PGR aponta atuação de Eduardo Bolsonaro em remessas para financiar “Dark Horse”

‘Ideal seria haver recursos já nos EUA’, disse Eduardo

Márcio Falcão
Ana Flávia Castro
Mariana Laboissière
Reynaldo Turollo Jr
G1

Um documento da Procuradoria-Geral da República (PGR), elaborado com base em investigações da Polícia Federal (PF), aponta que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro orientou a gestão e a remessa de recursos nos Estados Unidos para o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O parecer, assinado em julho de 2026 pelo procurador-geral Paulo Gonet, deu aval à abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar o financiamento transnacional da produção cinematográfica.

ORIENTAÇÕES – Investigadores obtiveram a captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro com orientações sobre como operacionalizar o envio dos valores ao exterior. O documento da PGR não especifica quem era o destinatário direto da mensagem.

No texto, o ex-parlamentar sugere enviar o máximo possível pelo sistema já utilizado — que não fica claro qual era — e coloca um operador à disposição para reuniões. “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos”, diz o trecho atribuído a Eduardo Bolsonaro.

RECEIO – “Meu receio é que você seja solícito, bom coração, mas tenha essa dificuldade. Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, como o remetente atual e etc. Será que conseguimos? Nos dá amanhã um feedback desta sua reunião de hoje a noite, por favor? O Altieris Santana está à disposição, inclusive voa para fazer reunião pessoal com quem quer que seja”, conclui a mensagem.

Altieris Santana, citado no diálogo, é identificado na apuração como diretor do Havengate Development Fund, fundo de investimento sediado no Texas (EUA) responsável por administrar os valores e repassá-los à produtora Go Up Entertainment.

REPASSES ILÍCITOS –  A apuração aponta indícios de que empresas foram utilizadas para operacionalizar repasses ilícitos para a produção cinematográfica. Em dezembro de 2024, o publicitário Thiago Miranda enviou ao banqueiro Daniel Vorcaro uma minuta intitulada “Acordo de Financiamento de Produção ‘Capitão do Povo'” (nome anterior do filme “Dark Horse”), prevendo um investimento total de US$ 24 milhões em 14 parcelas.

As remessas internacionais, que somaram US$ 12,3 milhões em 2025, foram realizadas pela empresa Entre Investimentos, pertencente a Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”.

“Mineiro” firmou um acordo de delação premiada com a PGR, homologado na última quarta (9) pelo ministro do STF André Mendonça. Em seus depoimentos, o empresário listou pagamentos ao fundo que financiou o filme, o uso de uma empresa nas Bahamas para repasses a mando de Vorcaro e a compra de malas destinadas exclusivamente à entrega de dinheiro vivo.

VALORES DESTOANTES –  Na representação enviada ao STF, a Polícia Federal ressaltou que o montante previsto para o filme era desproporcional e levantava suspeitas de que os recursos pudessem ter outras finalidades além da produção cinematográfica: “A magnitude dos valores identificados […] permanece significativamente destoante dos referenciais disponíveis do mercado audiovisual nacional e, somada às demais circunstâncias descritas, reforça a necessidade investigativa de verificar a compatibilidade econômica e a efetiva destinação dos recursos”, registrou a PF.

“A discrepância entre as projeções do plano de negócios e qualquer parâmetro realista do mercado cinematográfico nacional constitui elemento que reforça a necessidade de apuração quanto à viabilidade econômica e à verdadeira finalidade da operação”, aponta outro trecho do relatório.

TRATATIVAS –  O parecer da PGR indica que a articulação contava também com a participação do senador Flávio Bolsonaro, que manteve tratativas diretas com Daniel Vorcaro sobre cobranças de repasses, reuniões e o acompanhamento das gravações.

Em setembro de 2025, Thiago Miranda comunicou a Vorcaro que Flávio Bolsonaro desejava encontrá-lo pessoalmente para mostrar trechos do que estava sendo gravado, sugerindo um encontro na residência do banqueiro. No dia seguinte, registros mostram uma ligação entre Vorcaro e Flávio, coincidindo com a realização de uma das remessas da Entre Investimentos para o fundo nos EUA.

Na representação ao STF, a polícia diz quais pontos precisam ser esclarecidos na investigação: “a origem dos recursos destinados ao financiamento do filme”; “a razão da utilização da Entre Investimentos como intermediária dos pagamentos”; “a função desempenhada pela Havengate Development Fund LP”; “os beneficiários finais dos valores remetidos ao exterior”; “o papel efetivamente exercido por Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro” e dos demais envolvidos na “estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes”.

O QUE DIZEM OS CITADOS –  Em entrevista à GloboNews em maio, o senador Flávio Bolsonaro negou que os recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro, afirmando que o dinheiro foi aplicado integralmente na produção do filme:

“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, declarou Flávio. A TV Globo tenta contato com Eduardo Bolsonaro. Já a defesa de Flávio Bolsonaro não tinha enviado resposta até a última atualização desta reportagem.

Moraes devia renunciar ao STF, antes de haver a investigação que irá condená-lo

Alexandre de Moraes e o golpe, Leite interrompe as férias e outras frases  da semana | GZH

Charge do Gilmar Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Eliane Cantanhêde
Estadão

A decisão que o Supremo Tribunal Federal está prestes a tomar, na próxima terça-feira, é doída, sim, mas de uma simplicidade desconcertante: se, em tese, qualquer cidadão pode ser investigado por suspeita de ter cometido desvios, por que não Sua Excelência Alexandre de Moraes? Se julgado culpado, que seja condenado. Se não, inocentado. Pelo menos, deve, ou deveria, ser assim…

O que, definitivamente, os ministros da corte não podem fazer é ignorar os 134 milhões de motivos para uma investigação. Para tentar salvar Moraes, um caso perdido, ao custo de esgarçar sem conserto a credibilidade do Supremo, desmoralizar as instituições e, tudo junto e combinado, impactar a eleição presidencial sem retorno?

DESMORONAMENTO – Se for nessa direção, o plenário vai concluir o desmoronamento do Supremo sem conseguir salvar a pele, a reputação e o destino de Alexandre de Moraes. Em vez de desmoronar um, desmontaria a corte com todos dentro.

Moraes insiste em fazer pronunciamento na terça-feira, mas o que tem o que dizer? Não tem como explicar o valor do contrato com o escritório da família, negar as 51 mensagens de Daniel Vorcaro e que usou “visualização única” nas suas respostas para não deixar rastros. Sabia o que estava fazendo e quais as consequências.

A única saída para Alexandre de Moraes é renunciar à toga, antes que seja obrigado a despi-la. Como esse ato, estaria dando uma trégua à divisão – ou polarização? – no STF e livrando seus pares, sobretudo os paus para toda obra, do profundo incômodo de ter de defendê-lo sem argumentos. O mais provável, porém, é que ele saia com quatro pedras e mais um rascunho da PF para tentar puxar André Mendonça para o seu próprio buraco. Só vai piorar as coisas para ele, para o Supremo e para a eleição.

FACHIN REINA – O ministro Edson Fachin demorou a engrenar, até o empurrão de ex-presidentes do STF, empresários, entidades e líderes, mas começa a ser saudado por fazer a coisa certa, como desconsiderar o mau conselho de juntar o caso de Moraes e as críticas processuais contra Mendonça no mesmo saco e na mesma sessão.

Ok, Mendonça deve explicações, inclusive sobre a demora em investigar o escândalo “Dark Horse”, que envolve Flávio Bolsonaro e valores iguais aos do contrato do Barci Advogados. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O problema de Moraes é muito mais grave, desvia o foco da eleição para o Supremo e pode deixar cicatrizes indeléveis. Aliás, que mal lhes pergunte: se a cabeleireira Débora pegou 14 anos de prisão por escrever na estátua da Justiça com batom, qual a pena para quem joga lama na Justiça?

Na criativa poesia de Jorge de Lima, “O relógio trabalha… e um sorri e o outro chora”

A fantástica história do alagoano que quase ganhou um prêmio Nobel de  Literatura – culturaeviagem

Jorge de Lima, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

O político, médico, pintor, tradutor, biógrafo, ensaísta, romancista e poeta alagoano Jorge Mateus de Lima (1893-1953) teve importância fundamental para o modernismo brasileiro, com verdadeiras obras-primas como “Invenção de Orfeu”. Neste soneto, Jorge de Lima mostra que o relógio é a vida em segundos, igual no tempo para todos, mas diferente para cada um de nós.

O RELÓGIO 
Jorge de Lima

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos…
Consulto-te: um segundo! E quem sabe se agora,
Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos
Alma que filosofa e investiga e labora?

Há a morte de ceifar somas de moribundos.
O relógio trabalha…E um sorri e outro chora,
Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos
Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora…

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,
Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético
Tem posturas de algoz e gestos de coveiro…

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,
Tudo encerra o segundo, insólito – sintético.
A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece.

Dark Horse: Dino aponta Mário Frias como possível líder de suposto esquema com dinheiro público

Fachin se acertou com Mendonça antes de assumir os casos de Moraes, do Master e do INSS

Fachin tenta estancar crise no STF e leva caso Moraes a plenário #charge #cartum #caricatura #editorialcartoon #politicalcartoon

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Ana Pompeu e Luísa Martins
Folha

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Edson Fachin, tirou o ministro André Mendonça da relatoria do processo que aponta um elo entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O próprio presidente assumiu a condução do caso.

Ele também mandou paralisar temporariamente as investigações do Master e do INSS, ordenando que Mendonça encaminhe os autos desses dois processos à Presidência.

IMPEDIMENTO – Na decisão, ele afirma que a medida se dá diante da possibilidade de o julgamento do caso resultar em situação de impedimento do juiz, ou seja, quando um magistrado não tem condição de julgar um caso.

Nesta sexta (11), Fachin decidiu manter na pauta da sessão marcada para a próxima terça-feira (15) apenas o julgamento sobre o caso do relatório das mensagens de Vorcaro com Alexandre de Moraes.

Com isso, ele negou pedido do decano Gilmar Mendes para que fosse também colocada em discussão a investigação contra o colega André Mendonça, mas marcou a análise desse outro caso para a semana seguinte, no dia 23.

DELIMITAÇÃO – Segundo o presidente, a manutenção apenas do julgamento contra Moraes “assegura a precisa delimitação do objeto da deliberação deste tribunal, viabilizando a apreciação de matéria cujo contraditório e elucidação preliminar já se terá aperfeiçoado”.

Moraes e Mendonça são atualmente os pivôs da maior crise da história recente do Supremo. Como mostrou a Folha, Fachin chegou a avaliar tirar de Mendonça a relatoria dos casos Master e INSS para tentar conter a crise instalada na corte.

Fachin reuniu auxiliares na tarde de domingo (6) para tratar da disputa entre Mendonça e Alexandre de Moraes. O encontro com assessores mais próximos foi chamado para articular o caminho e a forma com a qual o presidente do Supremo deverá dirigir o momento inédito.

JULGAMENTO – Essa discussão teve início antes da ordem de Mendonça desta terça-feira (8) de afastar Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal. A determinação foi a julgamento na Segunda Turma da corte e chegou a formar maioria, porém o julgamento foi suspenso após pedido de vista (mais tempo para analisar a matéria) de Gilmar Mendes.

Por fim, na quarta (9), o presidente tirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news, controlado por ele durante mais de sete anos, e suspendeu as decisões conflitantes de André Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal, mantendo Andrei Rodrigues no cargo de diretor-geral.

Até a sessão de terça já ficaria suspenso o trâmite da investigação conduzida por Mendonça envolvendo Moraes. O presidente do STF também proibiu qualquer procedimento que trate de potencial apuração contra integrantes da corte e determinou que qualquer medida nesse sentido seja submetida a ele antes.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Fachin agiu corretamente, embora o Regimento do Supremo não lhe dê tantos poderes, porque seus dispositivos não preveem tamanha esculhambação. Antes de anunciar a decisão, conversou com Mendonça e explicou que precisava preservá-lo dos ataques que está recebendo na mídia amestrada. Terça-feira, o espetáculo do afastamento de Moraes será imperdível. (C.N.)

Supremo monitora redes sociais e oposição denuncia risco de perseguição política

Presidenciáveis fingem atacar poder do Congresso sobre emendas e evitam detalhar reformas

Todos criticam as emendas, poucos apresentam solução

Isadora Albernaz
Folha

A maioria dos principais candidatos à Presidência em 2026 tem convergido ao defender, durante a campanha eleitoral, a necessidade de uma reforma no sistema de emendas parlamentares. Parte deles acusa o Congresso Nacional de “sequestrar” o orçamento público e se posiciona a favor de dar mais transparência aos recursos, mas sem detalhar como isso seria feito.

