Flávio Bolsonaro agora tenta se descolar do tarifaço que ajudou a construir

Supremo reage à pressão dos EUA e reafirma independência da Justiça brasileira

Edson Fachin rebate ofensiva americana

Mariana Muniz
O Globo

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, divulgou nesta quinta-feira uma nota pública em resposta às recentes manifestações do governo dos Estados Unidos sobre as decisões da Corte brasileira. No texto, o tribunal afirma que atua exclusivamente com base na Constituição Federal e ressalta que continuará exercendo suas funções “sem qualquer influência, pressão ou condicionamento de natureza externa”.

A manifestação ocorre após documentos oficiais do governo americano relacionarem decisões do Judiciário brasileiro às medidas adotadas pelo presidente Donald Trump, incluindo o anúncio de tarifas sobre produtos brasileiros. Sem mencionar diretamente o governo dos Estados Unidos ou o chamado “tarifaço”, Fachin afirma que a nota busca “assegurar a correta compreensão do conteúdo, do alcance e dos limites” da jurisprudência do STF.

LEIS BRASILEIRAS – “O Supremo Tribunal Federal reafirma que exerce suas competências exclusivamente por força da Constituição da República Federativa do Brasil. Suas decisões são públicas, fundamentadas, submetidas unicamente ao império da Constituição e das leis brasileiras”, diz o texto.

Na nota, o presidente da Corte também enfatiza que a independência do Judiciário é um dos pilares do Estado Democrático de Direito e representa uma garantia fundamental para a proteção dos direitos dos cidadãos.

INDEPENDÊNCIA JUDICIAL – Fachin afirma ainda que o respeito à independência judicial deve orientar as relações entre países soberanos e faz um recado às autoridades estrangeiras ao defender que eventuais divergências sejam tratadas pelos meios diplomáticos.

“Divergências entre Estados devem ser conduzidas pelos canais diplomáticos e pelos mecanismos próprios do Direito Internacional, jamais por iniciativas que possam ser interpretadas como forma de constrangimento ao exercício da jurisdição constitucional”, afirma.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGEsta briga de matriz contra filial é de um ridículo atroz. Os dois governos se equivalem em matéria de esculhambação jurídica e institucional. É difícil dizer que é o pior: Trump ou Lula. (C.N.)

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Lideranças do agro veem erro de Flávio na crise do tarifaço dos EUA

Flávio perde espaço ao priorizar embates ideológicos

Letícia Pille
O Globo

Lideranças do agronegócio têm feito críticas reservadas à estratégia adotada pelo pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (RJ), durante a crise comercial com os Estados Unidos e avaliam que o senador vem perdendo espaço junto a um dos setores historicamente mais alinhados ao bolsonarismo ao priorizar embates ideológicos em detrimento de pautas consideradas prioritárias para o campo.

Empresários e representantes do setor ouvidos pelo O Globo afirmam que a viagem de Flávio a Washington para participar da audiência sobre o tarifaço foi “contraproducente” e cobram maior atuação em temas como a renegociação das dívidas rurais.

FORA DA TARIFA – As críticas ocorrem mesmo após a decisão do governo americano de deixar fora da tarifa de 25% uma série de produtos importantes para o agronegócio brasileiro, como carne bovina, pescados, café e alguns segmentos da madeira, o que reduziu o impacto imediato da medida sobre boa parte do setor.

Para integrantes do agro, porém, o episódio evidenciou mais uma oportunidade perdida por Flávio de assumir a liderança de uma agenda econômica cara ao seu eleitorado do que propriamente uma derrota comercial. A principal crítica é que, mesmo ocupando uma cadeira no Senado, Flávio pouco atuou em pautas consideradas prioritárias para o setor, como a renegociação das dívidas rurais, tema que mobiliza produtores e parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Outro ponto que provocou incômodo foi o discurso adotado pelo senador aos Estados Unidos para participar da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação comercial que embasou o tarifaço.

ALINHAMENTO COM TRUMP – A avaliação de empresários ligados ao agro é que a iniciativa misturou política com uma discussão essencialmente comercial e tinha poucas chances de alterar uma decisão que seria tomada com base nos interesses econômicos americanos. Ainda, dizem, a viagem também expôs Flávio ao risco de voltar ao Brasil sem resultados concretos e reforçar o discurso do governo de que o bolsonarismo atua alinhado aos interesses americanos.

Apesar das críticas, representantes do agro avaliam que o resultado final das negociações foi melhor do que o inicialmente esperado para o setor. Produtos relevantes da pauta exportadora brasileira ficaram fora da lista de sobretaxas, reduzindo o impacto imediato para diferentes cadeias produtivas.

CAUTELA – Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR) adotou um tom cauteloso ao comentar o anúncio americano. Segundo ele, houve avanços importantes com a inclusão de exceções para produtos como carnes, pescados e compensados de madeira, embora segmentos como o pinus permaneçam afetados. “Tivemos avanços importantes, mas ainda há produtos que precisam ser retirados da tarifa. Eu adoraria que essa tivesse sido uma discussão técnica”, afirmou.

Para parte das lideranças, porém, essas exceções também refletem interesses do próprio governo Donald Trump. A leitura é que a Casa Branca evitou sobretaxar produtos cujo aumento de preços poderia gerar desgaste interno entre consumidores americanos, como café e carne. Ou seja, a decisão levou em conta não apenas as negociações com o Brasil, mas também os impactos políticos e econômicos que uma taxação mais ampla poderia provocar internamente.

Embora tenha responsabilizado em parte o governo Lula pela condução das negociações, Lupion evitou atribuir protagonismo a Flávio no resultado obtido. Para o parlamentar, o resultado “é um copo meio cheio e meio vazio”, a depender do ponto de vista.

ATUAÇÃO TÉCNICA – Nos bastidores, essa percepção é compartilhada por integrantes do setor, que afirmam que as exceções foram fruto principalmente da atuação técnica de entidades representativas e das negociações conduzidas ao longo da investigação comercial.

Em nota nesta quinta-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) manifestou preocupação com a confirmação da tarifa e afirmou que a medida amplia a insegurança para empresas brasileiras e americanas, além de reduzir a competitividade da indústria nacional, dizendo que “a sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais”.

Já a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) atribuiu o desfecho da crise a “ruídos diplomáticos desnecessários”, “críticas personalistas” e ao que chamou de “desalinhamento político” entre Brasília e Washington, defendendo que a relação bilateral deveria ter sido conduzida de forma mais técnica.

DISPUTA POLÍTICA – É justamente esse ponto que aproxima avaliações de parte do setor produtivo. Embora divirjam sobre quem é o principal responsável pelo impasse, lideranças do agro e representantes da indústria convergem na avaliação de que uma negociação comercial desse porte deveria ter permanecido no campo técnico, longe da disputa política travada entre governo e oposição.

Outro ponto explorado por integrantes do setor é o discurso da soberania, que, na avaliação deles, pode acabar impondo novos problemas políticos a Flávio. Reservadamente, empresários afirmam que declarações como a do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao atribuir a responsabilidade pelo tarifaço ao presidente Luiz (PT), reforçam a narrativa do governo de que o pré-candidato do PL e seu entorno atuam alinhados aos interesses americanos.

Para esses interlocutores, a sucessão de episódios envolvendo representantes do bolsonarismo nos Estados Unidos, como a atuação de Eduardo Bolsonaro no país, a interlocução com integrantes do governo Donald Trump e a carta enviada por Flávio ao USTR, tende a fortalecer o discurso do Planalto em defesa da soberania nacional, favorecendo politicamente Lula.

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Reprodução do Correio Braziliense

Mário Sabino
Metrópoles

Flávio Bolsonaro é cabra marcado para perder; será preciso que ocorra uma hecatombe na campanha de Lula para que o filho do ex-mito reverta o jogo e consiga vencer a eleição presidencial.

A menos de três meses do primeiro turno, os números da pesquisa Genial/Quaest são inclementes para Flávio: o candidato bolsonarista está comendo ainda mais poeira atrás de Lula.

LULA DISPARA – No segundo turno, o chefão petista ampliou a sua vantagem em relação à pesquisa anterior e está 8 pontos percentuais à frente de Flávio (45% a 37% das intenções de voto).

Dado eloquente, na direita não bolsonarista, a intenção de voto no filho do ex-mito despencou de 82% para 74%.

Em condições normais, um candidato com taxa de 50% de rejeição, como Lula tem agora, jamais seria eleito. Mas 57% dos eleitores repudiam Flávio, um aumento de 5 pontos percentuais em relação a abril. No mesmo período, o chefão petista viu a sua rejeição encolher os mesmos 5 pontos.

MENOS REPULSIVO – A disputa é sobre quem é alvo de menos repulsa, outra conquista da pujante democracia brasileira.

