O que muito me confunde é que no fundo de mim estou eu, diz Antonio Cícero

Antonio Cicero: "A situação do Brasil é extremamente lamentável ...

Antonio Cícero, grande poeta e compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O filósofo, escritor, compositor e poeta carioca Antonio Cícero Correa de Lima reconhece, neste poema, o “Dilema” existencial que confunde a todos.

DILEMA
Antonio Cícero

O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu.
No fundo
sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imenso num universo
que não é feito de mim.
Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.
Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.

“Em cada vela que aparece, um canto de alegria de quem venceu o mar…”

Jornalista Polibio Braga: Artigo, Nelson Motta, O Globo: Aos meus ...

Nelson Motta é um dos maiores compositores do país

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, escritor, roteirista, produtor musical, letrista e compositor paulista Nelson Cândido Motta Filho, na letra de “Saveiros”, em parceria com Dori Caymmi, faz referência ao trabalho cotidiano do pescador, desbravando o mar e lamentando a perda de pessoas próximas para as correntezas. Esta situação pode ser considerada também uma analogia com a realidade vivida na época. Essa música venceu a fase nacional do I Festival Internacional da Canção em 1966.

SAVEIROS
Dori Caymmi e Nelson Motta

Nem bem a noite terminou
Vão os saveiros para o mar
Levam no dia que amanhece
As mesmas esperanças
Do dia que passou

Quantos partiram de manhã
Quem sabe quantos vão voltar
Só quando o sol descansar
E se os ventos deixarem
Os barcos vão chegar
Quantas histórias pra contar

Em cada vela que aparece
Um canto de alegria
De quem venceu o mar

“Devagar, peça mais e mais e mais”, recomendava a poeta Ana Cristina Cesar.

TRIBUNA DA INTERNET | Nada disfarçava o amor de Ana Cristina CesarPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora, tradutora e poeta carioca, Ana Cristina Cruz Cesar (1952-1983), mostra sua poética inovadora em “Flores do Mais”.

FLORES DO MAIS
Ana Cristina Cesar

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;

devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;

devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;

devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; 

devagar
peça mais
e mais e
mais.

Uma desesperada canção de amor, na poesia dramática de Álvares de Azevedo

Sou o sonho de tua esperança, Tua febre... Álvares de AzevedoPaulo Peres
Poemas & Canções

O dramaturgo, ensaísta, contista e poeta paulista Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), no poema “Por Que Mentias?”, tenta saber por que seu amor acabou em traição.

POR QUE MENTIAS?
Álvares de Azevedo

Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?

Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro…
Leviana sem dó, por que mentias?

Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!

Vê minha palidez – a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias…
Pousa a mão no meu peito!
Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?  

Um hino às mães, na criatividade de David Nasser e Herivelto Martins

David Nasser - Que fim levou? - Terceiro Tempo

David Nasser, um dos maiores letristas do país

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  jornalista, escritor e letrista David Nasser (1917-1980), nascido em Jaú (SP),  é autor de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “Mamãe” em parceria com Herivelto Martins, que passou a ser considerada como o hino do Dia das Mães. A música foi gravada por Ângela Maria, em 1956, pela Copacabana.


MAMÃE
Herivelto Martins e David Nassser

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança

Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo

Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

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DIA DAS MÃES
Paulo Peres

Entre a razão e a emoção
Existe um ponto de interrogação
Chamado Humana Renovação:
Ventre bendito – coração MÃE,
Obra Suprema do Criador.

MÃE.
Neste dia dedicado a VOCÊ,
Quero parabenizá-la e pedir-lhe
Que continue a ser esta MÃE
MARAVILHOSA!

A exaltação do contraste da vida na favela, na visão social de Nelson Sargento

Espaço Favela homenageará o grande cantor e compositor Nelson ...

Nélson Sargento, um dos lendários compositores da Mangueira

Paulo Peres
Poemas & Canções

O artista plástico, escritor, cantor e compositor carioca Nelson Mattos foi sargento do Exército, daí o apelido que virou nome artístico. Na letra de “Encanto da Paisagem”, mostra a sua visão poética e social sobre a realidade que, antigamente, existia nos morros. Este samba intitula o LP “Encanto da Paisagem” gravado por Nelson Sargento, em 1986,  pela Kuarup.

 

ENCANTO DA PAISAGEM
Nelson Sargento

Morro, és o encanto da paisagem
Suntuoso personagem de rudimentar beleza
Morro, progresso lento e primário
És imponente no cenário
Inspiração da natureza
Na topografia da cidade
Com toda simplicidade, és chamado de elevação
Vielas, becos e buracos
Choupanas, tendinhas, barracos
Sem discriminação

Morro, pés descalços na ladeira
Lata d´água na cabeça
Vida rude alvissareira
Crianças sem futuro e sem escola
Se não der sorte na bola
Vai sofrer a vida inteira
Morro, o teu samba foi minado
Ficou tão sofisticado, já não é tradicional
Morro, és lindo quando o sol desponta
E as mazelas vão por conta do desajuste social

 

Como se moço e não bem velho já fosse o poeta Alphonsus de Guimaraens…

Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar... Viu...Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens, pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães (1870-1921), no soneto “Como Se Moço e Não Bem Velho Eu Fosse”, sente que algo novo aconteceu para alegrar a sua vida, mas, infelizmente, não passou de um sonho.

COMO SE MOÇO E NÃO BEM VELHO EU FOSSE
Alphonsus de Guimaraens

Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh’alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto…

Uma paródia feminina de Carlos Drummond, na poesia da curitibana Alice Ruiz

A poeta Alice Ruiz, eternamente bela e inspirada

Paulo Peres
Poemas & Canções

A publicitária, tradutora, compositora e poeta curitibana Alice Ruiz Scherone, no poema “Drumundana” faz uma paródia feminina de “José”, poema de Carlos Drummond de Andrade.

DRUMUNDANA
Alice Ruiz

e agora Maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora Maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

Lembrando “O Cantador”, um grande sucesso de Nélson Motta e Dori Caymmi,

TRIBUNA DA INTERNET | “De Onde Vens”, uma inesquecível canção de ...

Dori e Nélson, dois talentos enormes da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, escritor, roteirista, produtor musical, letrista e compositor paulista Nelson Cândido Motta Filho, na letra de “O Cantador”, fala sobre a dor, a vida, a morte e o amor, sentimentos que fazem o cotidiano de quem apenas sabe cantar. A música teve várias gravações, entre as quais, a do próprio compositor no LP Dori Caymmi, em 1972, pela Odeon.

O CANTADOR
Dori Caymmi e Nelson Motta

Amanhece, preciso ir
Meu caminho é sem volta e sem ninguém
Eu vou pra onde a estrada levar
Cantador, só sei cantar
Ah! eu canto a dor, canto a vida e a morte, canto o amor
Ah! eu canto a dor, canto a vida e a morte, canto o amor
Cantador não escolhe o seu cantar
Canta o mundo que vê
E pro mundo que vi meu canto é dor
Mas é forte pra espantar a morte
Pra todos ouvirem a minha voz
Mesmo longe…
De que servem meu canto e eu
Se em meu peito há um amor que não morreu
Ah! se eu soubesse ao menos chorar
Cantador, só sei cantar
Ah! eu canto a dor de uma vida perdida sem amor
Ah! eu canto a dor de uma vida perdida sem amor

Um estranho vaso chinês, servindo de inspiração ao poeta Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira. Vida de Alberto de Oliveira - Brasil Escola

Alberto de Oliveira, um poeta parnasiano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O farmacêutico, professor e poeta Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857-1937), nascido em Saquarema (RJ), mostra neste soneto a magia e o amor com um vaso chinês… que ele captou por seu amor, com sua visão de poeta. Ele transmite seu amor através dos ramos vermelhos, como sangra seu coração apaixonado.

Não podemos esquecer de que se trata de um soneto parnasiano, cuja principal característica é a falta de temas ou ausência de comprometimento social. Os parnasianos acreditavam que a arte não deveria ter compromissos, o único e verdadeiro compromisso é artístico, daí ser chamado arte pela arte. Essa característica é tão extrema que os poemas desse período tratam de assuntos considerados irrelevantes. Como a descrição de um vaso, um muro ou qualquer outro objeto.

VASO CHINÊS
Alberto de Oliveira

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Na poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, os erros de Picasso no amor e na vida

Affonso Romano de Sant'Anna: “A vida é um escândalo” – Tribuna de ...

Affonso Romano, um dos maiores poetas de sua geração

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, no poema “Entrando no Museu Picasso”, aponta os erros que o artista praticava tanto na pintura quanto no amor, constituindo-se em errância, numa extravagância de erros.

ENTRANDO NO MUSEU PICASSO
Affonso Romano de Sant’Anna

Picasso 
erra
quando pinta
e erra 
quando ama.

Mas quando erra
erra
violenta e
generosamente,
erra
com exuberante
arrogância,
erra
como o touro erra
seu papel de vítima,
sangrando
quem, por muito amar, fere
e sai ovacionado
com banderilhas na carne.

Pintor do excesso
e exuberância,
Picasso
é extravagância.
Ele erra,
mas nele,
o erro
mais que erro
– é errância. 

Quando eu piso em folhas secas, caídas de uma mangueira, penso na minha escola…

Beth, a militante do samba - Cantos, Recantos e Encantos - Medium

Guilherme de Brito, Beth Carvalho e Nelson Cavaquinho

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O pintor, escultor, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bolhorst (1922-2006), na letra de “Folhas Secas”, em parceria com Nelson Cavaquinho, compara as folhas caídas da árvore mangueira com a sua tristeza quando não puder mais cantar. Este samba foi gravado por Beth Carvalho no seu LP Canto Por um Novo Dia, lançado em 1973 pela Tapecar.

FOLHAS SECAS
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha Estação Primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando

Quando o tempo avisar
Que eu não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade.

Água de beber, bica no quintal e sede de viver tudo, na criação de Nelson Ângelo

Aos 70, Nelson Angelo lança álbum que traz parceria com Frei Betto ...

Compositor inspirado, Ângelo tem parceria até com Frei Betto

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, músico e compositor mineiro Nelson Ângelo Cavalcanti Martins rememora sua bucólica infância, quando os passeios na “Fazenda” de seus familiares eram sempre uma festa. Esta música foi gravada por Milton Nascimento no LP Geraes, em 1976, pela EMI-Odeon.

FAZENDA
Nelson Ângelo

Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer era tão normal
Que o tempo parava
E a meninada
Respirava o vento
Até vir a noite
E os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você
E no amanhã, nós
Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer era tão normal
Que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira
Tinha manga-rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida
Tios na varanda
Jipe na estrada
E o coração lá
Tios na varanda
Jipe na estrada
E o coração lá

Um Primeiro de Maio, com o lirismo de Chico Buarque e Milton Nascimento

Chico Buarque Milton Nascimento - "Cálice" | Musica popular ...

Milton e Chico, dois parceiros e grande amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, escritor, poeta e compositor carioca Chico Buarque de Hollanda e seu parceiro Milton Nascimento, na letra de “Primeiro de Maio”, usaram o infindo lirismo para inverter os papéis diários do casal de trabalhadores que, neste dia, através do amor, personificarão a usina e a ferramenta tecendo o homem de amanhã. Essa música foi gravada por Milton e Chico no Compacto Cio da Terra, em 1977, pela Philips/Phonogram.

PRIMEIRO DE MAIO
Chico Buarque e Milton Nascimento

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhar do seu ventre
O homem de amanhã

Coisa rara! Um poema de amor da genial Adélia Prado, mas “a meio pau…”

G1 – Máquina de Escrever – Luciano Trigo » Em 'Miserere', Adélia ...

Adélia Prado, escritora e poeta de raríssimo talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “A Meio Pau”, fala sobre um amor distante e não correspondido.

A MEIO PAU
Adélia Prado

Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que há, durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.

“Oh, Senhora Liberdade, abre as asas sobre mim”, cantam Nei Lopes e Wilson Moreira

Pot-Pourri - Wilson Moreira & Nei Lopes - YouTube

Wilson Moreira e Nei Lopes, dois gigantes da arte negra

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, escritor, cantor e compositor carioca Nei Brás Lopes, em parceria com Wilson Moreira, na letra de “Senhora Liberdade”, postula a sua soltura, visto que o crime por ele cometido foi se apaixonar intensamente. Vale ressaltar que, esse samba virou hino na campanha das diretas e faz parte do LP A Arte Negra de Wilson Moreira & Nei Lopes, lançado, em 1980, pela EMI-Odeon.

