se seria inspiradora da personagem Capitu, que tinha “olhos de ressaca”, da cor do mar, porém Machado de Assis jamais descreveu a cor deste mar.

MUSA DOS OLHOS VERDES
Machado de Assis                                          
 

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa

Do eterno devaneio,
Sê minha amante,
os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!

“Cada um de nós é um coração sozinho”, diz a poesia romântica de Lya Luft

Resultado de imagem para lya luftPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora, escritora, tradutora e poeta gaúcha Lya Fett Luft, no poema “Canção Pensativa”, sente passar por um momento de solidão, mas sabe que tem de voltar à realidade e buscar um novo amor.

CANÇÃO PENSATIVA
Lya Luft

Um toque da solidão, e um dedo
severo me traz à realidade: não depender
dos meus amores, não me enfeitar
demais com sua graça, mas ver
que cada um de nós é um coração sozinho.

Cada um de nós perenemente
é um espelho a se mirar, sabendo
que mesmo se nesse leito frio e branco
um outro amor quer derramar-se em nós,
entre gélido cristal e alma ardente
levanta-se paredes para sempre.

(E para sempre
a amante solidão nos chama e abraça.) 

Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente…

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Jair Rodrigues celebrizou a canção “Disparada” no Festival

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, na letra de “Disparada”, faz uma crítica à ditadura vivida na época e, consequentemente, apresenta uma maravilhosa comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente.

Em 1966, a música “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, participou do II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), dividindo o primeiro lugar com “A banda” de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Nesse mesmo ano, a música foi gravada pelo próprio Jair Rodrigues no LP O Sorriso de Jair, pela Philips.

DISPARADA
Théo de Barros e Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

“Você só dança com ele e diz que é sem compromisso”, reclamava o sambista Geraldo Pereira

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Geraldo Pereira, um dos maiores sambistas de sua época

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor mineiro Geraldo Theodoro Pereira (1918-1955), um dos maiores sambistas de sua época, na letra de “Sem Compromisso”, em parceria com Nelson Trigueiro, retrata cenas de ciúme no salão.  Esse samba faz parte do LP Sinal Fechado, gravado por Chico Buarque, em 1974, pela Philips.

SEM COMPROMISSO
Nelson Trigueiro e Geraldo Pereira

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai-João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não, eu agora tenho par
E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai-João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não, eu agora tenho par
E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis

“Temos de discutir com aqueles que defenderam o Bolsonaro”, avalia Dilma Rousseff

Dilma classificou governo Bolsonaro como “neofascista”

Deu na Folha

Para a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda brasileira tem uma tarefa pela frente: se aproximar do povo e daqueles que apoiaram a eleição de Jair Bolsonaro. “Nós temos de olhar para os evangélicos que votaram no Bolsonaro. Nós temos de discutir com aqueles que o defenderam porque acham e acreditam que a questão da segurança no Brasil é a questão central. E nós temos de tratar essa questão”, afirma.

Em entrevista à DW na Colômbia, onde participou do Hay Festival Cartagena, evento focado em cultura e responsabilidade social, Dilma falou sobre as recentes convulsões sociais na América Latina e a guinada à direita ocorrida no Brasil com Bolsonaro. “No Brasil o que você constata é a existência de um governo neofascista executando um programa neoliberal”, comenta.

“MONSTROS” – Quanto à influência das manifestações de 2013 na eleição de Bolsonaro, Dilma diz não ver uma relação direta entre os dois acontecimentos, mas que os protestos permitiram o desenvolvimento de “alguns monstros”.

“As organizações de direita, de extrema direita, pela primeira vez apareceram claramente no cenário nacional. Além disso, você teve, naquele momento, a visão por parte de alguns, de que seria possível começar a manipular as coisas”, considera.

O ano de 2019 foi um ano de convulsões sociais na América Latina, vimos protestos no Chile, na Bolívia na Colômbia e também no Brasil. Qual é a polarização que existe no continente?
Eu acredito que no continente todo há uma polarização que é sobre o que acontece, em termos de como vivem as pessoas. Acredito que, primeiro, há um aumento brutal da desigualdade. As pessoas percebem que há alguns que têm muito, e outros que têm muito pouco. E você tem então, essa sensação imensa, esse mal-estar imenso. E ao mesmo tempo, como se fez um trabalho muito forte em todo esse período de descrédito nos partidos políticos e nas representações, nem sem canaliza isso, isso surge de uma forma muito forte, espontaneamente, vai para as ruas.

E aí tem algo que eu acho extremamente interessante que vi nas manifestações no Chile: havia uma inércia na população chilena, que não reagia a tudo isso que vinha perdendo há muito tempo. Por que só agora? E aí eu vi uma palavra de ordem que é muito elucidativa: não era conformismo, era silêncio. Não era medo, era silêncio.

O Brasil deu uma guinada brusca à direita, assim como outros países que deram as costas para a esquerda, como a Colômbia há alguns anos, e mais recentemente o Uruguai. Mas também há outros países, como a Argentina, por exemplo, que depois de uma experiência relativamente curta de um governo mais conservador, voltam ao conhecido. Em que situação se encontra a esquerda latino-americana?
No Brasil o que você constata é a existência de um governo neofascista executando um programa neoliberal. Defendem a tortura, os torturadores, dizem que não houve ditadura no Brasil. [O governo] É capaz de utilizar de forma absolutamente clara todos os mecanismos possíveis para perseguir artistas, para desrespeitar educadores, desrespeitar a autonomia universitária, desrespeitar o direito, desrespeitar jornalistas. Eles têm de conviver com isso. Têm de conviver com a defesa da tortura, com a defesa da violência. Têm de conviver com as relações bastante estranhas que existem entre certos segmentos da milícia e setores do governo Bolsonaro.

O que pode fazer a esquerda brasileira para recuperar o eleitorado que optou por esse presidente?
A esquerda vai ter de ter um trabalho junto ao povo. Cada vez mais. Nós temos de olhar para os evangélicos que votaram no Bolsonaro. Nós temos de discutir com aqueles que defenderam o Bolsonaro porque acham e acreditam que a questão da segurança no Brasil é a questão central. E nós temos de tratar a questão da segurança. Nós vamos ter de voltar a todas essas esferas de atuação das pessoas. Onde está o povo brasileiro é onde teremos de estar. Só tem esta forma.

Há que ter uma discussão sobre como construir um novo modelo que de fato seja aquele que atenda aos interesses das pessoas, que não torne as pessoas tão infelizes como estão. Esta forma de economia que leva a essa tamanha desigualdade não é consensual. Porque enquanto você achar que é consensual e agir como tal, não haverá alternativa pela esquerda contra esse processo. E aí tem campo fértil para, por exemplo, um [presidente dos EUA Donald] Trump atribuir todo o processo de concentração de riqueza e renda dos Estados Unidos ao imigrante mexicano.

Em que medida você que crê que a eleição de Jair Bolsonaro foi uma consequência direta dos protestos que estouraram no Brasil em 2013?
Eu não diria uma consequência direta dos protestos de 2013 porque movimentos sociais sempre são mais complexos, mas é certo que naquele movimento de 2013 houve um caldo de cultura no qual se desenvolveram alguns monstros. As organizações de direita, de extrema direita, que pela primeira vez apareceram claramente no cenário nacional. Além disso, você teve, naquele momento, a visão por parte de alguns, de que seria possível começar a manipular as coisas.

Eu, especificamente, nunca quis dar muita importância às teses e teorias a respeito da influência americana nesse processo de golpe. Porque eu achava que a elite brasileira é suficientemente golpista para não precisar dos EUA para dar golpe. Toda a relação entre a Lava Jato e o Departamento de Justiça americano, quando eu descubro que eles fizeram um acordo, e pelo acordo, os procuradores, que são funcionários públicos, e funcionário público não pode receber dinheiro de outro país, criaram uma fundação com R$ 2,5 bilhões, uma fundação para trabalhar a corrupção.

