
André Mendonça mostra ser “tremendamente” correto
Carlos Newton
Neste início do importantíssimo ano eleitoral, o maior destaque da política nacional é hoje o ministro André Mendonça. Demonstrando firmeza e competência, ele está comandando as investigações que envolvem os três Poderes e podem mudar o país – as fraudes no INSS e o escândalo do Banco Master.
Sua mais recente façanha foi enquadrar o procurador-geral da União, Paulo Gonet, que é da mesma coudelaria dos ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que têm comandado o Supremo nos últimos anos.
PRISÃO DO VORCARO – Quando a Polícia Federal detectou a imensa gravidade do caso do Banco Master, houve reação do STF e o ministro Dias Toffoli, como relator, fez o possível e o impossível para estancar a sangria. A direção da PF então teve de recorrer a uma medida desesperada e jamais vista, louve-se a coragem do diretor Andrei Rodrigues.
Junto com os delegados que conduzem a apuração, o diretor da PF entregou um relatório de 200 páginas ao presidente do STF, Edson Fachin, pedindo-lhe que substituísse o relator Toffoli.
Fachin reuniu os ministros, enfrentou enorme resistência de Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, mas conseguiu atender à PF e o ministro André Mendonça foi sorteado relator.
PURIFICAÇÃO – De lá para cá, o Supremo está passando por uma experiência de purificação. As investigações dos importantíssimos casos INSS e Master aceleram a todo vapor, incriminando autoridades de República, ministros do próprio STF e até o filho fenômeno do atual presidente Lula da Silva.
Diante da gravidade dos fatos e da existência do capanga Sicário como pistoleiro de aluguel, a Polícia Federal pediu a prisão de Vorcaro e dos principais cúmplices, mas o procurador-geral da União, Paulo Gonet, tentou fazer corpo mole.
Mendonça não teve dúvidas. Determinou que a PF fizesse logo a operação e fez até um desabafo, ao lamentar publicamente o posicionamento subalterno do procurador Gonet, que teve de engolir a prisão preventiva dos criminosos.
EVANGÉLICO? – Ao indicar Mendonça para o Supremo, o então presidente Jair Bolsonaro, disse que o escolhera por ser “tremendamente evangélico”. Na época julgava-se que seria pastor de alguma dessas seitas pentecostais que se multiplicam no país, mas na verdade Mendonça é pastor presbiteriano, de um dos tradicionais ramos protestantes, diplomou-se na Faculdade Teológica Sul Americana e presta serviços religiosos sem remuneração.
Mendonça está indo bem no STF e agora demonstra ser terrivelmente correto. Sabe que tem a oportunidade de limpar o país e escrever seu nome na História. Para isso, é claro, terá de neutralizar a troika que comandou o Supremo nos últimos anos, formada por Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que agora está inteiramente esfacelada.
Curiosamente, esses três ministros são os que acumularam grandes fortunas e têm pavor que alguém possa acessar suas contas bancárias. Por que será?
###
P.S. – No intrincado xadrez político do Supremo, uma peça-chave é hoje Flávio Dino, que está investindo contra os penduricalhos, uma outra vergonha nacional. Se ele tiver juízo e se afastar da influência de Toffoli, Moraes e Gilmar, pode se fortalecer a tal ponto que lhe permita sonhar com uma eleição presidencial, conforme o comentarista José Perez previu em recente artigo aqui na Tribuna da Internet. (C.N.)
O Master acabou no STF
O código de ética proposto pelo ministro Edson Fachin estava nas cordas quando os celulares de Daniel Vorcaro começaram a falar. Entre os ministros que se opunham à proposta estavam Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Por caminhos diferentes, os dois levaram o escândalo do banco para dentro do Supremo.
Toffoli teve um resort, do qual era sócio, vendido ao cunhado de Vorcaro. Moraes enviava mensagens ao banqueiro, e a banca de advocacia de sua mulher e de seus filhos havia sido contratada pelo banco, com honorários milionários, de R$ 3,6 milhões mensais.
Ao longo de todas as encrencas, os dois ministros conseguiram se proteger, vendo nas notícias uma tentativa de atacar o Supremo. O Supremo tem tanto a ver com as conexões dos ministros quanto com a morte do aiatolá Ali Khamenei.
Se existisse um código de conduta, Toffoli poderia dizer aos sócios do resort que a negociação era tóxica e Moraes afastaria a banca da família do banco de Vorcaro. No mínimo diriam que o tribunal tem um código de conduta.
Vorcaro tinha amigos no Legislativo e, no bolso, altos funcionários do Banco Central. Seria o jogo jogado: um banqueiro corrupto compra parlamentares e burocratas. A entrada de magistrados na sua rede de influência é uma novidade. (Talvez isso tenha acontecido porque em casos anteriores a ação da Polícia Federal tenha sido anestesiada.)
A bola do código de conduta dos magistrados está com o ministro Edson Fachin e com a relatora Cármen Lúcia. Eles deverão decidir a melhor oportunidade para anunciar o texto do projeto.
Nem tão rápido que pareça prejulgamento, nem tão lento que vire pizza fria.
Fonte: O Globo, Opinião, 08/03/2026 03h30 Por Elio Gaspari
A rede de Vorcaro
A operação abafa destinada a livrar a cara do banqueiro Daniel Vorcaro teve a virtude de colocar mais holofotes sobre suas conexões.
O ministro André Mendonça substituiu seu colega Dias Toffoli e puxou o tapete da turma do abafa. Ele mandou Vorcaro para a cadeia com uma decisão de 48 páginas que expôs a milícia e as altas conexões de Vorcaro. Com habilidade, evitou citar vários hierarcas que têm foro privilegiado.
Com base nas investigações da Polícia Federal e no conteúdo dos celulares de Vorcaro, Mendonça sabe muito mais.
Fonte: O Globo, Opinião, 08/03/2026 03h30 Por Elio Gaspari
Cronologia: Caso Vorkaro pelas datas em que as coisas aconteceram
No dia 13 de agosto de 2024 o senador Ciro Nogueira apresentou emenda a uma proposta que alterava a autonomia do Banco Central, elevando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a conta a ser coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Ou seja, a conta de uma eventual quebra do Master iria para o sistema bancário. Uma “bomba atômica no mercado financeiro”, segundo Vorcaro.
A emenda não andou.
No dia 4 de dezembro, levado pelo ex-ministro Guido Mantega, Vorcaro foi recebido por Lula num encontro fora da agenda pública. Acautelando-se, Lula chamou três testemunhas: Gabriel Galípolo (então diretor do Banco Central), Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). Lula disse-lhe que seus pleitos seriam discutidos tecnicamente pelo Banco Central.
O diretor de Fiscalização (Paulo Sérgio Neves de Souza) e o chefe do Departamento de Supervisão bancária, Belline Santana, estavam no bolso de Vorcaro.
No dia 28 de março de 2025, o Banco de Brasília, o BRB, anunciou a compra de 58% das ações do Master.
A 4 de abril Galípolo discutiu com os quatro grandes bancos do país uma solução para os ativos do Master que não seriam adquiridos pelo BRB, por serem considerados de maior risco. A expectativa, na ocasião, era de um acordo envolvendo o uso do FGC.
Em abril de 2025, cinco meses depois da ida de Vorcaro a Lula, o Banco Central pediu ao Fundo Garantidor de Créditos um empréstimo de R$ 11 bilhões para salvar o Master. O FGC liberou R$ 5,7 bilhões.
Como se viu, não adiantou.
Fonte: O Globo, Opinião, 08/03/2026 03h30 Por Elio Gaspari