“Jura pela imagem da Santa Cruz do Redentor, pra ter valor a tua jura”, cantava Sinhô

Caricatura de Sinhô, feita por Kalixto

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor carioca José Barbosa da Silva, pianista e violonista, conhecido como Sinhô (1888-1930), é considerado um dos mais talentosos compositores de samba, para muitos o maior da primeira fase do samba carioca. Com letra romântica e queixosa, o samba ”Jura” pede uma promessa de amor.

Sinhô fez a composição num momento de dor de cotovelo, depois de ter visto a mulher que amava nos braços de um outro pretendente. O samba foi gravado, originalmente, por Mário Reis, em 1928, pela Odeon.

JURA
Sinhô

Jura, jura, jura
pelo Senhor
Jura pela imagem
da Santa Cruz do Redentor
pra ter valor a tua jura

Jura, jura
de coração
para que um dia
eu possa dar-te o amor
sem mais pensar na ilusão

Daí então dar-te eu irei
o beijo puro da catedral do amor
Dos sonhos meus, bem junto aos teus
para fugirmos das aflições da dor                 

Uma música de Luiz Gonzaga, para comemorarmos hoje a festa de São João

7 ideias de Luiz Gonzaga | luiz gonzaga, musicas trechos de, musicaPaulo Peres
Poemas & Canções

A festa de São João (24 de junho), o ápice dos festejos juninos, com a trezena de Santo Antônio (13 de junho) e São Pedro (29 de junho), inspirou o sanfoneiro, cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), o popular Rei do Baião, a compor em parceria com José Fernandes a música “Olha Pro Céu Meu Amor”, cuja letra retrata uma estória de amor numa noite de São João.

Essa “marcha joanina” foi gravada por Luiz Gonzaga em 1951, pela RCA Victor. 

OLHA PRO CÉU MEU AMOR
José Fernandes e Luiz Gonzaga

Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite, igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava, assim em festa
Pois era noite de São João

Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro
O teu olhar, que incendiou
Meu coração!

Um poema desesperado com as desgraças da vida, na visão de Abgar Renault

Paulo Peres
Poemas & Canções

Renault era da Academia Brasileira de Letras

O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995), membro da Academia Brasileira de Letras, no soneto “A Vida Tem Sempre Uma Faca Na Mão”, questiona a utilidade da poesia.

A VIDA TEM UMA FACA NA MÃO
Abgar Renault

Vamos parar de ler. Paremos de escrever
Olhos e mãos circulam no papel
ao serviço da dor e da desgraça,
mas as palavras são frias e sem fel
para exprimir o desespero dessa taça.

Ninguém sabe escrever. E ninguém pode ler
o que fica, depois de tanta luta fútil,
da escuridão desvirginada do teu ser 
na indiferença de uma folha de papel.

Hoje, ontem, amanhã – amanhã sobretudo –
a vida sempre tem uma faca na mão,
vai sob as unhas, vai direto ao coração,
dói nos olhos, nos pés, dói na alma, dói em tudo,
torna toda a poesia um jogo raso e inútil.

A sombra poética de Waly Salomão, fazendo versos como quem morde…

Se todas as coisas nos reduzem a zero,... Waly Salomão - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, compositor e poeta baiano Waly Dias Salomão (1943-2003), um dos mais atuantes agitadores do movimento Tropicália, no poema “Amante da Algazarra”, fala sobre uma sombra sobrenatural que se apodera dele, que os espiritualistas chamam de “encosto”.

AMANTE DA ALGAZARRA
Waly Salomão

Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela!!!

Todo mundo sabe,
sou uma lisa flor de pessoa,
sem espinho de roseira
nem áspera lixa de folha de figueira.
Esta amante da balbúrdia
cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!

Enquanto caminho a pé,
pedestre–peregrino atônito até a morte,
Sem motivo nenhum de pranto
ou angústia rouca ou desalento.
não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura
que fez de mim seu encosto.
E se apossou do estojo de minha figura
e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida,
sem ceder a concha do ouvido
a ninguém que dela discorde,
é esta selvagem sombra acavalada
que faz versos como quem morde.              

Um desesperado poema de amor, dedicado a Castro Alves por Adélia Prado

Frases diárias: “O sonho encheu a noite Extravasou pro meu dia Encheu minha  vida E é dele que eu vou viver Porque sonho não morre.” — Adélia PradoPaulo Peres
Poemas & Canções

A consagrada professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “Bilhete em Papel Rosa”, faz uma bela declaração de amor à Castro Alves.

BILHETE EM PAPEL ROSA
Adélia Prado
(A meu amado secreto, Castro Alves)

Quantas loucuras fiz
por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“O cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo”.

Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão  negro,
eu vivo tão perturbada,
pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim.

Me dão mingaus, caldos quentes,
me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa
do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio,
as nossas vias ligadas.

Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.                          

“Desilusão, desilusão… Danço eu, dança você, na dança da solidão”   

Desilusão, desilusão, na dança da solidão

O cantor e compositor carioca Paulo César Batista de Faria, o Paulinho da Viola, é tido como um dos mais talentosos representantes da MPB. A letra de “Dança da Solidão” retrata quando a pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento, ou seja, quando ela percebe a sua condição humana de ser ou ficar sozinha em seus sentimentos e em seus pensamentos.

A música foi gravada por Paulinho da Viola no LP A Dança da Solidão, em 1972, pela Odeon.

DANÇA DA SOLIDÃO
Paulinho da Viola

Solidão é lava
que cobre tudo,
amargura em minha boca
sorri seus dentes de chumbo
Solidão, palavra
cavada no coração,
resignado e mudo
no compasso da desilusão.

Desilusão, desilusão.
Danço eu, dança você
na dança da solidão

Carmélia ficou viúva,
Joana se apaixonou,
Maria tentou a morte
por causa do seu amor.
Meu pai sempre me dizia
meu filho tome cuidado,
quando penso no futuro
não esqueço meu passado.

Desilusão, desilusão.
Danço eu, dança você
na dança da solidão.

Quando chega a madrugada
meu pensamento vagueia,
corro os dedos na viola
contemplando a lua cheia.
Apesar de tudo existe
uma fonte de água pura,
quem beber daquela água
não terá mais amargura.

Desilusão, desilusão.
Danço eu, dança você
na dança da solidão.   

“Tô com saudade de tu, meu desejo; tô com saudade do beijo e do mel…”

Nando Cordel - Pesquisa Escolar

Nando Cordel, grande músico pernambucano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, instrumentista e compositor pernambucano Fernando Manoel Correia, nome artístico Nando Cordel, expressa o que acarreta a saudade de um amor na letra de “Gostoso Demais”, parceria com Dominguinhos. A música foi gravada por Maria Bethânia no LP Dezembros, em 1987, pela Universal Music.

GOSTOSO DEMAIS
Dominguinhos e Nando Cordel

Tô com saudade de tu, meu desejo.
Tô com saudade do beijo e do mel,
Do teu olhar carinhoso,
Do teu abraço gostoso,
De passear no teu céu.

É tão difícil ficar sem você,
O teu amor é gostoso demais.
Teu cheiro me dá prazer,
Quando estou com você,
Estou nos braços da paz.

Pensamento viaja
E vai buscar meu bem-querer
Não posso ser feliz assim
Tem dó de mim,
O que eu posso fazer?                     

Como Oswaldo Montenegro, faça uma lista dos amigos que você não vê mais

Quando a gente ama Simplesmente ama É... Oswaldo Montenegro - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Oswaldo Viveiros Montenegro, na letra de “A Lista”, fala sobre lembranças que todos já tiveram. Além disso, o compositor ainda faz uma comparação com o que fazia e o que faz hoje. A música foi gravada por Oswaldo Montenegro no Álbum “A Lista”, em 2001, pela Jam Music.

A LISTA
Oswaldo Montenegro

Faça uma lista de grandes amigos.
Quem você mais via há dez anos atrás.
Quantos você ainda vê todo dia,
Quantos você já não encontra mais.
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!

Quantos amores jurados pra sempre,
Quantos você conseguiu preservar.
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora,
Hoje é do jeito que achou que seria?

Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava,
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer?

Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assovia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

Faça uma lista de grandes amigos,
Quem você mais via há dez anos atrás.
Quantos você ainda vê todo dia,
Quantos você já não encontra mais.
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber.
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você.  

Na memória de Schmidt, o amor àquela garota vestida de vermelho, junto ao piano

Veredas da Língua: Augusto Frederico Schmidt – PoemasPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, conselheiro político, editor, empresário e poeta carioca Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), na “Elegia”, fala poeticamente da lembrança que guarda de um grande amor.

ELEGIA
Augusto Frederico Schimidt

Entrou na sala e ficou em pé tocando piano,
Sua mão pequena batia no teclado duramente.

Lembro que estava de vermelho
Lembro que tinha nas tranças finas uma fita preta
Lembro que era de tarde
E entrava pelas janelas abertas o vento do mar.

Não lembro se tinha flores perto dela
Mas nascia um perfume do seu corpo.

Que amor o meu!

Um poema autobiográfico de Rubem Braga, retratando sua imagem refletida no espelho

RUBEM BRAGA – FaciletrandoPaulo Peres
Poemas & Canções

Considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, o capixaba Rubem Braga (1913–1990), sempre amou a poesia. Durante muitos anos escreveu colunas em jornais e revistas, nas quais publicava suas crônicas sempre acompanhadas de algum poema, sob o título “A Poesia É Necessária”.

Durante anos, trabalhei com ele na Revista Nacional, criada por Mauritônio Meira e dirigida por Carlos Newton. Foi assim, sob as asas de Braga, que consolidei meu amor à poesia.

Era um grande poeta, ao mesmo tempo romântico e realista, como se declara no autobiográfico soneto “Ao Espelho”.

AO ESPELHO
Rubem Braga

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh! Braga envelhecido, envilecido.

“Eu sonhei que tu estavas tão linda, numa festa de raro esplendor…”

ISTO É LAMARTINE - Discografia Brasileira

Lamartine Babo, um compositor realmente genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e compositor carioca Lamartine de Azeredo Babo (1904-1963) e seu parceiro Francisco Mattoso, na letra de “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, relembram os um sonho romântico de belos momentos. A valsa foi gravada por Carlos Galhardo em 1941, pela RCA Victor, e fez enorme sucesso. 

EU SONHEI QUE TU ESTAVAS TÃO LINDA
Francisco Mattoso e Lamartine Babo

Eu sonhei . . .que tu estavas tão linda . . .
Numa festa de raro esplendor,
Teu vestido de baile . . . lembro ainda:
Era branco, todo branco, meu amor ! . . .

A orquestra tocou umas valsas dolentes,
Tomei-te aos braços, fomos dançando, ambos silentes . .
E os pares que rodeavam entre nós,
Diziam coisas, trocavam juras a meia voz . . .

Violinos enchiam o ar de emoções
E de desejos uma centena de corações . . .
Pra despertar teu ciúme, tentei flertar alguém,
Mas tu não flertaste ninguém ! . . .
Olhavas só para mim,
Vitórias de amor cantei,
Mas foi tudo um sonho . . . acordei ! . . .

No Dia dos Namorados, beije muito aquela pessoa que embeleza sua vida

O dia dos Namorados para mim é todo... Carlos Drummond de Andrade - PensadorCarlos Newton

O advogado, jornalista, analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), compositor, letrista e poeta carioca Paulo Roberto Peres homenageia o dia de hoje através deste “Soneto dos Namorados” e festeja seu amor à bela Cristina.

Em seguida, lembremos um dos preferidos de Paulo Peres, Mario de Miranda Quintana (1906/1994), poeta, tradutor e jornalista gaúcho, considerado um dos principais expoentes da segunda geração do modernismo brasileiro. Conhecido como “o poeta das coisas simples”, sua obra é marcada pela abordagem de temas cotidianos e reflexivos. 

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SONETO DOS NAMORADOS
Paulo Peres

Dia dos Namorados.
Corações iluminados,
Beijos, abraços, amores,
Poemas, canções e flores.

Nos salões dos sentimentos
Sob luz de velas e violinos,
Casais eternizam momentos,
Sonhos reais, cristalinos.

O namorar é o vital sabor
Da idade, descoberta e valor,
Cuja beleza maior está na grandeza modesta.

Invoco à bênção futura
Cultivar do passado a ternura
Aos hoje namorados em festa.

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BILHETE
Mario Quintana

Se tu me amas, ama-me baixinho,
Não o grites de cima dos telhados.
Deixa em paz os passarinhos,
Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,
Tem de ser bem devagarinho, Amada,
Que a vida é breve,
E o amor mais breve ainda…

Uma viola enluarada que marcou época, fustigando o regime militar

Marcos E Paulo Sérgio Valle Discography: Vinyl, CDs, & More | Discogs

Paulo Sérgio e Marcos Valle, irmãos e parceiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

Os irmãos cantores e compositores cariocas Paulo Sérgio e Marcos Kostenbader Valle fizeram em parceria a música “Viola Enluarada”, cuja letra mostra que era preciso lutar, enfrentar a ditadura militar vigente no Brasil desde 1964 e buscar a liberdade. A música intitula o LP Viola Enluarada, lançado por Marcos Valle, em 1967, pela Odeon.

VIOLA ENLUARADA
Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle

A mão que toca um violãoSe for preciso faz a guerraMata o mundo, fere a terraA voz que canta uma cançãoSe for preciso canta um hinoLouva à morteViola em noite enluaradaNo sertão é como espadaEsperança de vingança
O mesmo pé que dança um sambaSe preciso vai à lutaCapoeiraQuem tem de noite a companheiraSabe que a paz é passageiraPrá defendê-la se levantaE grita: “Eu vou!”
Mão, violão, canção e espadaE viola enluaradaPelo campo e cidadePorta bandeira, capoeiraDesfilando vão cantandoLiberdade
Quem tem de noite a companheiraSabe que a paz é passageiraPrá defendê-la se levantaE grita: “Eu vou!”Porta bandeiraCapoeiraDesfilando vão cantandoLiberdade… 
Liberdade, liberdade, liberdade

Em forma de poesia, as reflexões de Millôr Fernandes sobre suas reflexões

Millôr: o humor como forma de indignação | Curso Enem Play | Guia do EstudantePaulo Peres
Poemas & Canções

O desenhista, humorista, dramaturgo, tradutor, escritor, jornalista e poeta carioca Milton Viola Fernandes (1923-2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, no poema “Reflexão Sobre a Reflexão”, fala de suas decisões relacionadas ao ato de pensar.

REFLEXÃO SOBRE A REFLEXÃO
Millôr Fernandes

Terrível é o pensar.
Eu penso tanto
E me canso tanto
Com o meu pensamento
Que às vezes penso
em não pensar jamais.
Mas isto requer
ser bem pensado
Pois se penso demais
Acabo despensando
tudo que pensava antes
E se não penso
Fico pensando
nisso o tempo todo.

O sentimento clássico do amor que não se completa, na poesia de Moacyr Félix

Moacyr Felix — Vida e Obra — os poemas essenciais — Escritas.org

Moacyr Felix e seus poemas essenciais

Paulo Peres
Poemas & Canções

O editor, escritor e poeta carioca Moacyr Félix de Oliveira (1926-2005), no poema “Sentimento Clássico”, expõe a dor que colocamos em tudo e, calados, procuramos ser o que jamais seremos.

SENTIMENTO CLÁSSICO
Moacyr Félix

Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.

Que distâncias lamento, e que contraste!
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.

Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.

Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.

Gonzaguinha ia à luta e acreditava contribuir para um futuro melhor

Artistas se reúnem para homenagear Gonzaguinha | VEJA RIO

Gonzaguinha com o pai, Luiz Gonzaga

Paulo Peres
Poemas & Canções

O economista, cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Junior (1945-1991) , mais conhecido como Gonzaguinha, é, sem dúvida, um dos maiores talentos da Música Brasileira em seus diversos estilos populares. Sua obra teve, inicialmente, como característica sua postura de crítica à ditadura, conforme mostra a letra de “E Vamos à Luta”, que fala das pessoas que lutavam contra o regime militar. Essa música foi gravada por Gonzaguinha no LP De Volta ao Começo, em 1980, pela EMI.

E VAMOS À LUTA
Gonzaguinha

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

Aquele que sabe que é negro
o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares
Ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí…

Eu acredito é na rapaziada

O poeta Patativa do Assaré já dizia: é preciso votar no candidato certo

PERFIL | Patativa do Assare - 2 de 3Paulo Peres
Poemas & Canções 

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples e poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme afirma ser “O Que Mais Dói”, referindo-se à possibilidade de os eleitores escolherem um presidente ruim.

O QUE MAIS DÓI
Patativa do Assaré

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.

Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.

O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.

“Quando eu me chamar Saudade”, a despedida de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Paulo Peres
Poemas & Canções

Nelson Cavaquinho: vida e obra do sambista de estilo único, morto há 40 anos | Stories | Flipar | O Dia

Nélson e Guilherme, dois amigos inseparáveis

O pintor, escultor, cantor e compositor carioca Guilherme de Brito Bollhorst (1922-2006), na letra de “Quando Eu Me Chamar Saudade”, parceria com Nelson Cavaquinho (1911-1986), pede aos amigos que façam tudo quanto quiserem fazer por ele, somente enquanto estiver vivo.

Este samba imortal foi gravado por Nora Ney no LP “Tire seu Sorriso do Caminho, que Eu Quero Passar com a Minha Dor”, título de outra grande parceria dos dois, em 1972, pela Som Livre.

QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão

Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora

Me dê as flores em vida
O carinho
A mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

As assombrações da escravidão, na poesia rebelde de Olegário Mariano

Olegário Mariano, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata, político e poeta pernambucano Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958), membro da Academia Brsileira de Letras, no soneto “A Velha Mangueira”, fala de assombrações do tempo da escravidão.

A VELHA MANGUEIRA
Olegário Mariano

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa…
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa…

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos

“No novo tempo, apesar dos perigos, estamos na luta, pra sobreviver, pra sobreviver…”

Ivan Lins e Vitor Martins: Novabrasil celebra 50 anos da parceria da dupla  - Novabrasil

Ivan e Vitor, uma dupla de grande talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O pianista, cantor e compositor carioca Ivan Guimarães Lins, em parceria com o letrista Vitor Martins, fala em um novo tempo, que é o momento de se mostrar, de lutar pelo seu espaço, por um país livre, sem censura e repressão política.

A música foi gravada por Ivan Lins no LP Novo Tempo, em 1980, pela EMI-Odeon.

O NOVO TEMPO
Vitor Martins e Ivan Lins

No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos crescidos
Estamos atentos
Estamos mais vivos
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
Da força mais bruta
Da noite que assusta
Estamos na luta
Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Pra que nossa esperança
Seja mais que vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança

No novo tempo
Apesar dos castigos
De toda fadiga
De toda injustiça
Estamos na briga
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
De todos pecados
De todos enganos
Estamos marcados
Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver

Pra que nossa esperança
Seja mais que a vingança
Seja sempre um caminho
Que se deixa de herança

No novo tempo
Apesar dos castigos
Estamos em cena
Estamos na rua
Quebrando as algemas
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer
Pra nos socorrer

No novo tempo
Apesar dos perigos
A gente se encontra
Cantando na praça
Fazendo pirraça
Pra sobreviver
Pra sobreviver
Pra sobreviver