Fortunas nas urnas: 15 candidatos concentram R$ 4,7 bilhões em patrimônio

Milionários querem um mandato em 2026

Deu no O Globo

O patrimônio de 15 candidatos entre os mais ricos concorrendo às eleições soma R$ 4,69 bilhões, segundo as declarações enviadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na média, é como se cada um desses postulantes tivesse cerca de R$ 312 milhões em bens. A lista inclui empresários, herdeiros de grupos empresariais familiares e até um império da educação.
Uma análise preliminar dos 40 maiores patrimônios divulgados inicialmente na base de dados apontou que grande parte das declarações no topo do ranking geral apresentava inconsistências ou evidentes erros de digitação (como inclusão acidental de centavos ou casas decimais adicionais, distorcendo os valores para a casa dos bilhões). Por isso, a reportagem filtrou e validou apenas os candidatos cujos bens declarados são compatíveis com a realidade econômica de seus históricos profissionais e empresariais.
LIDERANÇA – O líder deste recorte é Luiz Osvaldo Pastore (PL-TO), candidato a 1º Suplente de Senador, que declarou ao TSE uma fortuna de R$ 677,7 milhões. Empresário com histórico de participação em chapas majoritárias, Pastore já foi suplente no Senado por outros estados, como Espírito Santo e Distrito Federal, e tem sua fortuna concentrada em investimentos e participações societárias. O tamanho do seu patrimônio chama a atenção pela grande evolução ao longo das últimas décadas.

Pastore ganhou as manchetes no passado por ser proprietário do jatinho que levou o ministro do STF Dias Toffoli e o advogado Augusto Arruda Botelho — defensor de Luiz Antônio Bull, um dos alvos da investigação sobre o Banco Master — dias antes do magistrado assumir decisões sensíveis relacionadas ao caso no Supremo.

Pastore é um empresário paulista radicado no Espírito Santo, com atuação em setores como importação, indústria e administração de imóveis. Apesar da baixa exposição pública, acumula influência na política e no meio empresarial.

SETOR TÊXTIL – Na segunda colocação, desponta Antídio Aleixo Lunelli (MDB-SC), candidato ao Senado, com R$ 613,2 milhões. Lunelli é um empresário catarinense de grande porte, conhecido no setor têxtil, e já ocupou o cargo de prefeito de Jaraguá do Sul (SC) duas vezes. Sua declaração de bens é composta majoritariamente por participações em suas empresas.

Lunelli fundou em 1980 a empresa que deu origem ao Grupo Lunelli, hoje um conglomerado têxtil dono de marcas como Lunender, Lez a Lez e Hagar 33, com mais de 5 mil funcionários diretos e negócios também no agronegócio. Publicamente, ele diz que a fortuna é anterior à sua entrada na política, em 2016.

Logo atrás, na terceira posição, está Otaviano Olavo Pivetta (Republicanos-MT), atual candidato ao governo do Mato Grosso, dono de R$ 575,6 milhões — alta de 52% sobre os R$ 378,9 milhões declarados em 2022. Pivetta é um dos maiores empresários do agronegócio brasileiro e figura histórica na política mato-grossense.

PRODUTOR RURAL – Nascido em Caiçara (RS), Pivetta migrou para o Mato Grosso em 1982 e construiu carreira como produtor rural de soja, milho, algodão, suínos e bovinos, antes de ser três vezes prefeito de Lucas do Rio Verde, deputado estadual e, desde 2019, vice na chapa de Mauro Mendes.

Em quarto lugar está Wilson Picler (PL-PR), primeiro suplente de Deltan Dallagnol na disputa pelo Senado no Paraná, com R$ 478,69 milhões. Fundador do grupo educacional Uninter e ex-deputado federal pelo PDT, Picler foi o maior doador individual do então PSL em 2018 — ano em que declarou um patrimônio de R$ 48,3 milhões, dez vezes menor que o atual. Apoiou a campanha de Jair Bolsonaro naquele ano, mas migrou para o campo de Sergio Moro nas eleições seguintes.

Fechando o “Top 5”, a região Sudeste volta a aparecer com Vittorio Medioli (PL-MG), empresário italiano naturalizado brasileiro e ex-prefeito de Betim por dois mandatos (2017–2024), com R$ 356,81 milhões. Fundador do Grupo SADA, do setor de logística e transporte de cargas, e dono de veículos de comunicação como o jornal O Tempo, Medioli já foi chamado de prefeito mais rico do Brasil ao se eleger em Betim em 2016, e agora concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa mineira.

MULTIMILIONÁRIOS –  O clube dos multimilionários que vão disputar as eleições 2026 se completa com perfis variados. Misael Artur Ferreira Varella (PSD-MG), primeiro suplente do senador Carlos Viana e filho do ex-parlamentar Lael Varella, aparece com R$ 315,2 milhões — fortuna ligada à rede de hospitais da Fundação Cristiano Varella, referência em tratamento oncológico na Zona da Mata mineira.

Carlos Eduardo Hammerschmidt (Republicanos-PR), suplente de Alexandre Curi no Senado, é vice-presidente comercial do Grupo Potencial, uma das maiores empresas de energia do país, e declarou R$ 281,04 milhões.

Na disputa presidencial aparecem dois nomes da lista: Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo). O primeiro, psiquiatra e autor best-seller de livros como “O vendedor de sonhos” e “A inteligência multifocal”, declarou R$ 242,28 milhões. A maior parcela do patrimônio de Cury está concentrada em empréstimos concedidos, que totalizam R$ 128,51 milhões.

NA DISPUTA – O psiquiatra figura entre os três postulantes ao Planalto mais ricos da série histórica do TSE. Cury fica atrás apenas do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que concorreu pelo MDB em 2018 e declarou R$ 377,49 milhões, e do empresário e fundador do Novo, João Amoêdo, que informou patrimônio de R$ 425,06 milhões no mesmo ano, o maior valor já registrado.

Já Zema, ex-governador de Minas Gerais, concorre à Presidência com R$ 178,71 milhões, patrimônio construído à frente do grupo varejista que leva seu sobrenome, antes de entrar para a política em 2018. A maior parcela dos bens corresponde à participação de Zema em uma holding familiar, avaliada em R$ 94,5 milhões. O candidato também declarou R$ 56,2 milhões em um fundo de investimento, R$ 16,8 milhões em participação em uma instituição financeira e R$ 3,96 milhões em aplicações de renda fixa.

Ainda aparecem na lista Ivanildo de Almeida Silva (DC-ES), candidato a deputado estadual, com R$ 230,63 milhões; Prisco Rodrigues Bezerra (União-CE), irmão do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio e sócio de empresas dos ramos imobiliário e educacional, primeiro suplente de Capitão Wagner ao Senado, com R$ 201,35 milhões; Carlos Cardoso de Oliveira Filho (PRD-GO), empresário do agronegócio e primeiro suplente de Gustavo Mendanha ao Senado, com R$ 157,75 milhões em fazendas e imóveis.

ÚNICA MULHER –  Ruy Adriano Borges Muniz (PV-MG), médico, professor e dono de uma rede de 16 escolas no Norte de Minas através da Associação Educativa do Brasil (Soebras), é candidato a deputado federal e declarou R$ 154,8 milhões; Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque (PL-AM), empresária e reitora, é candidata ao governo do Amazonas com declaração de bens na casa dos R$ 118,47 milhões, sendo ela a única mulher entre os 15 mais ricos.

Fecha a lista José Lavelli de Lima, candidato a deputado estadual por São Paulo pelo PSD, com R$ 103,93 milhões. Aos 85 anos, é administrador e sócio de empresas dos ramos imobiliário e industrial em Bragança Paulista, cidade do interior paulista que já governou como prefeito. Também foi candidato a prefeito da cidade em 2024, quando declarou um patrimônio de R$ 71,5 milhões.

ERROS RECORRENTES –  A distância entre os 40 maiores valores brutos informados ao TSE e os 15 que resistem à checagem ilustra um problema recorrente nas declarações de bens: erros de preenchimento que multiplicam patrimônios reais por mil, ou que atribuem a itens comuns valores de mercado destoantes.

Entre os casos identificados fora da lista dos 15, um candidato ao Executivo no Centro-Oeste declarou um Volkswagen Polo por R$ 80 milhões e um caminhão de 1987 por R$ 110 milhões; outro, no Norte do país, listou duas chácaras juntas por mais de R$ 1,5 bilhão.

Outro caso que resume bem o fenômeno é o deputado estadual André Silva (MDB-AL), que apareceria entre as maiores fortunas do país com R$ 548,6 milhões declarados originalmente. Procurada pela imprensa, a assessoria do parlamentar confirmou que o valor correto é R$ 548,6 mil.

AUTODECLARAÇÃO – Os valores citados nesta reportagem são autodeclarados pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e refletem a base de dados aberta do órgão na data de fechamento desta matéria. Os números ainda podem ser retificados até o fim do prazo eleitoral.

Das 40 maiores declarações de patrimônio identificadas nacionalmente, pelo menos 25 apresentam inconsistências que sugerem erro de preenchimento — como a troca de “mil” por “milhão” ou a atribuição de valores de mercado incompatíveis a bens como veículos usados — e por isso não constam neste levantamento.

A extrema direita leva a política externa para o centro da sucessão presidencial

Interferência externa divide a opinião pública

Maria Hermínia Tavares
Folha

Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, na praia de Copacabana. Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa.

Nas atuais circunstâncias, não deixa de parecer um gesto de júbilo pelas manifestações explícitas de apoio do governo Trump ao candidato da extrema direita —e, talvez, do desejo de que elas prossigam sob outras formas, mais diretas e continuadas.

INTERFERÊNCIA – A interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais brasileiras é uma possibilidade real. O uso político das tarifas, a tentativa de enviar funcionários para verificar a integridade do sistema eletrônico de votação e a crescente crispação nas relações diplomáticas parecem anunciar a intenção de influir no resultado das urnas e de criar um clima favorável à sua contestação, caso o PT leve a melhor.

O que se viu até agora não tem paralelo na história recente das relações EUA-Brasil, baseadas no pragmatismo e na negociação das diferenças. Guarda semelhança com a atuação americana nas nossas eleições parlamentares de 1962, em plena Guerra Fria. Foi quando jorraram dólares para que organizações de direita financiassem candidatos ao Congresso.

A interferência externa é uma possibilidade também considerada pela opinião pública —e a divide. Segundo pesquisa do Datafolha publicada no domingo (23), metade dos eleitores acredita que há chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa brasileira. E quase 1/5 (18%) não vê problema nisso.

OPÇÃO POLÍTICA – A aceitação da ingerência externa varia muito conforme a opção política do entrevistado. Entre os que dizem preferir o filho de Jair Bolsonaro, essa porcentagem é 3,5 vezes a dos tendentes a votar em Lula.

Da mesma forma, a porcentagem de bolsonaristas declarados que não se incomodam com que outros países tentem influir no pleito é o triplo da dos petistas e pouco menos do que a dos declarados independentes. Por outro ângulo, os dados confirmam que a radicalização de posições, impulsionada pela ascensão da extrema direita, colocou a política internacional na agenda eleitoral.

POPULISMO – Até a segunda década deste século, questões de política externa não faziam parte do rol de temas que diferenciavam os candidatos majoritários e vertebravam a competição por votos. Foi o populismo de direita que as transformou em divisores de opinião e em indicadores de identidade política —mesmo quando não eram questões centrais na política exterior brasileira. Assim, o relacionamento com a Venezuela ou com Cuba ganhou, nas críticas aos governos petistas, dimensão —e espaço— que nunca teve na agenda do Itamaraty.

A retórica perante os Estados Unidos variou conforme o ocupante da Casa Branca. Foi de alegre subserviência com Trump-1, desapareceu do discurso durante o governo Biden e agora volta a ocupar lugar central na agenda bolsonarista. Mais uma vez, não se trata de desenhar uma política bilateral que contemple o respeito e os ganhos mútuos. O que se busca, como sempre, é o interesse da família Bolsonaro acima de tudo e a qualquer preço.

Master e ‘rachadinha’: TSE suspende propaganda de Lula atacando “currículo” de Flávio

Charge do Amarildo (Arquivo do Google)

Deu no O Globo

A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decidiu neste domingo suspender a veiculação de uma propaganda da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que apresenta o que chama de “currículo” de Flávio Bolsonaro.

O pedido foi feito pelo candidato do PL. Flávio sustenta que teriam sido divulgadas “informações sabidamente inverídicas e gravemente descontextualizadas a seu respeito”. A decisão da ministra será submetida ao plenário do TSE.

“CURRÍCULO” – Intitulada “Conheça o currículo de Flávio Bolsonaro”, a peça apresenta uma série de acusações contra o senador na forma de um suposto currículo. Afirma que ele foi “funcionário fantasma”, “denunciado por lavagem de dinheiro e organização criminosa no escândalo da rachadinha”, homenageou “o líder do maior grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro” e foi “flagrado pela Polícia Federal pedindo 134 milhões no escândalo do Banco Master”.

Na decisão , a ministra afirma que o conteúdo divulgado extrapola os limites da crítica política admissível. “As publicações não se restringem à manifestação de opinião ou ao debate público acerca de posições políticas, mas constroem narrativa que imputa ao candidato envolvimento com organizações criminosas, mediante técnica de associação indireta e encadeamento de fatos, sem indicação de qualquer dado concreto, investigação formal ou imputação jurídica que ampare as alegações”, diz o texto.

DESINFORMAÇÃO ELEITORAL – Segundo ela, a jurisprudência do TSE é “firme” no sentido de que a liberdade de expressão no debate político não autoriza a divulgação de imputações graves desacompanhadas de lastro fático mínimo. Estela Aranha diz ainda que a desinformação eleitoral não se limita à “mentira integralmente fabricada” e que “a distorção também pode decorrer da maneira pela qual uma informação é apresentada”.

Com a decisão, a campanha petista fica proibida de efetuar nova divulgação da propaganda. Flávio pediu ainda direito de resposta. Sobre isso, a ministra disse que a campanha do PL deve ao menos enviar o texto da resposta que pretende veicular em 24 horas. Com a juntada do texto da resposta, caberá a Lula apresentar defesa. Depois, a Procuradoria-Geral Eleitoral emitirá um parecer para, em seguida, a ministra tomar uma decisão.

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Para a equipe de PF, “Dark Horse” não é filme: é caso de polícia

Charge do Cláudio (Folha)

Andréia Sadi
G1

Flávio Bolsonaro tenta tratar o caso “Dark Horse” como uma questão privada, um simples patrocínio a um filme. Mas essa versão é rechaçada por investigadores: “Dark Horse” é caso de polícia.

Na entrevista que concedeu a Renata Vasconcellos e César Tralli, na última sexta sexta-feira (28), o candidato do PL à Presidência afirmou que não há “absolutamente nada de errado” em ter buscado o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar o filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.

PATROCÍNIO PRIVADO – Flávio Bolsonaro voltou a dizer que pediu a Vorcaro um patrocínio privado para o projeto “Dark Horse”. “Não tem absolutamente nada de irregular nesse filme”, disse o candidato. “Esse foi um patrocínio, não teve nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro.”

A Polícia Federal apura suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro nos negócios envolvendo Flávio Bolsonaro e o filme. O ponto central da investigação é saber se houve vantagem indevida envolvendo um agente público e um agente privado.

No caso da corrupção passiva, investigadores entendem que não é necessário apontar um ato de ofício específico como contrapartida direta. É preciso investigar se eventual vantagem indevida foi solicitada ou recebida em razão da função pública. O artigo 317 do Código Penal descreve o ato de “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida”.

ENTREGA DE DINHEIRO – É justamente isso o que a PF tenta esclarecer. Os investigadores querem saber se houve entrega de dinheiro, qual era a origem dos recursos, quem participou, como o dinheiro circulou e qual foi o destino final.

Há ainda um elemento considerado relevante pela investigação: Daniel Vorcaro não queria aparecer como patrocinador do filme. E a declaração de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, de que Flávio Bolsonaro teria ido à casa de Vorcaro buscar “o restante do dinheiro”, também entrou no radar da PF e está sendo apurada.

Por isso, na avaliação dos investigadores, não basta apresentar o episódio como uma relação privada de patrocínio. Há perguntas sobre a origem, a entrega e o destino do dinheiro, e sobre a participação de um senador da República nessa relação. É por isso que o caso “Dark Horse” é um caso de polícia.

Crise dos três Poderes é uma degradação institucional, mas não ameaça democracia

Homem de terno preto, camisa branca e gravata escura, usando chapéu bege, está sentado em cadeira preta atrás de mesa cinza em estúdio com fundo azul. Ao fundo, palavra 'ELEIÇÕES' em letras grandes e logo da emissora.

Lula caiu na mesma armadilha que enfraqueceu Bolsonaro

Marcus André Melo
Folha

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: “Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão”. Arrematando: “Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento”.

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal, passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

GRANDE DEMOCRACIA – A revista “The Economist” acaba de publicar matéria intitulada: “A grande democracia em que os parlamentares são mais poderosos que o Executivo”. A revista parte de um paradoxo. Na última década, candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam poder por meio do chamado executive aggrandizement (a expansão unilateral do Executivo, em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo o Legislativo).

Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como argumentamos em 2024, em “Por Que a Democracia Brasileira Não Morreu?” (Cia. da Letras), escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário.

O desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos demais poderes.

TODO-PODEROSO? – A inversão histórica é extraordinária. O Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em “His Majesty the President of Brazil”, publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como “destituído de poderes vis-à-vis o Executivo” e os tribunais como “invariavelmente flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia”. O presidente da República conservava poderes quase imperiais.

Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em “Razões da Crise”, de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial:

“Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal, impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso toma o freio nos dentes”, escreveu.

MODO SOBREVIVÊNCIA – Escasso poder partidário é só parte da explicação, como mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade de gestão.

No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos três Poderes.

Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; e o terceiro, a perda de legitimidade e degradação institucional.

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Eleições de 2026 já são as mais judicializadas da história e a campanha mal começou

Judicialização eleitoral mais que dobra

Gabriela Echenique
Folha

Partidos acionaram o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mais que o dobro de vezes que em 2022 e tornaram a pré-campanha de 2026 a mais judicializada da história. Até o dia 15 de agosto, último dia antes do início formal da campanha, foram protocoladas 202 representações na Justiça Eleitoral. São mais de 6 ações por semana.

Na última eleição, em 2022, as campanhas já tinham acionado mais a corte eleitoral durante a pré-campanha, com 84 representações. O crescimento agora é de 140%. Na comparação com as eleições de 2018, quando as campanhas protocolaram 43 ações no mesmo período, o aumento foi ainda maior: 370%.

PROTAGONISTAS – Mais de 80% das ações foram protagonizadas pelas pré-campanhas de Lula (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL). O Missão, de Renan Santos, acionou o TSE ao menos nove vezes. O restante foi proposto por Novo, Democracia Cristã, PSD e diretórios estaduais.

Ministros e advogados das campanhas atribuem o aumento não só à polarização política, mas também ao uso de Inteligência Artificial e à desinformação que tomou conta das redes sociais.

Como mostrou o Painel, neste ano, a equipe jurídica da campanha de Lula criou uma central de monitoramento das redes sociais para acompanhar episódios de fake news em tempo real. Tanto é que no primeiro semestre, o PT, de Lula, e o PL, de Flávio, já tinham acionado o TSE mais de 70 vezes.

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“Abandonar o mundo” é um sentimento que se constata em diferentes povos

Ermitão

No Tarô, a figura do Ermitão ou Eremita

Luiz Felipe Pondé
Folha

Hoje vamos manter uma certa distância desse mundo chato em que vivemos, um mundo histérico, em que todos querem aparecer como a pessoa mais legal de todas, com mais seguidores engajados para fazer melhores negócios ou, simplesmente, picaretas — é impressionante como o século 21, a partir das suas redes sociais, catapultou a prática da picaretagem profissional em níveis antes inimagináveis. Os psicanalistas que o digam — hoje, tem um em cada esquina.

Vamos falar um pouco da santidade e repousar, por algum tempo, na sua perenidade como fenômeno. Refiro-me à santidade, tal como a Igreja Católica e a Ortodoxa entendem, além de outras igrejas cristãs da bacia oriental do Mediterrâneo.

DEIXAR O MUNDO – Muitas vezes, a vontade de abandonar o mundo se repete na história de diferentes povos. Na maioria das vezes, como parte de uma experiência religiosa que vê no mundo algo a ser, de alguma forma, evitado.

Essa tradição, conhecida como monástica — termo ligado à origem da fuga do mundo por parte de cristãos nos primeiros séculos da era comum — não é exclusiva do cristianismo, apesar de as tradições espirituais guardarem diferenças no seu modo de viver a renúncia do mundo ou de justificá-la.

No caso especificamente cristão, essa forma de vida se confunde com a de um dos primeiros indivíduos canonizados como santos pelas igrejas cristãs nascentes — que eram então múltiplas — nos primeiros séculos da era comum, não necessariamente a católica, como entendemos hoje.

SANTO ANTÃO – Trata-se de Santo Antão, que viveu entre 251 e 356 da era comum — ou era cristã —, aproximadamente. Este egípcio copta é considerado, pela tradição cristã, o fundador da vida monástica.

Filho de uma família de lavradores com algumas posses, Antão, após a morte de seus pais, ao ouvir no culto da igreja cristã copta da sua cidade — fundamental na história do surgimento do cristianismo — a passagem em que Jesus diz que quem quiser segui-lo, deve distribuir suas posses entre os pobres e viver na pobreza e na humildade, decide fazer o que Jesus disse. Leva sua irmã à casa de donzelas cristãs e parte para o deserto do Egito.

Santo Antão não queria apenas viver como Jesus, ele queria encontrar Deus — ou Cristo, como consagrará o Concílio de Niceia em 325 da era comum.

DUAS TEORIAS – Aqui vale um pequeno reparo. Este Concílio de Niceia, instaurado pelo imperador Constantino, visava discutir duas teorias acerca da pessoa de Cristo. Ou ele seria da “mesma substância” do Pai (“homoousios”, em grego), portanto, incriado e, também, Deus, ou ele seria, como queriam os arianos, os derrotados, mas, não extintos em Niceia, criado por Deus, como todos nós.

Importante ter em mente que o arianismo existe até hoje entre cristãos, ainda que não confessem o seu verdadeiro nome.

Santo Antão defenderá a posição de Niceia, de que Jesus continua vivo e é da “mesma substância” do Pai — na linguagem dos cultos se dizia assim, porque Antão, analfabeto, dificilmente entraria em controvérsias ontológicas sofisticadas, conhecidas como fundadoras da cristologia.

“EU O VI” – Segundo a fonte mais antiga da vida de Santo Antão — Santo Atanásio de Alexandria, mais jovem, mas contemporâneo, em parte, do monge, e que foi, também, um forte defensor da posição de Niceia contra o arianismo —, ele, supostamente, quando questionado por arianos, teria respondido: “Eu O vi”, ou seja, viu Jesus, vivo no deserto.

Santo Antão passou para a história da santidade como alguém que enfrentou o mal exteriormente —não que isso não o afetasse interiormente.

O grande demônio e seus pequenos demônios, na figura de animais ferozes, mulheres sedutoras, pessoas deformadas, insetos devoradores, tentaram duramente Antão, para que ele desistisse de Deus e do Cristo.

INFLUENCIADO FLAUBERT – Sua experiência no deserto, inclusive, passará para a história da arte e da literatura como as famosas “tentações de Santo Antão”. Entre muitos grandes que voltaram a essas tentações de Santo Antão, figura o grande Gustave Flaubert, que escreveu de 1848 a 1874 a sua “Tentação de Santo Antão”, reescrita várias vezes neste período.

Segundo o historiador René Fulop-Miller, no seu “Os Santos que Abalaram o Mundo”, da José Olympio Editora, vale comparar as experiências exteriores de desespero de Antão com o longo desespero interior, ou psicológico, como diríamos nós hoje, de Santo Agostinho.

Assim, os dois santos antigos repetem o perfil, muitas vezes desesperador, dos heróis do Velho Testamento. Viver com a mão de Deus sobre sua cabeça nunca foi coisa fácil.

“Leviandade: ex-chefe da FAB rebate Flávio após ser acusado de fazer campanha para Lula

Baptista Júnior diz que Flávio tentou fugir dos questionamentos

Deu no G1

O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), Carlos de Almeida Baptista Júnior, rebateu o candidato Flávio Bolsonaro (PL) de que ele estaria fazendo campanha para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A declaração de Flávio foi feita durante a entrevista à Globo na última sexta-feira (28). Conduziram o programa os jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli.

Para Baptista Júnior, a fala foi uma forma de evitar a pergunta dos jornalistas sobre a tentativa de golpe de Estado, na qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ele chamou a atitude de “leviandade” por parte de um candidato à Presidência.

FUGA DA RESPONSABILIDADE – “A leviandade de dizer que faço campanha para a reeleição do presidente Lula, apresentada para não abordar a verdadeira pergunta colocada no debate de ontem, na Globo, é antes de tudo, uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la — algo entendido na figura de filho, mas não de alguém que se proponha a nos presidir”, disse Baptista Júnior por meio de seu perfil no X.

Flávio foi questionado sobre depoimentos de generais que fizeram parte do governo Bolsonaro e que basearam o processo que condenou o ex-presidente e outros integrantes do gabinete.

RISCO IMINENTE – Segundo o candidato, depoimentos como os do brigadeiro Baptista Júnior e do general Freire Gomes, que mencionaram que houve um risco iminente de golpe de Estado e pressões para que militares aderissem a uma ruptura institucional, não eram graves.

“Não é grave porque está partindo de uma pessoa como esse comandante da Aeronáutica, que hoje está pedindo voto para Lula. Uma pessoa completamente parcial para falar sobre o presidente Bolsonaro”, disse.

Em resposta, Baptista Júnior disse ainda que seu livro, “Eu disse não! Uma trincheira antigolpista”, e seu testemunho no STF não tiveram relação com Flávio. “Talvez seja prudente aguardar, ler o livro e refletir, antes de outra entrevista”, disse o brigadeiro.

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Lula e Flávio: dois candidatos, uma mesma dificuldade em dar explicações

Candidatos embromam sobre os próprios casos

Dora Kramer
Folha

É direito de todo cidadão, eleitor ou não, cobrar franqueza e objetividade de governantes ou de qualquer um que postule o ofício da representação e, assim, pretenda ter poder de decisão sobre a vida da coletividade —em variados graus.

A escolha pela vida pública é livre; já seu exercício implica obrigações entre as quais está no topo da lista a permanente prestação de contas à sociedade dona dos votos e do dinheiro que sustenta a atividade.

CAMINHO DE RISCO – A opção pela mentira, a meia-verdade e a dissimulação é caminho de risco; expõe seus autores ao constrangimento de se verem despidos da virtude fabricada. O enunciado, de tão óbvio, soa a platitude. Anormal é a desfaçatez com que candidatos à Presidência da República fazem da transgressão ao princípio básico uma banalidade.

Não só escolhem ao que (não) responder como se dão ao desfrute de se indignar, mentir, enrolar, tratar perguntas como impertinência ou incompetência de entrevistadores.

Reações que tanto revelam o autoritarismo dos espíritos como podem evidenciar a ausência de explicações plausíveis ou conter a combinação das duas hipóteses: culpa aliada à prepotência. Invertem aí o preceito da submissão de suas conveniências ao direito da população ao conhecimento de tudo o que lhes diz respeito. Direta ou indiretamente.

ESCÂNDALOS – Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escolheram explorar os escândalos que rondam o adversário e reivindicam atenção aos planos de governo. É do jogo, mas se refugiam em evasivas quando confrontados com as respectivas vergonhas, contradições, imprecisões e vazios de ideias.

O presidente recorre ao velho truque de se pôr no lugar daquele que nada vê e nada sabe sobre o que se passa no seu entorno. O senador insiste em dar por superada uma questão que ficará em aberto enquanto ele não explicar para onde foi o dinheiro recebido do “irmão” Daniel Vorcaro. Ambos embromam, não respondem honestamente ao interesse do público nem afastam os fantasmas que os rodeiam.

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