“Meu quintal é maior do que o mundo, sou um apanhador de desperdícios”, diz o poeta Manoel de Barros

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Poemas & Canções

O advogado e poeta matogrossense Manoel Wenceslau Leite de Barros (1916-2014) afirmava ser “O Apanhador de Desperdícios”, que através das palavras compõe seus silêncios.

O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Os sonhos e as decepções das favelas, para sempre na lembrança poética de Malú Mourão

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Malú Mourão, inspirada na realidade das favelas

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, no poema “Olhando da Janela”, confessa que guardará no coração a imagem triste das favelas.

OLHANDO DA JANELA
Malú Mourão

Do alto da montanha se ostenta,
De um povo, a marca de uma vida,
Que na verdade em nada lhe contenta,
O vil poder que a muitos intimida.

Vejo a favela assim imperiosa,
Onde esconde sutil a incerteza,
De uma vivência às vezes duvidosa,
Que do morro faz parte da beleza.

Mas naquela hipotética comunidade,
Existem os sonhos e as decepções,
Que se misturam a cada realidade,
Mesclando de anseios as emoções.

Ali surgem incógnitas impetuosas,
Onde a vida arquitetada na carência,
Entrega-se confusa às teias laboriosas,
Do escárnio prepotente da violência.

E no compasso da eterna esperança,
A comunidade no seu pensar latente,
Deseja ter um viver de bonança
Onde a paz ilumine cada vivente.

Moradores da Rocinha, Sereno ou Fé,
Quitungo ou Complexo do Alemão,
Corôa , Caixa D’água ou Guaporé!…
Guardarei esta imagem no coração.
 

“Olha, lá vai passando a procissão, se arrastando que nem cobra pelo chão”, cantava Gil

Resultado de imagem para gilberto gil/procissaoPaulo Peres   
Poemas & Canções

O administrador de empresas, político, cantor, compositor e poeta baiano Gilberto Passos Gil Moreira proporciona na letra de “Procissão” uma interpretação marxista da religião, vista como ópio do povo e fator de alienação da realidade, segundo o materialismo dialético. A letra mostra a situação de abandono do homem do campo do Nordeste, a área mais carente do país. A música foi gravada por Gilberto Gil em compacto simples e  no LP Louvação, em 1967, pela gravadora Unima Music.

PROCISSÃO
Gilberto Gil

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão, só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus, só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho prá viver

Muita gente se arvora a ser Deus e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido prá Maria, e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem, meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento, cá na Terra isso tem que se acabar

Capitu tinha “olhos de ressaca”, mas a verdadeira musa de Machado de Assis tinha “olhos verdes”

O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele.... Frase de Machado de Assis.Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. Poeticamente, declara sua paixão pela “Musa dos Olhos Verdes”, que ninguém sabe se seria inspiradora da personagem Capitu, que tinha “olhos de ressaca”, da cor do mar, porém Machado de Assis jamais descreveu a cor deste mar.

MUSA DOS OLHOS VERDES
Machado de Assis                                          
 

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa

Do eterno devaneio,
Sê minha amante,
os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!

“Cada um de nós é um coração sozinho”, diz a poesia romântica de Lya Luft

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Poemas & Canções

A professora, escritora, tradutora e poeta gaúcha Lya Fett Luft, no poema “Canção Pensativa”, sente passar por um momento de solidão, mas sabe que tem de voltar à realidade e buscar um novo amor.

CANÇÃO PENSATIVA
Lya Luft

Um toque da solidão, e um dedo
severo me traz à realidade: não depender
dos meus amores, não me enfeitar
demais com sua graça, mas ver
que cada um de nós é um coração sozinho.

Cada um de nós perenemente
é um espelho a se mirar, sabendo
que mesmo se nesse leito frio e branco
um outro amor quer derramar-se em nós,
entre gélido cristal e alma ardente
levanta-se paredes para sempre.

(E para sempre
a amante solidão nos chama e abraça.) 

Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente…

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Jair Rodrigues celebrizou a canção “Disparada” no Festival

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, mais conhecido como Geraldo Vandré, na letra de “Disparada”, faz uma crítica à ditadura vivida na época e, consequentemente, apresenta uma maravilhosa comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente.

Em 1966, a música “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues, participou do II Festival de Música Popular Brasileira (TV Record), dividindo o primeiro lugar com “A banda” de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Nesse mesmo ano, a música foi gravada pelo próprio Jair Rodrigues no LP O Sorriso de Jair, pela Philips.

DISPARADA
Théo de Barros e Geraldo Vandré

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu…

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

“Você só dança com ele e diz que é sem compromisso”, reclamava o sambista Geraldo Pereira

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Geraldo Pereira, um dos maiores sambistas de sua época

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor mineiro Geraldo Theodoro Pereira (1918-1955), um dos maiores sambistas de sua época, na letra de “Sem Compromisso”, em parceria com Nelson Trigueiro, retrata cenas de ciúme no salão.  Esse samba faz parte do LP Sinal Fechado, gravado por Chico Buarque, em 1974, pela Philips.

SEM COMPROMISSO
Nelson Trigueiro e Geraldo Pereira

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai-João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não, eu agora tenho par
E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai-João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não, eu agora tenho par
E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis

“Temos de discutir com aqueles que defenderam o Bolsonaro”, avalia Dilma Rousseff

Dilma classificou governo Bolsonaro como “neofascista”

Deu na Folha

Para a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda brasileira tem uma tarefa pela frente: se aproximar do povo e daqueles que apoiaram a eleição de Jair Bolsonaro. “Nós temos de olhar para os evangélicos que votaram no Bolsonaro. Nós temos de discutir com aqueles que o defenderam porque acham e acreditam que a questão da segurança no Brasil é a questão central. E nós temos de tratar essa questão”, afirma.

Em entrevista à DW na Colômbia, onde participou do Hay Festival Cartagena, evento focado em cultura e responsabilidade social, Dilma falou sobre as recentes convulsões sociais na América Latina e a guinada à direita ocorrida no Brasil com Bolsonaro. “No Brasil o que você constata é a existência de um governo neofascista executando um programa neoliberal”, comenta.

“MONSTROS” – Quanto à influência das manifestações de 2013 na eleição de Bolsonaro, Dilma diz não ver uma relação direta entre os dois acontecimentos, mas que os protestos permitiram o desenvolvimento de “alguns monstros”.

“As organizações de direita, de extrema direita, pela primeira vez apareceram claramente no cenário nacional. Além disso, você teve, naquele momento, a visão por parte de alguns, de que seria possível começar a manipular as coisas”, considera.

O ano de 2019 foi um ano de convulsões sociais na América Latina, vimos protestos no Chile, na Bolívia na Colômbia e também no Brasil. Qual é a polarização que existe no continente?
Eu acredito que no continente todo há uma polarização que é sobre o que acontece, em termos de como vivem as pessoas. Acredito que, primeiro, há um aumento brutal da desigualdade. As pessoas percebem que há alguns que têm muito, e outros que têm muito pouco. E você tem então, essa sensação imensa, esse mal-estar imenso. E ao mesmo tempo, como se fez um trabalho muito forte em todo esse período de descrédito nos partidos políticos e nas representações, nem sem canaliza isso, isso surge de uma forma muito forte, espontaneamente, vai para as ruas.

E aí tem algo que eu acho extremamente interessante que vi nas manifestações no Chile: havia uma inércia na população chilena, que não reagia a tudo isso que vinha perdendo há muito tempo. Por que só agora? E aí eu vi uma palavra de ordem que é muito elucidativa: não era conformismo, era silêncio. Não era medo, era silêncio.

O Brasil deu uma guinada brusca à direita, assim como outros países que deram as costas para a esquerda, como a Colômbia há alguns anos, e mais recentemente o Uruguai. Mas também há outros países, como a Argentina, por exemplo, que depois de uma experiência relativamente curta de um governo mais conservador, voltam ao conhecido. Em que situação se encontra a esquerda latino-americana?
No Brasil o que você constata é a existência de um governo neofascista executando um programa neoliberal. Defendem a tortura, os torturadores, dizem que não houve ditadura no Brasil. [O governo] É capaz de utilizar de forma absolutamente clara todos os mecanismos possíveis para perseguir artistas, para desrespeitar educadores, desrespeitar a autonomia universitária, desrespeitar o direito, desrespeitar jornalistas. Eles têm de conviver com isso. Têm de conviver com a defesa da tortura, com a defesa da violência. Têm de conviver com as relações bastante estranhas que existem entre certos segmentos da milícia e setores do governo Bolsonaro.

O que pode fazer a esquerda brasileira para recuperar o eleitorado que optou por esse presidente?
A esquerda vai ter de ter um trabalho junto ao povo. Cada vez mais. Nós temos de olhar para os evangélicos que votaram no Bolsonaro. Nós temos de discutir com aqueles que defenderam o Bolsonaro porque acham e acreditam que a questão da segurança no Brasil é a questão central. E nós temos de tratar a questão da segurança. Nós vamos ter de voltar a todas essas esferas de atuação das pessoas. Onde está o povo brasileiro é onde teremos de estar. Só tem esta forma.

Há que ter uma discussão sobre como construir um novo modelo que de fato seja aquele que atenda aos interesses das pessoas, que não torne as pessoas tão infelizes como estão. Esta forma de economia que leva a essa tamanha desigualdade não é consensual. Porque enquanto você achar que é consensual e agir como tal, não haverá alternativa pela esquerda contra esse processo. E aí tem campo fértil para, por exemplo, um [presidente dos EUA Donald] Trump atribuir todo o processo de concentração de riqueza e renda dos Estados Unidos ao imigrante mexicano.

Em que medida você que crê que a eleição de Jair Bolsonaro foi uma consequência direta dos protestos que estouraram no Brasil em 2013?
Eu não diria uma consequência direta dos protestos de 2013 porque movimentos sociais sempre são mais complexos, mas é certo que naquele movimento de 2013 houve um caldo de cultura no qual se desenvolveram alguns monstros. As organizações de direita, de extrema direita, que pela primeira vez apareceram claramente no cenário nacional. Além disso, você teve, naquele momento, a visão por parte de alguns, de que seria possível começar a manipular as coisas.

Eu, especificamente, nunca quis dar muita importância às teses e teorias a respeito da influência americana nesse processo de golpe. Porque eu achava que a elite brasileira é suficientemente golpista para não precisar dos EUA para dar golpe. Toda a relação entre a Lava Jato e o Departamento de Justiça americano, quando eu descubro que eles fizeram um acordo, e pelo acordo, os procuradores, que são funcionários públicos, e funcionário público não pode receber dinheiro de outro país, criaram uma fundação com R$ 2,5 bilhões, uma fundação para trabalhar a corrupção.

O escândalo foi tão grande que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o próprio Ministério Público os mandaram devolver o dinheiro. E por que o Departamento de Justiça americano tem essa relação tão aberta com eles? Então, alguns fatos me levaram a reconsiderar e achar que pode ter tido uma influência.

Então, eu te digo o seguinte: acredito que ali teve uma pré-estreia. Não acho que a razão está ali. A razão está: temos de reenquadrar o Brasil. O Brasil está saindo de um processo em que ele deve ser enquadrado econômica, social e geopoliticamente. Nunca se esqueça de que nós fomos responsáveis pelo surgimento dos Brics, participamos ativamente do G20 e jamais votamos a favor de nenhuma intervenção militar em todo nosso período de governo.

