Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)
Pedro do Coutto
O que deveria ser uma obra destinada a construir uma narrativa política sobre Jair Bolsonaro transformou-se em uma das mais incômodas histórias paralelas da disputa eleitoral brasileira.
A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de retirar o sigilo de aproximadamente 5 mil páginas de documentos apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo amplia o conhecimento público sobre uma investigação que envolve a produção do filme Dark Horse, mas também expõe algo maior: a fronteira cada vez mais difícil de separar entre propaganda política, dinheiro público, interesses privados e poder eleitoral.
DESVIOS DE RECURSOS PÚBLICOS – É preciso, antes de tudo, separar os diferentes fios dessa história. A investigação conduzida sob relatoria de Dino apura suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e possíveis irregularidades envolvendo entidades e empresas ligadas à produção do filme.
Nessa frente, o deputado Mário Frias e a produtora Karina Gama foram alvos da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em 10 de setembro, com 49 mandados de busca e apreensão em quatro unidades da Federação. A PF investiga suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, crimes licitatórios e organização criminosa.
Em outra frente, sob relatoria de André Mendonça, está a investigação relacionada ao Banco Master e às suspeitas sobre um possível repasse de R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro para o financiamento de Dark Horse, supostamente intermediado por Flávio Bolsonaro. O senador nega irregularidades e afirma que os recursos destinados ao filme eram privados. A investigação é distinta daquela que envolve diretamente Mário Frias e as suspeitas de utilização de emendas parlamentares.
DIMENSÃO POLÍTICA – A diferença entre os dois procedimentos não é um detalhe jurídico. Ela revela justamente a dimensão política do episódio. O que inicialmente poderia ser apresentado apenas como uma discussão sobre a produção de uma cinebiografia passou a envolver duas perguntas muito mais sensíveis: de onde veio o dinheiro e quais relações políticas, empresariais e institucionais estavam por trás de sua circulação?
É nesse ponto que a decisão de Dino ganha relevância. Ao retirar o sigilo do material apreendido pela Polícia Civil, o ministro amplia o acesso da investigação às provas e permite que a Polícia Federal examine documentos, celulares e outros elementos recolhidos durante a apuração paulista. A medida não equivale, evidentemente, a uma condenação dos investigados. Mas muda o patamar de transparência do caso e permite que a sociedade conheça elementos que até então permaneciam restritos aos autos.
As suspeitas são particularmente delicadas porque envolvem recursos públicos. Segundo a investigação divulgada pela Folha, a Polícia Federal encontrou indícios de que R$ 750 mil repassados à produtora do filme poderiam ter origem em recursos provenientes de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina Gama. A própria PF ressalvou que os elementos disponíveis não permitiam afirmar que o dinheiro tivesse origem direta nesses recursos, mas apontou coincidências de valores e datas consideradas relevantes para a investigação.
ÍNDICIOS – Essa ressalva é fundamental. Uma análise política responsável não pode transformar suspeita em prova nem investigação em sentença. O fato de a Polícia Federal ter encontrado indícios suficientes para justificar buscas e apreensões não significa que os crimes estejam comprovados. É precisamente nesse intervalo entre a suspeita e a comprovação que uma democracia deve preservar o devido processo legal.
Mas também seria equivocado reduzir o episódio a uma disputa jurídica entre personagens do campo bolsonarista e ministros do Supremo. O caso apresenta uma questão institucional mais profunda: o que acontece quando recursos públicos, organizações privadas, mandatos parlamentares e um projeto explícito de construção de narrativa política passam a se cruzar?
O Dark Horse não é uma produção politicamente neutra. Trata-se de um filme concebido em torno da trajetória de Jair Bolsonaro e que tem Mário Frias como produtor executivo. A obra, portanto, nasce inserida em um ambiente de disputa de memória, identidade política e influência eleitoral. Isso não constitui, por si só, qualquer irregularidade. Produzir um filme favorável a determinado político é legítimo. O problema começa quando surgem suspeitas de que mecanismos destinados ao financiamento de políticas públicas possam ter sido utilizados para alimentar uma produção de natureza política.
FACHADA – É justamente essa possível transposição de fronteiras que torna o caso tão relevante. Em uma democracia, o Estado pode financiar cultura, organizações sociais e projetos por meio de instrumentos legais. Parlamentares podem destinar emendas. Empresas privadas podem investir em cinema. Produtores podem defender determinadas visões políticas. O que não pode existir é a utilização desses mecanismos como fachada para desviar recursos, simular serviços ou beneficiar interesses particulares — se isso vier a ser comprovado pela investigação.
