Três coisas que, poeticamente, Paulo Mendes Campos jamais entendeu

Não te espantes quando o mundo... Paulo Mendes Campos - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, escritor e poeta mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) versifica as “Três Coisas” que não entende na vida e no amor. 

TRÊS COISAS
Paulo Mendes Campos

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.
A morte será o escuro?
Em teu olhar me procuro.

Uma rede bancária líquida, na criatividade do poeta Gastão de Holanda

Gastão de Holanda – Poesia dos Brasis – Pernambuco – poesia pernambucana = www.antoniomiranda.com.br

Holanda, um poeta bem-humorado

Paulo Peres
Poemas & Canções

O designer gráfico, editor, professor, advogado, jornalista, contista e poeta pernambucano Gastão de Holanda (1919-1997) revela num poema que o Rio Capibaribe possui uma rede bancária própria para a sua clientela das margens, tanto que o rio dá com o braço da maré e tira com o murro da cheia.

A REDE BANCÁRIA LÍQUIDA
Gastão de Holanda

O rio tem uma rede bancária
para atender aos flagelados,
sua clientela das margens.
Há um capital chamado pró-giro
feito de redemoinhos e febre amarela.

O rio tem um balanço exigível

pedindo a execução dos marginais
e há sempre passivo, lucro não há.
Perdas? Sim, essas são ganhas, fatais.

As mercadorias em consignação desfilam

no leito rancoroso, como um
gerente de conta-corrente
que o banco do rio credita ao mar
e não ao devedoso cliente.

O rio empresta a prazos e juros altos

pois quem nele pesca uma tainha
tem que lhe endossar uma cesta de camorins.
Se a fome recorrer ao mangue
a pena é mil alqueires de caranguejos
cevados na lama da baixa-mar.

O rio dá com o braço de maré
e tira com o murro da cheia
que com ela traz o mar de meirinho.

Gregório de Mattos (“Boca do Inferno”) satirizava quem tinha muito dinheiro

Ninguém vê, ninguém fala, nem... Gregório de Matos - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Gregório de Mattos Guerra (1636-1695), alcunhado de “Boca do Inferno” ou “Boca de Brasa”, é considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período colonial. Há mais de 400 anos, Gregório já dizia que “neste mundo quem tem muito dinheiro é o que mais rouba” e “quem pode comprar tudo”.

AS COUSAS DO MUNDO
Gregório de Mattos

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

A diferença entre amor e felicidade, na visão poética de Guilherme de Almeida

Tribuna da Internet | Na definição de Guilherme de Almeida, a poesia não é  apenas uma rosa

Guilherme de Almeida adorava sua terra natal

Paulo Peres
Poemas & Canções

Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969), chamado de o príncipe dos poetas brasileiros, nasceu em Campinas (SP), foi uma personalidade de destaque nos meios intelectuais e sociais como poeta, jornalista, advogado, cronista, tradutor, além de desenhista e profundo conhecedor de cinema. 

No poema “Amor, Felicidade”, Guilherme de Almeida afirma ser infeliz quem procura a felicidade através do amor, porque esta é uma ilusão pouco duradoura, enquanto uma saudade pode durar a vida inteira.

AMOR, FELICIDADE
Guilherme de Almeida 

Infeliz de quem passa no mundo,
procurando no amor felicidade: 
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.

Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a jóia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade…

Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz diz,

percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

Ninguém jamais expressou a dor de cotovelo como o gaúcho Lupicínio Rodrigues

Tribuna da Internet | A felicidade eterna com que Lupicínio sonhava, porém  jamais iria encontrarPaulo Peres
Poemas & Canções

O compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974), Lupe, como era chamado desde pequeno, sempre foi um mestre no emprego do lugar-comum, tal qual ele capta nos versos de “Volta” o imenso vazio das noites que a saudade torna insones. 

Ele era um especialista na chamada dor de cotovelo, como se diz quando alguém coloca os cotovelos sobre o balcão do bar e pede uma dose dupla para afastar a solidão.

A música fez enorme e duradouro sucesso, sendo gravada por muitos intérpretes, inclusive Gal Costa, no LP Índia, em 1973, pela Phonogram.