Tarifas americanas, Dark Horse, Michelle: o filho do ex-mito vem sendo sucessivamente abalroado pelas suas imensas qualidades, bem como por aquelas da sua família.

Jacques Wagner: prejudica Lula, mas não a ponto de fazer diferença até o momento. Os brasileiros se resignaram à corrupção petista.

DESENROLA 2.0 – Como não poderia deixar de ser, em um país de gente endividada, o programa Desenrola 2.0 deu um empurrão em Lula. De acordo com pesquisa, para 35% dos entrevistados, ajudou a aumentar a renda.

Clássico nacional, ninguém parece se dar conta de que a causa do endividamento é, principalmente, o próprio governo com seus gastos pantagruélicos.

Lula usa e abusa do populismo e da máquina federal para ser reeleito. O dado impressionante é que o ex-mito, no poder, não tenha conseguido manter-se nele usando receita idêntica. É que uma saraivada de tiros foi disparada no próprio pé.

MEDO DA VOLTA – A estridência bolsonarista, a irresponsabilidade criminosa durante a pandemia, um monte de gente louca falando e fazendo enormidades: como mostra a Genial/Qaest, os eleitores têm mais medo da volta disso tudo do que da permanência de Lula e da sua alcateia no Planalto.

Ao apropriar-se indevidamente da direita brasileira, fazendo terra arrasada de boas opções e contando com a miopia do indistinto público para enxergar as ainda disponíveis, a família Bolsonaro nos condena a ter mais quatro anos de PT.

Janja fala demais e acaba sugerindo um forte argumento contra Lei da Misoginia

Atuação de Janja no governo é insignificante, aponta pesquisa

Janja da SIlva não sabe se comportar como primeira-dama

Fernando Schüler
Estadão

Em declaração à imprensa, a primeira-dama Janja Lula da Silva disse que as críticas que ela recebe pelos gastos excessivos com viagens internacionais se dão devido a misoginia.

Ao fazer isso, ela acaba, evidentemente sem querer, dando, na minha visão, o mais claro e duro argumento contra a legislação que está em curso sobre esse tema no Congresso Nacional. É preciso lembrar que é um direito do cidadão fazer a crítica a gastos de dirigentes, sejam eles homens ou mulheres.

NO CONGRESSO – O projeto de Lei da Misoginia está em debate no Congresso Nacional. A primeira-dama foi entrevistada nesta segunda-feira, dia 13, quando afirmou ser alvo de misoginia e que críticas sobre gastos em viagens são para atacar Lula

Sobre isso, o que cabe à primeira-dama responder? É óbvio que precisa dar um devido esclarecimento, fornecer as informações e possibilitar o debate contraditório, porque a contradição, com o ‘a favor’ e o ‘contra’, acontece normalmente na democracia. O que a primeira-dama faz com essa alegação é basicamente o seguinte: doravante, qualquer crítica a gastos excessivos, sejam viagens ou outras despesas indevidas feitas por governantes, poderá ser atribuída misoginia caso sejam dirigidas a mulheres, sejam elas prefeitas, governadoras, presidentes, ministras, secretárias ou primeiras-damas.

FICA PROIBIDO – Se parte de Judiciário pensar como a primeira-dama Janja Lula da Silva, pode concluir que é criminoso quem critica qualquer mulher que ocupe cargo público.

Assim, o cidadão não pode mais criticar. É perigoso criticar, porque a sua opinião pode ser criminalizada e logo punida. Mas isso não existe em nenhum país que exerça regime democrático.

Trump mantém tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e poupa setores estratégicos

Casa Branca aprofunda crise comercial com o Brasil

Isabella Menon
Folha

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acatou a recomendação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) para tarifar produtos brasileiros em 25%. A decisão foi divulgada na noite desta quarta-feira (15) e encerra a investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho do ano passado.

Porém, como foi divulgado em junho, há uma lista de exceções com cerca de 2.100 itens que incluem carne, café, laranja e suco de laranja e partes para a fabricação de aviões, produtos importantes para a pauta exportadora brasileira.

LISTA AMPLIADA – Após analisar comentários de empresas e associações nas audiências da semana passada, o governo americano ainda ampliou a lista de produtos brasileiros que ficarão livres da tarifa. A justificativa é que esses itens são insumos importantes para a indústria americana, têm pouca oferta doméstica ou são difíceis de substituir por fornecedores de outros países, de modo que a sobretaxa poderia provocar aumento de custos e desorganizar cadeias produtivas nos EUA.

Entre os produtos incorporados à lista de exceções estão ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, determinados frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos, além de antiguidades, obras de arte e roupas usadas.

Nem todos os pedidos de isenção, no entanto, foram aceitos. O governo americano rejeitou solicitações apresentadas por setores como máquinas agrícolas, máquinas industriais, vestuário, calçados, equipamentos elétricos, ferramentas de jardinagem, papel, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados.

AUMENTO DE CUSTOS – Embora empresas tenham alegado aumento de custos e dificuldade para substituir fornecedores brasileiros, o USTR concluiu que esses bens podem ser obtidos em outros mercados ou que as consequências econômicas não justificam uma exceção à tarifa.

A agência ainda retirou da lista de isentos a celulose de alta pureza, após receber manifestações de que produtores brasileiros do insumo seriam beneficiados por práticas ligadas ao desmatamento ilegal.

O USTR investigou desde temas que são motivo de atrito com os EUA há anos, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até queixas mais novas, como o Pix –empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula (PT) nega.

NEGOCIAÇÃO – As tarifas devem entrar em vigor no dia 22 de julho. Segundo uma autoridade americana, os canais ainda estão abertos para negociação. Porém há reclamações de que o governo americano tentou, durante um ano, negociar com o Brasil, mas não obteve sucesso.

Essa mesma autoridade afirma que entre os motivos que levaram os EUA a tarifar o Brasil estão o fato de que tribunais brasileiros emitiram ordens sigilosas determinando que empresas americanas de tecnologia removam determinados conteúdos políticos.

Além disso, diz que as empresas passaram a enfrentar multas diárias elevadas em caso de descumprimento dessas decisões e, em determinadas circunstâncias, podem até ser obrigadas a interromper suas operações no Brasil.

PIX – No caso dos serviços de pagamentos eletrônicos, a investigação concluiu que o Brasil prejudicou empresas americanas concorrentes ao favorecer seu sistema nacional de pagamentos, o Pix, operado pelo Banco Central. O alto funcionário reconhece que os países podem ter seus próprios sistemas de pagamento, mas alega que o Pix foi criado em um ambiente de concorrência desleal por meio do sistema estatal.

Os americanos também afirmam que o Brasil concede tratamento tarifário preferencial à Índia e ao México em diversas linhas tarifárias, mas não realiza o mesmo com produtores americanos. Por isso, na avaliação do governo Trump, isso violaria obrigações internacionais e prejudicaria trabalhadores e empresas dos EUA.

O governo brasileiro Lula disse na madrugada desta quinta-feira (16) que vai acionar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade. Em vigor desde o ano passado, a legislação estabelece os critérios que podem ser utilizados pelo Brasil para reagir com medidas retaliatórias contra sanções econômicas aplicadas por outro país.

RETALIAÇÃO – Segundo o alto funcionário americano, se o Brasil decidir retaliar os EUA, o governo americano vai rever as ações contra o Brasil. Além disso, houve reclamações sobre temas como a corrupção, que para o governo Trump o Brasil não combate de forma efetiva.

Além disso, o Brasil permanece na lista de observação dos relatórios Special 301 dos Estados Unidos, o que significa que continua apresentando deficiências na proteção da propriedade intelectual e no acesso justo ao mercado para detentores desses direitos.

A apuração do processo, que visa lidar com práticas comerciais consideradas desleais pela gestão Trump, foi instaurada em julho de 2025 como uma das medidas anunciadas pelo republicano em reação ao que ele classificou como uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

TARIFAÇO – O representante de comércio da Casa Branca, Jamieson Greer, havia sinalizado para o governo que seria mantida a recomendação de um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Esse é mais um capítulo de ruptura nas relações entre Brasil e EUA, que já vinham deterioradas desde a designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas.

Como a Folha mostrou, o governo brasileiro tinha a percepção de que não havia espaço para negociação e que os EUA não abririam mão de taxar o país. A baixa expectativa era compartilhada pelo setor privado, que esperava que mais setores fossem poupados, diante do que havia sido divulgado no início de junho.

O tarifaço ameaça parte importante das exportações brasileiras aos EUA, pondo em risco a produção e o emprego em setores com alto nível de dependência do mercado americano.

PREVISÃO – Na terça-feira (14), representantes de setores como ferro-gusa (matéria-prima do aço), madeira processada e calçados projetavam um cenário negativo no caso de aplicação das tarifas, com previsão de diminuição da produção e de corte de vagas.

