Com o Brasil caminhando desse jeito Não se sabe onde ele vai chegar.

Cd Chico Salles Confissoes Ao Vivo | MercadoLivrePaulo Peres
Poemas & Canções

O engenheiro, cantor, compositor e cordelista paraibano Francisco de Salles Araújo (1951-2017), neste martelo agalopado, deixou seu pensamento vaguear pelos caminhos do Brasil.

OS CAMINHOS DO BRASIL
Chico Salles

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
Esse papo vem do meu pensamento
Sem querer envolver outra pessoa
Falo assim deste jeito e numa boa,
Escrevendo aqui o meu lamento.

Construir uma família é um tormento.
A canção não se tem pra quem mostrar
No amigo não se pode confiar
Eu só vejo vaidade e preconceito,
Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.

Nossos rios estão todos poluídos
Nossa mata tá sendo derrubada
Guris assaltando a mão armada
O saber bem longe dos oprimidos
Os homens cada vez mais desunidos
O futuro demorando a chegar.

Assim é difícil ate sonhar
Nunca mais ouvi falar em respeito,
Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
As noticias nos deixam descontentes
Confusas com assuntos arrumados.

Ate os escritores renomados
São a todos os fatos indiferentes
Tão de férias descansando e ausentes
Omissos e sem nada a declarar
Quando é que iremos despertar
E exigir o que nos é de direito.

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
O progresso aqui é só pretexto
Cresce mesmo é a ponta da miséria
Esta é a afirmação mais séria
Que trago neste meu martelo texto

Afirmando, confirmando no contexto
Já saí por aí a pesquisar
Com tristeza e revolta constatar,
Para aqui apontar este conceito,
Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.

Na política é só corrupção
O modelo econômico indecente
A impunidade está presente
Muita hipocrisia e ambição
O descaso com a população
Tá na hora do povo acordar

Botar fogo para a chapa esquentar
E da vida tirar melhor proveito,
Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.
E assim, sempre pela contra mão.
A família tem a bolsa como esmola

Juventude aí cheirando cola
A maior desgraça da Nação
Sem saber o que é educação,
A TV ajudando alienar
Algum dia esse bicho vai pegar
A causa passará a ser efeito,

Com o Brasil caminhando desse jeito
Não se sabe onde ele vai chegar.

O realismo fantástico de Castro Alves, na canoa que é levada pela correnteza

Em 14 de Março de 1847 - Nascia o nosso Castro Alves - Poeta da liberdade!

Castro Alves, um poeta revolucionário em tudo

Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871), símbolo da nossa literatura abolicionista, motivo pelo qual é conhecido como “Poeta dos Escravos”, no poema “A Canoa Fantástica” demonstra toda a sua criatividade poética, numa visão ensandecida sobre o destino da canoa e o que ela conduz.

A CANOA FANTÁSTICA
Castro Alves

Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?
Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s’escoa…
No dorso da correnteza,
Como boia esta canoa!…
Mas não branqueja-lhe a vela!
N’água o remo não ressoa!
Serão fantasmas que descem
Na solitária canoa?
Que vulto é este sombrio
Gelado, imóvel, na proa?
Dir-se-ia o gênio das sombras
Do inferno sobre a canoa!…
Foi visão? Pobre criança!
À luz, que dos astros coa,
É teu, Maria, o cadáver,
Que desce nesta canoa?
Caída, pálida, branca!…
Não há quem dela se doa?!…
Vão-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!…
E as flores róseas dos golfos,
— Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E vão seguindo a canoa!…

Uma dramática síntese da vida, na visão poética de Francisco Otaviano

Francisco Otaviano – Wikipédia, a enciclopédia livre

Francisco Otaviano, grande poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, político, diplomata e poeta carioca Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889) imortalizou-se ao escrever o poema “Ilusões da Vida”. Em poucas palavras, Otaviano faz um convite à reflexão sobre o sofrimento que a vida reserva a cada um de nós.

Era um poeta tão consagrado que Machado de Assis escreveu um livro sobre a morte do amigo.

ILUSÕES DA VIDA
Francisco Otaviano

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

“Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim…”

Eternas Músicas: Naquela Mesa

Sérgio Bittencourt fez uma homenagem a seu pai

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, apresentador de TV, cronista e compositor carioca Sérgio Freitas Bittencourt (1941-1979) compôs “Naquela Mesa” em homenagem póstuma ao seu pai, o compositor Jacob do Bandolim, e a saudade que ele deixou. Esta samba-choro foi gravado por Elizeth Cardoso em seu LP “Preciso aprender a ser só″, em 1972, pela Copacabana, e fez enorme sucesso.

NAQUELA MESA
Sérgio Bittencourt

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias,
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã.
E nos seus olhos era tanto brilho,
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã.

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim.
Se eu soubesse o quanto doi a vida,
Essa dor tão doída não doía assim.

Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim.
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.

E Caetano saiu caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento…

Caetano Veloso - Alegria, Alegria (3º Festival da MPB - 1967) | Vídeo da final na descrição

No Festival da Record, Caetano investiu contra a ditadura

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, músico, produtor, escritor, poeta e compositor baiano Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, na letra da marcha “Alegria, Alegria” apresentada no III Festival de MPB da TV Record, em 1967, procurou conscientizar e incentivar a população a se rebelar e protestar contra o governo da época, conforme explica o professor de português Alexandre Varela Castilho.

Segundo o professor, nos primeiros versos, Caetano já manifesta a sua ideia política contrária a ditadura militar, na época, vigente no país, ou seja, “caminhando contra o vento” significa resistência,  “sem lenço e sem documento” eram acessórios obrigatórios para se andar nas ruas,  então andar sem documento reforçava a ideia de resistência e rebeldia.

Alexandre Castilho afirma também  que a estrofe “O sol se reparte em crimes/Espaçonaves, guerrilhas/Em cardinales bonitas…”, refere-se ao jornal O Sol, que circulava na zona sul carioca.

A marcha “Alegria, Alegria” foi gravada por Caetano Veloso em compacto simples, em 1967, pela Philips.

ALEGRIA, ALEGRIA
Caetano Veloso

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes,
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

O Sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não?…

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento,
Eu vou

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não?…

Vinicius amava tanto, que pediu Gesse em casamento na noite que se conheceram

Vinícius de Moraes teve uma forte ligação com o candomblé, que se  intensificou na década de 1970, influenciado por sua então esposa, Gesse  Gessy, levando-o a uma "imersão profunda no universo da

Vinicius e Gesse se casaram no candomblé

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta Vinícius de Moraes (1913-1980) foi essencialmente lírico e notabilizou-se pelas canções e pelos poemas de amor que escreveu, como o belíssimo “Soneto do Amor Total”, que se refere à realidade interior do poeta, confessando seus sentimentos sempre ardorosamente.

Vinicius era tão amoroso que pediu em casamento a atriz baiana Gesse Gessy na noite em que a conheceu, num bar em Ipanema,  na Rua Montenegro, que após a morte dele passou a se chamar Rua Vinicius de Moraes.

O poetinha casou com Gesse, uma bela morena de olhos verde, mudou-se para Salvador e ficou com ele durante seis anos. Foi um de seus casamentos mais duradouros.

SONETO DO AMOR TOTAL
Vinicius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

O milagre das mãos do pai, nas poesias de Mário Quintana e de Paulo Peres

Frases de Mario Quintana - Reflexões poéticas sobre a vida e o tempoCarlos Newton

Para comemorar o Dia dos Pais, uma data que precisa ser alegre, embora em muitos casos possa ser triste, selecionamos hoje dois poemas relativos ao tema. Um deles, do gaúcho Mário Quintana, e o outro, do carioca Paulo Peres, que passou a se dedicar à poesia quando trabalhamos com o jornalista, cronista e poeta Rubem Braga, com quem Peres aprendeu que a poesia é necessária.

AS MÃOS DO MEU PAI
Mario Quintana

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos
e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…

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DIA DOS PAIS
Paulo Peres

Festejai, pai material,
Este dia especial.
Receba o carinho celestial
– Família, luz e amor –
Através à bênção do Pai Maior,
O Nosso Deus-Pai Espiritual

A igualdade dos casais que se amam e se odeiam, como nos filmes policiais…

dalingua_portuguesa : Morreu, aos 87 anos, o escritor Affonso Romano de Sant 'anna. O escritor foi casado com a também escritora Marina Colasanti, que  morreu em janeiro deste ano. Mineiro de Belo Horizonte,Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista e poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna (1937-2025) mostra neste poema a igualdade que pode existir em todos os casais, embora cada um seja diferente dos demais..

BALADA DOS CASAIS
Affonso Romano de Sant’Anna

Os casais são tão iguais,
por isto se casam
e anunciam nos jornais.

Os casais são tão iguais,
por isto se beijam
fazem filhos, se separam
prometendo
não se casarem jamais.

Os casais são tão iguais,
que além de trocar fraldas,
tirar fotos, acabam se tornando
avós e pais.

Os casais são tão iguais,
que se amam e se insultam
e se matam na realidade
e nos filmes policiais.

Os casais são tão iguais,
que embora jurem um ao outro
amor eterno,
sempre querem mais.

Pixinguinha era assim: criava uma música genial e depois alguém fazia a letra… 

“Pixinguinha pra mim continua sendo o maior de todos os músicos populares brasileiros! Meu querido pai, com quem eu tive o privilégio de fazer música!” (Vinicius de Moraes)., Nesta publicação, temos a ...

Vinicius e Pixinguinha, gênios da MPB

Paulo Peres

Compositor, arranjador, maestro, professor, flautista e saxofonista, Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha (1897-1973), era considerado um gênio. Ele compunha as músicas e não se preocupava com as letras. Depois que as gravava, logo aparecia um poeta genial para fazer a letra.

Foi assim com “Carinhoso”, em 1928, que nove anos depois, ganhou letra de Braguinha (1907/2006) e se tornou um das músicas brasileiras com maior número de gravações (411).

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta Vinícius de Moraes (1913-1980), fez o mesmo com o choro “Lamento”, também composto por Pixinguinha em 1928, e somente em 1962  ganhou letra feita por Vinícius de Moraes.  Elizeth Cardoso foi a primeira a cantora a gravar “Lamento”, no LP Muito Elizeth, em 1966, pela Copacabana.

LAMENTO
Pixinguinha e Vinícius de Moraes

Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão te esquecer
Mas olhe, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em prantos, sou tão infeliz
Não há coisa mais triste, meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz

Sozinho, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem, fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque eu estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que o meu carinho por você

Morena, tem pena…

Tom Jobim e a canção que terminou sua amizade com Ronaldo Bôscoli

Ary Barroso, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli e Carlos Lyra numa imagem que sintetiza o surgimento da bossa nova, abençoada pela geração anterior - Rio de Janeiro, RJ / 1960. Em 1960, a

Ary Barroso, Tom Jobim, Ronaldo Bôscoli e Carlos Lyra

Paulo Peres
Poemas & Canções

O maestro, instrumentista, arranjador, cantor e compositor carioca Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994) é considerado o maior expoente de todos os tempos da música brasileira e um dos criadores do movimento da bossa nova.

A letra da música “Luiza” é impregnada de amor e sexo. Tom estava com dificuldade para terminar a letra e pediu ajuda a Ronaldo Bôscoli, que concebeu um encerramento genial: “E um raio de sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante que partindo a luz/ Explode em sete cores/ Revelando então os sete mil amores/ Que eu guardei somente pra te dar, Luiza“.

Tom esqueceu de dar a coautoria a Bôscoli, que ficou decepcionado e pôs fim à amizade que os dois tinham.

Esta música faz parte do LP Elis & Tom, gravado, em 1974, pela Philips.

LUIZA
Tom Jobim

Rua
Espada nua
Boia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luiza
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve
mora um coração

Vem cá, Luiza
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar, Luiza
Luiza
Luiza

Todos somos uma bússola sem norte, segundo o poeta Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens, poeta mineiro

Paulo Peres
Poemas & Canções

O juiz, jornalista e poeta mineiro Afonso Henriques da Costa Guimaraens (1870-1921), adotou o nome de Alphonsus de Guimaraens. Sua obra, predominantemente poética, consagrou-o como um dos principais autores simbolistas do Brasil. O poeta Carlos Drummond de Andrade  homenageou Alphonsus em seu centenário em 1970, com o poema “Luar para Alphonsus”.

Seus poemas versavam de maneira obsessiva a morte da mulher amada e apresentavam um ritmo melódico e um misticismo católico, temas centrais em livros como “Câmara Ardente”, com influências barrocas, românticas e decadentistas.

Ele afirma, no soneto “Cantem Outros a Clara Cor Virente”, que somos uma bússola sem norte. 

