
Brasil mantém veto a embaixador dos EUA
Victoria Azevedo
O Globo
Integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que a aprovação pelo Senado dos Estados Unidos da indicação de Daniel Perez para ser o novo embaixador dos EUA no Brasil não altera o cenário sobre eventual aprovação ou não do nome dele pelo Itamaraty.
Nesta sexta, o Senado americano chancelou o nome de Perez por 51 votos favoráveis e 47 contrários. A aprovação do indicado de Donald Trump está em processo de análise pelo Itamaraty e cabe ao presidente chancelá-la ou não. O tema ganhou força nesta semana após a administração Donald Trump revogar o visto da atual embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti, devido à ausência de concessão do agrément (aceitação diplomática) ao nome indicado pelo governo americano.
INVERSÃO – O procedimento adotado pelos EUA ao anunciar a escolha de Perez inverteu o costume diplomático, gerando incômodo no governo brasileiro. Tradicionalmente, o agremént é concedido antes do anúncio oficial do nome indicado para ser o novo embaixador. No caso, a decisão de Trump de indicar o parlamentar republicano foi publicizada ainda em junho. Desde então, as autoridades americanas passaram a cobrar do Brasil a concessão do agrément.
Segundo um integrante do governo brasileiro que acompanha as conversas, a aprovação de Perez no Senado não muda o cenário atual traçado pela gestão petista. A avaliação de governistas é que nenhuma decisão será tomada agora diante do que classificam como uma chantagem do governo americano. Eles dizem ainda que já há uma definição que o governo brasilero não concederá nenhum agrément até o fim das eleições de outubro e que a medida tomada contra a embaixadora brasileira fecha totalmente as portas para uma negociação agora.
RETALIAÇÃO – Um aliado de Lula diz, no entanto, que não está no horizonte do governo qualquer retaliação. Há uma avaliação que essa decisão do governo Trump mirando a embaixadora brasileira pode ser uma “armadilha” para provocar um acirramento do conflito por parte do Brasil. Dessa forma, o Itamaraty monitora a situação, mas nenhuma medida será tomada de maneira precipitada.
Parlamentar no estado da Flórida, Perez foi indicado para o cargo pelo governo Trump em junho e, há duas semanas, teve o seu nome confirmado no cargo por uma comissão do Senado dos EUA.
Para Trump, o pragmatismo econômico supera a ideologia política
Ao negociar petróleo com o chavismo na Venezuela, ele virou as costas para figuras da oposição que antes apoiava, a exemplo de María Corina Machado.
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Barba pode tirar o “pão” da boca dos Bolsonaros
O petista pode se antecipar aos Bolsonaro na entrega do Brasil aos interesses dos EUA
Ao declarar que pretende conversar com Trump, Lula pode adotar uma estratégia semelhante à da chavista Delcy Rodríguez, ‘presidente’ da Venezuela, que cedeu o controle de riquezas nacionais a interesses norte-americanos.
Além disso, ao buscar esse contato de forma antecipada, Lula disputará com a família Bolsonaro o mesmo espaço político de barganha com os Estados Unidos, reforçando o risco de submeter (antes dos Bolsonaro) o Brasil aos interesses de Trump.
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Com ampla experiência em negociações, Lula já adotava essa prática desde as greves de São Bernardo do Campo: enquanto discursava aos trabalhadores, nos bastidores ele tratava de acordos diferentes com os patrões de multinacionais americanas e europeias (como Ford, Volkswagen, Mercedes-Benz e Scania.
Trump não se interessa pela América Latina, e decisões sobre a região ficam a cargo de Marco Rubio
No fim das contas, quem tem poder em temas sobre questões brasileiras é Rubio.
A maior parte das autoridades políticas dos EUA e mesmo dentro do jornalismo e da academia não se interessa pelo que os americanos costumam chamar de América Latina, que basicamente inclui todos os países do Rio Grande no México à Terra do Fogo na Argentina.
Independentemente de serem democratas ou republicanos, o tal establishment de Washington e aqui de Nova York prefere temas ligados a Europa, Oriente Médio e Leste Asiático.
América Latina e África? Nem passa pela cabeça deles.
Vou até usar como exemplo o jornal New York Times. Seus principais colunistas de política internacional, como Thomas Friedman e Nicholas Kristof, raramente escrevem sobre o que ocorre na região, com raras exceções como temas de imigração, México e eventualmente Cuba e Venezuela. Brasil não entra na lista.
O ex-secretário de Estado Anthony Blinken, assim como o então presidente Joe Biden, ignoravam completamente a América Latina e em especial a América do Sul. Mal sabiam dizer “buenos dias”, apesar de viverem em um país onde parcela expressiva da população fala espanhol.
Donald Trump não é diferente da maioria em Washington. O presidente americano (…) praticamente nunca fala o nome de Lula. Talvez não lembre. Simplesmente, o Brasil não está no radar dele.
Flavio Bolsonaro? Trump certamente conhece (…) a família, mas tampouco dá muita importância ao pai e aos filhos. Nada muito além de (…) uma relação de ídolo com fãs — similar à relação com o argentino Javier Milei.
No meio deste deserto de desinteresse pela América Latina, há uma figura que desde a infância demonstra enorme interesse pela região. Naturalmente, falo do secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional, Marco Rubio.
Filho de cubanos, é fluente em espanhol, entende português, identifica-se como latino-americano, adora política externa, tendo sido presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, e estuda a política e a economia do continente.
Conhece a história, o contexto atual e sabe quem são os principais atores políticos nos principais países, incluindo o Brasil.
Trump (…) deve delegar a Rubio as decisões sobre questões ligadas a nações latino-americanas como o Brasil.
Conservador e republicano, Rubio tem uma agenda clara e pública de buscar ajudar a eleger figuras da direita nas eleições deste ano, como na Colômbia, no Peru e naturalmente no Brasil.
Nas eleições brasileiras, o candidato de Rubio é Flavio Bolsonaro por ser o representante da direita.
O próprio secretário de Estado deixou clara a sua insatisfação com o atual governo brasileiro em depoimento ao Congresso (…), quando pôs o Brasil no bloco de Nicarágua, Cuba e Venezuela — todas ditaduras.
No fim das contas, quem tem poder em temas sobre questões brasileiras é Rubio.
O secretário de Estados de Trump (…) sabe quando o assunto for Cuba, Brasil ou Colômbia, suas opiniões tendem a prevalecer. E ele quer Flávio Bolsonaro.
Fonte: O Globo, Política Internacional, Opinião, 04/06/2026 00h00 Por Guga Chacra — Nova York
Este cachaceiro está brincando de forca com o pescoço alheio.