Investigação sobre emendas: Bolsonarismo blinda Valdemar, mas silencia diante de Cunha

Cunha e Valdemar foram alvos de investigações da PF

Lauriberto Pompeu
O Globo

Aliados do pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) tiveram reações diferentes em relação às investigações que miraram o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG). Enquanto bolsonaristas se colocaram rapidamente ao lado de Valdemar, o gesto não foi repetido para Cunha.

Até o fim do domingo, os principais nomes da oposição, como Flávio Bolsonaro, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RN) e o senador Rogério Marinho (PL-RN) não se manifestaram em relação ao ex-presidente da Câmara. Apesar de Cunha ser apoiador de Jair Bolsonaro, parte dos seguidores do ex-presidente resiste a fazer gestos sólidos que indicam proximidade com o ex-presidente da Câmara, que ficou preso de 2016 a 2023 durante a operação Lava-Jato.

NEGOCIAÇÃO – Cunha chegou a negociar se filiar ao PL para disputar o mandato de deputado federal em Minas neste ano, mas a negociação foi travada. A filha dele,  a deputada Dani Cunha, no entanto, se filiou ao partido de Flávio Bolsonaro, e vai concorrer à reeleição no Rio de Janeiro.

Valdemar e Cunha foram alvos de investigações da Polícia Federal por indicações de emendas parlamentares mesmo sem possuir mandato. A decisão do ministro Flávio Dino, divulgada na sexta-feira, determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens do presidente do PL. Ele é suspeito, segundo o despacho do ministro, de ser o autor real das indicações e beneficiário político de 21 repasses, mesmo sem ter um mandato parlamentar.

No dia que a decisão mirando o presidente do PL foi tomada, os principais nomes do bolsonarismo se colocaram ao lado de Valdemar. Flávio Bolsonaro divulgou uma nota em que disse ser natural o presidente do partido negociar emendas. “Como presidente do maior partido do Brasil, é natural que ele atue politicamente junto a deputados federais, em especial os do próprio PL. Lamentável ver a PF atuando de forma seletiva para constranger um adversário político do atual governo”.

“PRÁTICA DO OFÍCIO” – Da mesma forma, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, declarou que não vê irregularidade cometida pelo presidente do partido. “Nunca recebi qualquer pedido do presidente @CostaNetoPL para indicar emendas e, justamente por isso, sinto-me à vontade para esclarecer algo que nem todos conhecem: a indicação de emendas parlamentares é uma prática do ofício de todos os deputados e senadores, independentemente de partido ou espectro ideológico”, declarou.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio, não se manifestou diretamente nas redes, mas republicou a nota de Flávio e uma outra postagem em que diz que não há indícios de crime de Valdemar.

O influenciador Paulo Figueiredo, aliado próximo de Eduardo, indicou que possui um afastamento político do presidente do PL, mas criticou a investigação. “Não tenho nenhum amor pelo Valdemar — e ele sabe. Mas, não é meio evidente que o presidente de qualquer partido influencie as suas emendas parlamentares? O ex-membro de um partido político está criminalizando a atuação do presidente do partido de oposição. Regime a todo vapor”.

COTA DA PRESIDÊNCIA – Procurado, Valdemar negou qualquer irregularidade na atuação dele ao negociar as emendas: “O que o ministro Flávio Dino deve ter pensado é que eu teria uma cota da presidência (do PL) porque já foi ventilado isso lá atrás lá no Congresso. Eu fui contra, não foi pra frente isso.  Não é cota, é sugestão que a gente faz. Os prefeitos vêm pedir para gente e a gente faz de acordo com as necessidades. E quem faz é o líder (do PL na Câmara), eu mando para lá, mas quem faz é o líder, eu não posso fazer”.

Por sua vez, também por decisão do ministro Dino, divulgada neste domingo, Cunha teve até R$ 6 milhões em bens bloqueados. O ministro do STF citou apurações da PF para considerar que há indícios de que o ex-parlamentar negociou emendas mesmo sem mandato eletivo desde 2016.

CONTESTAÇÃO – Cunha declarou que irá contestar a decisão do ministro do STF. Em nota, a defesa negou que ele tenha exercido um “mandato clandestino” e afirmou que não participou formalmente da apresentação das emendas investigadas.

As conversas usadas para embasar as duas decisões foram extraídas do celular de Mariângela Fialek, a Tuca, servidora da Câmara apontada como operadora do esquema de manipulação de emendas parlamentares. A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, que apura desvios na distribuição de emendas do chamado orçamento secreto.

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