“Tanta gente nos insinua crenças, religiões, amor, felicidade”, dizia Jorge de Lima

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Poemas & Canções

O alagoano Jorge Mateus de Lima (1893-1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor. Neste poema ele compara o acendedor de lampião, que vai iluminando um a um pela rua, a uma pessoa que quer impor a outros uma ideologia, seja uma crença, religião, amor, felicidade e que infatigavelmente, como o acendedor de lampiões, vai incutindo nas pessoas, dia a dia, suas ideias hoje uma, amanhã outra, depois mais uma, e como o acendedor de lampiões e seus lampiões, um dia várias pessoas estarão “acessas” compartilhando as mesmas ideias que “tanta gente também nos outros insinua”, como frisa o autor.

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à Lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da Lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

Uma canção inspirada no conto de Lima Barreto, “O Homem que Sabia Javanês”

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Geraldo do Norte, o Poeta Matuto

O radialista, declamador, letrista e poeta Geraldo Ferreira da Silva, nascido em Parelhas (RN), mais conhecido como Geraldo do Norte, “O Poeta Matuto”, inspirou-se no conto “O Homem Que Sabia Javanês”, de Lima Barreto, para escrever a letra de “O Idioma Javanês”. Esta música deverá fazer parte do próximo CD de Ibys Maceioh.

O IDIOMA JAVANÊS
Ibys Maceioh e Geraldo do Norte                                                                      

Num país onde o ensino
Nunca foi para matuto
Compra diploma o granfino
De pergaminho Fajuto.
O grande Lima Barreto
Em um conto num livreto
Disse o que um malandro fez
Pra arrumar um numerário
aprendeu num dicionário
Dar lições de javanês.
Com a moral fora da vez
Castelo, o seu personagem
Vai findar por mais um mês
Sem pagar a estalagem
fugindo pela janela
Dormindo sem acender vela
Com medo do português.
Um dia leu um anúncio
Um forte e claro prenúncio
De ser mestre em javanês.
Aí sabe o que ele fez?
Foi numa biblioteca
na marra e sem altivez
Pediu a um velho careca
Algum livro sobre Java
E tudo o que encontrava
anotava com avidez.
Procurava assim um rumo
Que desse para consumo
Nas aulas de Javanês
Mesmo notando escassez
Naquela pesquisa sua
Era aproveitar a vez
Ou ir p’ro olho da rua.
Se o burro passou selado
Pra quê se fazer de rogado.
Seria uma estupidez
Não encontrar o barão
Pra dar-lhe uma lição
Do mais puro Javanês.
Se não der que morra Inês
É o que tinha pensado
Já que seu nobre freguês
Tinha ouvido e gostado
Adiantara até algum
Prá quebrar o seu jejum
E a cara de palidez
Pois a fome que curtia
Enfim teria alforria
Graças ao Javanês.
Agora, vejam vocês
O barão ficou encantado
Em muito menos de um mês
Já tinha lhe apresentado
A burguesia da Corte
Onde passava a noite
Falando com polidez
Até para poliglotas
Que se sentiam idiotas
Por não falar javanês.
E a sua desfaçatez
O levou até a Consul
Em diversos metiês
Ele chegava de sonso
Feito os espertos de agora
Que vão chegando de fora
Na mais alta sordidez.
Quando um é pego, chora
Talvez até fosse hora
De mostrar seu Javanês
E otário da vez
É sempre o povo, coitado
Que esquece com rapidez
Os malfeitores do Estado.
Temos diversos Castelos
Desfilando em carros belos
Vestindo terno Francês
Explorando a fé alheia
E nem fazem cara feia
Pra exibir seu Javanês.
Meu sonho é ver os dublês
De “171″ na cadeia
Pra ver se a embriaguez
Do povo não se semeia
Ou o mundo vai a pique
Porque é muito cacique
Pra indiada na nudez
Que chega até a dar saudade
Daquele falso “amizade”
Que ensinava Javanês.
Chega de sem-vergonhez
A humanidade não agüenta
É muito falso burguês
Um dia a corda arrebenta
Trabalho e dignidade
Se fosse mesmo verdade
Tivesse a alma uma tez
E coração uma cara
Seria uma coisa rara
Alguém ensinar Javanês.