VOLTA
Lupicínio Rodrigues

Quantas noites não durmo
A rolar-me na cama,
A sentir tantas coisas
Que a gente não pode explicar
Quando ama.

O calor das cobertas
Não me aquece direito…
Não há nada no mundo
Que possa afastar
Esse frio do meu peito.

Volta!
Vem viver outra vez ao meu lado!
Não consigo dormir sem teu braço,
Pois meu corpo está acostumado…

A paz de um amor infinito, num inesquecível prelúdio de Luiz Vieira

Luiz Vieira - Forró do tio Augusto Rolando Boldrin recebe o cantor e  compositor Luiz Vieira em 2012 . #forrodasantigas #tvcultura  #rolandoboldrin #luizvieira #forró

Luiz Vieira, grande cantor e compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

A letra de “Paz do meu amor (Prelúdio nº 2)” idolatra de uma forma poética a conquista do amor infindo pelo radialista, cantor e compositor pernambucano Luiz Rattes Vieira Filho (1928-2020). Um dos maiores sucessos de Luiz Vieira, que ele próprio gravou, em 1963, pela Copacabana.

PAZ DO MEU AMOR (Prelúdio nº 2)
Luiz Vieira

Você é isso:
Uma beleza imensa,
Toda recompensa
de um amor sem fim.

Você é isso:
Uma nuvem calma
No céu de minh’alma;
é ternura em mim.

Você é isso:
Estrela matutina,
Luz que descortina
um mundo encantador.

Você é isso:
É parto de ternura,
Lágrima que é pura,
paz do meu amor.

Naquele Clube de Esquina, os sonhos de Márcio Borges jamais irão envelhecer

Márcio Borges: 'Para virar meu parceiro tem, antes, que ser meu amigo' -  União Brasileira de Compositores

Márcio Borges, grande compositor mineiro

Paulo Peres
Poemas & Canções

O escritor, diretor do Museu do Clube da Esquina e poeta mineiro Márcio Hilton Fragoso Borges é, sem dúvida, um dos melhores letristas do nosso cancioneiro popular, criador da expressão “os sonhos não envelhecem”.

Na letra de “Clube da Esquina II”, feita com seu irmão Lô e Milton Nascimento, Márcio Borges fala de um tempo que não existe mais, de um tempo de lutas, de persistência, de não se render. 

Além disso, é um canto de uma juventude que soube compreender seu tempo, seus medos, suas angústias e suas derrotas, mas não desistiu, é um Clube da Esquina, esquina de amigos que estavam tentando vencer na vida, assim como os amigos que tentavam vencer a ditadura, belo paralelo, pois acabou a ditadura, mas o Clube da Esquina, a luta e persistência para vencer na vida, sociedade é algo sempre presente, por isso a música “Clube da Esquina II” será eterna.

A música “Clube da Esquina II” foi gravada por Milton & Lô Borges no LP Clube da Esquina, em 1972, pela Odeon.

CLUBE DA ESQUINA II
Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges

Por que se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem se lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço, aço…

Por que se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos…

E lá se vai mais um dia
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio,
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio…

E o Rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio fio,
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente, gente…

Afinal, de que cor eram os olhos de ressaca de Capitu, musa de Machado de Assis?

Olhos de Capitu: A Magia da Literatura BrasileiraPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico literário, dramaturgo, folhetinista, romancista, contista, cronista e poeta carioca Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional.

Em sua obra, não se sabe de que cor eram os apaixonantes olhos de Capitu, personagem do romance “Dom Casmurro”, que o escritor descrevia como “olhos claros e grandes”. Sem definir a cor exata, ele os imortaliza metaforicamente como “olhos de ressaca” e “de cigana, oblíqua e dissimulada”.

Neste desesperado poema de amor, porém, Machado de Assis é mais preciso e descreve sua paixão pelos olhos verdes de sua musa, uma Capitu que restou paea sempre desconhecida.

MUSA DOS OLHOS VERDES 
Machado de Assis                                          

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;
Casta filha do céu, virgem formosa

Do eterno devaneio,
Sê minha amante,
os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!

