Desprezo dos intelectuais não impede que as religiões continuem em expansão

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

As críticas às religiões são largamente conhecidas, inclusive suas matrizes. Segundo Freud, um religioso é infantil e regressivo porque não consegue lidar com o desamparo estrutural da condição humana. Adere a seres imaginários, derivados da expectativa infantil de proteção dos pais, a fim de ser cuidado por esses seres.

Segundo Nietzsche, a crítica se refere à covardia diante da indiferença cósmica e o decorrente ressentimento moral e religioso. Se, para Freud, falta maturidade à pessoa religiosa, para Nietzsche, falta coragem. O abandono cósmico é insuportável, como dizia o escritor grego Nikos Kazantzakis, um leitor aguerrido de Nietzsche.

UM ALIENADO? – Segundo Feuerbach, o religioso é um alienado das próprias potências que ele aloca imaginariamente nos deuses —em Cristo, no caso do cristianismo, especificamente. Para o autor, toda teologia é antropologia filosófica.

Segundo Marx, não muito longe do Feuerbach, o religioso é um alienado que outorga ao clero e sua instituição os poderes sobre si mesmo, sua sociedade e sobre o mundo. Mas, para nosso profeta do fim do capitalismo, essa alienação é material, visto que pagamos por ela.

Compramos das religiões o ópio que nos deixará incapazes de enfrentar a vida com nossos próprios recursos. Toda religião é um delírio que nos custa dinheiro, em algum momento.

MEDO DOS DEUSES – Segundo Epicuro, o mote da adesão aos deuses é o medo deles. Tememos o poder deles sobre nossas vidas, sejam vidas terrenas e históricas, sejam vidas depois da morte.

Ao afirmar seu atomismo materialista, Epicuro nos livrava do terror dos deuses para com a vida após a morte, já que a alma seria puro ar que saia pela boca no último suspiro, portanto, mortal.

Quem sabe, se perdêssemos o medo dos deuses, perceberíamos que nada de ruim nos aconteceria —de ruim digo, algo diferente do que sempre nos acomete. O medo seria o afeto religioso por excelência.

POLÍTICA DO MEDO – Com Spinoza, aprendemos a suspeitar do caráter político das religiões —que o Marx, “doutor em Epicuro”, herdou como parte de sua crítica às religiões. Se para Freud era o desamparo, para o Nietzsche a indiferença cósmica, para o Feuerbach e Marx era alienação, para Spinoza, era uma forma de política do medo.

Segundo alguns darwinistas, as religiões são traços evolucionários que se caracterizam por delírios imaginários organizados objetivamente e que foram adaptativos desde sempre. Seja para temermos os deuses maus, seja para pedirmos ajuda para os bons, as religiões nada mais seriam do que um polegar opositor metafísico.

Segundo o antropólogo Clifford Geertz, as religiões são “apenas” sistemas culturais de sentido como quaisquer outros. Humano, demasiado humano.

A FÉ RESISTE – Entretanto, tais críticas em nada arranharam, até hoje, a fé e a adesão da maior parte dos seres humanos a sistemas religiosos dos mais variados tipos.

Apesar da reconhecida validade de todas essas análises, pessoalmente, sinto que a crítica freudiana é a mais letal e aponta para um elemento complicador, principalmente nos tipos de adesão mais radical a sistemas religiosos. Esse complicador é o vínculo entre a vida psicológica enquanto tal e a dita vida espiritual.

Onde ficaria a fronteira entre eventos estritamente psicológicos ou psicopatológicos e eventos de ordem espiritual-religiosa? Se você tem uma adesão dura a alguma religião que explicaria transtornos de comportamento a partir de uma semântica espiritual-religiosa, a fronteira, seguramente, poderia ficar borrada.

REGRESSÃO FREUDIANA – Se a adesão a sistemas religiosos significa, como pensava Freud, algum tipo de regressão psíquica a estágios mais “primitivos” —no sentido psicanalítico, ou seja, mais próximos da infância psíquica —, na lida com o desamparo e suas consequências, tais como medo, insegurança, sentimento de abandono, estresse material grave, doenças, ou mesmo algum tipo de dependência absoluta tardia, a tendência seria que esta adesão religiosa se caracterizasse por ser inatingível aos esforços da razão.