Com a nova tarifa, o Brasil passa a ser o segundo país mais tarifado pelos EUA no planeta, atrás apenas da China, como mostrou uma reportagem da BBC News com base nos dados da iniciativa Global Trade Alert. Antes desta nova rodada do tarifaço, o Brasil era o 13º país do ranking.

O aumento do tarifaço pode obrigar o governo petista a manter programas de apoio ao setor produtivo, como o Brasil Soberano, criado no ano passado para apoiar exportadores afetados pelo tarifaço e depois expandido para atender empresas prejudicadas pelo fechamento do estreito de Hormuz.

PRAZO – O ministro Márcio Elias Rosa, do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), já havia antecipado, em entrevista, que a expectativa de um acordo não existia tanto pelo prazo quanto pelos pontos levantados pelos EUA. “O Pix é um exemplo, [outro é o] etanol, sem que revejam as tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro. São pontos que nos separam hoje. Mas eles podem e deveriam ampliar a lista de exceções”, disse ele.

O Mdic calculou, no início de junho, que as novas tarifas podem afetar 21% das exportações nacionais para os americanos. O governo brasileiro promoveu ao menos cinco reuniões entre o ministro Rosa e o representante de comércio dos EUA —outros encontros também ocorreram entre as equipes técnicas dos dois países.

A última reunião aconteceu nesta terça-feira (14) e, em nota divulgada pelo site do Mdic, foi dito que a possibilidade de qualquer sobretaxa “se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado”.

GRUPO DE TRABALHO – Esses encontros passaram a ocorrer depois da reunião entre Trump e Lula, em maio, quando o petista propôs a formação de um grupo de trabalho bilateral para que as equipes se encontrassem ao longo de um mês e discutissem os temas sob apuração dos EUA.

No entanto, a conclusão da apuração foi divulgada antes do fim desse período, ainda no início de junho. Na semana passada, audiências sobre o tema foram realizadas em Washington —o governo brasileiro não esteve presente e argumentou que já mantinha reuniões regulares com os americanos sobre o assunto e que as audiências eram voltadas ao setor privado.

Nas audiências, setores do Brasil e dos EUA tentavam argumentar que as tarifas teriam um efeito negativo para a economia dos EUA. Entre eles, esteve presente Mark Bitting, da empresa Gehring Montgomery, que distribui cera de carnaúba do Brasil para diferentes setores dos EUA. Segundo o argumento dele, a nova tarifa se tornaria um novo imposto “sobre o consumidor americano” e explicou que o produto só era economicamente viável no Brasil.

FAVORECIMENTO – Diferente do governo brasileiro, que apenas enviou ouvintes, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro esteve presente em Washington, pediu que os EUA não punissem o Brasil e disse que as tarifas, se aplicadas, viriam no “pior momento” e poderiam favorecer o presidente Lula. De acordo com o governo dos EUA, além da audiência, o senador não se reuniu com autoridades do USTR, como o representante Jamieson Greer.

Em reação, a gestão petista emitiu uma nota de repúdio ao que chamou de interferência de Flávio nas negociações em curso. Flávio tem sofrido desgaste político com o tema diante da ofensiva de Lula em torno da bandeira da soberania nacional e tem procurado se posicionar publicamente contra a eventual taxação. Sob reserva, aliados do senador já admitiam que a possibilidade de reverter o tarifaço era baixa e tentavam chegar ao presidente Donald Trump a justificativa de que a nova sanção poderia ajudar o presidente Lula.

Em fevereiro, a Suprema Corte americana considerou ilegal o uso da IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para justificar tarifas abrangentes contra parceiros comerciais dos Estados Unidos. Como reação à determinação judicial, o republicano impôs uma tarifa global de 10%, que expira no final de julho.

TAXAÇÃO – Além da apuração aberta em 2025, o Brasil entrou na mira de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para analisar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano. Na conclusão preliminar, foi proposta uma nova tarifa de 12,5% —existe, assim, a possibilidade de as tarifas se somarem, elevando a taxação sobre o Brasil a 37,5%.

Esse processo avalia práticas em cerca de 60 nações e foi lançado poucas semanas após a decisão da Suprema Corte que derrubou o tarifaço. Segundo especialistas, o objetivo dos EUA é mirar o comércio de parceiros com a China. O plano do governo Trump é que esse segundo processo tenha tramitação acelerada, com conclusões do USTR publicadas em prazo mais curto do que o tradicional.

Campanha de Flávio aposta nas lives para herdar o eleitorado de Bolsonaro