O silêncio após o amor, na poesia romântica de J.G. de Araújo Jorge

Tribuna da Internet | Uma poética confissão de amor, por J.G. de Araújo  JorgePaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, político e poeta acreano José Guilherme de Araujo Jorge (1914-1987) ou, simplesmente, J. G. de Araújo Jorge, ficou conhecido como o Poeta do Povo e da Mocidade, por sua mensagem social e política e por sua obra romântica, como no poema “O Resto é Silêncio”, no qual  J.G. sabe que estão um no outro, com se estivessem sozinhos, o resto é silêncio.

O RESTO É SILÊNCIO
J.G. de Araújo Jorge

E então ficamos os dois em silêncio,
tão quietos como dois pássaros na sombra, recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam
num mesmo caminho…

Já não ouso… já não coras…
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas…

Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos…
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos…

“Covarde sei que me podem chamar, porque não calo no peito essa dor…”

Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me... Mário Lago ...Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, ator, radialista, poeta e letrista carioca Mário Lago (1911-2002) é autor de alguns clássicos da MPB, entre eles, “Atire a Primeira Pedra”, em parceria com Ataulfo Alves.

A letra versa sobre o grande desejo de um homem de se reconciliar com a mulher, a despeito do que os demais e até a própria amada, pensem a respeito. O título faz referência às palavras de Jesus Cristo em João 8:7. O samba “Atire a Primeira Pedra”foi gravado por Orlando Silva, em 1943, pela Odeon.

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
Ataulfo Alves e Mário Lago

Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor.
Atire a primeira pedra, ai, ai, 
Aquele que não sofreu por amor.

Eu sei que vão censurar meu proceder.
Eu sei, mulher,
Que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar…

É, mas não faz mal,
Você pode até sorrir,
Perdão foi feito pra gente pedir                      

Na poesia de Carlos Nejar, é possível amar todas as coisas, e sempre em excesso…

Carlos Nejar - PoemasPaulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário, tradutor, ficcionista e poeta gaúcho Luís Carlos Verzoni Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, no poema “Coisas, Coisas” lamenta o alto preço que paga pelo excesso de amor a todas as coisas.

COISAS, COISAS
Carlos Nejar

A despeito do amor,
as coisas todas
se fizeram ao mar.
Não quis retê-las.
Não conheci regresso.

Coisas, coisas
vos amei por excesso.
E o universo
me foi alto preço.

Todos os bens
vendidos em leilão.
O ar vendido.
Os rios.
As estações.

Comprei arrobas de chuva
ao meu pomar.
Trouxe neblina
de arrasto
pela morte.

Comprei a noite
e dei o menor lance
ao horizonte. 
Coisas, coisas
vos amei por excesso.

A poesia realista de Ledo Ivo denunciava as injustiças sociais que existem no país

Lêdo IvoPaulo Peres
Poemas & Canções

OS POBRES DA ESTAÇÃO RODOVIÁRIA
Lêdo Ivo

Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela do fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.

Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus, eles temem perder a própria viagem, escondida na névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem o ouvido e o tédio dos psicanalistas, em consultórios assépticos como o algodão que tapa o nariz dos mortos.

Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores nos incomodam mesmo à distância.
E não têm a noção das conveniências, 
não sabem portar-se em público.

O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma, eles vão e vêm, saltam
e seguram malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidas nos guichês,
sussurram palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas
com o ar espantado de quem não sabe o
caminho do salão da vida.

Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê
que doem na vista delicada do viajante
obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?

Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante).
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

“É fim de noite, nossa estrela foi embora. Seu olhar me diz agora, que eu vá embora também”

IMMuB | Artista - Chico Feitosa

Ronaldo Bôscoli, um poeta extraordinário

Paulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, produtor musical e compositor carioca Ronaldo Fernando Esquerdo e Bôscoli (1928-1994), na letra de “Fim de Noite”, fala do momento em que se separou do seu amor e, consequentemente, passou a sofrer.

A música foi gravada no LP Coral Ouro Petro, formado pelo maestro Ubirajara Cabral,  em 1962, pela Odeon. Fez tanto sucesso que o parceiro de Bôscoli passou a ser conhecido como “Chico Fim de Noite”.

FIM DE NOITE
Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli

É fim de noite
nossa estrela foi embora.
Seu olhar me diz agora
Que eu vá embora também

Num fim de noite
nossas mãos se separaram
Nossos rumos se trocaram
Nunca mais eu vi você

E cada dia
toda noite eu sofri
Numa estrela da manhã
Eu me perdi

O bom é ser inteligente, mas sem querer entender, dizia Clarice Lispector

Frases de Clarice Lispector sobre vida, amor e sentimentosPaulo Peres
Poemas & Canções

A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, no poema “Não Entendo”, afirma que na vastidão do conhecimento, é preferível ser inteligente, sem pretender tudo em nossa tão complexa vida.

NÃO ENTENDO
Clarice Lispector

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

“Vai, vai, vai começar a brincadeira, tem charanga tocando a noite inteira…

IMMuB | Álbum - SIDNEY MILLER

Sidney Miller morreu jovem, aos 35 anos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O compositor carioca Sidney Álvaro Miller Filho (1945-1980), na letra de “O Circo”, nos traz as lembranças dos sonhos infantis, repletos de ilusões e fantasias, onde a vida é mais alegre e colorida.  A música foi gravada no LP Sidney Miller, em 1967, pela Elenco.

O CIRCO
Sidney Miller

Vai, vai, vai começar a brincadeira,
tem charanga tocando a noite inteira,
Vem, vem, vem ver o circo de verdade,
tem, tem, tem picadeiro de qualidade.

Corre, corre, minha gente,
que é preciso ser esperto.
Quem quiser que vá na frente,
vê melhor quem vê de perto.
Mas no meio da folia,
noite alta, céu aberto,
Sopra o vento que protesta,
cai no teto, rompe a lona
pra que a Lua de carona
também possa ver a festa.

Bem me lembro o trapezista
que mortal era seu salto,
balançando lá no alto, parecia de brinquedo
Mas fazia tanto medo
que o Zezinho do Trombone,
de renome consagrado,
esquecia o próprio nome
e abraçava o microfone
pra tocar o seu dobrado

Faço versos pro palhaço
que na vida já foi tudo.
Foi soldado, carpinteiro,
seresteiro e vagabundo.
Sem juízo e sem juízo
fez feliz a todo mundo,
mas no fundo não sabia
que em seu rosto coloria
todo encanto do sorriso
que seu povo não sorria

De chicote e cara feia
domador fica mais forte.
Meia volta, volta e meia,
meia vida, meia morte
Terminando seu batente
de repente a fera some
Domador que era valente
noutras feras se consome
seu amor indiferente,
sua vida e sua fome

Fala o fole da sanfona,
fala a flauta pequenina,
Que o melhor vai vir agora
que desponta a bailarina.
Que o seu corpo é de senhora,
que seu rosto é de menina.
Quem chorava já não chora,
quem cantava desafina,
porque a dança só termina
quando a noite for embora.

Vai, vai, vai terminar a brincadeira
que a charanga tocou a noite inteira.
Morre o circo, renasce na lembrança;
foi-se embora e eu ainda era criança

No caminho incerto da vida, o importante é decidir, dizia Cora Coralina

13 melhores ideias de Frases de cora coralina | frases de cora coralina, cora  coralina, cora coralina poemasPaulo Peres
Poemas & Canções

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1880-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, como “Poeminha Amoroso”, que ofereceu a seu amado.

POEMINHA AMOROSO
Cora Coralina

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema, o verso
que te deixará pasmo, surpreso, perplexo…

Eu te amo, perdoa-me, eu te amo…     

“Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim”        

Sérgio Bittencourt pede perdão à sua mãe Adylia - Jornal GGN

Sérgio Bittencourt, jornalista e compositor

Paulo Peres
Poemas & Canções

]O jornalista e compositor carioca Sérgio Freitas   Bittencourt (1941-1979) compôs “Naquela Mesa” em homenagem póstuma ao seu pai, o célebre compositor e músico Jacob do Bandolim, e a saudade que ele deixou. Esta samba-choro foi gravado por Elizeth Cardoso em seu LP “Preciso aprender a ser só″, em 1972, pela Copacabana.

NAQUELA MESA
Sérgio Bittencourt

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre, o que é viver melhor.
Naquela mesa ele contava histórias,
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã.
E nos seus olhos era tanto brilho,
Que mais que seu filho, eu fiquei seu fã.

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa no canto, uma casa e um jardim.
Se eu soubesse o quanto doi a vida,
Essa dor tão doída não doía assim.

Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala no seu bandolim.
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.                        

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Esta publicação feita pelo poeta Paulo Peres, Poemas & Canções, traz lembranças maravilhosas do amigo e companheiro Sérgio Bittencourt, com quem trabalhei na antiga TVE, num programa lendário criado por Fernando Barbosa Lima – “A verdade de cada um”. Sérgio era não somente um grande jornalista e compositor, mas também um excepcional caráter. E viverá para sempre nas lindas composições que nos deixou. (C.N.)

O destino do homem bêbado, na poesia dura e realista de Cruz e Sousa

poesia.net - CARTÃO POÉTICO - JOÃO DA CRUZ E SOUSA | FacebookPaulo Peres
Poemas & Canções

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social.

No poema “Canção do Bêbado”, Cruz e Souza relata a degradação de um homem em decorrência do alcoolismo, do pessimismo, da tragédia afetiva, da opção pela vida fantasiosa, da depressão associada a bebida e da dúvida que, consequentemente, o levará à morte. 

CANÇÃO DO BÊBADO
Cruz e Sousa

Na lama e na noite triste
aquele bêbado vil.
Tu’alma velha onde existe?
Quem se recorda de ti?

Por onde andam teus gemidos,
os teus noctâmbulos ais?
Entre os bêbados perdidos
quem sabe do teu – jamais?

Por que é que ficas à lua
contemplativo, a vagar?
Onde a tua noiva nua
foi tão cedo depressa enterrar?

Que flores de graça doente
tua fronte vem florir,
que ficas amargamente
bêbado, bêbado a vir?

Que vês tu nessas jornadas?
Onde está o teu jardim
e o teu palácio de fadas,
meu sonâmbulo arlequim?

De onde trazes essa bruma,
toda essa névoa glacial
de flor de lânguida espuma,
regada de óleo mortal

Que soluço extravagante,
que negro, soturno fel
põe no teu doudejante
a confusão da Babel?

Ah! das lágrimas insanas
que ao vinho misturas bem,
que de visões sobre-humanas
tua alma e teus olhos têm!

Boca abismada de vinho,
olhos de pranto a correr,
bendito seja o carinho
que já te faça morrer!

Sim! Bendita a cova estreita
mais larga que o mundo vão
que possa conter direita
a noite do teu caixão!               

Entre o amor falso e o verdadeiro, na visão do poeta Dante Milano

Dante Milano | Busca | Portinari

MIlano, retratado por Portinaru

Paulo Peres
Poemas & Canções

Dante Milano (1899-1991), nasceu em Petrópolis (RJ), é um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo. Em “Poema do Falso Amor”, Milano mostra a diferença entre o falso e o verdadeiro amor, para questionar: Qual dos dois é o verdadeiro?

POEMA DO FALSO AMOR
Dante Milano

O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!

“Por uns velhos vão motivos, somos cegos e cativos, no deserto do universo sem amor”

Taiguara: álbuns, músicas, shows | Deezer

Taiguara, um compositor de raro talento

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor Taiguara Chalar da Silva (1945-1996), nascido no Uruguai durante uma temporada de espetáculos de seu pai, o bandoneonista e maestro Ubirajara Silva, foi um dos melhores compositores da MPB e considerado um dos símbolos da resistência à censura durante a ditadura militar, tanto que teve, aproximadamente, 100 músicas vetadas, razão que o levou a se autoexilar na Inglaterra em meados de 1973.

UNIVERSO NO TEU CORPO
Taiguara

Eu desisto,
Não existe essa manhã que eu perseguia,
Um lugar que me dê trégua ou me sorria,
Uma gente que não viva só pra si.

Só encontro
Gente amarga, mergulhada no passado,
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi.

Por uns velhos vão motivos,
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor.
E é por isso que eu preciso
De você, como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor.

Vem comigo,
Meu pedaço de universo é no teu corpo.
Eu te abraço, corpo imerso no teu corpo,
E em teus braços se une em versos a canção.

Vem que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo.
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos.
São teu corpo amante amigo em minhas mãos.
São teu corpo amante amigo em minhas mãos.