Ao premiar filme brasileiro, Oscar manda recado em defesa da democracia

Assim como a mãe, Fernanda Torres retratou 'identidade brasileira em transe', define Walter Salles - Brasil de Fato

Salles dirigindo Fernanda numa cena do filme premiado

Jamil Chade
do UOL

Sob o enredo da liberdade, a premiação do Oscar ao filme brasileiro é uma resposta política enfática diante de uma ameaça real do desmonte da democracia na maior potência mundial, os EUA, assim como em tantos outros países.

Hollywood sabe de seu poder. Ao longo da história, sua produção tem tido um papel decisivo na transformação de sociedades. Sem qualquer segredo ou constrangimento, a indústria do cinema nos EUA foi uma arma da construção da ideia da “excepcionalidade” americana, com um profundo impacto numa nação que foi orientada a acreditar que tem uma suposta missão no planeta.

ARMA DEMOCRÁTICA – Também foi, com produções extraordinárias, uma plataforma para denunciar o nazismo e outros crimes.

Desta vez, o Oscar foi para a democracia, justamente quando americanos, mas também europeus, brasileiros e tantos outros descobrem que ela está sob seu maior ataque em quase cem anos.

Nos EUA, a premiação ocorre num momento de choque por parte da sociedade ao descobrir como o impensável está sendo implementado: o colapso das instituições e dos direitos fundamentais.

AUTORITARISMO – A mensagem do filme, portanto, ecoa. É universal e colocou no centro da sala o debate sobre o que ocorre com uma família quando a arbitrariedade do autoritarismo vinga.

E, hoje, isso dispensa tradução em línguas estrangeiras. Aquelas cenas de uma família atravessada pela suspensão das garantias mais fundamentais e do direito à vida poderiam ocorrer em qualquer lugar. Inclusive nos EUA.

Num mundo onde a extrema direita avança, onde a desinformação passou a ser um instrumento legítimo de poder e o espaço cívico encolhe, “Ainda estou aqui” é uma declaração de amor à resistência e à construção da democracia por cada um de nós.

TODOS SORRIAM – A resistência é a insistência de Eunice Paiva em fazer com que, diante do fotógrafo, todos estejam sorrindo. Algo insuportável aos movimentos autoritários.

A resistência é o intransigente dever de memória, inclusive como homenagem a quem a perdeu.

A premiação também é um recado poderoso de que, numa democracia, a anistia não é o caminho para a paz social. No Brasil, os criminosos estão vivos, assim como a impunidade. Um dos torturadores chegou a receber 26 medalhas ao longo de sua carreira militar. O outro foi condecorado com a Medalha do Pacificador. Juntos, os responsáveis por aqueles atos custam aos cofres públicos mais de R$ 1 milhão por ano em pensões.

A NOVA ANISTIA – Nos EUA, foi Donald Trump quem anistiou mais de mil pessoas, responsáveis pelos ataques ao Capitólio e tenta apagar a data da conspiração contra a democracia americana.

Por todos esses motivos, premiar o filme brasileiro vai além da constatação de sua qualidade como arte. Antídoto à onda autoritária, ele confronta populistas, charlatães e vendedores de ilusão do século 21 ao afirmar que a democracia ainda está aqui. E que a sociedade não abrirá mão dela.

Walter Salles, ao aceitar a estatueta, resumiu ao citar a atitude de Eunice Paiva diante da ditadura: “Não se dobrou”.

Lula está como um boneco gigante de Olinda: sem rumo e sem prumo

Boneco De Olinda Carnaval GIF - Boneco De Olinda Carnaval Lula - Discover &  Share GIFs

Carnaval de Olinda decidiu aposentar o boneco de Lula

Carlos Pereira
Estadão

Uma das manifestações mais marcantes do Carnaval pernambucano são os bonecos gigantes de Olinda. Embora existam registros de que o primeiro boneco, chamado “Zé Pereira”, tenha aparecido em 1919 na cidade sertaneja de Belém do São Francisco, foi nas ladeiras estreitas da cidade alta de Olinda que eles se popularizaram, especialmente a partir do “Homem da Meia-Noite”. Esse boneco icônico abre o Carnaval de Olinda à meia-noite de sexta-feira desde 1931.

Com até quatro metros de altura e cerca de 50 quilos, esses bonecos têm cabeça e corpo fixos. O que encanta o público é a forma como rodopiam seus braços compridos de tecido e balançam mãos mais pesadas nas pontas, parecendo meio perdidos e inebriados pelo som rasgado e entoado pelas orquestras de frevo.

APOSENTADOS – Tanto o presidente Lula quanto o ex-presidente Bolsonaro já tiveram suas versões gigantes desfilando em Olinda. Porém, desde o Carnaval de 2023, esses bonecos foram aposentados em meio à polarização política, que ameaçava o clima de brincadeira e irreverência típico da festa.

Apesar de não ter mais seu boneco nas ladeiras, Lula continua se comportando de modo “desajeitado”, como um boneco gigante, ao tentar montar e gerenciar sua ampla coalizão de governo. Suas escolhas dão a impressão de que está tão perdido quanto um boneco rodopiando sem prumo e sem rumo pelos corredores do Palácio.

Montou uma coalizão gigante, com 16 agremiações partidárias de ideologias bem diferentes, mas tem concentrado poder e recursos principalmente em seu próprio partido. Com isso, a maioria numérica não se converte em uma atuação coesa e disciplinada por parte dos aliados.

CRESCENTE FRAGILIDADE – A reforma ministerial, por enquanto, não passou de uma troca de “seis por meia dúzia”, que não alterou de fato a distribuição de ministérios. Além disso, a escolha da deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) para a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) revelou a preocupação do governo com a sua crescente fragilidade política.

Gleisi é conhecida por sua postura combativa e por enfrentar adversários (e até aliados) em disputas intensas. Embora isso mostre garra, ela também carrega a fama de não lidar bem com divergências – algo complicado numa função que exige negociação e diálogo.

Nomeá-la para esse posto, justamente no momento em que Lula vê sua popularidade cair e a rejeição a seu governo aumentar, é um sinal claro de que o governo se sente vulnerável. Se Lula estivesse seguro, confiante e dormindo tranquilo, não teria colocado o seu “cão de guarda” para cuidar da articulação política na antessala de seu gabinete.

As emendas orçamentárias poderiam voltar um dia ao normal?

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Charge do Baggi (Jornal de Brasília)

Marcus André Melo
Folha

A resposta à pergunta que dá o título a esta coluna exige que recuemos na história. As emendas orçamentárias têm sido parte do funcionamento do nosso presidencialismo multipartidário desde 1946, quando tivemos as primeiras eleições com representação proporcional com lista aberta (RPLA).

A lista aberta em grandes distritos eleitorais produz fragmentação partidária e o imperativo de formação de governos de coalizão. Barbosa Lima Sobrinho, ex-governador de Pernambuco, intuiu suas implicações: “não conheço melhor sistema para a representação das minorias, nem pior para a constituição de maiorias” (1952).

TROCA-TROCA – Por outro lado, a sobrevivência eleitoral dos parlamentares sob a RPLA envolve a capacidade de atrair benefícios para suas bases territoriais. Em troca oferecem lealdade política ao Executivo — processo que envolve em maior ou menor medida a mediação de líderes partidários e presidentes das casas.

Hermes Lima, ministro de Getúlio, ex-juiz (cassado) do STF, e também ex-primeiro-ministro em 1963, foi pioneiro no diagnóstico do processo de construção de coalizões: “o espetáculo das maiorias feitas aos pedaços, instáveis, artificiais e onerosas, que os presidentes e governadores são compelidos a arranjar nas Câmaras”.

E apontou para “combinações oportunistas e esdrúxulas que exaurem a vida política num processo contínuo de reajustamentos, compromissos, imposições e cumplicidade. Maiorias débeis vizinhas da corrupção”. E mais: fala dos “descomedimentos de toda espécie” (1955).

EMENDAS PARLAMENTARES – Aqui chegamos finalmente às emendas orçamentárias: “Não é por outro motivo que as emendas ao orçamento na Câmara se apresentam aos milhares dificultando, impossibilitando mesmo um planejamento razoável de obras e serviços na lei ânua”. E completa: “Cada deputado necessita de votos no Estado inteiro e julga-se no dever de distribuir, por intermédio da lei orçamentária, verbas e auxílios pelo Estado inteiro” (1955).

A partir de 1988, o jogo descrito por Hermes Lima adquiriu outra dinâmica na qual o protagonista passou a ser o presidente. A assimetria nas relações Executivo-Legislativo perdurou até 2015.

Paulatinamente, o Congresso ampliou suas prerrogativas, que levou, sob Bolsonaro, a uma espécie de hiperdelegação por parte do Executivo —agora centralizado sob comando dos presidentes das duas casas—, o que persistiu com Lula.

BIZARRA PATOLOGIA – A novidade que agora temos é uma bizarra patologia: o STF assumindo funções de uma espécie de controle prévio —interno e externo— de emendas.

As emendas em seu formato atual são o sintoma de uma disfunção mais geral no nosso presidencialismo, que provavelmente não retornará ao equilíbrio de Presidente Forte anterior. O Executivo só voltará a ser protagonista quando contar com mais poderes partidários (expandindo sua bancada), houver maior congruência entre as preferências da coalizão de governo e a mediana do Congresso; quando os ministérios forem alocados de forma mais proporcional à base; além de fatores contextuais favoráveis no que diz respeito à economia, popularidade presidencial, avaliação do governo, e menor polarização.

Reformas no sistema orçamentário —reduzindo o individualismo na formulação de emendas e aumentando os incentivos partidários e de bancada — apenas mitigariam o problema.

Direita tem candidatos demais, enquanto a esquerda nem sabe se Lula vai aguentar

Charge do Zé Dassilva: de direita ou de esquerda? - NSC Total

Charge do Zé Dassilva (NSC Total)

Ana Luiza Albuquerque e Fábio Zanini
Folha

Com a quase certa ausência do inelegível Jair Bolsonaro (PL) da disputa presidencial, evitar a fragmentação da direita em várias candidaturas é o maior desafio para 2026, avaliam representantes desse campo ideológico. O caminho que partidos do grupo devem tomar segue indefinido com a insistência do ex-presidente na candidatura.

Aliados dizem que ele está determinado a defender o próprio nome até o momento do registro da chapa eleitoral, poucos meses antes do pleito, apostando na pressão de movimentos de rua e de aliados internacionais, como o presidente dos EUA, Donald Trump.

INSATISFAÇÃO – Dirigentes partidários e parlamentares da direita e do centrão, porém, como mostrou a Folha, estão insatisfeitos com o cenário. Eles temem que a demora em admitir outra candidatura possa custar a eleição.

Para essas lideranças, o ideal seria aglutinar a direita em torno de um único candidato até o fim deste ano, a tempo de construir uma candidatura nacional.

O preferido para a missão é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Um dos argumentos para convencer Bolsonaro a apoiar o afilhado político é o de que, caso eleito, Tarcísio poderia conceder a ele o perdão presidencial, livrando-o de uma prisão hoje tida como provável.

GRANDE ALTERNATIVA – A direita considera o governador um candidato forte por manter uma gestão bem avaliada à frente do maior colégio eleitoral do país e por ser visto como uma alternativa aglutinadora.

Em 2026, Tarcísio poderia contar com os votos dos bolsonaristas e de setores de centro, que o enxergam como representante de uma direita moderada, apesar da linha dura adotada na segurança pública e de falas por vezes alinhadas à radicalidade do bolsonarismo.

Por outro lado, há obstáculos à sua candidatura. Concorrer à Presidência seria abrir mão de uma reeleição praticamente certa em São Paulo.

INCONVENIENTES – Tarcísio correria o risco de perder contra o presidente Lula (PT) ou seu sucessor e acabar sem cargo.

Além disso, segundo a lei eleitoral, para disputar o Planalto, ele teria que se afastar do governo em abril de 2026.

“Sem Bolsonaro, Tarcísio tenderia a unificar todo mundo do nosso campo. Mas, se ele não quiser, aí [Ronaldo] Caiado, Ratinho Jr., Romeu Zema e outros têm de sentar para decidir quem será. A única coisa que eu sei é que a direita não deveria lançar mais de um nome”, diz o deputado Pedro Lupion (PP-PR), presidente da bancada ruralista no Congresso.

NOS BASTIDORES – Como revelou a Folha, Tarcísio admitiu recentemente a aliados que poderá concorrer à Presidência se Bolsonaro pedir, ainda que prefira disputar a reeleição em São Paulo. Oficialmente, porém, o governador nega a possibilidade.

Enquanto qualquer movimento de Tarcísio depende da decisão do padrinho político, outras opções não diretamente ligadas ao ex-presidente se apresentam.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), anunciou que lançará sua pré-candidatura no dia 4 de abril. Políticos da direita afirmam que, aos 75 anos e finalizando a segunda gestão à frente do estado, está determinado a seguir na disputa.

INELEGIBILIDADE – Para isso, porém, Caiado precisará recorrer à Justiça Eleitoral, já que está inelegível em razão de condenação por abuso de poder político nas eleições municipais do ano passado.

Sua relação com Bolsonaro, marcada por rusgas, também pode ser um impedimento para que a direita se una em torno de sua candidatura. O ex-presidente considera que Caiado o traiu na pandemia da Covid, quando criticou a gestão federal, e no pleito de 2024, quando ficaram em lados opostos na disputa na capital goiana.

Além disso, não é certo que o União Brasil levará até o fim a candidatura do governador. O partido conta com três ministérios no governo Lula e ainda é possível que decida apoiar a continuidade da gestão.

OUTROS NOMES – Também devem se filiar em breve à legenda o influenciador Pablo Marçal (PRTB), este inelegível, e o cantor Gusttavo Lima (sem partido) — e ambos já anunciaram suas aspirações presidenciais.

Outros dois governadores frequentemente citados como opções para uma candidatura de direita são Ratinho Jr. (PSD), do Paraná, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais. Já Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, teria perfil mais de centro-direita.

Ratinho Jr. poderia acenar a setores mais moderados, ao mesmo tempo que já foi elogiado por Bolsonaro. Porém, seu partido, o PSD, compõe o governo Lula e ainda não há decisão sobre o posicionamento para 2026.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Como diz Fernando Collor, citando o velho ditado atribuído a Marcel Proust, o tempo é o senhor da razão. Hoje, o problema da direita é o excesso de candidatos, enquanto a esquerda nem sabe se Lula conseguirá mesmo ser candidato em 2026. Portanto, é melhor aguardar a marcha do tempo. (C.N.)

Na Noite dos Mascarados, uma saudade eterna dos velhos carnavais

Baile de Máscaras da Revista Elitte resgatará tradição em Lavras - Curta  Lavras - Uma cidade que dá certo

Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo…

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, escritor, poeta e compositor carioca Chico Buarque de Holanda, na letra de “Noite dos Mascarados”, descreve o encontro de duas pessoas no carnaval que procuram um grande amor. Essa marcha-rancho foi gravada no LP Chico Buarque de Holanda – Vol. 2, em 1966, pela RGE.

NOITE DOS MASCARADOS
Chico Buarque

– Quem é você?
– Adivinha, se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
– Quem é você, diga logo…
– Que eu quero saber o seu jogo…
– Que eu quero morrer no seu bloco…
– Que eu quero me arder no seu fogo.
– Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
– O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
– Eu tenho um pandeiro.
– Só quero um violão.
– Eu nado em dinheiro.
– Não tenho um tostão.
– Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
– Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
– Eu sou tão menina…
– Meu tempo passou…
– Eu sou Colombina!
– Eu sou Pierrô!
Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser! 

Oscar de Walter Salles dá ao Brasil a alegria que a política sonega

OSCAR 2025 | Fernanda Torres, indicada como Melhor Atriz por “Ainda Estou  Aqui, chega no tapete vermelho da premiação neste domingo, 2/3. Estamos  juntos na torcida para a estatueta vir pro Brasil!

Salles, considerado um dos melhores cineastas do mundo

Josias de Souza
do UOL

O Brasil ama a si mesmo. Mas nem sempre é correspondido. Com o Oscar de melhor filme internacional, “Ainda Estou Aqui” devolveu momentaneamente ao país a sensação de sorrir diante do espelho. Há dignidade na imagem. Walter Salles conseguiu extrair alegria dos escombros da ditadura militar. Obteve a proeza porque fez cinema, não um panfleto.

O filme rodado a partir do livro de Marcelo Rubens Paiva conta a história de Eunice Paiva, uma viúva que ralou para criar os filhos depois que a estupidez do arbítrio invadiu sua casa, sumiu com seu marido e dilacerou a rotina de sua família. O enredo em que uma mãe se arma de amor para enfrentar os violadores do seu lar emociona em qualquer parte do mundo.

SURTO DE ORGULHO – Pesquisa do Ipec divulgada dias atrás revelou que a presença do Brasil no Oscar produziu um surto de orgulho. O sentimento de prazer furou as bolhas ideológicas. Foi compartilhado por 80% dos eleitores de Lula e 62% dos que votaram em Bolsonaro. Ganhou as ruas no domingo de carnaval. Surgiu em Olinda a boneca de Fernanda Torres. Milhares de foliãs fantasiaram-se com a máscara da atriz.

Walter Salles disse tudo quando realçou em entrevista pós-premiação que “vivemos um momento em que a memória está sendo apagada como um projeto de poder”, disse ele. “Então, criar memória é extremamente importante.”

FALTA DE MEMÓRIA – De fato, ninguém que confia na falta de memória do brasileiro costuma se arrepender. Por isso o passado está tão entranhado no presente de um Brasil em que o debate sobre a anistia de uma tentativa de golpe vem antes da condenação dos protagonistas.

A vitória do Oscar fez o país lembrar que o amor-próprio ainda está aqui. Explodiu nas ruas uma alegria que a política sonega aos brasileiros.

Com sorte, a fantasia do carnaval de 2026 será um uniforme de presidiário.

Lula precisa realinhar o seu governo para recuperar o espaço perdido

Deputado do Centrão assuma a liderança do governo na Câmara

Pedro do Coutto

A ministra Gleisi Hoffmann ficou encarregada de articular uma frente parlamentar capaz de dar sequência aos esforços do governo em recuperar terrenos perdidos. Escolhida pelo presidente para a Secretaria de Relações Institucionais, Hoffmann articula para que um deputado de um partido de centro assuma a liderança do governo na Câmara. A indicação seria uma forma de contrabalancear a própria definição do nome da deputada para comandar a articulação política no Planalto.

Em conversa com o presidente Lula, Gleisi e Alexandre Padilha, que deixará a pasta de Relações Institucionais para assumir a Saúde, defenderam que um deputado de um partido aliado assuma a liderança do governo. Lula ainda questionou se um petista não poderia ocupar o posto. Gleisi e Padilha responderam que seria melhor escalar um parlamentar de outra sigla para facilitar a relação com a Câmara.

INSTATISFAÇÃO – Frente à insatisfação que a escolha de Gleisi para a articulação política gerou em parte do meio político, restam dúvidas se os deputados de outros partidos aceitariam assumir o cargo. A liderança do governo pode ser entendida como um prêmio de consolação após a opção de Lula pela petista.

É preciso ver o que causou a perda de espaço pelo governo Lula nos últimos tempos. Faz-se necessária uma análise com muita objetividade, caso contrário pode-se estar jogando esforços sobre um campo vazio. A queda de popularidade do presidente Lula da Silva tem causas e nada acontece sem motivos na política.

TOMA LÁ, DÁ CÁ – Gleisy precisa ter nas mãos objetos concretos para articular politicamente. Por outro lado, não parece adequada a própria articulação, ou seja, a simpatia em troca de simpatia. O governo terá que oferecer algo a todas as correntes que dele se afastaram. É questão de tempo e agilidade por parte de Gleisi Hoffmann.

Enquanto isso, é preciso que existam esforços do governo para recuperar o tempo perdido. Não será uma tarefa fácil, pois ele está diante de um cenário de gravidade. A descida é sempre mais acentuada do que a subida. É preciso que o governo tenha em mente que precisa fazer um levantamento sobre a sua própria atuação e os pontos nos quais mais fracassou. Para recuperação é preciso ações efetivas e um alinhamento em torno de si próprio para atuar nos efeitos. Por enquanto, não há sequer uma diagnóstico.

Conta da popularidade encolhida foi diretamente para o colo de Lula

Popularidade ladeira abaixo e língua afiada | Jornal de Brasília

Charge do Baggi (Jornal de Brasília)

Elio Gaspari
O Globo

Lula está com a popularidade erodida enquanto oito governadores vão bem. Um deles, Ronaldo Caiado, de Goiás, tem 86% de aprovação em seu estado e é candidato à Presidência.

Desde que o jacaré abriu a boca, surgiram inúmeras explicações, todas baseadas na realidade. Há mais uma: foi para Lula a conta de um governo travado, no qual ele ungiu dois superministros: Rui Costa, da Casa Civil, e Fernando Haddad, da Fazenda.

DOIS BICUDOS – Deixando-se de lado o fato de que os dois não se bicam, Haddad ficou com as boas notícias da economia, passando adiante o espinho da carestia. Foi hábil, mas ela iria para outro colo e está no de Lula.

Com Rui Costa aconteceu o contrário. Ele aceitou a função de bedel do ministério, que lhe foi dada por Lula logo no início do governo.

Ambos sonharam que a Casa Civil afunilaria o estudo das “ideias geniais” dos ministros. Isso só deu certo no governo do general Emílio Médici (1969-1974).

GERENTE DA TRAVA – A partir de 2024, resultou na transformação de Rui Costa em gerente da trava. A PEC da Segurança Pública travou? A criação da Autoridade Climática atolou? Tudo culpa do gaveteiro da Casa Civil.

Quase todos os ministros garantem que têm ideias paradas na Casa Civil. Em alguns casos, Rui Costa teve ou tem pouco a ver com a trava.

A PEC da segurança não andou porque o ministro Ricardo Lewandowski acreditou em sonhos petistas. A Autoridade Climática está atolada porque Lula não quer encrenca com a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente.

TUDO DIFERENTE – Lula não é Médici, Haddad não é Delfim Netto, e Rui Costa não é Leitão de Abreu, chefe da Casa Civil do general.

E, mesmo se fossem, o Brasil de 2025 não é a ditadura dos anos 70.

Por fim, a conta foi para o colo de Lula porque não tinha para onde ir

Espanhol que opera corrupção no PT já procurou se blindar junto ao TCU

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Vital do Rego, do TCU, ladeado por Rossi e Jaconero, da OEI

Carlos Newton

Depois do mensalão e do petrolão, quando se julgava que o PT iria dar um tempo na corrupção, eis que surge no governo Lula 3 mais um grave escândalo envolvendo desvio de recursos federais, desta vez operado pela Organização Internacional dos Estados Ibero-Americanos (OEI), sediada na Espanha.

Denunciado pelo jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil, o esquema de corrupção começou a operar discretamente com o governo Dilma Rousseff em 2014, quando fechou dois contratos de convênios com o governo federal – um de R$ 9 milhões em 6 de fevereiro de 2014, e outro do mesmo valor (R$ 9 milhões) em 9 de abril de 2014.

SEMPRE NO NATAL – Naquela época, devido à Lava Jato, os espanhóis da OEI interromperam as nebulosas transações e só voltaram à ação no governo Michel Temer, quando perceberam que no Brasil o ideal é fechar contratos sempre na época de Natal, quando não há fiscalização de nada.

Assim, em 26 de dezembro de 2018, no apagar das luzes do governo Temer, os espanhóis conseguiram faturar R$ 22 milhões no Ministério da Cultura, um belo presente de Natal, ofertado pelo ministro Sérgio Sá Leitão.

Dois anos depois, sempre no Natal, a OEI conseguiu levar R$ 10 milhões no governo Bolsonaro, em acordo natalino fechado com o MEC em 22 de dezembro de 2020, na gestão daquele pastor evangélico corrupto Milton Ribeiro, que continua impune.

PT DE GOELA ABERTA – Ninguém denunciou nem apurou nada. E a certeza da impunidade que o Supremo garante a Lula e ao PT animou os espanhóis, que voltaram à carga em 2024 e encontraram o governo do PT de goela aberta, digamos assim.

O mais impressionante é audácia do advogado baiano Rodrigo Rossi, que assumiu recentemente a chefia da organização espanhola no Brasil e é ligado ao chefe da Casa Civil, Rui Costa.

Em apenas cinco meses, Rossi bateu todos os recordes de corrupção pós-Lava Jato, fechando contratos com o governo federal de quase R$ 600 milhões, justamente num momento de gravíssima crise econômico-financeira, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sem saber que gastos cortar.

REUNIÃO NO TCU – Mais uma vez, não houve denúncia, nenhuma repercussão. Mesmo assim, os dirigentes da OEI ficaram preocupados com o volume das transações, e tentaram uma blindagem preventiva no Tribunal de Contas da União.

O secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero, veio de Madri para uma série de reuniões com autoridades federais. Em 13 de fevereiro, junto com o voraz Rodrigo Rossi, foi recebido pelo presidente do Tribunal de Contas da União, ministro Vital do Rêgo, que os recebeu pomposamente, acompanhado dos principais dirigentes da equipe técnica do tribunal.

Jabonero e Rossi saíram radiantes, acreditando estarem blindados no Brasil, devido a suas relações com Lula, Janja e os principais ministros. Mas a felicidade durou pouco, porque duas semanas depois a CNN publicou a explosiva reportagem revelando esse impressionante esquema de corrupção do governo Lula 3, que está sendo denunciado em diferentes órgãos públicos.

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P.S. 1
Até agora, por causa do Carnaval e do Oscar, a grande mídia tenta sepultar a denúncia de Caio Junqueira, mas os parlamentares da oposição já tomaram conhecimento da corrupção no governo Lula 3 e vão acionar nesta quinta-feira a Casa Civil e o TCU, para começar.

P.S. 2O escândalo é inevitável. O pagamento de R$ 487,3 milhões à OEI está ocorrendo justamente quando faltam verbas para a COP30 e as obras estão atrasadas em Belém por carência de recursos. Ah, Brasil! (C.N.)

Vance, vice de Trump, é um produto perigoso da guerra híbrida de Putin

J.D. Vance says Project 2025 group is the 'most influential engine of  ideas' for Trump | The Michigan Independent

Vance provocou Kelensky e causou a briga no Salão Oval

Mario Sabino
Metrópoles

Houve outro protagonista doméstico no espetáculo deprimente a que assistimos no puxadinho do Kremlin, antigamente conhecido como Salão Oval da Casa Branca: o vice-presidente americano J.D.Vance.

Na armadilha explosiva montada para desestabilizar e humilhar Volodymyr Zelensky, foi ele a acionar o mecanismo detonador com a sua intromissão calculadamente descabida sobre o presidente ucraniano ser desrespeitoso e ingrato com Donald Trump.

UM JOVEM VELHO – Sujeito perigoso no presente e na projeção de futuro, esse Vance. É um jovem com ideias velhas: pensa que o mundo pode retornar ao imperialismo do século XIX, pré-multilateralismo.

 Hoje com 40 anos, poderá ser o sucessor de Donald Trump, caso purgue suficientemente o pecado de ter sido oponente circunstancial do seu atual patrão no Partido Republicano, antes de aderir ao trumpismo, o seu destino manifesto.

O vice-presidente americano tem a mesma concepção de política internacional de Vladimir Putin, a quem admira incondicionalmente e, ao que parece até o momento, do qual não recebeu contrapartidas financeiras, ao contrário de Donald Trump, acusado de lavar dinheiro para a oligarquia mafiosa russa desde há muito, o que o teria salvado da bancarrota em Nova York.

ESTILO PUTIN – A concepção de política internacional de Vladimir Putin, eu ia dizendo, equivale à não política da abolição dos códigos civilizados da diplomacia, do cancelamento das normas do direito internacional, do desprezo pelo sistema de alianças ocidental e pelo multilateralismo.

Tudo substituído pelo porrete imperialista do século XIX, aquele mesmo que levou o mundo às duas guerras mundiais no século seguinte.

Pode-se dizer que Vance é produto bem-acabado da guerra híbrida que Vladimir Putin vem promovendo contra o Ocidente inimigo há quase 20 anos.

REACIONARISMO – O ditador russo conseguiu inocular no conservadorismo americano e europeu o vírus do reacionarismo contra os valores democráticos sobre o qual se ergueu uma civilização extraordinária — e contou, para tanto, com a colaboração inestimável de uma esquerda sem limites na sua agenda progressista de desconstrução social, moral e cultural.

Temos, então, um Vance. Desde antes de ser senador pelo estado de Ohio, ele se opõe à ajuda militar à Ucrânia. Em entrevista ao delinquente Steve Bannon, no programa War Room, quando ainda era candidato ao Senado, ele foi de uma claridade ofuscante: “Para ser honesto com você, não me importa o que acontece na Ucrânia”.

Não há coincidências. O programa de Steve Bannon é veiculado na Real America’s Voice, canal do jornalista Brian Glenn, que fez o serviço sujo de perguntar a Zelensky por que ele não usou terno para ir à Casa Branca, dog whistle para os trumpistas na rede X, do companheiro Elon Musk.

DISSE VANCE – Veterano da guerra no Iraque, Vance nunca escondeu a sua rejeição ao papel dos Estados Unidos de defensor da democracia no planeta. “Há muitas democracias no mundo, e não pode ser nosso problema toda vez que uma delas entra em guerra”, disse à Associated Press, em 2022, quando Vladimir Putin achou estar pronto para varrer a Ucrânia do mapa, anexando o seu inteiro território.

Armado de convicções feitas sob medida para as suas ambições desmedidas, Vance se ressentia de estar à sombra de Elon Musk, a quem ninguém estranhamente faz recriminações de ordem indumentária, e decidiu reagir, atraindo para si os holofotes, como no encontro com Zelensky, na sexta-feira, ao despir-se de qualquer vergonha para funcionar como agente provocador.

Antes disso, em meados de fevereiro, o vice-presidente americano já havia usado o palco da Conferência de Segurança de Munique para dar lição de democracia à Europa.

CRÍTICAS À EUROPA – Vance disse que o maior risco para os europeus não eram a Rússia ou China, mas a erosão dos valores democráticos no continente, acusando os diversos governos e a Comissão Europeia de reprimir a liberdade de expressão e de voto, além de praticar bullying contra empresas americanas.

A esquerda ocidental é, de fato, uma colaboradora inestimável de gente como Vance, que usa discursos certos para fazer coisas erradas e justificar o injustificável.

Na última conferência dos conservadores americanos, em Maryland, a grande maioria dos participantes apontou o vice de Donald Trump como o seu sucessor desejável. Seria o agravamento de um pesadelo para o Ocidente. Se a Otan, a aliança militar ocidental, conseguir resistir a Trump, um oportunista, não resta dúvida de que sucumbirá a Vance, um convicto, para a alegria do ditador Vladimir Putin, se o diabo não o levar para o inferno antes disso.

O homem liberal não existe e o Estado só cresce, opressivamente

Adam Smith: biografia, teoria e a riqueza das nações - Toda ...

Adam Smith, o mestre, não previu a decadência moral

Luiz Felipe Pondé
Folha

A filosofia política desde o século 17 criou modelos de ser humano que impactaram muito as práticas e expectativas políticas. Esses modelos são chamados de antropologia filosófica.

A verdade é que essas antropologias filosóficas têm sido marcadamente utópicas nas suas concepções. A consequência da natureza utópica desses modelos é que muitas das propostas políticas, incluindo visões de sociedade e de futuro, de organização institucional, ou mesmo do alcance da ação humana no tempo e no espaço, têm sido marcadas por esse sopro de ar utópico.

PROGRESSO MORAL? – A própria noção de progresso moderno, típico desses modelos desde o século 17, é a marca registrada dessas utopias. A ideia de que o homem progride moralmente, politicamente e socialmente é filha desses modelos. A questão é: progresso técnico não implica progresso no resto, coisa que quase ninguém parece notar.

No campo socialista, filho dos revolucionários do século 19, esse caráter utópico aparece na crença de que o ser humano realizaria sua infinita capacidade criadora, uma vez que os meios de produção deixassem de ser propriedade privada de alguns setores da sociedade e, portanto, o resultado do trabalho humano deixaria de ser alienado de toda a sua infinita autonomia criativa.

Na raiz dessa utopia está a crença de que através da ação política coletiva os seres humanos se tornariam mais convergentes nos seus desejos e ações, criando menos mal social e corrupção.

UTOPIA FRACASSADA – Apesar do fracasso retumbante desse tipo de utopia ao longo do século 20, ela permanece ativa em vários setores do espectro político e social. O que sustenta expectativas utópicas — o cristianismo é um caso evidente — é a afirmação de que certas condições de possibilidade para elas se realizarem não foram devidamente preenchidas.

Algo deu errado no processo e a utopia não aconteceu. Como esse tipo de utopia deve se realizar no tempo histórico, e ele não acabou, permanece em aberto a possibilidade de que a expectativa em questão se realize da forma prevista no modelo num futuro próximo.

Já o caso do socialismo é marcado pela hipótese de que, uma vez dada certa mudança na estrutura política e econômica, o ser humano verdadeiro, aquele alienado de suas potências, viria à tona ao longo do curso histórico transformado.

