Sem estratégia e sem debate, o crime organizado avança onde o Estado recuou

Mundo político trata o crime organizado pelo cálculo eleitoral

William Waack
Estadão

O sistema político brasileiro parece viver para si mesmo sem se dar conta de que o crime organizado se transformou no fator de risco número 1 para a própria política e a governabilidade. Entende-se aqui por sistema político não só os grupos e partidos mas também as estruturas formais do Estado, como o STF.

A erosão do monopólio do Estado na aplicação da violência já tem mais de quarenta anos e a acomodação das autoridades a essa situação idem. Em muitas das áreas sob domínio territorial do crime organizado duas gerações de brasileiros cresceram sem conhecer outro estado de coisas.

“CULTURA PRÓPRIA” – No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, desenvolveu-se até o que se poderia chamar de “cultura própria” – que (goste-se disso ou não) são canais de integração e solidariedade dentro de comunidades, capazes de conviver com a ferocidade dos traficantes e a dos agentes do Estado, visto em boa parte simultaneamente como ausente e inimigo.

Existe o que se poderia chamar nessas áreas até de “visão de mundo”, com nítida expressão na produção musical de grande propagação no mundo digital, por exemplo. Na qual figuras de projeção acusados de “apologia do crime” por uns simbolizam para grande parcela o sucesso a ser alcançado. O que é crime ou ilegal é coisa muito diferente dependendo de onde se anda hoje em algumas grandes cidades.

CÁLCULO ELEITORAL – Sem compreensão da gravidade desse contexto, o mundo político trata o fenômeno abrangente do crime organizado exclusivamente pelo cálculo eleitoral. No qual o governo federal está claramente em desvantagem – sua imagem continua associada a escândalos de corrupção e os cacoetes ideológicos o impediram durante décadas de entender que pobreza e desigualdade social não explicam necessariamente o crime (muito menos a penetração das instituições de Estado).

Não só o governo federal parece perdido, e incapaz de propor “coisas práticas” que permitam diminuir na população (não só nas áreas sob controle do tráfico) o sentimento de que “está tudo dominado”. A questão da segurança pública hoje no Brasil é de natureza política no seu sentido mais amplo, e não há sinais convincentes de que esteja sendo enfrentada com um mínimo de estratégia e esforço comum entre os entes da federação.

Ao contrário. O debate sério está interditado pela polarização política. Ações como a megaoperação do Rio – independentemente da sua letalidade ou eficácia na eliminação de combatentes adversários, e de seu maior ou menor planejamento – são antes uma expressão do não se saber o que fazer.

5 thoughts on “Sem estratégia e sem debate, o crime organizado avança onde o Estado recuou

  1. O mundo político trata o fenômeno abrangente do crime organizado exclusivamente pelo cálculo eleitoral

    Principalmente o mundo político do pt que tem os malfeitores como um grande potencial de eleitores.

  2. Derrite se reúne com Eduardo Cunha e diz que divulgará nova versão do Projeto Antifacção terça-feira

    O deputado Guilherme Derrite, relator do projeto Antifacção, saiu da sessão da Câmara na quarta-feira (12) e foi ao encontro dos ex-presidentes da Casa Eduardo Cunha e Arthur Lira.

    A conversa acontece em meio às dificuldades do relator em alcançar um acordo para aprovar a iniciativa, mesmo após apresentar quatro pareceres em seis dias.

    O atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), concordou em adiar a análise após oposição e governo pedirem mais tempo para debater a redação.

    Mesmo após a quarta versão ser divulgada, ainda há pontos em que o governo se queixa de má técnica legislativa e brechas que poderiam beneficiar faccionados.

    Do outro lado, bolsonaristas ainda tentam classificar facções como terroristas, algo rejeitado pela base do governo e que não se encontra na versão atual do texto de Derrite.

    Apesar das críticas à estratégia de Derrite em apresentar várias versões em curto espaço de tempo, o deputado, que se licenciou do cargo de secretário de Segurança da gestão de Tarcísio em SP, disse durante o jantar com seus mentores Cunha e Lira que deve apresentar novo parecer até a próxima terça-feira (18), data anunciada por Motta para a votação.

    (…)

    Fonte: O Globo, Política, 13/11/2025 14h13 Por Lauriberto Pompeu – Brasília

    Com mentoria do ‘experiente’ Cunha, agora vai!

  3. Enquanto isso…

    Diário do Poder 15NOV2025
    Nem a inveja matou

    O Ministro da Segurança de El Salvador, Gustavo Villatoro, anunciou que a nação latino-americana registrou, sexta (14), 1.060 dias consecutivos sem um único homicídio no país do presidente Nayib Bukele.

  4. O problema do Brasil é o tamanho do pais.
    Populações totalmente diferentes em suas regiões, e o que é pior, as decisões são todas tomadas em Brasília, que fica longe de tudo.
    Se houvesse mais autonomia para as regiões, inclusive com legislações diferentes e maior poder para autoridades locais talvez as coisas pudessem mudar.
    Mas do jeito que esta, ficará cada vez pior, mesmo contrariando os vaticínios do Tiririca.

Deixe um comentário para Janjão Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *