
Lula começa a recalibrar sua posição diante de uma crise
Pedro do Coutto
A política brasileira raramente se move apenas por convicções — quase sempre é guiada por termômetros mais sensíveis e menos visíveis. Um deles, talvez o mais decisivo em ano eleitoral, é a percepção difusa da opinião pública.
É nesse terreno instável que o governo de Lula da Silva começa a recalibrar sua posição diante de uma crise que não controla, mas que pode lhe custar caro: o desgaste do Supremo Tribunal Federal.
MOVIMENTO SILENCIOSO – Reportagens de O Globo e análises paralelas de institutos de pesquisa revelam um movimento silencioso, porém estratégico: o Palácio do Planalto busca se descolar de qualquer associação direta com decisões ou controvérsias que envolvam a Corte. Não se trata de ruptura institucional — algo impensável no atual arranjo democrático —, mas de um reposicionamento narrativo.
A razão é simples, embora politicamente delicada. A crise envolvendo o chamado “caso Master”, somada a episódios que atingem a imagem de ministros como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, começa a contaminar o ambiente político mais amplo. Ainda que os fatos não estejam diretamente ligados ao governo, a percepção pública tende a operar por associação — e é exatamente isso que preocupa o núcleo político de Lula.
Os dados disponíveis são menos conclusivos do que reveladores. Há um grau elevado de desinformação ou desconhecimento: parcelas significativas da população simplesmente não sabem opinar sobre o tema. Esse vazio, longe de ser neutro, é perigoso. Ele abre espaço para narrativas concorrentes — muitas vezes simplificadas ou distorcidas — que podem atribuir responsabilidades de forma imprecisa.
CONEXÕES – Ainda assim, alguns padrões emergem. Uma parte relevante dos entrevistados associa problemas no Judiciário a governos anteriores, especialmente ao período de Jair Bolsonaro. Mas há também um contingente expressivo que já começa a enxergar conexões com o presente. Mais importante do que os percentuais específicos é o sinal político: o tema entrou no radar do eleitor.
Diante disso, o Partido dos Trabalhadores prepara uma resposta que mistura formulação programática e estratégia eleitoral. No seu novo programa — a ser apresentado no congresso da legenda — surge a proposta de uma reforma do Judiciário, com foco em códigos de ética, normas de conduta e maior transparência nas cortes superiores.
A iniciativa carrega uma ambiguidade calculada. Por um lado, permite ao partido reconhecer problemas institucionais sem confrontar diretamente o STF. Por outro, sinaliza à sociedade que há disposição para mudanças — uma tentativa de ocupar o espaço crítico antes que ele seja monopolizado pela oposição.
FORMULADOR ESTRATÉGICO – A coordenação desse novo programa por José Dirceu não é um detalhe menor. Personagem central em um dos maiores escândalos políticos do país, Dirceu reaparece como formulador estratégico, defendendo publicamente reformas no Supremo. Sua presença adiciona complexidade ao discurso petista: ao mesmo tempo em que reforça a experiência política, também reativa memórias sensíveis no eleitorado.
Enquanto isso, o pano de fundo institucional agrava o quadro. Órgãos de controle enfrentam fragilidades evidentes. A Comissão de Valores Mobiliários, por exemplo, atravessa um período de inércia preocupante, sem liderança efetiva e com baixa capacidade de resposta. Em qualquer democracia funcional, esse tipo de vazio regulatório tende a produzir efeitos previsíveis: redução da fiscalização e aumento do risco de práticas irregulares.
Esse cenário reforça uma percepção mais ampla, apontada por especialistas e organismos internacionais: a credibilidade das instituições não depende apenas de sua autonomia formal, mas da sua capacidade concreta de მოქმედação. Quando essa capacidade falha, a confiança pública se deteriora — e, com ela, a estabilidade política.
DESGASTE – É nesse ponto que o cálculo do governo se revela mais nítido. Ao adotar uma postura de distanciamento, Lula tenta evitar que o desgaste institucional se transforme em desgaste eleitoral. Não se trata de negar a importância do STF, mas de reconhecer que sua defesa irrestrita, neste momento, pode ser politicamente tóxica.
O risco, porém, é evidente. Ao se afastar demais, o governo pode alimentar a percepção de oportunismo ou fragilidade. Ao se aproximar, corre o risco oposto: ser arrastado por uma crise que não controla. Entre esses dois polos, constrói-se uma estratégia de equilíbrio — instável, mas necessária.
O episódio expõe uma verdade recorrente na política brasileira: crises institucionais raramente ficam confinadas às instituições. Elas transbordam, contaminam narrativas e, sobretudo, moldam eleições. Lula parece ter compreendido isso — resta saber se o eleitor compreenderá da mesma forma.