Eduardo muda versão e admite investimento no filme sobre Jair Bolsonaro

Produção de “Dark Horse” está repleta de indagações

Deu no Estadão

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro mudou a versão sobre sua participação no financiamento do filme “Dark Horse”, que retrata a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Seu irmão, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, pediu recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para a produção cinematográfica.

Num vídeo publicado nas redes sociais, o deputado admitiu ter investido R$ 350 mil (cerca de 50 mil dólares) no longa, provenientes da receita obtida com a venda de um curso, e que posteriormente recebeu de volta essa quantia. Eduardo Bolsonaro não esclareceu como e quem lhe pagou a restituição dos valores inicialmente destinados ao projeto.

PRODUTOR-EXECUTIVO – Ele também reconheceu ter constado como produtor-executivo num contrato antigo com a produtora responsável pelo filme, posição da qual teria saído posteriormente, ao se mudar para os Estados Unidos, limitando-se a ceder os direitos autorais — uma vez que foi representado por um ator no longa.

Na quinta-feira, 14, ele negou ter aplicado dinheiro no projeto. “Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem”, declarou, numa nota nas redes sociais, omitindo que já figurara como produtor-executivo e investira dinheiro do filme.

O aporte foi feito, segundo ele, para garantir um contrato com o diretor de Hollywood Cyrus Nowrasteh, para que este pudesse elaborar o roteiro e dar início ao projeto. O contrato permitiu manter o diretor por dois anos, segundo Eduardo. “Próximo ao final do contrato, e diante da possibilidade de perder o diretor, surgiu a oportunidade de atrair um grande investidor, que posteriormente se consolidou em um grupo de investidores”, afirmou o ex-deputado.

VERSÃO – A nova explicação foi dada após o site Intercept publicar nesta sexta-feira, 15, que Eduardo atuou como produtor-executivo do filme. Também respondeu a reportagens, como a do Estadão, mostrando que a Polícia Federal vai investigar se o dinheiro do banco Master foi usado para custear a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.

O site já tinha publicado na quarta-feira que o irmão dele, o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pediu 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores da época) a Vorcaro para financiar a produção do filme. Desse montante, o banqueiro teria pago 10,6 milhões de dólares (R$ 61 milhões) entre fevereiro e maio de 2025.

“PERSEGUIÇÃO” – Nesta sexta-feira, 15, Eduardo disse que, diante do que chama de “perseguição sofrida no Brasil”, ele e os outros produtores escolheram levar a estrutura de captação do filme para os Estados Unidos. Parte do dinheiro pedido por Flávio a Vorcaro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações (que atuava em parceria com empresas de Vorcaro) para o Havengate Development Fund LP (sediado no Texas). O fundo tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo.

“Quem fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro ou deste fundo que foi criado nos Estados Unidos está mentindo para você. Eu recebi o dinheiro de volta, por conta do contrato com a produtora, mas isso não passou pelo fundo. Eu recebi o dinheiro que era meu, e acho até que nem foi corrigido o que era meu. 100% do risco. 50 mil dólares para mim faz falta”, declarou.

Até então, Eduardo vinha compartilhando notas publicadas pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do longa, e da GO UP Entertainment, produtora do filme no Brasil, segundo as quais “não houve nenhum centavo” de Vorcaro no filme. No seu perfil do X, Eduardo postou na noite de quinta-feira, uma nota com sete pontos em que garante não ter ligação com dinheiro de Vorcaro.

ÍNTEGRA DA PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DE EDUARDO BOLSONARO:

1- A história que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca. Meu status migratório não permitiria, se isso tivesse acontecido o próprio governo americano me puniria. No meu processo migratório expliquei às autoridades americanas toda a origem dos meus recursos e não tive qualquer problema, porque aqui não vigora um regime de exceção. Não exerci qualquer posição de gestão ou emprego no fundo, apenas cedi meus direitos de imagem.

2- Falam do advogado que cuidou de todos os detalhes como se ele fosse um mero escritório de migração, não é. O advogado tem mais de 40 anos de experiência, mestrado e doutorado. Seu escritório atua em gestão de patrimônio e fundo de investimento há mais de uma década. A parte de migração é apenas um departamento deles, devido a necessidade de clientes de alto nível migrar o capital e residência para o local de seus investimentos.

3- Nós não somos donos do filme, mas sim os mais de uma dezena de investidores. O escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos. Apresentei ele ao Mário, que estava procurando investidores para o filme, por saber da sua competência. Gostariam que apresentassem advogados petistas e que não conheço?

4- O filme não é um produto inexistente ou um serviço fake de advocacia, é um produto real com grandes estrelas.

5- Todos os investimentos foram feitos nos EUA porque a produção foi americana, com atores americanos. Além do mais, devido ao estado de exceção, ninguém se arriscaria investir num filme do Bolsonaro no Brasil, pois seria devidamente perseguido pelo regime e atrelado como financiador de golpe, como faziam. Investimento nos EUA garantem segurança jurídica em uma jurisdição séria.

6- que tipo de vantagem nossa família poderia dar na época além de perseguição da tirania? Meu pai preso, eu exilado e meu irmão sequer sonhava em ser candidato? Vocês tentam sugerir que havia interesse outro, qual interesse poderia existir em uma época em que todos nos consideravam liqüidados

7 – Tudo não passa de uma tentativa tosca de assassinato de reputação, que tenta atrelar ilicitude em patrocínio para um filme.

3 thoughts on “Eduardo muda versão e admite investimento no filme sobre Jair Bolsonaro

  1. Está muito interessante o assunto.

    1 – Ver os bolsonaristas defendendo o que pode ser um neo-patrimonialismo, gênero que tem como uma das espécies a neo-corrupção.

    Pergunta: qual é o grau do “combate da corrupção” do filho no seu nível de intenção de voto, face ao pai que, embora não movendo uma palha pra demovê-la das estruturas do Estado, fora eleito sentado neste tema? O bolsonarismo recorrerá ao mote a là PT do neo-patrimonialismo do bem?

    2 – Ver a reação dos oligarcas petistas descondenados, deixando o quebra pau por conta do baixo clero.

    Pergunta: no caso de a corrupção voltar ao cenário eleitoral, não seria Lula um saci pererê incapacitado de chutar o bolão levantado pelas capitanias hereditárias bolsonaristas?

  2. Desenvolvi, em minha quase uma dácada de estudo do Aparato Petista o conceito de mais valia absolutíssima, que explica, inclusive pra centro e direita, como é operado a exploração do Estado por líderes e grupos políticos.

    A mais-valia absolutíssima, na formulação aqui adotada, descreve um modo de extração contínua pelo qual o Aparato Petista torna a sociedade fonte ampliada de excedentes. Trata-se de um processo que beneficia as oligarquias estatais, econômicas, intelectuais, sociais, midiáticas e culturais que orbitam o Aparato e que, ao longo dos anos, encontraram nos aparelhos burocráticos, ideológicos e repressivos do Estado uma via para preservar vantagens. A extração opera de maneira tão instalada na rotina nacional que raramente se apresenta como ruptura: assume antes o aspecto de continuidade, hábito, engrenagem silenciosa que se naturalizou no funcionamento institucional da vida pública. Assim, apropria-se muito enquanto se dá a impressão de apenas administrar a ordem existente.

    O valor econômico manifesta-se principalmente na capacidade de orientar fluxos de recursos dentro dos próprios limites do ordenamento jurídico e institucional. Em vez de depender de ações abertas ou excepcionais, esse valor se forma na interpretação de normas, na prioridade conferida a determinados programas, no modo como critérios técnicos são aplicados, na seleção de procedimentos que definem quem acessa determinados incentivos e na disposição interna de estruturas que, ao longo do tempo, favorecem certos atores em detrimento de outros. Trata-se de uma dinâmica cumulativa, baseada em escolhas administrativas perfeitamente enquadradas na rotina estatal, mas que, somadas, produzem vantagens que alimentam as oligarquias associadas ao Aparato. Esse mecanismo não opera pela via de rupturas e ações abruptas, e sim pela via da continuidade — pela maneira como políticas e regulamentos, uma vez estabelecidos, passam a moldar oportunidades.

    O valor político emerge da capacidade de concentrar fidelidades ao longo de múltiplas instituições brasileiras — da burocracia estatal, conselhos profissionais, organizações sindicais, estudantis a ONGs. Lealdades se firmam por meio de reciprocidades duradouras: convites, proteções, apoios oportunos, facilidades administrativas, articulações discretas que renovam, ano após ano, a dependência dos envolvidos. Esse valor se fortalece não pela força de discursos, mas pela solidez das relações que se sedimentam e que, com o tempo, passam a ser percebidas como naturais.

    O valor simbólico resulta de posições estratégicas ocupadas em espaços de produção intelectual, midiática, cultural e técnica. Pesquisadores, especialistas, formadores de opinião e agentes culturais, atuando em instituições de alcance nacional, estabelecem enquadramentos interpretativos que conferem autoridade a determinadas leituras da realidade. Isso ocorre por meio de seleções sutis de temas, preferências teóricas que orientam carreiras e julgamentos de mérito que, sem anunciar motivação partidária, reforçam o prestígio de figuras associadas ao Aparato. Dessa forma, a extração simbólica se converte em capital intelectual que legitima e protege as oligarquias vinculadas a esse sistema de poder.

    O valor social surge na habilidade de administrar expectativas, gerir tensões e orientar reivindicações de segmentos organizados da sociedade — profissionais, acadêmicos, trabalhistas, estudantis, culturais e comunitários — sem precisar se apresentar como autoridade formal desses grupos. Ao se colocar como intermediário confiável em disputas e negociações, o Aparato obtém não só apoio, mas também dependência. A influência nasce dessa capacidade de se tornar indispensável, mesmo quando atua nos bastidores, retirando benefícios de cada nova interação.

    O valor administrativo e financeiro provém do domínio fino das rotinas burocráticas que atravessam a vida pública. Quem controla fluxos de documentação, ritmos de aprovação, critérios técnicos, prioridades de análise, composição de comissões e calendários internos, controla também a distribuição de oportunidades. Pareceres, liberações, ajustes de cronogramas, revisões de procedimentos e interpretações de normas tornam-se instrumentos discretos de poder, utilizados para consolidar posições das oligarquias associadas ao Aparato.

    O valor institucional aparece na permanência que o Aparato atinge em órgãos públicos, entidades nacionais, setores universitários, conselhos e estruturas culturais que se renovam sem se alterar substantivamente. Essa continuidade faz com que a extração de excedentes deixe de parecer um movimento político e passe a ser uma característica estrutural do funcionamento institucional do país. A presença do Aparato, com o tempo, deixa de ser percebida como força externa e se integra ao próprio modo como as instituições brasileiras operam.

  3. A expropriação do excedente produzido pela sociedade pelos políticos e oligarquias patrimonialistas via privatização do Estado não é só econômica (corrupção clássica), ela se dá em vários níveis
    • Valor político: construção de lealdades e redes de dependência em instituições e organizações.
    • Valor simbólico: influência na mídia, academia e cultura para legitimar o sistema.
    • Valor social: mediação de demandas, tornando o aparato indispensável.
    • Valor administrativo-financeiro: controle da burocracia para favorecer determinados atores.
    • Valor institucional: permanência dessas práticas nas estruturas do Estado, como algo naturalizado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *