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Corte vive a sua mais grave crise de credibilidade
Luísa Martins
Folha
Pelo menos metade dos ministros da atual composição do STF (Supremo Tribunal Federal) vê o presidente da corte, Edson Fachin, isolado e com dificuldades de superar a erosão interna, agravada após os desdobramentos da investigação sobre o Banco Master. Segundo relatos feitos à Folha por três ministros e por interlocutores próximos de outros dois, a postura e as declarações de Fachin dão munição aos opositores do Supremo, especialmente no Congresso Nacional.
A avaliação é a de que, no momento em que a corte vive a sua mais grave crise de credibilidade, Fachin tem se preocupado mais com a sua própria imagem do que com as dos seus pares, em um descompasso capaz de comprometer a união de que o tribunal precisa para enfrentar um ano eleitoral intenso.
AUTOCONTENÇÃO – Na última semana, durante aula magna no CEUB (Centro Universitário de Brasília), Fachin disse que o Supremo precisa buscar a autocontenção, respeitar a separação entre política e Justiça e resgatar a confiança da população. “Não podemos jamais abrir mão de fundamentar as nossas escolhas e justificar nossas decisões de forma lúcida, sensível e racional. Sem confiança não há legitimidade. E, sem legitimidade, não há autoridade que se sustente”, declarou.
Em evento recente no STF, Fachin defendeu que juízes atuem com “saudável distanciamento das partes e dos interesses em jogo” e disse que a Justiça não pode ficar “aprisionada em interesses paroquiais, conveniências econômicas ou cálculos políticos”. Recentemente, decisões dos ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Moraes sobre penduricalhos salariais foram vistas como recados a Fachin, no sentido de que esses seriam os reais problemas éticos do Judiciário, e não a realização de palestras ou viagens.
VETO – A mesma interpretação foi feita em relação à decisão de Dino sobre vetar a aposentadoria compulsória como punição a juízes que cometem infrações graves, agora sujeitos à perda do cargo, sem afastamento remunerado. A ordem judicial foi assinada no último dia 16.
Atualmente, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli estão no centro dos desgastes, devido às menções localizadas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, suspeito de liderar uma organização criminosa voltada à prática de fraudes financeiras.
Fachin acompanha tudo em silêncio, o que desagrada a uma ala da corte. Um magistrado chegou a defender que ele fizesse um pronunciamento em rede nacional para afastar a percepção da população de que o tribunal estaria sob suspeita, mas a ideia não emplacou.
PRECIPITAÇÃO – O presidente do STF entende que, sem conhecer integralmente o teor das mensagens (o processo está sob sigilo), qualquer manifestação seria precipitada. Entretanto, parte do tribunal avalia que, como um líder, ele deveria presumir a fé pública das palavras de Toffoli e Moraes, que negam irregularidades.
De acordo com os ministros dessa ala, o isolamento de Fachin teve início quando ele recebeu do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, um relatório que apontava para a suspeição de Toffoli, então relator do caso Master. Na reunião secreta em que os ministros debateram o assunto, em 12 de fevereiro, Fachin queria levar o debate de suspeição à votação no plenário no dia seguinte, mas só teve o apoio da ministra Cármen Lúcia.
A maioria foi contra a medida, que deixaria o tribunal ainda mais exposto. Isso intensificou a desconfiança sobre Fachin. A corte rejeitou a suspeição de Toffoli, que optou por abandonar a relatoria. O caso foi redistribuído para o ministro André Mendonça. Toffoli acabou se declarando suspeito na semana passada, alegando razão de foro íntimo.
CODIGO DE CONDUTA – Em meio às repercussões do caso Master, Fachin tem insistido na necessidade de um código de conduta para tentar recompor a imagem do Supremo. O “timing” tem sido criticado internamente até por quem apoia a implementação das regras.
A ausência de outros colegas nas agendas institucionais de Fachin —como a visita do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e a reunião com os presidentes de tribunais, ambas na semana passada— também tem sido apontada como um sinal de isolamento.
CONVERSAS GENÉRICAS – A auxiliares, Fachin disse que não se sente apartado dos demais e que mantém diálogos periódicos com todos os colegas para mapear os desafios da corte, inclusive em relação a casos de grande impacto, como a prisão de Vorcaro e o rumo do inquérito das fake news. Por outro lado, magistrados relataram à Folha que essas conversas são, em geral, genéricas e superficiais, em que o presidente reconhece haver um clima de tensão, mas sem especificar o que pretende fazer para contorná-lo.
O presidente do STF afirmou a pessoas próximas que a discrição sempre fez parte da sua carreira e da sua personalidade —e que a defesa da autoridade, da integridade moral e da imparcialidade dos ministros é uma bandeira inegociável da sua gestão.
O véu da ignorância.
Quem não enxerga as regalias dos togados com seus penduricalhos, auxîlios moradia e nenhuma responsabilidade pelas decisões flagrantemente vendidas e contrárias às Leis vigentes e às provas dos autos?
O omisso e apoiador de bandidos de toga deveria renunciar ou se aposentar.
Só assim mitigaria a crise de credibilidade.
Um imoral a menos.
Gilmar insiste em blindagem vexatória de Toffoli
Gilmar criou uma inusitada blindagem para si e para os colegas de toga. No início de dezembro, numa canetada monocrática fixou normas que dificultavam o impeachment dos membros da corte, sanção que pela Constituição cabe ao Senado.
Poucos dias depois, o ministro Dias Toffoli determinou a subida do caso Master para o Supremo, a primeira de uma série de decisões esdrúxulas que se tornaram motivo de suspeita grave quando vieram à tona suas relações financeiras com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Desde então, o ímpeto protetivo de Gilmar ganhou foco. Em fevereiro, o decano do tribunal suspendeu a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt, que tem Toffoli entre seus sócios e fez negócios com o fundo de investimentos Arleen, ligado à rede de Vorcaro.
Cometeram-se não poucas heterodoxias jurídicas para impedir a providência aprovada na CPI do Crime Organizado. O serviço foi completado na quinta-feira (19) com a suspensão da quebra dos sigilos do Arleen, votada pela mesma comissão de inquérito.
(…)
Folha de S. Paulo, Opinião, 20.mar.2026 às 22h00 Por Editorial
Não existe crise de credibilidade quando ninguém mais crê no STF. O que existe, são aqueles que se beneficiam das decisões e, depois, falam em credibilidade da corte.