O escândalo foi tão grande que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o próprio Ministério Público os mandaram devolver o dinheiro. E por que o Departamento de Justiça americano tem essa relação tão aberta com eles? Então, alguns fatos me levaram a reconsiderar e achar que pode ter tido uma influência.

Então, eu te digo o seguinte: acredito que ali teve uma pré-estreia. Não acho que a razão está ali. A razão está: temos de reenquadrar o Brasil. O Brasil está saindo de um processo em que ele deve ser enquadrado econômica, social e geopoliticamente. Nunca se esqueça de que nós fomos responsáveis pelo surgimento dos Brics, participamos ativamente do G20 e jamais votamos a favor de nenhuma intervenção militar em todo nosso período de governo.

“Tanta gente nos insinua crenças, religiões, amor, felicidade”, dizia Jorge de Lima

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Poemas & Canções

O alagoano Jorge Mateus de Lima (1893-1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor. Neste poema ele compara o acendedor de lampião, que vai iluminando um a um pela rua, a uma pessoa que quer impor a outros uma ideologia, seja uma crença, religião, amor, felicidade e que infatigavelmente, como o acendedor de lampiões, vai incutindo nas pessoas, dia a dia, suas ideias hoje uma, amanhã outra, depois mais uma, e como o acendedor de lampiões e seus lampiões, um dia várias pessoas estarão “acessas” compartilhando as mesmas ideias que “tanta gente também nos outros insinua”, como frisa o autor.

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à Lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da Lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

Uma canção inspirada no conto de Lima Barreto, “O Homem que Sabia Javanês”

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Geraldo do Norte, o Poeta Matuto

O radialista, declamador, letrista e poeta Geraldo Ferreira da Silva, nascido em Parelhas (RN), mais conhecido como Geraldo do Norte, “O Poeta Matuto”, inspirou-se no conto “O Homem Que Sabia Javanês”, de Lima Barreto, para escrever a letra de “O Idioma Javanês”. Esta música deverá fazer parte do próximo CD de Ibys Maceioh.

O IDIOMA JAVANÊS
Ibys Maceioh e Geraldo do Norte                                                                      

Num país onde o ensino
Nunca foi para matuto
Compra diploma o granfino
De pergaminho Fajuto.
O grande Lima Barreto
Em um conto num livreto
Disse o que um malandro fez
Pra arrumar um numerário
aprendeu num dicionário
Dar lições de javanês.
Com a moral fora da vez
Castelo, o seu personagem
Vai findar por mais um mês
Sem pagar a estalagem
fugindo pela janela
Dormindo sem acender vela
Com medo do português.
Um dia leu um anúncio
Um forte e claro prenúncio
De ser mestre em javanês.
Aí sabe o que ele fez?
Foi numa biblioteca
na marra e sem altivez
Pediu a um velho careca
Algum livro sobre Java
E tudo o que encontrava
anotava com avidez.
Procurava assim um rumo
Que desse para consumo
Nas aulas de Javanês
Mesmo notando escassez
Naquela pesquisa sua
Era aproveitar a vez
Ou ir p’ro olho da rua.
Se o burro passou selado
Pra quê se fazer de rogado.
Seria uma estupidez
Não encontrar o barão
Pra dar-lhe uma lição
Do mais puro Javanês.
Se não der que morra Inês
É o que tinha pensado
Já que seu nobre freguês
Tinha ouvido e gostado
Adiantara até algum
Prá quebrar o seu jejum
E a cara de palidez
Pois a fome que curtia
Enfim teria alforria
Graças ao Javanês.
Agora, vejam vocês
O barão ficou encantado
Em muito menos de um mês
Já tinha lhe apresentado
A burguesia da Corte
Onde passava a noite
Falando com polidez
Até para poliglotas
Que se sentiam idiotas
Por não falar javanês.
E a sua desfaçatez
O levou até a Consul
Em diversos metiês
Ele chegava de sonso
Feito os espertos de agora
Que vão chegando de fora
Na mais alta sordidez.
Quando um é pego, chora
Talvez até fosse hora
De mostrar seu Javanês
E otário da vez
É sempre o povo, coitado
Que esquece com rapidez
Os malfeitores do Estado.
Temos diversos Castelos
Desfilando em carros belos
Vestindo terno Francês
Explorando a fé alheia
E nem fazem cara feia
Pra exibir seu Javanês.
Meu sonho é ver os dublês
De “171″ na cadeia
Pra ver se a embriaguez
Do povo não se semeia
Ou o mundo vai a pique
Porque é muito cacique
Pra indiada na nudez
Que chega até a dar saudade
Daquele falso “amizade”
Que ensinava Javanês.
Chega de sem-vergonhez
A humanidade não agüenta
É muito falso burguês
Um dia a corda arrebenta
Trabalho e dignidade
Se fosse mesmo verdade
Tivesse a alma uma tez
E coração uma cara
Seria uma coisa rara
Alguém ensinar Javanês.

