Paulo Peres
Poemas & Canções
O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, e tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Cruz e Sousa procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social.
No soneto “Siderações”, encontramos a presença do misticismo, característica da nova fase simbolista do poeta, em que se opõem matéria e espírito, corpo e alma.
Mais do que nunca, há uma linguagem simbólica intensamente subjetiva sobre a essência do ser humano, através de incursões a regiões etéreas, espaciais, ilimitadas.
SIDERAÇÕES
Cruz e Sousa
Para as estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de visões levanta…
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da eternidade que nos astros canta



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