A conclusão é que, em sendo as religiões sistemas abertos de interpretação —n ão há limite para a interpretação religiosa dos fatos porque a religião implica teorias absolutamente dissociadas de qualquer teste racional ou empírico—, suas explicações podem devorar os eventos da vida, atribuindo sentido espiritual a tudo.

A crítica de Marx tem aqui também seu lugar. Qualquer serviço espiritual, principalmente se envolve atos de magia, custa dinheiro, muito dinheiro. Quando as religiões assumem as explicações para os sofrimentos psíquicos, as religiões vendem sua falsa cura para nós, os infelizes.

Sem acordo, Congresso acumula pautas pendentes às vésperas do recesso

Campanha de Flávio teme novo desgaste após bloqueio de R$ 119 milhões de Valdemar

Carta de Bolsonaro sela Flávio como porta-voz e mira dissidências no bolsonarismo

Uma carta que Bolsonaro teria enviado a Flávio, cheia de ternura e de palavrões

🎨 c🖌️ Nesta semana, o convidado do #RodaViva foi o senador Flávio Bolsonaro! Durante a conversa, o chargista oficial do programa, Luciano Veronezi, registrou os principais momentos da entrevista

Charge do Veronezi (Roda Viva)

Vicente Limongi Netto

Não foi fácil, mas driblei redações, redes sociais, plataformas e a famosa X, para conseguir, em primeira mão, a carta original de Bolsonaro para o filho Flávio. Usei toda a experiencia de repórter “bombril”, aquele de múltiplas utilidades.

A caligrafia do ex-capitão é confusa, com palavrões, alguns tão cabeludos de fazer corar o Papa. Se fosse letra bonita, com bom português, não seria o velho Jair. O amoroso texto deverá alcançar muitos corações, porque como se diz à boca pequena, pai é pai. É marcante a preocupação de Bolsonaro com o filho trapalhão.

Bolsonaro tem defeitos. Mas é inegável o carinho que tem pelos filhos. Vamos à histórica carta:

 Porra, Flávio, você não para de fazer cagadas. Fico feliz que você tem meu sangue de batalhador, mas não exagera. Tua candidatura está uma merda. Só é destaque na imprensa quando você faz gol contra.

Teu irmão, Eduardo é outro babaca. Bota puta banca de gostosão nos Estados Unidos, mas não passa de puxa saco do meu amigo Trump. Vocês dois e mais o estúpido do Paulo Figueredo só me dão desgostos.

Puta que pariu, tentem andar nos trilhos. Respeitem o tempo o tempo que ainda tenho de vida. O filho da puta do Lula vai deitar e rolar na televisão com tuas asneiras. Cacete, te manca. Ver se acerta uma. Tente me encher de orgulho.

Ando cansado. Você sabe. Proibido de sair para comer pastel com caldo de cana, andar de moto e jet-ski, e até abraçar os doidos bolsonaristas. Tenho saudades das passeatas com motos. Xandão é escroto. Acabou com o pouco de alegria que tinha.

Ver se te manca, Flávio e procura andar direito. Larga a Michelle de mão. Meu candidato é você. Mas para de fazer merda.  Não tenho dormido direito. Beijos do pai que te ama,

Jair. Brasilia, 11 de julho.

VOLTA, NEYMAR – Acredito que Neymar, com 34 anos, ainda tem futebol para ajudar o Brasil a voltar a jogar sonhando com o hexa, na copa de 2030. Messi está jogando com 39 anos, Cristiano Ronaldo jogou esta copa com 41 anos. A diferença é que ambos nunca sofreram demasiado com contusões, ao contrário de Neymar, saco de pancada dos adversários.

Mesmo que não jogue na copa de 2030 com o vigor físico dos bons tempos, Neymar tem o dom da técnica apurada. Nunca deixará de ser craque. Tem legado de bons serviços ao futebol brasileiro que jamais poderá ser subestimado, como frisou o campeão do mundo, lateral Roberto Carlos.

FAZER BONITO – Pode perfeitamente liderar grupo de atletas para que o Brasil volte a fazer bonito em copas do mundo.

Posso elencar atletas com condições de ajudar a seleção a voltar a conquistar títulos, como Rafinha, Endrich, Wesley, Estevão, Rodrigo, André, Pedro, Gerson, Militão, Alysson, Paquetá, Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Martineli, Richardison, Martineli, Danilo do Botafogo, perto de retornar ao Palmeiras, João Gomes, Rayan, Luiz Henrique, Douglas e Caio Jorge. 