SENHORA LIBERDADE
Wilson Moreira e Nei Lopes

Abre as asas sobre mim
Oh senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão
Violenta emoção
Pois amar foi meu delito
Mas foi um sonho tão bonito
Hoje estou no fim
Senhora liberdade
Abre as asas sobre mim

Uma autobiografia poética de Adalgisa Nery, que se condensou como uma nuvem

Adalgisa Nery Cândido Portinari, 1937 | Retrato, Romero britto

Adalgisa Nery, retratada pelo amigo Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

A jornalista, política e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery, por ter sido casada com o grande pintor Ismael Nery. no “Poema Natural”, revela como o mundo é diferente quando fecha os olhos.

POEMA NATURAL
Adalgisa Nery

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.

Abro os olhos, vejo um mar.
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.

Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

“A vida sempre tem uma faca na mão”, dizia o poeta Abgar Renault, desiludido

A POESIA DO BRASIL: ABGAR RENAULT (1901-1995)

O poeta Abgar Renault, em noite de autógrafos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995), membro da Academia Brasileira de Letras, no soneto “A Vida Tem Sempre Uma Faca Na Mão”, questiona a utilidade da poesia.

A VIDA TEM UMA FACA NA MÃO
Abgar Renault

Vamos parar de ler. Paremos de escrever
Olhos e mãos circulam no papel
ao serviço da dor e da desgraça,
mas as palavras são frias e sem fel

para exprimir o desespero dessa taça.
Ninguém sabe escrever. E ninguém pode ler
o que fica, depois de tanta luta fútil,
da escuridão desvirginada do teu ser

na indiferença de uma folha de papel.
Hoje, ontem, amanhã – amanhã sobretudo –
a vida sempre tem uma faca na mão,

vai sob as unhas, vai direto ao coração,
dói nos olhos, nos pés, dói na alma, dói em tudo,
torna toda a poesia um jogo raso e inútil.

‘Como seria bom se a razão pudesse sempre dominar’, diz o compositor Nando Cordel

Nando Cordel e Mundo Livre S/A no Carnaval de Arcoverde | Blog o ...

Nando Cordel, um compositor de raro talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, instrumentista e compositor pernambucano Fernando Manoel Correia, nome artístico Nando Cordel, na letra de “Terra e Céu”, aborda um cotidiano diferente do que vivemos nas grandes cidades.

TERRA E CÉU
Nando Cordel

Se o boi soubesse da força que tem
Não puxava carroça
E a abelha, da dor da picada
Não roubavam seu mel
E a terra era terra
E o céu era o céu

Como era bom
Se toda semente crescesse
E a razão
Pudesse sempre dominar
E essa paz
Fosse que nem uma criança
Andasse solta
Feito a noite de luar

Se na inveja
Colocasse um cabresto
Na ambição
Colocasse um cortador
Na violência
Uma espora amolada
Deixasse a rédea
Solta na mão do amor

Não puxava carroça
Nem roubavam seu mel
E a terra era terra
E o céu era o céu

Uma paixão ardente ao amanhecer, na visão de Murilo Antunes e Flávio Venturini

Show de Murilo Antunes e convidados - Santa Tereza TemPaulo Peres
Poemas & Canções
O compositor mineiro Murilo Antunes (foto), no lirismo da letra de “Nascente”, em parceria com Flávio Venturini, estabelece a suavidade, chegando mansa, macia, através do amanhecer que envolve olhares, contemplação, paixão e desejos ardentes. A música deu título ao LP Nascente, gravado por Flávio Venturini, em 1982, pela EMI-Odeon.
 
NASCENTE

Flávio Venturini e Murilo Antunes

Clareia
Manhã
O sol vai esconder
A clara estrela
Ardente
Pérola do céu
Refletindo
Teus olhos
A luz do dia
A contemplar
Teu corpo
Sedento
Louco de prazer
E desejos
Ardentes