O presidente Lula (PT), os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Renan Santos (Missão) têm questionado em discursos o poder de senadores e deputados sobre essas verbas e apontado que o chefe do Executivo perdeu protagonismo sobre o montante.

PROPOSTAS GENÉRICAS – Em geral, os programas dos presidenciáveis, porém, apresentam propostas genéricas e não destrincham medidas objetivas que poderiam ser implementadas em um eventual governo para mudar o que criticam no atual modelo de distribuição das emendas.

Criadas pela Constituição, as emendas são um instrumento que permite que congressistas enviem dinheiro para suas bases para bancar obras e investimentos de seu interesse e, com isso, ampliem o capital político.

O Orçamento deste ano prevê cerca de R$ 61 bilhões em recursos do tipo, dos quais R$ 37,8 bilhões são emendas impositivas —quando o Executivo é obrigado a pagar. Na prática, os recursos viram moeda de troca entre a Presidência e o Congresso para angariar apoio aos interesses de cada Poder.

“VAI TER BRIGA” – Lula, que tem a intenção de retomar o controle de ao menos parte dessa verba em um quarto mandato, prometeu durante o ato que oficializou sua candidatura que, se for reeleito, “vai ter briga com a emenda parlamentar” e “com o papel que hoje tem o Legislativo”.

O petista afirmou que não pode permitir que o presidente da República perca prerrogativas. Ele mencionou como exemplo a indicação de nomes para a diretoria de agências reguladoras e para o STF (Supremo Tribunal Federal), que precisam ser aprovados pelo Senado e também se tornam alvo de negociação.

Neste ano, a rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a Suprema Corte representou uma derrota histórica para Lula, que só nas últimas semanas se reaproximou do chefe da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), após meses de relação estremecida.

REVISÃO DO MODELO – O PT reproduziu em seu plano de governo a posição de Lula e defendeu uma revisão do atual modelo, mas se limitou a dizer que o tema das emendas precisa ser debatido com a sociedade. Segundo o partido, as emendas impositivas “sequestram o orçamento público, dispersam os recursos e reduzem a eficiência alocativa”.

Apesar das críticas, Lula recorreu à liberação de emendas em diversos momentos desde que voltou à Presidência, em 2023, para tentar aprovar projetos prioritários da gestão. Foram pagos quase R$ 32,5 bilhões em emendas de janeiro a junho de 2026. O valor representa alta de mais de 30% em relação ao mesmo período de 2022, no último ano do governo de Jair Bolsonaro, quando esses recursos estavam no auge.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) já afirmou que as emendas estão em “valores estratosféricos” e podem ser reduzidas, mas não tem adotado o mesmo tom de embate com o Congresso que seus adversários.

PROMESSAS – Em seu plano, ele disse que, se for eleito, vai focar a alocação das verbas em políticas prioritárias do Plano Plurianual, elaborado pelo governo federal e que deve passar pelo crivo dos parlamentares. Também prometeu dar mais transparência, controle e rastreabilidade aos recursos, sem elencar ações objetivas para isso.

“Tem que haver um esforço dos três Poderes para redução de gastos tanto do Legislativo, com relação às emendas parlamentares, por exemplo, que acho que estão em valores estratosféricos, podem ser reduzidas, mas os custos operacionais dentro do Legislativo, dentro do Judiciário e também dentro do Executivo, isso tem que alvo de um grande acordo, para que haja essa redução de despesas”, disse em sabatina no início de agosto.

DESTINO DAS EMENDAS – Caiado, candidato do PSD, tem repetido que o presidencialismo não convive com 594 planos de governos, em referência aos 513 deputados federais e 81 senadores, e defendido que cabe ao presidente da República decidir o destino das emendas. Se for eleito, disse que vai “direcionar 100% [das verbas] nas obras do governo”.

Menos amplo do que outros candidatos, o ex-governador propôs “reorganizar a relação orçamentária com o Congresso” por meio de critérios de “planejamento, transparência, manutenção, custo total e resultado”. Ainda defendeu a criação de painel único com autoria, objeto, município, convenente, beneficiário final, licitação, execução física e resultado de cada emenda.

O objetivo, segundo ele, é reduzir a pulverização e impedir que o dinheiro seja usado para investimentos sem capacidade de operação, além de “integrar prioridades parlamentares ao planejamento nacional”.

TOMA LÁ DA CÁ – Já Zema quer reduzir o valor das emendas por considerar que estão “muito acima de qualquer necessidade de um parlamentar”. Em entrevistas, ele disse ser contra o que chama de um “toma lá dá cá” para negociar os repasses, mas defendeu estratégia de sua gestão em Minas Gerais de enviar R$ 2 a cada R$ 1 de emenda destinado por deputados estaduais às obras do governo.

Ele sugeriu limitar as verbas a um percentual reduzido do orçamento discricionário, que não está carimbado por obrigações, como pagamento de salários. Também propôs condicionar a destinação ao cumprimento de “critérios objetivos de interesse público e transparência, evitando a fragmentação do orçamento em projetos de baixo impacto ou com finalidade meramente eleitoral” —sem detalhar quais seriam eles.

PODER DESPROPORCIONAL – O candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, faz as críticas mais duras ao modelo. Em seu plano, ele afirma que “oligarquias regionais poderosas acumulam poder desproporcional no Congresso” e defende reduzir o número de municípios como parte da solução.

“A Grande Consolidação Municipal é a condição material para que o federalismo brasileiro faça sentido fiscal. Sem entes municipais viáveis, a população local continua refém de forças políticas externas, nesse caso, via clientelismo de emendas e transferências federais”, diz.

APERTO – Em evento em Brasília no último dia 18, Renan ainda disse a uma plateia de representantes dos setores de comércio e serviços que os empresários brasileiros “escravos do Alcolumbre” e defendeu “apertar todos os deputados” para aprovar reformas em um eventual governo.

“Vamos aceitar ser governados pelo centrão, lá com Alcolumbre, do Amapá, ou o rapaz da Câmara, o Hugo Motta [Republicanos-PB], até quando? Tem que botar isso na mesa, porque são estados que não são bem conduzidos. A vida no Amapá e na Paraíba não está boa, e os políticos de lá estão mandando em todo o resto do Brasil”, declarou.

A Folha procurou as assessorias de Alcolumbre e de Motta por meio de mensagem do WhatsApp e ligação para pedir um posicionamento a respeito das falas. Não houve resposta.

Terça-feira é o Dia D para Vorcaro e sua aposta na sobrevivência do sistema

Charge do Caio Gomez (Correio Braziliense)

Andréia Sadi
G1

A defesa de Daniel Vorcaro está em compasso de espera. A avaliação é que não adianta definir agora os próximos movimentos sem saber como ficará o tabuleiro no Supremo depois da sessão da próxima terça-feira.

O resultado pode ser decisivo inclusive para definir — ou mudar — os rumos de uma eventual delação. Vorcaro sempre admitiu que buscava proteção e interlocução em Brasília — inclusive por meio do contrato com Viviane —, mas até aqui nunca se dispôs a delatar grandes figuras. Sua linha sempre foi a de relatar os fatos sob sua ótica, sustentar que não cometeu ilegalidades e evitar acusações que atingissem personagens poderosos.

APOSTA – Na avaliação de pessoas que conhecem e acompanham as investigações, isso não acontece por acaso. Vorcaro ainda aposta na sobrevivência do grupo com o qual construiu relações e espera colher, no futuro, o retorno dos ativos políticos que acumulou. A expectativa é de que o sistema encontre uma forma de sobreviver à crise e, inclusive, preservar o futuro presidente do STF.

É por isso, segundo essas fontes, que Vorcaro continua dizendo não ter nada a revelar sobre essas grandes figuras. Ele ainda aposta na sobrevivência desse grupo. Essa estratégia, porém, esbarra hoje em André Mendonça e no grupo que começa a se formar em torno da reação ao caso, sobretudo depois da retirada do sigilo dos documentos. Por isso, terça-feira virou o Dia D.

INCÓGNITAS – É quando começará a ficar mais claro para onde caminham as investigações e qual será a correlação de forças no tribunal. Há várias incógnitas: se haverá pedido de vista; se a sessão será aberta ou fechada — Fachin resiste ao fechamento —; e até que ponto ministros poderão antecipar seus votos e posições mesmo que o julgamento não termine.

O que acontecer no plenário não definirá apenas o rito do caso Master. Na avaliação de quem acompanha as investigações e os movimentos da defesa, poderá também definir a estratégia de Vorcaro daqui para frente — inclusive se ele mantém a aposta de que o sistema sobreviverá ou se chega a hora de mudar de jogo.

Condenados por golpe, generais agora travam batalha para salvar as quatro estrelas

Mendonça defende afastamento de Andrei Rodrigues e nega ter limitado poder de Lula

Fachin barra sessão conjunta e mantém confronto entre Moraes e Mendonça separado

Bolsonarismo radical pressiona Flávio e mira sua principal assessora econômica

BC sob suspeita: servidores orientavam Vorcaro e revisavam documentos do Master

Campanha de Flávio tenta tirar o caso “Dark Horse” das mãos de Flávio Dino

ONGs pedem que a OCDE pressione o STF a rever anulação da Lava Jato

Toffoli demonstrou resistência, mas se convenceu de que deixar relatoria era melhor caminho; saída preserva atos do inquérito #charge #cartum #caricatura #editorialcartoon #politicalcartoon

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Gustavo Côrtes
Estadão

Um conjunto de 30 entidades da sociedade civil enviaram à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) carta na qual pedem pressão sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) para julgar decisão do ministro Dias Toffoli que anulou provas obtidas mediante acordo de leniência da Odebrecht.

A iniciativa foi liderada pela ONG Transparência Internacional e o documento, endereçado à presidente do Grupo de Trabalho sobre Suborno da OCDE, Kathleen Roussel.

TRÊS PROVIDÊNCIAS – No total, foram solicitadas três providências: o envio de uma carta ao STF com informações sobre os impactos negativos da decisão e com pedido para que a Segunda Turma julgue recursos contra o ato; uma consulta aos países membros do grupo contra suborno da OCDE para identificar impactos da decisão de Toffoli sobre processos contra empresários e autoridades processadas no exterior; e uma recomendação para que países estrangeiros mantenham os processos, apesar da decisão do Judiciário brasileiro.

Em setembro de 2023, Dias Toffoli anulou monocraticamente informações obtidas pela operação Lava Jato dos sistemas Drousys e MyWebDay, usados pela empreiteira para gerenciar o pagamento de propinas a agentes públicos.

A Transparência Internacional estima que, desde a decisão, mais de 100 réus no Brasil já foram beneficiados pela decisão e ao menos 28 pessoas e empresas em países estrangeiros já obtiveram decisões favoráveis no STF.

SEM RECURSOS – “Embora a decisão tenha sido tomada por um único ministro, amparada em fundamentos posteriormente desmentidos, nenhum dos três recursos apresentados contra ela — pelo Ministério Público de São Paulo, pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) — foi até hoje analisado pelo STF”, diz a entidade.

Também assinam a carta o Instituto Não Aceito Corrupção, do Brasil, a a Transparency International U.S., dos Estados Unidos, a Transparency International EU, da União Europeia, além de entidades de Portugal, Equador, Peru, Argentina, Angola, Moçambique, Panamá, Venezuela, Colômbia e Guatemala.

Alguns desses países foram afetados pela anulação promovida por Toffoli. É o caso do ex-presidente do Peru Ollanta Humala e de sua mulher, Nadine Heredia, que ganhou asilo diplomático do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela foi condenada a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro depois de a justiça peruana entender que o casal recebeu US$ 3 milhões em contribuições ilícitas da Odebrecht.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
Toffoli fez o Brasil virar piada no resto do mundo. A desmoralização chegou a tal ponto que foi filmada em Hollywood uma comédia sobre a impunidade da lavagem de dinheiro, citando especificamente a Odebrecht, e com atores muito famosos, Meryl Streep e Antonio Banderas. O título do filme é “The Laundromat” (A Lavandeira). Mas quem se interessa? (C.N.)