A seleção brasileira precisa ter uma base sólida, ganhar conjunto, ajustar suas linhas, para deixar de ser um bando de jogadores que se conhecem no hall do hotel.

ANCELOTTI ZERO – Por ora, no futebol brasileiro, os resultados práticos do técnico Ancelotti são zero.  Dispõe apenas de observações. 

 Sempre protestei contra a contratação de técnicos estrangeiros para a seleção. Somos pentacampeões do mundo sem eles.

Mas como a CBF renovou o contrato do mister até a copa de 2030, antes mesmo de começar a atual copa, resta torcer pelo sucesso dele. 

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União Brasil e Progressistas descartam apoio nacional à candidatura de Flávio Bolsonaro

Afinal, de que cor eram os olhos de ressaca de Capitu, musa de Machado de Assis?

Olhos de Capitu: A Magia da Literatura BrasileiraPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Em sua obra, não se sabe de que cor eram os apaixonantes olhos de Capitu, personagem do romance “Dom Casmurro”, que o escritor descrevia como “olhos claros e grandes”. Sem definir a cor exata, ele os imortaliza metaforicamente como “olhos de ressaca” e “de cigana, oblíqua e dissimulada”.

Neste desesperado poema de amor, porém, Machado de Assis é mais preciso e descreve sua paixão pelos olhos verdes de sua musa, uma Capitu que restou paea sempre desconhecida.

MUSA DOS OLHOS VERDES 
Machado de Assis                                          

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa

Do eterno devaneio,
Sê minha amante,
os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!

Polarização leva pré-candidatos a desistirem da corrida presidencial

Charge do Babu (Arquivo do Google)

Yago Godoy
O Globo

A pouco menos de três meses das eleições, o cenário acirrado da disputa presidencial, marcado pela polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tem provocado desistências e dificultado os planos de outros pré-candidatos.

Nesta semana, o deputado federal Aécio Neves (MG) descartou a possibilidade de concorrer ao Palácio do Planalto pelo PSDB, enquanto o partido Democracia Cristã (DC) avalia desistir de lançar o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa.

SEM PONTUAÇÃO – Em janeiro, o Democracia Cristã anunciou a pré-candidatura do ex-ministro Aldo Rebelo. Ele foi o nome da sigla até maio, quando, segundo a Genial/Quaest, nem sequer pontuou na pesquisa de intenção de voto. Diante do fraco desempenho, o partido decidiu lançar Barbosa.

No mês passado, ao ser testado pela primeira vez, o ex-magistrado registrou 1% em um eventual cenário de primeiro turno. O percentual é o mesmo de nomes como Samara Martins, da Unidade Popular (UP), e Augusto Cury, do Avante.

DESISTÊNCIA – Presidente nacional do DC, o ex-deputado federal alagoano João Caldas admitiu, na quinta-feira (9), que Barbosa pode desistir de disputar as eleições. Segundo o dirigente partidário, o cenário “não está nada fácil”.

— Ainda estamos tentando, mas não está fácil. Temos até 5 de agosto, prazo para realizar a convenção que pode definir o nome do candidato a presidente, mas está muito difícil — disse Caldas, em entrevista ao site Poder360.

Barbosa foi o primeiro homem negro a ocupar uma cadeira na mais alta Corte da Justiça, onde permaneceu por 11 anos. Ele foi relator dos processos do mensalão, escândalo que marcou os dois primeiros governos Lula e ainda é utilizado por adversários para criticar as gestões petistas.

ESTRATÉGIA –  Em meio aos desdobramentos do caso Master, que atinge tanto nomes do governo — como o senador Jaques Wagner (PT) — quanto da oposição — com a crise causada na direita pelo caso “Dark horse” —, a estratégia do ex-ministro passa por capitalizar o discurso contra a corrupção. Outro objetivo é se inserir nos debates sobre a “moralização” do STF. A definição precisa ocorrer até 5 de agosto, data-limite para as convenções partidárias.

No dia anterior à declaração de Caldas, quem optou por deixar a corrida foi Aécio Neves. Em 2014, ele disputou a Presidência contra a ex-presidente Dilma Rousseff, em uma das eleições mais acirradas do país: o tucano obteve 48,36% dos votos válidos, contra 51,64% da petista. Desta vez, aparece com 2% das intenções de voto, de acordo com a Genial/Quaest.

— Depois de muitas conversas internas, tenho que afirmar, em primeiro lugar, que o PSDB caminha para não ter candidatura própria nesta eleição — afirmou Aécio, em entrevista ao Estado de S.Paulo.

PLANOS PARA 2030 – O ex-deputado ressaltou que, a partir de agora, os planos do partido para uma candidatura presidencial estão voltados para 2030. Antes de decidir entrar na disputa, ele havia convidado o ex-ministro Ciro Gomes. O cearense, contudo, recusou o convite para focar em sua candidatura ao governo do Ceará, onde lidera contra o governador Elmano de Freitas (PT).

Aécio defende se dedicar à reestruturação do PSDB na Câmara, que deve optar por apoiar uma candidatura de centro. O partido decidiu entrar na disputa em meio ao início dos desgastes na pré-campanha de Flávio, provocados pela revelação de sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

CORRIDA ELEITORAL –  A última pesquisa Genial/Quaest mostrou Lula na liderança da disputa pelo Planalto no primeiro turno, com 39% das intenções de voto, contra 29% de Flávio. Depois deles, nenhum candidato ultrapassa 3%, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.

Apontados até o momento como as principais alternativas à polarização, os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) marcaram 3% e 2%, respectivamente. Pelo partido Missão, Renan Santos apareceu empatado com o ex-governador de Goiás.

VOTO DE REJEIÇÃO – Durante agenda no Rio de Janeiro, na quinta-feira, Caiado foi questionado sobre aparecer atrás dos dois pré-candidatos nas pesquisas e afirmou que o cenário é motivado pelo “voto de rejeição” entre os eleitores dos adversários.

— Estamos vendo uma candidatura de rejeitados. São os mais rejeitados que estão aí. “Eu não gosto do Lula, voto no Flávio. Eu não gosto do Flávio, voto no Lula”. Isso é jogo de revanche ou é uma eleição para o país? É sobre quem está mais no noticiário da Polícia Federal, ou quem tem um passado que o credencia, uma vida de luta? — declarou a jornalistas após um almoço com empresários na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

Aliado e conselheiro de Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo deve R$ 5 milhões à União

Faria Lima avalia atuação de Flávio nos EUA como inócua, politizada e “decepcionante”

O método Vorcaro provoca a corrosão silenciosa das instituições brasileiras

Vorcaro tentava transformar informação em arma de poder

Pedro do Coutto

O escândalo envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, já extrapolou há muito tempo os limites de uma investigação sobre fraudes financeiras. A cada nova etapa da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, o que emerge é um retrato preocupante de um modelo de atuação que, segundo os investigadores, buscava combinar influência econômica, produção de narrativas, coleta de informações sensíveis e pressão sobre adversários. Se confirmados pela Justiça, os fatos revelam um mecanismo muito mais sofisticado do que um simples caso de corrupção financeira. Revelam uma tentativa de transformar informação em arma de poder.

A nova fase da investigação trouxe à tona mensagens que indicam que Vorcaro teria determinado ao publicitário Thiago Miranda o levantamento de informações pessoais e patrimoniais sobre o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho. De acordo com os autos mencionados na decisão judicial que autorizou buscas e apreensões, o executivo era visto como um obstáculo aos interesses do grupo ligado ao Banco Master. A resposta atribuída a Miranda — “deixa comigo” — tornou-se um dos símbolos daquilo que a Polícia Federal descreve como uma estrutura organizada para monitorar pessoas consideradas inconvenientes aos interesses da organização investigada.

MESMO PADRÃO – O episódio ganhou ainda maior dimensão porque não se restringia ao ambiente empresarial. As investigações apontam que o mesmo padrão teria sido empregado contra jornalistas responsáveis pela cobertura do caso Master. A colunista Malu Gaspar, de O Globo, aparece nas investigações como alvo de uma verdadeira devassa em seus dados pessoais, familiares e patrimoniais. Mensagens recuperadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro demonstrava preocupação com novas reportagens e teria afirmado ser necessário “frear” a jornalista. O objetivo, segundo os investigadores, seria encontrar elementos capazes de constrangê-la ou enfraquecer sua credibilidade pública.

Não se trata apenas de um ataque a uma profissional de imprensa. Trata-se de um questionamento ao próprio funcionamento da democracia. Em qualquer Estado de Direito, jornalistas, investigadores, reguladores e executivos de instituições concorrentes exercem papéis distintos, mas igualmente essenciais para o equilíbrio do sistema. Quando passam a ser monitorados, pressionados ou transformados em alvos de campanhas coordenadas, o prejuízo deixa de ser individual. O dano alcança a capacidade das instituições de exercerem suas funções com independência.

As investigações também descrevem uma sofisticada estratégia de comunicação destinada a influenciar a opinião pública durante a crise do Banco Master. Segundo documentos da Polícia Federal, recursos financeiros teriam sido utilizados para contratar influenciadores digitais, estruturar campanhas em defesa da instituição e atacar decisões do Banco Central após a liquidação extrajudicial do banco. A suspeita é de que essa estratégia buscasse alterar a percepção pública dos fatos enquanto as autoridades aprofundavam as investigações. A defesa dos investigados nega a prática de crimes.

MECANISMOS DE PRESSÃO – O aspecto mais preocupante, contudo, talvez seja outro. Ao longo das últimas décadas, grandes escândalos de corrupção no Brasil frequentemente estiveram associados à compra de apoio político ou ao desvio direto de recursos públicos. O caso Master parece apontar para uma evolução desse modelo. Em vez de apenas buscar influência sobre decisões, a estrutura investigada teria investido também na construção de mecanismos permanentes de pressão, coleta de informações estratégicas e produção de narrativas favoráveis aos seus interesses.

Essa lógica representa uma ameaça mais sofisticada. Não depende exclusivamente de agentes públicos corrompidos. Ela procura capturar o ambiente onde decisões são tomadas, opiniões são formadas e reputações são construídas. Trata-se de um processo silencioso, capaz de atingir órgãos reguladores, veículos de comunicação, concorrentes privados e até integrantes do sistema financeiro.

O episódio envolvendo o executivo do Itaú ilustra exatamente essa mudança de paradigma. Não se investigava apenas um concorrente de mercado. Segundo a Polícia Federal, buscava-se mapear vulnerabilidades pessoais e patrimoniais que pudessem ser utilizadas futuramente. Ainda que eventual utilização desse material não tenha sido demonstrada, a própria produção desses levantamentos já desperta preocupações relevantes sobre privacidade, abuso de poder econômico e utilização de dados pessoais para fins de intimidação.

MONITORAMENTO – A reação institucional também revela a gravidade do caso. Entidades representativas da imprensa, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), manifestaram preocupação com as revelações envolvendo o monitoramento de jornalistas, classificando a prática como incompatível com a liberdade de imprensa e defendendo investigação rigorosa sobre eventual acesso ilegal a dados protegidos pela legislação brasileira.

O Brasil já conheceu diferentes formas de captura das instituições. Algumas ocorreram pela corrupção tradicional. Outras, pelo loteamento político. O caso envolvendo Daniel Vorcaro sugere um fenômeno ainda mais complexo: o uso integrado de poder econômico, inteligência informal, campanhas digitais e coleta clandestina de informações para neutralizar adversários e moldar o ambiente institucional em benefício próprio.

A responsabilidade de confirmar ou rejeitar essas acusações caberá ao Poder Judiciário, assegurando aos investigados o pleno direito ao contraditório e à ampla defesa. Mas as informações já tornadas públicas deixam uma advertência importante. A maior ameaça às democracias contemporâneas nem sempre se manifesta por ataques frontais às instituições. Muitas vezes, ela se desenvolve silenciosamente, por meio da intimidação, da manipulação da informação e da tentativa de transformar dados privados em instrumentos de poder. Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas criminal ou financeiro. Passa a ser institucional. E, por isso mesmo, interessa a toda a sociedade.

Marina Silva critica aliança entre PT e PL para flexibilizar cotas eleitorais: “Retrocesso grave”

Ex-ministra vai fazer palanque com PT

Juliana Arreguy
Folha

Marina Silva, 68, diz ser inaceitável que partidos de polos opostos na política possam se unir na tentativa de driblar as cotas de distribuição mínima do fundo eleitoral às candidaturas de mulheres e negros.

Pré-candidata ao Senado pela Rede em São Paulo, ela observa que as regras da Justiça Eleitoral, que definem que ao menos 30% do fundo eleitoral dos partidos devem servir para as campanhas das minorias “não são concessões, nem favor partidário”. Uma das siglas que tenta burlar a cota, como noticiado pela Folha, é o PT, com quem Marina fará palanque nestas eleições.

FLEXIBILIZAÇÃO – “É especialmente inaceitável que partidos de diferentes campos políticos se unam para flexibilizar justamente mecanismos criados para ampliar a participação de quem historicamente foi excluído da política”, disse ela à reportagem.

Ex-ministra do Meio Ambiente e hoje deputada federal, Marina vai encarar a campanha ao Senado para fortalecer o palanque do presidente Lula (PT) em São Paulo, assim como fez há quatro anos. Na chapa, tanto ela como Simone Tebet (PSB) disputarão as duas vagas ao Senado, enquanto Fernando Haddad (PT) será o candidato ao governo estadual e Márcio França (PSB), o candidato a vice.

A composição, anunciada ao fim de junho, deu fim a especulações de que Marina poderia deixar a disputa ou sair como vice de Haddad. A agenda ambientalista, pela qual dedica sua vida pública, seguirá como a sua prioridade. Questionada sobre o que mais poderia oferecer, a resposta foi firme: “E quem disse que o meio ambiente não contempla as demais questões?”

Em relação às fake news e o uso de deepfakes, qual será o maior desafio da campanha?
É poder fazer com que os processos orgânicos, não artificiais, prevaleçam. Não estou negando a tecnologia, mas o conteúdo enviado à população deve ter base de realidade, e não da invenção de narrativas. Atualizar a linguagem é estar disposto a conversar com jovens, com quem tenta se informar de outras formas, que buscam novas estéticas para os conteúdos políticos. Política, ética e estética nunca deveriam se separar.

Já que a sra. citou os jovens: como formar novas lideranças na esquerda, já que o campo progressista tem enfrentado dificuldades em apresentar novos quadros?
Acho que temos novos quadros: Fernando Haddad, Simone Tebet, Renan Filho… Mas se não tivermos projetos políticos que sejam capazes de suscitar nos jovens essa atração, fica difícil chamar para a política. O mundo vive um processo muito desafiador, não é só o Brasil. A gente vive o imediatismo político, que é um terreno muito propício ao populismo. É uma visão que vai pelo caminho mais fácil de prometer o que às vezes não tem condição de cumprir ou de criar bodes expiatórios para dizer que o problema foi resolvido.

A sra. considera o presidente Lula populista?
Populismo é dizer coisas que não são possíveis de entregar, de vender falsas soluções. Eu não acho que o Bolsa Família, por exemplo, seja uma falsa solução. Tirar o Brasil do mapa da fome, ser capaz de isentar pessoas que ganham até R$ 5.000 de ter que pagar imposto, isso não é populismo, isso é justiça.

Governistas reclamam de pautas travadas no Congresso e dos custos das emendas. O que é necessário mudar?
A visão e a postura no momento da escolha: quem são as pessoas que respeitam a Constituição? A execução do orçamento público é uma atribuição constitucional do Executivo, que vai sendo cada vez mais subtraída por emendas que não ligam lé com cré e são mais destinadas a amealhar votos –aí, sim, de forma populista–, e por não serem executadas de forma transparente, são desviadas para finalidades antirrepublicanas.

Como enxerga o Congresso hoje em relação a 1995, quando foi eleita senadora pela 1ª vez?
Para quem teve a oportunidade de ouvir reclamações da qualidade do Congresso de pessoas como Pedro Simon, Artur da Távola, Darcy Ribeiro, [Eduardo] Suplicy, Benedita da Silva, e mesmo divergindo, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney e Jader Barbalho, eu diria que eles não sabiam o que vinha pela frente.

O que falta na interlocução da esquerda com alguns setores religiosos, em especial os evangélicos?
Acho que essa falta não é só para o campo democrático, é para todos os partidos políticos, mesmo aqueles que contam numericamente com uma grande quantidade de intenções de voto de pessoas cristãs. Temos que tratar evangélicos, católicos, pessoas de religiões de matriz africana e aqueles que não professam nenhuma fé como cidadãos. Somos um Estado laico, em que as políticas públicas devem ser para todos.

Às vezes você peca ou por querer fazer uma assepsia da fé em um país que tem mais de 80% da população se declarando cristã, ou tentando fazer a instrumentalização dessa fé. As duas formas são equivocadas. No campo democrático, desde 2018, essa sinalização começou a piscar. E há um esforço muito grande de entender isso, mas a gente não precisa de Fla-Flu religioso quando você respeita o Estado laico.

O que fazer no caso de temas polêmicos como o aborto?
Evitar a instrumentalização de um tema tão complexo. Nenhuma mulher faz aborto porque quer fazê-lo como um método contraceptivo. São circunstâncias muitas vezes dolorosas, extremas, que levam uma pessoa a abortar. As religiões que trabalham com a ideia do amor, da compaixão e do respeito procuram ser coerentes com aquilo que são os ensinamentos bíblicos, mas não fazem essa instrumentalização. E na política não é o lugar de fazer. Tenho essa postura desde sempre e ela é colocada como uma forma de me indispor com o público evangélico, porque sempre busco o caminho da mediação. É um debate que sempre defendi que deveria ser submetido a um plebiscito.

Para além da agenda do meio ambiente, o que mais defenderá na campanha?
E quem disse que o meio ambiente não contempla as demais questões? Como se fosse possível ter desenvolvimento econômico sem água, agricultura sem terra fértil. Dentro de uma visão integrada de economia e ecologia, é possível pensar políticas públicas que sejam geradoras de emprego, renda, avanço tecnológico e justiça social. Os empresários sabem que, para poder competir em mercados cada vez mais exigentes, é necessário dar uma resposta para as mudanças climáticas.

São Paulo é um grande produtor de etanol e pode ser a solução para o transporte, tanto no caso da aviação quanto do transporte marítimo. Podemos ser o estado capaz de atrair os investimentos para a nova indústria de carros elétricos, de produção de baterias, pás eólicas e hidrogênio verde.

A sra. vê maior atenção às pautas ambientais por causa dos desastres climáticos?
Com certeza. É o que eu chamo de pedagogia do luto. Se tivéssemos governos com visão antecipatória, que desde 1992 [na Conferência da ONU, no Rio de Janeiro] foram alertados, hoje não estaríamos aprendendo por essa pedagogia dolorosa. Em São Paulo, 140 municípios são suscetíveis a eventos climáticos extremos [são 173 municípios, segundo lista do Ministério da Casa Civil].

Desde 2014, vivemos crises hídricas em São Paulo. A situação se agravou, principalmente com a privatização da Sabesp. Os sistemas estão colapsando e, não por acaso, várias caixas d’água estão explodindo, levando vidas, por causa de intervenções da empresa que faz os serviços pensando mais em dinheiro do que na vida das pessoas.

Nós não temos uma ação voltada para a qualidade do transporte, para que as pessoas tenham que usar menos o carro. Além de gerar uma cidade colapsada em termos de mobilidade, continua poluindo e criando graves problemas de saúde pública.

O que falta para as mulheres conseguirem mais espaço na política?
Mudar as estruturas que levam as mulheres a serem minoria na política. Só que, para que essas estruturas mudem, é preciso ter mais mulheres na política. Veja que é um paradoxo. Tudo leva à nossa exclusão.

Inclusive dentro dos partidos, não?
É. Existem partidos que conseguiram ter mais mulheres dentro das estruturas de direção, e isso faz a diferença porque, quando elas estão presentes, as exigências para ampliar esses espaços conseguem ser mais ouvidas. Isso não os torna isentos de reclamação. Na prática, é sempre mais difícil. Nós não queremos só o direito de concorrer em quantidade.

É uma redundância: no dia em que não for mais necessário ter cotas, nós já estaremos participando do processo em completa igualdade de condição. Hoje nós somos 50% da população com apenas 18% de representação no Congresso.

O que acha da tentativa de siglas que vão do PT ao PL de tentarem driblar as cotas para mulheres e negros?
É um retrocesso grave e precisa ser enfrentado com firmeza. Essas regras não são concessões, nem favor partidário, e sim instrumentos mínimos de correção de desigualdades históricas que ainda limitam a presença de mulheres, pessoas negras e indígenas nos espaços de poder.

A democracia brasileira só se aprofundará quando sua representação política se parecer mais com a população brasileira. Burlar essas cotas significa perpetuar estruturas que concentram poder, recursos e visibilidade nas mãos dos mesmos grupos de sempre. É especialmente inaceitável que partidos de diferentes campos políticos se unam para flexibilizar justamente mecanismos criados para ampliar a participação de quem historicamente foi excluído da política.

É preciso garantir condições reais de disputa: financiamento, tempo, estrutura e respeito. Essas cotas existem porque a desigualdade existe. Enquanto ela persistir, enfraquecer esses instrumentos é trabalhar contra a renovação, contra a diversidade e contra a própria democracia.

Pensa em se candidatar mais uma vez à Presidência da República?
Eu já dei a minha contribuição, fui candidata três vezes, estou na política desde 1986 e me sinto muito agradecida a Deus, ao povo do Acre, ao povo brasileiro e ao povo paulista por todas as oportunidades que tive de poder atuar na política institucional.

RAIO-X | Marina Silva, 68

Formada em história pela Universidade Federal do Acre, foi líder sindical, senadora (1995-2011), ministra do Meio Ambiente (2003-2008 e 2023-2026) e candidata à Presidência da República (2010, 2014 e 2018). Uma das fundadoras da Rede, é deputada federal do partido por São Paulo e pré-candidata ao Senado nestas eleições.

Maior adversário de Lula pode ser seu isolamento político no segundo turno

Processo contra Moraes nos EUA é grave, porque desmoraliza o ministro e o Brasil

Ilustração reproduzida do Correio Braziliense

Carlos Newton

É um espanto a frieza do ministro Alexandre de Moraes, que continua atuando normalmente no Supremo Tribunal Federal, sem demonstrar a menor contrariedade por ter sido flagrado vendendo proteção a um criminoso de grande porte, como Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Como se sabe, a mulher dele, Viviane Barci de Moraes, celebrou um contrato de R$ 129,6 milhões para prestação de serviços que jamais foram executados. Pelo contrário, ao tentar exibir supostos trabalhos, a advogada Viviane citou serviços que na verdade foram prestados por outros escritórios de advocacia,

TOFOLLI, TAMBÉM – Na mesma situação está outro ministro, Dias Toffoli, que também se envolveu com Vorcaro na venda de um luxuoso ressort no Paraná e foi até obrigado a se declarar impedido de votar no processo do Master. Toffoli tenta agir como Moraes, como se não tivesse acontecido nada, porém não demonstra a mesma desfaçatez – anda recolhido, cabisbaixo e fugindo da imprensa.

É que há uma diferença entre os dois. Toffoli sabe que tudo será uma questão de tempo. Fatalmente será incriminado no caso do Master e acabará condenado pela Segunda Turma. Já o ministro Moraes tem esperança de acabar incólume, porque foi a mulher dele que formalmente se expôs. Mas é certo que o STF estará totalmente desmoralizado se livrar o ministro de punição.

É claro que estamos falando em tese, com base no dizem as leis e os costumes, porque no Brasil a Justiça vive seu pior momento, basta lembrar a recente libertação da primeira-dama do PCC, Stella Stefanie de Oliveira, algo inimaginável em qualquer país civilizado.

AÇÃO NOS EUA – Outra diferença é que Toffoli só se preocupa com seus problemas no Brasil, enquanto Moraes está sendo processado também nos Estados Unidos. É uma ação politicamente grave, porque desmoraliza não somente o Supremo, mas também o próprio país.

Há quem pense que Moraes agiu certo, porque uma das redes sociais atingidas, a plataforma de vídeos Rumble, não tinha escritório de representação no país, mas não é esse o caso.

Na realidade, o ministro está sendo processado pela Rumble e pela Trump Media, empresa de propriedade do presidente americano, por haver emitido ordens de bloqueio de contas em redes sociais nos Estados Unidos. As acusações incluem abuso de poder e censura ilegal contra usuários alinhados à direita brasileira, como o blogueiro Allan dos Santos.

PRIMEIRA EMENDA – Segundo as empresas, as decisões do ministro, ao obrigar a Rumble a remover contas de usuários, violam a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege a liberdade de expressão.

Dificilmente Moraes será inocentado. Isso significa nova inclusão na Lei Magnitsky, o que envolve o congelamento de bens em território americano, pagamento de indenizações e proibição de que cidadãos, empresas e bancos americanos se relacionem com o ministro.

A juíza Mary S. Scriven, da Flórida, estendeu o prazo para que a Rumble e a Trump Media respondam aos argumentos da Advocacia-Geral da União, representada por um escritório de advocacia americano. Depois que isso ocorrer, a questão irá a julgamento.

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P.S.
Culpado ou inocente, isso pouco interessa a Alexandre de Moraes, porque o mal já está feito. Por sua prepotência, arrogância e desfaçatez, ele conseguiu se desmoralizar e agora está prestes a desmoralizar o próprio país. (C.N.)

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