Se você vier pro que der e vier comigo, eu prometo o sol. se hoje o sol sair, ou a chuva

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Geraldo Azevedo, cantor e compoitor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O violonista, cantor e compositor pernambucano Geraldo Azevedo de Amorim e seu parceiro Renato Rocha, na letra de “Dia Branco”, expõem a promessa e a expectativa do amor acarretar desejo, cumplicidade e eternidade. Neste sentido, o título “Dia Branco” é uma proposta de vivência nessa relação amorosa. Esta música foi gravada por Geraldo Azevedo, em 1981, no LP Inclinações Musicais, pela Ariola.

DIA BRANCO
Renato Rocha e Geraldo Azevedo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo…

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva…

Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar…

Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh…

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo

Se você vier
Pro que der e vier
Comigo…

Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva…
Se a chuva cair

Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar…

E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor…

Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.

“Levo a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade, e a leve impressão de que já vou tarde…”

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Chico Buarque e Francis Hime, uma dupla da pesada

Paulo Peres
Poemas & Canções

O arranjador, pianista, cantor e compositor carioca Francis Victor Walter Hime, em parceria com Chico Buarque, compôs “Trocando em Miúdos”, cuja letra mostra a desilusão de uma pessoa que se doou a alguém e deste só teve desilusões. A música faz parte do LP Passaredo gravado, em 1977, pela Som Livre.

TROCANDO EM MIÚDOS
Chico Buarque e Francis Hime

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde…

“Loucos, distantes da realidade, os poetas nem pensam no que o futuro vai trazer…”

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João de Abreu, artista gráfico, músico e poeta carioca

Paulo Peres
Poemas & Canções

Formado em Letras (Português e Literatura), artista gráfico, músico e poeta carioca João de Abreu Borges (1951-2019), no poema “Loucos os Poetas”, louva a doce loucura de quem traz a poesia na alma e não enxerga horizontes.

LOUCOS OS POETAS
João de Abreu

Loucos, distantes da realidade,
Os poetas nunca sentem saudade
Nem pensam no que o futuro vai trazer

Loucos, os poetas, amam como girassóis,
Diamantes e manhãs
São tão claros que enxergam no escuro

Loucos, os poetas, agarram-se entre as estrelas
Promovem feias e belas
E acabam com suas vidas
Entre os planetas que orbitam ao seu redor

Loucos, os poetas, sem ter qualquer nome algum
Não querem ser apenas um
E tornam-se os homens
Que ocupam a nossa mente e a nossa voz

Loucos,
são estrelas de tudo que não tem forma,
Porque não saíram de uma forma
E se sustentam sobre tantos pés

Estetas,
são tão loucos, não só por serem tão poetas,
Mas por terem as pernas tortas
E sempre driblarem os “joãos”

Loucos,
os poetas, que não enxergam horizontes
E só passam pelas pontes
Quando por elas passam os mais intensos vendavais

Loucos,
os poetas, que gritam pelos oprimidos
Sentem a dor dos sem-sentidos
E ficam ouvindo o mar quando ouvem os sem-faróis

Loucos,
os poetas, mesmo sem querer poder
Podem o que eles querem ser
Apenas com sua dor por sobre a palma da mão

Ainda olha para a lua
Como se ela ainda fosse sua
Última esperança, tanto quanto é esta canção
Ainda hoje, e principalmente hoje,
Mais do que nunca
Nua.

“O desconhecido, o novo, a ilusão que a mente traz…”, na visão poética de Ilka Bosse

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Ilka Bosse, poeta catarinense

Paulo Peres
Poemas & Canções

A pedagoga (formada em duas habilitações na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras), empresária, escritora, cronista e poeta catarinense Ilka Bosse, conhecida como Bailarina das Letras, escreve sobre todos os assuntos, atualidades ou não, mas, o que a hipnotiza é escrever livre e brincar com metáforas, pois é mais um estado de espírito do que um trabalho que a mente prepara com antecedência… “Não me prendo à métricas, rimas ou regras rígidas do poetar – embora admire a quem o faça. Quando lanço mão à caneta ou teclado, eu simplesmente viajo num mundo irreal que, às vezes, me leva à trilha do real… São rumos não traçados, mas é isso que me atrai. O desconhecido, o novo, a ilusão que a mente borda…”, salienta Ilka Bosse.

A MENTE
Ilka Bosse      

Rendo-me a ser escrava…
Ardendo em brasa, o oco
que o fogo cava…
A dor da ausência ataca,
cortando na carne,
com gume, deste fogo,
da própria faca…
E a mente capta vozes
da própria mente,
que sempre mente,
um pouco,
do que a mente sente…
A alma desnorteada
acredita
nas inverdades
que a mente dita.
“Vamperiza” e suspira,
debilitada…
Prendendo-se à trama
e à rede
firmemente afixada…
A teia que não rompe,
nem corrompe,
mas, intoxica…
A Mente.

“Ressentimentos passam como o vento, são coisas de momento, são chuvas de verão…”

Fernando Lobo em momento familiar com o neto, Bena, e o filho, Edu. Foto: Acervo pessoal

Fernando Lobo com o neto Bena e o filho Edu Lobo

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, radialista e compositor pernambucano Fernando de Castro Lobo (1915-1996), ao compor “Chuvas de Verão”, retratou na letra o clima de confissões amorosas que prolongavam ou encerravam romances iniciados nos ambientes das boites dos anos 40 e 50. A música, gravada originalmente por Francisco Alves, em 1949, pela Odeon, talvez não se tornasse um clássico, conforme reconheceu o próprio Fernando Lobo, não fora a versão gravada por Caetano Veloso, vinte anos depois. Caetano Veloso juntou a beleza já existente na composição ao clima de rompimento amoroso, com uma delicadeza de tratamento que faltou à gravação original; a canção tem seu momento culminante no verso que repete o título, definindo com lirismo e precisão a transitoriedade dos romances de ocasião.

CHUVAS DE VERÃO
Fernando Lobo

Podemos ser amigos simplesmente
Coisas do amor nunca mais
Amores do passado, no presente
Repetem velhos temas tão banais

Ressentimentos passam como o vento
São coisas de momento
São chuvas de verão
Trazer uma aflição dentro do peito.
É dar vida a um defeito
Que se extingue com a razão

Estranha no meu peito
Estranha na minha alma
Agora eu tenho calma
Não te desejo mais

Podemos ser amigos simplesmente
Amigos, simplesmente, nada mais

A Rua da Felicidade, na visão poética que Guilherme de Almeida idealizava na infância

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Guilherme de Almeida, um dos maiores poetas brasileiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969), o Príncipe dos Poetas Brasileiros, nasceu em Campinas (SP), foi uma personalidade de destaque nos meios intelectuais e sociais como poeta, jornalista, advogado, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. Usando o recurso estilístico da aliteração no poema “A Rua de Rimas”, Guilherme de Almeida traduz todo o seu imaginário, que desde menino, futura viver em uma rua “que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: Rua da Felicidade.

A RUA DE RIMAS
Guilherme de Almeida

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
doiradas, descabeladas,
debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso,
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rala de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que me mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer;
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas,
correndo paralelamente,
como a sorte, como a sorte diferente de toda a gente, para a frente
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: RUA DA FELICIDADE…

Os olhos verdes da esperança, que enfeitiçavam a poesia romântica de Gonçalves Dias

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Poemas & Canções

O advogado, jornalista, etnógrafo, teatrólogo e poeta maranhense Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) foi destaque do romantismo brasileiro. Ficou famoso por ter escrito o poema “Canção do Exílio” — um dos mais conhecidos da literatura brasileira —, o curto poema épico I-Juca-Pirama e de muitos outros poemas nacionalistas e patrióticos que viriam a dar-lhe o título de poeta nacional do Brasil. Foi um ávido pesquisador das línguas indígenas brasileiras e do folclore. No poema “Olhos Verdes” mostra todo o seu lado romântico.

OLHOS VERDES
Gonçalves Dias

São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mim,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

Existe um outro Brasil que vem aí, na previsão poética do sociólogo Gilberto Freyre

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Poemas & Canções

O sociólogo, antropólogo, historiador, pintor, escritor e poeta pernambucano Gilberto de Mello Freyre (1900-1987), além de se consagrar como um estudioso da história e da cultura brasileiras, também dedicou-se à poesia. É bem verdade que aquele que se delicia com seus livros pode perceber o dom literário do sociólogo, cuja habilidade na escrita torna atraentes os temas que aborda em seus estudos.

“O outro Brasil que vem aí “ é um poema que traz a defesa das singularidades nacionais que estão presentes em seus textos sobre a formação da sociedade brasileira. É uma amostra do dom literário que o sociólogo possuía. Iniciando-se com os versos “Eu ouço as vozes / eu vejo as cores / eu sinto os passos / de outro Brasil que vem aí”, Freyre projeta para sua nação o desejo de ver seu pleno desenvolvimento social, de estar numa terra onde pessoas de todas as origens sociais possam ser donas de seus próprios destinos. O poema, além de ser uma aula sobre a brasilidade, é um fragmento de esperança lançado pela pena de Gilberto Freyre.

O OUTRO BRASIL QUE VEM AÍ
Gilberto Freyre

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí

“Aquela estrela é dela. Vida, vento, vela, leva-me daqui”, cantavam Fágner e Belchior

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Belchior e Fágner fizeram juntos a belíssima canção “Mucuripe”

Paulo Peres
Poemas & Canções
     

O produtor, instrumentista, cantor e compositor cearense Raimuno Fagner Cândido Lopes compôs em parceria com Belchior a belíssima “Mucuripe”, inspirada na paisagem pesqueira daquela praia, no Ceará, cuja letra reflete o sofrimento pelo abandono de um grande amor.

Para curar o coração, nada como sair bem vestido (chamando atenção) para a noitada, em busca de um novo amor: “Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo inda era flor”. Embora o “Ouro Branco do Ceará” seja o algodão mocó, Belchior usou o linho branco, proveniente dos campos europeus, algo mais sofisticado e caro.

A música Mucuripe foi um grande sucesso com Elis Regina e Roberto Carlos, embora tenha sido gravada, anteriormente, pelo Fagner no Disco de Bolso do Pasquim, em 1972, pela Phonogram, e depois por Belchior.

MUCURIPE
Belchior e Fagner

Aquela estrela é dela
Vida, vento, vela, leva-me daqui

As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Prás águas fundas do mar

Hoje a noite namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo ainda era flor

Sob o meu chapéu quebrado
O sorrido ingênuo e franco
De um rapaz novo encantado
Com 20 anos de amor

Um homem que queria um emprego público, na visão criativa do poeta Francisco Alvim

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Francisco Alvim, um poeta sempre bem-humorado

O diplomata e poeta mineiro Francisco Soares Alvim Neto, neste poema, conta a “História Antiga” do homem que queria um emprego público, uma prática iniciada no descobrimento do Brasil, com a célebre carta escrita por Pero Vaz de Caminha.

HISTÓRIA ANTIGA
Francisco Alvim

Na época das vagas magras
redemocratizado o país
governava a Paraíba
alugava de meu bolso
em Itaipu uma casa
do Estado só um soldado
que lá ficava sentinela
um dia meio gripado
que passara todo em casa
fui dar uma volta na praia
e vi um pescador
com sua rede e jangada
mar adentro e saindo
perguntei se podia ir junto
não me reconheceu partimos
se arrependimento matasse
nunca sofri tanto
jogado naquela velhíssima
jangada
no meio de um mar
brabíssimo
voltamos agradeci
meses depois num despacho
anunciaram um pescador
já adivinhando de quem
e do que se tratava
dei (do meu bolso) três contos
é para uma nova jangada
que nunca vi outra
tão velha
voltou o portador
com a seguinte notícia
o homem não quer jangada
quer um emprego público