
Flávio tenta diminuir proximidade com Ciro Nogueira
Pedro do Coutto
A política raramente oferece terreno firme. Em períodos eleitorais, então, alianças mudam rapidamente, antigos parceiros se tornam pesos incômodos e fatos inesperados podem alterar estratégias cuidadosamente planejadas. O cenário atual brasileiro parece confirmar essa lógica de maneira contundente. A movimentação do senador Flávio Bolsonaro, apontado como possível presidenciável do PL para 2026, revela exatamente esse ambiente de instabilidade.
Nos bastidores de Brasília, tornou-se perceptível um esforço para reduzir a proximidade política com o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas. O motivo é evidente: as investigações envolvendo operações financeiras ligadas ao Banco Master e suspeitas levantadas pela Polícia Federal criaram um ambiente tóxico para qualquer projeto eleitoral que dependa do discurso anticorrupção.
DESGASTE MORAL – Na política moderna, sobretudo em tempos de redes sociais e exposição permanente, desgaste moral produz efeitos imediatos. Não importa apenas a existência de culpa comprovada ou condenação judicial. A percepção pública passou a ter peso devastador. Quando um aliado estratégico se transforma em personagem frequente de manchetes negativas, o custo político se torna elevado demais.
É justamente esse cálculo que parece orientar setores do bolsonarismo neste momento. Durante anos, Ciro Nogueira foi peça importante na sustentação política do governo de Jair Bolsonaro. Experiente articulador do Centrão, ajudou a construir pontes institucionais fundamentais para a sobrevivência do governo no Congresso.
Entretanto, em um ambiente eleitoral polarizado, qualquer associação com suspeitas de corrupção pode corroer narrativas construídas com dificuldade ao longo dos últimos anos. O bolsonarismo sabe que sua força eleitoral depende, em grande medida, da preservação de uma imagem ligada à defesa da moralidade pública e do combate aos privilégios do sistema político tradicional. Quando aparecem investigações envolvendo personagens centrais desse campo político, abre-se uma fissura delicada na narrativa.
REFLEXOS – A oposição certamente explorará esse desgaste nas eleições de outubro. E não apenas por razões eleitorais naturais, mas porque a corrupção continua sendo um tema altamente sensível para o eleitor brasileiro. Escândalos financeiros produzem indignação transversal, atingindo desde eleitores conservadores até setores mais moderados da sociedade.
Enquanto isso, o presidente Lula da Silva tenta ocupar outro espaço político: o da projeção internacional. O recente encontro com Donald Trump na Casa Branca teve forte simbolismo diplomático e repercussão global. Para Lula, a reunião serviu como demonstração de relevância internacional em um momento de instabilidade geopolítica crescente. Para Trump, o encontro também representou oportunidade estratégica em meio às tensões internacionais que cercam sua política externa.
Mas o contexto americano é extremamente delicado. O avanço da crise envolvendo o Irã e o risco de ampliação do conflito no Oriente Médio começam a produzir impactos internos nos Estados Unidos, especialmente no aumento do preço dos combustíveis e na insegurança econômica. Em sociedades altamente dependentes de energia, guerras externas rapidamente se transformam em problemas domésticos.
TRAUMA DO VIETNÃ – Além disso, existe um fator emocional profundo na memória coletiva americana: o trauma do Vietnã. A simples possibilidade de um envolvimento militar mais amplo desperta temores históricos em parte significativa da população. Famílias americanas ainda associam guerras prolongadas a perdas humanas, desgaste político e erosão da imagem internacional dos Estados Unidos.
A lembrança da derrota no Vietnã permanece viva justamente porque simboliza os limites do poder militar diante de conflitos complexos e prolongados. O receio atual é que o Oriente Médio se transforme novamente em um cenário de desgaste contínuo, capaz de consumir recursos financeiros gigantescos e produzir consequências imprevisíveis.
Nesse contexto, o Estreito de Ormuz talvez represente hoje um dos pontos mais sensíveis do planeta. Qualquer instabilidade naquela região pode comprometer o fluxo mundial de petróleo e provocar impactos econômicos em escala global. Não se trata apenas de um conflito regional entre Irã e Israel, mas de uma disputa com potencial de envolver grandes potências e alterar o equilíbrio internacional.
ATORES – Ao redor desse tabuleiro estão atores explosivos: Estados Unidos, Israel, Hezbollah, além da permanente tensão envolvendo a Coreia do Norte. Qualquer erro de cálculo pode ampliar dramaticamente o conflito.
No fim das contas, política e guerra continuam ligadas por uma lógica brutal de poder. A diferença é que, na democracia, a disputa deveria ocorrer sem destruição física, sem mortes e sem cidades arrasadas. Quando conflitos escapam do campo político e se transformam em confrontos armados, o custo humano se torna irreparável.
TURBULÊNCIAS – O Brasil observa esse cenário em meio às suas próprias turbulências internas. De um lado, disputas judiciais e escândalos políticos moldam o ambiente eleitoral. De outro, crises internacionais ameaçam impactar diretamente a economia, os combustíveis e a estabilidade global.
Num tempo marcado por polarização, investigações, guerras e incertezas econômicas, a única certeza parece ser a imprevisibilidade. E talvez seja justamente essa a essência mais permanente da política: a capacidade de surpreender até aqueles que acreditam controlar o jogo.
O Brasil escolheu o atraso
Décadas de baixo crescimento econômico refletem decisões erradas, falta de reformas estruturantes e preponderância de interesses políticos
O Brasil, há décadas, cresce em movimentos espasmódicos e sempre aquém de seu potencial.
Logo, seria de esperar que, em ano eleitoral, os candidatos à Presidência apresentassem à sociedade: como tirar o País do atoleiro?
Não é isso o que se vê, obviamente – e os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) expõem a dimensão da omissão.
Entre 1980 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita global cresceu 675%, enquanto no Brasil, no mesmo período, a alta do PIB foi de 428%. Essa disparidade, longe de ser trivial, é o retrato mais bem acabado de uma deliberada opção pelo atraso.
Desde 2015, o rendimento médio global supera o brasileiro, um marco que, não por coincidência, está atrelado à profunda recessão do biênio 2015-2016, quando a economia brasileira encolheu mais de 3% ao ano sob os desatinos do governo Dilma. Se não criou o problema, aquela crise o escancarou com tintas que mantêm seus matizes até hoje.
De forma complementar, um estudo do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, com base na Penn World Table, um banco de dados econômicos da Universidade de Groningen (Holanda), indica que o PIB per capita do País poderia ser hoje 42% maior se o Brasil tivesse acompanhado o ritmo de crescimento de economias como as da Coreia do Sul, Botsuana e Romênia, que saíram de patamares semelhantes aos do Brasil na década de 1980.
“Dos anos 1980 até o Plano Real, foram quase 15 anos de crise profunda. De partida, já perdemos todos esses anos”, afirmou Vale. Desde então, o País só faz “correr atrás do prejuízo”, como disse o economista, sem jamais ter encontrado o caminho do crescimento sustentável.
As causas desse desempenho medíocre são sobejamente conhecidas. A produtividade é baixíssima em comparação com economias mais desenvolvidas, a educação falha reiteradamente em formar capital humano competitivo, o ambiente de negócios é hostil por sua enlouquecedora complexidade normativa, e o sistema tributário, um “manicômio” que a reforma tributária mal começou a resolver.
O Estado é inchado, perdulário e ineficiente. O Orçamento da União é engessado. Os investimentos, quando existem, são insuficientes. A infraestrutura é deficiente e incapaz de dotar o Brasil das condições para crescer em toda a sua plenitude. O desenvolvimento industrial e a inovação tecnológica são questões laterais, tímidas.
Some-se a todos esses problemas a eterna instabilidade macroeconômica, frequentemente agravada por decisões políticas orientadas por interesses imediatistas, não raro eleitoreiros.
Nada disso, contudo, está no centro do debate eleitoral. (…).
E assim patina o País. (…) Eleição após eleição, prevalece o cálculo imediato, enquanto as grandes reformas capazes de sustentar o crescimento do Brasil ficam sempre para depois, sabe-se lá quando.
O resultado aí está. Um país que avançou menos do que poderia e menos até do que nações como Botsuana, Coreia do Sul e Romênia.
A advertência de Nelson Rodrigues, segundo a qual “o subdesenvolvimento não se improvisa”, segue viva. O Brasil precisa decidir se continuará ignorando-a.
O Estado de S. Paulo, Opinião, 10/05/2026 | 03h00 Por Editorial
Flávio pode tentar, mas não conseguirá se deslocar de Ciro Nogueira, que foi o todo poderoso Chefe da Casa Civil de Bolsonaro, uma espécie de Primeiro Ministro do Rei da Inglaterra, quer dizer o seu Jair, mais preocupado com motociatas, o cercadinho do Planalto e discursos contra as Urnas.
O próprio Flávio elogiou o senador Ciro Nogueira pela lealdade canina ao papai Jair. Portanto, Ciro Nogueira o Poderoso Chefão do Centrão sempre foi unha e carne do Bolsonarismo.
Largar Ciro Nogueira ao sol e ao sereno, nesse momento de dificuldade, só atesta a fama dos Bolsonaros, de abandonar seus feridos no campo de batalha, sangrando até a morte.