Se você vier pro que der e vier comigo, eu prometo o sol. se hoje o sol sair, ou a chuva

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Geraldo Azevedo, cantor e compoitor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O violonista, cantor e compositor pernambucano Geraldo Azevedo de Amorim e seu parceiro Renato Rocha, na letra de “Dia Branco”, expõem a promessa e a expectativa do amor acarretar desejo, cumplicidade e eternidade. Neste sentido, o título “Dia Branco” é uma proposta de vivência nessa relação amorosa. Esta música foi gravada por Geraldo Azevedo, em 1981, no LP Inclinações Musicais, pela Ariola.

DIA BRANCO
Renato Rocha e Geraldo Azevedo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo…

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva…

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar…

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh…

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo…

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva…
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar…

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor…

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.

“Levo a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde…”

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Chico Buarque e Francis Hime, uma dupla da pesada

Paulo Peres
Poemas & Canções

O arranjador, pianista, cantor e compositor carioca Francis Victor Walter Hime, em parceria com Chico Buarque, compôs “Trocando em Miúdos”, cuja letra mostra a desilusão de uma pessoa que se doou a alguém e deste só teve desilusões. A música faz parte do LP Passaredo gravado, em 1977, pela Som Livre.

TROCANDO EM MIÚDOS
Chico Buarque e Francis Hime

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde…

“Loucos, distantes da realidade, os poetas nem pensam no que o futuro vai trazer…”

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João de Abreu, artista gráfico, músico e poeta carioca

Paulo Peres
Poemas & Canções

Formado em Letras (Português e Literatura), artista gráfico, músico e poeta carioca João de Abreu Borges (1951-2019), no poema “Loucos os Poetas”, louva a doce loucura de quem traz a poesia na alma e não enxerga horizontes.

LOUCOS OS POETAS
João de Abreu

Loucos, distantes da realidade,
Os poetas nunca sentem saudade
Nem pensam no que o futuro vai trazer

Loucos, os poetas, amam como girassóis,
Diamantes e manhãs
São tão claros que enxergam no escuro

Loucos, os poetas, agarram-se entre as estrelas
Promovem feias e belas
E acabam com suas vidas
Entre os planetas que orbitam ao seu redor

Loucos, os poetas, sem ter qualquer nome algum
Não querem ser apenas um
E tornam-se os homens
Que ocupam a nossa mente e a nossa voz

Loucos,
são estrelas de tudo que não tem forma,
Porque não saíram de uma forma
E se sustentam sobre tantos pés

Estetas,
são tão loucos, não só por serem tão poetas,
Mas por terem as pernas tortas
E sempre driblarem os “joãos”

Loucos,
os poetas, que não enxergam horizontes
E só passam pelas pontes
Quando por elas passam os mais intensos vendavais

Loucos,
os poetas, que gritam pelos oprimidos
Sentem a dor dos sem-sentidos
E ficam ouvindo o mar quando ouvem os sem-faróis

Loucos,
os poetas, mesmo sem querer poder
Podem o que eles querem ser
Apenas com sua dor por sobre a palma da mão

Ainda olha para a lua
Como se ela ainda fosse sua
Última esperança, tanto quanto é esta canção
Ainda hoje, e principalmente hoje,
Mais do que nunca
Nua.

“O desconhecido, o novo, a ilusão que a mente traz…”, na visão poética de Ilka Bosse

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Ilka Bosse, poeta catarinense

Paulo Peres
Poemas & Canções

A pedagoga (formada em duas habilitações na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), empresária, escritora, cronista e poeta catarinense Ilka Bosse, conhecida como Bailarina das Letras, escreve sobre todos os assuntos, atualidades ou não, mas, o que a hipnotiza é escrever livre e brincar com metáforas, pois é mais um estado de espírito do que um trabalho que a mente prepara com antecedência… “Não me prendo à métricas, rimas ou regras rígidas do poetar – embora admire a quem o faça. Quando lanço mão à caneta ou teclado, eu simplesmente viajo num mundo irreal que, às vezes, me leva à trilha do real… São rumos não traçados, mas é isso que me atrai. O desconhecido, o novo, a ilusão que a mente borda…”, salienta Ilka Bosse.

A MENTE
Ilka Bosse      

Rendo-me a ser escrava…
Ardendo em brasa, o oco
que o fogo cava…
A dor da ausência ataca,
cortando na carne,
com gume, deste fogo,
da própria faca…
E a mente capta vozes
da própria mente,
que sempre mente,
um pouco,
do que a mente sente…
A alma desnorteada
acredita
nas inverdades
que a mente dita.
“Vamperiza” e suspira,
debilitada…
Prendendo-se à trama
e à rede
firmemente afixada…
A teia que não rompe,
nem corrompe,
mas, intoxica…
A Mente.

“Ressentimentos passam como o vento, são coisas de momento, são chuvas de verão…”

Fernando Lobo em momento familiar com o neto, Bena, e o filho, Edu. Foto: Acervo pessoal

Fernando Lobo com o neto Bena e o filho Edu Lobo

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, radialista e compositor pernambucano Fernando de Castro Lobo (1915-1996), ao compor “Chuvas de Verão”, retratou na letra o clima de confissões amorosas que prolongavam ou encerravam romances iniciados nos ambientes das boites dos anos 40 e 50. A música, gravada originalmente por Francisco Alves, em 1949, pela Odeon, talvez não se tornasse um clássico, conforme reconheceu o próprio Fernando Lobo, não fora a versão gravada por Caetano Veloso, vinte anos depois. Caetano Veloso juntou a beleza já existente na composição ao clima de rompimento amoroso, com uma delicadeza de tratamento que faltou à gravação original; a canção tem seu momento culminante no verso que repete o título, definindo com lirismo e precisão a transitoriedade dos romances de ocasião.

CHUVAS DE VERÃO
Fernando Lobo

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, no presente
Repetem velhos temas tão banais

Ressentimentos passam como o vento
São coisas de momento
São chuvas de verão
Trazer uma aflição dentro do peito.
É dar vida a um defeito
Que se extingue com a razão

Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma
Não te desejo mais

Podemos ser amigos simplesmente
Amigos, simplesmente, nada mais

A Rua da Felicidade, na visão poética que Guilherme de Almeida idealizava na infância

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Guilherme de Almeida, um dos maiores poetas brasileiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969), o Príncipe dos Poetas Brasileiros, nasceu em Campinas (SP), foi uma personalidade de destaque nos meios intelectuais e sociais como poeta, jornalista, advogado, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. Usando o recurso estilístico da aliteração no poema “A Rua de Rimas”, Guilherme de Almeida traduz todo o seu imaginário, que desde menino, futura viver em uma rua “que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: Rua da Felicidade.

A RUA DE RIMAS
Guilherme de Almeida

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
doiradas, descabeladas,
debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso,
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rala de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que me mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer;
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas,
correndo paralelamente,
como a sorte, como a sorte diferente de toda a gente, para a frente
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: RUA DA FELICIDADE…