Fachin pressionou o procurador Gonet a deixar o caso Master antes de sessão sobre Moraes

Moraes deveria ser julgado exatamente como julgou a “terrorista” do batom

Debora do "perdeu, mané" não recebeu proposta de acordo, afirma PGR

Débora foi condenada a 14 anos por ter usado o batom

Fernando Schüler
Estadão

“Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”.

O Brasil é um país curioso. Agora é uma conta com o nome do ministro, vejam só, que aparece com o modo de visualização única, feito para apagar conteúdo, interagindo com as 52 mensagens de Vorcaro, logo antes de sua prisão. E aqui estamos, em um drama nacional para ver se alguma coisa, afinal de contas, será investigada.

PESSOA COMUM – Não acho que isto incomode muita gente. Débora é uma brasileira comum. E é do “outro lado”. Ficou cerca de dois anos presa, por uma cautelar do próprio ministro, distante dos filhos de 6 e 10 anos, pelo rabisco com o batom naquela estátua.

Seu caso é similar ao de Alcides Hahn, o “colono” de Corupá, no interior de Santa Catarina, também condenado a 14 anos, dessa vez sem ir a Brasília, pelo Pix de R$ 500.

Nos anos recentes, escrevi muito sobre estas histórias. A pior talvez seja a do Clezão, morto como um zé-ninguém em um presídio de Brasília, depois de meses sem que o ministro se desse o trabalho de despachar um pedido de liberdade, “sob risco de morte”, para tratar da saúde.

SEM DIREITOS – São histórias difíceis e quase infinitas. Elas não tratam apenas de um longo rastro de abuso de poder. De pessoas comuns “julgadas” diretamente pelo Supremo, sem os direitos mais elementares ao juiz natural, instância devida e graus de recurso.

Tratam do “use a sua criatividade” para atingir alvos pré-definidos; da censura aos empresários, por nada, em um grupo de WhatsApp; de um sujeito, o Filipe Martins, até hoje preso na cadeia de Ponta Grossa por uma “fuga” do País que jamais existiu.

Elas contam uma história de brutal assimetria na cidadania brasileira. Algo que sempre me faz lembrar do dualismo moral descrito por Roberto DaMatta em seu “Você sabe com quem está falando?”. Da ideia de que somos uma sociedade em que, no papel e na retórica, somos todos iguais.

SOMOS DESIGUAIS – Todos seriam “indivíduos” sujeitos a um regramento abstrato e imparcial. Mas que, no mundo real, nas hierarquias, no estamento e nas sombras do poder, somos “pessoas” com status pateticamente distintos.

Para uns, apagar mensagens ou fazer um Pix de 500 reais pode ser crime de lesa-pátria, sujeito a 14 anos de prisão; para outros, o contrato de uma centena de milhões e a suspeita de trabalhar para um banqueiro fraudador sequer parecem razão suficiente para que a República autorize uma investigação.

Para uns, a exceção jurídica; para outros, um tipo de supergarantismo, autoconfiante e feito da ausência de limites.

SESSÃO NO STF – No fundo, é disso que se trata a sessão do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira, dia 15. Não é apenas uma reunião difícil para autorizar ou não uma investigação de um ministro togado.

É o exame de uma tradição. Para saber se somos mesmo o país do “estamento”, onde a lei funciona primeiro perguntando “com quem você está falando”, ou se ainda temos alguma esperança de sermos uma república de iguais.

Confesso meu desânimo com tudo isso. Mas posso estar enganado, e logo ali adiante teremos a resposta.

Lêdo Ivo ensina poeticamente que sempre é melhor deixar tudo para trás

Lêdo IvoPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012), membro da Academia Brasileira de Letras, no poema “A Queimada”, aconselhava que devemos deixar para trás tudo o que pudermos,  pois a verdade não é para ser dita, ela é um eterno segredo.

A QUEIMADA
Lêdo Ivo

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arterioesclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas
os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário
nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Fundo que recebeu dinheiro de Vorcaro nos EUA desmonta versão de Flávio Bolsonaro

Vice-procurador cobra transparência total no caso Master e amplia pressão sobre o STF

Charge do Mariosan (O Popular)

Patrik Camporez
O Globo

A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou nesta sexta-feira que “grande parte” dos procedimentos relacionados à Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master, ficou de fora da lista de processos cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em manifestação enviada ao presidente da Corte, Edson Fachin, o vice-procurador-geral da República, Hindemburgo Chateaubriand Filho, pediu a abertura, “sem exceção”, de todas as peças e procedimentos vinculados ao caso.

LEVANTAMENTO DOS SIGILOS – A manifestação ocorre após Fachin solicitar a Mendonça o envio aos demais ministros do STF dos procedimentos relacionados ao caso Master e sugerir o levantamento dos sigilos. “O que se verifica, porém, da listagem encaminhada é que nela não se contêm grande parte dos procedimentos atualmente correlatos à investigação mais ampla da chamada Operação Compliance Zero, fato que, embora suponha motivado por alguma razão escusável de ordem administrativa, pode induzir à ideia equivocada de que a transparência que animou a medida proposta por V. Exa, perca, ao fim e ao cabo, o seu sentido último”, destacou Hindenburgo.

Conforme O Globo mostrou, uma ala do STF passou a criticar a retirada parcial do sigilo das investigações do caso Master pelo ministro André Mendonça. A avaliação é que ele manteve sigilo sobre informações sobre algumas das autoridades, provocando um desequilíbrio, e cobram que o julgamento marcado para a próxima terça-feira não se limite às suspeitas envolvendo a relação de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Esses ministros citam, como exemplo do que segue sob sigilo, relatório produzido pela Polícia Federal com mensagens e detalhes da relação Vorcaro com o ministro Dias Toffoli. As informações foram reveladas pela revista Piauí nesta quinta-feira.

OUTRAS FRENTES – As novas revelações envolvendo o ministro Dias Toffoli passaram a ser citadas nos bastidores como exemplo da existência de outras frentes relacionadas ao caso Master que não chegaram, até agora, ao plenário da mesma forma que o caso de Moraes.

O incômodo aumenta a pressão sobre o formato da sessão extraordinária convocada pelo presidente do STF, Edson Fachin, para terça-feira, dia 15. Como O Globo mostrou, ministros já alertaram Fachin sobre a possibilidade de um pedido de vista interromper o julgamento e uma ala da Corte defende que os questionamentos envolvendo Moraes, além de um relatório que aponta suspeitas de irregularidades na condução de Mendonça, sejam analisados conjuntamente.

Para esse grupo, as novas informações reforçam o argumento de que o Supremo não deveria dar uma resposta definitiva apenas ao capítulo relacionado a Moraes enquanto permanecem pendentes outras questões surgidas a partir das investigações do Master. A avaliação é que o plenário precisa considerar o contexto mais amplo da crise, inclusive os questionamentos sobre a própria condução das apurações por Mendonça.

ESCALADA DA CRISE – A sessão extraordinária foi convocada por Fachin depois de uma escalada da crise interna no Supremo. O processo que será analisado reúne o relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas a Vorcaro e referências a Moraes. Na quinta-feira, a Presidência disponibilizou aos gabinetes dos ministros a íntegra da Petição 16.662, incluída no calendário do plenário para o dia 15.

Os questionamentos relacionados a Mendonça, porém, seguem outro calendário. Relatórios de inteligência da PF usados por Moraes para apontar uma suposta “parcialidade” e eventual crime de responsabilidade do ministro ainda não têm data para chegar ao plenário. Fachin indicou que deverá decidir o destino dessa frente depois de receber as informações solicitadas a Mendonça.

QUESTIONAMENTO – Essa diferença de calendário é justamente um dos pontos questionados por uma ala do tribunal. Ministros defendem que, se as suspeitas relacionadas à atuação de Moraes serão submetidas ao plenário, os questionamentos sobre a atuação de Mendonça também deveriam ser considerados antes de uma conclusão definitiva da Corte.

Na quinta-feira, Fachin ouviu ministros individualmente sobre o rito e a condução da sessão extraordinária. Passaram pelo gabinete da Presidência Moraes, Mendonça, Dias Toffoli, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Cristiano Zanin. Fachin também conversou com Cármen Lúcia no gabinete da ministra e recebeu o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Segundo interlocutores, Fachin adotou uma postura de escuta nesses encontros e evitou antecipar sua posição. Ministros apresentaram avaliações sobre o formato do julgamento e os possíveis caminhos para o plenário, mas o presidente da Corte não indicou como pretende reagir às ponderações.