
Mendonça desconfia da PF, mas se baseia no que ela apurou
Míriam Leitão
O Globo
A acusação feita pelos ministros Luiz Fux e André Mendonça sobre haver uma Polícia Federal paralela não se baseou em fatos. Em nenhum momento Fux deu exemplos. Nem Mendonça que o secundou nas acusações.
Fux argumenta que foram vazados documentos de inteligência, mas na verdade eles foram entregues sob ordem judicial, do ministro Alexandre de Moraes. E é natural que a diretoria de inteligência faça relatórios de inteligência. E o que eles mostraram, alguns fatos e muitas ilações. A própria Polícia Federal alertou que os relatórios não têm valor probatório.
CONTRADIÇÃO – É curioso que Mendonça fale em PF paralela tendo servido a um governo que tinha a manifesta vontade, expressa pelo seu presidente Jair Bolsonaro, de ter o seu próprio sistema de informações. Foi o que ele disse naquela reunião de 22 de abril de 2020, quando demitiu o então ministro Sergio Moro para colocar André Mendonça em seu lugar.
Outra afirmação vazia do ministro Luiz Fux é que a Polícia Federal “peitou” o Supremo Tribunal Federal. Em que momento exatamente? Fux não cita algum fato que sustente a informação.
DESCONFIANÇA – O que está claro por inúmeras evidências é que o ministro André Mendonça não confia na PF e por isso tem requisitado tantos documentos, inclusive o conteúdo bruto das investigações, ao seu gabinete. Ao fazer isso, ele extrapola de suas atribuições como juiz e esse foi o começo de toda a confusão que hoje se discute no STF.
Afinal, Mendonça apresenta as suspeitíssimas mensagens de Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre como parte de um “achado” da PF. Ora se é um “achado” ela então está fazendo o seu trabalho. O ministro Alexandre de Moraes pensa diferente e acha que a descoberta foi encomendada. Ela acha que foi determinado à PF que encontrasse algo sobre ele, Moraes, aí neste caso o juiz estaria presidindo a Polícia Federal.