Trump age contra os próprios interesses estratégicos dos EUA
Pedro do Coutto
A decisão do governo de Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos representa um dos episódios mais graves da história recente das relações entre Brasília e Washington. Medidas dessa natureza são raríssimas entre países que mantêm relações diplomáticas estáveis e costumam ser reservadas a situações de ruptura institucional, crises de segurança ou conflitos de elevada intensidade política.
Ao atingir diretamente a principal representante do Estado brasileiro em território norte-americano, a Casa Branca envia uma mensagem que extrapola o campo consular: trata-se de um gesto de inequívoco conteúdo político. A reação dos dois governos evidencia que a crise está longe de ser um mero desacordo protocolar.
RECIPROCIDADE – Washington sustenta que a medida decorre do princípio da reciprocidade diplomática, argumento frequentemente utilizado quando um país entende que seus representantes sofreram tratamento considerado inadequado. Já o Palácio do Planalto interpreta a iniciativa como um ato de hostilidade e uma tentativa de exercer pressão sobre o cenário político brasileiro às vésperas de um ciclo eleitoral que promete intensa polarização.
A história demonstra que divergências entre Brasil e Estados Unidos nunca deixaram de existir. Houve atritos durante a Guerra Fria, diferenças profundas na Guerra do Iraque, embates comerciais em diversos governos e divergências ambientais nos últimos anos.
Ainda assim, ambos os países preservaram, em maior ou menor medida, os canais diplomáticos. A diplomacia existe justamente para impedir que disputas políticas se transformem em crises permanentes entre Estados. É por isso que a revogação do visto da embaixadora brasileira chama tanta atenção: rompe uma tradição de contenção que marcou décadas da relação bilateral.
APROXIMAÇÃO – A decisão também não pode ser analisada isoladamente do contexto político que aproxima Donald Trump da família Bolsonaro. Desde o primeiro mandato de Trump, os dois grupos cultivaram uma relação marcada por afinidade ideológica, defesa de pautas conservadoras e críticas comuns às instituições multilaterais. Essa convergência nunca foi escondida. Ao contrário, foi frequentemente explorada como símbolo de uma aliança política internacional entre movimentos identificados com a direita nacionalista.
Essa proximidade cria inevitavelmente uma dificuldade de percepção. Ainda que o governo norte-americano insista em enquadrar sua decisão como uma resposta institucional, torna-se difícil dissociá-la do vínculo político construído ao longo dos últimos anos entre Trump e Bolsonaro. Quando relações pessoais e ideológicas passam a coexistir com decisões oficiais de política externa, cresce o risco de que atos de Estado sejam interpretados como instrumentos de disputa política.
LIMITES – É justamente nesse ponto que reside uma das maiores preocupações. Relações internacionais entre democracias consolidadas costumam ser orientadas pelo princípio de que governos são transitórios, mas os Estados permanecem. Em outras palavras, divergências com um presidente não deveriam significar confrontos com todo um país. Quando uma potência adota medidas que parecem dialogar mais com atores políticos internos do que com o governo legitimamente constituído de outra nação, inevitavelmente surgem questionamentos sobre os limites entre política externa e interferência.
Não se trata de afirmar que exista uma intervenção direta no processo eleitoral brasileiro. Essa conclusão exigiria provas que, até o momento, não vieram a público. Entretanto, também seria ingênuo ignorar o efeito político produzido por decisões dessa magnitude. Em um ambiente altamente polarizado, qualquer movimento vindo de Washington tende a ser imediatamente incorporado ao debate interno brasileiro, fortalecendo narrativas de ambos os lados e ampliando a tensão institucional.
IMPACTO – Também merece reflexão o impacto sobre os próprios interesses estratégicos dos Estados Unidos. O Brasil é a maior economia da América Latina, integrante do G20, parceiro comercial relevante e ator indispensável em temas como segurança alimentar, energia, clima e minerais estratégicos. Relações bilaterais dessa dimensão dificilmente se beneficiam da personalização dos conflitos. Quando disputas políticas passam a orientar decisões diplomáticas, o prejuízo costuma ultrapassar governos e atingir interesses permanentes de ambos os países.
Do lado brasileiro, a resposta também exigirá equilíbrio. A tentação de elevar o tom pode produzir dividendos políticos internos, mas frequentemente dificulta a reconstrução dos canais diplomáticos. Ao mesmo tempo, a ausência de reação poderia ser interpretada como sinal de fragilidade. O desafio do Itamaraty será defender a soberania nacional sem transformar uma crise política em uma ruptura diplomática de consequências imprevisíveis.
PRUDÊNCIA – A política externa sempre foi um dos instrumentos mais sofisticados da ação do Estado. Ela exige prudência, previsibilidade e capacidade de separar divergências conjunturais dos interesses permanentes das nações. Quando gestos simbólicos passam a substituir o diálogo, todos perdem espaço para a negociação e aumenta o risco de que decisões motivadas pelo presente produzam danos duradouros no futuro.
A crise aberta entre Washington e Brasília talvez não represente um ponto sem retorno. A história das relações internacionais mostra que governos mudam, crises passam e pontes podem ser reconstruídas. Contudo, o episódio deixa uma advertência importante: quando afinidades políticas entre líderes começam a influenciar a condução da política externa, a diplomacia deixa de ser um instrumento de aproximação entre Estados para se tornar uma extensão da disputa ideológica. E esse é um caminho que raramente fortalece as democracias ou contribui para a estabilidade das relações internacionais.
é a tal da reciprocidade …
Eliel, reciprocidade por quê? Trump não pode dizer que está usando reciprocidade quando suspende o visto da embaixadora brasileira reclamando de demora da aprovação do seu indicado, porque não se deu ao trabalho, como é a praxe diplomática, de submeter o nome ao governo brasileiro antes de indicá-lo (isto se chama “pedir o agreement”). Isso, em termos diplomáticos, é prepotência imaginando que o governo brasileiro seja obrigado a aprovar quem ele queira indicar (e aliás o indicado nem ao menos é diplomata de carreira, não tem nenhuma experiência diplomática nem tem nenhuma relação anterior com o Brasil), e é um insulto inédito na diplomacia ocidental. O governo brasileiro, em resposta ao ato intempestivo e prepotente do Trump, deveria simplesmente recusar formalmente a indicação.
Wilson, todo mundo sabe que o perfil politico e ideológico do indicado Daniel Perez é que é o problema. O governo americano indica quem quiser e o governo brasileiro aceita ou rejeita se quiser, cada um no seu direito. O que não pode é ficar enrolando, retaliando, etc.
Eliel, cada um pode indicar ou rejeitar quem quiser, mas existem certas regras de, digamos, boa educação diplomática para manter o processo em certo nível de urbanidade. E o Trump passa por cima de todas como se não existissem, com a prepotência e a falta de educação que lhe é peculiar. Não lhe cabe retaliar ofensa inexistente.
‘Trump age contra os interesses dos EUA’ ou a favor de seus próprios interesses?
Tentou descaradamente se apropriar de parte dos estratosféricos lucros da Fifa com a Copa, mas o testa-de-ferro Infantino não teve competência para executar o projeto, e o plano foi um fracasso.
….e se o tal confronto for uma sutil e mafiosa combinação?
União de liberados sacanas, contra abestalhados?
A guerra de Rubio contra Lula
As ações contra o Brasil e a suspensão do visto à embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, confirmam que o secretário de Estado, Marco Rubio, está disposto a usar todas as suas armas para o candidato Flávio derrotar o presidente Lula mas eleições presidenciais em outubro.
Toda a estratégia para a América Latina é elaborada por Rubio e não por Trump, que demonstra pouco interesse no Brasil e está focado em outras questões internacionais.
Trump preferiu terceirizar para seu secretário de Estado a política externa para o que os norte-americanos chamam de “Hemisfério Ocidental”, que é um termo geográfico para designar as Américas.
Rubio, que na prática já administra a Venezuela e pretende colocar Cuba também em seu portfólio, pretende que todos os principais países da América Latina sejam governados pela direita.
Usará contra Lula, portanto, todas as armas disponíveis, como as tarifas, a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas e a pressão diplomática.
Não há nada que o governo Lula possa fazer para contornar as medidas de Rubio.
O secretário de Estado decidiu se engajar ao máximo na sua missão de redesenhar a política da América Latina.
Quer um continente direitista dominado pelos EUA — ou pelo trumpismo, para ser mais exato.
É ideológico, intervencionista e entende profundamente a política da região. Enxerga Lula como um obstáculo para as suas ambições continentais.
Sabe que o presidente americano confia quase cegamente nele para lidar com temas latino-americanos depois do que é visto, por Washington, como a bem-sucedida ação para derrubar Nicolás Maduro em Caracas e forçar o regime venezuelano a capitular integralmente para os EUA.
A Venezuela está literalmente nas mãos do secretário de Estado norte-americano, que está acima da presidente Delcy Rodríguez na hierarquia venezuelana.
A eleição de Flávio seria a consolidação da vitória ideológica e estratégica de Rubio. Já a reeleição do presidente brasileiro significaria o fiasco do secretário de Estado. Insisto, a “guerra” é de Rubio contra Lula.
Fonte: O Globo, Opinião, 06/08/2026 00h00 Por Guga Chacra — Nova York
Publicar fake news uma vez é errado, duas vezes é banditismo.
Quando o jornalismo é subserviente a quem lhe paga e não interessa se o que publica é verdadeiro ou falso, quem está errado é o jornalista.
Sai do meu pé, chulé.
A operação matemática de $talinacio para conseguir dividendos políticos dando pedrada na cara do Trump não considera a retaliação.
Faturar dividendos políticos em época de eleição é com esse estadista de galinheiro.
Ao final é a população que paga por esses arroubos.