A Polícia Federal afirma que as apurações apontam para uma organização que teria utilizado recursos públicos de maneira irregular e direcionado valores a empresas subcontratadas sem comprovação efetiva dos serviços prestados. A investigação também identificou movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda de alguns envolvidos. São elementos que precisam ser examinados judicialmente, e não transformados antecipadamente em condenações políticas.
O aspecto mais desconfortável da história, entretanto, está em outro lugar. O filme pretendia contar a trajetória de Bolsonaro. A investigação agora obriga o país a perguntar quem financiava a construção dessa narrativa e por quais caminhos os recursos chegavam até ela.
COMUNICAÇÃO POLÍTICA – A política contemporânea já não se disputa apenas nos palanques, nos debates ou nos programas partidários. Disputa-se também na produção audiovisual, nas redes sociais, nos documentários, nos influenciadores e na capacidade de construir uma memória coletiva sobre determinado personagem. Um filme sobre um ex-presidente em plena disputa sucessória não é apenas entretenimento. Pode também ser uma ferramenta de comunicação política.
Por isso, a investigação ultrapassa o destino de Dark Horse. Ela toca em um problema que o Brasil ainda não resolveu: a relação entre dinheiro, comunicação e poder.
A revelação do material também ocorre em um momento particularmente sensível para o Supremo. A Corte está submetida a uma crise interna e política que envolve diferentes ministros, investigações relacionadas ao Banco Master e acusações cruzadas sobre a condução dos procedimentos.
POLARIZAÇÃO – Nesse ambiente, qualquer decisão judicial envolvendo personagens ligados ao bolsonarismo corre o risco de ser imediatamente interpretada segundo a lógica da polarização: para uns, perseguição política; para outros, demonstração de que finalmente se chegou aos mecanismos financeiros do poder. As duas interpretações, tomadas isoladamente, são insuficientes.
A primeira porque investigação judicial não se torna ilegítima apenas por atingir um adversário político. A segunda porque o poder de investigar também não autoriza conclusões antecipadas nem dispensa o respeito às garantias individuais. O verdadeiro teste institucional está justamente em conseguir investigar profundamente sem transformar a investigação em instrumento de disputa política.
Esse equilíbrio será ainda mais importante porque o caso se aproxima diretamente da eleição presidencial. Flávio Bolsonaro, que aparece em investigação distinta relacionada ao financiamento de Dark Horse, é candidato à Presidência. A divulgação de novos elementos sobre o filme, portanto, não acontece em um vácuo político. Ela entra diretamente no ambiente eleitoral e pode produzir efeitos sobre a disputa, mesmo que nenhuma acusação venha a ser confirmada judicialmente.
REFLEXOS – É uma situação em que a política tende a correr mais rápido que a Justiça. Uma manchete pode produzir consequências eleitorais em poucas horas; uma investigação pode levar meses ou anos para estabelecer responsabilidades. É justamente por isso que o jornalismo e os atores políticos precisam resistir à tentação de transformar indícios em veredictos.
Há, porém, uma ironia impossível de ignorar. Dark Horse nasceu para construir uma determinada narrativa sobre Jair Bolsonaro. Agora, os documentos associados à sua produção ajudam a construir outra narrativa — não sobre a trajetória do ex-presidente, mas sobre as engrenagens financeiras e políticas que cercam a tentativa de transformar essa trajetória em produto audiovisual. O filme queria contar uma história. A investigação acabou encontrando outra.
E talvez seja essa a dimensão mais importante do episódio. A questão central já não é apenas saber se Dark Horse será lançado, quem o assistirá ou qual imagem de Bolsonaro pretende projetar. A questão é saber se, na política brasileira, a disputa pela memória e pela influência pode atravessar os mesmos canais por onde circula o dinheiro público.
CAPTURA – Se as suspeitas forem comprovadas, o caso será mais um exemplo de como estruturas criadas para financiar políticas públicas podem ser capturadas por interesses privados e eleitorais. Se não forem comprovadas, caberá ao Estado reconhecer isso com a mesma transparência com que abriu a investigação.
Em qualquer dos cenários, o episódio deixa uma lição que ultrapassa Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Mário Frias, Daniel Vorcaro ou o próprio Supremo: democracias não são ameaçadas apenas quando o poder controla a informação. Também se fragilizam quando dinheiro, política e informação passam a circular sem fronteiras suficientemente claras.
O verdadeiro Dark Horse dessa história, portanto, talvez não seja o filme. É a revelação de quanto a política brasileira passou a depender da capacidade de controlar não apenas o presente, mas também a narrativa sobre o passado — e de quanto dinheiro, poder e comunicação podem se aproximar quando ninguém está olhando.
Bolsonaro, é uma “pessoa a ser atingida por interesses escusos”!
Por suas experiências investigativas na série Netflix “Pessoa de Interesse”, o ator Jin Caviezel, facilmente saberá deslindar também esse caso!
Aguardemos convocação..