Uma simples palhoça, que nos dá vontade de morar para sempre no interior

ARQUIVO MARCELO BONAVIDES - Estrelas que nunca se Apagam - : RELEMBRANDO O COMPOSITOR  J. CASCATA

J. Cascata, um compositor de talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Álvaro Nunes (1912-1961), conhecido por J. Cascata, expressa na letra de “Minha Palhoça” um bonito, bucólico e romântico convite para a pessoa amada. Este samba de breque foi gravado pela primeira vez por Sylvio Caldas, em 1935, pela Odeon.

MINHA PALHOÇA
J. Cascata

Se você quisesse
Morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão
Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada
Abençoar nossa união

Tem um cavalo
Que eu comprei em Pernambuco
E não estranha a pista
Tem jornal, lá tem revista
Uma Kodak para tirar nossa fotografia
Vai ter retrato todo dia
Um papagaio que eu mandei vir do Pará
Um aparelho de rádio-batata
E um violão que desacata

Meu Deus do céu que bom seria..
Se você quisesse
Morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão
Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada
Abençoar nossa união

Tem um pomar
Que é pequenino,
É uma teteia
É mesmo uma gracinha
Criação, lá tem galinha
Um rouxinol
Que nos acorda ao amanhecer
Isso é verdade pode crer
A patativa
Quando canta faz chorar
Há uma fonte na encosta do monte
A cantar chuá-chuá…

Meu Deus do céu que bom seria..

A geometria dos ventos, na fronteira da loucura poética, com Rachel de Queiroz

rachel de queiroz – @frasespoesiaseafins on Tumblr

Rachel foi a primeira mulher na Academia

Paulo Peres
Poemas & Canções

A romancista, contista, tradutora, jornalista, cronista e poeta cearense Rachel de Queiroz (1910-2003), primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, em “Geometria dos Ventos”, mostra uma poesia livre, sem limites de idioma, espontânea, mas na fronteira da loucura.

GEOMETRIA DOS VENTOS
Rachel de Queiroz

Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma.
Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada –
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio;
onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta
no mistério ao mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

“Quando olhaste bem nos olhos meus, e o teu olhar era de adeus…”

Serenata Do Vadinho - Francis Hime — Chico Buarque & Francis Hime | Last.fm

Chico e Hime, uma parceira realmente notável

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  cantor, escritor, poeta e compositor carioca Chico Buarque de Holanda, em parceria com Francis Hime, deixou sua genialidade invocar inspiração para fazer a letra de “Atrás da Porta”, que confessa a dor de uma mulher por seu amor perdido, da humilhação de ser abandonada, da aflição surpreendente do final de uma paixão e de um amor.

Hime deu a música a Chico para fazer a letra em 1966 e ele demorou mais de seis meses para concluí-la. O resultado é que tudo é perfeito nesta canção. Desde o desespero até a vontade de se vingar e a decepção de saber que depois de ser apagada de um coração, nada mais surte efeito para trazer de volta este amor. A música faz parte do álbum Elis, gravado por Elis Regina, em 1972, pela Phonogram.

ATRÁS DA PORTA
Francis Hime e Chico Buarque

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua

O significado dúbio das palavras, na visão poética de Malú Mourão

Ilustração reproduzida no Arquivo Google

Paulo Peres
Poemas & Canções

A professora e poeta cearense Maria Luíza Mourão, conhecida como Malú Mourão, explora poeticamente o significado dúbio das palavras que norteiam o destino de cada um de nós,

PALAVRAS
Malú Mourão

Ah, palavras!…
Palavras de amor,
Palavras de dor…

Ah, palavras!…
Palavras de encanto,
Palavras de espanto…

Ah, palavras!…
Palavras de paixão,
Palavras de traição…

Ah, palavras!…
Palavras escritas,
Palavras ditas…

Ah, palavras!..
De amor?
Ou dor?
De encanto?
Ou espanto?
De paixão?
Ou traição?
Escritas?
Ou ditas?

Palavras surgidas
Que revelam o saber,
De almas incontidas
Buscando viver!…

Uma canção de amor, para lembrar a camisola do dia, tão transparente e macia…

Tribuna da Internet | “Pensando em Ti”, uma canção imortal, de David Nasser e Herivelto Martins

Herivelto e Nasser, grandes parceiros e amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O  jornalista, escritor e letrista paulista David Nasser (1917-1980) e seu parceiro musical, cantor, músico e compositor Herivelto Martins (1912-1992) são autores de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “A Camisola do Dia”, cujo teor poético revela não somente a felicidade, mas também a tristeza acontecida num amor infindo. Este belo samba-canção, de grande sucesso, teve sua primeira gravação feita por Nelson Gonçalves, em 1953, pela RCA Vitor.

A CAMISOLA DO DIA
Herivelto Martins e David Nasser

Amor, eu me lembro ainda
Era linda, muito linda
Um céu azul de organdi
A camisola do dia
Tão transparente e macia
Que eu dei de presente a ti

Tinha rendas de Sevilha
A pequena maravilha
Que o teu corpinho abrigava
E eu era o dono de tudo
Do divino conteúdo
Que a camisola ocultava

A camisola que um dia
Guardou a minha alegria
Desbotou, perdeu a cor
Abandonada no leito
Que nunca mais foi desfeito
Pelas vigílias de amor

A duríssima vida dos sertanejos pobres, na poesia realista de Mauro Mota

O bê-á-bá de Mauro Mota - Revista Literária Pernambuco

Mauro Mota, grande poeta pernambucano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, professor, memorialista, cronista, ensaísta e poeta pernambucano Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (1911-1984), membro da Academia Brasileira de Letras, no poema “Construção”, fala da vida difícil dos moradores pobres do interior do país.

CONSTRUÇÃO
Mauro Mota

Vem vindo José Maria,
vem de São Bento do Una,
vestido de roupa cáqui
e de botinas reiúnas.
No conselho de família,
só encontra a hierarquia
do avô cabo de polícia.
O pai na barbearia
do povoado trabalha,
mal completa o pagamento
da prestação da navalha.

Vem vindo José Maria,
o amarelinho de São Bento
do Una, sem genealogia.
Vem montado no jumento.
Saiu da escola. (Não tinha
nem livros nem fardamento.
Aprendeu a ler sozinho.)

Oh, que infância sem infância,
essa do José Maria!

Entrava na terra o casco
do seu cavalo de pau,
que o cabo da enxada era
a escoiceante montaria.
Tirava leite das vagas,
mas o leite não bebia.
Os animais da fazenda,
com que doçura os tangia!
Carregava areia e lenha
com o gosto do engenheiro
que uma obra construía.

Foi bicheiro e negociante
de passarinhos na feira.
Vendeu frutas e roletas
nas festas da Padroeira.
Lavou frascos na botica,
lavou os pratos do hotel,
fez os serviços miúdos
da casa do coronel.

– Pega o carneirinho mocho
para Jorginho montar.
– Vê se a novilha cinzenta
já voltou para o curral.
– Leva o peru para a ceia
do Doutor pelo Natal.

Vem vindo José Maria
vem de São Bento do Una,
vestido de roupa cáqui
e de botinas reiúnas.

Puxa ainda o seu jumento,
remexe nos caçuás.
Carrega barro e madeira
para a construção que faz
com alicerces na poesia
dos desesperos rurais.

Em tempo de Copa do Mundo, o gol tão esperado na poética de Ferreira Gullar

title :: Ferreira Gullar por Blima Bracher

Como todo brasileiro, Gullar adorava futebol

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico de arte, teatrólogo, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta maranhense José Ribamar Ferreira, o famoso Ferreira Gullar (1930-2016), no poema “O Gol”, narra a trajetória da bola, a arte do jogador e a emoção do torcedor. 

O GOL
Ferreira Gullar

A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a pára
no ar
depois
com o joelho
a dispõe a meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.

Guilherme de Almeida e sua poética paixão pelos filmes em preto & branco

Boa Noite !!! 🌙🌟 “Lá se vai a vida, Lá se vai a flor. Passa o sonho da vida, E fica a dor.” Guilherme de Almeida (1890-1969) #BoaNoite #versos #poesia #poetas #guilhermedealmeida

Paulo Peres
Poemas & Canções

O desenhista, cinéfilo, jornalista, advogado, tradutor, cronista e poeta paulista Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969), o Príncipe dos Poetas Brasileiros, revela que somente enxerga os olhos de sua amada na sala escura do “Cinema”.

CINEMA
Guilherme de Almeida

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons…

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz.

Os olhos da amada de Antonio Maria, numa desesperada canção romântica

Antonio Maria, com Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Isaac Zuckman e Paulo Mendes Campos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, radialista e compositor pernambucano Antônio Maria Araújo de Morais (1921-1964), diante do sofrimento que uma separação amorosa acarreta, fez a letra de “A Canção dos Seus Olhos”, em parceria com o violonista João Pernambuco, e o samba-canção  foi gravado por Elizeth Cardoso no LP Sax-Voz, em 1960, pela Copacabana.

A CANÇÃO DOS SEUS OLHOS
Pernambuco e Antônio Maria

Ai, você foi embora,
Era hora de ir.
Depois quem sabe
Que tristeza haveria?
Ai, foi bom separar
Os meus sonhos dos seus
No meu olhar,
O poder do seu olhar.

Ai, não faz mal a distância
Ai, não faz mal a saudade.
Hoje é melhor eu saber
Que você não sofreu,
Se eu sofri não faz mal

Ai, nasceu no sofrimento
Na esperança e no amor,
Nasceu de mim
A canção dos seus olhos

Em forma de poema, a imensa saudade que Gonçalves Dias sentia fora do Brasil

Tribuna da Internet | A paixão jovem de Gonçalves Dias, quando a amada  estava entre menina e mulherPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, jornalista, etnógrafo, teatrólogo e poeta romântico maranhense Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), no poema “Minha Terra”, retratou a fortíssima saudade que sentia ao estar longe de seu país.

MINHA TERRA
Gonçalves Dias

Quanto é grato em terra estranha
Sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,
Ver um rosto conhecido;

Ouvir a pátria linguagem
Do berço balbuciada,
Recordar sabidos casos
Saudosos — da terra amada!

E em tristes serões d’inverno,
Tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos,
E o nosso ameno luar!

Certo é grato; mais sentido
Se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,
P’ra onde os nossos estão!

Depois de girar no mundo
Como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama
Lá no horizonte a brilhar.

E vendo os vales e os montes
E a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:
Tudo isto que vejo é meu!

Meu este sol que me aclara,
Minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,
Eu os conheço — são meus!

Mais os amo quando volte,
Pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra,
E minha gente aprendi.

Guimarães Rosa e seu poético corisco de esperança, riscando lá no alto…

O correr da vida embrulha tudo, a vida... Guimarães Rosa - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O médico, diplomata, romancista, contista e poeta João Guimarães Rosa (1908-1967), nascido em Cordisburgo (MG), é um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos, sendo o romance “Grande Sertão: Veredas”, que ele qualifica como uma “autobiografia irracional”, a sua obra mais conhecida. Entretanto, Guimarães Rosa também enveredou pelos veios poéticos, tanto que registrou em versos a “Tentativa” de uma manhã em busca da esperança.

TENTATIVA
Guimarães Rosa

Manhã básica, alcalina,
neutralizando a gota ácida do sol.
O tornassol do céu, no fundo
do grande tubo de ensaio,
vai se espessando, cada vez mais azul.

Dos poços da marna alagada,
cheios, como frascos chatos sem gargalos,
sobem vapores alvacentos.
A pressão calca cinco atmosferas,
e o calor cresce,
nas alavancas de pirômetros negros,
dilatando as sombras.

Rápida,
uma revoada triangular de periquitos
estraleja e crepita,
flambada em alça enorme de platina,
como o fio de chama, fugidio e verde,
de um sal de boro…

Quanto esforço da manhã,
para riscar tão alto,
um corisco de esperança…

O testamento poético da criança que existe em nós, segundo Hilda Hist

Obsceno Hilda HilstPaulo Peres
Poemas & Canções

A ficcionista, dramaturga, cronista e poeta paulista Hilda Hilst (1930-2004), no poema “Testamento Lírico”, faz um lírico balanço sobre o que pediu e o que recebeu durante a vida.

TESTAMENTO LÍRICO
Hilda Hilst

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo.
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.           

Virou música a paixão de Caetano pela menina do outro lado da rua

JOVEM GUARDA - Muito mais que um site oficial! :::

O jovem Caetano estava apaixonado

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, músico, produtor, escritor, poeta e compositor baiano Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, o genial Caetano Veloso, explica que fez a música “Você é Linda” para uma menina chamada Cristina, “de quem eu gostei intensamente na Bahia, e que morava em frente a minha casa, do outro lado da rua, em Ondina.” A música foi gravada por Caetano Veloso no LP Uns, em 1983, pela Philips.

VOCÊ É LINDA
Caetano Veloso

Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol

A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás

Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz

Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir

No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer

Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz

Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal

Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz

Casimiro de Abreu conta como descobriu Deus quando era menino

CASIMIRO DE ABREUPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860) nasceu em Barra de São João (RJ) e foi um intelectual brasileiro da segunda geração romântica. Sua poesia tornou-se muito popular durante décadas, devido à linguagem simples, delicada e cativante, como se vê nesse poema contado que era menino quando descobriu “Deus”.

DEUS
Casimiro de Abreu

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia,
A branca espuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver de maior do que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?”

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: – Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.

“Somos todos iguais nesta noite”, uma canção que driblou a censura militar

Ivan Lins e Vitor Martins: Novabrasil celebra 50 anos da parceria da dupla - Novabrasil

Ivan Lins e Vitor Martins, grandes parceiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

Na letra de “Somos todos iguais nesta noite”, em parceria com Ivan Lins, o compositor (letrista) paulista Vitor Martins compara o mundo a um circo, onde seguimos o ritmo da banda de fanfarra, em alusão à ditadura militar vigente no país de 1964 a 1985. A música intitula o LP Somos todos iguais nesta noite, lançado por Ivan Lins, em 1977, pela EMI-Odeon.

SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE
Ivan Lins e Vitor Martins

Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo

Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores

Pede a banda
Pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede a banda
Prá tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez

Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo

Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores

Há quase 70 anos, uma canção se tornava um verdadeiro Hino do Dia das Mães

Ângela Maria: Disco De Ouro – Música Brasileira

Ângela Maria cravou esta canção em 1956

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, escritor e letrista David Nasser (1917-1980), nascido em Jaú (SP), é autor de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “Mamãe” em parceria com Herivelto Martins, a canção que passou a ser considerada como o hino do Dia das Mães. A música foi gravada por Ângela Maria, em 1956, pela Copacabana.

MAMÃE
Herivelto Martins e David Nasser

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

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O advogado, jornalista, analista jurídico do Tribunal de Justiça do RJ, letrista e poeta Paulo Peres, também se inspirou nessa data tão importante para  todos.

DIA DA MÃES
Paulo Peres

Entre a razão e a emoção
existe um ponto de interrogação
chamado Humana Renovação:
ventre bendito – coração MÃE, 
obra suprema do Criador.

MÃE, 
neste dia dedicado a VOCÊ, 
quero parabenizá-la e pedir-lhe
que continue a ser esta
MÃE MARAVILHOSA

A amizade de Vinicius e Pixinguinha rendeu grandes músicas, como “Lamento”

Documentário mostra parceria entre Vinicius e Pixinguinha - Jornal GGN

Vinicius e Pixinguinha, parceiros e amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta carioca Vinícius de Moraes (1913-1980), na letra do chorinho “Lamento”, confessa a tristeza do desamor e tenta a reconciliação. O choro “Lamento”, composto por Pixinguinha em 1928, foi originalmente apenas instrumental e somente em 1962 ganhou essa letra do Vinícius de Moraes.

O chorinho fez parte da trilha sonora do filme “Sol sobre a Lama”, de Alex Viany, inteiramente composta por Pixinguinha e Vinicius, e depois  foi gravado por  Elizeth Cardoso no LP Muito Elizeth, em 1966, pela Copacabana.

LAMENTO
Pixinguinha e Vinícius de Moraes

Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão te esquecer
Mas olhe, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em prantos, sou tão infeliz
Não há coisa mais triste, meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz

Sozinho, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem, fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque eu estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que o meu carinho por você

Morena, tem pena…                         

Uma canção desesperada de Cecilia Meireles, perdida entre os espaços da vida

Alguns dos melhores momentos da vida a... Cecilia meireles - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções 

A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964), no poema “Canção Excêntrica”, confessa sua frustração por não encontrar o espaço ideal para suportar uma vida eivada de saudades e de arrependimentos.

CANÇÃO EXCÊNTRICA
Cecília Meireles

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– saudosa do que não faço
– do que faço, arrependida.

“Quem for louco ou for poeta pode entrar, seja bem-vindo”, diz Walter Queiroz

Áudios da Metrópole - Walter Queiroz - Metro 1

Walter Queiroz, grande compositor baiano

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, publicitário, cantor e compositor baiano Walter Pinheiro de Queiroz Júnior usa várias figuras de linguagem, tornando ainda mais bonito o conteúdo poético da letra de “Pode Entrar”, na qual ele fala de sua casa.

Walter Queiroz gravou a música “Pode Entrar” no LP “Filho do Povo”, em 1975, pela Phonogram.

PODE ENTRAR
Walter Queiroz

A casa escancarada, a lua ali
Meu cachorro nunca morde
Meu quintal tem sapoti,
tem um roseiral crescendo lindo,
Quem for louco ou for poeta
Pode entrar, seja bem-vindo.

Aqui passa o bonde da Lapinha,
Passa a filha da rainha,
Passa um disco voador.
As vezes ele gira, para e pisca
Como quem quase se arrisca
A parar pra conversar.

Mas não me sinto só,
tenho um vizinho,
Que é um bêbado velhinho
que acredita no destino.
Ele mora em cima do arvoredo,
Ele tem muitos brinquedos,
Ele sempre foi menino.

Agora se vocês me dão licença.
Eu vou ver um passarinho
Que me chama no quintal.
Depois vou me deitar para sonhar
E dançar com a cigana
Que eu perdi no carnaval.

A completa lucidez é perigosa, dizia Clarice Lispector, num poema em forma de oração

15 frases de Clarice Lispector sobre a vida e os sentimentosPaulo Peres
Poemas & Canções

A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, expõe as consequências que “A Lucidez Perigosa” pode acarretar, contemplando o vazio.

A LUCIDEZ PERIGOSA
Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise,
estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto, eu consisto,
amém.