CANTEM OUTROS A CLARA COR VIRENTE
Alphonsus de Guimaraens

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno…
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos…

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte

O dia de sempre não existe, porque tudo sempre muda, dizia Mário Quintana

Mário Quintana (poesia numa hora dessas?) – ACRJPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, tradutor e poeta gaúcho Mário de Miranda Quintana (1906-1994) constrói o poema “Canção do Dia de Sempre” como um alerta sobre o verdadeiro estado geral das coisas – a contínua mudança, que não acaba nunca.

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE
Mário Quintana

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Beijos implacáveis e insaciáveis, na poética modernista de Mário de Andrade

5 frases realistas do Mário de Andrade - Viagem em PautaPaulo Peres
Poemas & Canções

O romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotógrafo e poeta paulista Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945), no poema “Beijos Mais Beijos”, fala de milhões de beijos insaciáveis trocados com a pessoa amada.

BEIJOS MAIS BEIJOS
Mário de Andrade

Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.

Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.

Luzes mais luzes,
Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.

Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.

Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
– Me dá uma bomba sem retardamento,
Implacável!

Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
– Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis…

O apressado diálogo de amigos num sinal fechado, segundo Paulinho da Viola

Biografia de Paulinho da Viola: um dos maiores nomes do samba -  LETRAS.MUS.BR

Paulinho fez essa música no final dos anos 60

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Paulo César Batista de Faria, o Paulinho da Viola, é tido como um dos mais talentosos representantes da MPB. A canção “Sinal Fechado” foi escrita na década de 60, mas letra e melodia continuam tão atuais quanto na época. Apesar de ser um sambista de raiz, essa música de Paulinho é também experimental.

Naquele tempo, se interpretava a letra como a dificuldade das pessoas se expressarem no período do AI-5. Hoje, esse clássico da MPB nos fala sobre o encontro de duas pessoas que já foram íntimas, mas não se veem há muito tempo e que por acaso se encontram em um sinal fechado.

A música “Sinal Fechado” foi gravada por Paulinho da Viola no LP Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”, em 1970, pela Odeon.

SINAL FECHADO
Paulinho da Viola

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem, eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe…
Quanto tempo… pois é…
Quanto tempo…

Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios.
Oh! Não tem de quê,
Eu também só ando a cem.
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí.
Pra semana, prometo talvez nos vejamos.
Quem sabe?

Quanto tempo… pois é…
(Pois é… quanto tempo…)
Tanta coisa que eu tinha a dizer,
Mas eu sumi na poeira das ruas.
Eu também tenho algo a dizer,
Mas me foge a lembrança.

Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente.
Pra semana…
O sinal…
Eu espero você.
Vai abrir…
Por favor, não esqueça,
Adeus…

O arco-íris poético de Olegário Mariano se exibia no céu como uma bandeira

CLUBE DE POETAS: OLEGÁRIO MARIANO

Olegário Mariano, retratado por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

O arco-íris marca bela presença na visão poética do diplomata, político e poeta pernambucano Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889-1958). 

Olegário Mariano era membro da Academia Brasileira de Letras. Em sua época o arco-íris era também chamado de “arco-da-velha”, uma expressão popular da língua portuguesa usada para descrever coisas antigas, espantosas, inacreditáveis ou exageradas. Dizia-se que “são coisas do arco-da-velha”…

ARCO-ÍRIS
Olegário Mariano

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

“Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol.” 
De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.

Uma desesperada e ciumenta ronda, de bar em bar, na Avenida São João…

Tribuna da Internet | Paulo Vanzolini, o compositor que nos ensinou a dar a  volta por cima

Paulo Vanzolini, grande compositor paulista

Paulo Peres
Poemas & Canções

O zoólogo e compositor paulista Paulo Emílio Vanzolini (1924-2013) dizia que para fazer a música “Ronda” , inspirou-se em seu tempo de soldado nos anos 40, quando servia o Exército na Companhia de Polícia e fazia rondas pelos bares de São Paulo à procura de soldados desgarrados. Foi nessa ocasião que presenciou dramas parecidos com os da letra da música em questão, lançada por Inezita Barroso, em 1953, pela RCA Vitor.

RONDA
Paulo Vanzolini

De noite eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar
No meio de olhares
Espio em todos os bares
Você não está

Volto pra casa abatida
Desencantada da vida
O sonho alegria me dá
Nele você está

Ah, se eu tivesse
Quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, esta busca é inútil
Eu não desistia

Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E neste dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da Avenida São João

Patativa do Assaré mandou um recado aos poetas mais cultos e preparados

Cajuina São Geraldo | Hoje celebramos a vida e a história de Patativa do  Assaré, um dos maiores nomes da poesia popular nordestina. Nascido em 1909,  no sítio... | InstagramPaulo Peres
Poemas & Canções

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme podemos perceber no seu recado “Aos Poetas Clássicos”.

AOS POETAS CLÁSSICOS
Patativa do Assaré

Poetas niversitário,
Poetas de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá – O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
– Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

A belíssima romaria de Renato Teixeira, que emociona quem realmente ama o país 

Renato Teixeira – Wikipédia, a enciclopédia livre

Renato Teixeira, um compositor genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor paulista Renato Teixeira de Oliveira, um dos mais destacados cantores da música regionalista, na letra de “Romaria” expressa o desejo por dias melhores, de fartura, povoando a mente do fervoroso homem do campo, que com fé luta contra as adversidades de sua dura e solitária rotina.

A música “Romaria” foi gravada por Elis Regina no LP Elis, em 1977, pela Philips, tornando-se rapidamente sucesso em todo o país.

ROMARIA
Renato Teixeira

E de sonho e de pó
O destino de um só
feito eu perdido em pensamentos
sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira ou jiló
dessa vida cumprida a sol

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
meus irmãos perderam-se na vida
a custa de aventuras
Descasei, joguei
investi, desisti
Se há sorte eu não sei nunca vi.

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida

Me disseram porém
que eu viesse aqui
pra pedir em romaria e prece
Paz nos desaventos
Como não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira pirapora nossa
Senhora de Aparecida
Que ilumina a mina escura
e funda o trem da minha vida

O adeus do poeta Paulo Leminski, que viveu intensamente e morreu antes da hora

frases paulo leminski I - Só SergipePaulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário, tradutor, professor, escritor e poeta paranaense Paulo Leminski Filho (1944-1989) morreu cedo, aos 45 anos, quando já era um dos poetas contemporâneos mais conhecidos do país, e deixou a um poema de despedida a todos nós.

ADEUS
Paulo Leminski

Adeus, coisas que nunca tive,
dívidas externas, vaidades terrenas,
lupas de detetive, adeus.
Adeus, plenitudes inesperadas,
sustos, ímpetos e espetáculos, adeus.
Adeus, que lá se vão meus ais.
Um dia, quem sabe, sejam seus,
como um dia foram dos meus pais.

Adeus, mamãe, adeus, papai, adeus,
adeus, meus filhos, quem sabe um dia
todos os filhos serão meus.
Adeus, mundo cruel, fábula de papel,
sopro de vento, torre de babel,
adeus, coisas ao léu, adeus.

“Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração…”

Orquestra Ouro Preto: live para Milton e Brant - Blima Bracher

Fernando Brant e Milton, amigos desde sempre

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor Milton Nascimento, em parceria com  poeta mineiro Fernando Rocha Brant (1946-2015), na letra de “Canção da América”, lembra uma amizade que fez nos Estados Unidos no final da década de 1970.

A letra original foi escrita em inglês, intitulada “Unencounter” (que significa desencontro), e surgiu como uma homenagem músico sul-africano Ricky Fataar, que Milton conheceu em Los Angeles, quando gravava o álbum Journey To Dawn. Durante esse período, ele ficou muito amigo de Fataar (ex-baterista dos Beach Boys).

Tempos depois, Milton retornou a Los Angeles e, ao tentar reencontrar seu amigo na cidade, não conseguiu localizá-lo. Sentindo-se solitário e reflexivo, compôs a melodia e a letra inteiramente em inglês, retratando a falta do amigo.

Ao retornar ao Brasil, Milton mostrou a composição a seu parceiro Fernando Brant, que fez a versão em português. Esta música foi gravada por Milton Nascimento, em 1980, no LP Sentinela, pela Ariola. E deve ser cantada sempre, como se fosse um hino do Dia do Amigo, que se comemora hoje, 20 de julho.

CANÇÃO DA AMÉRICA
Milton Nascimento e Fernando Brant

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi

Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

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DIA DO AMIGO
Paulo Peres

Não existe palavra
Que possa definir
O real significado,
A bênção divina
E a felicidade infinda
De tê-lo como amigo.