Essa ideia socialista é descrita como o nascimento do “novo homem”, que já existia, mas sob opressão do mal social, político e econômico.

MODELOS UTÓPICOS  – Mas, esses modelos utópicos nem sempre implicam um curso histórico transformado, dado para que o sonho se torne realidade. Nem sempre o modelo de homem em questão está no “fim da história”. Muitas vezes, ele pode estar no “princípio da história”, como no caso do liberalismo.

No caso da utopia liberal, a natureza humana aí concebida é de partida capaz de realizar a promessa. Essa diferença faz com que o objeto da crença utópica se faça, no caso liberal, invisível.

No liberalismo, a concepção de homem afirma que somos todos portadores de uma capacidade de fazer escolhas racionais todo o tempo e em todas as esferas da vida.

FAZER ESCOLHAS – A prova é que no início dos tempos pré-políticos —ideia esta já irreal— homens e mulheres escolheram racionalmente criar um ordenamento político para proteger suas vidas sórdidas, breves e brutas. Este ordenamento é o Estado liberal que existiria para proteger essa autonomia.

À diferença da utopia socialista, no liberalismo não existe a necessidade propriamente de uma ruptura de caráter violento e radical, mas, simplesmente, de passos graduais por meio do quais essa liberdade racional se faria cada vez mais eficiente.

O fato é que não existe esse homem racional que escolhe o tempo todo, sabendo o que faz a partir do acúmulo de informação dado pelos meios à disposição —nem a educação tem sido capaz de comprovar esse homem utópico, nem a mídia, ciência ou tecnologia, hoje fora de controle.

AMBOS UTÓPICOS – Ele é tão utópico quanto o “novo homem” socialista. Passados anos, essa utopia criou a economia de mercado e a democracia liberal. Ambas estão muito longe da ideia de que uma racionalidade econômica, política, social ou moral exista em plena forma.

A ideia de que o Estado existiria para garantir a ordem do homem livre e racional não aconteceu. Pelo contrário, o Estado só cresce, se metendo em todos os níveis da vida de todos.

O liberalismo moderno, econômico e político destruiu todas as referências que ao longo dos milênios conduziram a humanidade ao presente porque seu princípio lógico é de que tudo antes do indivíduo racional pleno era lixo a ser esquecido. Restou-nos o vazio de valores, a não ser o dólar e a espada do Leviatã.

Campanha antecipada de Lula na TV poderá ser considerada ilegal

Um homem de cabelos grisalhos e barba, vestido com uma camisa azul clara e um paletó escuro, está falando em um ambiente interno com grandes janelas ao fundo. Ele gesticula com as mãos enquanto se expressa. À direita da imagem, há uma pessoa fazendo linguagem de sinais. Na parte inferior da imagem, está escrito: 'mas que está mexendo com o Brasil!'.

Lula não faz distinção entre propaganda pública e privada

Mariana Brasil
Folha

O plano do presidente Lula (PT) de convocar rede de rádio e televisão para fazer pronunciamentos oficiais a cada 15 dias, como estratégia para a divulgação de ações do governo, pode não configurar uma ilegalidade no atual momento, mas pode ser questionado em 2026, diante da proximidade do período eleitoral, segundo advogados e cientistas políticos ouvidos pela Folha.

Lula convocou a cadeia de rádio e televisão na noite de segunda-feira (25) para um pronunciamento no qual exaltou os seus programas Pé-de-Meia e Farmácia Popular.

SEM NOVIDADES – Com uma linguagem informal, buscou requentar a divulgação de ações do seu governo, sem apresentar novidades, em um momento de crise de popularidade.

“Com a proximidade do próximo pleito eleitoral de 2026, vai haver realmente um questionamento com relação a essa questão dessa periodicidade de pronunciamentos feitos pelo governo Lula. Mas a princípio não há essa restrição”, diz Vera Chemim, advogada constitucionalista e mestre em direito público administrativo pela FGV (Fundação Getulio Vargas). Segundo ela, no próximo ano será preciso considerar a legislação eleitoral.

JÁ É PROPAGANDA – Vera Chenim avalia que ainda não há elementos suficientes para afirmar que Lula estaria utilizando esses pronunciamentos para se autopromover. No entanto, ressalva que o comunicado, por si só, já traz propagandas das ações da gestão.

“O que está por detrás, um pano de fundo, é ele se mostrar cada vez mais à sociedade brasileira, tentar demonstrar que está fazendo algo produtivo no governo. E é lógico que isso vai configurar uma propaganda eleitoral antecipada, não há dúvida sobre isso”, diz.

O pronunciamento acontece em um momento delicado para o governo. Segundo recente pesquisa do Datafolha, a aprovação do presidente caiu para 24%, o pior índice de seus mandatos.

AUTOPROPAGANDA – Daniel Burg, especializado em direito penal e processual econômico pela Escola de Direito do Brasil, diz que os pronunciamentos podem configurar uma autopropaganda, embora seja “algo natural diante de experiências que vemos em outros países”.

“Se é uma ferramenta que está à disposição dele e for praticada dentro dos ditames legais, é um direito. Se for considerada infração eleitoral, certamente algum partido político vai pedir a abertura de um procedimento administrativo para apurar”, diz.

“Esse tipo de exposição que o Lula fez passará a ser mais questionado pela oposição quando chegar em 2026 e tiver um calendário eleitoral”, afirma Eduardo Grin, cientista político e professor da FGV. “A oposição poderá dizer ‘a campanha é antecipada, a campanha não começou ainda, isso é ilegal’.”

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
É claro que se trata de propaganda eleitoral antecipada, até porque Lula já se declarou candidato, isso é público e notório. E o pior é que está usando espaço no rádio e televisão sem pagar por isso. “É de grátis”, como dizia seu Creysson no Casseta Popular. (C.N.)

Oscar de Salles mostra que, no final do filme, a democracia vence

Ainda Estou Aqui vence Oscar de melhor filme estrangeiro | Agência Brasil

Além de cineasta, Salles é um grande cultor da democracia

Vera Iaconelli
Folha

Sentei para assistir à entrega da estatueta do Oscar, tomada por uma sensação tão inédita quanto a premiação. Foi curioso estar ali, sem grande preocupação com o desfecho do evento, mais interessada na forma como nos unimos em torno desse acontecimento.

Até aí, não havia novidade. Estamos acostumados a torcer juntos nas Copas, e a comparação entre os dois eventos era inevitável – mesmo com Fernanda Torres pedindo encarecidamente que lhe tirassem o fardo das costas. Mas mal sabia ela que a natureza dos acontecimentos era outra.

TORCER JUNTOS – A torcida até era de Copa do Mundo, só que não, pois se tratava de comemorar… a própria torcida! Mais do que torcer, tratava-se de comemorar que houvesse algo em torno do qual ainda pudéssemos torcer juntos, diante da polarização que dividiu o país.

E não é de menor importância que fosse algo ligado à cultura, sustentado na figura de uma mulher, num filme que denuncia a ditadura. Tudo isso depois de uma tentativa de golpe que reedita nosso maior fantasma: o traço conservador e autoritário que nos assombra.

E, como se o universo conspirasse para que a celebração fosse à altura, tivemos nada mais, nada menos do que as bênçãos de um domingo de Carnaval para lhe servir de esquenta. Bom para lembrar que também somos adoradores de Eros.

ESTRATÉGIA VITORIOSA – Enquanto se podia assistir à propaganda dos filmes concorrentes em intervalos de famosos podcasts, outdoors e ônibus norte-americanos, a campanha de “Ainda Estou Aqui” fez outro percurso. Como informou Walter Salles em entrevista, essa não foi a estratégia do filme brasileiro, baseada no corpo a corpo entre os atores, o diretor, os formadores de opinião e o público.

Trabalho de fôlego, que exigiu da equipe jogar-se numa maratona infindável de exibições seguidas de entrevistas coletivas, na participação em talk shows, em ensaios fotográficos, nos deslocamentos de costa a costa, nas festas para “fazer amigos e influenciar pessoas”, nas premiações em festivais mundo afora que antecederam ao Oscar.

Some-se a isso o fato de que Fernanda Torres leva algumas horas a mais que seus colegas homens fazendo cabelo, maquiagem e prova de modelitos de tirar o fôlego, e teremos uma ideia do tamanho da empreitada.

CAVALO DE TROIA – De forma insidiosa, falando de família, por intermédio de uma personagem feminina maternal, deixando a violência pairar opressivamente sem nunca explicitá-la, Salles, fiel ao tom do livro de Marcelo Rubens Paiva, criou seu cavalo de Troia. Perfurou barreiras que têm impedido que o contraditório compareça nas discussões, cada vez mais empobrecidas por cancelamentos e outras formas de violência.

O filme renovou a discussão sobre os desaparecidos na ditadura militar, o destino de seus algozes e a obscena ideia de anistia que nos trouxe até aqui. Foi responsável por apresentar à nova geração algo que lhes parecia anacrônico e improvável.

Filme certo, na hora certa, que cumpriu uma função muito maior do que se podia prever e que está longe de dizer respeito só ao Brasil: a questão sobre a democracia se coloca para todos os governos mundiais. Se cabe à arte trazer reflexão, inspiração e alento diante das agruras de estar vivo, “Ainda Estou Aqui” ganhou em todas as categorias.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGFez-se justiça a Walter Salles, um dos maiores cineastas do mundo. Já era para ter ganho o Oscar antes, com “Central do Brasil”, “Diários de Motocicleta” ou “Abril Despedaçado”. O Brasil precisa se orgulhar dele, uma pessoa verdadeiramente notável. (C.N.)

Fritura de Nísia foi ‘dura, cruel e desrespeitosa’, diz ex-ministro Temporão

Folha do Sul / Política / Nísia Trindade é substituída no Ministério da  Saúde

Nisia Trindade foi demitida de uma forma cruel por Lula

Bernardo Mello Franco
O Globo

A forma como o presidente Lula demitiu Nísia Trindade do Ministério da Saúde foi “cruel” e “desrespeitosa”, afirma o ex-ministro José Gomes Temporão. Titular da pasta no segundo governo Lula, ele critica a fritura que culminou na queda da ministra, após dois anos e dois meses no cargo.

“Foi um processo muito desagradável. Essa maneira dura, cruel e desrespeitosa de demiti-la deixa um sabor amargo para nós, sanitaristas” — diz Temporão.

MUITO RUIM  – “O que aconteceu nas últimas duas semanas foi muito ruim. O presidente pode trocar quem quiser, mas a forma como isso ocorreu não condiz com a coragem e com o desempenho que ela teve no ministério” — defende.

Ministro entre 2007 e 2010, Temporão integrou a equipe de transição montada após a eleição de Lula para o terceiro mandato. Ele diz que Nísia assumiu uma pasta “devastada” pelo governo de Jair Bolsonaro.

“O ministério estava destruído. Nísia teve que colocar a casa em ordem, reorganizar o SUS e lançar novas políticas públicas” — afirma.

BALANÇO FAVORÁVEL – O ex-ministro reconhece que a gestão “teve problemas”, como a explosão dos casos de dengue em 2024, mas considera o balanço favorável à ministra.

— Nossa expectativa é que o ministro Alexandre Padilha tenha condições de manter e avançar no que foi feito. Ele tem experiência e competência para isso — conclui.

A velhice da porta-bandeira provoca um drama que só o desfile desfaz…

Ficheiro:Selminha Sorriso porta bandeira da Beija Flor.jpg ...

Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, compositor e poeta carioca Paulo César Francisco Pinheiro, na letra de “A velhice da porta-bandeira”, em parceria com Eduardo Gudin, registra que a vida partilha alegrias e tristezas enquanto o tempo passa e, nas escolas de samba, há sempre outra porta-bandeira a espreitar. Esse samba foi gravado no LP “O importante é que a nossa emoção sobreviva”, em 1974, pela Odeon, por Eduardo Gudin, Paulo César Pinheiro e a cantora Márcia, alcançando repercussão nacional com o disco e os shows realizados por diversos estados.

A VELHICE DA PORTA-BANDEIRA
Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro

Ela renunciou
A Mangueira saiu, ela ficou
Era porta-bandeira
Desde a primeira vez
Por que terá sido isso que ela fez?

Não, ninguém saberá
Ela se demitiu, outra virá
Ninguém a viu chorando
Coisa tão singular
Quando a bandeira tremeu no ar

Ô… quando toda avenida sambou
O seu mundo desmoronou
Ela se emocionou
Perto dela ela ouviu, alguém gritou:
“Viva a porta-bandeira”,
“Sou eu”, ela pensou
Mas foi a outra quem se curvou
Ô… quando toda avenida sambou
O seu mundo desmoronou
Ô… quando a porta-bandeira passou
Quem viu
Ela se levantou e aplaudiu

Além de Moraes, outras autoridades entram na mira do Congresso dos EUA

Joaquim Ribeiro on X: "Procurador Geral da República Paulo Gonet e o  delegado da Polícia Federal Fábio Shor, estão na mira do Congresso dos EUA  e poderão sofrer sanções semelhantes a de

Paulo Gonet já entrou para a lista do governo americano

Paulo Cappelli
Metrópoles

Além do ministro Alexandre de Moraes (STF), duas autoridades brasileiras entraram na mira de congressistas dos Estados Unidos. Os parlamentares norte-americanos passaram a discutir sanções também ao procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e ao delegado da Polícia Federal Fabio Alvarez Shor.

O PGR e o policial viraram alvo de deputados e senadores próximos a Donald Trump por causa da atuação em inquéritos que bloquearam perfis de políticos e militantes de direita em redes sociais. Esses parlamentares sustentam que, ao avalizar e embasar decisões de Moraes, Gonet e Shor teriam promovido censura e também deveriam sofrer sanções.

LEI MAIS DURA – A medida contra o PGR e o delegado da Polícia Federal envolve a recusa de visto para ingresso nos Estados Unidos. Já em relação a Alexandre de Moraes, a Casa Branca estuda punição mais dura, com a aplicação da Lei Magnitsky, destinada a pessoas que o presidente dos EUA considere ter violado questões de direitos humanos.

Cabe unicamente a Donald Trump decidir os nomes que entram na lista. Para isso, o presidente americano precisaria apenas expor “evidências confiáveis”.

Os punidos com a Lei Magnitsky, além de não poderem entrar em solo norte-americano, ficam impedidos de fazer transações financeiras com cidadãos e empresas dos EUA.

Falas polêmicas e atos de Lula desagradam mulheres e derrubam aprovação no segmento

Mulheres têm mostrado descontentamento com o governo

Pedro do Coutto

O eleitorado feminino reagiu negativamente ao desempenho recente do presidente Lula da Silva com base na forma com que demitiu a ex-ministra Nísia Andrade do Ministério da Saúde. O episódio deixou marcas sensíveis e esta parcela da população que acompanhou o mal-estar entre o presidente da República e Nísia Andrade sentiu o clima entre ambos após o desfecho verificado.

Historicamente apoiadoras de Lula, as mulheres têm mostrado descontentamento com o governo e com a postura do petista, seja por falas não adequadas ditas de improviso em seus discursos ou relacionadas à alta dos preços dos alimentos. A queda na avaliação positiva do governo nesse grupo, mostrada pelas últimas pesquisas Genial/Quaest e Datafolha, combina com a conclusão do levantamento da consultoria Gobuzz: as mulheres, que representam 52% do eleitorado, foram impactadas por declarações do presidente, como a que ele diz que é um amante da democracia, “porque, na maioria das vezes, os amantes são mais apaixonados pela amante do que pelas mulheres”.

RECUO – Segundo o levantamento da Quaest divulgado no mês passado, o índice de aprovação do governo, além de cair cinco pontos percentuais no público em geral (de 52% para 47%), diminuiu no segmento feminino: 49% das entrevistadas afirmam agora aprovar o governo, contra 54% em dezembro.

A tendência de queda também apareceu na última pesquisa Datafolha, que mostrou que o percentual do eleitorado que considera Lula 3 ótimo ou bom caiu 11 pontos em apenas dois meses, de 35% para 24%. Entre as mulheres, a parcela que vê o governo positivamente caiu 14 pontos, de 38% para 24%.

INSATISFAÇÃO – O presidente Lula de uns tempos para cá vem demonstrando uma insatisfação com uma parte de seus ministros. No caso da ex-ministra da Saúde, o fato que gerou a sua decisão foi o diálogo entre Nísia Trindade e o Centrão que lutava por mais verbas capazes de acomodá-los no governo. Essa acomodação tem um preço muito alto, pois se uma parte se destina a ações positivas, outra parte vai para o bolso dos que estão pouco ligando em realizar medidas benéficas com base nos recursos repassados a parlamentares.

Essa omissão, pelo menos, acarreta um duplo prejuízo para o país, uma vez que marca uma imposição na qual não se distingue o que é construtivo e o que se dissolve no ar sem apresentar qualquer resultado a favor da sociedade. Tais verbas custam caríssimo tanto ao país quanto ao governo, pois escapam de um conteúdo concretamente positivo, sobretudo na faixa do eleitorado feminino.

Há um sinal de alerta no quadro geral, o que agrava sensivelmente a posição do governo. Lula  terá que trilhar um caminho heroico capaz de mudar o quadro sucessório. Não será fácil, sobretudo porque há vários candidatos em potencial que podem disputar o primeiro turno. E tal perspectiva é um desafio para ele mesmo.

Mulher de Rubens Paiva foi monitorada até o final da ditadura

Quem foi Eunice Paiva, vivida por Fernanda Torres no cinema?

Eunice foi exemplo de resistência contra a ditadura

Géssica Brandino
Folha

Assunto: Eunice Paiva. O carimbo “confidencial” marca o relatório de duas páginas sobre uma palestra da esposa de Rubens Paiva enviado em 17 de julho de 1979 ao então ministro da Justiça. Oito anos após o desaparecimento do ex-deputado, ela era uma voz do movimento pela anistia monitorada por militares.

A palestra ocorreu em 13 de maio daquele ano, durante um ato que reuniu cerca de 150 pessoas em Londrina (PR). O evento fora registrado antes, em 12 de junho, pelo braço de Curitiba do SNI, o serviço de inteligência da ditadura.

DISSE A VIÚVA – No discurso, Eunice cobrou esclarecimentos sobre o desaparecimento do marido, em 20 de janeiro de 1971, questionou a versão do Exército de que Rubens havia sido sequestrado por terroristas, mostrou descrença em relação à punição dos envolvidos e citou uma promessa de que ele seria solto.

Tal promessa, segundo o relatório, fora feita pelo então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid. Ele teria dito que conversara com Rubens Paiva. Este estaria vivo, mas machucado, no 1º Exército. “Me disse também que, para ele sair de lá, era uma questão de tempo, faltava cumprir certas formalidades”, disse Eunice.

Depois, Buzaid negou o encontro com a viúva e afirmou que Rubens Paiva havia fugido.

LINHA DO TEMPO – Cerca de 150 documentos reunidos pela Folha no Arquivo Nacional e na Embaixada dos Estados Unidos permitem refazer a linha do tempo desde o desaparecimento.

A reportagem organizou e traduziu arquivos pela ferramenta de inteligência artificial Google NotebookLM. Depois disso, cada documento foi checado individualmente.

O acervo traz registros não contemplados no filme “Ainda Estou Aqui”, indicado ao Oscar, e até mesmo no livro de Marcelo Rubens Paiva, que baseou a obra cinematográfica.

MÃE E FILHA – Eunice Paiva e sua segunda filha, Eliana, foram presas no dia 21 de janeiro, enquanto Rubens ainda estava vivo. Enquanto a garota, à época com 15 anos, foi solta no dia seguinte, a mãe só seria liberada em 2 de fevereiro. Foi quando ela começou a busca por respostas que chegariam meses, anos depois ou nunca.

Reportagem da Folha de 1981 conta que a confirmação da morte chegou a Eunice pelo então deputado Pedroso Horta (MDB-SP).

No livro, Marcelo diz que a mãe foi informada por um jornalista. Ela não dividiu a notícia com a família e providenciou a mudança para Santos – não para São Paulo, como no filme.

NA EMBAIXADA… – Enquanto Eunice levou seis meses para saber da morte do marido, um memorando da embaixada dos Estados Unidos registrou o fato 22 dias depois do sequestro.

“Paiva morreu sob interrogatório por ataque cardíaco ou outras causas”, diz o documento da embaixada americana. O funcionário escreveu que o caso era “outro exemplo da forte irresponsabilidade das forças de segurança do Brasil”, com potencial para se tornar um problema na gestão Nixon.

Dias antes, em 8 de fevereiro, outro membro da embaixada descreveu o relato de Eunice sobre a prisão.

PAU DE ARARA – “A senhora Paiva foi interrogada em todas as horas, e muitas vezes acordada à noite para interrogatório. Em uma das salas onde seu interrogatório ocorreu, ela viu o pau de arara e equipamento de choque elétrico. Ela também ouviu gritos frequentemente no local”, diz.

“Sua pequena cela continha um colchonete de palha e um chuveiro aberto. Ela não recebeu troca de roupa e, depois de vários dias, conseguiu tomar banho e se secar com o vestido dela, enquanto, discretamente, os guardas olhavam em outra direção. Após cinco dias, sua família conseguiu mandar algumas roupas.”

Anexados, os documentos incluem uma cópia de uma reportagem do New York Times com o relato de Eliana Paiva sobre a prisão dos pais. As publicações foram apontadas como a razão pela qual um correspondente daquele jornal acabaria preso em setembro do mesmo ano.

APELOS INÚTEIS – Além de acionar a imprensa internacional, em fevereiro de 1971 Eunice também escreveu a Alfredo Buzaid, que presidia o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Um mês depois, ela apelou ao presidente Emílio Médici, pedindo “ao chefe da nação a justiça que deve resultar da obediência das leis”.

“É a carta de uma mulher aflita, que viu desabar sobre sua família uma torrente de arbitrariedades inomináveis, e de que é ainda vítima seu marido, engenheiro Rubens Beyrodt Paiva, preso por agentes da Segurança da Aeronáutica no dia 20 de janeiro, mantido até agora incomunicável, sem que se conheça o motivo da prisão, quem efetivamente a determinou e o local onde se encontra”, diz a missiva de Eunice a Médici.

“Não é possível que, mais de 60 dias decorridos, conserve-se assim desaparecida uma pessoa humana! Recusamo-nos a acreditar no pior”, escreve Eunice, em 22 de março de 1971.

CRIME SEM CASTIGO – A correspondência é citada pela jornalista e pesquisadora Juliana Dal Piva no livro “Crime sem castigo: como os militares mataram Rubens Paiva”, lançado em fevereiro.

Apesar dos apelos, o caso foi arquivado pelo conselho em agosto de 1971. Em seu parecer, o relator, na época senador Eurico Rezende (Arena-ES), acolheu como verdadeira a tese dos militares de que Rubens havia fugido.

Eunice é citada como subversiva em relatórios sobre políticos e outros ativistas monitorados pela ditadura. Um informe da Aeronáutica sobre um ato pela anistia em 23 de julho de 1979 revela que a viúva de Paiva criticou o regime e chamou o governo de “camelô, porque está a fim de fazer propaganda”.

ASSUNTO TABU – Contudo a ditadura evitava retaliar familiares de vítimas no período, diz o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que presidiu o Comitê Brasileiro pela Anistia. “Era um assunto do qual a repressão fugia como o diabo foge da cruz.”

Nos anos 1980, Eunice ainda era monitorada pelos militares, que registram sua filiação ao PT, em 1981, em um ato com a presença de Lula. Em 1983, quando Eunice tentou vender um imóvel, o banco pediu uma procuração do marido. Ela questionou a exigência na Justiça e só então o caso Rubens Paiva foi reaberto.

Após a posse de Fernando Henrique Cardoso na Presidência, em 1995, Eunice passa a cobrar do Estado reparação aos familiares de desaparecidos políticos. Recortes de jornais do período mostram o então deputado federal Jair Bolsonaro como um dos opositores da pauta.

NA COMISSÃO – Em 1996, Eunice é a primeira representante da sociedade civil a ser indicada por FHC para a Comissão Especial de Desaparecidos Políticos. Naquele período, ela contribuiu por alguns meses com análises para que outras vítimas da repressão fossem reconhecidas e suas famílias indenizadas.

Os pareceres feitos por Eunice foram citados em 2014 nos relatórios produzidos pela Comissão Nacional da Verdade.

Em seu livro, Marcelo conta que naquele ano a mãe já estava no terceiro estágio do Alzheimer, inerte na cadeira de rodas, quando viu uma reportagem sobre Rubens Paiva na TV. Ela reagiu, repetindo “olha, olha, olha” e “tadinho, tadinho, tadinho”.

Depois da Lava Jato, o PT passou a dar “preferência” à corrupção internacional

COP: Brasil se atrasa em relação a Azerbaijão para definir presidente

Lula já transformou a COP30 numa usina de corrupção

Carlos Newton

Apesar dos comoventes esforços de Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e outros ministros, a Lava Jata obteve efeitos prodigiosos. Basta lembrar que a Petrobras foi forçada a fechar um acordo bilionário com a Justiça americana para encerrar as investigações sobre corrupção na empresa.

Como a Petrobras tem ações negociadas na Bolsa de Nova York, o Departamento de Justiça americano e a SEC – órgão que regula o mercado de capitais nos Estados Unidos – começaram a cobrar os prejuízos que os investidores americanos tiveram com a corrupção no Brasil, considerada a maior do mundo.

ACORDO JUDICIAL – Acertadamente, a direção da Petrobras decidiu entrar em negociação para não ter de enfrentar a Justiça americana. O acordo que encerrou as investigações da SEC custou à época US$ 853 milhões, quantia que, incluindo impostos, equivalia a R$ 3,6 bilhões para a empresa e seria de aproximadamente R$ 6 bilhões nos dias de hoje.

Devido à Lava Jato, corruptos e corruptores brasileiros tiveram de dar um tempo, enquanto o Supremo tomava providências contra a operação. Assim, para tirar Lula da cadeia, em 2019, os falsos juristas do STF transformaram o Brasil no único país do mundo (são 193 nações), que não prende criminoso após condenação em segunda instância, uma situação deprimente e vergonhosa.

Depois, para limpar a ficha de Lula, em 2021 os mesmos falsos juristas apontaram erro de CEP, alegando que o petista deveria ser julgado em outro lugar e não em Curitiba. E nem sabiam onde… Somente alguns dias depois resolveram que deveria ter sido em Brasília.

AGORA, INTERNACIONAL – Lula e o PT deram um tempo, mas não desistiram do vício de desviar recursos públicos. E assim decidiram passar a investir na corrupção internacional.

A ideia era ótima, porque o complexo de vira-latas do brasileiro faz com que admire e respeite tudo o que vem dos países desenvolvidos. E os petistas então se aproximaram da Organização Internacional dos Estados Iberos-Americanos (OEI), que aplica golpe em vários países da América Latina e estava obtendo êxito também Brasil.

Segundo o Portal da Transparência, a mamata da OEI no Brasil começou em 2014, justamente quando foi iniciada a Operação Lava Jato. O governo fechou logo dois convênios – um de R$ 9 milhões em 6 de fevereiro de 2014; e como ninguém reclamou, outro de mais R$ 9 milhões no dia 9 de abril de 2014.

TEMER E BOLSONARO – Naquela confusão dos bilhões da Lava Jato, não foram investigados os milhões da OEI, que só voltou à carga no Brasil em 26 de dezembro de 2018, no apagar das  luzes do governo Michel Temer, quando os espanhóis faturaram R$ 22 milhões no Ministério da Cultura, um belo presente de Natal.

Com a certeza da impunidade que passou a existir, a OEI em seguida conseguiu levar mais R$ 10 milhões no governo Bolsonaro, em acordo fechado com o MEC também às vésperas do Natal, dia 22 de dezembro de 2020.

Depois, com a possibilidade de golpe de estado, os espanhóis sumiram do mapa, cautelosos. No entanto, como os petistas se consolidaram no poder, com apoio irrestrito do Supremo, os operadores da corrupção da OEI se reanimaram e partiram para cima do novo governo de Lula, em 2024, com uma voracidade impressionante.

R$ 600 MILHÕES – Ao todo, os valores fechados em 2024, somados com o contrato da COP30, chegaram a quase R$ 600 milhões. De acordo com o portal da Transparência, apenas no segundo semestre de 2024 foram fechados seis acordos da OEI com o governo Lula:

– R$ 35 milhões com o MEC, em 30 de agosto de 2024;

– R$ 10 milhões com a Secretaria de Micro e Pequena Empresas, em 18 de outubro de 2024;

– R$ 8,1 milhões, em 10 de dezembro de 2024 com a Presidência da República;

– R$ 478,3 milhões com a Secretaria Extraordinária da Cop30 em 12 de dezembro de 2014

– R$ 15 milhões com a Secretaria de Micro e Pequena Empresas no dia 17 de dezembro de 2024;

– R$ 15,7 milhões com a Secop (Receita Federal), em dia 23 de dezembro de 2024, às vésperas do Natal, vejam que a desfaçatez dessa gente é uma arte, como diria Ataulfo Alves.

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P.S. 1
Notem a voracidade – em apenas um mês, em dezembro de 2024, a OEI mordeu o governo federal em R$ 517 milhões. Para fazer exatamente o quê? Ora, a OEI declara que “promove atividades e projetos nas áreas de educação, ciência, cultura, direitos humanos e democracia com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário”. Em tradução simultânea, isso não significa nada, rigorosamente nada, e esta é a maior especialidade da OEI, que atualmente se decida a fomentar a corrupção dos países da América Latina.

P.S. 2Até agora, apenas a CNN, a Tribuna da Imprensa e o Poder360 estão noticiando o maior escândalo da corrupção do governo Lula. O resto da imprensa está aproveitando o Carnaval e o Oscar para tentar “esquecer” o assunto, mas não conseguirão sepultá-lo, porque ainda há jornalistas na mídia brasileira. E amanhã a gente volta, com outras notícias pesadíssimas sobre a corrupção no governo Lula (C.N.)

O que Dirceu diz em conversas reservadas com integrantes do governo Lula

Zé Dirceu: 'Por justiça com a minha história, tenho o direito de voltar à  Câmara como deputado' - Brasil de Fato

A necessidade faz Lula se reaproximar do mentor Dirceu

Malu Gaspar
O Globo

Não foi só com Lula que José Dirceu falou ao telefone nos últimos dias a respeito das mudanças que ele defende que sejam feitas no governo do PT para recuperar a popularidade do presidente e garantir a reeleição em 2026.

Além de Lula, com quem esteve pessoalmente há alguns dias e falou ao telefone na semana passada, o ex-ministro da Casa Civil também já teve conversas reservadas com o chefe de gabinete, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o favorito de Lula à presidência do PT, Edinho Silva.

PEDE MUDANÇAS – Em todas as conversas, Dirceu defendeu mudanças na organização do governo para melhorar a articulação política não só com o Congresso mas também com os empresários, o agronegócio e o mercado financeiro.

Aliado de Haddad no PT e seu defensor no governo, o ex-ministro da Casa Civil do primeiro mandato de Lula tem feito duras críticas ao governo nos bastidores. O discurso se repete em público, ainda que de forma mais comedida.

ARTIGO NA FOLHA – No final de janeiro, Dirceu publicou um artigo na Folha de S. Paulo com uma lista de pontos que considera importantes para que o governo se reinvente nessa segunda parte do terceiro mandato.

No texto, ele defende que Haddad lidere a agenda econômica (em contraposição à corrente interna do PT que diz que o ministro é excessivamente fiscalista e obediente à Faria Lima). Diz também que não adianta mudar a comunicação sem melhorar a articulação com os setores econômicos.

Na agenda de Dirceu também consta o estímulo à agricultura familiar e a formação de estoques reguladores para conter a inflação dos alimentos, além de uma nova política industrial e o reforço de alianças com a China para enfrentar a ofensiva tarifária dos Estados Unidos sob Donald Trump sobre os produtos de exportação.

VOLTA À POLÍTICA – Depois da publicação, Dirceu passou a fazer essas conversas reservadas com integrantes do governo e da cúpula do PT com quem tem mais afinidade.

O movimento visa ganhar terreno na disputa interna do partido para influenciar o rumo do governo Lula nesta segunda metade do terceiro mandato.

O presidente, que já conversou com Dirceu pelo menos duas vezes nas últimas semanas, não tem dado muitas pistas do que fará. Mas a troca da ministra da Saúde Nísia Trindade por Alexandre Padilha, da mesma corrente de Dirceu no PT, mostra que aos poucos o ex-ministro de Lula vai retomando a influência que já teve no partido e no governo.

DESAGRAVO DE LULA – No evento de aniversário de 45 anos do partido, no Rio de Janeiro, Lula fez um desagravo público a seu ex-ministro ao dizer que “o José Dirceu sabe o que é ser vítima da mentira. O companheiro Delúbio também sabe. O companheiro Vaccari não está aqui hoje”, referindo-se às condenações e à prisão de Dirceu nos casos do mensalão e do petrolão.

“Eles primeiro contam mentiras para tentar nos destruir. Eu sei o que eles fizeram comigo”, afirmou Lula sobre os 580 dias de prisão em Curitiba, entre 2018 e 2019.