Campanhas fortaleceram militância, mas esqueceram quem vai definir esta eleição

Flávio e Lula não conseguem conversar com quem irá definir as eleições

Radicalização assusta indeciscos, ao invés de atrair

Fabiano Lana
Estadão

Em um país simetricamente cindido em divisões formadas por milhões de eleitores, é muito fácil pregar para os adeptos – principalmente os fanáticos. Irão rapidamente para as redes, para as avenidas. Carregarão bandeiras, irão atormentar os integrantes de seus grupos de conversa, em busca de virar votos.

Mas a diminuta parcela de indecisos, em torno de 2%, que serão cruciais para determinar a vitória, segue como plano C ou D dos candidatos ou equipes de campanha. Não conseguem conversar com quem irá definir as eleições.

TUDO MUITO ÓBVIO – Os movimentos do petismo e do bolsonarismo foram óbvios nesse sentido de falar para os seus. Na primeira semana, enquanto Flávio Bolsonaro, embevecido pelo resultado preliminar, angariava apoios burocráticos, o PT deitou-se no divã da frustração.

Na segunda semana, houve a relargada de forte mobilização petista, com anúncios populistas, manifestações por todo o Brasil, pressão para pessoas públicas se posicionarem e a consolidação do tal exército do deputado André Janones, um político a quem pesam acusações comprovadas de machismo, de misoginia, mas a quem a maioria dos apoiadores de Lula perdoou em nome da vitória.

Flávio, por sua vez, parecia algo apático (fora anunciar outras medidas também de cunho “popular”, nos moldes de seu adversário).

NA RUA E NA TV – Na terceira semana, o bolsonarismo acorda com uma grande manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, e a participação bélica de Flávio Bolsonaro no debate Band/Estadão – com mentoria do coach Pablo Marçal.

Fora mais uma demagogia, como a antecipação do pagamento de parcela reajustada referente ao programa Bolsa Família, na véspera do pleito. Ainda não se sabe qual será a cartada final do petismo, ainda abalado com a pancaria do último domingo.

Trazer pessoas histriônicas e retoricamente agressivas para a campanha, como Janones e Marçal, chantagear personalidades a declarar votos, insistir em medidas eleitoreiras e imediatistas, investir em hostilidade em encontro presencial de candidatos, tudo isso espanta o tal indeciso. Até porque esse tipo de eleitor é de fato fugidio. Não está nas ruas com bandeira, pode não se manifestar nem mesmo entre a família, não acredita que declaração de voto seja prova de virtude. E, pasmem, talvez goste de fazer contas para saber se promessas cabem no orçamento.

DEBATE CHATO – O debate é uma porcaria – mas os eleitores querem algo diferente? De fato, é bastante difícil fazer campanha para essa minoria neste momento.

Teria de ser necessário, por exemplo, discutir projetos e propostas de maneira racional, o que parece inviável em conjuntura de histeria generalizada.

Exigiria sobriedade quando a onda é de contundência e assertividade. Seria algo considerado frio e calculista quando os grupos mobilizados pedem incêndios e fervuras. Mas poderia ser o caminho mais eficiente.

Juízes eleitorais atuam como advogados em processo nos tribunais superiores

História em quadrinhos alerta sobre assédio eleitoral no trabalho; veja revista

Reprodução do Arquivo Googlr

Hugo Henud
Estadão

Advogados que hoje ocupam vagas de juiz no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de todo o País aparecem como representantes de partes em pelo menos 3.880 processos em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O acúmulo das duas atividades é permitido pelas regras atuais, que autorizam esses profissionais a continuar advogando em outros ramos da Justiça durante o mandato, mas os impedem de atuar perante a própria Justiça Eleitoral.

EM TRAMITAÇÃO – O levantamento do Estadão cruzou os nomes dos advogados que atualmente integram o TSE e os 27 TREs com as bases processuais dos dois tribunais superiores, considerando apenas as ações ainda em andamento. A presença nesses processos, porém, não significa necessariamente que a atuação profissional tenha começado depois da posse na Justiça Eleitoral. Parte das causas pode ter sido assumida anteriormente e permanecido em tramitação durante o mandato.

Para especialistas, o modelo abre margem para conflitos de interesse ao permitir que profissionais responsáveis por julgar disputas eleitorais mantenham, simultaneamente, relações advocatícias com clientes privados. Também é alvo de críticas a ausência de quarentena após o mandato, o que permite aos ex-juízes voltar a advogar imediatamente, inclusive perante os tribunais dos quais fizeram parte.

“A advocacia conseguiu driblar qualquer tipo de iniciativa razoável de proibir que, enquanto um jurista é ministro do TSE, ele possa também advogar”, afirma o professor de Direito Constitucional da USP Conrado Hübner Mendes. “Por mais sério e honesto que essa pessoa seja, o exercício da advocacia em paralelo ao cargo cria conflitos”, acrescenta.

RESERVA – A presença de advogados nas cortes decorre da própria composição da Justiça Eleitoral, que reserva à classe duas das sete cadeiras titulares do TSE e duas em cada um dos 27 TREs, além de igual número de vagas para substitutos. Nomeados pelo presidente da República para mandatos de dois anos, renováveis uma vez, esses profissionais podem exercer a função de juiz por até quatro anos. Os titulares participam regularmente dos julgamentos, enquanto os substitutos são convocados nas hipóteses previstas pelas regras dos tribunais.

Fora da Justiça Eleitoral, a maior parte dos processos em que esses profissionais aparecem como advogados tramita no STJ. Dos 3.880 registros identificados pelo levantamento, 3.836, ou 98,9%, estão na corte responsável por uniformizar a interpretação da legislação federal. Ali chegam desde disputas empresariais e tributárias até processos criminais e controvérsias envolvendo a administração pública. Os outros 44 processos, equivalentes a 1,1% do total, tramitam no STF, responsável por julgar questões constitucionais.

Lula praticou crime de responsabilidade no caso das Bets e pode sofrer impeachment

Poder360 on X: "📹#vídeo Lula diz que bolsonarismo quer "povo endividado por bets" 💸Presidente assinou, em 25 de setembro, MP que proíbe os cassinos on-line no Brasil. 👇Assista ao vídeo:" / X

Charge do Kariston Franco (Poder360)

Carlos Newton

Na ânsia de ganhar a eleição, o presidente Lula da Silva (PT) se complicou de tal maneira que está jogando fora o que lhe resta de futuro político, a partir do maior erro cometido no atual mandato – a  regulamentação ilegal das apostas Bets (Lei 14.790/2023 e Portaria 1231/2024), em flagrante descumprimento à Lei de Contravenções Penais.

As medidas irregulares foram assinadas por Lula e pelo então ministro Fernando Haddad, da Fazenda, que passaram a ser réus num processo de ação popular que tramita na 18ª Vara Federal Cível de Brasília, visando a anular a regulamentação das Bets.

MAIS GRAVE – O problema de Lula, porém, é muito mais grave do que parecia no início. Ao serem apresentadas na ação popular as diferentes provas contra a regulamentação ilegal das Bets, foi sendo consolidada a certeza de que Lula pode responder também por crime de responsabilidade, que dá motivo a impeachment, como aconteceu com Fernando Collor e depois com Dilma Rousseff..

No caso das Bets, a situação jurídica de Lula não melhorou nada, apesar da tardia Medida Provisória 1394, de 25 de setembro de 2026, assinada junto com o atual ministro Mauro Duringan, substituto de Haddad, reconhecendo que a regulamentação das bets tinha sido mesmo ilegal.

Aa assinar a MP, o principal objetivo de Lula era evitar perder votos das vítimas das Bets e de seus parentes e amigos. Ao mesmo tempo, o presidente pretendia também que houvesse complacência da Justiça, pois inevitavelmente ocorrerá renhida disputa judicial, com recursos apresentados pelas empresas de Bets, entre elas a própria Organização Globo, que é sócia da MGM americana.

FORA DA LEI – A situação de Lula ficou complicadíssima, porque, ao autorizar o funcionamento das Bets, o presidente da República possibilitou diretamente o descumprimento da Lei de Contravenções Penais, ilícito que configura crime de responsabilidade.

Segundo o inciso 7º do artigo 8º da Lei 1.079/1950, que define os crimes de responsabilidade e regula o respectivo processo de julgamento, é crime contra a segurança interna do país “permitir, de forma expressa ou tácita, a infração de lei federal de ordem pública”.

No caso, a Lei de Contravenções Penais se caracteriza exatamente como “lei federal de ordem pública”. E a denúncia de crime de responsabilidade pode ser feita por qualquer cidadão, no uso de seus direitos.

RÉU CONFESSO – O caso é especialíssimo. Ao baixar a recente Medida Provisória que proibiu o funcionamento das Bets, Lula tornou-se réu confesso, porque admitiu ter praticado erro na medida anterior que regulamentou ilegalmente o esquema das apostas por cota fixa – e esse erro é enquadrado como crime de responsabilidade.

Para denunciar um crime de responsabilidade, o procedimento é feito perante o Poder Legislativo (Câmara dos Deputados), conforme estabelece a Lei 1.079/50:

Qualquer cidadão brasileiro no exercício dos seus direitos políticos pode apresentar a denúncia, protocolada diretamente na Câmara dos Deputado, com firma reconhecida do denunciante.

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P.S. 1 –
O processo deve ser acompanhado de documentos que comprovem os fatos ou, caso isso seja impossível, uma declaração indicando onde tais provas podem ser encontradas. Se houver prova testemunhal, a petição deve conter um rol de testemunhas (no mínimo cinco).

P.S. 2 – Nos crimes de responsabilidade do presidente da República e dos ministros de Estado, a Câmara dos Deputados é tribunal de pronúncia e o Senado Federal funciona como tribunal de julgamento, necessitando votos de dois terços dos senadores (54) para aprovação do impeachment. Parece muito, mas é pouco. (C.N.)  

Debate entre Lula e Flávio não resolve disputa pelo voto dos indecisos

Marçal manda aliados de Flávio evitar ataques a Lula e explorar medo dos eleitores

A bancada do centrão até encolheu, mas continua como dona da governabilidade

PT assina pedido de CPMI sobre Lulinha e cobra Flávio por comissão que mira senador

PT pressiona Flávio a apoiar investigação sobre INSS e Master

Bela Megale
O Globo

Lideranças do PT assinaram o pedido de abertura de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) para investigar a lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, conhecido como Lulinha.

Entre os signatários do documento estão o ex-ministro da Educação e líder do PT no Senado, Camilo Santana, a líder do governo no Senado, Tereza Leitão, e o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai.

DESAFIO – Em contrapartida, parlamentares do PT e ministros do governo lançaram o desafio a Flávio Bolsonaro e a aliados do senador para assinarem o pedido de CPMI que apura a ligação do presidenciável com os desvios do INSS e o escândalo do Banco Master, envolvendo Daniel Vorcaro.

A comissão tem como foco apurar o pagamento de US$ 24 milhões por Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro para o filme “Dark Horse”, além das relações do senador com o advogado Willer Tomaz, alvo de investigação da Polícia Federal. Nem Flávio, nem seus aliados assinaram o pedido de abertura da CPMI que mira o senador.

Flávio promete acabar com entraves ambientais e provoca reação de entidades

Coordenador da campanha de Lula diz que Lulinha vive na Espanha com padrão de classe média

Lulinha vive na Espanha de forma “modesta”, diz advogado

Poliana Santos
CNN

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou em entrevista exclusiva à CNN nesta segunda-feira (19) que o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, vive na Espanha de “forma modesta”, com um padrão de vida de classe média.

“Ele vive na Espanha, onde cria e educa seus filhos de forma digna, embora modesta. Uma vida de classe média, como resultado do seu trabalho”, disse o advogado.

PLANEJAMENTO – Marco Aurélio rebateu a possibilidade de Lulinha ter se mudado para a Europa como forma de fugir das investigações. Segundo ele, o planejamento da mudança para a Espanha começou antes, com o objetivo de “criar seus filhos na tranquilidade”.

“Ele achou que poderia criar os filhos com certa tranquilidade na Espanha, que ali não iria carregar o peso do sobrenome, de ser filho do presidente Lula, e que não iria sofrer as perseguições que costumeiramente sofre, em especial no período das eleições”, disse.

“Então, em 2024, ele começou a fazer a mudança, a matrícula, a escola. Em 2025, ele foi para a Espanha, onde vive de forma absolutamente compatível com o que recebe”, concluiu.

ÁREA PRIVADA – O coordenador explicou que Lulinha atua na área privada, com prestação de consultoria em ESG (ambiental, social e governança), sem relação “direta ou indireta com o governo brasileiro”.

O filho mais velho do presidente Lula é investigado em três inquéritos. As apurações miram suspeitas de tráfico de influência e corrupção em benefício de empresas junto ao governo federal. Lulinha nega irregularidades em sua atuação.

Ele entrou na mira das investigações após a divulgação de sua proximidade com a lobista Roberta Luchsinger, que foi alvo, em dezembro do ano passado, da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

R$ 5 bilhões em bets: Amigo de Flávio aparece como maior apostador do país

Lula ganha munição eleitoral com plano de Flávio para o Bolsa Família

Fala de Daniella Marques foi descrita como “ouro puro”

Bela Megale
O Globo

A campanha de Lula vai explorar o plano de Flávio Bolsonaro de implementar uma “regra de transição de dois anos” do programa Bolsa Família. Segundo entrevista da coordenadora do núcleo econômico da campanha do senador, Daniella Marques, à CBN Bahia, esse período servirá para que os beneficiários abram seus negócios ou aceitem empregos de carteira assinada. Caso não consigam nenhuma dessas oportunidades, teriam o benefício renovado de maneira automática.

A fala de Daniella Marques foi descrita como “ouro puro” por membros da campanha de Lula, que têm explorado que Flávio Bolsonaro acabará com o Bolsa Família e outros programas sociais, o que o senador nega.

 REGRA DE TRANSIÇÃO – “Vai ter regra de transição de dois anos [no Bolsa Família] para que possa abrir seu negócio, ou aceitar emprego de carteira assinada. E um retorno automático caso dê errado. As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada. Todo mundo merece sonhar com algo com mais oportunidade, dignidade”, disse Marques, em entrevista à CBN Bahia.

Danielle Marques disse que já existe a regra de transição e que o plano de Flávio é dobrar o período: “Existe uma regra hoje de um ano e nós vamos dobrar. Nosso objetivo é incentivar a pessoa a melhorar de vida, buscar um emprego ou abrir um negócio e mesmo assim ter a proteção do Bolsa Família, para poder dar o próximo passo sem medo. Não há desligamento algum. Quem diz isso está mentindo. É má-fé com quem mais precisa do apoio do Estado”. A fala da coordenadora da equipe econômica de Flávio será usada pelos petistas na busca de reforçar o discurso do medo com a eleição do candidato do PL.

Lula aciona TSE e acusa Meta de favorecer Flávio Bolsonaro com inteligência artificial

No Dia do Poeta, uma mensagem de quem sente o significado da poesia

Efigenia Coutinho Mallemont (@efigenia.coutinho.5) • Facebook

Efigênia Coutinho: poeta, sempre poeta

Paulo Peres
Poemas & Canções

Hoje é o Dia do Poeta e, neste sentido, publicamos a definição de “Ser Poeta”, na visão da artista plástica e poeta Efigênia Coutinho, nascida em Petrópolis (RJ). A seu ver, a poesia será sempre um meio de comunicação de sentimentos na escrita. “Tenho um ritmo pessoal, operando desvios de ângulos, mas sem perder de vista a tradição, procurando atingir o núcleo da ideia essencial, a imagem mais direta possível, abolindo as passagens intermediárias”, revela.

SER POETA
Efigênia Coutinho

A noite sempre cálida me espera,
Tenho em versos a recente emoção
Da inquietude que abraça a quimera,
Enquanto no meu peito pulsa a oração.

A noite ouve o acalanto, esta voz
Que brada a rima solta, e então viajo;
E busco o sopro terno do ninar em nós,
Onde se farta o frêmito voraz, que trajo.

Lá , ao vento espalhado, e envolto,
Meu verso solto, que diz: mortal, eu sou,
Na arte que te fecunda e faz envolto…

Porque ser poeta é ser alguém que embelezou
A prosa e o lado vil do caso vário,
E deu-se a Deus que equilibra este rosário.

Flávio promete governo próprio, mas mantém Bolsonaro como principal conselheiro

Cariocas e vítimas da violência, vejam só o que Lula realmente pensa de vocês

Band vence Globo com debate Lula x Flávio Bolsonaro - 18/10/2026 - Outro  Canal - F5

Lula deu bobeira e chamou os cariocas de “malandros”

Rogério Pires
Revista TimeLine

Faltavam poucos minutos para o fim do primeiro bloco quando o presidente da República resolveu explicar ao Brasil o que pensa de quem nasceu no Rio de Janeiro. Diante das câmeras da Band, no primeiro encontro com Flávio Bolsonaro em toda a campanha, Lula chamou o adversário de “malandro carioca”.

Não foi escorregão de botequim. Foi escolha de palavra, em horário nobre, a uma semana do segundo turno. Eu estudei na Escola Técnica Visconde de Mauá, em Marechal Hermes. Saí de lá técnico em eletrônica e passei mais de vinte anos no serviço público ao lado de gente que pega trem lotado antes de o sol nascer e só volta para casa à noite. Professores, enfermeiras, vigilantes, estudantes que conciliam emprego e curso noturno. Conheço o carioca de perto. Malandro não é a palavra que me vem à cabeça.

DEFORMAÇÃO – Para o presidente, porém, o lugar de nascimento parece bastar como acusação. Ele colou a origem a um defeito de caráter, como quem repete piada velha em mesa de bar. Flávio abriu o bloco seguinte prestando solidariedade aos moradores do Rio. Fez o que qualquer representante do estado deveria fazer.

A segunda cena foi ainda mais reveladora. Ao falar de Dani Marques, coordenadora do programa econômico da campanha adversária, Lula não disse o nome dela. Chamou-a de “sua mulher da economia”.

Pense no peso dessa expressão. Daniella Marques nasceu em Barra Mansa, é economista formada pela PUC-Rio e presidiu a Caixa Econômica Federal, um dos maiores bancos públicos do país. Foi demitida pelo próprio Lula em janeiro de 2023. Ele conhece bem a trajetória dela. Escolheu apagar o nome e reduzi-la a um pronome possessivo, como se ela pertencesse a alguém.

“TOMAR TOQUE” – Flávio chamou a fala de machista e definiu Dani como uma profissional capacitada e gabaritada. E não é a primeira vez. No fim de setembro, a própria Dani classificou como abjeta outra declaração do presidente, aquela em que ele disse que as mulheres se acostumam a “tomar toque” desde pequenas.

Quantas vezes uma mulher competente precisa ouvir isso até alguém dizer basta? Não é deslize. É padrão. Quem acha que a noite de domingo foi um acidente não acompanhou os últimos 26 anos.

Em 2000, enquanto ajeitava a gravata do candidato do PT à prefeitura de Pelotas antes de uma gravação, Lula perguntou se aquela era uma “cidade-polo, exportadora de veados”. A piada virou capítulo obrigatório no catálogo de falas preconceituosas da política brasileira.

GRELO DURO – Em 2016, um grampo da Lava Jato registrou o então ex-presidente cobrando do aliado Paulo Vannuchi uma reação das deputadas do partido: “Cadê as mulheres de grelo duro do nosso partido?”

Em julho de 2023, em Cabo Verde, disse ter profunda gratidão à África por tudo o que foi produzido em 350 anos de escravidão no Brasil. Até a própria ministra da Cultura na época, Margareth Menezes, condenou e admitiu que a frase foi “mal colocada”.

Em fevereiro de 2024, numa fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, havia uma jovem negra no palco. Chamava-se Luiza Eduarda Leôncio, tinha 20 anos, estudava engenharia na Universidade Federal do ABC e acabara de ser eleita a melhor aprendiz da montadora, com direito a representar o Brasil num evento na Alemanha.

MÉRITO E COR – Lula olhou para ela e imaginou que fosse cantora. Depois explicou ao público por que pensou assim: “uma afrodescendente assim gosta de um batuque, de um tambor”. Luiza estava ali pelo mérito. O presidente só enxergou a cor.

Em julho de 2024, no Palácio do Planalto, comentou uma pesquisa que mostra o aumento da violência contra a mulher depois dos jogos de futebol. E soltou: “Se o cara é corintiano, tudo bem, como eu”. Quem respondeu à altura foi a ministra das Mulheres do governo dele, Cida Gonçalves, ao dizer que não aceita piadinha nem de presidente da República.

Em agosto de 2025, em Sorocaba, ao lançar unidades do Brasil Sorridente, Lula contou que mandou arrancar de uma revista oficial a foto de um senhor negro que sorria. A intenção declarada era condenar o preconceito da imagem. A frase que ele escolheu para isso foi “um cara sem dente e ainda negro”. Rendeu notícia-crime na PGR, protocolada pelo deputado Helio Lopes.

PRECONCEITUOSO -Seis episódios. Gays, mulheres, negros, vítimas da violência doméstica. Em todos, a mesma defesa: brincadeira, frase tirada de contexto, má vontade de quem ouviu.

E então veio o momento que vai ficar. No debate, pouco antes, Flávio havia citado casos de pessoas assassinadas por condenados que estavam fora da cadeia. Lula respondeu defendendo os bandidos condenados, sem a menor cerimônia ou qualquer sentimento ou ainda, preocupação com as vítimas.

Aí veio a pergunta que ele não queria ouvir. Por que quase três em cada quatro presos votaram nele no primeiro turno? O número é do TSE: 72,6% dos votos válidos nas seções dos presídios. Lula não explicou. Dobrou a aposta. “Eu quero que vote cem por cento.”

Em tom de deboche. E parte da plateia riu junto. Flávio, não. “Você foi eleito por aclamação nos presídios, você representa eles”, devolveu.

AULA DE CIVILIDADE – Na mesma noite em que defendeu quem cumpre pena, o presidente transformou o voto da cadeia em piada de palco. Duvido que as famílias das vítimas citadas minutos antes tenham achado graça.

Ao chegar à Band, Lula disse esperar que o debate fosse uma aula de civilidade. Saiu de lá tendo chamado o adversário de miliciano, de malandro carioca e de mentiroso contumaz. O clima esquentou tanto que, nas considerações finais, o debate precisou ser interrompido em meio aos gritos.

Propaganda eleitoral tem edição, trilha sonora e luz bonita. Debate ao vivo não tem. Por isso ele importa tanto. É ali que o candidato aparece sem filtro. E o Brasil viu, numa só noite, o que o presidente pensa do Rio de Janeiro, das mulheres que discordam dele e das vítimas da violência.

HAVERÁ REAÇÕES – Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A disputa segue aberta e se decide no próximo domingo, 25 de outubro.

Até lá, cada carioca que já foi tratado como suspeito por causa do CEP, cada mulher que já foi apresentada como “a mulher de alguém” numa reunião, cada jovem negro que já teve o mérito confundido com estereótipo e cada família que ainda espera justiça terá uma semana para pensar no que ouviu. Eu já pensei. E não vou esquecer.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Excelente artigo, enviado pelo comentarista Mário Assis Causanilhas. Mostra que o maior inimigo de Lula chama-se Luiz Inácio. Cada vez que ele fala, o petista perde votos. (C.N.)

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Quando o debate político se radicaliza, perde de vista o verdadeiro Brasil

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Dá pra apontar um vencedor do debate com presidenciáveis na Band?

Lula se atrapalhou todo e facilitou a vida de Flávio

Carlos Newton

Desde a primeira disputa da redemocratização, entre Lula da Silva e Fernando Collor, na eleição de 1989, jamais ocorreu um debate tão importante quanto o realizado neste domingo pela Band.

Naquela época colorida, o jovem político alagoano destruiu o sindicalista com a maior facilidade, simplesmente exibindo uma pasta na qual dizia haver documentos e fotos mostrando que Lula nada tinha de operário, vivia no maior conforto numa casa própria de dois andares sem pagar aluguel, tinha automóvel e até um aparelho 3 em 1, o eletrodoméstico sonho de consumo da classe média, com rádio, vitrola e televisão no mesmo móvel.

ERA TUDO VERDADE – Lula ficou encagaçado, Collor nem chegou a exibir os documentos e apenas mencionou que na sala de Lula havia o aparelho 3 em 1. Foi o que bastou para emparedar o criador do PT.

O debate foi favorável a Collor, e os jornais deram grande destaque ao eletrodoméstico. Porém, para garantir a eleição, o jornalista Alberico Souza Cruz, a pedido da direção da TV Globo, conduziu a famosa edição do vídeo para destacar o desempenho do político alagoano.

Naquela época, Lula tinha fortes motivos para temer as informações de Collor, porque ainda recebia pagamento para atuar como agente infiltrado pelo regime militar entre os sindicalistas, seu protetor Romeu Tuma era diretor-geral da PF e já tinha sido  convidado a integrar a equipe do governo Collor, acumulando a direção da Receita Federal.

INFERIORIDADE – Quase quarenta anos depois, Lula volta a participar de debate, novamente em situação de inferioridade. Antes, perdera pela inexperiência, mas agora foi a idade que pesou, na condição de mais velho presidente eleito no mundo.  

Apesar da idade, a arrogância de Lula não tem limites, ele julgou que Flávio Bolsonaro seria presa fácil, mas o debate não funcionou assim. Pelo contrário, o candidato do PL se preparou, estudou o que dizer e ensaiou até mesma a postura no estúdio.

Há quem ache que Lula se saiu bem no debate, mas minha ironia não chega a tanto. Foi o último debate presidencial de sua vida e talvez o último também do PT, porque o velho sindicalista não permitiu que surgisse nenhuma liderança alternativa, e hoje o PT ficou tão envelhecido e envilecido quanto Lula, que já não consegue presidir os próprios passos.

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P.S. 1 – Citei a expressão “envilecido” em homenagem a Rubem Braga, com quem eu e Paulo Peres trabalhamos alguns anos, na revista Nacional.  Na época, Braga era o rei dos cronistas, mas também fazia versos geniais, como em “Ao Espelho”, quando acordou de ressaca e se sentiu não apenas “envelhecido”, mas também “envilecido”, que é justamente o caso de Lula. (C.N.)