Uma bela sertaneja que ficou imortalizada na voz de Orlando Silva

Casa do Choro

René Bittencourt, grande compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O empresário artístico, jornalista e compositor carioca René Bittencourt Costa (1917-1979) utiliza hipérboles somente para fazer a “Sertaneja” feliz, nesta belíssima, romântica e bucólica letra. Essa canção foi gravada por Orlando Silva, em 1939, pela RCA Victor, e fez enorme sucesso.

SERTANEJA
René Bittencourt

Sertaneja, se eu pudesse
se papai do céu me desse
o espaço pra voar,
eu corria a natureza
acabava com a tristeza
só pra não te ver chorar.

Na ilusão desse poema
eu roubava um diadema
lá no céu pra te ofertar,
e onde a fonte rumoreja
eu erguia a tua igreja
e dentro dela o teu altar.

Sertaneja, por que choras
quando eu canto,
Sertaneja, se este canto é todo teu.
Sertaneja, pra secar os teus olhinhos
vai ouvir os passarinhos
que cantam mais do que eu.

A tristeza do teu pranto
é mais triste quando eu canto
a canção que te escrevi,
e os teus olhos neste instante
brilham mais que a mais brilhante
das estrelas que eu já vi.
Sertaneja, eu vou embora
a saudade vem agora
alegria vem depois.
Vou subir por estas serras,
construir lá n’outras terras
um ranchinho pra nós dois.

E lá vai o lendário trem azul de Lô Borges e Ronaldo Bastos…

Poeta do clube mineiro, Ronaldo Bastos faz 70 anos com livre trânsito nas esquinas | G1

Ronaldo Bastos, poeta do Clube de Esquina

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, produtor musical e compositor Ronaldo Bastos Ribeiro, nascido em Niterói (RJ), na letra de “O Trem Azul”, em parceria com Lô Borges (1952/2025) compara a vida e a viagem como passageiro de um trem, sempre em direção à próxima e nova estação, com suas promessas de momentos mais felizes, ou seja, é o canto da esperança nos bons encontros que a próxima estação trará; é canto de afirmação (inclusive das despedidas) da beleza da palavra, afinal, a tristeza é resultado das palavras que não foram ditas e que devoram o indivíduo por dentro, numa época em que o Brasil estava sob o comando de uma ditadura militar, desde 1964.

A canção faz parte do LP duplo Clube da Esquina, gravado por Milton Nascimento, em 1972, pela Odeon.

O TREM AZUL
Lô Borges e Ronaldo Bastos

Coisas que a gente
se esquece de dizer.
Frases que o vento
vem as vezes me lembrar.

Coisas que ficaram
muito tempo por dizer
na canção do vento
não se cansam de voar.

Você pega o trem azul,
o Sol na cabeça.
O Sol pega o trem azul,
você na cabeça.
Um sol na cabeça.

Uma turbulência aleatória surge no ritmo da poesia de Waly Salomão

Se todas as coisas nos reduzem a zero,... Waly Salomão - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta baiano Waly Dias Salomão (1943-2003) formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Cursou a Escola de Teatro da mesma universidade (1963-1964) e estudou inglês na Columbia University, Nova York (1974-1975). Na década de 1960, participou do movimento tropicalista.

Foi também uma figura importante da contracultura no Brasil, nos anos 1970. Atuou em diversas áreas da cultura brasileira. Seu primeiro livro foi Me segura qu’eu vou dar um troço, de 1972. Em 1997, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura com o livro de poesia Algaravias. Seu último livro foi Pescados Vivos, publicado em 2004, após sua morte. No tropicalista poema “Hoje”, Waly só queria ritmo.

HOJE
Waly Salomão

O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo, um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás…)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e passam de um ritmo regular
para uma turbulência aleatória.

Desejos e fantasias de um poeta que amava o que a vida tem de melhor

Affonso Romano de Sant'Anna | Impressões do Brasil | TV Brasil | Cidadania

Affonso Romano, um grande poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) descreve os seus “Desejos”, em que alguns versos são bastante atuais.

DESEJOS
Affonso Romano de Sant’Anna

Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.

Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
– Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não: – Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
– As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não:-Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações dos pássaros,
que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.

Um vestido muito especial, que virou personagem da poesia de Adélia Prado

Amor pra mim é ser capaz de permitir... Adélia Prado - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas lembra da paixão, que virou um ritual, quando usou “O Vestido” que a faz amante.

O VESTIDO
Adélia Prado

No armário do meu quarto
escondo de tempo e traça meu vestido
estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas
vermelhas à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.  

Um sonho de poeta, em meio ao amor desiludido, na inspiração de Alice Ruiz

Alice Ruiz

A própria Alice Ruiz personifica um sonho de poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções

A pubicitária, tradutora, compositora e poeta curitibana Alice Ruiz queria que fosse seu um sonho poético, mas acaba levado pelo vento num amor que não se mostra possível.

SONHO DO POETA
Alice Ruiz

Quem dera fosse meu
o poema de amor definitivo.
Se amar fosse o bastante
poder eu poderia,
pudera, às vezes,
parece ser esse
meu único destino.

Mas vem o vento e leva
as palavras que digo,
minha canção de amigo.
Um sonho de poeta
não vale o instante vivo.

Pode que muita gente
veja no que escrevo
tudo que sente
e vibre, e chore e ria como eu,
antigamente, quando não sabia
que não há um verso, amor,
que te contente.        

A poesia de Adalgisa Nery, num abrir e piscar de olhos, pode até mudar o mundo

Adalgisa Nery, pintada por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

A jornalista e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery, por ter-se casado com o pintor Ismael Nery, revela no “Poema Natural” como o mundo pode ser diferente quando você fecha os olhos.

POEMA NATURAL
Adalgisa Nery

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece. 
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar.
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Cansei do fundo do mar,
subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tornarei.

Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo,
Parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva,
Desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

A melancolia como arte, nas canções românticas que Maysa lançava

Mais Cultura Brasileira! : Maysa Matarazzo - a cantora dos tormentos  amorosos

Maysa era linda e melancólica

Paulo Peres
Poemas & Canções

A cantora e compositora paulista Maysa Figueira Monjardim Matarazzo (1936-1977), na letra de “Meu Mundo Caiu”, expressa o estado depressivo em que mergulhou após a separação do seu marido André Matarazzo, motivo que acentuou ainda mais o tom melancólico e triste de suas composições, reconhecidas como “músicas de fossa”. Esse samba-canção foi gravado por Maysa em 1963, pela RGE.

MEU MUNDO CAIU
Maysa

Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí

Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar

Uma desesperada canção de amor, coisa rara na poesia de Olavo Bilac

Reconheçamos que o Brasil é um dos... Olavo Bilac - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista e poeta carioca Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918), que era republicano e nacionalista, no soneto “Longe de Ti” assume seu lado romântico, mas não deixa de falar em pátria, em exílio e em linguagem natal.

LONGE DE TI
Olavo Bilac

Longe de ti, se escuto, porventura,
Teu nome, que uma boca indiferente
Entre outros nomes de mulher murmura,
Sobe-me o pranto aos olhos, de repente…

Tal aquele, que, mísero, a tortura
Sofre de amargo exílio, e tristemente
A linguagem natal, maviosa e pura,
Ouve falada por estranha gente…

Porque teu nome é para mim o nome
De uma pátria distante e idolatrada,
Cuja saudade ardente me consome:

E ouvi-lo é ver a eterna primavera
E a eterna luz da terra abençoada,
Onde, entre flores, teu amor me espera.

Um sonho de boa música, com João Nogueira e Nei Lopes, na tradicional gafieira Elite

Aos 83 anos, Nei Lopes continua atuante

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, escritor, cantor e compositor carioca Nei Brás Lopes e seu parceiro João Nogueira (1941/2000) sonharam ter ido a um “Baile no Elite”, tradicional gafieira da Cidade do Rio de Janeiro, onde se apresentava a Orquestra Tabajara. O samba foi gravado por João Nogueira no LP Vida Boêmia, pela Odeon, em 1978.

BAILE NO ELITE

João Nogueira e Nei Lopes

Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite
Do Manoel Garçon (Meu Deus do Céu, que baile bom!)
Que coisa bacana, já do Campo de Santana
Ouvir o velho e bom som: trombone, sax e pistom.
O traje era esporte que o calor estava forte
Mas eu fui de jaquetão, pra causar boa impressão
Naquele tempo era o requinte o linho S-120
E eu não gostava de blusão (É uma questão de opinião!)

Passei pela portaria, subi a velha escadaria
E penetrei no salão. Quase morri do coração
Quando dei de cara com a Orquestra Tabajara
E o popular Jamelão, cantando só samba-canção.
Norato e Norega, Macaxeira e Zé Bodega
Nas palhetas e metais (E tinha outros muitos mais)
No clarinete o Severino solava um choro tão divino
Desses que já não tem mais (E ele era ainda bem rapaz!)

Refeito dessa surpresa, me aboletei na mesa
Que eu tinha reservado (Até paguei adiantado)
Manoel, que é dos nossos, trouxe um pires de tremoços
Uma cerveja e um traçado (Pra eu não pegar um resfriado)

Tomei minha Brahma, levantei, tirei a dama
E iniciei meu bailado (No puladinho e no cruzado)
Até Trajano e Mário Jorge que são caras que não fogem
Foram se embora humilhados (Eu estava mesmo endiabrado!)

Quando o astro-rei já raiava e a Tabajara caprichava
Seus acordes finais (Para tristeza dos casais)
Toquei a pequena, feito artista de cinema
Em cenas sentimentais (à luz de um abajur lilás).
Num quarto sem forro, perto do pronto-socorro
Uma sirene me acordou (em estado desesperador)
Me levantei, lavei o rosto, quase morto de desgosto
Pois foi um sonho e se acabou
(O papo é pop e o hip-hop
A Tabajara é muito cara
e o velho tempo já passou!) 

 

Um arco-íris faz a alegria de crianças pobres, na poesia de Olegário Mariano 

Olegário Mariano | Busca | Portinari

Mariano, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

O poema “Arco-Íris” mostra que a obra do diplomata, político e poeta pernambucano Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958) era marcada também por um forte sentimento social, em suas observações sobre a alegria das crianças pobres.

ARCO-ÍRIS
Olegário Mariano

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:
“Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol.”

De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.   

Lembrando “Filosofia”, uma lição de vida na visão de Noel Rosa e André Filho

Caricatura reproduzida do Google

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, músico e compositor carioca Noel de Medeiros Rosa (1910-1937) e seu parceiro André Filho (1906/1974), autor de “Cidade Maravilhosa”, retratam na letra de “Filosofia” exatamente como é a sociedade em que vivemos, em que todos somos criticados quando não estamos de acordo com conceitos impostos por ela.

Esse samba foi gravado por Mário Reis e Orquestra Pixinguinha, em 1933, pela Columbia.

FILOSOFIA
André Filho e Noel Rosa

O mundo me condena,
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome

Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim

Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba,
Muito embora vagabundo

Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro,
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia

O vento no meio das nuvens, na primorosa visão poética de Paulo Peres

Tribuna da Internet | No colo da mãe natureza, Paulo Peres criou versos nas  nuvens do ateliê do vento

Paulo Peres, no estúdio de gravação

Carlos Newton

O advogado, jornalista, analista judiciário aposentado do Tribunal de Justiça (RJ), compositor e poeta carioca Paulo Roberto Peres  inspirou-se na natureza para escrever o poema “Nuvens, Ateliê do Vento”.

NUVENS, ATELIÊ DO VENTO
Paulo Peres

A caneta do vento escreveu
Poemas de Nuvens

O cinzel do vento esculpiu
Mulheres de Nuvens

O pincel do vento pintou
Jardins de Nuvens

A caneta, o cinzel e o pincel
São veios infindos do vento

Qual estro nos astros vagueiam
Raios de sonhos tangentes

Nuvens no céu,
Ateliê do vento,
No colo da mãe natureza 

Uma apologia à natureza, na poesia sofisticada de Pedro Kilkerry

Veredas da Língua: Pedro Kilkerry - PoemasPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Pedro Militão Kilkerry (1885-1917), no soneto “Ritmo Eterno”, faz uma rebuscada apologia à natureza.

RITMO ETERNO
Pedro Kilkerry

Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha… Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo…

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar…
Alvor, turquesa, ondula a matéria… É veludo,

É minh’alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!

Um anoitecer tipicamente parnasiano, na poesia rebuscada de Raimundo Correia

A tempestade vem assombrado por onde... Raimundo Correia - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O magistrado, professor, diplomata e poeta maranhense Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859-1911) descreve o “Anoitecer” seguindo o estilo parnasiano a que se dedicava, e que tem como uma de suas características a descrição de algo que pode ser um objeto, um acontecimento, um fenômeno da natureza, uma paisagem etc.

ANOITECER
Raimundo Correia

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol… Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados
Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia…

Um mundo de vapores no ar flutua…
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua…

A natureza apática esmaece…
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula… Anoitece.

“Eu amava como amava um sonhador…”, revela o menestrel Montenegro

Falante, Oswaldo Montenegro percorre trilhas e imagens de 50 anos de  estrada em show feito com os pés no chão | G1

Montenegro, eternamente cantando o amor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Oswaldo Viveiros Montenegro, na letra de ‘Lua e Flor”, utiliza símiles para mostrar as diversas formas pelas quais ele amou. Esta música faz parte da Coleção Pérolas – Oswaldo Montenegro 2000.

LUA E FLOR
Oswaldo Montenegro

Eu amava
Como amava algum cantor
De qualquer clichê
De cabaré, de lua e flor

Eu sonhava
Como a feia na vitrine

Como carta
Que se assina em vão

Eu amava
Como amava um sonhador
Sem saber porquê
E amava ter no coração
A certeza ventilada de poesia
De que o dia, amanhece não

Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar

Eu amava,
Como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar

O drama do trabalho infantil, na canção de protesto de Luiz Carlos Sá

IMMuB | Compositor - Luiz Carlos Sá

Luiz Carlos Sá, grande compositor carioca

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor carioca Luiz Carlos Pereira de Sá, integrante do trio Sá, Rodrix e Guarabira, na letra de “Baleiro”, relata a vida de uma família muito pobre, que é ajudada pelo filho vendedor de balas. Essa música foi gravada por Luli no LP Luli, em 1965, pela Philips.

BALEIRO
Luiz Carlos Sá

Olha o baleiro, olha a bala de coco
Todo mundo quer, todo mundo quer

Pai, o seu filho vende bala
Dia e noite não se cala
A pedir para comprar
Olha, é pequeno e não tem bola
É criança sem escola
Onde é que ele vai parar?

Só no baleiro, na bala de coco
Todo mundo quer, todo mundo quer

Seu pai trabalha na obra
Tijolo pra carregar
Sua mãe é lavadeira
Muita roupa pra lavar
Muito irmão fazendo nada
Mas esse quer melhorar
Mas o negócio é que a vida não deixa
E pra não ter mais queixa
tem que trabalhar

Só no baleiro, na bala de coco
Todo mundo quer, todo mundo quer

Os atrativos da maturidade no amor inspiram a poesia de Lya Luft

A maturidade me permite olhar com menos... Lya Luft - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

A professora aposentada, escritora, tradutora e poeta gaúcha Lya Fett Luft (1938/2021), no poema “Canção da Plenitude”, admite não ter mais a beleza de uma adolescente, mas pode oferecer ao seu amor todos os atrativos que a sabedoria da maturidade lhe proporcionou.

CANÇÃO DA PLENITUDE
Lya Luft

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas,
sou uma estrutura agrandada pelos anos
e o peso dos fardos bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.           

Na poesia de Lêdo Ivo, os homens são incompletos e os dias inacabados

Homenagem a Lêdo Ivo – Educação Emocional e Terapia por meio de contosPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, cronista, romancista, contista, ensaísta e poeta alagoano Lêdo Ivo (1924-2012) mostra como os homens são incompletos e os dias seguem inacabados.

O DIA INACABADO
Lêdo Ivo

Como todos os homens, sou inacabado.
Jamais termino de ser.
Após a noite breve um longo amanhecer
me detém no umbral do dia.
Perco o que ganho no sonho e no desejo
quando a mim mesmo me acrescento.
Toda vez que me somo, subtraio-me,
uma porção levada pelo vento.
Incompleto no dia inacabado,
livre de ser ainda como e quando,
sigo a marcha das plantas e das estrelas.
E o que me falta e sobra é o meu contentamento.

Lupicínio Rodrigues, um grande compositor que tinha nervos de aço

In-Edit Brasil 2023 :: Encerramento da edição Porto Alegre contará com  filme sobre Lupicínio Rodrigues - Papo de Cinema

Lupicinio sabia o que é ter um amor, meu sinhô

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974), Lupe, como era chamado desde pequeno, criou músicas que expressam muito sentimento, principalmente, a melancolia por um amor perdido. Foi o inventor do termo dor-de-cotovelo, que se refere à prática de quem crava os cotovelos em um balcão ou mesa de bar, pede uma dose e chora pela perda da pessoa amada.

Constantemente abandonado pelas mulheres, Lupicínio buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde a traição e o amor andavam sempre juntos. E “Nervos de Aço” não foge à regra.

Originalmente, “Nervos de aço” foi lançada em 1947, na Continental, pelo cantor paulista Déo (Ferjalla Rizkalla), mas pouco depois, Francisco Alves também gravou a música na Odeon, conseguindo um enorme sucesso. Mas recentemente, Paulinho da Viola gravou e de novo a canção foi muito aclamada.

NERVOS DE AÇO
Lupicínio Rodrigues

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser

Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor